[69]Eu caminhei a passos largos através da vegetação rasteira que revestia o cume atrás da casa, mal prestando atenção para onde eu ia; passei através da sombra de um espesso grupo de árvores de troncos retos além dele, e logo me encontrei, de alguma maneira, no outro lado do cume, e descendo na direção de um riacho que corria através de um vale estreito. Eu parei e ouvi. A distância pela qual eu vim, ou as massas intervenientes de matagais, amorteciam qualquer som que pudesse vir a partir da cercada. O ar estava parado. Então, com um farfalhar, um coelho apareceu, subindo com pressa a encosta diante de mim. Eu hesitei, e sentei à beira da sombra.
Era um lugar agradável. O riacho estava escondido pela vegetação exuberante dos bancos de areia, exceto em um ponto, onde eu surpreendi um trecho triangular de sua água cintilante. No lado mais distante, eu vi, através de uma névoa azulada, um emaranhado [70]de árvores e trepadeiras e, acima dessas, novamente, o luminoso azul do céu. Aqui e ali um respingo de branco ou carmesim marcava o florescimento de alguma epífita na trilha. Eu deixei meus olhos vagarem nessa cena por um tempo e, em seguida, comecei a revirar em minha mente as estranhas peculiaridades do homem de Montgomery. Mas estava quente demais para pensar elaboradamente, e logo eu caí em um tranquilo estado, no meio do caminho entre cochilando e desperto.
A partir disso eu fui excitado, pelo que eu não sei, por um farfalhar na folhagem do outro lado do riacho. Por um momento, eu não pude ver nada exceto os topos ondulantes de samambaias e juncos. Em seguida, subitamente sobre um banco de areia do riacho, apareceu Alguma coisa – inicialmente, eu não pude distinguir o que era. Ela curvou a cabeça redonda para a água e começou a beber. Então em vi que era um homem, caminhando de quatro como uma besta. Ele estava vestido com tecido azulado e era de uma tonalidade de cor de cobre, com cabelo negro. Parecia que feiúra grotesca era uma característica invariável desses ilhéus. Eu podia ouvir a sucção da água nos lábios dele enquanto ele bebia.
[71]Eu inclinei-me para frente para o ver melhor, e um pedaço de lava, destacado por minha mão desceu tambolirando a encosta. Ele olhou para cima culposamente, e os olhos dele encontraram os meus. Imediatamente, ele ficou de pé e permaneceu secando sua mão desajeitada através da boca e considerando-me. As pernas dele mal eram metade do comprimento do corpo. Assim, encarando um ao outro pelo semblante, nós permanecemos talvez pelo espaço de um minuto. Em seguida, parando para olhar para trás uma ou duas vezes, ele escapou em meio aos arbustos à minha direita, e eu ouvi o farfalhar das frondas enfraquecerem-se na distância e dissiparem-se. Logo depois, ele desaparecera, eu permaneci sentado encarando na direçao da retirada dele. Minha tranquilidade sonolenta fora-se.
Eu fiquei assustado com um barulho atrás de mim e, virando subitamente, vi o branco rabo agitando-se de um coelho desaparecendo no topo da encosta. Eu fiquei de pé imediatamente. A aparição dessa criatura grotesca, meio-bestial subitamente povoara a quietude da tarde para mim. Eu olhei à minha volta bastante nervosamente, e arrependi-me de que eu estava desarmado. Em seguida, eu considerei que o homem que eu há pouco vira estava vestido em tecido azulado, [72]não estava nu como um selvagem teria estado; e eu tentei persuadir a mim mesmo a partir do fato de que ele era, afinal, provavelmente, de um caráter pacífico, que a ferocidade aborrecida do semblante dele contradizia-o.
Contudo, eu fiquei muito perturbado pela aparição. Eu caminhei para a esquerda ao longo da encosta, virando minha cabeça ao redor, e espreitando nesta e naquela direção, em meio aos troncos retos das árvores. Por que um homem deveria caminhar de quatro e beber com seus lábios? Logo eu ouvi animal gemendo novamente, e tomando-o com sendo o puma, eu virei-me e caminhei em uma direção diametralmente oposta ao som. Isso me conduziu córrego abaixo, atravás do qual eu caminhei e forcei meu caminho atravás da vegetação rasteira além acima.
Eu fiquei assustado com uma grande mancha de escarlate vívido no chão, e, subindo até ela, descobri-a ser um fungo peculiar, ramificado e corrugado como um líquen foliáceo, mas deliquescente em limo ao toque; e, em seguida, à sombra de algumas samambaias luxuriantes, eu deparei-me com uma coisa desagradável, - o corpo morto de um coelho coberto com moscas brilhantes, mas ainda quente e com a cabeça arrancada. Eu parei horrorizado diante da visão de [73]sangue espalhado. Aqui, pelo menos um visitante da ilha foi jogado fora! Não havia traços de violência em torno dele. Pareceu como se ele subitamente fosse agarrado e morto; e, enquanto eu encarava o pequeno corpo peludo, surgiu a dificuldade de como a coisa ocorrera. O pavor vago que estivera em minha mente desde que eu vira o rosto inumano do homem no riacho tornava-se mais distinto enquanto eu permanecia de pé ali. Eu comecei a compreender a dureza da minha expedição entre esse povo inumano. A mata ao meu redor tornou-se alterada para minha imaginação. Cada sombra tornou-se algo mais do que uma sombra, - tornou-se uma esmboscada; cada farfalhar tornou-se uma ameaça. Coisas invisíveis pareciam observar-me. Eu resolvei retornar ao cercado na praia. Subitamente, eu virei-me e lancei-me violentamente, possivelmente mesmo freneticamente, através dos arbustos, ansioso para obter espaço claro em torno de mim novamente.
Eu parei bem a tempo de evitar que eu emergisse em espaço aberto. Era um tipo de clareira na floresta, formada por uma queda; plântulas já estavam começando a lutar pelo espaço vago; e além, o crescimento denso [74]de troncos e trepadeiras entrelaçadas e respingos de fungos e flores fecharam-na novamente. Diante de mim, agachando-se juntos sobre as ruínas fungóides de uma imensa árvore caída e ainda inconsciente de minha aproximação, estavam três grotescas figuras humanas. Uma era evidentemente uma mulher; os outros dois eram homens. Eles estavam nus, salvo por enfaixamentos escarlates em torno do meio; e as peles deles eram de uma aborrecida cor rosada monótona, tal como eu nunca vira antes em selvagens. Eles tinham rostos gordos, pesados, sem queixo, testas recuadas e um escasso cabelo eriçado sobre as cabeças deles. Eu nunca vi criaturas de aparência tão bestial.
Eles estavam conversando, ou, pelo menos, um dos homens estava falando para os outros dois, e todos os três estavam muito cautelosamente interessados em prestar atenção ao farfalhar de minha aproximação. Eles balançavam suas cabeças e seus ombros de um lado para o outro. As palavras do falante surgiam grossas e desleixadas, e, embora eu pudesse ouví-las distintamente, eu não podia distinguir o que era dito. Para mim, ele parecia estar recitando algum jargão complicado. Logo, a articulaçao dele tornou-se mais estridente, e, erguendo as mãos, ele colocou-se de pé. Diante disso, os outros começaram a algaraviar em uníssono, também ficando [75]de pé, espalhando as mãos e balançando os seus corpos em ritmo com seus canto. Então, eu notei a brevidade das pernas deles, e os pés esguios, desajeitados. Todos os três começaram a circular lentamente, erguendo e marcando seus pés e agitando seus braços; um tipo de tom arrastou-se em sua recitação rítmica, e um refrão, - “Aloola,” ou “Ballola,” soava semelhante. Os olhos deles começaram a brilhar, e a clarear, com uma expressão de prazer estranho. Saliva pingava das suas bocas sem lábios.
Subitamente, enquanto observava os gestos grotescos e inexplicáveis deles, eu percebi claramente, pela primeira vez, o que era que me escandalizara, o que me dera as duas impressões inconsistentes e conflitantes de estranheza completa e, contudo, de mais estranha familiaridade. As três criaturas engajadas nesse rito misterioso eram humanas em forma, e, contudo, seres humanos com o mais estranho ar de algum animal familiar sobre eles. Cada uma dessas criaturas, a despeito de sua forma humana, de seus trapos de roupa, e da humanidade grosseira de sua forma corporal, entrelaçaram-se nisto – em seus movimentos, na expressão do seu semblante, [76]na sua inteira presença – agora alguma sugestão irresistível de um porco, uma mácula suína, a marca inconfundivel da besta.
Eu permaneci dominado por esse entendimento surpreendente; e então os questionamentos mais horríveis entraram apressados em minha mente. Eles começaram saltando no ar, primeiro um e em seguida o outro, gritando e gemendo. Então um escorregou e, por um momento, ficou completamente de quatro, - para se recuperar, de fato, em seguida sem demora. Mas o brilho transitório da verdadeiro animalismo desses monstros foi suficiente.
Eu virei-me tão sem barulho quanto possível, e tornando-me, de vez em quando, rígido de medo de ser descoberto, como um galho quebrado ou uma folha farfalhada, eu retornava para dentro dos arbustos. Demorou antes que eu me tornasse mais ousado, e atrevesse-me a mover-me livremente. Minha única ideia para o momento era afastar-me daqueles seres malignos, e escassamente notei que eu emergira sobre um caminho indistinto em meio às árvores. Então, subitamente, atravessando uma pequena clareira, eu vi, com um acontecimento desagrádavel duas pernas desajeitadas entre as árvores, caminhando com passos sem barulho, paralelas ao meu curso e, talvez, a trinta jardas de distância de mim. A cabeça e parte superior do corpo estavam [77]ocultas por um emaranhado de trapedeira. Eu parei abruptamente, esperando que a criatura não me visse. Os pés paravam como eu parava. Tão nervoso eu estava que, com a máxima dificuldade, eu controlei um impulso para fugir precipitadamente. Em seguida, olhando diligentemente, eu distingui, através da rede entrelaçada, a cabeça e o corpo do bruto que eu vira bebendo. Ele moveu a cabeça. Houve um lampejo esmeralda nos olhos dele enquanto ele me encarava a partir da sombra das árvores, uma cor meio luminosa que desapareceu enquanto ele virava novamente a cabeça. Ele ficou imóvel por um momento e, em seguida, com um passo sem barulho, começou a correr através da confusão verde. Em outro momento, ele tinha desaparecido atrás de alguns arbustos. Eu não pude vê-lo, mas eu sentia que ele tinha parado e estava observando novamente.
O que, sobre a terra, era ele, - homem ou besta? O que ele queria comigo? Eu não tinha armas, nem mesmo uma vara. Fuga seria loucura. Em qualquer caso, a Coisa, seja o que for que ele era, carecia de coragem para me atacar. Cerrando meus dentes, eu caminhei diretamente na direção dele. Eu estava ansioso para não mostrar o medo que parecia gelar minha espinha dorsal. Eu forcei-me através de um emaranhado [78]de altos arbustos com flores brancas, e vi-o a vinte passos além, olhando sobre o ombro para mim e hesitando. Eu avancei um passo ou dois, olhando firmemente nos olhos dele.
“Quem é você?” eu disse.
Ele tentou encontrar meu olhar pasmado. “Não!” ele disse subitamente, e virando-se afastou-se de mim, saltando, através da vegetação rasteira. Os olhos dele brilhavam intensamente pela vegetação rasteira sob as árvores.
Meu coração estava na minha boca; mas eu senti que a minha única chance era o blefe, e caminhei constantemente na direção dele. Ele virou-se novamente e desapareceu no crepúsculo. Uma vez mais eu pensei que capturei o brilho dos seus olhos, e isso foi tudo.
Pela primeira vez eu compreendi como o adiantado da hora poderia afetar-me. O sol pusera-se há alguns minutos, a escuridão rápida dos trópicos já estava desaparecendo para fora do céu oriental, e uma mariposa pioneira flutuava silentemente perto de minha cabeça. A menos que eu desejasse despender a noite entre os perigos desconhecidos da floresta misteriosa, eu devia apressar-me de volta para a cercada. O pensamento de um retorno para aquele refúgio assombrado pela dor era extremamente desagradável, mas ainda mais era [79]a ideia de ser surpreendido no aberto pela escuridão e por tudo que a escuridão poderia ocultar. Eu dei mais uma olhada dentro das sombras azuis que engoliram aquela criatura estranha e, em seguida, retracei meu caminho encosta abaixo na direção do riacho, prosseguindo, como eu julgava, na direção a partir da qual eu vim.
Eu caminhava ansiosamente, minha mente confusa com muitas coisas, e logo eu descobri a mim mesmo em um lugar plano em meio a árvores espalhadas. A clareza sem cor que surge após o resplendor do pôr do sol foi sombria; o céu azul acima se tornou momentaneamente mais profundo, e as pequenas estrelas, uma a uma, perfuravam a luz atenuada; os interespaços das árvores, as lacunas na vegetação além, que tinham sido azuis nebulosas à luz do dia, tornaram-se negras e misteriosas. Eu prossegui com esforço. A cor desapareceu do mundo. Os topos das árvores subiam contra o luminoso céu azul na silhueta escura e tudo abaixo se fundia em uma escuridão sem forma. Logo as árvores afinaram-se e a vegetação rasteira arbustiva tornou-se mais abundante. Nessa altura, há um espaço desolado coberto por areia branca, e, em seguida, outra extensão de arbustos emaranhados. Eu não me lembrava de ter cruzado antes a [80]abertura de areia. Eu comecei a ficar atormentado por um farfalhar fraco sobre a minha mão direita. Primeiramente, eu pensei que fosse imaginação, pois, sempre que eu parava, havia silêncio, exceto pela brisa da noite nos topos das árvores. Então, quando eu me virei para me apressar novamente, houve um eco para os meus passos.
Eu afastei-me dos matagais, permanecendo no terreno mais aberto e tentando por viradas súbitas, de vez em quando, surpreender alguma coisa no ato de rastejar sobre mim. Eu não vi nada, e, mesmo assim, meu senso de outra presença crescia constantemente. Eu aumentei meu passo e, após algum tempo, cheguei a um cume leve, cruzei-o e virei-me bruscamente, considerando-o firmemente a partir do outro lado. Ele surgia negro e nítido contra o céu negro escuro; e logo uma protuberância sem forma elevou-se alta momentaneamente contra a linha do horizonte e desapareceu novamente. Agora, eu sentia-me seguro de que antagonista de rosto moreno estava perseguindo-me uma vez mais; e junto com isso, havia outra percepção desagradável, a de que eu tinha perdido o meu caminho.
Por um tempo, eu apressei-me, desesperadamente perplexo e perseguido por aquela aproximação furtiva. Seja o que for que fosse, a Coisa carecia da coragem [81]para me atacar, ou estava esperando para me pegar em alguma desvantagem. Eu permaneci cuidadosamente no aberto. Às vezes, eu me viraria e ouviria; e logo eu quase me persuadi de que meu perseguidor tinha abandonado a perseguição, ou que ele era uma mera criação de minha imaginação desordenada. Então eu ouvi o som do mar. Eu apressei meus passos quase em uma corrida e, imediatamente, houve um tropeção em minha retaguarda.
Eu virei-me subitamente e encarei as árvores duvidosas atrás de mim. Uma sombra escura parecia saltar sobre outra. Eu escutava, rígido, e não ouvia nada exceto o rastejar do sangue em meus ouvidos. Eu pensei que meus nervos estavam desencordoados, e que minha imaginação estava iludindo-me e, resolutamente, virei-me na direção do som do mar novamente.
Em um minuto ou algo assim, as árvores afinaram-se, e eu emergi sobre um promontório vazio e baixo topando com a água sombria. A noite estava calma e clara, e o reflexo da crescente multidão das estrelas tremia na tranquila elevação do mar. A alguma distância, a ressaca sobre a faixa irregular de coral brilhava com uma luz de si própria. Para o ocidente, eu vi a luz zodiacal misturando-se com o brilho [82]amarelo da estrela da noite. A costa perdia-se de mim para o oriente, e para o ocidente ela ficava oculta pelo reborbo do promontório. Então eu lembrei-me do fato de que a praia de Moreau estendia-se para o ocidente.
Um galho estalou atras de mim, e houve um ruído. Eu virei-me e permaneci encarando as árvores escuras. Eu não pude ver nada – ou, do contrário, eu pude ver demais. Cada forma negra na penumbra tinha sua qualidade ameaçadora, sua sugestão peculiar de vigilância alerta. Assim eu permaneci por talvez um minuto, e em seguida, com um olho para as árvores paradas, virei-me para o ocidente, para cruzar o promontório; e, enquanto eu movia-me, as sombras à espreita moviam-se para me seguir.
Meu coração bate rapidamente. Logo a ampla área de uma baía na direção ocidental tornou-se visível e eu parei novamente. A sombra silenciosa parou a umas doze jardas de mim. Um pequeno ponto de luz brilhou sobre uma volta adicional da curva, e a área cinzenta da praia arenosa estendia-se fraca sob a luz das estrelas. Talvez a umas duas milhas de distância ficava aquele pequeno ponto de luz. Para alcançar a praia eu teria de atravessar as árvores onde as sombras espreitavam, e descer uma ladeira coberta por arbustos espessos.
[83]Eu podia enxergar a Coisa bastante mais distintamente agora. Não era um animal, pois permaneceu ereto. Diante daquilo, eu abri minha boca para falar e descobri que uma fleuma rouca sufocou minha voz. Eu tentei novamente, e gritei, “Quem está aí?” Não houve resposta. Eu avancei um passo. A Coisa não se moveu, apenas reuniu-se. Meu pé atingiu uma pedra. Aquilo deu-me uma ideia. Sem tirar meus olhos da forma negra diante de mim, eu inclinei-me e apanhei esse pedaço de rocha; mas, diante do meu movimento, a Coisa virou-se abruptamente como um cão poderia ter feito, e esgueirou-se obliquamente mais para dentro da escuridão. Então eu lembrei-me de um expediente de estudante contra grandes cães, e enrosquei a rocha dentro do meu lenço de pescoço, e dei a isso uma volta em torno do meu punho. Eu ouvi um movimento adicional para longe, em meio às sombras, como se a Coisas estivesse em retirada. Em seguida, subitamente, minha excitação tensa cedeu; subitamente eu cai em uma transpiração profunda e cai tremendo, com meu adversário encaminhado e esta arma em minha mão.
Passou-se algum tempo antes que eu pudesse convocar resolução para descer através das árvores e arbustos sobre o flanco do promontório para a [84]praia. Finalmente, eu corri; e, enquanto eu emergia a partir da mata sobre a areia, eu ouvi algum outro corpo vindo se espatifar depois mim. Diante disso, eu perdi completamente a minha cabeça com medo, e comecei correndo ao longo da areia. Após o que, ali surgiu o veloz tamborilar de pés macios em perseguição. Eu dei um grito selvagem, e redobrei meu passo. Algumas coisas sombrias, negras, aproximadamente três ou quatro vezes o tamanho de coelhos, iam correndo ou saltitando para fora da praia na direção dos arbustos enquanto eu passava.
Enquanto eu viver, eu deverei lembrar-me do terror daquela perseguição. Eu corri próximo da beira da água, e ouvia, a cada aqui e agora, o respingo que ganharam sobre mim. Muito longe, desesperadamente longe, ficava a luz amarela. E toda a noite à nossa volta estava escura e parada. Respingo, respingo, vinham os pés perseguidores, mais e mais perto. Eu sentia meu fôlego indo-se, pois eu estava bastante fora de forma; ele gritava enquanto eu respirava, e eu senti em dor como uma faca em meu lado. Eu percebi que a Coisa me alcançaria muito antes que eu alcançasse a cercada, e, desesperado e soluçando por meu fôlego, circulei sobre ela e atingi-a enquanto ela se aproximava de mim, - atingi com toda a minha força. A pedra saiu da funda do [85]lenço do pescoço enquanto eu fazia-o. Enquanto eu virava-me, a Coisa, a qual estivera correndo de quatro, colocou-se de pé sobre os pés, o míssil caiu justamente em sua têmpora esquerda. O crânio rangeu alto, e o homem-animal tropeçou em mim, jogou-me para trás com suas mãos, e passou por mim cambaleando para cair precipitadamente sobre a areia como seu rosto na água; e lá ele ainda jaz parado.
Eu não pude me fazer aproximar-me daquele monte negro. Eu deixei-o lá, com a água ondulando ao redor dele, sob as estrelas paradas, e, dando-lhe uma ampla cama, busquei meu caminho na direção do brilho amarelo da casa; e logo, com um efeito positivo de alívio, veio o gemido lamentável do puma, o som que originalmente me impeliu para fora para explorar esta ilha misteriosa. Diante disso, embora eu estivesse fraco e fatigado, eu reuni toda a minha força e comecei a correr novamente na direção da luz. Eu pensei que ouvi uma voz chamando-me.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.69-85. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/69/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0