A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XXII O Homem Sozinho - Final

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[243]À tarde eu parti, e conduzi-me no mar diante de um gentil vento sudoeste, lentamente, firmemente; e a ilha diminuiu e diminuiu, e a espiral esguia de fumaça diminuiu até uma linha mais fina contra o quente pôr do sol. O oceano subiu ao meu redor, escondendo aquela mancha baixa, escura, dos meus olhos. A luz do dia, a glória arrastada do rol, extinguia-se fluindo do céu, foi puxada de lado como uma cortina luminosa, e, finalmente, eu olhei dentro do golfo azul da imensidade que a luz do sol oculta, e vi as legiões flutuantes das estrelas. O mar estava silencioso, o céu estava silencioso. Eu estava sozinho com a noite e o silêncio.

Assim eu flutuei por três dias, comendo e bebendo frugalmente, meditando sobre tudo que tinha acontecido comigo, - não desejando muito ver novamente os homens. Um pano imundo estava a minha volta, meu cabelo era um emaranhado negro; sem dúvida os meus descobridores consideraram-me um louco.

[244]É estranho, mas eu não sentia vontade de retornar à humanidade. Eu apenas estava feliz de estar livre da impureza do povo-besta. E no terceiro dia eu fui recolhido por uma brigue de Apia para São Francisco. Nem o capitão nem os companheiros acreditariam na minha história, julgando que a solidão e o perigo tinham me tornado louco; e, temendo que a opinião deles pudesse ser a dos outros, eu evitei contar minha aventura novamente, e professei não me lembrar de nada que tinha acontecido a mim entre a perda do “Lady Vain” e o momento em que eu fui recolhido novamente, - o espaço de um ano.

Eu tive de atuar com a circunspecção máxima para salvar a mim mesmo da suspeita de insanidade. Minha memória da Lei, dos dois marinheiros mortos, das emboscadas na escuridão, do corpo no canavial, assombravam-me; e, antinatural como parece, com o meu retorno à humanidade veio, em vez da confiança e simpatia que eu tinha esperado, uma estranha intensificação da incerteza e do temor que eu tinha experienciado durante a minha estada na ilha. Ninguém acreditava em mim; eu era quase tão estranho para o homens quanto eu tinha sido para o povo-besta. Eu posso [245]ter apanhado alguma coisa da selvageria natural dos meus companheiros. Eles dizem que o terror é uma doença, e, de alguma maneira, eu posso testemunhar que, por vários anos agora, um temor inquieto tem habitado em minha mente, - um temor tão inquieto quando um filhote de leão meio domado pode sentir.

Meu problema tomou a forma mais estranha. Eu não conseguia persuadir a mim mesmo de que os homens e mulheres que eu encontrava não era também do povo-besta, animais meio trabalhados na imagem externa de almas humanas, e que logo eles começariam a reverter, - para mostrar primeiro esta marca bestial e então aquela. Mas eu confidenciei o meu caso a um homem estranhamente capaz, um homem que tinha conhecido Moreau, e quase parecia acreditar na minha história; um especialista mental, - e ele tem me ajudado enormemente, embora eu não espere que o terror daquela ilha, alguma vez, deixar-me-á completamente. Na maioria das vezes ele jaz muito no fundo de minha mente, uma mera nuvem distante, uma memória, uma desconfiança fraca; mas há vezes quando a pequena nuvem se espalha até que ela obscurece o céu inteiro. Nessa ocasião, eu olho para meus companheiros homens ao redor; e eu vou com medo. Eu vejo rostos, fortes e brilhantes; outros, aborrecidos ou perigosos; outros, instáveis, insinceros, - [246]nenhum que tenha a autoridade calma de uma alma racional. Eu sinto como se o animal estivesse surgindo através deles; que logo a degradação dos ilhéus será encenada novamente em uma escala maior. Eu sei que isso é uma ilusão; que esses homens e essas mulheres aparentes ao meu redor são, de fato, homens e mulheres, homens e mulheres para sempre, criaturas perfeitamente racionais, cheias de desejos humanos e cuidados tenros, emancipados do instinto e não escravos de nenhuma Lei fantástica, - seres completamente diferentes do povo-besta. Todavia, eu recuo deles, dos seus olhares curiosos, suas inquirições e assistência, e anseio por estar longe deles e sozinho. Por essa razão, eu vivo perto da ampla terra baixa livre, e posso escapar para cá quando esta sombra está sobre minha alma; e então muito doce é a terra baixa vazia, sobre o céu varrido pelo vento.

Quando eu vivi em Londres, o horror era quase insuportável. Eu não conseguia me afastar dos homens; as vozes deles atravessavam as janelas; portas trancadas eram salvaguardas frágeis. Eu sairia para as ruas para lutar com a ilusão, e mulheres rondando miariam atrás de mim; furtivos, homens desejantes olhariam invejosamente para mim; [247]cansados, trabalhadores pálidos caminhariam tossindo perto de mim, com olhos cansados e andar ansioso, como o veado machucado pingando sangue; idosos, curvados e aborrecidos, passam murmurando para si mesmos; e, completamente desatentos, uma cauda esfarrapada de crianças zombando. Em seguida, eu me viraria para alguma capela, - e mesmo lá, tão grande era a minha perturbação, parecia que o pregador falava “Grandes Pensamentos” sem sentido, exatamente como o homem-macaco tinha feito; ou para alguma biblioteca, e ali os rostos atentos sobre os livros pareciam apenas criaturas pacientes esperando por presas. Particularmente repugnantes eram os rostos pálidos, inexpressivos das pessoas em trens e ônibus; eles não pareciam mais minhas criaturas companheiras do que os corpos dos mortos pareceriam, de maneira que eu não me atrevia a viajar, a menos que eu estivesse certo de estar sozinho. E mesmo assim parecia que eu também não era uma criatura razoável, mas apenas um animal atormentado com alguma desordem estranha em seu cérebro, a qual o enviava para errar sozinho, como um ovelha atingida por cenurose.

Contudo, eu agradeço a Deus, esse é um humor que me ocorre muito raramente. Eu retirei-me da confusão das cidades e das multidões, e passo meus dias cercado por [248]livros sábios, - janelas brilhantes nesta nossa vida, iluminadas pelas almas brilhantes dos homens. Eu vejo poucos estranhos e tenho apenas uma pequena casa. Eu dedico meus dias a leitura e experimentos em química, e passo muitas das noites claras no estudo da astronomia. Há – embora eu não saiba como há ou porque há – uma sensação de paz e proteção infinitas nas legiões cintilantes do céu. Tem de haver alguma coisa, eu penso, nas leis vastas e eternas da matéria, e não nos cuidados e pecados e problemas cotidianos dos homens, na qual que o que quer que seja mais animal dentro de nós possa encontrar o seu consolo e a sua esperança. Eu tenho esperança, ou eu não poderia viver.

E assim, em esperança e solidão, minha história termina.


Edward Prendick.


FIM


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 243-248. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/243/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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