[46]O dia ainda estava jovem quando ele acordou. Ele de pronto pôs-se de pé, desceu ao córrego e bebeu de suas águas e lavou a noite de si mesmo em uma poça dali. Então novamente pôs-se adiante em seu caminho. Quando ele fora-se por quase três horas, a estrada – que estava subindo por todo o caminho, apenas um pouco suavemente – tornou-se mais ingrime e a curva em cada lado baixou, e baixou; até que afinal afundou completamente. Então ele estava sobre um acidentado pescoço de montanha com pouca grama e sem água; salvo que ocasionalmente havia um lugar macio com uma corrente em seu meio e em tais lugares ele precisava deduzir o limite aproximadamente, para que ele não ficasse atolado. Ele concedeu a si mesmo apenas pouco descanso, comendo o que mais precisava enquanto prosseguia. O dia estava brilhante e calmo, de modo que o sol nunca ficava oculto, e ele guiava-se pelo astro diretamente para o sul. Durante todo o dia ele prosseguiu, e não encontrou [47]mais nenhuma mudança naquele pescoço imenso, salvo que às vezes ele era maior e às vezes menos ingrime. Um pouco antes do anoitecer ele encontrou-se sobre um poço raso umas vinte jardas acima. Ele considerou-o bom para descansar lá, já que havia água para seu proveito, embora ele pudesse ter feito algo mais durante o remate do dia.
Quando o alvorecer chegou novamente, ele acordou, e não gastou muito tempo com seu café da manhã; mas apressou-se com tudo que pôde. E agora ele disse a si mesmo que, qualquer que seja o outro perigo que estivesse através deste caminho, ele estava fora do risco da perseguição de seu próprio povo.
Tudo isso enquanto ele não vira nenhuma besta de quatro pés, salvo, agora e novamente, uma raposa da colina e uma vez algum estranho tipo de lebre. E por aves domésticas apenas muito poucas: um corvo ou dois, um falcão de longas asas, e duas vezes uma águia bem alto acima.
Novamente, na terceira noite, ele dormiu no pedregoso lugar selvagem, o qual ainda lhe conduzia para cima e acima. Somente próximo do final do dia, pareceu-lhe que o lugar fora menos íngreme por um longo tempo: de outra forma nada mudara, em todos os lados não havia nada somente o pescoço sem fim, de onde nada podia ser visto, somente algumas outras partes dele mesmo. Esta quarta noite [48]ele não encontrou água por meio da qual pudesse descansar, desse modo ele acordou ressecado e ansiando por beber justamente quando o amanhecer estava no [seu momento] mais frio.
Mas no quinto dia seguinte o solo subiu somente um pouco, e finalmente, quando ele estivera indo cansadamente por muito tempo, e agora, arduamente no meio dia, sua sede afligi-lhe dolorosamente, ele chega a uma fonte jorrando debaixo de uma rocha alta, de onde a água gotejava debilmente. Tão ansioso ele estava para beber, que, primeiramente, ele não prestou atenção a mais nada; mas, quando sua sede estava saciada, seus olhos capturaram a visão de um córrego que fluía da fonte, e ele deu um grito, pois oh, a corrente estava correndo para o sul. Portanto, era com um coração feliz que ele prosseguia e, enquanto ele ia, chegava a mais córregos, todos correndo para o sul ou por aí. Ele precipitou-se sobre todos que ele pôde, mas, apesar de toda a velocidade que ganhou, e que sentia a terra agora baixando em direção ao sul, a noite ultrapassou-lhe naquela mesma região selvagem. Mas, quando ele finalmente demorou-se por puro cansaço, deitou-se sobre o que considerou ser, sob o luar, um vale raso; com uma crista na extremidade sul dali.
Ele dormiu muito e, quando ele acordou, o sol estava alto nos céus e nunca [49]uma manhã foi mais brilhante ou mais clara sobre a terra do que aquela. Ele levantou-se e comeu o pouco que ainda lhe restava, bebeu da água de um córrego que seguira durante a noite passada e ao lado do qual se deitara. Então ele pôs-se adiante novamente sem nenhuma esperança de chegar a novas notícias naquele dia. Porém, quando ele já estava bastante adiante, pareceu-lhe que havia algo novo no ar que ele respirava, que era suave e trazia doces aromas diretamente a ele; ao passo que até agora, e isso especialmente pelos últimos três ou quatro dias, [tudo] fora áspero e vazio, como a face do deserto mesmo.
Em breve ele prosseguiu e logo estava montando o cume supracitado. E como frequentemente ocorre quando alguém se trepa num lugar ingrime, ele manteve os olhos no solo até que sentiu que estava no topo da crista. Então ele parou para tomar fôlego, ergueu sua cabeça; olhou, e oh, estava precisamente sobre a borda do grande pescoço da montanha. Abaixo dele estava a suspensão das grandes encostas, que caiam, não lentamente, como aquelas sobre os quais ele esteve escalando esses dias, mas bastante prontamente, ainda que com um pouco de lugares quebrados ou completos penhascos. Mas além deste final de deserto havia diante dele uma terra adorável de colinas arborizadas, [50]planícies verdes e pequenos vales, estendendo-se longa e largamente, até que finalmente acabava em grandes montanhas azuis e brancos picos nevados além deles.
Então, por causa da surpresa mesma de alegria, o espírito dele vacilou e ele sentiu-se fraco e tonto; de modo que estava fraco [o suficiente] para sentar-se por um tempo e cobrir rosto com suas mãos. Logo ele voltou a sua mente sóbria novamente, pôs-se de pé, olhou adiante profundamente e não viu sinal de nenhuma moradia de homem. Mas ele disse a si mesmo que isso possa bem ser porque a terra boa e bem cultivada ainda ficava tão longe, e que ele ainda pode procurar para encontrar homens e suas moradas quando ele deixara a montanha selvagem bem para atrás. Então, com isso, ele começou a seguir em seus caminhos montanha a baixo, e perdeu pouco tempo naquele lugar, considerando que agora ele tinha seu sustento para buscar.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.46-50. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/46/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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