A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo IX A Coisa na Floresta

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[69]Eu caminhei a passos largos através da vegetação rasteira que revestia o cume atrás da casa, mal prestando atenção para onde eu ia; passei através da sombra de um espesso grupo de árvores de troncos retos além dele, e logo me encontrei, de alguma maneira, no outro lado do cume, e descendo na direção de um riacho que corria através de um vale estreito. Eu parei e ouvi. A distância pela qual eu vim, ou as massas intervenientes de matagais, amorteciam qualquer som que pudesse vir a partir da cercada. O ar estava parado. Então, com um farfalhar, um coelho apareceu, subindo com pressa a encosta diante de mim. Eu hesitei, e sentei à beira da sombra.

Era um lugar agradável. O riacho estava escondido pela vegetação exuberante dos bancos de areia, exceto em um ponto, onde eu surpreendi um trecho triangular de sua água cintilante. No lado mais distante, eu vi, através de uma névoa azulada, um emaranhado [70]de árvores e trepadeiras e, acima dessas, novamente, o luminoso azul do céu. Aqui e ali um respingo de branco ou carmesim marcava o florescimento de alguma epífita na trilha. Eu deixei meus olhos vagarem nessa cena por um tempo e, em seguida, comecei a revirar em minha mente as estranhas peculiaridades do homem de Montgomery. Mas estava quente demais para pensar elaboradamente, e logo eu caí em um tranquilo estado, no meio do caminho entre cochilando e desperto.

A partir disso eu fui excitado, pelo que eu não sei, por um farfalhar na folhagem do outro lado do riacho. Por um momento, eu não pude ver nada exceto os topos ondulantes de samambaias e juncos. Em seguida, subitamente sobre um banco de areia do riacho, apareceu Alguma coisa – inicialmente, eu não pude distinguir o que era. Ela curvou a cabeça redonda para a água e começou a beber. Então em vi que era um homem, caminhando de quatro como uma besta. Ele estava vestido com tecido azulado e era de uma tonalidade de cor de cobre, com cabelo negro. Parecia que feiúra grotesca era uma característica invariável desses ilhéus. Eu podia ouvir a sucção da água nos lábios dele enquanto ele bebia.

[71]Eu inclinei-me para frente para o ver melhor, e um pedaço de lava, destacado por minha mão desceu tambolirando a encosta. Ele olhou para cima culposamente, e os olhos dele encontraram os meus. Imediatamente, ele ficou de pé e permaneceu secando sua mão desajeitada através da boca e considerando-me. As pernas dele mal eram metade do comprimento do corpo. Assim, encarando um ao outro pelo semblante, nós permanecemos talvez pelo espaço de um minuto. Em seguida, parando para olhar para trás uma ou duas vezes, ele escapou em meio aos arbustos à minha direita, e eu ouvi o farfalhar das frondas enfraquecerem-se na distância e dissiparem-se. Logo depois, ele desaparecera, eu permaneci sentado encarando na direçao da retirada dele. Minha tranquilidade sonolenta fora-se.

Eu fiquei assustado com um barulho atrás de mim e, virando subitamente, vi o branco rabo agitando-se de um coelho desaparecendo no topo da encosta. Eu fiquei de pé imediatamente. A aparição dessa criatura grotesca, meio-bestial subitamente povoara a quietude da tarde para mim. Eu olhei à minha volta bastante nervosamente, e arrependi-me de que eu estava desarmado. Em seguida, eu considerei que o homem que eu há pouco vira estava vestido em tecido azulado, [72]não estava nu como um selvagem teria estado; e eu tentei persuadir a mim mesmo a partir do fato de que ele era, afinal, provavelmente, de um caráter pacífico, que a ferocidade aborrecida do semblante dele contradizia-o.

Contudo, eu fiquei muito perturbado pela aparição. Eu caminhei para a esquerda ao longo da encosta, virando minha cabeça ao redor, e espreitando nesta e naquela direção, em meio aos troncos retos das árvores. Por que um homem deveria caminhar de quatro e beber com seus lábios? Logo eu ouvi animal gemendo novamente, e tomando-o com sendo o puma, eu virei-me e caminhei em uma direção diametralmente oposta ao som. Isso me conduziu córrego abaixo, atravás do qual eu caminhei e forcei meu caminho atravás da vegetação rasteira além acima.

Eu fiquei assustado com uma grande mancha de escarlate vívido no chão, e, subindo até ela, descobri-a ser um fungo peculiar, ramificado e corrugado como um líquen foliáceo, mas deliquescente em limo ao toque; e, em seguida, à sombra de algumas samambaias luxuriantes, eu deparei-me com uma coisa desagradável, - o corpo morto de um coelho coberto com moscas brilhantes, mas ainda quente e com a cabeça arrancada. Eu parei horrorizado diante da visão de [73]sangue espalhado. Aqui, pelo menos um visitante da ilha foi jogado fora! Não havia traços de violência em torno dele. Pareceu como se ele subitamente fosse agarrado e morto; e, enquanto eu encarava o pequeno corpo peludo, surgiu a dificuldade de como a coisa ocorrera. O pavor vago que estivera em minha mente desde que eu vira o rosto inumano do homem no riacho tornava-se mais distinto enquanto eu permanecia de pé ali. Eu comecei a compreender a dureza da minha expedição entre esse povo inumano. A mata ao meu redor tornou-se alterada para minha imaginação. Cada sombra tornou-se algo mais do que uma sombra, - tornou-se uma esmboscada; cada farfalhar tornou-se uma ameaça. Coisas invisíveis pareciam observar-me. Eu resolvei retornar ao cercado na praia. Subitamente, eu virei-me e lancei-me violentamente, possivelmente mesmo freneticamente, através dos arbustos, ansioso para obter espaço claro em torno de mim novamente.

Eu parei bem a tempo de evitar que eu emergisse em espaço aberto. Era um tipo de clareira na floresta, formada por uma queda; plântulas já estavam começando a lutar pelo espaço vago; e além, o crescimento denso [74]de troncos e trepadeiras entrelaçadas e respingos de fungos e flores fecharam-na novamente. Diante de mim, agachando-se juntos sobre as ruínas fungóides de uma imensa árvore caída e ainda inconsciente de minha aproximação, estavam três grotescas figuras humanas. Uma era evidentemente uma mulher; os outros dois eram homens. Eles estavam nus, salvo por enfaixamentos escarlates em torno do meio; e as peles deles eram de uma aborrecida cor rosada monótona, tal como eu nunca vira antes em selvagens. Eles tinham rostos gordos, pesados, sem queixo, testas recuadas e um escasso cabelo eriçado sobre as cabeças deles. Eu nunca vi criaturas de aparência tão bestial.

Eles estavam conversando, ou, pelo menos, um dos homens estava falando para os outros dois, e todos os três estavam muito cautelosamente interessados em prestar atenção ao farfalhar de minha aproximação. Eles balançavam suas cabeças e seus ombros de um lado para o outro. As palavras do falante surgiam grossas e desleixadas, e, embora eu pudesse ouví-las distintamente, eu não podia distinguir o que era dito. Para mim, ele parecia estar recitando algum jargão complicado. Logo, a articulaçao dele tornou-se mais estridente, e, erguendo as mãos, ele colocou-se de pé. Diante disso, os outros começaram a algaraviar em uníssono, também ficando [75]de pé, espalhando as mãos e balançando os seus corpos em ritmo com seus canto. Então, eu notei a brevidade das pernas deles, e os pés esguios, desajeitados. Todos os três começaram a circular lentamente, erguendo e marcando seus pés e agitando seus braços; um tipo de tom arrastou-se em sua recitação rítmica, e um refrão, - “Aloola,” ou “Ballola,” soava semelhante. Os olhos deles começaram a brilhar, e a clarear, com uma expressão de prazer estranho. Saliva pingava das suas bocas sem lábios.

Subitamente, enquanto observava os gestos grotescos e inexplicáveis deles, eu percebi claramente, pela primeira vez, o que era que me escandalizara, o que me dera as duas impressões inconsistentes e conflitantes de estranheza completa e, contudo, de mais estranha familiaridade. As três criaturas engajadas nesse rito misterioso eram humanas em forma, e, contudo, seres humanos com o mais estranho ar de algum animal familiar sobre eles. Cada uma dessas criaturas, a despeito de sua forma humana, de seus trapos de roupa, e da humanidade grosseira de sua forma corporal, entrelaçaram-se nisto – em seus movimentos, na expressão do seu semblante, [76]na sua inteira presença – agora alguma sugestão irresistível de um porco, uma mácula suína, a marca inconfundivel da besta.

Eu permaneci dominado por esse entendimento surpreendente; e então os questionamentos mais horríveis entraram apressados em minha mente. Eles começaram saltando no ar, primeiro um e em seguida o outro, gritando e gemendo. Então um escorregou e, por um momento, ficou completamente de quatro, - para se recuperar, de fato, em seguida sem demora. Mas o brilho transitório da verdadeiro animalismo desses monstros foi suficiente.

Eu virei-me tão sem barulho quanto possível, e tornando-me, de vez em quando, rígido de medo de ser descoberto, como um galho quebrado ou uma folha farfalhada, eu retornava para dentro dos arbustos. Demorou antes que eu me tornasse mais ousado, e atrevesse-me a mover-me livremente. Minha única ideia para o momento era afastar-me daqueles seres malignos, e escassamente notei que eu emergira sobre um caminho indistinto em meio às árvores. Então, subitamente, atravessando uma pequena clareira, eu vi, com um acontecimento desagrádavel duas pernas desajeitadas entre as árvores, caminhando com passos sem barulho, paralelas ao meu curso e, talvez, a trinta jardas de distância de mim. A cabeça e parte superior do corpo estavam [77]ocultas por um emaranhado de trapedeira. Eu parei abruptamente, esperando que a criatura não me visse. Os pés paravam como eu parava. Tão nervoso eu estava que, com a máxima dificuldade, eu controlei um impulso para fugir precipitadamente. Em seguida, olhando diligentemente, eu distingui, através da rede entrelaçada, a cabeça e o corpo do bruto que eu vira bebendo. Ele moveu a cabeça. Houve um lampejo esmeralda nos olhos dele enquanto ele me encarava a partir da sombra das árvores, uma cor meio luminosa que desapareceu enquanto ele virava novamente a cabeça. Ele ficou imóvel por um momento e, em seguida, com um passo sem barulho, começou a correr através da confusão verde. Em outro momento, ele tinha desaparecido atrás de alguns arbustos. Eu não pude vê-lo, mas eu sentia que ele tinha parado e estava observando novamente.

O que, sobre a terra, era ele, - homem ou besta? O que ele queria comigo? Eu não tinha armas, nem mesmo uma vara. Fuga seria loucura. Em qualquer caso, a Coisa, seja o que for que ele era, carecia de coragem para me atacar. Cerrando meus dentes, eu caminhei diretamente na direção dele. Eu estava ansioso para não mostrar o medo que parecia gelar minha espinha dorsal. Eu forcei-me através de um emaranhado [78]de altos arbustos com flores brancas, e vi-o a vinte passos além, olhando sobre o ombro para mim e hesitando. Eu avancei um passo ou dois, olhando firmemente nos olhos dele.

Quem é você?” eu disse.

Ele tentou encontrar meu olhar pasmado. Não!” ele disse subitamente, e virando-se afastou-se de mim, saltando, através da vegetação rasteira. Os olhos dele brilhavam intensamente pela vegetação rasteira sob as árvores.

Meu coração estava na minha boca; mas eu senti que a minha única chance era o blefe, e caminhei constantemente na direção dele. Ele virou-se novamente e desapareceu no crepúsculo. Uma vez mais eu pensei que capturei o brilho dos seus olhos, e isso foi tudo.

Pela primeira vez eu compreendi como o adiantado da hora poderia afetar-me. O sol pusera-se há alguns minutos, a escuridão rápida dos trópicos já estava desaparecendo para fora do céu oriental, e uma mariposa pioneira flutuava silentemente perto de minha cabeça. A menos que eu desejasse despender a noite entre os perigos desconhecidos da floresta misteriosa, eu devia apressar-me de volta para a cercada. O pensamento de um retorno para aquele refúgio assombrado pela dor era extremamente desagradável, mas ainda mais era [79]a ideia de ser surpreendido no aberto pela escuridão e por tudo que a escuridão poderia ocultar. Eu dei mais uma olhada dentro das sombras azuis que engoliram aquela criatura estranha e, em seguida, retracei meu caminho encosta abaixo na direção do riacho, prosseguindo, como eu julgava, na direção a partir da qual eu vim.

Eu caminhava ansiosamente, minha mente confusa com muitas coisas, e logo eu descobri a mim mesmo em um lugar plano em meio a árvores espalhadas. A clareza sem cor que surge após o resplendor do pôr do sol foi sombria; o céu azul acima se tornou momentaneamente mais profundo, e as pequenas estrelas, uma a uma, perfuravam a luz atenuada; os interespaços das árvores, as lacunas na vegetação além, que tinham sido azuis nebulosas à luz do dia, tornaram-se negras e misteriosas. Eu prossegui com esforço. A cor desapareceu do mundo. Os topos das árvores subiam contra o luminoso céu azul na silhueta escura e tudo abaixo se fundia em uma escuridão sem forma. Logo as árvores afinaram-se e a vegetação rasteira arbustiva tornou-se mais abundante. Nessa altura, há um espaço desolado coberto por areia branca, e, em seguida, outra extensão de arbustos emaranhados. Eu não me lembrava de ter cruzado antes a [80]abertura de areia. Eu comecei a ficar atormentado por um farfalhar fraco sobre a minha mão direita. Primeiramente, eu pensei que fosse imaginação, pois, sempre que eu parava, havia silêncio, exceto pela brisa da noite nos topos das árvores. Então, quando eu me virei para me apressar novamente, houve um eco para os meus passos.

Eu afastei-me dos matagais, permanecendo no terreno mais aberto e tentando por viradas súbitas, de vez em quando, surpreender alguma coisa no ato de rastejar sobre mim. Eu não vi nada, e, mesmo assim, meu senso de outra presença crescia constantemente. Eu aumentei meu passo e, após algum tempo, cheguei a um cume leve, cruzei-o e virei-me bruscamente, considerando-o firmemente a partir do outro lado. Ele surgia negro e nítido contra o céu negro escuro; e logo uma protuberância sem forma elevou-se alta momentaneamente contra a linha do horizonte e desapareceu novamente. Agora, eu sentia-me seguro de que antagonista de rosto moreno estava perseguindo-me uma vez mais; e junto com isso, havia outra percepção desagradável, a de que eu tinha perdido o meu caminho.

Por um tempo, eu apressei-me, desesperadamente perplexo e perseguido por aquela aproximação furtiva. Seja o que for que fosse, a Coisa carecia da coragem [81]para me atacar, ou estava esperando para me pegar em alguma desvantagem. Eu permaneci cuidadosamente no aberto. Às vezes, eu me viraria e ouviria; e logo eu quase me persuadi de que meu perseguidor tinha abandonado a perseguição, ou que ele era uma mera criação de minha imaginação desordenada. Então eu ouvi o som do mar. Eu apressei meus passos quase em uma corrida e, imediatamente, houve um tropeção em minha retaguarda.

Eu virei-me subitamente e encarei as árvores duvidosas atrás de mim. Uma sombra escura parecia saltar sobre outra. Eu escutava, rígido, e não ouvia nada exceto o rastejar do sangue em meus ouvidos. Eu pensei que meus nervos estavam desencordoados, e que minha imaginação estava iludindo-me e, resolutamente, virei-me na direção do som do mar novamente.

Em um minuto ou algo assim, as árvores afinaram-se, e eu emergi sobre um promontório vazio e baixo topando com a água sombria. A noite estava calma e clara, e o reflexo da crescente multidão das estrelas tremia na tranquila elevação do mar. A alguma distância, a ressaca sobre a faixa irregular de coral brilhava com uma luz de si própria. Para o ocidente, eu vi a luz zodiacal misturando-se com o brilho [82]amarelo da estrela da noite. A costa perdia-se de mim para o oriente, e para o ocidente ela ficava oculta pelo reborbo do promontório. Então eu lembrei-me do fato de que a praia de Moreau estendia-se para o ocidente.

Um galho estalou atras de mim, e houve um ruído. Eu virei-me e permaneci encarando as árvores escuras. Eu não pude ver nada – ou, do contrário, eu pude ver demais. Cada forma negra na penumbra tinha sua qualidade ameaçadora, sua sugestão peculiar de vigilância alerta. Assim eu permaneci por talvez um minuto, e em seguida, com um olho para as árvores paradas, virei-me para o ocidente, para cruzar o promontório; e, enquanto eu movia-me, as sombras à espreita moviam-se para me seguir.

Meu coração bate rapidamente. Logo a ampla área de uma baía na direção ocidental tornou-se visível e eu parei novamente. A sombra silenciosa parou a umas doze jardas de mim. Um pequeno ponto de luz brilhou sobre uma volta adicional da curva, e a área cinzenta da praia arenosa estendia-se fraca sob a luz das estrelas. Talvez a umas duas milhas de distância ficava aquele pequeno ponto de luz. Para alcançar a praia eu teria de atravessar as árvores onde as sombras espreitavam, e descer uma ladeira coberta por arbustos espessos.

[83]Eu podia enxergar a Coisa bastante mais distintamente agora. Não era um animal, pois permaneceu ereto. Diante daquilo, eu abri minha boca para falar e descobri que uma fleuma rouca sufocou minha voz. Eu tentei novamente, e gritei, “Quem está aí?” Não houve resposta. Eu avancei um passo. A Coisa não se moveu, apenas reuniu-se. Meu pé atingiu uma pedra. Aquilo deu-me uma ideia. Sem tirar meus olhos da forma negra diante de mim, eu inclinei-me e apanhei esse pedaço de rocha; mas, diante do meu movimento, a Coisa virou-se abruptamente como um cão poderia ter feito, e esgueirou-se obliquamente mais para dentro da escuridão. Então eu lembrei-me de um expediente de estudante contra grandes cães, e enrosquei a rocha dentro do meu lenço de pescoço, e dei a isso uma volta em torno do meu punho. Eu ouvi um movimento adicional para longe, em meio às sombras, como se a Coisas estivesse em retirada. Em seguida, subitamente, minha excitação tensa cedeu; subitamente eu cai em uma transpiração profunda e cai tremendo, com meu adversário encaminhado e esta arma em minha mão.

Passou-se algum tempo antes que eu pudesse convocar resolução para descer através das árvores e arbustos sobre o flanco do promontório para a [84]praia. Finalmente, eu corri; e, enquanto eu emergia a partir da mata sobre a areia, eu ouvi algum outro corpo vindo se espatifar depois mim. Diante disso, eu perdi completamente a minha cabeça com medo, e comecei correndo ao longo da areia. Após o que, ali surgiu o veloz tamborilar de pés macios em perseguição. Eu dei um grito selvagem, e redobrei meu passo. Algumas coisas sombrias, negras, aproximadamente três ou quatro vezes o tamanho de coelhos, iam correndo ou saltitando para fora da praia na direção dos arbustos enquanto eu passava.

Enquanto eu viver, eu deverei lembrar-me do terror daquela perseguição. Eu corri próximo da beira da água, e ouvia, a cada aqui e agora, o respingo que ganharam sobre mim. Muito longe, desesperadamente longe, ficava a luz amarela. E toda a noite à nossa volta estava escura e parada. Respingo, respingo, vinham os pés perseguidores, mais e mais perto. Eu sentia meu fôlego indo-se, pois eu estava bastante fora de forma; ele gritava enquanto eu respirava, e eu senti em dor como uma faca em meu lado. Eu percebi que a Coisa me alcançaria muito antes que eu alcançasse a cercada, e, desesperado e soluçando por meu fôlego, circulei sobre ela e atingi-a enquanto ela se aproximava de mim, - atingi com toda a minha força. A pedra saiu da funda do [85]lenço do pescoço enquanto eu fazia-o. Enquanto eu virava-me, a Coisa, a qual estivera correndo de quatro, colocou-se de pé sobre os pés, o míssil caiu justamente em sua têmpora esquerda. O crânio rangeu alto, e o homem-animal tropeçou em mim, jogou-me para trás com suas mãos, e passou por mim cambaleando para cair precipitadamente sobre a areia como seu rosto na água; e lá ele ainda jaz parado.

Eu não pude me fazer aproximar-me daquele monte negro. Eu deixei-o lá, com a água ondulando ao redor dele, sob as estrelas paradas, e, dando-lhe uma ampla cama, busquei meu caminho na direção do brilho amarelo da casa; e logo, com um efeito positivo de alívio, veio o gemido lamentável do puma, o som que originalmente me impeliu para fora para explorar esta ilha misteriosa. Diante disso, embora eu estivesse fraco e fatigado, eu reuni toda a minha força e comecei a correr novamente na direção da luz. Eu pensei que ouvi uma voz chamando-me.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.69-85. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/69/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo IV

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[65]Quando o balão do duque se aproximou da casa de Sir Ambrose, os seus ocupantes perceberam o respeitável baronete caminhando com grandes passos apressados na direção do monte do telégrafo, o qual dominava uma visão extensão da região circundante, seguido por Edric, o Padre Morris e o Dr. Entwerfen, quem parecia inutilmente tentando persuadir-lhe a diminuir uma velocidade tão pouco adequada para sua idade avançada.

Não fale comigo para ir devagar, quando eu estou esperando notícias de meu querido Edmund!” Exclamou Sir Ambrose, continuando com seu passo rápido – o coração dele batendo com orgulho paternal, e seu semblante irradiando exultação.

[66]“Eu também estou ansioso por ouvir sobre meu irmão,disse Edric, “mas, após a informação que nós já recebemos pelo despacho telegráfico, parece-me que nós temos pouco mais a aprender de importância.

Edric, você não é um pai, e não pode ter ideia da ansiedade de um pai,” respondeu Sir Ambrose, apressando-se para o monte, como se ele esperasse que a rapidez do seu movimento propiciasse algum alívio da impaciênica de sua mente; enquanto que o grupo do duque, vendo o ponto para o qual ele estava se apressando, abriu as válvulas do seu balão e fez preparações para descer no mesmo ponto.

O duque e Sir Ambrose sempre ficavam felizes de se encontrarem, mas, visto que a ocasião presente era mais do que de interesse ordinário, assim eles agora se comprimentaram com mais do que prazer ordinário. O duque sempre tinha sido calorososamente afeiçoado a Edmund, e sua voz efetivamente tremia com agitação enquanto ele exclamava: -

Bem, meu velho amigo, você percebe que o seu rapaz valente ainda está determinado em nos manter vivos. Nosso [67]sangue estagnaria em nossas veias, se ele não nos desse um estímulo de vez em quando para nos acordar. Mas o que o jovem maroto diz de si mesmo? Eu espero que ele não esteja machucado?

Ele nunca menciona a si mesmo,” respondeu Sir Ambrose, lágrimas brilhando em seus olhos, enquanto ele pressionava calorosamente a mão de seu amigo na sua própria; “Edmund ama o seu país muito devotamente para pensar em si mesmo quando ele está engajado no seu serviço.”

Bem, bem, está tudo certo,” exclamou o duque, “ele é um rapaz valente, isso é certo.”

Sir Ambrose não respondeu, pois agora ele tinha chegado ao pico do monte, e estava muito ansiosamente olhando em volta, em cada direção, para prestar atenção à observação do seu amigo.

Naqueles dias, o antigo método de transmissão do correio tendo sido considerado lento demais para um povo tão iluminado, um esquema engenhoso tinha sido inventado, pelo qual as cartas eram colocadas em bolas e disparadas por canhões a vapor, de lugar para lugar; cada cidade e distrito tendo uma peça de toile metalique, ou cabo entrelaçado, suspenso no ar, [68]de modo a formar um tipo de rede para controlar o progresso da bola, e sendo provido de um canhão para a enviar para longe novamente, quando as cartas pertencentes àquela vizinhança devessem ter sido extraídas; enquanto que, para prevenir acidente, as bolas de cartas do correio eram sempre precedidas por uma de uma similar descrição, feita de madeira fina, com um buraco em seu lado, o qual, coletando o vento conforme ela passava juntamente, produzia um barulho sibilante, para advertir às pessoas para se manterem fora do caminho.

O monte no qual agora Sir Ambrose estava de pé, comandava uma vista extensa, e a cena que ele apresentava era bela ao extremo. De um lado, inumeráveis campos de grama, ricamente arborizados, e apenas divididos uns dos outros por invisíveis cercas de ferro, apareciam como um vasto parque; enquanto que, no outro lado, o milho ondulante, suas cabeças cheias começando a escurecerem ao sol, davam um rico tom brilhante à paisagem. Mas Sir Ambrose não pensavam na paisagem, ele nem mesmo via os riachos murmurantes e arvoredos sombrios, os vales sorridentes e as colinas dilatadas, que constituiam sua beleza; não, a atenção dele [69]estava inteiramente ocupada por um pequeno ponto preto que ele há pouco descobrira na borda do horizonte. Em inquietação sem fôlego, os olhos dele quase se soltando de seus encaixes, ele inclinou-se ansiosamente para frente, olhando fixamente para aquela pequena e inicialmente quase imperceptível partícula. Ela gradualmente se tornou maior e maior – ela rapidamente se aproximava! E, em uns poucos segundo, um barulho leve zumbiu através do ar conforme as bolas há muito esperadas zuniam passado ele.

A agitação de Sir Ambrose era excessiva; com membros trêmulos e lábios vívidos, ele apressou-se para a estação mais próxima, a qual, afortunadamente, estava perto à mão, e ao redor da qual vários de sua casa estavam reunidos, em sua impaciência para ouvirem as novidades. Sir Ambrose não podia falar, mas a pessoa cuja competência era ordenar as cartas adivinhou a missão dele e, abrindo a bolsa, ofereceu o tesouro ardentemente aguardado. Arquejando por ar, Sir Ambrose ansiosamente tentou pegá-lo, mas as mãos dele forma inconstantes para a tarefa, e a violência de sua emoção dominou-o, e, após um breve, mas infrutífero, grande esforço, ele caiu sem sentidos no chão.

[70]A confusão produzida por esse incidente inesperado foi indescritível. O velho duque caminhava para cima e para baixo, apertando as mãos e exclamando, “O que nós devemos fazer? O que se tornará de nós?” Enquanto o resto do grupo tentava dar assistência a Sir Ambrose.

Afeição parental,” disse Davis, quem tinha a infeliz propensão para fazer longos discursos precisamente no momento quanto ninguém provavelmente estava prestando atenção a ele; “a afeição parental tem sido universalmente reconhecida por todos os escritores, igualmente antigos e modernos, ser uma das mais fortes paixões da alma, e as circunstâncias mais alteradas poderiam ser produzidas da energia surpreendente desse sentimento universal.”

Pelo amor de Deus, ajudem-me a levantar meu pai,” exclamou Edric: “Deem-lhe ar, ou ele morrerá!”

A paciência,” continuou Davis, “é necessária em todas as coisas, e, talvez, seja uma das mais utéis e estimadas qualidades da vida. Ela possibilita-nos suportar, sem retroceder, os mais amargos males da vida que podem nos assaltar. Sem a paciência, a filosofia nunca teria feito aquelas maravilhosas [71]descobertas que subjugam a natureza ao nosso jugo.”

Tragam-me um pouco de água,” exclamou Edric, “ou ele morrerá diante de nossos olhos.”

Parece-me,” disse um trabalhador, quem tinha estado reparando um escavadeira a vapor em um campo próximo, e quem agora estava inclinando-se sobre o seu trabalho, e olhando gravemente para tudo que se passava, sem tentar oferecer a menor assistência;- “Parece-me que seria altamente inadequado administrar o fluido aquoso no seu estado natural de frigidez, sob as circunstâncias existentes. A presente suspensão da animação, sob a qual Sir Ambrose labuta, evidentemente, é ocasionada pela carência de circulação. Agora, como é propriedade das substâncias líquidas quentes, em vez das frias, suprir o estimulante necessário para a reprodução da circulação, eu opino que a água quente responderia ao propósito melhor do que a fria.”

Entrementes, o Padre Morris trouxera um pouco de água de uma fonte vizinha, e, jogando-a no rosto do paciente, Sir Ambrose abriu os olhos; por alguns momentos ele encarou [72]selvagemente em torno dele, mas, tão logo ele começou a lembrar-se do que se passara, ele implorou ao Padre Morris para lhe dar a sua carta ardentemente desejada.

Você ainda não está estável para a ler,” disse o Padre Morris, compassivamente; “Eu temo que o esforço será demais para você.

Oh, dê-me! Dê-me!” exclamou o pobre velho; “se uma centelha de misericórdia resta em sua alma, não me mantenha nesta agonia!”

Foi impossível resistir ao tom de angústia real que acompanhava essas palavras, e o Padre Morris colocou a carta nas mãos dele. - Sir Ambrose tomou-a ansiosamente; embora ele tremesse tanto que ele escassamente pôde quebrar o selo. Finalmente, ele abriu-a e encarou o seu conteúdo, mas ele não pôde ler uma palavra; ele afastou suas lágrimas e esfregou os olhos impacientemente – tudo foi em vão – a escrita ainda estava ilegível – “Leia! Leia!” clamou ele, em uma voz trêmula com agitação, “Por amor de Deus, leia! - Ninguém se apiedará de mim?”

O Padre Morris tomou a carta e leu-a em voz alta, enquanto Sir Ambrose se saciava – os olhos dele elevados ao céu, as mãos apertadas e as [73]lágrimas rolando suas bochechas envelhecidas abaixo, ouvindo as palavras dele, e bebendo cada silaba. Após fornecer um relato circunstâncial da batalha, e assegurando ao seu pai que ele não tinha sido ferido, Edmund prosseguiu desta maneira. “A Rainha escreveu-me uma carta de aprovação com sua própria mão, e tem sido graciosamente agradável para significar a intenção dela de me honrar com uma entrada triunfal em Londres; da mesma maneira, ela conferiu-me cartas de nobreza. A bondade de minha soberana produz uma impressão profunda sobre meu peito: mas quanto ao resto, eu asseguro a você que nem os aplausos da multidão, nem o privilégio de escrever Lorde antes de meu nome, podem propiciar um momento de satisfação para um coração que apenas anseia pelo prazer de ver novamente aqueles que são mais queridos por ele; nem deverei eu desfrutar de meu triunfo a menos que aqueles que eu amo estejam presentes para o conceder entusiasmo.”

Eu parabenizo você, meu querido senhor!” exclamou o Padre Morris, tão logo ele terminara; “eu parabenizo você a partir de minha íntima alma!”

Passe para o triunfo dele!” exclamou o duque, esfregando as mãos, em êxtase; “Sim, sim, isso [74]nós desejamos; não desejamos, meu velho amigo? Deus o abençoe! Eu estou feliz que ele não está ferido, contudo. E assim você vê, a despeito de toda a glória dele, ele não pode ser feliz sem nós. Quão gentilmente ele diz isso! - ‘Nem toda a aprovação de minha soberana, os elogios do povo’- nem – nem – o que é? Eu não me lembro das palavras exatas, mas eu conheço qual era o sentido, que ele não poderia ser feliz sem nós, e, Deus o abençoe! Eu estou certo de que eu estou tão feliz quanto ele pode estar, diante do pensamento de o ver novamente.

Sir Ambrose não conseguiu responder, mas as lágrimas correram abaixo de suas bochechas envelhecidas como a chuva, enquanto o coração dele respirava uma silenciosa oferta de ação de graças para o Ser Todo-poderoso quem, dessa maneira, concedera a vitória ao filho dele; e os lábios dele murmuraram alguns sons inarticulados de êxtase; enquanto Elvira e Rosabella misturavam as lágrimas delas com as dele, pois frequentemente a alegria torna-se dolorosa, e busca alívio como o pesar.

Agora o grupo lentamente retornava para a mansão de Sir Ambrose, tão completamente ocupados na discussão da carta de Edmund, quanto a estarem completamente inconscientes de que Edric não os acompanhara; [75]todavia tal era o caso. O coração do jovem filósofo dilatara-se quase à explosão, enquanto ele ouvira a leitura da carta de seu irmão, e agora ele se apressava para dentro de um bosque espesso, colocando-se de parte em um romântico riacho, o qual formava parte dos terrenos de prazer de Sir Ambrose.

Quase sem saber para onde ele estava indo, Edric meteu-se entre as árvores e jogou-se sobre um banco de areia coberto por grama sob a sombra delas, sobre a borda do riacho. O múrmurio gentil da água concedeu-lhe uma sensação deliciosa de frescura refrescante, particularmente agradável após o calor do dia; e Edric deita-se, os olhos fixos sobre as ondas brilhantes enquanto elas dançavam sob os raios de sol, com suas mãos pressionando firmemente as têmporas latejantes, tentando em vão analisar as novas e estranhas emoções que lutavam por domínio em seu peito. Gradualmente ele se tornou mais calmo; e, embora o coração dele ainda batesse com sentimentos que ele não podia explicar completaemnte, ele sentiu-se acalmado pelo riacho suavemente deslizante; e as paixões tempestuosas de seu peito pareciam embaladas à tranquilidade [76]conforme uma mão caía descuidamente ao seu lado, e a outra meramente suportava a cabeça não mais tensionada.

Não foi a inveja que causou as emoções de Edric; mas vergonha e indignação queimavam em seu seio quando ele se lembrava de que ele estava desperdiçando os seus dias em obscuridade comparativa, enquanto que o irmão dele, apenas uns poucos anos mais velho do que ele mesmo, estavam enobrecendo o nome legado a ele por seus ancestrais.

E eu também não posso me tornar famoso?” pensou ele, seu coração inchando com emulação.Embora eu abomine a profissão de um soldado não há outros caminhos abertos para eu obter eminência? Por que eu não deveria me esforçar? Eu não mais permanecerei em indolência. Também eu me provarei digno de meus ancestrais, e mostrarei ao mundo que o sangue exaltado dos Montagues não degenerou em minhas veias!Os olhos dele brilharam com o pensamento, e ele quase se ergueu, como se ansioso para se colocar em execução imediata. Contudo, um momento de reflexão restaurou-o a si mesmo, e ele não pode evitar de sorrir diante de sua própria loucura. “E [77]ainda eu me chamo de um filósofo,” pensou ele: “Ai de mim! Ai de mim! Quão pouco nós conhecemos a nós mesmos, pois, afinal, a busca do conhecimento pelo seu próprio bem é o único emprego digno de um homem de sentido: e o apluso transitório da multidão, está abaixo dele aceitar. A natureza é a deusa que eu adoro; e, se devesse ser concedido a eu explorar os seus mistérios, eu deveria ser o mais feliz do gênero humano. Mas por que eu deveria passar minha vida em desejos ansiosos, nunca destinados a serem realizados? Os eventos de hoje apenas provaram claramente o pouco valor que a minha companhia é para meu pai: ele está ocupado demais com meu irmão até para pensar em mim, e, estivesse eu ausente, eu logo deveria ser esquecido. Então, por que eu não deveria viajar e satisfazer esses desejos inquietos que corroem meu coração e envenenam cada prazer? Eu não nasci para descansar contente com a rotina aborrecida da vida doméstica, e detesto hipocrisia: eu procurarei meu pai e, explicando meus sentimentos reais, partirei para o Egito imediatamente.”

Satisfeito com essa resolução, Edric ergueu-se e caminhou com vivacidade na direção da mansão de seu pai, [78]com todo aquele vigor interno que a consciência de alguém de ter alcançado uma conclusão é certo de conceder; e o qual, talvez, seja uma das sensações mais agradáveis que podem ser experienciadas pela mente humana, como aquela de suspense ou indecisão, indubitavelmente, é uma das mais desagradáveis.

Edric encontrou seu pai e o duque ativamente ocupados em consulta sobre sua jornada pretendida, a qual era um evento nas vidas de ambos eles; pois como, desde que a adoção universal de balões, as viagens eram realizadas sem ou problema ou despesa, os ricos perderam todo incentivo para as empreender, e era raro para um homem de posição social abandonar sua mansão familiar a menos que ele tivesse alguma posição na corte.

Eu tenho um palácio em Londres,” disse o duque, “o qual, eu espero, você tornará sua casa; embora ele tenha estado abandonado por tanto tempo que eu duvido de se ele será adequado para a sua recepção.

Não se aflija sobre fazer arranjos para minha família,” respondeu Sir Ambrose; “serão apenas Edric e eu mesmo, e nós podemos mudar-nos com qualquer coisa.”

[79]“De fato, eu não deverei consentir em nenhum de tais arranjos,disse Elvira, quem entrava na sala com Rosabella e Clara Montagu, a sobrinha orfã do baronete, quem tinha sido criada na famila dele; “O que Clara fez para que ela devesse ser excluída da festa?”

Oh, Clara é jovem demais para pensar em tais coisas,” retornou Sir Ambrose, sorrindo.

Ela não é,” exclamou o duque;eu arranjarei isso; você é o meu lindo botão de rosa?” continuou ele, atraindo a garota sorridente, ruborizada, até os joelhos dele. “Você não deveria gostar de ir para Londres, eh?”

Oh, sim,” exclamou Clara, com toda ânsia e inocência dos quinze anos, pois essa era a idade dela; “muito mesmo, se meu tio não tem objeção.”

Meu querido Sir Ambrose,” disse Elvira, persuasivamente, “suplico que nos satisfaça.”

Bem, bem, nos devemos ver,” respondeu o baronete, de bom humor, sorrindo.

Obrigado, obrigado, meu querido, querido tio!” Exclamou Clara, voando para ele, e quase o sufocando com beijos.

Mas eu ainda não consenti, você sabe.”

[80]“Não, mas eu estou certa de que consentirá, você parece tão bem-humorado.”

Vá, vá, você é uma brincalhona lisonjeira: mas por que você não voltou para casa na última noite, Clara?”

Minha ama estava tão doente, e também choveu: além disso, você sabe, tio, você concedeu-me permissão para parar, se eu desejasse.”

Bem, bem, eu acho que concedi. Isso foi de grande consequência; você sempre fica segura sob o cuidado da Sra. Robson: ela é uma mulher muito respeitável – eu espero que ela esteja melhor?”

Oh, logo ela ficará bem agora. Eu estou indo contar a ela sobre a vitória de Edmund; e ela disse ontem, se ela apenas pudesse ouvir que ele vencera, isso a curaria, se ela estivesse morrendo.”

Vá embora você, então,” disse Sir Ambrose, rindo, “você está sempre em movimento; e harkye, você também pode contar a sua ama que você está indo para Londres.”

O prazer e a gratidão de Clara eram ilimitados, e ela saltou para longe como um jovem gamo para contar a sua ama as notícias alegres, enquanto os olhos de Elvira brilhavam de prazer, conforme ela agradecia calorosamente a Sir Ambrose pela gentileza dele.

[81]O duque também ficou altamente gratificado. “Você também dele levar Abelard e Davis,” disse ele, “pois eu estou certo de que você não ficará feliz sem eles.”

Sir Ambrose confessou que ele não devia; e o duque, sendo como a maioria das pessoas que levavam vidas aborrecidas, monôtonas, encantou-se bastante com um evento que prometia uma pequena mudança, saiu apressado, seguido por suas belas companhias, completamente determinado a aproveitar ao máximo isso.

O coração de Edric palpitou violentamente quando ele se descobriu sozinho com seu pai; o momento pelo qual ele tinha estado tão ardentemente desejando chegara e, contudo, ele estava silente. Ele escassamente tinha tido paciência para esperar o fim da conferência de seu pai com o duque; e, enquanto ela durara, ele tinha estado arranjando e rearranjando mil vezes na mente as frases que ele tinha intenção de usar; contudo, agora, elas pareciam ter desaparecido todas da memória dele, e ele permanecia encarando através da janela aberta, a mente dele sentindo um caos perfeito, e sem ser capaz de se lembrar de uma única palavra que ele se determinara dizer.

[82]Depois de continuar por algum tempo em seu estado de irresolução, ele foi subitamente surpreendido pela exclamação de seu pai, “Bem, Edric, meu querido rapaz, eu estou muito feliz de ter uma oportunidade de falar sozinho com você, visto que eu tenho alguma coisa de importância para comunicar.”

A voz de Sir Ambrose soou dura e abrupta nos ouvidos de seu filho, e Edric sentiu-se incapaz de dizer uma única palavra em resposta.

Qual é o problema?” exclamou Sir Ambrose, após uma pausa breve; “certamente você não está doente? Edric, meu querido rapaz, fale; deverei eu convocar o Dr. Coleman?”

Oh, não, não!” Exclamou Edric, fracamente; “Eu não estou doente, eu asseguro a você.”

Qual é o problema, então?” Prosseguiu Sir Ambrose, impacientemente; “talvez você queira algum novo instrumento filosófico, e você não queira o pedir, porque você conhece o estado deficiente de minhas finanças. Mas não se aflija por causa disso, pois você está a casar-se com uma mulher rica, e então, você satisfazer-se com qualquer coisa que você desejar.”

Casar!” exclamou Edric, em alarme.

[83]“Sim,” retornou seu pai, “há pouco o duque propôs, muito generosamente, que você deve se casar com Rosabella; e que ele concederá a ela uma fortuna igual a que ele concederá a Elvira.”

Mas eu não amo Rosabella, e nada deveria me induzir a casar com ela: eu deverei ficar completamente miserável até de pensar nisso.

Não se casar com Rosabella!” exclamou Sir Ambrose, com extrema admiração.

De fato, eu não posso. Eu estou convencido de que ela me faria miserável, pois nossos temperamentos não se equiparam, e ambos nós deveríamos ser miseráveis. Eu deveria ficar muito triste em causar, quer a você quer ao duque, uma preocupação de momento. Mas em um assunto como esse, o qual interessa à felicidade de minha vida inteira.-”

Não fale comigo, Sir,” exclamou Sir Ambrose, em uma paixão violenta, “eu não quero ouvir nenhuma palavra, Sir – nem uma sílaba: meu filho deverá obdecer às minhas ordens. Vá para o seu quarto, Sir, e prepare-se para se casar com Rosabella imediatamente, ou nunca mais espere ver meu rosto novamente.”

Meu pai querido!” disse Edric, tentando pegar a mão de Sir Ambrose.

[83]Fora, Sir!” exclamou o baronete, sacudindo-o;a obediência pesa muito mais do que palavras. Se eu sou o seu querido pai, você agirá em conformidade com meus desejos; e se você não o fizer, é uma zombaria chamar-me de ‘querido.’”

Eu não posso me casar com Rosabella!

Fosse sempre tão obstinado! Tanta loucura! - O mundo considerará você distraído.”

Eu não me importo com o mundo!” exclamou Edric, impacientemente.

Mas você tem de se importar com o mundo – o mundo não deve ser menosprezado! E enquanto você viver nele, você precisa conformar-se com as opiniões dele. Eu não quero ouvir pessoas dizendo que elas não se importam com o mundo; quando as pessoas pretendem o desprezar, geralmente é porque elas fizeram alguma coisa para ele as desprezar.

Mas, meu querido pai! Você não desejaria que eu sacrificasse minha consciência aos seus ditames.”

E suplique, Sir, o que tem sua consciência a ver com o problema em questão?”

Não deveria eu a sacrificar ao casar com uma mulher que eu sinto que eu nunca poderia amar? Em minha opinião, nada pode ser mais sagrado do que o voto de [84]casamento, e com quais sentimentos eu poderia entrar nesse compromisso solene na presença do Deus Todo-poderoso, convocando-o para o testemunhar, quando eu sei que meu coração está em desacordo com minhas palavras? Minha alma recua com horror diante de tal blasfemia.

Você fala de sua consciência, Edric, - mas, em vez disso, você não deveria dizer suas inclinações? A pessoa de Rosabella não satisfaz sua imaginação, eu suponho; e para gratificar uma veneta caprichosa, você destruiria a felicidade de seu pai, e arruinaria as suas próprias perspectivas para sempre.

Não é da pessoa de Rosabela que eu reclamo; eu reconheço-a ser bela como uma Vênus, e que os talentos dela mesmo excedem os seus encantos pessoais: mas quando eu vejo os negros olhos dela cintilando de fúria, e os lábios dela curvados em uma expressão de orgulho, ódio ou desprezo, eu esqueço-me da beleza dela e penso apenas nas paixões terríveis da alma dela.”

Suas objeções são fúteis, Edric; de qualquer maneira, elas não servem para nada. Você deve casar-se com ela – desculpe-me se está contra a sua inclinação, [85]mas eu não terei minha autoridade disputada: - contudo, como eu sempre fui um pai indulgente, eu não desejo decidir apressadamente, e eu dou a você vinte e quatro horas para se decidir: à expiração de tempo o qual você deverá casar-se com Rosabella ou abandonar minha casa para sempre. Sem resposta, jovem; eu não quero ouvir uma palavra.

Era em vão tentar uma resposta; e Edric deixou a presença do pai dele oprimido por aquele estranho, misterioso, presentimento do mal, o qual, como uma nuvem terrível, escura, sombria e impenetrável, algumas vezes pende sobre nossos pensamentos, pressageia horrores; embora tão vaga e indistintamente, que, como os fantasmas gigantes que nós algumas vezes fantasiamos através da névoa do crepúsculo, os terrores dele pareciam aumentar dez vezes pela muita incerteza que quase os cobre da nossa vista. Misturado com esses sentimentos, estava um de alegria selvagem, sobrenatural. Expulso da casa de seu pai, ele estaria livre para viajar – suas dúvidas poderiam ser satisfeitas – ele poderia, afinal, penetrar nos segredos do túmulo; e, sem restrição, tomar parte do seu tão ardentemente [85]desejado fruto da árvore do conhecimento. Então, nada estaria oculto dele. A natureza seria forçada a entregar os seus segredos para a visão dele – os mistérios dela seriam revelados, e ele se tornaria grade, onisciente, divino. A mente dele, cheia com um caos de pensamentos como esses, o qual ele se esforço em vão para organizar, e qual parecia dilatar o cérebro dele quase até explodir, Edric procurou o escritório do Dr. Entwerfen para informar ao seu digno tutor sobre a mudança que umas poucas curtas horas operaram no destino dele.


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ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century.
London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.65-87. 
Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n79/mode/1up>

TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo VII A Trilha na Floresta (continuação)

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[117]Em uma ocasião, conforme eles trotavam por perto, um faisão surgiu gritando, a partir do tojo, e fugiu diante deles, trilha abaixo. Exatamente depois, Felix, quem anteriormente tinha estado olhando muito cuidadosamente para os abetos à sua direita, subitamente parou, e Oliver, constatando isso, fez o seu próprio cavalo parar, tão rapidamente quanto ele pôde, pensando que Felix desejava apertar sua cilha.

O que é?” ele perguntou, virando-se em círculo em sua sela.

Silêncio!” disse Felix, desmontando; o cavalo dele, treinado para a caça, permaneceu perfeitamente parado, e teria permanecido [118]dentro de umas poucas jardas de distância do local próximo continuamente no momento. Oliver puxou as rédeas para trás, vendo Felix prestes a curvar e encordar o seu arco.

Homens do mato,” sussurou Felix, enquanto ele, tendo ajustado o laço para o encaixe do chifre, sacava uma flecha de seu cinto, onde ele carregava duas ou três, mais prontas à mão do que na aljava em seu ombro. “Eu pensei que vi sinais deles há algum tempo, e agora eu estou quase certo. Permaneça aqui por um momento.”

Ele deu passos para fora da trilha, em meio aos abetos, os quais exatamente ali estavam muito separados, e foi para um mato de salgueiros erguendo-se perto de algum tojo. Ele notara que um pequeno galho na parte exterior do bosque estava estalado, embora verde, e apenas pendia pela casca. O gado do bosque, houvesse eles pastado sobre ele, teria mordiscado as folhas mais macias na extremidade do galho; nem usualmente ele tocam o salgueiro, pois os brotos são amargos e adstringentes. Nem o cervo o toca na primavera, quando eles têm uma escolha tão ampla de comida.

Nada poderia ter quebrado o galho daquela maneira, a menos que fosse a mão de um homem, ou um golpe com uma vara pesada empunhada por uma mão humana. Chegando ao bosque, ele viu que a fratura era muito recente, pois o galho estava perfeitamente verde; ele não se tornara marrom, e a casca ainda estava macia com seiva. Ele não fora cortado com uma faca ou nenhum instrumento afiado; ele fora quebrado por violência rude, e não dividido. A próxima coisa a capturar o olho dele foi a aparência de um galho maior, mais dentro do mato.

[119]Ele não foi quebrado, mas uma parte da casca estava desgastada, e mesmo rasgada do bosque como se pelo impacto de alguma substância pesada, como uma pedra, jogada com grande força. Ele examinou o chão, mas não havia pedra visível, e, ao novamente examinar a casca, ele concluiu que isso absolutamente não tinha sido feito com uma pedra, pois a parte desgastada não estava cortada. O golpe havia sido desferido por alguma coisa sem bordas ou projeções. Ele agora não tinha mais nenhuma dúvida de que o galho menor do lado de fora tinha sido quebrado, e o galho maior do lado de dentro, esmagado pela passagem de uma clava de arremesso de um homem do mato.

Essas, as únicas armas missivas deles, eram comumente feitas de macieias selvagens, e consistem em um cabo muito fino e curto, com uma protuberância grande, pesada e lisa. Com elas, eles podem trazer abaixo caça pequena, como coelhos ou lebres, ou um gamo (até quebrando as pernas de um veado), ou grandes pássaros, como os perus-do-bosque. Movendo-se em segredo e sem barulho dentro de dez jardas, o homem do mato arremesa a sua clava com grande força, e raramente erra o seu alvo. Se não morta de uma vez, a caça está certa de ficar atordoada, e é muito mais facilmente assegurada do que se ferida por uma flecha, pois com uma flecha em sua asa um pássaro grande agitar-se-á ao longo do solo, e, talvez, arrastar-se-á para dentro de junças ou sob arbustos impenetráveis.

Privada de movimento pelo golpe da clava, ela pode, por outro lado, ser capturada sem problema e sem o auxílio de um cão, e, se não morta, é despachada por uma torção dos dedos do homem do mato ou estocada de seu escardilho. O escardilho é, ao mesmo tempo, a sua adaga, sua faca e garfo, seu cinzel, seu alvião e sua goiva. É uma peça de ferro (raramente [120]ou nunca de aço, pois ele não sabe como o endurecer) de aproximadamente dez polegadas de comprimento, e de uma polegada e meia de largura no topo ou na extremidade mais larga, onde ela é formada e afiada como um cinzel, apenas com a extremidade não reta, mas inclinada, e, a partir daí, afunilando-se para uma ponta do outro [lado], a parte pontuda sendo de quatro lados, como um prego.

De fato, supunha-se que o escardilho original fosse formado de um grande prego de ferro trabalhado, tal como os antigos usavam, afiado sobre uma pedra em uma extremiddade, e batido achatado na outra. Esse instrumento tem um cabo no meio, no meio do caminho entre a extremidade do cinzel e o ponto. O cabo é de chifre ou osso (o escardilho sendo colocado através do vazio do osso), alisado para se adequar à mão. Com a extremidade do cinzel ele corta a sua caça e comida; a borda, sendo inclinada, é puxada através da carne e divide-a. Também com essa extremidade ele dá forma a sua clava e armadilhas, e cava as raízes que ele usa. A outra extremidade ele enfia dentro de sua carne como um garfo, ou empurra-a no pescoço de sua caça para a matar e deixar sair o sangue, ou com ela esfaqueia o inimigo adormecido.

A punhalada inflingida pelo homem do mato sempre pode ser distinguida, pois o ferimento é invarialmente quadrado, e dessa forma, uma pista unicamente muito certa frequentemente tem sido proporcionada para o assassino de muitos caçadores desafortunados. Seja no que for que o homem do mato arremessara a clava dele, a clava entrara no bosque de salgueiros, estalando o galho leve e deixando a sua marca sobre a casca do maior. Uma reflexão de momento convenceu Felix de que o homem do mato estivera à caça de um faisão. Apenas há uns poucos momentos um [121]faisão fugira diante deles, trilha abaixo, e, onde havia um faisão, geralmente, haviam vários mais na vizinhança imediata.

Os homens do mato eram conhecidos por serem particularmente apreciadores de faisões, perseguindo-os durante todo o ano sem referência à época de reprodução, e assim continuamente, de tal manteira que se acreditava que eles causavam esses pássaros serem muito menos numerosos, a despeito da vasta extensão das florestas, do que, de outra maneira, eles teriam sido. A partir da aparência fresca do galho estalado, o homem do bosque deve ter passado apenas há poucas horas, provavelmente durante o alvorecer, e, muito provavelmente, esteve escondido àquele momento, quase à mão, na floresta, talvez dentro de uma distância de cem jardas.

Felix olhou cuidadosamente em volta, mas não pôde ver nada; havia árvores, nenhuma delas suficientemente grande para esconder um homem atrás de si, os arbustos de tojo eram pequenos e estavam espalhados, e não havia samambaia o suficiente para esconder qualquer coisa. O olhar mais atento não poderia discernir nada mais. Não havia pegadas no chão; de fato, as secas e mortas folhas e agulhas de abetos dificilmente poderiam ter recebido qualquer marca, e acima, nos abetos, os galhos eram finos, e o céu podia ser visto através deles. Se o homem do bosque estivesse deitado em alguma depressão leve do chão, ou se cobriu a si mesmo com folhas mortas e agulhas de abetos, ou se ele tinha prosseguido e estava a milhas de distância, nada havia para mostrar. Mas, do que fato que ele estivera ali, Felix estava perfeitamente certo.

Ele retornou na direção de Oliver, pensativo e não [122]sem alguma ansiedade, pois ele não gostava da ideia (embora houvesse realmente pouco ou nenhum perigo) dessas bestas humanas selvagens tão próximas de Aurora, ao passo que, tão logo, ele deveria estar tão distante. Dessa maneira ocupado, ele não prestou atenção aos seus passos e, subitamente, caiu em alguma coisa macia sob seus pés, a qual se contorcia. Instantaneamente ele saltou tão longe quanto ele pôde, tremendo, pois ele esmagara uma víbora, e apenas por pouco escapou, por seu salto involuntário e mecânico, do veneno dela.

Sob a quente luz do sol, a víbora, em seu estado prenhe, não se importara em se mover como usual ao ouvir a aproximação dele; ele pisou em cheio nela. Ele apressou-se para fora do lugar, e juntou-se novamente a Oliver em um estado um pouco abalado de mente. Um tal acidente era comum nos bosques, onde o solo arenoso avisava o caçador para ser cuidado, ele pareceu ominoso naquela manhã particular, e, junto com a descoberta dos traços de homem do bosque, destruiu seu senso de beleza do dia.

Ao ouvir sobre a condição dos galhos de salgueiro, Oliver concordou sobre a causa, e disse que eles precisam se lembrar de avisar aos pastores do Barão de que os homens do bosque, quem não eram visto por algum tempo, estavam por perto. Logo depois, ele emergiram dos abetos sombrios e cruzaram um terreno largo e inclinado, quase despido de árvores, onde um incêndio na floresta no último ano varrera a vegetação rasteira. Um crescimento verdejante de grama estava agora brotando. Aqui eles poderiam trotar brandamente lado a lado. A luz do sol despejava-se, e os pássaros cantavam alegremente. Mas ele logo o atravessaram, e limitaram sua velocidade ao entrarem novamente entre as árvores.

[123]Faias altas, com redondos troncos lisos, erguiam-se grossas e próximas umas das outras sobre o chão seco e ascendente; os galhos delas encontravam-se acima das cabeças, formando um contínuo arco verde por milhas. O espaço entre elas estava cheio com mata de samambaias, agora crescendo rapidamente, e a trilha mesma estava verde com musgo. Conforme eles entravam dentro desse lindo lugar, um veado vermelho, assustado de seu pastar, saltava trilha abaixo, seus saltos rápidos levando-o longe como o vento; em outro momento, ele deixou o caminho e saltava entre as samambaias, e era visto apenas em vislumbres, conforme ele passava entre as faias. Esquilos corriam troncos acima enquanto eles se aproximavam; eles podiam ver muitos no chão, entre as árvores, e passavam sob outros nos galhos altos acima deles. Pica-paus moviam-se rapidamente através da avenida.

Logo, Oliver assinalou o flanco longo e magro de um porco cinza, enquanto o animal corria para longe em meio ao matagal. Havia várias clareiras, a partir de algumas das quais eles assustavam alguns veados, cujas caudas apenas eram vistas enquanto eles saltavam para dentro da mata fechada, mas, depois das clareiras, as faias retornaram novamente. As faias sempre formavam a mais bela floresta, faias e carvalhos; e, embora perto do fim de sua jornada, eles lamentaram eles emergiram dessas árvores e viram o castelo diante deles.

O chão subitamente se inclinou para baixo em um vale, além do qual surgiam as Descidas; o castelo erguia-se sobre uma colina verde isolada e baixa, aproximandamente a meio caminho através do valo. Para a esquerda, o rio serpenteava passado; para a direita, a floresta de faias estendia-se tão longe quanto o olho podia ver. A encosta aos pés deles fora limpa de tudo exceto de alguns arbustos de espinheiros. [124]Ela não era cercada, mas um vaqueiro estava ali com o gado a uma meia milha, sentando-se ao pé de uma faia, enquanto o gado pastava abaixo ele.

Abaixo no vale a paliçada começava; ela não larga, mas longa. O cercado estendia-se, à esquerda, até o banco de areia do rio, e a dois campos no outro lado dele. À direita, ele alcançava uma milha e meia ou quase, o todo da qual era visto de cima a partir do ponto através do qual eles passaram. No interior do cercado, as plantações de milho eram verdes e florescentes; cavalos e gado, medas e construções estavam espalhadas em torno dele. A vila ou as cabanas dos servos ficavam sobre o banco de areia do rio, imediatamente além do castelo. Sobre as Descidas, as quais se erguiam por uma milha ou mais do outro lado do castelo, ovelhas estavam alimentando-se; parte da crista era amadeirada e parte aberta. Dessa forma, o vale cultivado e cercado estava fechado em todas as partes com bosques e colinas.

A isolada colina arredondada sobre a qual o castelo se erguia estava ela mesma cercada por uma segunda paliçada; a borda da margem acima dela novamente era defendida por uma forte muralha elevada de pedras e argamassa, com ameias no topo. Não havia torres ou bastiões. Um prédio velho e coberto por hera erguia-se dentro da muralha; ele datava do tempo dos antigos; tinha várias empenas e era coberto por telhas. Essa era a casa de habitação. Os jardins situavam-se na encosta entre a muralha e a paliçada interna. Pacífica como a cena parecia, ela tinha sido o local de batalhas furiosas há não muitos anos. As Descidas inclinavam-se para o sul, onde os Romany e Zingary residiam, [125]e uma vigilância atenta era mantida igualmente a partir da muralha e a partir das colinas além.

Eles agora cavalgavam a encosta para baixo e, em poucos minutos, alcançaram a barreira ou porta de entrada na paliçada externa. Eles tinham sido observados, e a guarda convocada pelo guardião, mas, conforme se aproximavam, eles foram reconhecidos, e o portão aberto diante deles. Caminhando com seus cavalos, eles cruzaram-no para a colina, e foram tão facilmente admitidos ao segundo cercado. No portão da muralha, eles desmontaram, e esperaram enquanto o guardião transmitia a inteligência da chegada deles para a família. Um momento depois, e o filho do Barão avançou a partir da varanda e, a partir de uma janela aberta, a Baronesa e Aurora acenaram para eles.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.117-125. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/117/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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