[33]Mas, quando eles tiveram sua carne e bebida, o comandante e os marinheiros foram cuidar da irrigação da embarcação e os outros vaguearam ao longo do prado. De modo que logo Walter foi deixado sozinho com o camponês, parou para falar com ele e disse: ‘Pai, parece-me que tu deves ter algum relato estranho para contar e ainda nós não te perguntamos sobre nada salvo carne para nossas barrigas. Agora se eu perguntar-te sobre tua vida, como tu chegaste aqui, habitas aqui; tu contar-me-ás qualquer coisa?’
O ancião sorriu para ele e disse: ‘Filho, se minha história ficasse extensa de contar, pode acontecer, concernente a grande parte dela, que minha memória deva falhar-me. Além disso há pesar [34]ali, que eu estivesse relutante em despertar. Mesmo assim se tu perguntares, eu responderei como posso e, em qualquer caso, não contar-te-ei nada salvo a verdade.’
Disse Walter: ‘Bem então, tu estás aqui há muito tempo?’
‘Sim,’ disse o camponês, ‘desde que eu era um jovem e um robusto cavaleiro.’
Disse Walter: ‘Esta casa; tu construíste-a, cultivou esses jardins, plantou pomar e vinha, reuniu em grupo rês e ovelha, ou mais alguém fez tudo isso para ti?’
Disse o camponês: ‘Eu não fiz nada disso tudo; havia alguém aqui antes de mim e entrei em sua herança, como se isto fosse uma herdade nobre, com um belo castelo nela; tudo bem estocado e preenchido.’
Disse Walter: ‘Tu encontraste teu antecessor vivo aqui?’
‘Sim,’ disse o ancião, ‘ainda ele viveu apenas por um pouquinho depois que eu vim a ele.’
Ele ficou em silêncio por um tempo e então disse: ‘Eu matei-lhe; mesmo assim ele sofreria, embora eu oferecesse-lhe um destino melhor.’
Disse Walter: ‘Tu vieste aqui por tua própria vontade?’
‘Talvez,’ disse o camponês; ‘quem sabe? [35]Agora eu não tenho vontade de fazer seja isto ou aquilo. É o costume que me faz fazer, ou deixar de fazer.’
Disse Walter: ‘Conte-me isso; por que tu mataste o homem? Fez ele algum dano a ti?’
Disse o ancião: ‘Quando eu matei-lhe, eu considerava que ele estivesse fazendo-me qualquer infortúnio; mas agora eu sei que não era assim. Assim foi: eu necessitaria ir aonde ele estivera antes e ele pôs-se de pé no caminho contra mim; eu derrubei-lhe e fui no caminho que eu desejava.’
‘Quê veio disso?’ disse Walter.
‘O mal veio disso,’ disse o camponês.
Então Walter fez silêncio por um tempo e o ancião não falou nada; mas aí veio um sorriso em sua face que era tanto astuto e algo triste. Walter olhou para ele e disse: ‘Foi a partir daí que tu irias naquele caminho?’
‘Sim,’ disse o camponês.
Disse Walter: ‘E agora tu contar-me-ás que caminho foi aquele, aonde ele ia e para onde levava, que tu necessitavas ir por ele, embora tu primeiro passaste por cima de um homem-morto? ’
‘Eu não te contarei,’ disse o camponês.
Então eles mantiveram-se calmos, ambos, [36]e depois disso avançaram para outra conversa sem importância.
Assim consumiu-se o dia até que a noite chegou. Eles dormiram em segurança e, no dia seguinte depois deles tomaram o café da manhã, a maior parte deles começou a caçada com o camponês. Eles foram, todos eles, numa caminhada de três horas até o pé dos penhascos, que estavam todos cobertos com arbustos, aveleiras e espinheiros, com grandes carvalhos ou freixos aqui e ali; lá era, dizia o velho, onde a veação era mais e melhor.
Sobre a caça deles, nada necessita ser dito, exceto que, quando o camponês colocou-os no rastro do veado e mostrou-lhes o que fazer, ele voltou-se novamente a Walter que, não tendo grande desejo por caça, ansiava extremamente ter mais alguma conversa com o dito camponês. Ele, por sua parte, parecia avesso a isso e assim levou Walter a um monte ou colina em meio à clareira da planície, de onde tudo estava para ser visto salvo onde o bosque cobria. Mas justamente diante de onde eles agora estavam não havia bosque, salvo arbustos baixos, entre eles e a parede rochosa. Walter notou que enquanto em outro lugar, salvo no lugar para onde seus olhos estavam voltados, os penhascos pareciam bem próximos ou bastante [37]simples – ou de fato em alguns lugares sobressaindo-se –, naquele dito lugar eles afastavam-se um do outro em ambos os lados; e adiante este afundamento era inclinado ou em seixos, que subiam gentilmente na direção do abaixamento da parede. Walter olhou longa e seriamente para este lugar, e não falou nada, até que o camponês falou: ‘Que! Tu encontraste algo diante de ti para contemplar. O que é então?’
Disse Walter: ‘Alguns diriam que acolá, onde as encostas sobem juntas em direção àquele desmoronamento na parede do penhasco, haverá uma passagem para dentro do país além.’
O camponês sorriu e disse: ‘Sim, filho; nem, assim dizendo, eles errariam: pois aquela é a passagem para dentro do País dos ursos, por meio da qual aqueles homens imensos descem para regatear comigo.’
‘Sim,’ disse Walter; com isso ele virou-se um pouco, examinou a parede rochosa e viu como há algumas milhas daquela passagem ela virava-se algo bruscamente na direção do mar, estreitando-se muito a planície ali, até que ela formava uma angra, a face da qual olhava mais ou menos para o norte, ao invés do oeste, como fazia a maior parte da parede. E no meio daquela angra que olhava para norte ficava um lugar sombrio que parecia a Walter como um caco perpendicular ao penhasco. Pois a face da parede era [38]de um cinza ermo e ela era apenas um pouco sulcado.
Então Walter falou: ‘Oh, velho amigo, ali acolá está novamente um lugar que, me parece, é uma passagem. Para onde aquela ela leva?’ E ele apontou para ela. Porém o velho não seguiu o apontar de seu dedo, mas, olhando abaixo, para o chão, respondeu confusamente e disse:
‘Talvez. Eu não tenho conhecimento. Eu acredito que também ela leve para o dentro do País dos ursos através de uma estrada desviada. Ela conduz à terra distante.’
Walter nada respondeu, pois, em primeiro lugar um estranho pensamento veio a sua mente: que o camponês sabia muito mais do que ele diria sobre aquela passagem e que desse modo ele mesmo podia ter sido levado a encontrar os prodigiosos três. Ele segurou sua respiração com dificuldade e seu coração bateu contra suas costelas; apenas ele absteve-se de falar por um longo tempo. Mas finalmente ele falou em uma voz dura e afiada, que ele mal conhecia como sua própria: ‘Pai, conte-me, eu adjuro-te por Deus e por Todos os santos, era através daquele fragmento acolá que o caminho jazia, quanto tu necessitaste de fazer tua primeira marcha sobre um homem-morto?’
O ancião não falou por um tempo. Então ele ergueu a cabeça, olhou Walter com [39]os olhos cheios e disse em uma voz firme: ‘NÃO, NÃO ERA.’ Depois disso eles sentaram-se olhando um para o outro por um tempo; não obstante finalmente Walter afastou seus olhos, porém não sabia o que eles observavam nem onde ele estava, somente que ele era como alguém em um desmaio. Pois ele sabia muito bem que o camponês mentira para ele; que tão bem ele podia ter dito sim como não e contado-lhe que fora realmente através daquele mesmo fragmento que ele marchara sobre o homem-morto. Mesmo assim ele fez tão pouca aparência disso quando ele pôde e rapidamente começou a falar de outros assuntos, que não tinham nada a fazer com as aventuras da terra. Mas depois de um tempo ele falou subitamente, e disse: ‘Meu mestre, eu estava pensando sobre uma coisa.’
‘Sim, sobre o que?’ disse o camponês.
‘Sobre isto:’ disse Walter; ‘que aqui, nesta terra, aventuras estranhas estão acontecendo e que, se nós, e eu em especial, déssemos as costas a elas e fôssemos para casa com nada feito, seria uma pena para nossas vidas, pois lá tudo seria aborrecido e inativo. Eu estava considerando se seria bom se tentássemos a aventura.’
‘Que aventura?’ disse o ancião, erguendo-se sobre seu cotovelo e encarando-o severamente.
Disse Walter: ‘A ida para acolá passa para o leste, através da qual os homens imensos vêm [40]a ti do País dos Ursos; para que nós possamos ver o que disso viria.’
O camponês recostou-se novamente, sorriu e sacudiu a cabeça e falou: ‘Se aquela aventura fosse precipitadamente provada, morte viria disso, meu filho.’
‘Sim e como?’ disse Walter.
O camponês disse: ‘Os grandalhões iriam pegar-te e oferecer-te como uma oferenda de sangue àquela mulher, que é o Ídolo deles. E, se vós fôsseis todos, então eles deverão fazer o mesmo como todos vocês.’
Disse Walter: ‘Isso é certo?’
‘Fatal sem dúvida,’ disse o camponês.
‘Como tu sabes disso?’ disse Walter.
‘Eu estive lá eu mesmo’ disse o camponês.
‘Sim,’ disse Walter, ‘mas tu vieste embora inteiro.’
‘Estás tu certo disso?’ disse o camponês.
‘Tu estás vivo ainda, ancião,’ disse Walter, ‘pois eu vi-te comer tua carne, o que fantasmas não costumam fazer.’ E ele riu.
Mas o ancião respondeu sobriamente: ‘Se eu escapei, foi por isto; que outra mulher salvou-me, e aquilo não deve ocorrer frequentemente. Nem inteiramente eu fui salvo; verdadeiramente, meu corpo escapou. Mas onde está minha alma? Onde está meu coração e minha vida? Jovem, eu aconselho-te: [41]não tentes tal aventura; mas vai para casa, para teus parentes se tu puderes. Além disso, tu viajarias sozinho? Os outros deverão impedir-te.’
Disse Walter: ‘Eu sou o mestre; eles deverão fazer como eu ordenar-lhes. Além disso, eles ficarão bem contentes de compartilhar meus bens entre eles, se eu der-lhes um escrito para inocentar-lhes de todas as acusações que poderiam ser trazidas contra eles.’
‘Meu filho, meu filho!’ disse o camponês, ‘Eu suplico-te; não vás para tua morte!’
Walter ouviu-o silenciosamente, embora como se estivesse persuadido a refrear. Então o velho parou e contou-lhe muito sobre esse Povo urso e seus costumes, falando muito à vontade deles. Mas escassamente os ouvidos de Walter estavam abertos a essa conversa: visto que ele considerava que não deveria ter nada a fazer com aqueles homens selvagens e ele não se atreveria a perguntar novamente sobre o país para onde levava a passagem na parte norte.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.33-41. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/33/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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