A Floresta além do Mundo - Capítulo IX Walter depara-se com a Primeira daquelas Três Criaturas

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[51]Por causa de uma coisa, outra coisa; como sua necessidade de sair de seu caminho para rochas puras, ou para encostas tão íngremes que ele não pode julgar o perigo deles e, novamente, para pântanos intransitáveis. Ele estava a pelo menos mais três dias antes que ele bem saísse da ruína pedregosa e nessa altura, embora a ele nunca faltara água, suas escassas provisões estavam bem-acabadas, devido a toda sua economia cuidadosa delas. Mas isso preocupou-lhe pouco, visto que ele olhava para encontrar frutas selvagens aqui e ali, para caçar algum pequeno veado, assim como lebre ou coelho e criar um ardil para cozinhar os mesmos, visto que ele tinha consigo pederneira e aço de fogo. Além disso o mais distante que ele fosse, mais seguro ele estava de que logo ele deveria deparar-se com um habitante, tão suave e belo como tudo parecia diante dele. E [52]ele tinha escasso medo, salvo de que ele podia encontra-se com alguém que deveria dominá-lo.

Mas quando ele desceu, passadas as primeiras encostas verdes, estava tão desgastado que disse a si mesmo que descansar era melhor do que carne; tão pouco ele dormira durante os últimos três dias. Nessa ocasião ele deitou-se abaixo de um freixo pelo lado de um fluxo. Nem se perguntou que horas eram, todavia ele tinha sua carga de sono e, mesmo quando ele despertou na manhã fresca, estava um pouco fraco para erguer-se; somente jazia entre dormindo e acordando por mais algumas três horas. Depois ele ergueu-se, e prosseguiu adiante, descendo a próxima curva verde, ainda um pouco lentamente por causa de sua fraqueza de fome. E o aroma daquela bela terra chegava a ele como o odor de um grande ramo de flores.

Nessa altura ele veio para onde a terra era aplanada e ali havia muitas árvores: como carvalho, freixo, castanheira doce, olmo escocês, álamo-branco e sorva; não crescendo em mata fechada ou matagal emaranhado, mas dispostas como se em ordem sobre o relvado florido, mesmo como se pudessem estar em um grande parque real.

Desse modo ele chegou até uma grande cerejeira-brava, da qual muitos ramos pendiam baixos carregados com fruta: a barriga dele regojizou-se com a visão; ele pegou um galho e parou para colher [53]e comer. Mas, enquanto ele estava em meio a isso, ouviu subitamente perto dele, um barulho estranho de rugidos e zurros, não muito grande, mas excessivamente feroz e terrível e não semelhante à voz de qualquer besta que ele conhecia. Como fora sobredito, Walter não era de coração fraco; mas que, com a fraqueza de sua labuta e fome e com a estranheza de sua aventura e de sua solidão, seu espírito falhou-lhe. Ele virou-se em direção do barulho, seus joelhos sacudiram e ele tremeu. Ele olhou nessa e naquela direção, então deu um grande grito e abateu-se em um desmaio; pois próximo diante dele, em seus próprios pés, estava o anão cuja imagem ele vira antes, envolto em seu casaco amarelo e sorrindo ironicamente para ele conforme seu horrível semblante peludo.

Por quanto tempo ele deitou-se lá como alguém morto, ele não sabia, mas, quando ele acordou novamente, ali estava o anão sentado sobre seus pernis de porco próximo a ele. E quando ele ergueu sua cabeça, o anão emitiu novamente aquela assustadora voz severa, mas, desta vez Walter pode elaborar palavras naquele lugar, e sabia o que a criatura falou e disse:

Como agora! O que és tu? De onde vens? O que queres?’

[54]Walter sentou-se e disse: ‘Eu sou um homem; eu sou chamado de Golden Walter; eu venho de Langton; eu quero provisões.’

Disse o anão, contorcendo sua face gravemente e rindo verdadeiramente: ‘Eu sei isso tudo: eu perguntei-te para ver com que extensão tu mentirias. Eu fui enviado para procurar-te e eu trouxe-te pão asqueroso comigo, tal como vós estrangeiros têm necessariamente de comer: pega!

Com isso ele retirou um pão de uma mochila que trouxera e empurrou na direção de Walter, que pegou-o um tanto duvidosamente devido a toda sua fome.

O anão berrou com ele: ‘Tu és delicado, estrangeiro? Desejas tu ter carne? Bem, dá-me teu arco e uma ou duas flechas – já que tu estás ociosamente enfermoe eu obter-te-ei um coelho ou uma lebre, ou uma codorna talvez. Ah, eu esqueci; tu és delicado, e não comeria carne como eu comosangue e tudo juntomas precisa meio queimá-la no fogo, ou estragá-la com água quente; como eles dizem que minha Senhora faz: ou como o Desgraçado, a Coisa fazem; eu sei disso, pois eu vi a Coisa comendo.’

Não,’ disse Walter, ‘isto basta,’ e ele começou imediatamente a comer o pão, o qual era doce entre seus dentes. Então, quando ele [55]comera por um tempo, pois a fome compeliu-o, ele disse ao anão: ‘Mas o que queres dizer tu com o Desgraçado e a Coisa? E qual Senhora é tua Senhora?

A criatura soltou outro rugido sem palavras com se de irritação furiosa e então as palavras chegaram: ‘a Coisa têm uma face branca e vermelha, semelhante à tua; e mãos brancas como as tuas, sim, mas mais brancas; e à semelhança disso é por baixo de sua vestimenta, somente ainda mais branco: pois eu vi a Coisa… sim, eu vi a Coisa; ah, sim e sim e sim.’

E com isso suas palavras incorreram em algaravia e gritaria; ele rolou sobre a grama, castigando-a. Porém, daqui a pouco ele aquietou-se novamente, sentou-se calmo e seguida começou de uma vez a gargalhar horrivelmente de novo; então disse: ‘Mas tu, tolo, acharias a Coisa bela se tu caísses nas mãos dela, e arrepender-te-ia disso subsequentemente, como eu fiz. Oh, a zombaria e o escárnio da Coisa, e as lágrimas e os guinchos da Coisa; e a faca! Que! Disseste tu de minha Senhora?… Qual Senhora? Oh estrangeiro, Que outra Senhora há? E o que devo eu contar-te dela? É provável que ela tenha criado-me, como ela criou os Homens urso. Mas ela não criou o Desgraçado, a Coisa; e ela odeia intensamente a Coisa, como eu faço. E algum dia por vir…’

[56]Depois disso ele parou e caiu na gritaria sem palavras por um longo tempo; depois disso falou arquejando: ‘Agora eu contei-te demais, e oh, se minha Senhora chegar a ouvir disso. Agora eu irei.’

E com isso ele pegou mais dois pães de sua mochila, lançou-os para Walter, e assim virou-se e seguiu em seus caminhos: algumas vezes andando direito, como Walter vira sua imagem no cais em Langton; algumas vezes ricocheteando e rolando, como uma bola arremessada por um rapaz; algumas vezes correndo precipitadamente de quatro, como uma besta maligna; e mesmo sempre e sem demora dando a luz àquele grito desagradável e maligno.

Walter sentou-se por um tempo, depois que ele estava fora de visão, tão acometido com horror e repugnânciae um medo do que ele não sabia – que ele não podia mover-se. Então ele arrancou um núcleo jovem de roseta de folhas, olhou para suas armas e colocou os outros pães dentro de sua bolsa.

Em seguida, ele levantou-se e seguiu em seus caminhos perguntando-se, de fato e temendo, com que tipo de criatura ele deveria topar em seguida. Pois verdadeiramente pareceu-lhe que seria pior do que a morte se eles fossem todos tais como esse um; e que se fosse assim, ele teria necessariamente de matar e ser morto.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.51-56. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/51/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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