A Água das Ilhas Maravilhosas - A Quinta Parte: O Conto do Fim da Busca - Capítulo XI Birdalone e o Escudeiro Negro conversam no Salão do Castelo

A Água das Ilhas Maravilhosas


Por William Morris


A Quinta Parte: O Conto do Fim da Busca


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[350]Capítulo XI Birdalone e o Escudeiro Negro conversam no Salão do Castelo


Agora, dentro de uns poucos dias, o corpo de Baudoin estava deitado na terra na capela do castelo; e na mais solenes das maneiras o sepultamento foi realizado. Quando ele estava terminado, os dois cavaleiros e sir Aymeris desviaram-se de todo o coração para organizar a guerra contra o Domínio Vermelho, e menos de um mês depois havia as tropas no Castelo da Busca, e se a tropa não era de muitos (pois não foi de mais do que de mil e seiscentos homens, todos contados), contudo, os homens eram os melhores, tanto de cavaleiros quanto de sargentos e arqueiros. Ali então eles realizaram uma reunião do lado de fora do castelo, enquanto que Arthur, o Escudeiro Negro, foi escolhido para capitão, e em três dias eles deviam partir para o Domínio Vermelho.

Agora, durante esse tempo, Birdalone tinha visto pouco de Arthur, quem sempre estava ocupado com muitas questões, e ela nunca tinha tido nenhuma conversa privada com ele, embora intensamente ela ansiasse por isso; contudo, de fato, isso era mais pela vontade dela do que a dele que assim era. Mas quando tinha chegado exatamente o último dia antes da partida, ela disse que tinha de o ver antes que ele fosse, e ele talvez nunca retornasse. Assim, quando os homens estavam quietos depois do jantar, ela entrou no salão e encontrou-o lá, caminhando a passo para cima e para baixo. Pois de fato ela tinha enviado uma mensagem para ele por Leonard, o sacerdote, para que ele devesse estar lá.

Dessa maneira, ela foi até ele e, pegou-o de forma completamente simples [351]pela mão, e conduziu-o para uma janela de tiro e sentou-o perto dela; e ele, todo tremendo de amor e medo dela, não conseguiu se reprimir, mas beijou a face dela e a boca dela muitas vezes; e ela tornou-se tão quente quanto o fogo e chorou um pouco.

Então, após um tempo, ela falou: ‘Querido amigo, eu tinha em minha mente dizer-te muitas coisas que me parecem eram sábias, mas agora nem surgirá o pensamento delas em minha mente nem as palavras em minha boca. E este é um momento breve.’ E com isso ela começou a beijá-lo, até que ele estava bem além de si mesmo, entre desejo e alegria e o pesar da partida, e a dureza do caso.

Mas finalmente ela reprimiu-se e disse: ‘Quando tu tiveres ido amanhã, não será como foi quando vós estivestes longe na Busca, e eu não sabia como suportar a mim mesma, tão pesado todo o mundo e os seus feitos e o seu costume estendiam-se sobre mim?’ ‘Será difícil para mim,’ ele disse; ‘malignos e sombrios serão os dias.’ Ela disse: ‘E contudo, mesmo agora, nesses últimos dias, quando eu te vejo frequentemente, cada dia minha alma fica cansada com pesar, e eu não sei o que fazer comigo mesma.’ ‘Eu devo retornar,’ ele disse, ‘e portar meu amor comigo, e então, talvez, nós devamos buscar algum remédio.’ Ela ficou silente por um tempo, e então disse: ‘No intervalo até tua chegada, e eu não te veja de qualquer maneira por muitos dias, como será com meu pesar então?’ Respondeu ele: ‘Mas do que bastante de pesar nenhuma alma pode suportar; pois ou morte chega ou senão algum embotamento da dor, então, pouco a pouco, a dor esgota-se.’ Então ela disse: ‘E como seria se tu não voltares e eu não te vir nunca mais, ou se quando [352]tu retornares tu não me encontrares, porque eu estou ou morta ou desaparecida para fora do teu alcance?’ Ele disse: ‘Eu não sei como seria. Quando tu dizes que tu deverás morrer, tu acreditas inteiramente nisso no seu sentido ou teu corpo de outro maneira que a Santa Igreja acreditaria?’ ‘Eu te contarei,’ ela disse, ‘que agora eu estou sentada ao teu lado e vendo teu rosto e ouvindo tua voz, é isso unicamente no que eu acredito; pois eu não posso pensar em nada mais, quer de pesar, quer de alegria. Sim, quando eu choro mesmo agora, não foi por sofrimento que eu chorei, mas eu não posso dizer corretamente pelo quê.’ E ela segurou a mão dela e olhou afetuosamente para ele.

Mas logo ela olhou observou a mão dele e disse: ‘E agora me parece que nós dois nos tornamos amigos tão próximos que eu posso te perguntar o que eu desejar, e tu não fiques nem irado, nem surpreendido com isso. Eu vejo em teu dedo aqui o anel que eu trouxe comigo da Ilha do Aumento, e que depois disso tu recebeste de mim quando eu também te devolvi o calçado que me foi emprestado. Diz-me como tu o recebeste de volta de Atra, visto que eu suponho que tu o deste para ela. Mas como agora! Tu estás irado? Pois eu vejo que o sangue te subiu à cabeça.’ ‘Não, amada,’ disse ele, ‘eu não estou irado, mas quando eu ouço sobre Atra, ou penso nela cautelosamente, vergonha vem sobre mim e confusão, e talvez medo. Mas agora eu te responderei. Pois mesmo naquelas horas que nós consumimos na Ilha do Jovem e do Velho, quando todos nós deveríamos ter ficado tão felizes juntos, ela adivinhou um pouco da minha situação, ou, de fato, porque eu não digo isso, tudo dela. E ela disse-me palavras tão fortes (pois é igualmente tenra e sabia, [353]e forte de coração) que eu me encolhi diante dela e da tristeza e dor dela; e ela devolveu-me o dito anel, o qual verdadeiramente eu dei a ela no Bote de Expedição na primeira hora que a Ilha do Aumento estendia-se à nossa popa. E eu uso-o agora como um símbolo da minha tristeza pela tristeza dela. Vê agora, amor, uma vez que eu te respondi essa questão sem ira ou surpresa, tu não necessitas temer perguntar-me nenhuma outra; pois, de todas as coisas, isso jaz mais perto do meu coração.’

Birdalone pendeu a cabeça e falou em uma voz baixa: ‘Oh agora! A sombra da partida e a sombra da morte não poderiam surgir em meio à nossa presente alegria; mas essa sombra do terceiro surge entre nós e está presente entre nós. Aí de mim! Quão pouco eu pensei nisso quando tu estavas longe e eu estava doente de anseio pela vista de ti, e considerava que isso curaria tudo.’

Ele não falou, apenas pegou a mão dela e segurou-a; e logo ela olhou para cima novamente e disse: ‘Tu és bom, e não ficarás irado se eu perguntar-te alguma outra coisa; é isto: Por que tu foste tão sombrio comigo naquele outro dia quando vós me encontrastes naquela situação maligna levada a reboque pelo Tirano Vermelho, de modo que eu considerei que tu, dentre todos os outros, abandonaste-me? Aquilo foi pior para mim do que as marcas de açoite da bruxa, eu continuei pensando para mim mesma: Quão simples a minha dificuldade uma vez foi, e agora quão emaranhada e cansada!’

Então, ele não pode se reprimir, apenas lançou-se sobre ela e beijou-a, tudo que ele podia, e ela sentiu toda a doçura de amor, e não carecia em nada de carinho e amor para ele. E depois disso eles se sentaram quietos por um tempo, e ele disse, [354]como se a questão dela apenas naquele momento tivesse deixado os lábios dela: ‘Esta, verdadeiramente, foi a causa que eu pareci sombrio para ti: primeiro, desde o tempo em que eu primeiro te vi e ouvi teu conto, e dos teus feitos, eu tinha te considerado sábia acima da sabedoria das mulheres. Mas aquilo acontecendo contigo no Vale Negro, do que veio a morte de Baudoin, pareceu-me uma mera loucura, até que, novamente, eu tinha ouvido o teu conto disso também; e então o conto e o teu discurso sobrepujaram-me. Mas novamente, embora eu ficasse entristecido e desapontado com isso, talvez isso tenha passado de mim rapidamente, mas também havia isso que não deixaria minha alma descansar, a saber, que eu temi sobre o cavaleiro morto cuja cabeça o Vermelho tinha pendurado ao redor do teu pescoço; pois senão como, eu pensei, poderia ele ter ficado tão irado com ele e contigo; e além disso, pareceu que tu eras amável em teu coração com o homem morto, mesmo quando nós tínhamos chegado a ti; e então, vês tu, meu desejo por ti e a dificuldade da morte de Baudoin, e o problema do negro supracitado. Oh agora, eu contei-te isso. Quando tu cessarás de ficar irada comigo?’

Ela disse: ‘Eu cessei de ficar triste com tua ira quando tua ira morreu; contudo, parece-me estranho que tu devas confiar em mim tão pouco quando tu me amas tanto.’

E ela inclinou-se sobre ele e acariciou-o gentilmente, e novamente ele estava prestes a tomá-la em seus braços quando, ai de mim!, o som de homens de chegando até o biombo do salão; então aqueles dois se colocaram de pé e foram encontrá-los, e aí a fala da separação deles foi realizada. Contudo, talvez por pouco tempo os dois daquele par foram felizes.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 350-354. Disponível em: <https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/350/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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