Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
II No Depósito de Lã
[7]Finalmente a tosquia chegou; e com os tosquiadores havia um velho nativo, a quem eles tinham apelidado de Chowbok – embora, eu acredito, o nome real dele fosse Kahabuka. Ele era um tipo de chefe dos nativos, conseguia falar um pouco de inglês, e era um grande favorito dos missionários. Ele não fazia nenhum trabalho regular com os pastores, mas pretendia ajudar nos quintais, o seu objetivo real sendo obter o grogue, o qual é sempre mais livremente circulado no tempo de tosquia: ele não conseguia muito, pois ele era inclinado a ficar perigoso quando bêbado; e muito pouco ele realizaria dessa maneira: ainda assim, ele ocasionalmente o conseguia, e se alguém desejava conseguir alguma coisa dele, esse era o melhor suborno para oferecer a ele. Eu resolvi questioná-lo, e obter tanta informação dele quando eu poderia. Assim eu fiz. Enquanto eu mantive as questões nas cordilheiras mais próximas, ele teve facilidade lidar – ele nunca tinha estado lá, mas havia tradições na tribo dele para o efeito de que não havia região de ovelhas, nada, de fato, apenas madeira atrofiada e umas poucas planícies de leitos de rio. Era muito difícil de alcançar; ainda assim, havia passagens: uma delas no nosso próprio rio acima, embora não diretamente ao longo do leito do rio, o desfiladeiro do qual não era viável; ele nunca tinha visto ninguém que tinha estado lá: não havia o suficiente deste lado? Mas quando eu cheguei à cordilheira principal, as maneiras dele mudaram de uma vez. Ele ficou inquieto e começou a tergiversar e vacilar. Em muitos poucos minutos, eu pude ver que, sobre isso, também havia tradições na tribo dele; mas nenhum esforço ou persuasão conseguia obter uma palavra sobre elas. Por fim, eu insinuei o grogue, e logo ele simulou consentimento: eu dei-o a ele; mas, tão logo ele tinha bebido, ele começou a fingir intoxicação e, sem seguida, foi dormir, ou pretendeu fazê-lo, deixando-me chutá-lo muito forte e nunca se movendo.
Eu fiquei irado, pois eu tive de seguir sem o meu próprio grogue e não tinha conseguido nada dele; assim, no dia seguinte, eu determinei que ele deveria dizer-me antes que eu desse a ele qualquer um, ou não conseguiria nenhum.
[8]Portanto, quando a noite chegou e os tosquiadores tinham parado o trabalho e ceado, eu peguei minha porção de rum em um copo de lata e fiz um sinal para Chowbok seguir-me até o depósito de lã, o que ele fez de bom grado, deslizando atrás de mim, e ninguém prestando atenção em nenhum de nós. Quando descemos ao depósito de lã, nós acendemos uma vela de sebo, tendo colocado-a em uma velha garrafa, nós nos sentamos em fardos de lã e começamos a fumar. Um depósito de lã é um lugar espaçoso, um pouco construído sobre o mesmo plano de uma catedral, com coxias de cada lado cheias de baias para as ovelhas, uma grande nave, na parte superior da qual os tosquiadores trabalham e um espaço adicional, para escolhedores e enfardadores de lã. Ele sempre me revigorava com uma semelhança de antiguidade (preciosa em um novo país), embora eu soubesse muito bem que o mais antigo depósito de lã no povoado não tivesse mais de sete anos, enquanto que este não tinha mais do que dois. Chowbok pretendeu esperar o seu grogue imediatamente, embora nós dois soubéssemos muitos bem que a oferta era outra, e que cada um de nós devia jogar contra o outro, um pelo grogue, o outro pela informação.
Nós tivemos uma luta difícil: por mais de duas horas ele tentou dissuadir-me com mentiras que não transmitiam nenhuma convicção; durante o tempo todo nós tínhamos estado em luta livre um com o outro e, aparentemente, nenhum de nós obteve a menor vantagem; contudo, extensamente eu tinha me tornado seguro de que ele, por fim, desistiria, e que, com um pouco mais paciência, eu deveria obter a história dele. Como em um gélido dia de inverno, quando alguém batia manteiga (como frequentemente eu tive de fazer), e batia em vão, e a manteiga não dá sinais de chegar, finalmente alguém diz que, pelo som, o creme foi dormir, e, em seguida, subitamente, a manteiga surge, assim eu tinha batido Chowbok, até que eu percebi que, por assim dizer, ele tinha chegado ao estágio sonolento, e que, com a continuidade da quieta pressão firme o dia era meu. De repente, sem uma palavra de aviso, ele rolou sobre dois fardos de lã (o peso dele era muito grande) [9]até o meio do chão e, no topo desses, ele colocou outro transversalmente; ele agarrou um pacote vazio de lã, jogou-o como um manto sobre os ombros, pulou para o fardo mais elevado e sentou-se sobre ele. Em um momento, toda a sua forma tinha mudado. Seu elevados ombros caíram; ele colocou os pés juntos, calcanhar a calcanhar e dedo a dedo; ele estendeu os braços e mãos perto ao longo do corpo, as palmas seguindo as coxas; ele manteve a cabeça alta, mas bastante reta, os olhos dele encaravam-me diretamente; ele franziu horrivelmente a testa, e assumiu uma expressão de rosto que era positivamente diabólica. Nos melhores momentos, Chowbok era muito feio, mas agora ele excedia todos os limites concebíveis do hediondo. A sua boca quase se estendeu de orelha a orelha, arreganhando-se horrivelmente e revelando todos os seus dentes; os olhos dele encaravam, embora eles permanecessem bastante fixos, e a sua testa estava contraída com um carranca muito malevolente.
Eu temo que a minha descrição terá transmitido apenas o lado ridículo da aparência dele; mas o ridículo e o sublime são próximos, e a maldade grotesca do rosto de Chowbok aproximava-se do último, se não o alcançava. Eu tentei ser divertido, mas eu senti um tipo de rastejar nas raízes do meu cabelo e através do meu corpo inteiro, enquanto eu olhava e ponderava sobre o que ele possivelmente intencionava querer dizer. Ele continuou dessa maneira por aproximadamente um minuto, sentando-se reto na vertical, tão rígido quanto uma pedra, e fazendo a sua cara assustadora. Então surgiu dos lábios dele um gemido baixo como o vento, subindo e caindo em graduações infinitamente pequenas até que quase se tornou um grito, a partir do qual diminuiu e desvaneceu; depois disso, ele pulou do fardo para baixo e ergueu os dedos estendidos das duas mãos como alguém que deveria dizer “dez,” embora eu não o entendesse.
Por mim mesmo, eu fiquei de boca aberta de espanto. Rapidamente, Chowbok rolou os fardos para o lugar deles, e permaneceu diante de mim como se em grande temor; o horror estava escrito no rosto dele – bastante involuntariamente, desta vez – como [10] o pânico natural de alguém que tinha cometido um crime horrível contra agentes desconhecidos e super-humanos. Ele acenou com a cabeça e tagarelou, e apontou repetidamente para as montanhas. Ele não tocaria o grogue, mas, após alguns segundos, ele correu através da porta do depósito de lã para a luz da lua; nem ele reapareceu até o dia seguinte na hora do jantar, quando ele apareceu subitamente, parecendo muito acanhado e desprezível em sua civilidade em relação a mim.
Da intenção dele eu não tinha nenhuma concepção. Como eu poderia? Tudo do que eu pude ter certeza era que ele tinha uma ideia que era verdadeira e terrível para ele mesmo. Era suficiente para mim que eu acreditava que ele tinha me dado o melhor que ele tinha e tudo que ele tinha. Isso acendeu mais a minha imaginação do que se ele tivesse me contado histórias inteligíveis consecutivamente por horas. Eu não sabia o que as grandes cordilheiras nevadas poderiam ocultar, mas eu não podia mais duvidar de que seria alguma coisa que valia a pena descobrir.
Eu mantive-me distante de Chowbok pelos próximos poucos dias, e não revelei nenhum desejo de o questionar mais; quando eu falava com ele, eu o chamava de Kahabuka, o que o satisfazia grandemente; ele parecia ter ficado com medo de mim, e agia como alguém que estava sob meu poder. Portanto, tendo decidido que eu começaria a explorar tão logo a tosquia estivesse terminada, eu pensei que seria uma boa coisa levar Chowbok comigo; assim eu disse a ele que eu pretendia ir às cordilheiras mais próximas, prospectando por uns poucos dias, e que ele também devia vir comigo. Eu fiz-lhe promessas de grogue noturno e apresentei as chances de encontrar ouro. Eu não disse nada sobre a cordilheira principal, pois eu sabia que isso o assustaria. Eu o levaria tão alto no nosso rio quanto eu podia, e traçá-lo-ia até a sua fonte, se possível. Nesse momento, eu ou iria por mim mesmo, se eu sentisse minha coragem igual para tentar, ou retornaria com Chowbok. Assim, tão logo a tosquia eterna estava terminada e enviada, eu pedi autorização para partir e obtive. Também, eu trouxe um velho cavalo de carga e albarda, de maneira que eu poderia levar bastante provisões, e cobertores e uma [11]pequena tenda. Eu devia cavalgar e encontrar vaus sobre o rio; Chowbok devia cavalgar e conduzir o cavalo de cargo, o qual também o transportaria através dos vaus. O meu mestre permitiu que eu tivesse chá e açúcar, biscoitos de navio, tabaco e carneiro salgado, com duas ou três garrafas de bom conhaque; pois, como a lã agora enviada para baixo, uma abundância de provisões subiriam com os carros de carga vazios.
Tudo estando pronto agora, todos compareceram à estação para nos ver partir, e nós partimos na nossa jornada, não muito depois do solstício de verão de 1870.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 7-11. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/7/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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