[136]Agora Felix estava fora da cidade e sozinho na campina que fazia fronteira com o riacho; ele ajoelhou-se e bebeu a partir dele com a reentrância da mão. Ele estava prestes a subir a colina acolá, e já tinha alcançado a barreira naquele lado, quando se lembrou de que a etiqueta exigia a presença dos convidados em horas de refeição, e que agora era hora do chá. Ele apressou-se de volta e descobriu o pátio [137]do castelo estava lotado. No interior, a escadaria conduzindo à câmara da Baronesa (onde o chá era servido) escassamente podia ser subida, como um resultado das damas e dos seus cortesãos, dos longos séquitos de servas, dos pajens serpenteando seus caminhos para dentro e para fora, dos servos esforçando-se para passar, dos esguios galgos de estimação, os inseparáveis companheiros de suas vítimas.
Gradualmente, e exercitando a paciência, ele chegou ao piso superior e entrou na sala de estar. A Baronesa sentava-se sozinha à mesa, os convidados, onde quer que eles escolhessem, ou onde o acaso os levasse; pela maior parte, eles permaneceram, ou se acostaram no recesso da janela aberta. De chá mesmo, não havia nada; não havia chá a ser tido por amor ou dinheiro nesses cinquenta anos passados, e, de fato, o seu uso teria sido esquecido, e apenas o nome sobrevivido, não houvesse algumas pequenas quantidades ainda sido preservadas e exibidas em raras ocasiões em palácios. Em vez dele, houve chicória preparada a partir da raíz da planta, cultivada para o propósito; leite fresco, boa cerveja e hidromel; e vinho de Gloucester. Manteiga, mel e bolo também estavam sobre a mesa.
Os convidados serviram-se, ou esperaram até que os servos viessem até eles com bandejas de madeira entalhada. A característica particular do chá é a liberdade de restrição; não é considerado necessário sentar-se como no jantar ou ceia, nem fazer como os outros fazem; cada um agrada a si mesmo, e não há cerimônia. Contudo, embora Aurora estivesse tão próxima, Felix não teve sucesso em falar com ela; Durand ainda ocupava a atenção dela sempre que outras damas não estivessem conversando com ela. [138]Felix encontrava-se exatamente como na hora do jantar, bastante fora do círculo. Havia um murmúrio de conversação ao redor, mas nenhuma palavra dela era endereçada a ele. Vestidos roçavam nele, mas as belas proprietárias deles não estavam nem mesmo interessadas em reconhecerem a existência dele.
Empurrado para o lado a partir do centro do piso, pela multidão acotovelando-se, Felix logo se sentou, feliz por finalmente descansar, atrás da porta aberta. Esquecido, ele esqueceu; e, por assim dizer, parecendo fora do presente em um devaneio amargo, escassamente ele sabia onde estava, exceto nos momentos quando ele ouvia a bem-conhecida e amada voz de Aurora. Após um tempo, uma serva veio a ele com uma bandeja; ele aceitou um pouco de mel e pão. Em seguida, quase imediatamente, outra serva veio e presenteou-o com um prato, sobre a qual estava um copo de vinho, dizendo, “Com os desejos amados de minha senhora.”
Como em obrigação de dever, ele levantou-se e curvou-se para Baronesa; ela sorriu e acenou com a cabeça; o círculo, o qual olhara para ver quem era honrado dessa maneira, virou-se novamente para o lado, não o reconhecendo. Enviar a um convidado um prato com vinho ou comida é a mais elevada marca de estima, e esse prato, em especial, era de valor quase sem preço, como Felix percebeu quando sua confusão tinha diminuído. Era da China antiga, [e] agora não devia ser encontrado mesmo nas casas dos grandes.
Em todo aquele reino apenas cinco pratos perfeitos eram conhecidos existir, e dois deles estavam no palácio. Eles eram estimados como relíquias de família, e, se alguma vez quebrados, nunca poderiam ser substituídos. Os fragmentos mesmos são raros; frequentemente, eles são colocados em painéis, e altamente apreciados. A Baronesa, dando uma olhadela [139]em torno de sua corte, finalmente notara o jovem homem sentado no canto obscuro atrás da porta; ela lembrava-se, não sem alguma pontada de consciência, que a casa dele era amiga do coração aliada e jurada.
Ela sabia, muito melhor do que o Barão, quão profundamente a filha dela amava-o; talvez, até melhor do que a filha dela. Naturalmente, ela também esperava uma aliança mais elevada para Aurora; contudo, ela era uma verdadeira mulher, e o coração dela era mais forte do que a ambição. É claro, a ninharia do vinho era nada; mas foi um reconhecimento aberto e marcado. Ela esterava que Felix (segundo o seu costume em épocas antigas, antes que amor e casamento fossem considerados para Aurora) tivesse vindo em consequência desse convite distinto, e tomado sua posição diante dela, segundo o costume. Mas, como ele não veio, novos convidados e os deveres da hospitalidade distraíram a atenção dela, e, novamente, ela esqueceu-se dele.
De fato, ele ficou mais magoado do que agradado com o favor que fora mostrado a ele; parecia-lhe (embora realmente induzido pelo sentimento mais gentil) como um osso jogado a um cão. Ele desejava ser tão considerado que nenhuma marca especial de favor deveria ser necessária. Isso simplesmente aumentava o descontentamento dele. A tardinha consumiu-se, a ceia começou; quão exaustivo isso parecia para ele, aquela ceia longa e jovial, com a cerveja que corria em um fluxo contínuo, o vinho que, incessantemente, circulava em volta, a azáfama, e o riso, a acolhida dos convidados que chegavam; as cartas, o xadrex, e os jogos que a sucederam, a bebida, bebida, e bebida, até que as damas novamente saíssem; então, bebida ainda mais livremente.
[140]Ele escapou na primeira oportunidade, e, tendo primeiramente passeado para dentro e para fora do grama aparrada para boliche, molhada com o orvalho, na retaguarda do castelo, perguntou por seu quarto. Passou-se algum tempo antes que ele fosse atendido; ele permaneceu sozinho no pé da escadaria enquanto outros foram primeiro (as pequenas moedas deles compraram-lhes atenção), até que, finalmente, uma lâmpada foi trazida para ele, e o quarto dele designado. Esse quarto, tal como era, foi o único prazer, e esse um melancôlico, que ele tinha tido neste dia.
Embora transbordando com convidados, de maneira que os mais honrados visitantes não puderam ser acomodados no interior do castelo, e apenas as damas poderiam encontrar quarto de dormir ali, contudo, a lei sagrada da honra, o compromisso do amigo do coração passado três gerações, asseguraram-lhe esse privilégio. O amigo do coração deve dormir dentro, [mesmo] se um rei devesse ser enviado para fora. É claro, Oliver ocuparia o mesmo quarto, mas ele estava bebendo e berrando uma canção abaixo, de maneira que, por um tempo, Felix tinha o quarto para ele mesmo.
Isso o agradou, porque era o quarto no qual ele sempre dormira quando ele visitava o lugar desde [que era] um menino, quando, meio assustado e ainda determinado a aventurar-se, ele primeiro atravessara a floresta sozinho. Quão bem ele se lembrava da primeira vez! A luz do sol sobre o restolho na Velha Casa, e as folhas vermelhas e marrons da floresta enquanto ele entrou; como ele entrou a pé, e duas vezes voltou para trás, e duas vezes aventurou-se novamente, até que ele chegou tão dentro da floresta que parecia tão distante para retornar quanto para avançar. Como ele iniciou viagem diante do berro súbito dos dois [141]veados, e o barulho dos seus chifres enquanto eles lutavam no matagal ao lado, e quão belo o castelo pareceu quando, dentre em pouco, ele emergiu a partir dos arbustos e olhou para baixo sobre ele!
Esse era o quarto mesmo no qual ele dormiu; a Baronesa, como uma mãe, veio ver se ele estava confortável. Aqui ele tinha dormido a cada vez desde então; aqui ele tinha ouvido na manhã cedo os passos de Aurora, enquanto ela passava pela porta dele, pois as damas levantavam-se mais cedo do que os homens. Ele agora se sentava perto da janela aberta; era uma brilhante noite de luz da lua, quente e deliciosa, e a nota prolongado do rouxinol vinha através dos jardins, a partir dos arbustos de espinheiros do lado de fora da paliçada interior. À esquerda, ele conseguia ver a linha das colinas, à direita, a floresta; tudo estava quieto ali, mas, de vez em quando, o som de uma balada surgia em torno do castelo, um som sem palavras reconhecíveis, diversão inarticulada.
Se ele desse início à perigosa viagem que ele contemplava, e para a qual ele estivera preparando-se por tanto tempo, deveria ele alguma vez dormir ali novamente, tão próximo daquela que ele amava? Não era melhor ser pobre e desprezado, mas estar perto dela, do que tentar uma expedição tão grande, especialmente visto que as chances (como o seu senso comum dizia-lhe) estavam todas contra ele? Todavia, ele não podia permanecer; ele tem de fazer isso, e ele tentou reprimir a dúvida que insistia em surgiu em sua mente. Em seguida, ele referiu-se a Durand; ele lembrou-se de que nem uma vez naquele dia ele trocara uma única palavra, além da saudação primeira e ordinária, com Aurora.
[142]Não poderia ela, houvesse ela escolhido, ter arranjado um encontro de momento? Não poderia ela ter lhe concedido uma oportunidade? Não estava claro que ela estava envergonhada de sua fantasia própria de menina por um jovem sem dote e desprezado? Se assim, valia a pena partir em um empreendimento tão estranho pelo bem dela? Mas também, se assim, valia a pena viver, e não se poderia também partir e buscar a destruição?
Enquanto esse conflito de sentimento estava procedendo, ele arriscou-se a olhar na direção da mesa na qual, descuidadamente, ele colocou sua lâmpada, e observou o que, em seu estado agitado de mente, ele anteriormente negligenciara, um pequeno rolo de pergaminho amarrado em volta com seda. Curioso por livros, ele desfez a amarração e abriu o volume. Não havia muito escrito, mas muitos diagramas particulares e sinais arranjados em círculos. De fato, era um livro de mágica, escrito no ditado, como o prefácio declarava, de alguém quem tinha sido um escravo entre os romani por anos.
Ele tinha sido capturado, e forçado a trabalhar pela tenda à qual os seus proprietários pertenciam. Ele testemunhara sua adoração e suas feitiçarias; ele vira o sacrifício à lua cheia, a deusa principal deles, e as extravagâncias selvagens pelas quais ele era acompanhado. Ele aprendera alguns poucos dos sinais deles, e, em ao escapar, reproduzira-os a partir da memória. Alguns estavam gravados em pedras engastadas em seus anéis; alguns estavam entalhados em tábuas de madeira, alguns desenhados com tinta em pergaminho; mas, com tudo, o procedimento deles parecia ser a repetição de certos versos e, em seguida, um firme olhar fixo sobre a imagem. Logo eles [143]se tornavam cheios de êxtase, proferiam o que soava como os mais selvagens delírios, e (as mulheres deles especialmente) profetizaram do futuro.
De uns poucos dos sinais ele entendeu o significado, mas dos outros ele reconhecia que eram desconhecidos para ele. No final do livro existiam várias páginas de comentário, descrevendo os demônios acreditados e adorados pelos romani, demônios que assombravam os bosques e as colinas, e contra os quais era melhor estar provido com amuletos abençoados pelos santos padres de Santo Agostinho. Tais demônios roubavam do caçador ao meio-dia, e, alarmado diante de seu súbito aparecimento, ao virar sua cabeça (pois os demônios invariavelmente se aproximam por trás, e a presença deles é indicada por um tremor nas costas), ele caía dentro de buracos ocultos por samambaias e era morto.
Ou, na forma de um cão, eles corriam entre as pernas do viajante; ou como mulheres, com carícia tentadora, atraíam-no para longe do caminho ao anoitecer, para dentro de recessos frondosos e, em seguida, instantanetamente transformando-se em vastas formas semelhantes a morcegos, prendiam-se no pescoço dele e sugavam o sangue ele. Os gritos terríveis de semelhantes vítimas frequentemente tinham sido ouvidos pelos sentinelas nos postos avançados. Alguns eram invisíveis e, contudo, matavam o incauto descendo despercebidos sobre ele e sufocando-o com uma pressão como se o ar subitamente se tivesse tornado pesado.
Mas talvez, nenhum desses devesse ser tão temido quanto as docemente formadas e graciosas senhoras da samambaia. Essas eram criaturas não de carne e sangue e, contudo, não incorpóreas como os demônios, nem eram elas perigosas ao [144]homem físico, não causando nenhuma lesão corporal. O dano que elas causavam era através da fascinação da alma, de maneira que ela se revoltava de toda religião e de todos os ritos da Igreja. Uma vez resignado ao carinho da mulher-samambaia, o infeliz era atraído para cada vez mais longe dos antros dos homens, até que, finalmente, ele perambulava dentro da floresta desconhecida, e nunca mais era visto novamente. Essas criaturas comumente eram encontradas em meio ao matagal de samambaia, nuas, com os membros inferiores e o corpo oculto pelas frondas verdes, apenas seus cabelos brancos e ombros visíveis e seu cabelo dourado brilahntes com a luz do sol do verão.
Também existiam demônios dos riachos, e demônios habitando no meio das colinas; demônios que apenas podiam viajar nos raios lunares, e outros que flutuavam diante de ventos tempestuosos e lançavam o andarilho miserável para a destruição, ou esmagavam-no com árvores derrubadas. Em prova disso, o monge perguntava ao leitor se ele não tinha ouvido falar dos galhos imensos caindo de árvores sem causa vísivel, subitamente e sem aviso, e mesmo de árvores mesmas com folhagem cheia, em clima calmo, caindo com uma trombada, para o perigo iminente ou a morte daqueles que aconteciam de passar. Que todos esses adquiram amuletos de Santo Agostinho, concluía o escritor, quem parecia ser um monge no monastério no qual o prisioneiro escapado refugiara-se, e quem tinha escrito sua relação e copiado seus esboços rudes.
Felix debruçou-se sobre os estanhos diagramas, esforçando-se para entender o significado oculto; alguns deles, ele pensava, eram sinais alquímicos, e relacionados à produção de ouro, especialmente [145]como o prisioneiro declarava que os romani possuíam muito mais desse metal em suas cabanas do que ele tinha visto nos palácios dos nossos reis. Se eles tinham uma mina de ouro a partir da qual eles o extraíam, ou se eles tinham a arte de transmutação, ele não sabia, mas ele ouvia alusões à riqueza na montanha das macieiras, o que ele suponha ser uma frase mágica.
Quando Felix finalmente olhou para cima, a lâmpada estava baixa, e os raios de luz da lua entravam e caíam sobre o piso polido, e, a partir da janela, ele podia ver uma longa linha branca de névoa fantasmagórica onde um pequeno riacho corria na base da encosta perto da floresta. As canções estavam silentes; não havia som, exceto o distante relincho de um cavalo e o pesado ruído de passos de um convidado vindo ao longo da galeria. Quase desorientado por ter se debruçado sobre o pergaminho mágico, cheio de símbolos e demônios, e ainda com uma sensação de injúria e ciúmes corroendo seu coração, Felix retirou-se para a sua cama, e, cansado além de medida, instantaneamente adormeceu.
Nesse estado perturbado de mente, não lhe ocorreu uma vez se perguntar como o manuscrito veio a ficar sobre a mesa dele. Raros como eles eram, os livros usualmente não eram colocados sobre as mesas de hóspedes, e, diante de uma ocasião ordinária, ele certamente teria considerado isso peculiar. O fato era que Aurora, quem durante todo o dia, intimamente, ele tinha acusado de o esquecer, colocara-o ali para ele com as próprias mãos dela. Também ela era curiosa de livros e inclinada ao estudo. Ela muito recentemente adquirira o volume de um mercador quem tinha chegado tão longe e quem o valoriza menos de todos os seus artigos.
[146]Ela sabia que Felix tinha lido e relido todo outro fragmento de escrita que havia no castelo, e pensou que esse estranho livro poderia interessar a ele, concedendo-lhe, como ele o fez, detalhes daqueles poderes do ar nos quais quase todos acreditavam. Inconsciente dessa atenção, Felix adormeceu, irado e amargo contra ela. Quando, uma meia-hora depois, Oliver tropeçou para dentro do quarto, um pouco instável de suas pernas, a despeito de sua poderosa força, ele pegou o rolo, deu uma olhadela, jogou-o para baixo e, sem um minuto de demora, buscou e obteve sono.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.136-146. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/136/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0