Transformação

[165]“Sem demora este corpo meu estava torcido

Com uma agonia lamentável,

Que forçou-me a começar minha história,

E então ela me libertará.


Desde então, em uma hora incerta,

Aquela agonia retorna;

E até que meu conto pavoroso esteja dito

Este coração dentro de mim queima.”

Marinheiro Antigo de Coleridge


Eu ouvi isto dito: que, quando qualquer aventura estranha, sobrenatural e necromântica ocorreu a um ser humano, esse ser, por mais desejoso que ele possa estar de ocultar a mesma, em certos períodos sente-se despedaçado como se fosse por um terremoto intelectual, e é forçado a revelar as profundezas interiores de seu espírito a outro. Eu sou uma testemunha da verdade disso. Eu jurei profundamente a mim mesmo nunca revelar a ouvidos humanos os horrores aos quais, uma vez, em excesso de diabólico orgulho, eu tinha entregado-me. O homem santo que ouviu minha confissão, e reconciliou-me com a Igreja, está morto. Ninguém sabe que uma vez -

Por que isso não deveria ser assim? Por que contar um conto de tentação impiedosa da previdência, e humilhação subjugadora da alma? Por quê? Respondei-me, vós que sois sábios nos segredos da natureza humana! Eu somente sei que assim é; e apesar de resolução forte, de um orgulho que me domina [166]demais, de vergonha, e mesmo de medo, de então tornar-me odioso a minha própria espécie, tenho de falar.

Gênova! Minha terra natal, cidade orgulhosa! Olhando de cima o Mediterrâneo azul, tu lembras de mim em minha infância, quando teus penhascos e promontórios, teu céu brilhante e vinhedos alegres, eram meu mundo? Tempo feliz! Quando para o coração jovem o universo estreitamente limitado, que deixa, por sua própria limitação, escopo livre para a imaginação; algema nossa energia física e, único período em nossas vidas, inocência e prazer estão unidos. Contudo, quem pode olhar de volta para a infância, e não lembrar de seus sofrimentos e medos angustiantes? Eu nascera com o espírito mais imperioso, arrogante, indomável. Eu vacilava diante de meu pai apenas; e ele, generoso e nobre, mas caprichoso e tirânico, de uma vez só fomentava e enquadrava a impetuosidade selvagem de meu carácter, fazendo necessária a obediência, mas não inspirando respeito pelos motivos que guiavam seus comandos. Ser um homem, livre, independente; ou, em palavras melhores, insolente e dominador, era a esperança e súplica de meu coração rebelde.

Meu pai tinha um amigo, um rico nobre genovês que, em tumulto politico, foi subitamente sentenciado ao banimento e sua propriedade confiscada. O marques Torella foi ao exílio sozinho. Como meu pai, ele era um viúvo, ele tinha uma filha, a quase criança Juliet, que fora deixada sob a tutela de meu pai. Eu certamente devo ter sido rude com a adorável garota, mas àquilo eu fui forçado por minha posição, para tornar-me seu protetor. Uma variedade de incidentes infantis todos tenderam a um ponto: fazer Juliet ver-me como uma rocha de defesa. Eu para ela; alguém que tenha de perecer através da suave sensibilidade de sua natureza muito rudemente visitada, exceto por meu cuidado de guardião. Nós crescemos juntos. A rosa desabrochante em maio não era mais doce do que esta querida garota. Uma irradiação de beleza espalhara-se sobre a face dela. A forma dela, o passo dela, a voz dela; meu coração chora mesmo agora, ao pensar em tudo de [167]confiança, gentileza, amoroso e pureza que ela entesourava. Quando eu tinha onze e Juliet oito anos de idade, um primo meu, muito mais velho do que um ou outro – ele parecia-nos um homem – muito observou minha companheira de brincadeiras; ele chamou-a de sua noiva, e pediu-lhe para casar com ele. Ela recusou, ele insistiu, tornando-a de má vontade para com ele. Com o semblante e emoções de um maníaco eu joguei a mim mesmo sobre ele, lutei para desembainhar sua espada, agarrei-me ao pescoço dele com a resolução feroz de estrangulá-lo: ele foi obrigado a chamar por assistência para libertar a si mesmo de mim. Naquela noite eu conduzi Juliet à capela de nossa casa: fiz com que ela tocasse as relíquias sagradas. Eu atormentei seu coração de criança, e profanei seus lábios de criança com um juramento, que ela seria minha, e minha somente.

Bem, aqueles dias já passaram-se. Torella retornou em alguns anos, e tornou-se mais rico e mais próspero do que nunca. Quanto eu tinha dezessete, meu pai morreu; ele fora de magnificente à prodigalidade; Torella regozijou-se que minha minoridade proporcionaria uma oportunidade para a reparação de minhas fortunas. Juliet e eu fôramos comprometidos ao lado do leito de morte de meu pai; Torella estava para ser um segundo pai para mim.

Eu desejei ver o mundo, e eu fui favorecido. Eu fui a Florença, a Roma, a Nápoles; daí eu passei a Toulon, e longamente alcancei o que por muito tempo fora a mira de meus desejos, Paris. Havia lida feroz em Paris então. O pobre rei, Carlos VI, ora sano, ora louco, ora monarca, ora um escravo abjeto; era a própria zombaria de humanidade. A rainha, o delfim, o duque da Borgonha, alternadamente amigos e inimigos, - ora encontrando-se em festas pródigas, ora derramando sangue em rivalidade, - estavam cegos ao miserável estado do país e aos perigos que pairavam sobre ele; entregavam a si mesmos completamente ao prazer dissoluto ou à contenda selvagem. Meu caráter ainda me seguia. Eu era [168]arrogante e voluntarioso; amava exibir-me e, sobretudo, joguei fora todo controle. Meus jovens amigos estavam ansiosos para alimentar paixões que lhes supririam com prazeres. Eu era considerado belo; era mestre em cada feito cavalheiresco. Eu era desconectado de qualquer partido político. Eu tornei-me um favorito de todos: minha presunção e arrogância era perdoada em alguém tão jovem: eu tornei-me uma criança mimada. Quem poderia controlar-me? Não as cartas e o conselho de Torella, somente forte necessidade visitando-me na forma abominável de uma busca vazia. Acre depois de acre, propriedade após propriedade, eu vendi. Minha vestimenta, minhas joias, meus cavalos e os equipamentos deles, eram quase incomparáveis na deslumbrante Paris, enquanto as terras de minha herança passavam à posse de outros.

O Duque de Orleans foi atacado de surpresa e assassinado pelo Duque da Borgonha. Medo e terror possuíram toda Paris. O delfim e a rainha encerraram-se; cada prazer foi suspenso. Eu cansei-me desse estado de coisas, e meu coração ansiou por meus antros de juventude. Eu era quase um pedinte, ainda assim eu iria lá, reivindicaria minha noiva, e reconstruiria minha fortuna. Umas poucas especulações comerciais felizes como mercador far-me-iam rico novamente. Mesmo assim, eu não retornaria em aspecto humilde. Meu último ato foi dispor de meu patrimônio restante próximo a Albaro por metade de seu valor, por dinheiro rápido. Então eu despachei todos os tipos de artífices, tapeçarias, mobília de esplendor régio, para mobiliar a última relíquia de minha herança; meu palácio em Gênova. Eu demorei-me um pouco mais ainda, envergonhado em parte de retorno pródigo, o qual temia eu deveria jogar. Eu enviei meus cavalos. Um pequeno cavalo espanhol sem igual eu despachei para minha noiva prometida: seus adornos equinos flamejando com joias e tecido de ouro. Em cada parte eu fiz com que fosse entrelaçada as inicias de Juliet e seu Guido. Meu presente encontrou favor nos olhos dela e de seu pai.

[169]Apesar de retornar um proclamado perdulário, a marca de um prodígio impertinente, talvez de desprezo, e encontrar um a um as censuras ou insultos de meus companheiros cidadãos, não era uma expectativa sedutora. Como um escudo entre mim e a censura, eu convidei alguns dos mais impertinentes dentre meus camaradas para acompanhar-me: assim eu fui armado contra o mundo, escondendo um sentimento de desprazer, meio medo e meio penitência, por bravata.

Eu cheguei a Gênova. Eu pisei no pavimento de meu palácio ancestral. Meu passo orgulhoso não era tradutor de meu coração, pois eu profundamente sentia que, embora rodeado por toda luxuria, eu era um pedinte. O primeiro passo que eu dei ao reivindicar Juliet deve amplamente declarar-me tal. Eu li desprezo ou pena nos olhares de todos. Eu fantasiei que rico e pobre, jovem e velhos, todos consideravam-me com escárnio. Torella não se aproximou de mim. Não me surpreende que meu segundo pai deva aguardar o respeito de um filho de mim ao esperar-lhe primeiro. Mas, escoliado e picado pelo sentido de minhas loucuras e demérito, eu esforcei-me para lançar a culpa sobre outros. Nós mantínhamos orgias noturnas no Palazzo Carega. À noites desenfreadas, sem sono seguiam-se manhãs indolentes, apáticas. À hora do Ave-Maria nós mostrávamos nossas elegantes pessoas nas ruas, zombando de cidadãos sóbrios, lançando olhares insolentes à mulheres retraídas. Juliet não estava entre elas – não, não; se ela estivera ali, vergonha afastar-me-ia, se amor não me trouxera a seus pés.

Eu cansei-me disso. Subitamente eu fiz uma visita ao Marquês. Ele estava em sua vila, uma dentre muitas das que cobrem o subúrbio de San Pietro d’Arena. Era o mês de maio, as flores das árvores frutíferas estavam murchando em meio à espessa folhagem verde; as videiras estavam brotando; o solo estufado com as folhas de oliva caídas; o vaga-lume estava na cerca de murta; céu e terra trajavam um manto de beleza insuperável. Torella recebeu-me gentilmente, embora a sério; e mesmo [170]sua sombra de desprezo logo desgastou-se. Alguma semelhança com meu pai – algum aspecto e tom de ingenuidade juvenil, abrandou o bom coração do velho. Ele chamou por sua filha – apresentou-me a ela como seu noivo. A câmara santificara-se por uma luz sagrada quando ele entrou. Dela era aquela aparência de querubim, aqueles olhos largos, macios, bochechas cheias de covinhas e a boca de doçura infantil, que expressa a união rara de felicidade e amor. A admiração primeiro possuiu-me. Ele é minha!, foi a segunda emoção orgulhosa, e meus lábios frisaram com triunfo arrogante. Eu não fora o enfant gâté das belezas de França para não ter aprendido a arte de agradar o suave coração de mulher. Se relativamente a homens eu era arrogante, a deferência que eu pagava-lhes era maior em contraste. Eu comecei minha corte mostrando mil cortesias a Juliet, que, prometida a mim desde a infância, nunca admitira a devoção de outros; e quem, embora acostumada a expressões de admiração, era não iniciada na linguagem dos amantes.

Por alguns dias tudo correu bem. Torella nunca aludiu à minha extravagância; ele tratou-me como um filho favorito. Mas o tempo chegou, enquanto nós discutimos as preliminares de minha união com a filha dele, quando sua face justa das coisas deveria ser obscurecida. Um contrato fora preparado durante a vida de meu pai. Eu tornara-o, de fato, vazio ao ter desperdiçado o todo da riqueza que tinha de ser compartilhada por Juliet e eu mesmo. Torella, em consequência, escolheu considerar essa obrigação como cancelada, e propôs outra, na qual, embora a riqueza que concedia era imensamente aumentada, haviam tantas restrições quando ao mondo de gastá-la que eu, que via independência somente em curso livre sendo dada a minha própria vontade imperiosa, insultei-lhe como tomando vantagem de minha situação, e recusei completamente a subscrever suas condições. O velho homem suavemente se esforçou para lembrar-me [171]de raciocinar. O orgulho despertado tornou-se o tirano de meu pensamento: eu ouvi com indignação, repeli-o com desdem.

Juliet, tu és minha! Nós não trocamos votos em nossa infância inocente? Nós não somos um à vista de Deus? E deverás teu pai de coração frio, de sangue frio dividir-nos? Sê generosa, meu amor, sê justa; não retires um presente, último tesouro de teu Guido, não retraias teus votos, deixe-nos desafiar o mundo e, fixando em nada os cálculos da idade, encontremos em nossa afeição mútua um refúgio de toda o mal.

Um demônio eu devo ter sido com tal sofisma para tentar envenenar aquele santuário de pensamento santo e amor suave. Juliet afastou-se de mim assutada. Seu pai era o melhor e o mais gentil dos homens, e ela esforçou-se para mostrar-me como, obedecendo-o, cada bem seguir-se-ia. Ele receberia minha tardia submissão com calorosa afeição, e generoso perdão seguiria meu arrependimento. Palavras sem beneficio para uma jovem e gentil filha usar com um homem acostumado a fazer sua própria lei, e a sentir em seu próprio coração um déspota tão terrível e severo que ele não concederia obediência a nada salvo seus próprios desejos imperiosos! Meu ressentimento aumentou por oposição; meus companheiros selvagens estavam prontos para adicionar combustível à chama. Nós estabelecemos um plano levar Juliet embora. Primeiramente ele pareceu ser coroado com sucesso. No meio do caminho, no nosso retorno, nós fomos surpreendidos pelo pai sofredor e seus subordinados. Um conflito aconteceu. Diante da guarda da cidade fomos para decidir a vitória em favor de nossos antagonistas, dois dos servidores de Torella foram perigosamente feridos.

Essa porção de minha história pesa mais profundamente comigo. Homem mudado eu sou, eu abomino a mim mesmo na memória. Possa ninguém que ouça esta história jamais cair como eu. Um cavalo levado à fúria por um cavaleiro armado com esporões farpados não era mais escravo do que eu sob a tirania violenta de meu temperamento. Um espírito maligno possuiu minha alma, irritando-a até a loucura. Eu senti a voz da consciência [172]dentro de mim; mas se eu rendesse-me a ela por um breve intervalo, era apenas para ser, um momento depois, despedaçado, como por um furação, carregado junto a uma corrente de fúria desesperada, o joguete das tempestades engendradas pelo orgulho. Eu estive aprisionado, e, a pedido de Torella, liberado. Novamente eu retornei para levar embora ambos ele e sua filha para França. Que país infeliz, então predado por piratas e quadrilhas de soldadesca sem lei, ofereceriam um grato refúgio a um criminoso como eu. Nossas conspirações foram descobertas. Eu fui sentenciado ao banimento; e, como meus débitos já enormes, minha propriedade restante foi posta nas mãos de comissários para o pagamento deles. Torella novamente ofereceu sua mediação, requerendo somente minha promessa de não renovar minhas tentativas abortados a respeito dele mesmo e de sua filha. Eu rejeitei suas ofertas, e fantasiei que triunfava quando eu era empurrado para fora de Gênova, um exílio solitário e sem dinheiro. Meus companheiros foram-se: ele foram repudiados da cidade algumas semanas antes, e já estavam em França. Eu estava sozinho; sem amigos, sem espada ao meu lado, nem ducado em minha bolsa.

Eu perambulei ao longo da praia, um redemoinho de paixão possuindo e despedaçando minha alma. Foi como se um carvão vivo fosse posto queimando em meu peito. Primeiramente eu meditei sobre o que eu deveria fazer. Eu juntar-me-ia a um bando de piratas. Vingança! - a palavra pareceu um bálsamo para mim; eu abracei-a, acariciei-a, até que, como uma serpente, ela picou-me. Depois novamente eu abjuraria e desprezaria Gênova, aquele pequeno canto do mundo. Eu retornaria à França, onde muitos de meus amigos pululavam; onde meus serviços seriam avidamente aceitos; onde eu esculpiria fortuna com minha espada, e faria minha insignificante terra natal e o falso Torella lamentarem o dia no qual eles impeliram-me, um novo Coriolanos, para fora dos muros dela. Eu retornaria a Paris, assim a pé, um pedinte, apresentaria a mim mesmo em minha pobreza àqueles que eu antes entretivera suntuosamente? Havia fel no mero pensamento disso.

[173]A realidade das coisas começou a aparecer em minha mente, trazendo desespero em seu séquito. Por vários meses eu fora um prisioneiro: os males de meu calabouço açoitaram minha alma à loucura, não obstante eles [também] subjugaram minha estrutura corporal. Eu estava fraco e abatido. Torella usara mil artifícios para administrar ao meu conforto; eu detetara e desprezara-lhes todos, eu ceifei a colheita de minha teimosia. O que teria de ser feito? Devo eu rastejar diante de meu inimigo, e cortejar por perdão? Morre mais de dez mil mortes! Nunca deverão eles obter aquela vitória! Ódio. Eu juro ódio eterno! Ódio de quem? Para quem? De um errante proscrito para um poderoso nobre! Eu e meus sentimentos nada eram para eles: já esqueceram alguém tão indigno. E Juliet! Sua face de anjo e forma semelhante à sílfide brilhavam em meio às nuvens de meu desespero com beleza vã; pois eu perdera-a; a glória e a flor do mundo! Outro a chamará de sua! Aquele sorriso do paraíso abençoará outro!

Mesmo agora meu coração falha dentro de mim, quando eu refiro-me a esse tumulto de ideias sombrias. Agora subjugado quase até as lágrimas, agora delirante em minha agonia, eu ainda perambulava pela praia rochosa, que crescia a cada passo mais selvagem e mais desolada. Rochas suspensas e encanecidos precipícios neglicenciavam o oceano sem mare; cavernas negras bocejavam e, para sempre, em meio de refluxos castigados pelo mar, murmuravam e colidiam as águas infrutíferas. Agora meu caminho estava quase barrado por um abrupto promontório, assim tornado quase impraticável por fragmentos caídos do penhasco. A noite estava à mão, quando, da direção do mar, ergueu-se, como se ao brandir da varinha de um feiticeiro, uma obscura teia de nuvens, maculando o tardio céu índigo, obscurecendo e perturbando o até agora mar plácido. As nuvens tinham formas estranhas, fantásticas, elas mudavam, misturavam-se e pareciam ser guidas ao redor por um poderoso feitiço. As ondas elevavam suas cristas brancas; o trovão primeiro resmungou, então rugiu do outro lado da quebra das águas, que tomaram uma cor roxa profunda, salpicada com espuma. [174]O lugar onde eu estava de pé olhava, de um lado, para o oceano difundido; no outro, era barrado por um acidentado promontório. Circundando este cabo de repente veio, guiado pelo vento, uma embarcação. Em vão os marinheiros tentaram forçar um caminho para ela até o mar aberto; a tempestade impelia-a sobre as rochas. Perecerão! Todos a bordo perecerão! Eu devia estar entre eles! E ao meu jovem coração a ideia de morte veio, pela primeira vez, misturada àquela de alegria. Era uma horrível visão contemplar aquela embarcação lutando contra seu destino. Dificilmente eu poderia discernir o marinheiros, mas eu ouvia-os. Logo tudo estaria acabado! Uma rocha, recém-coberta pelas ondas agitadas, e assim não percebida, jazia a espera de sua presa. Um estampido de um trovão rompeu sobre minha cabeça no momento em que, com um abalo assustador, a embarcação colidiu sobre o seu inimigo desapercebido. Em um breve espaço de tempo ela foi aos pedaços. Naquele lugar eu estava de pé em segurança; e ali estava meus companheiros seres humanos batalhando, quão desesperadamente, contra a aniquilação. Pareceu-me que eu via-os lutando, muito verdadeiramente eu ouvia os gritos eles, conquistando as ondas ladrantes em suas agonias estridentes. As arrebentações negras jogavam para cá e para lá os fragmentos do naufrágio: logo desapareceram. Eu estivera fascinado ao olhar até o fim. Finalmente eu afundei sobre meus joelhos e cobri meu rosto com minhas mãos. Eu olhei novamente; algo estava flutuando sobre as vagas em direção à praia. Aproximava-se e aproximava-se. Era aquilo uma forma humana? Tornou-se mais e mais distinta; e finalmente uma onda poderosa, levantando o fardo inteiro, pouso-o sobre uma rocha. Um ser humano montando uma caixa do mar! Um ser humano! Era um mesmo? Certamente uma tal coisa nunca existira antes; um anão disforme, com olhos vesgos, características distorcidas, e corpo deformado até que ele tornou-se um horror de contemplar. Meu sangue, a pouco aquecido com respeito a um ser companheiro assim apanhado de uma tumba aquática, congelou em meu coração. O anão saiu de sua caixa; ele tirou seu cabelo ereto, surrado fora de sua visão odiosa.

Pelo Santo Belzebu!” ele exclamou, “eu fui bem [175]vencido.” Ele olhou ao redor e viu-me. “Oh, pelo inimigo! Aqui está outro aliado do Poderoso. Para que santo você oferece preces, amigo, se não para mim? Ainda assim eu não lembro de você a bordo.”

Eu retrocedo do monstro e de sua blasfêmia. Novamente ele questiona-me, e eu murmuro uma resposta inaudível. Ele continuou:-

Tua voz é afogado por este rugido dissonante. Que barulho o grande oceano faz! A explosão de estudantes em sua prisão não é mais alta do que essas ondas liberadas para brincar. Elas perturbam-me. Eu não quero mais do murmúrio inoportuno delas. Silêncio, Grisalho! Ventos, vão embora! Para suas casas! Nuvens, voem para as antípodas, e deixem nosso céu claro!”

Enquanto ele falava, ele alongou seus braços longos, lisos, que pareciam garras de aranha, e parecia abraçar com eles a vastidão diante dele. Isso foi um milagre? As nuvens tornaram-se violadas e fugiram; o céu índigo primeiro espiou, depois espalhou um calmo campo de azul sobre nós; o vendaval tempestuoso foi trocado pela brisa macia do oeste; o mar acalmou-se; as ondas diminuíram à pregas.

Eu gosto de obediência mesmo desses elementos estúpidos,” disse o anão. “Quanto mais na indomável mente do homem! Foi uma tempestade bem preparada, você deve conceder – e tudo de minha própria criação.”

Foi tentação da Providência trocar conversação com este mágico. Mas Poder, em todas as suas formas, é respeitado pelo homem. O temor, curiosidade, uma fascinação pegajosa, atraíram-me para ele.

Venha, não se assuste, amigo,” disse o desgraçado: “Eu sou bem-humorado quando satisfeito; e algo me satisfaz em seu corpo bem-proporcionado e rosto lindo, embora você pareça um pouco desolado. Você sofreu uma terra; eu, um naufrágio marítimo. Talvez eu possa acalmar a tempestade de tuas fortunas como eu fiz comigo mesmo. [176]Nós devemos ser amigos?” E ele estendeu sua mão; eu não pude tocá-la. “Bem, então, companheiros, isso funcionará do mesmo modo. E agora, enquanto eu descanso depois da luta pela qual eu acabei de passar, conte-me porque, jovem e galante como você parece, perambula assim sozinho e abatido nessa praia selvagem.”

A voz do desgraçado era guinchada e hórrida, e suas contorções enquanto ele falava eram assustadoras de contemplar. Mas ele ganhou um tipo de influência sobre mim, que eu não pude controlar, e eu contei-lhe minha história. Quando terminou, ele riu alta e longamente, as rochas ecoaram de volta o som: [o] inferno parecia gritar ao meu redor.

Oh, tu primo de Lúcifer!” disse ele; “Então tu também caíste através de teu orgulho; e, embora brilhante como o filho da Manhã, tu estás pronto a desistir de tua boa aparência, tua noiva, e teu bem-estar, em vez de submeter-te à tirania do bem. Eu honro tua escolha, pela minha alma! Então tu fugiste, rendeu-se no dia. Pretende morrer de fome sobre essas rochas, e deixar que os pássaros biquem teus olhos mortos, enquanto teu inimigo e tua prometida alegram-se em tua ruína. Teu orgulho é estranhamente aparentado da humildade, parece-me.”

Enquanto ele falava, mil pensamentos com presas picam-me o coração.

O que você queria que eu tivesse feito?” Eu gritei.

Eu! Oh, nada, mas deite-se e diga suas preces antes de você morrer. Mas, se eu fosse você, eu sei o ato que deve ser feito.”

Eu aproximei-me dele. Seus poderes supernaturais fizeram-lhe um oráculo em meus olhos; ainda assim um estranho arrepio sobrenatural estremeceu através de meu corpo enquanto eu disse, “Fale! Ensine-me – que ato você aconselha?”

Vinga-te a ti mesmo, homem! Humilha teus inimigos! Coloca teu pé sobre o pescoço do velho, e possui tu mesmo a filha dele!”

Para o leste e o oeste eu volto,” gritei eu, “e eu não vejo [177]meios! Tivesse eu ouro, muito eu poderia conquistar; mas, pobre e solteiro, eu estou sem poder.”

O anão esteve sentado sobre seu cofre enquanto ele ouvia minha história. Agora ele desceu; ele tocou uma fonte e ela abriu-se! Que mina de riqueza; de joias resplandecentes, ouro brilhante, e prata pálida foi exibida ali. Um desejo louco para possuir aquele tesouro nasceu dentro de mim.

Indubitavelmente,” eu disse, “alguém tão poderoso como você poderia fazer todas as coisas.”

Não,” disse o monstro humildemente, “Eu sou menos onipotente do que pareço. Algumas coisas eu possuo que você pode cobiçar; mas eu daria todas por uma pequena quota, ou mesmo por um empréstimo do que é seu.”

Minhas possessões estão a seu serviço,” eu respondi amargamente; “minha pobreza, meu exílio, minha desgraça, eu faço um presente gratuito de todas elas.”

Bom! Eu agradeço-te. Adicione mais uma coisa a teu presente e meu tesouro é seu.”

Como nada é minha herança exclusiva, o que além de nada você teria?”

Teu rosto gracioso e teus membros bem formados.”

Eu estremeci. Esse monstro todo-poderoso iria assassinar-me? Eu não tinha nenhum punhal. Eu esqueci de orar, mas eu empalideci.

Eu pedi por um empréstimo, não um presente,” disse a coisa assustadora: “empresta-me teu corpo por três dias; você deverá ter o meu para prender tua alma por um tempo, e, em pagamento, meu cofre. O que você diz sobre a barganha? - Três dias curtos.”

Nós somos avisados de que é perigoso manter tal conversa ilegal; e bem eu provo o mesmo. Suavemente escrito, pode parecer inacreditável que eu deva emprestar qualquer ouvido a essa proposição; mas, apesar da feiura não natural dele, há algo fascinante em um ser cuja a voz pode governar terra, ar e mar. Eu senti um agudo desejo de aquiescer; pois com aquele cofre eu poderia comanda o mundo. Minha [178]única hesitação provinha do medo de que ele não seria verdadeiro com sua barganha. Então, eu pensei, logo devo morrer aqui nessas areias solitárias, e os membros que ele cobiça não serão mais meus: vale a pena a chance. E, além disso, eu sabia que, por todas as regras da arte mágica, havia fórmulas e juramentos que nenhum dos seus praticantes atrevem-se de quebrar. Eu hesitei a responder; e ele prosseguiu, agora mostrando sua riqueza, agora falando do preço insignificante demandado, até que parece parecia loucura recusar. Assim é: coloquemos nosso barco na corrente do córrego, e abaixo, sobre queda e catarata seja precipitado, desistamos de nossa conduta para a selvagem torrente da paixão, e nós estamos longe, nós não sabemos para onde.

Ele jurou muito juramentos, e eu adjurei-lhe por qualquer nome sagrado; até que eu vi este prodígio de poder, este regente dos elementos, tremer como uma folha de outono diante de minhas palavras; e como se o espírito falasse relutante e necessariamente dentro dele, finalmente, ele, com voz quebrada, revelou o encanto por meio do qual ele poderia ser obrigado, desejasse ele enganar-me, a render o saque ilegal. Nosso caloroso sangue vital deveria mistura-se para fazer e para estragar o encanto.

Basta deste tema profano. Eu estava persuadido, a coisa estava concluída. O dia seguinte amanheceu sobre mim enquanto eu estava deitado sobre as telhas, e eu não conheci a minha própria sombra enquanto ela caia sobre mim. Eu senti a mim mesmo mudado em uma forma de horror, e amaldiçoei minha fé fácil e credulidade cega. O cofre estava lá; lá o ouro e as pedras preciosas pelos quais eu vendera o corpo de carne que a natureza dera-me. A visão um pouco acalmou minhas emoções: três dias passariam logo.

Eles passaram-se. O anão supriu-me com uma abundante reserva de comida. No começo eu dificilmente pude andar tão estranhos e desencaixados estavam todos os meus membros; e minha voz era aquela do demônio. Mas eu mantive silêncio, voltei meu rosto para o sol, para que eu não visse minha sombra; [179]contei as horas e ruminei sobre minha futura conduta. Trazer Torella aos meus pés, possuir minha Juliet apesar dele; tudo isso minha fortuna poderia obter facilmente. Durante a noite escura eu dormi, e sonhei com a realização de meus desejos. Dois sois puseram-se, o terceiro raiou. Eu estava agitado, temeroso. Oh expectativa, que coisa terrível és tu, quando ardias mais por medo do que por esperança! Como tu enrosca-te a ti mesma ao redor de meu coração, torturando suas pulsações! Como tu lanças tormentos desconhecidos através de nosso fraco mecanismo, agora parecendo tremer-nos como vidro quebrado, até o nada e agora dando-nos uma força fresca, que não pode fazer nada, e assim atormenta-nos por uma sensação, tal como um homem forte deve quando não pode quebrar seus grilhões, embora eles dobrem-se com seu aperto. Lentamente caminhou a claridade, a orbe brilhante acima no céu oriental; muito ela demorou-se no zênite, e ainda mais lentamente peregrinou para baixo para o oeste: ela tocou o limite do horizonte, estava perdida! Seus resplendores celestes estavam sobre os cumes dos penhascos; eles tornaram-se pardos e acinzentados. A estrela da tarde brilhou reluzentemente. Ele logo estará aqui.

Ele não veio! Pelos céus vivos, ele não veio! E a noite arrastou para fora sua duração cansada, e, em sua idade decadente, “o dia começou a tornar grisalho seu cabelo negro.” O sol subiu novamente sobre o mais miserável infeliz que alguma vez repreendeu a luz dele. Três dias eu passei assim. As joias e o ouro, oh, como eu abominava-lhes!

Bem, bem. Eu não enegrecerei estas páginas com delírios demoníacos. Todos muitos terríveis eram meus pensamentos, o enfurecido tumulto de ideias que preenchiam minha alma. Ao final daquele período eu dormi; eu não dormira antes desde o terceiro pôr do sol. Eu sonhei que estava aos pés de Juliet, e ela sorria, e então gritou; pois viu minha transformação. Novamente ela sorriu, pois ainda seu lindo amante ajoelhava-se diante dela. Mas não era eu, era ele, o demônio, arraigado em meus membros, falando com minha voz, seduzindo-a com minhas aparências de amor. Eu esforcei-me para avisá-la, [180]mas minha língua recusou seu dever; esforcei-me para separá-lo dela, mas estava enraizado no solo. Eu despertei em agonia. Lá estavam os solitários precipícios encanecidos, lá o mar salpicado, a praia quieta e o céu azul sobre tudo. O que isso significa? Foi meu sonho somente um espelho da verdade? Estava ele cortejando e conquistando minha prometida? Eu deveria naquele instante voltar à Gênova, mas fora banido. Eu ri; o berro do anão estourou de meus lábios. Eu banido! Oh não! Eles não exilaram os quatro membros que eu usava; com esses eu posso entrar, sem medo de incorrer na ameaçadora pena de morte, minha própria, minha cidade nativa.

Eu comecei a andar na direção de Gênova. Eu estava mais ou menos acostumado a meus membros distorcidos, nenhum nunca esteve tão mau adaptado para um movimento direto; foi com uma dificuldade infinita que eu procedi. Nessa ocasião, também, eu desejei evitar todas as aldeias espalhadas aqui e ali perto da praia, pois eu estava sem vontade de fazer uma exibição de minha feiura excessiva. Eu não estava bem certo de que, se visto, os meros garotos não apedrejar-me-iam até a morte enquanto eu passava, como um monstro; algumas saudações insuportáveis eu recebi dos poucos camponeses ou pescadores que me aconteceu de encontrar. Mas era noite escura antes que eu aproximasse-me de Gênova. O clima estava tão ameno e doce que me ocorreu que o Marquês e sua filha muito provavelmente teriam afastado-se da cidade para seu retiro no campo. Foi da Vila Torella que eu tentara levar Juliet embora; eu despendera muitas horas reconhecendo o lugar, e conhecia cada polegada de terreno em sua vizinhança. Era lindamente situado, cercado de árvores, na margem de um córrego. Enquanto eu aproximava-me tornava-se evidente que minha suposição estava correta; ou melhor, além disso, que as horas estavam sendo dedicadas à festa e alegria. Pois a casa estava iluminada; cepas de música suave e alegre flutuaram em minha direção com a brisa. Meu coração afundou-se dentro de mim. Assim era a bondade generosa do coração de Torella que eu [181]tinha certeza que ele não cederia a manifestações públicas de rejubilo logo após meu banimento infeliz, exceto por uma causa sobre a qual eu não me atrevia a alongar-me.

As pessoas do campo estavam todas alegres e reunindo-se ao redor; tornou-se necessário que eu devesse ocultar a mim mesmo; e por ora eu ansiava por falar com alguém, ou para ouvir o discurso de outros, ou em qualquer caso para ganhar inteligência sobre o que estava realmente acontecendo. Longamente, entrando nos caminhos que ficavam na vizinhança imediata da mansão, eu encontrei um escuro o suficiente para cobrir minha excessiva feiura; e ainda outros que bem como eu estavam vadiando em sua sombra. Eu logo reuni tudo o que eu procurava saber; tudo que primeiro fez meu próprio coração morrer com horror e depois ferver com indignação. Amanhã Juliet deveria ser dada ao penitente, reformado, amado Guido; amanhã minha noiva seria comprometida com um inimigo do inferno! E eu causei isso: meu orgulho amaldiçoado, minha violência demoníaca e perversa autoidolatria causaram este ato. Pois se eu agisse como o desgraçado que roubara minha imagem agira; se, com um ar de uma vez dócil e digno, eu apresentara a mim mesmo a Torella, dizendo, “eu fiz errado, perdoa-me; eu sou indigno de tua filha anjo, mas permita-me reivindicá-la daqui em diante, quando minha conduta alterada deverá manifestar que eu renuncio aos meus vícios, e esforço para tornar-me um tipo digno dela. Eu vou servir contra os infiéis e, quando meu zelo pela religião e minha penitência verdadeira pelo passado deverão aparecer a você para anular meus crimes, permita-me novamente chamar a mim mesmo teu filho.” Nessas circunstâncias ele falara; e o penitente foi recebido com o filho pródigo da Escritura; o bezerro gordo seria morto para ele; e ele, ainda perseguindo o mesmo caminho, mostrava tal arrependimento de coração aberto por suas tolices, tão humilde uma concessão de todos os seus direitos, e tão ardente uma resolução para readquiri-los através de uma vida de contrição e virtude, que ele rapidamente conquistaria o gentil velho; e perdão completo, e o presente de sua adorável filha, seguido de rápida sucessão.

[182]Oh, tivesse um anjo do Paraíso sussurrado para mim para agir assim! Mas agora, qual seria o destino da inocente Juliet? Permitiria Deus a união imunda – ou algum prodígio a destruiria, o vínculo da relação do nome desonrado de Carega com o pior dos crimes? Amanhã ao alvorecer eles deveriam estar casados, havia somente um caminho para prevenir isso: encontrar meu inimigo, e fazer cumprir a confirmação de nosso acordo. Eu senti que isso só poderia ser feito com uma contenda mortal. Eu não tinha espada, se de fato meus braços distorcidos poderiam empunhar a arma de um soldado, mas eu tinha uma adaga, e nela jaz minha esperança. Não havia tempo para ponderar ou pesar bem a questão: eu poderia morrer na tentativa, mas, além disso, o ciúme ardente e o desespero de meu próprio coração, honra, mera humanidade, exigiam que eu deveria cair em vez de não destruir as maquinações do demônio.

Os convidados partiram, as luzes começaram a desaparecer; era evidente que os habitantes da vila estavam procurando por repouso. Eu escondi-me entre as árvores, o jardim tornou-se deserto, os portões foram fechados, em perambulei em volta e cheguei sob uma janela. Ah! Bem conhecia eu a mesma! Um suave crepúsculo cintilava na sala, as cortinas estavam meio afastadas. Era o templo da inocência e beleza. Sua magnificência era temperada, por assim dizer, pelos leves desarranjos ocasionados por ser que habitava-o, e todos os objetos espalhados ao redor revelavam o gosto dela que santificava [o lugar] com sua presença. E vi-a entrar com rápido passo leve. Eu vi-a aproximar-se da janela, ela afastou as cortinas ainda mais e olhou para fora noite adentro. Sua frescura de brisa brincava em meio a seus cachos e soprava-lhes do transparente mármore de sua testa. Ela apertou suas mãos e ergueu os olhos para o céu. Eu ouvi a sua voz. “Guido!” ela murmurou suavemente, “meu próprio Guido!” e então, como se superada pela abundância de seu próprio coração, ela afundou em seus joelhos; seus olhos erguidos, sua [183]atitude graciosa, a gratidão radiante que iluminava sua face, oh, essas eram palavras inofensivas! Coração meu, tu nunca imaginaste, embora tu não possas retratar, a beleza celestial daquela filha da luz e do amor.

Eu ouvi um paço, um rápido paço firme ao longo da avenida sombria. Logo eu vi um cavaleiro, ricamente vestido, jovem e, pareceu-me, elegante de olhar, avançar. Eu escondi a mim mesmo ainda mais perto. O jovem aproximou-se; ele parou abaixo da janela. Ela ergueu-se, e olhando novamente ela viu-o, e disse; eu não posso, não, a essa distância no tempo eu não posso registrar os termos dela de macia ternura prateada; para mim ele foram ditos, mas eles foram respondidos por ele.

Eu não irei,” ele gritou: “aqui onde você tem estado, onde sua memória desliza como algum fantasma visitante do céu, eu passarei as longas horas até que nós nos encontremos, nunca minha Juliet, novamente, dia ou noite, partir. Mas tu, meu amor, retira-te; a gélida manhã e a brisa intermitente deixarão tua pálida bochecha e preencherão com langor teus olhos iluminados de amor. Ah, dulcíssima! Pudesse eu apertar um beijo sobre eles, eu poderia, parece-me, repousar.”

E então ele aproximou-se ainda mais e pareceu-me que ele estava para escalar para dentro de sua câmara. Eu hesitei para não a amedrontar; agora eu não era mais mestre de mim mesmo. Eu precipitei-me: joguei-me sobre ele, removi-lhe à força e gritei: “Oh repugnante e miserável de forma abominável!”

Eu não preciso repetir epítetos, todos tendendo, como parecia, protestar contra uma pessoa pela qual eu no momento sentia alguma parcialidade. Um grito surgiu dos lábios de Juliet. Eu nem ouvi nem vi. Eu senti apenas meu inimigo, cujo a garganta eu agarrei, e o cabo de minha adaga. Ele lutou, mas não pôde escapar. Longa e roucamente ele falou essas palavras: “Faze! Ataca profundamente! Destrói este corpo, você continuará a viver: possa sua vida ser longa e feliz!”

O punhal descendente detivera-se à palavra, e ele, sentindo minha força relaxar, soltou-se e desembainhou [184]sua espada, enquanto o alvoroço na casa, e o voo de tochas de uma sala a outra, mostrou que logo nós deveríamos ser separados. No meio de meu frenesi houve muito cálculo: cair eu posso, e, para que ele não sobreviva, não me importo pelo golpe mortal que possa dar contra mim mesmo. Durante um tempo, portanto, ele pensou que eu detive-me e, enquanto eu via o vilão resolver tomar vantagem de minha hesitação, na súbita estocada que ele fez contra mim, eu joguei a mim mesmo sobre sua espada, e ao mesmo tempo mergulhei meu punhal, com um alvo verdadeiro, desesperado, em seu lado. Nós caímos juntos, rolando um sobre o outro, e a corrente de sangue que corria da ferida aberta de cada um misturava-se sobre a grama. Mais eu não sei; eu desmaiei.

Novamente eu retorno à vida: fraco quase a morte, eu encontro-me esticado sobre uma cama. Juliet estava ajoelhada ao lado. Estranho! Meu primeiro débil pedido foi por um espelho. Eu estava tão pálido e sinistro, que minha pobre garota hesitou, como ela contou-me mais tarde; apenas na missa! Eu pensei a mim mesmo um jovem certo, correto, quando eu vi o querido reflexo de minhas características bem conhecidas. Eu confesso que isso é uma fraqueza, mas eu reconheço-o, entretenho uma afeição considerável pelo semblante e membros que contemplo, sempre que eu completo no espelho; tenho mais espelhos em minha casa e consulto-os com mais frequência do que qualquer beleza em Gênova. Antes que você mesmo condene-me muito, permita-me dizer que ninguém melhor do que eu conhece o valor de seu próprio corpo; ninguém, provavelmente, exceto eu mesmo, jamais teve-o roubado de si.

Incoerentemente, eu primeiro falei sobre o anão e seus crimes e censurei Juliet pela sua admissão tão fácil do amor dele. Ela achou-me delirante, como bem ela podia. Ainda passou-se algum tempo antes que eu pudesse prevalecer sobre mim mesmo para admitir que o Guido cuja penitência ganhara-a de volta para mim era eu mesmo. Enquanto eu amaldiçoava amargamente o anão monstruoso, e bendizia o golpe bem dirigido [185]que lhe tirara a vida, eu subitamente verificava-me quando eu ouvia-a dizer, “Amém!” sabendo que o ele que ela injuriava era meu eu mesmo. Um pouco de reflexão ensinou-me silêncio; um pouco de prática capacitou-me a falar daquela noite terrível sem qualquer engano excessivo. O ferimento que eu dera-me a mim mesmo não era o arremedo de um, muito se passou antes de recuperar-me, e enquanto o benevolente e generoso Torella sentava-se ao meu lado, falando com tal sabedoria como se pudesse ganhar amigos ao arrependimento; e minha própria querida Juliet pairando sobre mim administrando minhas carências e consolando-me através de seus sorrisos; o trabalho de minha cura corporal e reforma mental continuaram conjuntamente. Eu nunca recuperara, de fato, inteiramente minha força, minha face está mais pálida desde então, minha pessoa um pouco curvada. Juliet algumas vezes arriscava-se a aludir cruelmente à malícia que causou está mudança, mas eu beijo-a no momento, e conto-lhe que tudo é para o melhor. Eu sou um marido mais carinhoso e mais fiel. E verdade é isto; nunca eu teria chamado-a e minha senão fosse por causa daquele ferimento.

Eu não revisitei a praia, nem busquei pelo tesouro do inimigo. Até agora, enquanto eu pondero sobre o passado, frequentemente penso, e meu confessor não estava acanhado em favorecer a ideia, que possa ter sido um espírito bom em vez de um mal, enviado por meu anjo guardião, para mostrar-me a insensatez e miséria do orgulho. Desse modo bem pelo menos eu aprendo esta lição, rudemente ensinado como eu fui, que eu agora sou conhecido por todos os meus amigos e companheiros cidadãos pelo nome de Guido il Cortese.


ORIGINAL:

SHELLEY, M.W. Tales and Stories. London: William Paterson & Co, 1891. pp.165-185. Disponível: <https://archive.org/details/storiesmary00shelrich/page/165/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


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