[39]Quando acordou novamente, o sol brilhava sobre ele, a manhã estava calma e sem vento. Ele sentou-se e olhou ao redor de si, mas não pôde ver sinal algum de Fox salvo o covil no qual o mesmo dormira. Então Hallblithe pôs-se de pé e procurou por ele ao redor das fendas nas rochas e não o encontrou. Hallblithe gritou por ele e não teve resposta. Nessa ocasião ele disse, “Provavelmente ele descera ao bote para colocar alguma coisa ou para tirar alguma coisa.” Então ele seguiu em seu caminho para a escada abaixo, dentro da caverna de água, chamou por Fox do topo da escadaria e não teve resposta.
Então ele desceu aquela longa escada com um receio em seu coração e, quando ele chegou ao último degrau; não havia nem homem nem bote, nem mais nada, salvo a água e a rocha viva. Nessa altura ele ficou extremamente indignado, pois sabia que fora enganado e estava em uma má situação: deixado sozinho em uma Ilha que não conhecia; uma terra [40]deserta e desolada, onde parecia mais provável que ele devesse morre de fome.
Ele não desperdiçou nem folego ou força agora gritando por Fox, ou procurando por ele, pois disse a si mesmo: “Eu podia ter sabido bem que ele era falso e um mentiroso, visto que raramente ele podia conter sua alegria diante de minha tolice e de sua astúcia. Agora é comigo esforçar-me pela vida contra a morte.” Em seguida, ele virou-se e subiu a escada lentamente, saiu na superfície aberta daquela Ilha e viu que estava deveras vazia e terrível. Um lugar selvagem de areia negra, pedras, rochas transportadas pelo gelo, com pouco capim crescendo aqui e ali nas cavidades e às vezes um lamaçal sombrio onde borbotões cristados de branco agitavam-se ao vento, e aqui e ali trechos de terreno pantanoso misturavam-se com sempre-vivas florescidas em vermelho. Em outro lugar, nada somente o rastejante salgueiro mordido pelo vento segurando-se à areia negra, com uma lívida vara branca e uma folha ou duas, e novamente uma vara e uma folha. À distância na praia, olhando na direção da terra, havia grandes montanhas, algumas muito grandes e rematadas de neve, algumas nuas nos topos; e tudo o que estava distante, salvo a neve, estava azul profundo na manhã ensolarada. Mas, ao redor dele, no brejo, rochas estavam dispersas como o recife abaixo no qual ele dormira última noite e cumes, pontas agudas, martelos e pequenos montes de terra de rudes formas.
[41]Então ele foi à borda dos penhascos e olhou abaixo para o mar que jazia enrugado e ondulando na direção da praia muito abaixo dele. Longamente ele olhou a praia e tudo ao redor, mas não pôde ver nem embarcação nem vela, nem mais nada, salvo a lavagem das ondas e o pairar da ave marinha.
Então ele disse: “Talvez não ficasse bem se eu fosse procurar aquele mestre da casa do qual Fox falou? Não poderia ele emigrar-me finalmente para a Terra da Planície Cintilante? O pesar está em mim! Agora eu sou daquela grave comitiva e também eu devo gritar; Onde ficar a terra? Onde fica a terra?”
Com isso ele voltou-se na direção do recife acima da toca deles, mas, conforme ia, pensou e disse: “Não, mas não é este Lugar uma mentira como o resto da história de Fox? E não estou eu sozinho nesta terra selvagem cercada pelo mar? Sim, e mesmo aquela imagem de minha amada, a qual eu vi em um sonho, talvez aquilo também fosse uma mera ilusão; pois agora eu vejo que o Puny Fox era de todos os modos mais sábio do que é adequado e agradável.” Ainda de novo ele disse: “Pelo menos eu procurarei e descobrirei se há outro homem residindo nesta ilha desafortunada, e depois o pior disse será batalhar com ele, e morte pela ponta e gume em vez de pela forme; ou na melhor das hipóteses nós podemos nos tornar amigos e libertar um ao outro.” Depois disso ele [42]veio ao recife, e com muito barulho escalou ao mais elevado de suas rochas e dai olhou para baixo em direção à terra. Entre ele e as montanhas, e parecendo não muito distante, ele viu fumaça subindo, mas nenhuma casa viu, nem qualquer outra marca de uma moradia. Então ele desceu da pedra, voltou suas costas ao mar e foi na direção daquela fumaça com sua espada em sua bainha e sua lança sobre seu ombro. Acidentado e penoso era o caminho: três pequenos vales ele cruzou entre os pescoços de montanhas, cada um estreito e vazio, com uma corrente de água no meio correndo na direção do mar; e se em vale ou cume, ele prosseguia mesmo em meio a areia, pedras e ervas daninhas da terra selvagem, e não viu nenhum homem, ou besta cuidada pelo homem.
Finalmente, após ele ter estado a caminho por quatro horas, porém não fora muito longe, ele encimou uma inclinação pedregosa, e a partir da borda dali observou um amplo vale de grama crescida pela maior parte, com um rio correndo através dele; ovelha, vacas e cavalos alimentando-se para cima e para baixo nele. E em meio a este pequeno vale, pelo lado do corego, ficava uma morada de homens; um longo salão e outras casas ao redor dele construídos em pedra.
Então Hallblithe estava contente, desceu a curva rapidamente, seus apetrechos de guerra colidindo sobre ele. Conforme ele chegou ao pé dali e ao [43]capim do pequeno vale, aproximou-se dos cavalos pastantes e passou próximo do pastor de cavalos e de uma mulher que estava próximo dele. Eles fizeram-lhe careta conforme ele passava, mas não interferiram com ele de maneira alguma. Embora eles fossem como gigantes em estatura e ferocidade de face, não eram desfavorecidos: eles eram de cabelos vermelhos, e a mulher tão branca quanto creme onde o sol não queimara sua pele; eles não tinham armas que Hallblithe pudesse ver salvo a vara na mão do camponês.
Desse modo Hallblithe passou e chegou à casa maior, ao salão supracitado: era muito comprido e baixo para seu comprimento, não muito bem-feito de estilo, uma mera pilha empenada de pedras. Baixa e estreita era a porta lá naquele lugar, Hallblithe entrou vergando-se humildemente e o fogo do aço de sua lança, que ele carregava diante de si, foi extinto pela escuridão do salão. Ele sorriu e disse a si mesmo: “Agora se houvesse alguém perto que não me permita entrar vivo, e ele com uma arma em sua mão, logo toda história será contada.” Mas ele entrou no salão sem ser perturbado, ficou de pé no chão dai e falou: “A boa fortuna do dia para quem quer que esteja neste lugar! Algum homem falará ao recém-chegado?”
Mas ninguém respondeu ou deu-lhe saudações e, conforme seus olhos acostumaram-se à escuridão do salão, ele olhou ao redor de si: nem sobre o chão ou [44]sobre o alto assento nem em qualquer lareira pôde ele ver um homem. Havia silêncio lá, salvo pelo crepitar da chama tremulante no centro do meio e a corrida dos ratos atrás de painéis das paredes.
Em um lado do salão havia uma fileira de camas fechadas e Hallblithe imaginou que podia haver homens ali; mas, desde que ninguém o cumprimentara, ele conteve a si mesmo de procurá-los por medo de uma armadilha, e pensou, “Eu aguardarei no meio do chão e, se houver alguém que gostaria de lidar comigo, amigo ou inimigo, deixe-o vir cá para mim.”
Então ele começou a andar para cima e para baixo no salão, da despensa ao estrado, e seus apetrechos de guerra chocalharam sobre ele. Finalmente, conforme ele andava, ele pensou ter ouvido uma voz baixa, fina e rabugenta, a qual contudo era muito rouca para o guincho de um rato. Então ele adiou sua caminhada, ficou parado e disse: “Falará qualquer homem com Hallblithe, um recém-chegado e um estranho, neste lugar?”
Então a pequena voz formou uma palavra e disse: “Por que caminha o tolo para cima e para baixo em nosso salão, fazendo nada; assim como os Corvos batem as asas coaxando sobre os penhascos, sustentando o mote de guerra e o choque de lâminas incultas?”
Disse Hallblithe e a voz dele soou imensa no salão: “Quem chama Hallblithe de tolo e zomba dos filhos do Corvo?”
[45]Falou a voz: “Por que não vem o tolo ao homem que não pode ir até ele?”
Então Hallblithe curvou-se para frente para ouvir com atenção e considerou que a voz vinha de uma cama fechada. Então ele encostou sua lança contra um pilar, foi para dentro da cama fechada que ele notara e viu onde ali deita-se ao longo dela um homem extremamente velho de aparência, sensivelmente enfraquecido, com cabelos longos tão brancos com a neve, deitado sobre as roupas de cama.
Quando o ancião viu Hallblithe, riu um riso fino e estalado como se em zombaria e disse: “Saudação recém-chegado! Tu desejas comer?”
“Sim,” disse Hallblithe.
“Entra tu na despensa então,” disse o velho camponês, “e lá tu deverás encontrar no armário; bolos, colhadas e queijo. Come tua satisfação e, quando tiveres terminado, olha na lareira e tu deverás ver; um barril de hidromel demasiado bom, um jarro perto dali e dois copos prateados. Enche a jarra e trá-la aqui com os copos e, em seguida, nós poderemos conversar em meio à bebida, o que é bom para um velho camponês. Apressa-te! Ou eu devia considerar-te um duplo tolo que não irás para buscar a refeição dele, embora ele esteja faminto.”
Então Hallblithe riu; foi abaixo do salão, para dentro da despensa, encontrou a carne, comeu sua satisfação e foi embora com a bebida de volta para o homem de longos cabelos grisalhos, que riu quietamente conforme [46]ele vinha e disse: “Enche agora para ti e para mim, chama uma saúde para mim e deseja-me algo.”
“Eu desejo-te sorte,” disse Hallblithe e bebeu. Disse o ancião: “E eu desejo-te mais inteligência; sorte é tudo que tu podes desejar-me? Que sorte um ancião desgastado pode ter?”
“Bem então,” disse Hallblithe, “O que eu devo desejar-te? Gostarias tu que eu desejasse-te juventude?”
“Sim, seguramente,” disse o de longos cabelos grisalhos, “Isso e nada mais.”
“Juventude então eu desejo-te, se pode beneficiar-te de qualquer modo,” disse Hallblithe, e com isso ele bebeu novamente.
“Não, não,” disse o velho camponês perversamente, “toma um terceiro copo, e deseja-me juventude sem palavras ociosas juntadas a isso.”
Disse Hallblithe erguendo o copo: “Com isso eu desejo-te juventude!” e bebeu.
“Bom é o desejo,” disse o ancião; “agora pergunta tu ao velho camponês qualquer coisa que tu desejares.”
Disse Hallblithe: “Como esta terra é chamada?”
“Filho,” disse o outro, “ouvistes tu que ela é chamada de Ilha do Resgate?”
“Sim,” disse Hallblithe, “mas como tu gosta de chamá-la?”
“Por nenhum outro nome,” disse o grisalho camponês.
[47]“É distante de outras terras?” disse Hallblithe.
“Sim,” disse o camponês, “quando os leves ventos sopram e as embarcações navegam lentamente.”
“O que fazeis vós que viveis aqui?” disse Hallblithe. “Como vós viveis, com o que obtendes trabalho?”
“Nós obtemos trabalho variado,” disse o ancião, “mas o que ganha mais é roubar homens pela mão alta.”
“Sois vós que roubaram de mim a Hostage da Rosa?” disse Hallblithe.
Disse o de longos cabelos grisalhos, “Talvez; eu não tenho conhecimento. De diversos modos meus compatriotas fazem negócios e eles visitam muitas terras. Por que eles não deveriam ter chegado a Cleveland também?”
“Ela está nesta Ilha, tu velho renegado?” disse Hallblithe.
“Ela não está, tu jovem tolo,” disse o ancião.
Então Hallblithe corou e falou: “tu conheces o Puny Fox?”
“Como eu não deveria?” disse o camponês, “Já que ele é o filho de um de meus filhos.”
“Tu o consideras um mentiroso e um trapaceiro?” disse Hallblithe.
O ancião riu; “Senão seria eu um tolo,” disse ele; “há alguns poucos maiores mentirosos ou maiores trapaceiros do que Puny Fox!”
“Ele está aqui nesta ilha?” disse Hallblithe; “Posso vê-lo?”
O ancião riu novamente e disse: “Não, [48]ele não está aqui, a não ser que ele tenha tornado-se tolo desde ontem. Por que ele deveria aguardar tua espada, uma vez que ele fez o que deveria e trouxe-te aqui?”
Então ele riu, como uma galinha cacareja por um longo tempo, e então disse: “O que mais tu desejas perguntar-me?”
Mas Hallblithe estava muito irritado: “Não ajuda em nada perguntar,” ele disse; “e agora eu estou entre duas intenções; se eu devo matar-te ou não.”
“Isso seria uma ação apropriada a um Corvo, mas não para um homem,” disse o camponês, “e tu que desejaste-me sorte! Pergunta, pergunta!”
Mas Hallblithe ficou em silêncio por um longo tempo. Então o camponês disse, “Outro copo por causa da sede posterior a juventude!”
Hallblithe encheu, deu a ele, e o velho bebeu e disse: “Tu considera-nos todos mentirosos na Ilha do Resgate por causa de teu engano pelo Puny Fox: mas ai tu erraste. O Puny Fox é nosso principal mentiroso e faz para nós a maior parte de tal trabalho conforme nós precisamos: portanto, por que nós outros deveríamos mentir? Pergunta, Pergunta!”
“Bem então,” disse Hallblithe, “Por que o Puny Fox traiu-me e sob as ordens de quem?”
Disse o ancião: “Eu sei, mas não te contarei. É isto uma mentira?”
“Não, eu não a considero,” disse Hallblithe: “Mas [49]diga-me; é de fato verdade que minha prometida não está aqui, para que eu possa resgatá-la?”
Disse o de longos cabelos grisalhos: “Eu juro-te pelo Tesouro do Mar, que ela não está aqui: a história foi somente uma mentira do Puny Fox.”
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.39-49. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/39/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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