A História da Planície Cintilante - Capítulo V Eles chegam à Ilha do Resgate

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[24]Então o sol baixou e pôs-se; as estrelas e a lua brilharam por um tempo e depois foram cobertas por nuvens. Hallblithe ainda remava e não descansava, embora ele estivesse cansado. O grandalhão sentou-se, guiava e mantinha-se calmo. Mas quando a noite envelhecera, e não era tão distante do amanhecer, o estrangeiro disse: “Jovem dos Corvos, agora tu deve dormir e eu remarei.”

Hallblithe estava extremamente cansado. Então ele deu os remos para o estrangeiro, deitou-se sobre a popa e dormiu. E em seu sono ele sonhou que estava deitado na Casa do Corvo, suas irmãs vinham a ele e diziam, “Levanta agora, Hallblithe! Tu desejas ser um preguiçoso no dia do teu casamento? Vem tu conosco para a Casa da Rosa para que nós possamos levar embora a Hostage.” Em seguida ele sonhou que elas partiam, e ele levantou-se e vestiu-se. Mas quando ele teria saído do salão, então não era [25]mais luz do dia, mas luar e ele sonhou que sonhara. Mesmo assim ele teria saído, mas não pôde encontrar a porta. Nessa altura ele disse que iria pela janela: mas a parede era alta e lisa (bem outra que na Casa do Corvo, onde baixas eram todas as janelas ao longo de um corredor), nem havia qualquer meio de alcançá-las. Mas ele sonhou que estava tão atrapalhado com isso e tinha uma fraqueza tal nele, que chorou de piedade de si mesmo. Ele foi a sua cama para deitar-se; e oh, não havia nenhuma cama nem salão; nada salvo uma charneca, selvagem, extensa e vazia sob a lua. E ainda ele chorou em seu sonho e sua virilidade parecia afastar-se dele. Ouviu uma voz clamando, “É esta a Terra? É esta a Terra?”

Com isso ele acordou e, conforme seus olhos limpavam, observava o grandalhão remando e a vela negra batendo-se contra o mastro; pois o vento caíra morto e eles estavam passando sobre uma ondulação longa e suave de mar. Era plena luz do dia, mas ao redor deles havia uma névoa espessa que parecia, não obstante, como se o sol estivesse prestes a brilhar através dela.

Enquanto Hallblithe capturava o olho do homem vermelho, ele sorria, acenava-lhe com a cabeça e disse: “Agora chegou a hora para ti: primeiro comer e depois remar. Mas diga-me o que é isso sobre tuas bochechas?”

[26]Hallblithe, corando um pouco, disse: “O orvalho da noite caiu sobre mim.”

Disse o pirata, “Não é vergonha para ti, um jovem, lembrar-se de tua prometida em teu sono e chorar porque tu careces dela. Mas agora move-te, pois é mais tarde do que podes imaginar.”

Com isso o grandalhão puxou os remos, veio à parte de trás do bote e tirou carne e bebida de um armário perto dali. Eles comeram e beberam juntos, Hallblithe fortaleceu-se e tornou-se um pouco menos abatido; ele foi adiante e pegou os remos em suas mãos.

Então o grandalhão vermelho pôs-se de pé, olhou sobre seu ombro esquerdo e disse: “Logo nós deveremos ter uma briza e um tempo claro.”

Então ele olhou para o mediano da vela e começou subitamente um assobio em um tom semelhante ao que os violinos tocam para os homens dançando e as virgens na Época de Natal. Com isso os olhos dele reluziram e cintilaram e excessivamente grande ele pareceu. Em seguida Hallblithe sentiu um pouco de ar em sua bochecha, a névoa afinou e a vela começou a encher-se com vento até que a escota esticou: então, oh, a névoa subindo da face do mar, e a superfície do mar ondulando alegremente sob o brilho do sol. Depois o vento aumentou, a parede de névoa partiu e umas poucas nuvens leves apressaram-se através do céu. A vela [27]cresceu e o bote prosseguiu, os mares embranqueceram a partir da proa e eles aceleraram através da superfície das águas.

Então riu o homem de cabeleira vermelha e disse: “Oh resmungão do braço morto, agora o vento está de tal modo que nenhuma remadura de tua parte pode alcançá-lo: assim com os remos agora, vira e tu deverás ver para que lado nós estamos indo.”

Então Hallblithe virou-se na bancada, olhou através do oceano e oh, diante deles altos penhascos, rochas escarpadas e montanhas de uma nova terra – que parecia ser uma ilha – e eles estavam em alto-mar sob o sol, que agora brilhava em alta no meio do céu. Ele não disse absolutamente nada, mas sentou-se, olhando e perguntando-se que terra poderia ser. Mas o grandalhão disse: “Oh tumba de guerreiros, não é como se o tom azul do mar profundo se elevasse no ar, e tornasse-se de ar colorido em rocha e pedra, tão maravilhoso azul é? Mas isso é porque aquelas rochas escarpadas e montanhas estão muito distantes, conforme nos aproximarmos delas, tu deverás ver como elas verdadeiramente são, que elas são negras como o carvão e que aquela terra é uma ilha, chamada de a Ilha do Resgate. Naquele lugar deverá ser o mercado para ti onde tu poderás regatear tua prometida. Lá tu poderás tomá-la pela mão e levá-la embora, quando tu lidares com o mascate de donzelas e [28]empenhares a ti – pelo galo da batalha e pelo gume da lâmina inculta – a pagar aquilo que ele desejares ter de ti.”

Enquanto o grandalhão falava havia uma zombaria em sua voz, sua face e em todo seu imenso corpo; o que deixou a espada de Hallblithe ansiosa em sua bainha. Mas ele conteve sua cólera, e disse: “Grandalhão, quanto mais tempo eu olho, menos eu posso pensar em como nós chegaremos àquela ilha, pois eu não consigo ver nada somente um imenso penhasco e grandes montanhas elevando-se além dele.”

Tu deverás admirar-se mais,” disse o estrangeiro, “quanto mais tu aproximas-te de lá; pois não é porque nós estamos tão distantes que tu não podes ver nenhuma praia ou costa, ou declive de terra na direção do mar, apenas porque não há nenhuma de todas essas coisas. Ainda assim não temas, eu não estou contigo? Tu deveras chegar à terra firme na Ilha do Resgate.”

Nessa ocasião Hallblithe manteve-se calmo e o outro não falou por um tempo, mas deu uma risada curta – uma ou duas vezes – e finalmente disse numa grande voz, “Pequeno carniceiro, por que tu não me perguntas o meu nome?”

Agora Hallblithe era um homem alto e um lutador abrandado, mas ele disse: “Porque eu estava pensando em outras coisas e não em ti.”

Bem,” disse o grandalhão, em uma voz ainda mais alta, “Quando eu estou em casa os homens chamam-me de o Puny Fox.”

[29]Então Hallblithe disse: “Tu és uma Raposa [Fox]? Pode bem ser que tu deverás iludir-me como tais bestas desejam, mas presta atenção a isso: que se tu o fizeres eu deverei saber como vingar-me.”

Então o grandalhão levantou-se da cana do leme, escarranchou-se amplamente no bote e clamou numa grande voz vociferadora: “Aninhador em penhasco, eu sou um de sete irmãos, e o menor e o mais fraco deles. Tu não estas com medo?”

Não,” disse Hallblithe, “pois os outros seis não estão aqui. Tu lutarás aqui no bote, oh Fox?”

Não,” disse Fox, “em vez disso nós beberemos um copo de vinho juntos.”

Então ele abriu novamente o armário e retirou dali um grande chifre de algum imenso rês das terras distantes – que estava cilhado e retido com prata – e também um copo dourado. Ele encheu o copo a partir do chifre, entregou-o na mão de Hallblithe e disse: “Bebe, Oh passarinho de penas negras! Mas grite uma saúde sobre o copo se tu desejares.” Então Hallblithe ergueu alto o copo o e exclamou: “Saúde para a Casa do Corvo e para eles que a amam! E um dia doente para seus inimigos!” Então ele pôs seus lábios no copo e bebeu; e aquele vinho pareceu a ele melhor e mais forte do que qualquer outro que ele jamais provara. Mas quando ele devolvera o copo para Fox, aquele vermelho encheu-o novamente, e clamou sobre ele, “O Tesouro do [30]Mar! E o Rei que não morre!”. Então ele bebeu e encheu de novo para Hallblithe, enquanto isso ele guiava com seus joelhos. E assim eles beberam três copos cada. Fox sorriu e estava pacífico e falou só escassamente, mas Hallblithe sentou-se maravilhando-se como o mundo mudara para ele desde ontem.

Mas agora o céu foi soprado completamente límpido de nuvens e o vento assobiava agudamente atrás delas. Grandes ondas subiam e caiam ao redor delas e o sol cintilava sobre elas em muitas cores. Rápido voou o bote diante do vento como se ele nunca fosse parar, o dia estava minguante e o vento ainda subindo. E agora a Ilha do Resgate erguia-se imensa diante deles, preta como carvão e nem praia nem porto foram vistos lá. Contudo eles correram diante do vento na direção daquela parede de penhasco negro, contra a qual o mar ablui para sempre, e nenhuma quilha jamais construída pelo homem pode subsistir por um momento entre a onda e o penhasco daquela terra sombria. O sol baixou e afundou vermelho embaixo o mar, e o mundo de pedra engoliu metade dos céus diante deles, pois eles chegaram muito próximos de lá. Nem podia Hallblithe ver qualquer coisa por causa disso; somente que eles deveriam colidir contra o penhasco e perecer em um momento de tempo.

Entretanto o bote voou. Somente agora, quando o [31]crepúsculo chegou, e eles mal abriram um longo alcance do penhasco que fica depois de um alto promontório, Hallblithe pensou ter visto abaixo, próximo à beira do mar, algo mais escuro do que a superfície da parede de rochas, e considerou que fosse uma caverna. Eles chegaram um pouco mais próximos e ele viu que era uma grande caverna alta o suficiente para permitir que um coca entre com todas as suas velas estendidas.

Filho do Corvo,” disse Fox, “ouve com atenção, pois teu coração não é pequeno. Acolá é o portão para a Ilha do Resgate, e se tu desejares, tu poderás ir através dele. Ainda assim pode ser que se tu fores à praia na Ilha algo grave poderá acontecer-te, um problema maior do que tu podes suportar: uma vergonha isso pode ser. Agora há duas escolhas para ti: ou subir à Ilha e encarar tudo; ou morrer aqui pela minha mão, não tendo feito nada covarde ou vergonhoso: que dizes tu?”

Tu és de muitas palavras quando o tempo então aperta,” disse Hallblithe. “Por que eu não deveria escolher subir à Ilha para libertar minha donzela prometida? De resto, mata-me se tu puderes, se nós retornamos vivos deste caldeirão de águas.”

Disse o grandalhão vermelho: “Veja então, e observa Fox como ele conduz, como se fosse através de um buraco de agulha.”

Agora eles estavam debaixo da sombra negra do penhasco negro e, em meio ao crepúsculo, a ressaca [32]era jogada ao redor como fogo branco. Nos céus mais baixos as estrelas estavam começando a cintilar e a lua estava brilhante e amarela, acima tudo estava pacífico, pois nenhuma nuvem maculava o céu. Em um momento Hallblithe viu tudo isso suspenso sobre a agitação da água trovejante e da rocha gotejante e no próximo ele estava na escuridão da caverna; os ventos ribombantes e as ondas constantemente trovejando ao redor dele, embora de uma voz diferente sem a desagradável confusão. Então ele ouviu Fox dizer: “Senta agora e toma os remos, pois logo nos devemos estar em casa no local de desembarque.”

Então Hallblithe tomou os remos, remou e conforme eles iam caverna acima o mar abateu-se. O vento extinguiu-se dentro de uma rajada de vento sem objetivo por lugares vazios e por um pouquinho foi tudo negro como o negro pode ser. Em seguida Hallblithe viu que a escuridão tornou-se um pouco mais cinza, e olhou sobre seu ombro e viu uma estrela de luz detrás dos remos do bote, Fox exclamou: “Sim, é como o dia; brilhante será a lua para aquele que necessariamente precisa viajar a pé hoje à noite! Cessa a remadura, oh Filho da galo azul carvão, pois há caminho suficiente nela.”

Então Hallblithe deitou-se sobre seus remos e em um minuto a proa bateu em terra. Nessa ocasião ele virou-se e viu uma escada ingrime de pedra e, acima [33]do mastro inclinado [do bote], o céu ao luar e as estrelas brilhantes. Então Fox ergueu-se, veio à frente, saltou para fora do bote e atracou-o a uma grande pedra. Depois ele saltou novamente de volta e disse: “Ajuda com os mantimentos; nós precisamos tirá-los do bote a menos que tu queiras dormir sem jantar, visto que eu não desejo. Pois hoje a noite nós devemos ser convidados de nós mesmos, uma vez que é distante da moradia de meu povo, e o velho é conhecido como um trocador de pele, o que parte a noite. E quanto a esta caverna, não é considerada ser de modo nenhum seguro dormir neste lugar, a menos que o dorminhoco tenha um duplo quinhão de sorte. E tua sorte, parece-me, oh Filho do Corvo, é a agora como algo menos do que um quinhão singular. Assim hoje a noite nós deveremos dormir sob o céu nu.”

Hallblithe concordou e eles tomaram a carne e beberam, tal como eles necessitavam, de fora do bote, e subiram um não pequeno caminho na escada ingrime. Assim saíram em um lugar plano, que pareceu a Hallblithe vazio e devastado, tão longínquo como ele vira-o sob o luar; pois o crepúsculo fora-se agora e nada foi deixado da luz do dia salvo um vislumbre no oeste.

Isto Hallblithe considerou maravilhoso, que não menos fora na charneca aberta e na borda da terra do que encerrado na caverna, todo aquele tumulto do vento abrandara, e a noite sem nuvens estava calma, e com um pouco de ar leve soprando do sul e em direção à terra.

[34]Além disso, Fox terminara com seu humor fanfarrão de voz alta, e falou gentil e pacificamente como para um viajante, que tinha assunto seu a tratar como outros homens. Agora ele apontou para certas rochas ou baixos cumes escarpados que, a uma pouca distância, surgem como um recife a partir da planície sem árvores. Então disse ele: “Camarada de bordo, por baixo daquelas rochas acolá fica nosso lugar de descanso por hoje a noite; e eu suplico-te não me consideres rústico por não dar-te um abrigo melhor. Mas eu tenho um ônus contigo por trazer-te em segurança assim tão distante em tua missão. E tu verificarias que é difícil viver entre tais companheiros de casa como tu descobririas acima acolá entre nosso povo esta noite. Mas amanhã tu deverás ir falar com aquele que lidará contigo sobre o resgate.”

É suficiente,” disse Hallblithe, “e eu agradeço-te por tua condução: e quanto às tuas palavras rudes e deselegantes as quais tu dera-me, eu perdôo-te por elas: pois eu não sou o pior delas. De qualquer jeito, se eu fora, minha espada teria uma voz na questão.”

Eu estou bem contente como isso é, Filho do Corvo,” disse Fox; “Eu cumpri com minha oferta e tudo está bem.”

Conte-me então quem te ordenaste trazer-me aqui?”

Eu não posso contar-te,” disse Fox; “tu estás aqui, fica contente, como eu estou.”

[35]E ele não falou mais até que eles chegaram ao recife supracitado, que estava uns dois furlongs do lugar onde eles tinham saído da caverna. Ali então eles arrumaram sua ceia sobre as pedras, comeram o que desejaram e beberam daquele bom vinho forte enquanto o chifre suportou. E agora Fox era o de poucas palavras, e quando Hallblithe perguntou-lhe acerca daquela terra, ele teve pouco a dizer. E finalmente quando Hallblithe perguntou-lhe por essa casa tão perigosa e aqueles que tripulavam-na, ele disse-lhe:

Filho do Corvo, não ajuda perguntar sobre esses assuntos; pois se eu contar-te qualquer coisa a respeito deles eu deverei contar-te mentiras. Mais uma vez que seja suficiente para ti que tu atravessaste o mar em segurança em tua busca; e é verdadeiramente um mar mais perigoso do que tu acreditas. Mas agora tenhamos um fim às palavras vãs, e façamos nossa cama em meio as essas pedras como melhor nós possamos; pois nós devemos estar ativos cedo pela manhã.” Hallblithe disse pouco em resposta, e eles arrumaram astuciosamente seus locais para dormir, como a lebre forma a dela, e como homens bem-acostumados a deitar-se no estrangeiro.

Hallblithe estava muito cansado e logo ele adormeceu. Enquanto ele jazia ali, sonhou um sonho, ou talvez viu uma visão; quer ele estivesse adormecido quando ele viu-o, ou entre dormindo e [36]acordando, eu não sei. Mas este foi o seu sonho ou sua visão: que a Hostage estava de pé sobre ele, e ela como ele vira-a senão ontem – de cabelos brilhantes, de bochechas vermelhas e pele branca, gentil de mão e suave de voz – e ela disse-lhe: “Hallblithe, olha para mim e escuta com atenção, pois eu tenho uma mensagem para ti.” E ele olhou e ansiou por ela, a alma dele estava arrebatada pela doçura de seu desejo e ele teria saltado e lançado seus braços ao redor dela. Mas dorme e o sonho limitou-o; ele não pôde. Então a imagem sorriu-lhe e disse: “Não, meu amor, dorme ainda, pois tu não podes tocar-me: aqui é só a imagem do corpo que tu desejas. Escuta com atenção então. Eu estou em má situação, nas mãos de ladrões fortes do mar, nem sei eu o que eles farão comigo e não tenho vontade de ser envergonhada; ser vendida por um preço de uma mão a outra; contudo ser deitada sem um preço, e jazer ao lado de algum inimigo de nosso povo, e ele lançar seus braços ao meu redor, eu queira ou não queira: isso é um caso difícil. Portanto amanhã de manhã na aurora enquanto os homens dormem, eu acho que posso furtar-me para a amurada do navio negro e dar-me aos deuses, para que eles e não esses renegados possam ser os mestres de minha vida e minha alma e possam fazer comigo como eles desejarem. Pois na verdade [37]eles sabem que eu não posso suportar a estranha casa sem filhos, o amor e os carinhos de mestres da casa estrangeiros e a zombaria e as divisões das senhoras de casa estrangeiras. Assim sendo que o Grisalho do mar tome-me, veja meus assuntos, e carregue-me para vida ou para morte, que assim ele deseje. Agora escasseia a noite, mas dorme um pouco mais, enquanto eu falo outra palavra.”

Talvez nós devamos encontrar-nos novamente vivos e talvez não: e se não, embora nós nunca deitemos outra vez em uma cama juntos, ainda assim eu ter-te-ia lembrar-se de mim. Porem não como se minha imagem deva vir entre ti e tua amiga de fala e companheira de cama dos parentes, aquela deve jazer onde eu estiver deitada. Ainda de novo, se eu viver e tu viveres, disseram-me e eu ouvi que por um caminho ou outro é possível que eu chegue à Planície Cintilante, e à Terra dos Homens Vivos. Oh meu amado, se por qualquer caminho tu puderes chegar lá também, e nós pudermos encontrar-nos lá, e nós dois vivos, quão bom isso seria! Busca aquela terra então, querido! Busca-a, se ou não nós uma vez mais contemplarmos a Casa da Rosa, ou pisarmos no solo da moradia do Corvo. E agora mesmo esta imagem de mim deve separar-se de ti. Adeus.”

Com isso o sonho terminara, a visão partira e Hallblithe sentou-se cheio de angústia [38]e saudade. Ele olhou ao redor de si, através da terra triste. Estava um pouco luminoso, o céu tornara-se cinza e nublado, e ele considerou que o alvorecer chegou. Então ele pôs-se de pé num salto, inclinou-se sobre Fox, tomou-o pelo ombro, sacudiu-o e disse: “Companheiro de viajem, acorda! O amanhecer chegou, e nós temos muito a fazer.”

Fox sentou-se e rosnou como um cão, esfregou os olhos, olhou em volta dele e disse: “Tu acordara-me por nada: é um falso alvorecer da lua que brilha agora detrás das nuvens e não lança nenhuma sombra; é apenas uma hora depois da meia-noite. Vai dormir, e deixe-me ficar, senão eu não serei um guia para ti quando o dia chegar.” E ele deitou-se e estava adormecido imediatamente. Então Hallblithe foi e deitou-se novamente, cheio de tristeza, contudo tão cansado estava ele que logo caiu no sono e não sonhou mais.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.24-38. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/24/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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