A Raça Vindoura - Capítulo IX

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[53]Não foi por algum tempo, até que, por transes repetidos, se assim eles tem de ser chamados, minha mente tornou-se melhor preparada para trocar ideias com meus animadores e, mais completamente, compreender diferenças de maneiras e costumes; no início [tão] estranhos para minha experiência para serem apreendidos por minha razão, que eu tive de ser capacitado a reunir os detalhes seguintes, concernentes à origem e história desta população subterrânea, como parte de uma grande raça chamada Ana.

De acordo com as tradições mais primitivas, os progenitores distantes da raça uma vez ocuparam um mundo acima da superfície da qual os descendentes deles habitavam. Mitos daquele mundo ainda eram preservados nos arquivos deles, e nesses contos existiam lendas de uma cúpula abobadada na qual as lâmpadas eram acesas por mãos não humanas. Mas semelhantes [54]lendas eram consideradas pela maioria dos comentadores como fábulas alegóricas. De acordo com essas tradições a terra mesma, à data na qual as tradições ascenderam, não estava realmente em sua infância, mas nos sofrimentos e no trabalho de transição de uma forma de desenvolvimento para outra, e sujeita a muitas revoluções violentas da natureza. Através de uma de tais revoluções, aquela porção do mundo superior habitada pelos ancestrais desta raça fora submetida a inundações, não rápidas, mas graduais e incontroláveis, nas quais tudo, salvo um escasso remanescente, foi submerso e perecera. Quer este seja um registro de nosso Dilúvio sagrado e histórico, ou de algum mais primitivo disputado por geologistas, eu não finjo conjecturar; embora, de acordo com a cronologia deste povo como comparada com aquela de Newton, deve ter sido muitos milhares de anos antes do tempo de Noé. Por outro lado, o relato destes escritores não se harmoniza com as opiniões mais em voga entre as autoridades geológicas, na medida em que coloca a existência da raça humana sobre a terra em datas muito anteriores àquelas atribuídas à formação terrestre adaptada à [55]introdução de mamíferos. Um bando da raça malfadada, assim atacado pela Inundação, tomara refúgio, durante a marcha das águas, em cavernas no meio das rochas mais elevadas, e, vagando através desses vazios, eles perderam a visão do mundo superior para sempre. Verdadeiramente, a face inteira da terra mudara através desta grande reviravolta; terra transformara-se em mar – mar em terra. Mesmo agora, nas entranhas da terra interior, eu fui informado como um fato positivo, podem ser descobertos relíquias de habitação humana – habitação não em cabanas e cavernas, mas em vastas cidades cujas ruínas atestam a civilização de raças que floresceram antes da época de Noé, e [que] não podem ser classificadas com aqueles gêneros aos quais a filosofia atribui o uso do sílex e a ignorância do ferro.

Os fugitivos carregaram com eles o conhecimento das artes que ele praticaram acima do solo – arte da cultura e civilização. O primeiro desejo deles deve ter sido o de suprir abaixo da terra com a luz que eles perderam acima dela; e, em nenhum momento, mesmo no período tradicional, as raças, das quais aquela na qual eu resido temporariamente [56]formava uma tribo, parecem ter sido ignorantes da arte de extrair luz de gases, do manganês ou do petróleo. Eles foram acostumados em sua antiga situação a lutar contra as forças brutas da natureza; e realmente a batalha prolongada que eles travaram com o seu Oceano conquistador, o qual levara séculos em sua expansão, estimulara a habilidade deles em conter águas em represas e canais. Eles deveram a preservação deles nesta nova morada a esta habilidade. “Por muitas gerações,” disse meu anfitrião, com um tipo de desdém e horror, “é dito que aqueles antepassados primitivos teriam degradado sua classe e encurtado suas vidas ao comer a carne de animais, muitas variedades dos quais tinham, como eles mesmos, escapados do Dilúvio e buscado abrigo nos vazios da terra; outros animais, supostos desconhecidos do mundo superior, esses vazios mesmos produziram.”

Quando o que nós devemos chamar de era histórica emergiu do crepúsculo da tradição, os Ana já estavam estabelecidos em comunidades diferentes e atingiram um grau de civilização muito análogo àquele que as mais avançadas [57]nações da terra desfrutam agora. Eles estavam familiares com a maioria de nossas invenções mecânicas, incluindo a aplicação do vapor bem como o gás. As comunidades estavam em feroz competição uma com a outra. Elas tiveram seus ricos e seus pobres, tiveram oradores e conquistadores [e] fizeram guerra seja por um domínio ou uma ideia. Embora os vários estados reconhecessem várias formas de governo, instituições livres estavam começando a preponderar: assembleias populares aumentaram em poder; repúblicas logo se tornaram comuns; a democracia pela qual os mais iluminados políticos europeus esperavam ansiosamente como o objetivo extremo do avanço político, e que ainda prevalecia entre outras raças subterrâneas, a quem eles desprezavam como bárbaros, a mais sublime família de Ana, à qual pertencia a tribo que eu estava visitando, olhava para trás como um dos experimentos ignorantes e cruéis que pertencem à infância da ciência política. Era a época da inveja e do ódio, das paixões ferozes, das constantes mudanças sociais mais ou menos violentas, do conflito entre classes, da guerra entre estado e estado. Esta fase da sociedade durou, contudo, por alguns séculos, e foi [58]finalmente encerrada, ao menos entre as populações mais nobres e mais intelectuais, pela descoberta gradual dos poderes latentes armazenados no fluido que a tudo permeia que eles denominam de Vril.

De acordo com o relato que eu recebi de Zee, que, como uma professora erudita do Colégio dos Sábios, estudara esses assuntos mais diligentemente do que qualquer outro membro da família de meu anfitrião, esse fluído é capaz de ser edificado e disciplinado na ação mais poderosa sobre todas as formas de matéria, animada ou inanimada. Pode destruir como o lampejo do relâmpago. Porém, aplicado diferentemente, pode reabastecer ou revigora a vida, curar e preservar, e nele eles fiam-se principalmente para a cura de doença, ou melhor possibilitar ao organismo físico reestabelecer o devido equilíbrio de seus poderes naturais e, desse modo, curar a si mesmo. Por meio de sua ação eles abrem caminho através das substâncias mais sólidas e abrem vales para cultivo através das rochas da vastidão subterrânea deles. Dele eles extraem a luz que abastece suas lâmpadas, achando-o mais estável, mais suave e mais saudável do que os outros materiais inflamáveis que eles antigamente usaram.

[59]Mas os efeitos da alegada descoberta dos meios para direcionar a força mais terrível do vril foram principalmente notáveis na influência deles sobre a organização social. Conforme aqueles efeitos tornaram-se familiarmente conhecidos e habilmente administrados, guerra entre os descobridores de Vril cessou, pois eles trouxeram a arte de destruição a perfeição tal como para anular toda superioridade em números, disciplina e habilidade militar. O fogo alojado no oco de um bastão direcionado pela mão de uma criança podia destruir a fortaleza mais forte, ou abrir seu caminho abrasador da vanguarda à retaguarda de uma tropa em batalha. Se exército encontrasse exército, e ambos tivessem o comando desta operação, podia ser apenas a aniquilação de cada um. Portanto, a era da guerra foi embora; mas, com a cessação da guerra, outros efeitos impactando a situação social logo tornaram-se aparentes. O homem ficou tão completamente à mercê do homem, cada um que ele encontrasse sendo capaz, se assim desejando, de matá-lo em um instante, que todas as noções de governo pela força desapareceram gradualmente dos sistemas políticos e formas de lei. É somente pela força que vastas comunidades, dispersas através de grandes distâncias no espaço, podem ser [60]mantidas juntas. Mas agora não há mais ou a necessidade de autopreservação ou o orgulho de engrandecimento para fazer um estado desejar preponderar em população sobre outro.

Portanto, os descobridores do vril, no curso de umas poucas gerações, pacificamente dividiram-se em comunidades de tamanho moderado. A tribo em meio a qual eu caíra era limitada a 12.000 famílias. Cada tribo ocupava um território suficiente para todas as suas carências e, em períodos estabelecidos, o excedente populacional partia para procurar um reino próprio. Lá não surgia a necessidade para qualquer seleção arbitrária desses emigrantes; havia sempre um número suficiente que se voluntariava para partir.

Esses estados subdivididos, insignificantes se nós considerarmos seja território ou população, - todos pertencem a uma vasta família comum. Eles falam a mesma linguagem, embora os dialetos possam diferir levemente. Eles casavam-se entre si assim como mantinham as mesmas leis e costumes comuns. Uma ligação tão importante entre as várias comunidades era o conhecimento de vril e a prática de suas operações, de modo que a palavra A-Vril era sinônimo de civilização e Vril-ya, [61]significando “As Nações Civilizadas”, era o nome comum pelo qual as comunidades empregando os usos de vril distinguiam a si mesmas daqueles Ana que ainda estavam em um estado de barbarismo.

O governo da tribo da Vril-ya da qual que eu estou tratando era aparentemente muito complicado, [mas era] realmente muito simples. É baseado em um princípio reconhecido em teoria, embora pouco executado na prática acima do solo – a saber, que o objeto de todos os sistemas de pensamento filosófico tende à obtenção da unidade, ou à ascensão através de todos os labirintos intervenientes à simplicidade de uma única primeira causa ou princípio. Assim, em política, até escritores republicanos concordaram que uma autocracia benevolente asseguraria a melhor administração, se houvesse quaisquer garantias para sua continuação, ou contra seu abuso gradual dos poderes outorgados a ela. Esta comunidade singular portanto elege um único magistrado supremo intitulado Tur; ele mantêm seu cargo público nominalmente durante a vida, mas raramente ele poderia ser induzido a mantê-lo após a primeira aproximação da velhice. De fato, nesta sociedade, não há nada para induzir qualquer um de seus membros a cobiçar as solicitudes do cargo. Nem honras, nem insígnia de posição mais elevada [62]eram atribuídas a ele. O magistrado supremo não era distinguido do resto por habitação superior ou renda. Por outro lado, os deveres atribuídos a ele eram maravilhosamente leves e fáceis, não requerendo nenhum grau preponderante de energia ou inteligência. Não havendo receios de guerra, não havia exércitos a manter; não sendo um governo de força, não havia polícia a ordenar e dirigir. O que nós chamamos crime era desconhecido das Vril-ya e não havia tribunais de justiça criminal. As raras instâncias de disputas civis eram encaminhadas para arbitragem de amigos escolhidos por qualquer das partes, ou decididas pelo Conselho dos Sábios, o qual será descrito mais tarde. Não havia advogados profissionais e, de fato, as leis deles eram somente convenções amigáveis, pois não havia poder para fazer cumprir as leis contra um ofensor que carregava em seu bastão o poder para destruir seus juízes. Havia costumes e regulamentos com os quais se conformar e, por vários séculos, as pessoas habituaram a si mesmas tacitamente. Se em qualquer caso um indivíduo sentisse tal conformidade difícil, ele deixaria a comunidade e iria para outro lugar. [63]Havia, de fato, quietamente estabelecido no meio deste estado, quase o mesmo acordo que é encontrado nossas famílias privadas, no qual virtualmente dizemos para qualquer membro adulto independente da família que nós recebemos e acolhemos,Fique ou vá, conforme nossos hábitos e regulamentos satisfazem-te ou contrariam-te.” Mas, embora não houvessem lei como as que nós chamamos leis, nenhuma raça acima da superfície é tão observadora da lei. Obediência à regra adotada pela comunidade tornou-se tanto quanto um instinto, como se fosse implantado pela natureza. Mesmo em cada família o líder dela faz um regulamento para sua orientação, o qual nunca é resistido nem mesmo cavilado por aqueles que pertencem à família. Eles têm um provérbio, a concisão do qual é muito perdida nesta paráfrase, Nenhuma felicidade sem ordem, nenhuma ordem sem autoridade, nenhuma autoridade sem unidade.” A suavidade de todo o governo sobre eles, civil ou doméstico, pode ser sinalizada pelas expressões idiomáticas deles para termos tais como ilegal ou proibido – a saber, “não é requisitado para fazer mais ou menos.” Pobreza entre os Ana é tão desconhecida quanto crime; não que propriedade seja mantida em comum, ou que todos sejam iguais [64]na extensão de suas possessões ou no tamanho e luxo de suas habitações. Mas, não havendo diferença de classe ou posição entre os graus de riqueza ou escolha das ocupações, cada um persegue suas próprias inclinações sem criar inveja ou competindo; alguns gostam de um tipo de vida modesto, alguns de um tipo mais esplêndido; cada um faz de si mesmo feliz a seu próprio modo. Devido a esta ausência de competição, bem como ao limite colocado sobre a população, é difícil para uma família cair na dificuldade; não há especulações perigosas, nem emuladores rivalizando por riqueza ou classe superior. Sem dúvida, em cada assentamento, todos originariamente tinha as mesmas proporções de terra repartidas entre eles; mas alguns, mais aventureiros que outros, estenderam suas possessões mais adiante para as selvas limítrofes, ou melhoraram em fertilidade mais abundante a produção dos campos deles, ou entraram em comércio ou intercâmbio. Portanto, necessariamente, alguns se tornaram mais ricos do que outros, mas nenhum se tornou absolutamente pobre, ou sem qualquer coisa que os gostos deles desejassem. Se assim o fizessem, estava sempre em seu poder migrar, ou no pior [dos casos] solicitar, sem vergonha e com [65]certeza da ajuda, ao rico; pois todos os membros da comunidade consideravam a si mesmos como irmãos de uma família unida e afetuosa. Mais sobre este tópico será tratado incidentalmente, conforme minha narrativa prossegue.

A preocupação principal do magistrado supremo era comunicar-se com certos departamentos ativos encarregados da administração de detalhes especiais. O mais importante e essencial de tais detalhes era aquele conectado com a provisão devida de luz. Deste departamento meu anfitrião, Aph-Lin, era o chefe. Outro departamento, que podia ser chamado do estrangeiro, comunicava-se com os fronteiriços estados irmãos, principalmente para o propósito de apuração de todas as novas invenções; e a um terceiro departamento, todas essas invenções e melhorias em maquinaria eram confiadas para julgamento. Conectado a este departamento estava o Colégio dos Sábios – um colégio especialmente favorecido por esses dos Ana que eram viúvos e sem filhos, e por aquelas moças solteiras, dentre as quais Zee era a mais ativa, e, se o que nós pudéssemos chamar de renome ou distinção fosse uma coisa reconhecida por este povo (o que depois eu deverei mostrar [66]que não é), entre as mais renomadas ou distintas. É através das Professoras deste Colégio que esses estudos, que são considerados [como] de mínimo uso na vida prática – como filosofia puramente especulativa, a história de períodos remotos, e ciências tais como entomologia, conchologia, etc. - são cultivadas mais diligentemente. Zee, cuja a mente, ativa como a de Aristóteles, igualmente abraçava os domínios mais amplos e os detalhes minúsculos do pensamento, escrevera dois volumes sobre o inseto parasita que habita em meio aos pelos da pata do tigre1, cujo trabalho era considerado a melhor autoridade neste assunto interessante. Mas as pesquisas das sábias não eram confinadas a esses estudos elegantes ou sutis. Elas compreendem vários outros mais importantes e, especialmente, as propriedades do vril, à [67]percepção do qual a organização mais fina dos nervos delas torna as Professoras eminentemente afiadas. É a partir deste colégio que o Tur, ou magistrado chefe, seleciona Conselheiros, limitados a três, nas raras instâncias nas quais a novidade do evento ou da circunstância confunde seu próprio julgamento.

Há outros departamentos de efeito menor, mas tudo prossegue tão silenciosa e quietamente que a evidência de um governo parece desaparecer completamente e a ordem social ser tão regular e discreta como se fosse uma lei da natureza. Maquinaria é empregada a uma extensão inconcebível em todas as operações de trabalho dentro e fora das portas, e é o objeto incessante do departamento encarregado de sua administração estender sua eficiência. Não há classe de trabalhadores ou servos, mas todos que são necessários para auxiliar ou controlar a maquinaria são encontrados [em meio] às crianças, a partir do momento em que elas deixam o cuidado das mães delas até a idade casável, a qual eles colocam nos dezesseis para as Gy-ei (as mulheres) e vinte para os Ana (os homens). Essas crianças são organizadas em bandos e seções sob seus próprios chefes, cada uma seguindo as atividades nas quais [68]ela esteja mais satisfeita, ou para qual ela sinta a si mesma ajustada. Algumas simpatizam com artesanato, algumas com agricultura, algumas com trabalho doméstico e algumas com os únicos serviços de perigo ao qual a população é exposta. Pois os únicos perigos que ameaçam esta tribo são, primeiro, daquelas convulsões ocasionais no interior da terra, para prever e contra os quais se guardar atarefa-se a máxima ingenuidade deles – irrupções de fogo e água, as tempestades de ventos subterrâneos e gases fugitivos. Nas fronteiras do domínio, bem como em todos os lugares onde tal perigo pode ser percebido, inspetores vigilantes ficam estacionados em comunicação telegráfica com o salão onde sábios escolhidos ocupam-se em turnos para realizar sessões perpétuas. Esses inspetores são sempre selecionados dentre os meninos mais velhos aproximando-se da idade da puberdade, e segundo o princípio de que naquela idade a observação é mais aguda e as forças físicas mais alertas do que em qualquer outra. O segundo serviço de perigo, menos grave, está na destruição de todas as criaturas hostis à vida, ou à cultura, ou mesmo ao conforto dos Ana. Destas as mais formidáveis são os imensos repteis, de alguns dos quais relíquias antediluvianas são preservadas [69]em nossos museus, e certas gigantescas criaturas aladas, meio pássaro, meio reptil. Esses, juntos com animais menos selvagens, correspondem aos nossos tigres e serpentes venenosas, são deixados às crianças mais jovens para caçar e destruir; porque, de acordo com os Ana, aqui crueldade é desejada, e [quanto] mais jovem a criança mais impiedosamente ela destruirá. Há outra classe de animais na destruição da qual discernimento tem de ser usado, e contra a qual crianças de idade intermediária são empregadasanimais que não ameaçam a vida do homem, mas devastam o produto do seu labor; variedades de alce e de corça, e uma criatura menor muito parecida a nosso coelho, embora infinitamente mais destrutiva às colheitas, e muito mais ardilosa em seu modo de depredação. É o primeiro objeto dessas crianças apontadas; domar os mais inteligentes desses animais ao respeito por cercados sinalizados por marcos conspícuos, como cães são ensinados a respeitar uma despensa, ou mesmo a guardar a propriedade do mestre. É somente quando essas criaturas são achadas indomáveis nessa medida que elas são destruídas. A vida nunca é tirada por comida [70]ou por esporte, e nunca poupada quando indomavelmente inimiga aos Ana. Concomitantemente a esses serviços e tarefas físicos, a educação mental continua até que a infância termine. É costume comum, então, passar através de um curso de instrução no Colégio dos Sábios, no qual, além de estudos mais gerais, o pupilo recebe lições especiais em certa vocação ou direção do intelecto que ele mesmo seleciona. Alguns, contudo, preferem passar este período de provação em viajem, ou emigrar, ou estabelecer-se imediatamente em atividades rurais ou comerciais. Nenhuma força é colocada sobre a inclinação individual.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 53-70. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/53/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1O animal aqui referido possui muitas diferenças em relação ao tigre do mundo superior. É maior, e com uma pata mais larga, e ainda mais recuado frontalmente. Ele caça nos lados de lagos e poços, e alimenta-se principalmente de peixes, embora não desaprove qualquer animal terrestre de força inferior que entre em seu caminho. Está tornando-se muito escasso mesmo nas zonas selvagens, onde é devorado pelos repteis gigantescos. Claramente, eu percebo que pertence à espécie do tigre, visto que o parasita animálculo encontrado em sua pata, como aquele encontrado no tigre asiático, é uma imagem miniatura de si mesmo.

A História da Planície Cintilante - Capítulo XVI Aqueles Três seguem em seus Caminhos até a Borda da Planície Cintilante

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[128]Assim a noite consumiu-se animadamente. Eles fizeram Hallblithe deitar-se em um canto da tenda sobre uma boa cama; ele estava cansado e ai dormiu como uma criança. Mas cedo pela manhã eles despertaram-no e, enquanto eles estavam tomando café, começaram a falar com ele sobre sua partida e perguntaram-lhe se ele tinha alguma vaga ideia do caminho através do qual ele devia ir-se embora. Ele disse: “Se eu escapar precisa ser através do caminho das montanhas que muram a terra de um lado para o outro até que elas descem ao mar. Pois, no mar não há embarcação e nem porto; e, bem, eu não tenho conhecimento de nenhum homem da região que se atreva a ou possa levar-me de barco para a terra de meus parentes, ou outro lugar fora da Planície Cintilante. Dizei-me portanto (e eu não peço nada mais de vós); há algum rumor ou memória de uma passagem que abra caminho, através daquela poderosa parede de rocha, para outras terras?”

Disse a donzela: “Há mais do que uma memória ou um rumor: há uma estrada através [129]das montanhas conhecida de todos os homens. Visto que, às vezes, peregrinos terrestres entram na Planície Cintilante por esse meio e, contudo, apenas raramente, [pois] muitos são as aflições e os perigos que atormentam os viajantes naquela estrada. Dos quais tu tinhas muito melhor de reconsideras-te em tempo, permanecer aqui e ser feliz conosco e outros que anseiam extremamente para fazer-te feliz.”

Não,” disse Hallblithe, “não há nada a fazer senão dizer me o caminho e eu partirei imediatamente, abençoando vocês.”

Disse o Sea-eagle: “Mais do que isso nós faremos, ao menos. Possa eu perder a felicidade que alcancei, se eu não for contigo à borda mesma da terra da Planície cintilante. Não deve ser assim, querida?”

Sim, ao menos isso nós podemos fazer,” disse a donzela. Ela pendeu a cabeça como se estivesse envergonhada e disse: “E isso é tudo que tu conseguirás de nos, no máximo.”

Disse Hallblithe: “É suficiente, e eu não pedi tanto.”

Então a donzela ocupou a si mesma; colocou comida e bebida em duas mochilas, tomou uma ela mesma, deu a outro ao Sea-eagle, e disse: “Nós seremos teus carregadores, Oh Lanceiro, e dar-te-emos uma mochila cheia a partir da última casa perto do Deserto do Pavor, pois, quando tu entraste [130]naquele lugar, bem podes achar mantimentos difíceis de obter. Agora, que não demoremos mais, visto que a estrada é cara a ti.”

Então eles partiram a pé, pois naquela terra os homens eram lentos para sentir cansaço e, virando na colina ao final do bosque, passaram por uma região irregular e chegaram mesmo a uma casa na entrada de um longo vale, com lados altos e de declinação acentuada, os quais pareciam, por assim dizer, fender a região do pequeno vale na qual outrora eles tinham viajado. Naquela casa eles dormiram bem hospedados por sua gente. Na próxima manhã, eles tomaram seu caminho no vale abaixo e a gente da casa ficou à porta para assistir a partida deles, pois eles contaram aos viajantes que eles viajaram apenas um pouco do caminho naquela direção e não sabiam de ninguém que usara aquela estrada.

Então aqueles três desceram o vale na direção sul o dia todo, sempre escalando mais alto conforme iam. O caminho estava agradável e fácil, pois eles passavam por relvados belos, lisos e cobertas de grama entre as encostas das colinas, ao lado de um claro córrego ruidoso que corria em direção ao norte. Às vezes havia pequenas matas de árvores altas, carvalho pela maior parte, e às vezes matas de espinheiros, madressilvas e outras árvores semelhantes: de modo que eles podiam descansar bem sombreados onde quisessem.

Eles não passaram por nenhuma casa de homens, nem chegaram a nada semelhante à noite, mas deitaram-se para dormir em [131]uma mata de espinheiros e madressilvas, descansaram bem e, no dia seguinte, eles levantaram-se cedo e seguiram em seus caminhos.

Neste segundo dia, conforme eles iam, as encostas em cada mão tornavam-se mais baixas, até que finalmente elas extinguiram-se em uma ampla planície, além da qual no alto-mar sul as montanhas erguiam-se imensas e descobertas. Esta planície também era coberta por grama e tomada por árvores e matas aqui e ali. Aqui eles veem bastante animais selvagens, como veado e pinote, cabrito-montês e suíno. Além disso, um leão saiu de um matagal próximo a eles, enquanto eles iam, e ficou encarando-os; de modo que Hallblithe olhou para suas armas e o Sea-eagle pegou uma grande pedra com a qual lutar, estando desarmado; mas a donzela riu e saltitou levemente em seu caminho com seu vestido preso à cintura, e a fera não lhes deu mais atenção.

Fácil e suave foi o caminho deles através desta agradável vastidão, e claro de ver, embora apenas pouco usado e, antes do cair da noite, após eles terem ido por um longo percurso, eles chegaram a uma casa. Não era grande nem alta, mas era construída muito forte e razoavelmente de bom silhar: sua porta estava fechada e da jamba dali pendia uma corneta. A donzela, que parecia saber o que fazer, colocou sua boca na corneta e soprou. Em pouco tempo, a porta foi aberta e um grande homem vestido em vermelho escarlate pôs-se de pé ali; ele não tinha [132]armas, mas era um tanto ríspido de aspecto. Ele não falou, mas permaneceu aguardando a palavra; então a donzela aproveitou e disse: “Não és tu o Guardião da Casa Mais Distante?” Ele disse: “Eu sou.”

Disse a donzela: “Nós podemos ser hóspedes aqui esta noite?”

Ela disse: “A casa está aberta para vós, com tudo que têm de provisões e equipamento. Tomai o que vós desejais e usai o que vós desejais.”

Eles agradeceram-lhe; mas ele não atentou para os agradecimentos deles e afastou-se. Assim eles entraram e encontraram a mesa posta em um belo salão de pedra entalhada e pintado muito vistosamente. Então eles comeram e beberam ali, Hallblithe ficou de bom coração e o Sea-eagle e sua mulher estavam felizes, embora eles olhassem suave e timidamente para Hallblithe por causa da separação próxima. Eles não viram homem, na casa salvo o homem em escarlate, que ia e vinha ocupado com seus afazeres, não prestando atenção a eles. Desta forma, quando a noite estava escura, eles deitaram-se nas camas fechadas fora do salão, dormiram e as horas foram sem notícias para eles até que eles despertaram pela manhã.

No dia seguinte, eles levantaram-se, tomaram o café da manhã e depois disso a donzela falou ao homem em escarlate e disse: “Nós podemos encher nossas mochilas com os mantimentos para o caminho?”

Disse o Guardião: “Lá fica a comida.”

[133]Então eles encheram suas mochilas, enquanto o homem olhava. Eles vieram à porta quando estavam prontos e ele abriu-a para eles, não dizendo nenhuma palavra. Mas, quando eles voltaram seus rostos na direção das montanhas, ele finalmente falou, e impediu-os ao primeiro passo. Ele disse: “Para onde? Vós tomais a estrada errada!”

Disse Hallblithe: “Não, pois nós vamos em direção às montanhas e à borda da Planície Cintilante.”

Vós deveis fazer mal de ir para lá,” disse o Guardião, “e eu ordeno-vos desistir.”

Oh Guardião da Casa Mais Distante, por que nós devemos desistir?” disse o Sea-eagle.

Disse o homem escarlate: “Porque meu dever é ajudar aqueles que vão para dentro [em direção] ao Rei, e obstar aqueles que iriam para fora para longe do Rei.”

E se nós fossemos para fora apesar de tua ordem?” disse o Sea-eagle, “tu nos impediria forçosamente?”

Como eu posso,” disse o homem, “já que teu camarada tem armas?”

Vamos em frente, então,” disse o Sea-eagle.

Sim,” disse a donzela, “nós iremos em frente. E saiba, Oh Guardião, que apenas este homem armado tem a intenção de viajar através da borda da Planície Cintilante; mas nós dois devemos voltar para cá novamente e viajar para dentro.”

Disse o Guardião: “Nada é para mim o que [134]vós fareis quando vós estiverdes passado desta casa. Nem deve qualquer homem que saia deste pátio na direção das montanhas jamais voltar para dentro, salvo se ele vier na companhia de recém-chegados à Planície Cintilante.”

Quem deve impedi-lo?” disse o Sea-eagle.

O REI,” disse o Guardião.

Em seguida, houve silêncio por um momento e o homem disse: “Agora, fazei como vós desejais.” E com isso ele voltou-se para trás, entrou na casa e fechou a porta.

Mas o Sea-eagle e a donzela ficaram olhando um para o outro, assim como para Hallblithe. A donzela estava desanimada e pálida, mas o Sea-eagle exclamou: “À frente agora, Oh Hallblithe, já que tu desejas isso, e nós iremos contigo e compartilharemos o que quer que possa acontecer contigo. Sim, até a borda mesma da Planície Cintilante. E tu, Oh amada, por que tu tardas? Por que tu ficas de pé como se teus belos pés tivessem crescido [a partir] da grama?”

Mas a donzela soltou um clamor lamentável, jogou-se no chão, ajoelhou-se diante do Sea-eagle, segurou-o pelos joelhos e disse entre soluçando e chorando: “Oh meu marido e amor, eu suplico-te para desistir, e o Lanceiro, nosso amigo, deve perdoar-nos. Pois se tu fores, eu nunca mais deverei ver-te, visto que meu coração não servirá para ir contigo. Oh desiste! Eu suplico-te!”

[135]E ela arrastou-se sobre o solo diante dele. O Sea-eagle ruborizou e teria falado; mas Hallblithe interrompeu sua fala e disse: “Amigos, fiquem em paz! Pois este é o momento que nos separa. Retornai-vos imediatamente ao coração da Planície Cintilante, vivei lá e sede felizes. Levai minha benção e obrigado pelo amor e ajuda que vós deste-me. Pois, vossa ida adiante comigo deve destruir-vos e beneficiar-me em nada. Seria somente como se o anfitrião trouxesse seus convidados a um campo além de seu pátio, quando o objetivo deles é o fim da terra; e se houvesse um leão no caminho, por que deveria ele perecer pelo bem de sua cortesia?”

Com isso, ele abaixou-se até a donzela, levantou-a e beijou o rosto dela, assim como lançou seus braços ao redor do Sea-eagle e disse-lhe: “Adeus, camarada de bordo!”

Em seguida, a donzela deu-lhe a mochila de mantimentos e desejou-o adeus, chorando intensamente. Ele olhou-os gentilmente por um momento de tempo e, em seguida, afastou-se deles e partiu em direção às montanhas, transpondo com passos largos, mantendo a cabeça erguida. Mas eles não olharam mais para ele, não tendo vontade aumentar seu sofrimento, mas novamente retornaram em seus caminhos sem demora.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.128-135. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/128/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XIII Agora é Caçar

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[89]Na próxima manhã, ele estava de pé cedo, mas estava deprimido e pesado de coração, não esperando por nada mais acontecer do que sucedera nesses últimos quatro dias. Mas, de outra forma seguiu-se; pois, quando ele desceu ao salão, lá estava a Senhora sentada no assento elevado sozinha, envolta somente em um casaco de linho branco. Ela virou a cabeça quando ouviu os passos dele, olhou para ele, cumprimentou-o e disse: ‘Venha aqui, hóspede.’

Então ele foi, pôs-se de pé diante dela e ela disse: Embora até agora tu não foste recebido aqui, e nem considerado, não entrou em teu coração fugir de nós. Para dizer a verdade, isso é bom para ti; pois, fugir para longe de nossa mão tu não pudeste, nem pudeste tu partir sem nosso apoio. [90]Meramente por isto nós podemos agradecer-te; que tu permaneceu aqui [sob] nosso comando, engoliu teu coração através do cansaço pesado de quatro dias e não se queixou. Todavia, eu não posso considerar-te um covarde; tu tão bem constituído e bem-proporcionado de corpo, de olhos tão brilhantes e ousado de rosto. Agora, portanto, eu pergunto-te; tu estás disposto a fazer-me serviço [e] assim merecer tua hospedagem?

Walter respondeu a ela, um pouco vacilante no começo, pois ele estava atônito diante da mudança que chegava sobre ela; pois agora ela falava-lhe de modo amigável, embora de fato como uma grande senhora falaria para um jovem pronto a servir a ela em toda honra. Disse ele: ‘Senhora, eu sou capaz de agradecer-te humilde e sinceramente por aquilo que tu esperas-me fazer-te serviço. Pois nesses dias passados eu detestei o vazio das horas, e nada melhor podia pedir que servir a uma Mestra tão gloriosa em toda honra.’

Ela franziu um pouco a testa e disse: ‘Tu não deves chamar-me de Mestra; há somente alguém que assim me chama, que é minha escrava e tu não és nada disso. Tu deves chamar-me de Senhora e eu deverei ficar bem contente que tu sejas meu escudeiro e, para este momento, tu deves servir-me na arte da caça. Então, pega teu equipamento; [91]teu arco e flechas, e põe tua espada no cinto em tua cintura. Pois, nesta bela terra, alguém pode encontrar feras mais perigosas do que são o pinote ou o veado. Eu vou agora para arrumar-me. Nós partiremos enquanto o dia ainda for jovem; pois assim nós faremos do dia de verão o mais belo.

Ele fez reverência a ela. Ela ergueu-se e foi a seus aposentos. Walter preparou a si mesmo e em seguida a aguardou na varanda. Em menos de uma hora ela saiu do salão e o coração de Walter bateu quando ele viu que a Donzela seguia-a bem atrás, além de que dificilmente pôde ele adestrar seus olhos para não olhar fixa e ansiosamente para sua querida amiga. Ela estava vestida igual a como estava antes, não mudara de nenhuma maneira, salvo [que] o amor perturbou o rosto dela, quando ela primeiro o viu, e ela teve muita dificuldade para dominar-se. No entanto, a Senhora não prestou atenção ao transtorno dela, ou não aparentou ter atentado para ele, até que a face da Donzela estivesse completamente segundo seu costume.

Mas isto Walter achou estranho; que após todo aquele desdém da escravidão da Donzela que ele ouviu da Senhora, e depois de todas as ameaças contra ela, agora a Senhora tornava-se suave e afável com ela; como uma boa senhora para sua boa moça. Quando Walter dobrou os joelhos para ela, ela virou-se [92]para a Donzela e disse:Olha tu, minha Criada, para este belo novo Escudeiro que eu consegui! Ele não será valente na floresta verde? E vê se ele não é bem formado ou não. Ele não toca teu coração, quando tu pensas em toda a aflição, medo e problema da Floresta além do Mundo, da qual ele escapou, para habitar pacificamente nesta pequena terra, bem-amado por ambas, a Senhora e a Criada? E tu, meu Escudeiro, olha um pouco para essa bela Donzela esbelta e diz se ela não te apraz. Tu não julgavas que nós tínhamos alguma coisa tão bela neste lugar solitário?’

Franco e gentil era o sorriso no radiante rosto dela; nem ela pareceu notar qualquer partícula de transtorno no rosto de Walter, nem como ele esforçava-se para manter seus olhos longe da Donzela. Quanto a ela; ela dominara tão completamente sua fisionomia que quiça usava sua face maliciosamente, pois ficou de pé como alguém humilde mas feliz; com um sorriso no rosto, corando e com a cabeça pendida como se acanhada diante de um vistoso jovem, um estranho.

Mas a Senhora olhou para ela gentilmente e disse: ‘Venha aqui, criança, e não tema este jovem franco e livre, que provavelmente te teme [93]um pouco e muito certamente me teme; e contudo somente segundo a maneira dos homens.

E com isso ela tomou a Donzela pela mão e puxou-a para si, apertou-a contra o seu seio, beijou suas bochechas e seus lábios, desfez o laço de seu vestido, desnudou um ombro dela e tirou a saia do pé dela. Então virou-se para Walter e disse: ‘Oh tu, Escudeiro! Não é uma coisa adorável ter crescido entre nossos rudes troncos de carvalho? Que! Tu estás olhando para esse anel de ferro ai? Não é nada, exceto um símbolo de que ela é minha e de que eu não posso ser sem ela.’

Em seguida, ela tomou a Donzela pelos ombros, virou-a como em gracejo, e disse: ‘Agora vai tu e traz aqui os bons cinzentos; pois nós precisamos trazer para casa alguma veação hoje, já que este guerreiro robusto não pode alimentar-se de nada salvo fatias de excelente pão e mel.’

Então a Donzela seguiu seu caminho, cuidando, como Walter achava, para não dar nenhuma olhada lateral para ele. Mas ele ficou lá de pé, envergonhado, tão confuso com toda esta bondade de coração aberto da grande Senhora e com a visão recente da beleza querida da Donzela, que quase passou a pensar que tudo que ouviu desde [94]que chegou à varanda da casa naquela primeira vez foi somente um sonho do mal.

Mas, enquanto ele estava de pé ponderando sobre esses assuntos e encarando [algo] diante de si como alguém desorientado, a Senhora riu no rosto dele, tocou-o sobre o braço e disse: ‘Ah, nosso Escudeiro, é desta forma que agora [que] tu viste minha Criada tu desejavas com uma boa vontade permanecer para trás para falar com ela? Mas lembra-te de tua palavra empenhada a mim ainda agora! E, além disso, eu digo-te isto para teu benefício, agora que ela está fora do alcance da audição; que eu, acima de todas as coisas, levar-te-ei embora hoje. Pois há outros olhos, eles nada impróprios, que, ao mesmo tempo, olham para minha escrava de belo tornozelo e que sabem [que] somente as espadas podiam ficar de fora se eu não tomar o maior cuidado e não te conceder cada partícula de tua vontade.’

Enquanto ela falava e movia-se adiante, ele virou-se um pouco, de modo que agora a borda daquela talhadia de aveleiras estava dentro de seu campo de visão, e achou que uma vez mais viu a coisa marrom amarelada rastejando adiante a partir do matagal. Então, voltando-se subitamente para a Senhora, ele encontrou os olhos dela e pareceu, por um momento de tempo, encontrar um distante outro aspecto neles do que aquele de franqueza e bondade; embora num instante eles mudassem de volta novamente. Ela disse, alegre e docemente: [95]‘Então, Senhor Escudeiro, agora tu estás acordado novamente e podes por pouco tempo olhar para mim.’

Agora, veio-lhe subitamente o pensamento de que, com aquela aparência dela, todo aquele poder cairia sobre ele e a Donzela se ele não dominasse sua paixão, nem fizesse o que ele pudesse para dissimular. Então ele dobrou o joelho para ela e falou corajosamente para ela no estilo próprio dela e disse: ‘Não, mais graciosa das senhoras, de modo algum eu permaneceria para trás hoje visto que tu viajas fora de casa. Mas, se minha fala é embaraçada, ou meus olhos são dispersos, não é por que minha mente está confusa por tua beleza e pela doçura das tuas palavras gentis que fluem de tua boca?’

Ela riu sinceramente com a palavra dele, mas não desdenhosamente, e disse: ‘Isto é bem dito, Escudeiro, e até o que um escudeiro devia dizer para sua senhora soberana, quando o sol está alto em uma bela manhã, e ela, ele e todo o mundo estão felizes.’

Ela ficou de pé bem perto dele enquanto falava, a mão dela estava sobre o ombro dele e os olhos dela brilhavam e cintilavam. Verdade é dizer que [para] escusar a confusão dele era suficiente a visão da verdade; pois certamente nenhuma criatura de modo algum foi moldada mais bela do que ela. Vestida ela estava para a floresta verde, como uma deusa da caça dos [96]gentios; com seu vestido verde reunido ao redor de seu cinto e sandálias nos pés; um arco na mão e uma aljava em suas costas. Ela era mais alta e maior de forma do que a cara Donzela, mais branca de corpo, mais gloriosa e mais brilhante de cabelo; como uma flor das flores devido a beleza e a fragrância.

Ela disse: ‘Tu és de fato um bom escudeiro antes da caça que está adiante e, se tu fores tão bom na arte da caça, tudo será melhor do que bem e o hóspede será bem-vindo. Mas Oh! Aqui vêm nossa Criada com os bons cinzentos. Vai encontrá-la e nós não nos demoraremos mais do que tua tomada da coleira na mão.’

Então Walter olhou e viu a Donzela vindo com dois pares de grandes cães de caça na coleira, esticando contra ela conforme ela chegava junto. Ele correu ligeiramente para encontrá-la, perguntando-se se ele devia ter uma olhada, ou um meio sussurro dela. Mas ela permitiu-o tomar as correias brancas da mão dela, com o mesmo meio sorriso de vergonha ainda posto na face dela, e, passando por ele, veio suavemente até a Senhora, bamboleante como um galho de salgueiro, e pôs-se de pé diante dela, com os braços pendurados de lado. Então a Senhora voltou-se para ela e disse: “Atenta para ti mesma, nossa Criada, enquanto nós estivermos longe. Este jovem tu de fato não necessitas [97]temer, pois ele é bom e leal; mas o que tu deves fazer com o Filho do Rei eu não tenho conhecimento. Ele é um amante verdadeiramente entusiasmado, mas um homem difícil e, ao mesmo tempo, mal é o humor dele e perigoso para ambas, tu e eu. E se tu fizeres a vontade dele, deverá ser ruim para ti; se tu não a fizeres, toma cuidado com ele, e deixe-me, a mim apenas, ficar entre a ira dele e a ti. Eu posso fazer alguma coisa por ti. Ontem mesmo, ele foi direto comigo para ter-te castigada segundo a maneira dos escravos. Mas eu mandei-o silenciar de tais palavras, zombei e escarneci dele, até que ele foi para longe de mim rabugento e com raiva. Assim, atenta para isso, para que tu não caias em nenhuma armadilha de invenção dele.”

Em seguida, a Donzela lançou-se aos pés da Senhora, beijou-os e abraçou-os. Enquanto ela erguia-se, a Senhora colocou a mão levemente sobre a cabeça dela e, em seguida, voltando-se para Walter, clamou: ‘Agora, Escudeiro, deixemos todos esses problemas, ardis e desejos atrás de nós e voemos através da agradável floresta verde, como os Gentios dos dias antigos.’

E com isso, ela levantou a bainha do vestido, até que a brancura dos joelhos dela fosse vista, e partiu rapidamente em direção do bosque que se estendia ao sul da casa, e Walter seguiu, maravilhando-se de sua excelência. Nem se atreveu ele [98]a olhar para a Donzela, pois sabia que ela desejava-o e era para ela somente que ele procurava para sua libertação desta casa de astúcia e mentiras.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.89-98. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/89/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A História da Planície Cintilante - Capítulo XV Outra vez Hallblithe fala com o Rei

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[122]Assim se consumiram os dias e as luas. Agora eram aproximadamente seis luas passadas desde que ele primeiro chegara à Planície Cintilante e, novamente, chegava ao limite do bosque; ouvia e sabia que mais uma vez o Rei estava sentado à porta do pavilhão dele para ouvir com atenção as palavras de seu povo. Ele disse a si mesmo: “Eu falarei ainda de novo com este homem, se de fato ele for um homem; sim, embora ele me transforme em pedra.”

E ele prosseguiu em direção do pavilhão e, a caminho, veio à mente dele o que os homens de seu próprio sangue estavam fazendo aquela manhã. Ele teve uma visão deles, por assim dizer, e viu-os subjugando os bois ao arado e lentamente descendo os acres; como o ferro brilhante desenhava o longo sulco para baixo na terra coberta por restolho; a neblina luminosa pendurada sobre os olmos na calma manhã e a fumaça subia diretamente para o ar, a partir dos telhados dos parentes. E ele disse: “O que é isso? Eu estou condenado à morte esta manhã para que [123]esta visão chegue tão claramente sobre mim, em meio à falsidade desta terra imutável?”

Deste modo, ele chegou ao pavilhão e o povo recuou para a direita e para a esquerda diante dele. Ele pôs-se de pé diante do Rei e disse-lhe: “Eu não posso encontrá-la; ela não está em tua terra.”

Então falou o Rei, sorrindo para ele, como outrora: “O que desejas tu, então? Não é tempo de descansar?”

Ele disse: “Sim, Oh Rei, mas não nesta terra.”

Disse o Rei: “Onde mais senão nesta terra tu encontrarás descanso? Fora ficam batalha e fome, ânsia insatisfeita, inveja e medo; dentro dela é abundância, paz, boa vontade e prazer sem cessar. Tua palavra não tem significado para mim.”

Disse Hallblithe: “Dá-me permissão para partir e eu te exaltarei.”

Não há nada mais a fazer?” disse o Rei.

Nada mais,” disse Hallblithe.

Com isso, ele sentiu que a face do Rei mudou, embora ele ainda lhe sorrisse e, novamente, ele sentiu seu coração gelar diante do Rei.

Mas o Rei falou e disse: “Eu não impeço tua partida, nem irá qualquer um do meu povo. Nenhuma mão será erguida contra ti; não há arma em toda a região, salvo a espada inativa ao meu lado e as armas que tu carregas.” Disse [124]Hallblithe: “Tu não me deves uma alegria em troca de meu engano?”

Sim,” disse o Rei, “estende tua mão para recebê-la.”

Apenas uma coisa eu posso receber de ti,” disse Hallblithe; “minha donzela prometida ou senão a aceleração de minha partida.”

Então disse o Rei e a voz dele era terrível, embora ele ainda sorrisse: “Eu não impedirei; eu não ajudarei. Parte em paz!”

Então Hallblithe afastou-se atordoado, quase se esvaindo e perdeu-se no campo abaixo, dificilmente sabendo onde estava. Enquanto ele prosseguia, sentiu sua manga puxada, virou-se e oh!, estava cara a cara com o Sea-eagle, não menos feliz do que outrora. Ele tomou Hallblithe em seus braços, abraçou-o, beijou-o e disse: “Bem cumprido, companheiro de viajem! Para onde?”

Para fora desta terra de mentiras,” disse Hallblithe.

O Sea-eagle sacudiu sua cabeça e disse-lhe: “Ainda estás buscando por um sonho? E tu tão belo que puseste todos os outros homens a se envergonharem.”

Eu não busco sonho,” disse Hallblithe, “mas sim o fim dos sonhos.”

Bem,” disse o Sea-eagle, “nós não discutiremos sobre isso. Mas ouve com atenção. Próximo, em um recanto agradável dos prados, eu levantei minha tenda e, embora ela não seja tão grande quanto o pavilhão [125]do Rei, contudo é boa o suficiente. Tu não virás para lá comigo, darás descanso a ti está noite e amanhã nós falaremos deste assunto?”

Agora Hallblithe estava cansado, confuso e desanimado além de seu costume; as palavras amigáveis do Sea-eagle amoleceram seu coração, ele sorriu e disse: “Eu agradeço-te; chegarei a ti. Tu és amável e não fez nada para mim senão o bem, desde o tempo em que primeiro te vi deitado em tua cama, no Salão dos Saqueadores. Tu lembra-te do dia?”

O Sea-eagle franziu a sobrancelha, como alguém lutando com uma memória perturbadora, e disse: “Apenas vagamente, amigo, como se ocorresse em um sonho desagradável. Parece-me que minha amizade contigo começou quando eu vim a ti a partir do bosque, e vi-te de pé com aquelas três donzelas, das quais eu lembro-me completamente bem; vós éreis belos de olhar.”

Hallblithe pensou sobre as palavras dele, mas não disse nada mais sobre isso. Eles caminharam juntos para um recanto florido, próximo a um córrego de água cristalina, onde se levantava uma tenda sedosa, verde como a grama sobre a qual ela erguia-se e salpicada com ouro e cores vistosas. Próxima a ela, sobre a grama, punha-se a donzela do Sea-eagle, de bochechas vermelhas e de lábios doces, tão bela quanto outrora. Ela voltou-se quando ouviu homens [126]chegando e, quando viu Hallblithe, um sorriso veio à face dela, como o sol saindo de uma bela mais nublada manhã. Ela foi até ele, tomou-o pelas mãos, beijou sua bochecha e disse: “Bem-vindo, Lanceiro! Bem-vindo de volta! Nós temos ouvido de ti em muitos lugares e temos estado tristes de que tu não estás feliz. Agora nós estamos felizes com teu retorno. Não deverá a vida doce começar para ti daqui para frente?”

Novamente Hallblithe foi movido pelas amáveis boas-vindas dela. Ele apenas sacudiu a cabeça e falou: “Tu és amável, irmã! Contudo, se tu desejasses ser mais amável, tu me mostraria um caminho por meio do qual eu poderia escapar desta terra. Pois, a permanência aqui se tornou penosa para mim e parece-me que a esperança ainda está viva fora da Planície Cintilante.” A face dela abateu-se enquanto ela respondia: “Sim, medo também e pior, se alguma coisa puder ser pior. Mas vem, comamos e bebamos neste belo lugar. Reunamos um pouco de alegria para ti antes que tu partas, se tu necessitas partir.”

Ele sorriu para ela, como alguém não mau disposto, e deitou-se sobre a grama, enquanto os dois ocupavam a si mesmos; traziam adiante belas almofadas, uma mesa dourada e preparavam delicados alimentos em cima e bom vinho.

Então eles comeram e beberam juntos e o Sea-eagle e seu camarada tornaram-se muito felizes novamente. [127]Hallblithe animou a si mesmo para não ser um estraga festa, pois ele disse dentro de si mesmo: “Eu estou partindo e depois desta vez não deverei vê-los novamente. Eles são amáveis e alegres comigo assim com foram outrora; eu não farei tristes seus corações alegres. Pois quando, eu for embora deverei lembrar deles somente por um tempo.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.122-127. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/122/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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