Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
I Terras Incultas
[1]Se o leitor me desculpar, eu não direi nada sobre os meus antecedentes, nem sobre as circunstâncias que me levaram a deixar o meu país nativo; a narrativa seria tediosa para ele e dolorosa para mim. É suficiente que, quando eu deixei a terra natal, foi com a intenção de ir para alguma nova colônia e quer encontrar, quer talvez até comprar, terra inculta da coroa adequada para criação de gado ou ovelha, através do que eu poderia melhorar minha fortuna mais rapidamente do que na Inglaterra.
Será visto que eu não tive sucesso em minha intenção, não obstante muitas eu possa ter encontrado que eram novas e estranhas, eu fui incapaz de colher qualquer vantagem pecuniária.
É verdadeiro, eu imagino que fiz uma descoberta que, se eu puder ser o primeiro a beneficiar-me dela, trazer-me-á uma recompensa além de todo cálculo de dinheiro, e assegurar-me-á uma posição tal como não foi obtida por mais do que quinze ou dezesseis pessoas, desde a criação do universo. Mas para esse fim eu tenho de possuir uma considerável soma de dinheiro: nem eu sei como o obter, exceto interessando ao público na minha história, e induzindo o caridoso a vir adiante e me assistir. Com essa esperança, agora eu publico minhas aventuras; mas eu faço isso com grande relutância, pois temo que se duvidará da minha história a menos que eu conte a inteireza dela; e, contudo, eu não me atrevo a fazê-lo, com medo de outros, com mais meios financeiros do que eu, devam obter a dianteira de mim. Eu prefiro o risco de que se duvide de mim e, portanto, ocultei meu propósito de partir da Inglaterra, como também o ponto a partir do qual eu começo minha jornada mais séria e difícil.
O meu consolo principal jaz no fato de que a verdade comporta a sua própria impressão, e que a minha história transmitirá convicção em razão das evidências internas para a sua precisão. Ninguém que é em si mesmo honesto duvidará de que eu sou assim.
[2]Eu alcancei meu destino em um dos últimos meses de 1868, mas eu não me atrevo a mencionar a estação, com medo de que o leitor deva inferir em qual hemisfério eu estava. A colônia era uma que não tinha estado aberta até para os colonizadores mais aventureiros por mais do que oito ou nove anos, tendo anteriormente estado desabitada, exceto por umas poucas tribos de selvagens quem frequentavam o litoral. A parte conhecida pelos europeus consistia em uma faixa costeira de aproximadamente oitocentas milhas de comprimento (proporcionando três ou quatro bons portos), e uma extensão de região estendendo-se em direção ao interior por um espaço variando entre duzentas e duzentas milhas, até que ela alcançava as ramificações de uma de cordilheira excessivamente alta de montanhas, as quais podiam ser vista desde muito longe sobre as planícies e eram cobertas por neve perpétua. A costa era perfeitamente bem conhecida tanto ao norte quanto ao sul da extensão à qual eu aludi, mas em nenhuma direção havia um porto por quinhentas milhas, e as montanhas, que quase desciam ao mar, eram cobertas por madeira espessa, de maneira que ninguém pensaria em se estabelecer.
Contudo, com esta baía de terra, o caso era diferente. Os portos eram suficientes; a região tinha madeira, mas não demais; era admiravelmente adequada para agricultura; ela também continha muitos milhões de acres da mais bela região gramada no mundo, e da mais adequada para toda forma de ovelha e gado. O clima era temperado e muito saudável; não havia animais selvagens, nem os nativos eram perigosos, sendo poucos em número e de uma tratável disposição inteligente.
Pode ser prontamente entendido que, quando uma vez que os europeus colocaram os pés neste território, eles não foram lentos para tirar vantagem das capacidades dele. Ovelha e gado foram introduzidos, e a criação foi extremamente rápida; homens cultivaram seus 50.000 ou 100.000 acres da região, avançando em direção ao interior, até que, em alguns poucos anos, não havia um acre entre o mar e as cordilheiras da costa que ainda não estivesse cultivado, e ranchos, quer para o gado, quer para ovelhas, estavam [3]espalhados de um lado para o outro em intervalos de algumas vinte ou trinta milhas através do país inteiro. As cordilheiras da costa interromperam a maré de posseiros por algum pouco tempo; considerava-se que havia neve demais sobre elas por igualmente meses demais no ano, - que as ovelhas poderiam se perder, o chão sendo muito difícil para o pastoreio, que a despesa para descer com a lã até os barcos comeria os lucros do criador, e que a grama era dura e azeda demais para as ovelhas vicejarem sobre ela; mas um depois do outro determinou-se a tentar o experimento, e foi maravilhoso quão bem sucedido isso se revelou. Os homens empurraram cada vez mais longe para dentro da cordilheira da costa, entre ela e outra que era ainda mais elevada, embora mesmo essa não fosse a mais alta, a grande nevada que poderia ser vista desde sobre as planícies. Contudo, essa segunda cordilheira parecia marcar os limites da região pastoral; e foi aqui, em um pequeno e recém-fundado rancho, que eu fui recebido como um cadete e, em breve, regularmente empregado. Eu tinha então apenas vinte e dois anos.
Eu fiquei satisfeito com a região e o modo de vida. Era minha ocupação diária subir ao topo de uma certa alta montanha e descer a um dos seus contrafortes, a fim de ter certeza de que nenhuma ovelha tinha cruzado as suas fronteiras. Eu devia ver as ovelhas, não necessariamente perto à mão, nem para as arranjar em um único grupo, mas para as ver aqui e ali para me sentir tranquilo de que nada tinha dado errado; isso não era problema difícil, pois não havia mais do que oitocentas delas; e, sendo todas, ovelhas de reprodução, elas eram bastante quietas.
Havia muitas ovelhas que eu conhecia, como duas ou três ovelhas negras, e um ou dois cordeiros negros, e vários outros que tinham alguma marca distintiva pela qual eu poderia discerni-los. Eu experimentaria e veria todas e, se todas estivessem ali, e o grupo parecesse suficientemente grande, eu poderia ter certeza de que tudo estava bem. É surpreendente quão logo [4]o olho torna-se acostumado com a falta de vinte ovelhas em duas ou três centenas. Eu tinha um telescópio e um cão, e levaria pão e carne e tabaco comigo. Partindo na madrugada, seria noite antes que eu pudesse completar minha volta; pois a montanha sobre a qual eu tinha de ir era muito alta. No inverno, ela ficava coberta por neve, e as ovelhas não necessitavam de vigilância de cima. Se eu devesse ver vezes de ovelhas ou rastros descendo do outro lado da montanha (onde havia um vale com um riacho – um mero cul de sac), eu devia segui-las, e procurar pelas ovelhas; mas eu nunca via uma, as ovelhas sempre descendo para o seu outro lado apropriado, em parte por hábito, em parte pois havia uma abundância de boa comida doce, a qual tinha sido queimada no começo da primavera, exatamente antes que eu chegasse, e agora estava deliciosamente verde e abundante, enquanto que o outro lado nunca tinha sido queimado e era cerrado e grosseiro.
Era uma vida monótona, mas uma muito saudável; e uma que não se importa com nada quando alguém está bem. A região era o maior que pode ser imaginado. Quão frequentemente eu me sentava sobre o lado da montanha e observava os baixos serpenteando, com as duas manchas brancas de cabanas à distância, e o pequeno quadrado de jardim atrás delas; a área de cultivo com um trecho de brilhante aveia verde sobre as cabanas, e os quintais e depósitos de lã reduzidos à planície abaixo; tudo visto como se através do lado errado de um telescópio; tão claro e brilhante era o ar, ou como sobre um modelo ou mapa colossal espalhado sobre mim. Além dos baixos havia uma planície, descendo até um rio de grande tamanho, no lado mais distante do qual havia outras montanhas altas, com a neve do inverno ainda não bastante derretida; rio acima, o qual corria serpenteando em muitos córregos sobre um leito de aproximadamente duas milhas de largura, eu observava a segunda grande cordilheira, e conseguia ver um desfiladeiro estreito para onde o rio se retirava e perdia-se. Eu sabia que havia uma cordilheira ainda mais para trás; mas, exceto por um lugar perto do topo mesmo da minha própria montanha, nenhuma parte dela era visível: contudo, a partir desse ponto, eu via, sempre que [5]não havia nuvens, um único pico encoberto por neve, a muitas milhas de distância, e deveria considerá-lo tão alto quanto qualquer montanha no mundo. Eu nunca deverei esquecer da solidão completa da perspectiva – apenas a pequena propriedade dando sinal de trabalho manual; - a vastidão da montanha e planície, do rio e céu; os maravilhosos efeitos atmosféricos – algumas vezes montanhas negras contra um céu branco, e então novamente, após um inverno frio, montanhas brancas contra um céu escuro – algumas vezes vistas através de intervalos e espirais de nuvens – e algumas vezes, as quais eram as melhores de todas, eu subia a minha montanha em uma névoa e, sem seguida, além do nevoeiro; subindo mais e mais, eu olhava para baixo, sobre um mar de brancura, através do qual atravessariam inumeráveis cumes de montanhas que pareciam ilhas.
Eu estou lá agora, enquanto eu escrevo; eu fantasio que posso ver os baixos, as cabanas, a planícies, o leito de rio – aquele caminho torrentoso de desolação, com o seu rugido distante de águas. Oh, magnífico, magnífico! Tão solitário e tão solene, e nenhum som exceto um cordeiro balindo sobre o lado da montanha, como se o seu pequeno coração esteve quebrando. Então, ali chega alguma velha ovelha magra e seca, com profunda voz rude e aspecto desagradável, trotando de volta desde o pasto sedutor; agora ela examina esta ravina, e agora aquela, e agora ela permanece escutando com a sua cabeça erguida, de modo que ela possa ouvir o lamento distante e obedecê-lo. Ahá! Eles veem-se, e apressam-se um em direção ao outro. Ai de mim! Ambos estão enganados; a ovelha não é a ovelha do cordeiro, eles não são nem parentes nem amáveis um com o outro, e separam-se com frieza. Cada um deve chorar mais alto, e perambular ainda mais distante; possa a sorte estar com eles dois, para que possam encontrar os seus próprios ao anoitecer. Mas isso é mero sonho, e eu tenho de prosseguir.
Eu não conseguia evitar senão especulando o que poderia se estender mais além, rio acima e atrás da segunda cordilheira. Eu não tinha dinheiro, mas, se apenas pudesse encontrar região viável, eu poderia abastecê-la com capital emprestado e considerar-me um homem-feito. [6]Verdadeiro, a cordilheira parecia tão vasta que parecia haver pouca chance de arranjar uma estrada através dela ou sobre ela; mas ninguém ainda a tinha explorado, e é maravilhoso como alguém descobre que pode criar um caminho em todos os tipos de lugares (e mesmo arranjar uma estrada para cavalos de carga), os quais, a partir de uma distância, parecem inacessíveis; o rio era tão grande que ele deve drenar uma região interior – pelo menos eu pensava assim; e embora todos dissessem que seria loucura tentar levar ovelhas mais para o interior, eu sabia que, há apenas três anos, o mesmo clamor tinha sido levantado contra a região na qual o rebanho do meu mestre agora estava transbordando. Eu não conseguia manter esses pensamentos fora da minha cabeça enquanto eu descansava sobre o lado da montanha; eles assombravam-me enquanto eu ia em minhas voltas diárias, e cresciam sobre mim de hora em hora, até que eu decidi que, após a tosquia, eu não mais permaneceria em dúvida, mas selaria o meu cavalo, levaria comigo tanto provisão quanto eu pudesse, e iria e veria por mim mesmo.
Mas além e acima desses pensamentos surgia aquela da grande cordilheira mesma. O que ficava além dela? Ah! Quem poderia dizer? Não havia ninguém no mundo todo que tivesse a menor ideia, salvo aqueles mesmos que estavam do outro lado dela – se, de fato, havia absolutamente qualquer um. Eu poderia ter a esperança de a atravessar? Esse poderia ser o mais alto triunfo que eu poderia esperar; mas ainda era demais para pensar. Eu tentaria a cordilheira mais próxima, e veria quão longe eu conseguiria ir. Mesmo se eu não encontrasse país, eu não poderia encontrar ouro, ou diamantes, ou cobre, ou prata? Algumas vezes eu me deitava para beber de um riacho e conseguia ver pequenos pontos amarelos em meio a areia; eles eram ouro? As pessoas diziam que não; mas então as pessoas sempre diziam que não havia ouro, até ser descoberto ser abundante: havia muito de ardósia e granito, os quais eu sempre tinha entendido acompanharem o ouro; e mesmo se não fosse encontrado aqui em quantidades que dessem lucro, ele poderia ser abundante nas cordilheiras principais. Esses pensamentos enchiam a minha cabeça, e eu não conseguia os banir.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 1-6. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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