O Último Homem
Por Mary Shelley
Volume I
Capítulo I
[1]Eu sou o nativo de um recanto rodeado pelo mar, uma terra ensombrada por nuvens, a qual, quando a superfície do globo, com seu oceano sem margem e continentes sem caminhos, apresenta-se a minha mente, aparece apenas como uma partícula insignificante no imenso todo; e contudo, quando ponderada na escala do poder mental, pesa muito mais do países de maior extensão e população mais numerosa. É tão verdadeiro que a mente do homem sozinha foi a criadora de tudo que era bom ou grande para o homem, e que [2]a Natureza mesma foi apenas o seu primeiro ministro. A Inglaterra, assentada muito ao norte no mar turvo, agora visita meus sonhos na semelhança de um navio vasto e bem tripulado, o qual dominou os ventos e cavalgou orgulhosamente através das ondas. Em meus anos de meninice, ela era o universo para mim. Quando me levantava sobre as minhas colinas nativas eu via planície e montanha estenderem-se aos limites máximos da minha visão, pontilhadas pelos habitações de meus compatriotas, e subjugadas à fertilidade pelos seus labores, o centro mesmo da Terra era fixado por mim naquele ponto, e o resto da seu globo era como uma fábula, a qual, para ser esquecida, não teria custado um esforço nem a minha inteligência nem a meu entendimento.
As minhas fortunas têm sido, desde o começo, uma exemplificação do poder que a mutabilidade pode possuir sobre o teor variado da vida do homem. Com respeito a mim mesmo, isso vinha quase que por herança. Meu pai foi um daqueles homens a quem a natureza tinha concedido à prodigalidade os dons invejados da inteligência e imaginação, e, em seguida, deixou o seu brado de vida para ser impelido por esses [3]ventos, sem adicionar a razão como o leme, ou o julgamento como o piloto para a viagem. A sua origem era obscura; mas as circunstâncias cedo o trouxeram à atenção pública, e a sua pequena propriedade paterna logo foi dissipada na cena esplêndida de modo e luxuria na qual ele era um ator. Durante os breves anos da sua juventude impensada, ele era adorado pelos insignificantes bem educados do dia, não menos pelo jovem soberano, quem escapava das intrigas de partido, e dos árduos deveres da atividade régia, para encontrar diversão nunca em falta e alegria de espírito em sua amizade. Os impulsos do meu pai, nunca sob o seu próprio controle, perpetuamente o conduziam a dificuldades das quais apenas o seu engenho poderia libertá-lo; e a pilha acumulante de débitos de honra e de negócios, a qual teria dobrado à terra qualquer outro, era suportada por ele com um espírito leve e alegria indomável; enquanto a companhia dele era tão necessária às mesas e assembleias dos ricos, esses seus descuidos eram considerados [4]perdoáveis, e ele mesmo era recebido com adulação intoxicante.
Esse tipo de popularidade, como qualquer outro, é fugaz: e as dificuldades de todos os tipos com os quais ele tinha de lutar, aumentavam em uma razão assustadora comparada com os seus pequenos meios de se libertar. Em tais ocasiões, o rei, em seu entusiasmo por ele, viria para o seu alívio, e, em seguida, gentilmente repreenderia o seu amigo; meu pai dava as melhores promessas de reforma, mas a sua disposição social, a sua ânsia pela dieta usual de admiração e, mais do que tudo, o demônio dos jogos de azar, o qual completamente o possuía, tornavam as suas boas resoluções transitórias, as suas promessas, vãs. Com a sensibilidade rápida peculiar ao seu temperamento, ele percebia o seu poder no círculo brilhante estar em declínio. O rei casou-se; e a altiva princesa da Áustria, quem se tornou, como rainha da Inglaterra, a líder da moda, olhava com olhos severos para os defeitos dele, e com desdém para a afeição que o seu esposo régio entretinha por ele. Meu [5]pai sentiu que a sua queda estava próxima; mas, muito longe de se beneficiar dessa última calma antes da tempestade para se salvar, ele buscou esquecer-se do mal antecipado fazendo sacrifícios ainda maiores à divindade do prazer, o árbitro enganador e cruel do seu destino.
O rei, quem era um homem de disposições excelentes, mas facilmente conduzido, agora tinha se tornado um discípulo disposto da sua imperiosa consorte. Ele era induzido a olhar com extrema desaprovação e, por fim, desgosto, para a imprudência e as loucuras do meu pai. É verdadeiro que a presença dele dissipava essas nuvens; sua franqueza calorosa, saídas brilhantes, e comportamento confiante eram irresistíveis: era apenas a uma distância, enquanto contos ainda renovados dos seus erros eram derramados no ouvido do seu régio amigo, que ele perdia a sua influência. O manejo habilidoso da rainha era empregado para prolongar essas ausências, e reunir acusações. Por fim, o rei foi levado a ver nele uma fonte de inquietação perpétua, sabendo que ele deveria pagar pelo [6]prazer de curta duração da sua sociedade por sermões tediosos, e narrações mais dolorosas de excessos, a verdade da qual ele não poderia refutar. O resultado foi que ele deveria fazer mais uma tentativa de o reclamar, e, em caso de insucesso, abandoná-lo para sempre.
Uma semelhante cena deve ter sido uma do interesse mais profundo e de paixão agitada. Um rei poderoso, notável por uma bondade que até então tinha tornado-o manso, e agora sublime em suas admoestações, com súplica e censura alternadas, implorou ao seu amigo para o auxiliar nos seus régios interesses e resolutamente evitar aquelas fascinações que, de fato, estavam rapidamente o abandonando, no que ele, o seu soberano, seria o seu suporte, o seu apoio, o seu precursor. O meu pai sentiu essa gentileza; por um momento, sonhos ambiciosos flutuaram diante dele; e ele pensou que seria bom trocar suas buscas presentes por deveres mais elevados. Com sinceridade e fervor ele deu a promessa requerida: como uma promessa de favor [7]contínuo, ele recebeu do seu mestre régio uma soma de dinheiro para liquidar débitos urgentes, e possibilitar a ele entrar em sua nova carreira sob bons auspícios. Naquela noite mesma, enquanto ainda cheio de gratidão e boas resoluções, essa soma inteira, e o seu montante dobrado, foi perdido na mesa de jogo. Em seu desejo para reparar suas primeiras perdas, meu pai arriscou em dobro e, dessa maneira, incorreu em um débito de honra que ele era inteiramente incapaz de pagar. Envergonhado para apelar novamente ao rei, ele deu as costas a Londres, aos seus falsos prazeres e misérias pegajosas; e, com a pobreza como a sua única companhia, enterrou-se em solidão entre as colinas e nos lagos de Cumberland. A sua inteligência, seus comentários engraçados, o registro de suas atrações pessoais, seus modos fascinantes e talentos sociais, foram longamente lembrados e repetidos de boca em boca. Pergunte agora onde estava esse favorito da moda, esse companheiro do nobre, esse raio de luz excelente, o qual dourava com estranho esplendor as assembleias do cortês e do alegre – você ouviu que ele estava sob uma nuvem, um homem perdido; [8]ninguém pensava que competia a si mesmo retribuir prazer com serviços reais, ou que o seu longo reino de inteligência brilhante merecia uma pensão na aposentadoria. O rei lamentava a sua ausência; ele amava repetir os seus ditos, relatar as aventuras que juntos eles tinham tido, e exaltar os seus talentos – mas aqui terminava reminiscência dele.
Entrementes, o meu pai, esquecido, não poderia esquecer. Ele lamentava-se pela perda do que era mais necessário para ele do que ar ou comida – as excitações do prazer, a admiração do nobre, a vida luxuosa e elegante do grande. Uma febre nervosa foi a consequência; durante a qual ele foi cuidado pela filha de um pobre camponês, sob o teto do qual ele se alojou. Ela era amável, gentil e, sobre tudo, bondosa para ele; nem pode isso propiciar grande surpresa, que o último ídolo da beleza bem educada deveria, mesmo em um estado caído, aparecer com um ser de uma natureza elevada e maravilhosa para uma camponesa humilde. A ligação entre eles levou ao casamento malfadado do qual eu fui a prole.
[9]A despeito da ternura e doçura da minha mãe, o esposo dela ainda deplorava o seu estado degradado. Desacostumado a trabalho duro, ele não sabia de que maneira contribuir para o suporte da sua crescente família. Algumas vezes ele pensou em apelar ao rei; orgulho e vergonha por um tempo o retiveram; e, antes que as necessidades se tornassem tão imperiosas quanto a compeli-lo a algum tipo de esforço, ele morreu. Por um breve intervalo antes dessa catástrofe, ele ansiou pelo futuro, e contemplou com angústia a situação desoladora na qual a sua esposa e filhos seriam deixados. O seu último esforço foi uma carta ao rei, cheia de eloquência tocantes, e de lampejos ocasionais daquele espírito brilhante que era uma parte integral dele. Ele legou sua viúva e órfãos à amizade de seu mestre régio, e sentiu-se satisfeito de que, através disso, a prosperidade deles estivesse melhor assegurada em sua morte do que em sua vida. Essa carta foi confiada ao cuidado de um nobre, quem, ele não [10]duvidava, realizaria esse último e pouco dispendioso serviço de a colocar na própria mão do rei.
Ele morreu em débito, e a sua pequena propriedade foi imediatamente apreendida pelos seus credores. Minha mãe, sem dinheiro e sobrecarregada por duas crianças, esperou semana após semana, e mês após mês, na expectativa adoecedora de uma resposta, a qual nunca chegou. Ela não tinha experiência além da cabana do pai dela; e a mansão do lorde da herdade era o principal tipo de grandeza que ela conseguia conceber. Durante a vida do meu pai, ela tinha se tornado familiarizada com o nome da realeza e do círculo da corte; mais tais coisas, mal concordando com a sua experiência pessoal, pareceram, depois da perda dele, quem dava substância e realidade a elas, vagas e fantásticas. Se, sob quaisquer circunstância, ela pudesse ter adquirido coragem suficiente para se dirigir às pessoas nobres mencionadas pelo esposo dela, o resultado ruim do sua própria apelo levou-a a banir a ideia. Portanto, ele não via saída da [11]penúria extrema: o cuidado perpétuo, combinado com o sofrimento pela perda do ser maravilhoso, a quem ela continuava a contemplar com admiração ardente, o trabalho pesado e, naturalmente, a saúde delicada, finalmente a liberaram da continuidade trista da carência e miséria.
A condição dos seus filhos órfãos era peculiarmente desolada. O próprio pai dela tinha sido um emigrante de outra parte do país, e há muito tinha morrido; eles não tinham nenhum outro parente para os tomar pela mão; eles eram párias, pobres, seres desprotegidos, para quem a ninharia mais escassa era uma questão de favor, e quem eram tratados meramente como filhos de pedintes, todavia, mais pobres que o mais pobre, quem, morrendo, tinha os deixado, um legado ingrato para a caridade de mão fechada da terra.
Eu, o mais velho dos dois, tinha cinco anos de idade quando minha mãe morreu. Uma lembrança dos discursos dos meus pais, e as comunicações que minha mãe tentou imprimir em mim relativas aos amigos do meu pai, na leve [12]esperança de que, um dia, eu poderia derivar benefício do conhecimento, flutuavam como um sonho indistinto através do meu cérebro. Eu concebia que era diferente e superior aos meus protetores e companheiros, mas eu não sabia como nem porquê. O senso de injúria, associado com o nome de rei e nobre ligou-se a mim; mas eu não pude extrair nenhuma conclusão de tais sentimentos, para servir como um guia para ação. Meu primeiro conhecimento real de mim mesmo foi como um órfão desprotegido entre os vales e charnecas de Cumberland. Eu estava à serviço de um fazendeiro e, com um gancho em mão, e meu cão ao meu lado, eu pastoreava um rebanho numeroso nas terras elevadas próximas. Eu não posso dizer muito em elogio de uma semelhante vida; e suas dores em muito excediam seus prazeres. Havia liberdade nela, um companheirismo com a natureza, e uma solidão imprudente; mas esses, românticos como eles eram, não concordavam com o amor da ação e o desejo de simpatia humana, característicos da juventude. Nem o cuidado do meu rebanho, nem a mudança das temporadas, eram suficientes para domarem o meu espírito ansioso; [13]minha vida ao ar livre e tempo inativo foram as tentações que cedo me conduziram a hábitos sem lei. Eu associei-me com outros desamparados como eu mesmo; eu transformei-os em um bando, eu era o chefe e capitão deles. Todos igualmente garotos pastores, enquanto os nossos rebanhos estavam espalhados através dos pastos, nós esquematizávamos e executávamos muitas brincadeiras travessas, as quais atraíram sobre nós a ira e a vingança dos rústicos. Eu era o líder e protetor entre meus companheiros, e, conforme eu tornava-me distinguido entre eles, os delitos deles usualmente eram punidos em mim. Mas, enquanto eu suportava a punição e a dor na defesa deles com o espírito de um herói, eu reivindicava como minha recompensa o elogio e a obediência deles.
Em uma tal escola, a minha disposição tornou-se rude, mas firme. O apetite por admiração e a pequena capacidade para autocontrole, os quais eu herdei do meu pai, nutridos pela adversidade, tornaram-me ousado e irresponsável. Eu era tão grosseiro quanto os elementos, e tão iletrado quanto os animais dos quais eu cuidava. Frequentemente, eu comparava-me a eles e, [14]considerando que a minha superioridade principal consistia no poder, eu logo me persuadi que era apenas no poder que eu era inferior aos principais potentados da terra. Dessa maneira, não ensinado em filosofia refinada, e perseguido por um sentimento inquieto de degradação da minha verdadeira posição na sociedade, eu perambulava entre as colinas da civilizada Inglaterra, um selvagem tão grosseiro quando o fundador criado por lobos da antiga Roma. Eu reconhecia apenas uma lei, era aquela do mais forte, e meu maior feito de virtude era nunca me submeter.
Contudo, permita-me retratar-me dessa sentença que eu comuniquei de mim mesmo. Minha mãe, quando morrendo, em adição às suas outras lições meio esquecidas e mal aplicadas, confiara-me, com exortação solene, a sua outra filha à minha guarda fraterna; e esse único dever eu realizava ao melhor da minha habilidade, com todo zelo e afeição das quais a minha natureza era capaz. Minha irmã era três anos mais nova do que eu; eu tinha cuidado dela como um infante, e, quando a diferença dos nossos sexos, concedendo-nos [15]ocupações várias, em uma grande medida dividiu-nos, contudo, ela continuou a ser o objeto do meu amor cuidados. Órfãos, no sentido mais completo do tempo, nós eramos os mais pobres entre os pobres e desprezados mesmo entre os sem honra. Se minha ousadia e coragem obtiveram para mim um tipo de aversão respeitosa, a juventude e o sexo dela, uma vez que eles não excitavam ternura, provando-a ser fraca, eram as causas de mortificações sem número para ela; e a própria disposição dela não era tão constituída quanto a diminuir os efeitos maus de sua posição inferior.
Ela era um ser singular e, como eu, herdou muito da disposição peculiar do nosso pai. O semblante dela era todo expressão; os olhos dela não eram escuros, mas impenetravelmente profundos; você parecia descobrir espaço após espaço no reflexo deles, e sentir que a alma que era a alma delas, compreendia um universo de pensamento em seu alcance de vista. Ela era pálida e bela, e o seu belo cabelo dourado aglomerava-se sobre as têmporas delas, contrastando sua rica tonalidade com o mármore [16]lívido abaixo. O seu vestido grosseiro de camponesa, aparentemente pouco harmonioso com o refinamento de sentimento que o rosto dela expressava, todavia, de uma maneira estranha, concordava com ele. Ela era como um dos santos de Guido, com o céu em seu coração e sua aparência, de modo que, quando você a vê, você apenas pensava nisso no interior, e vestuário e mesmo característica eram secundários à mente que irradiava no semblante dela.
Contudo, embora amável e cheia de sentimento nobre, minha pobre Perdita (pois esse era o nome fantasioso que minha irmã tinha recebido do seu moribundo pai) não era completamente santa em sua disposição. Suas maneiras eram frias e repulsivas. Se ela tivesse sido criada por aqueles que a considerassem com afeição, ela poderia ter sido diferente; mas mal amada e negligenciada, ela retribuía a falta de bondade com desconfiança e silêncio. Ela era submissa àqueles que tinham autoridade sobre ela, mas uma nuvem perpétua habitava sobre a sua fronte; ela olhava como se esperasse inimizade de cada um que se aproximasse dela, e as ações dela eram [17]instigadas pelo mesmo sentimento. Todo o tempo que ela podia controlar, ela despende em solidão. Ela vaguearia para os lugares mais solitários, e escalaria alturas perigosas, para que, naqueles pontos não visitados, ela pudesse envolver-se em solidão. Frequentemente, ela passava horas inteiras caminhando para cima e para baixo nos caminhos dos bosques; ela tecia coroas de flores e era, ou observava a tremulação das sombras e os vislumbres das folhas; algumas vezes, ela sentava-se perto de um riacho, e, enquanto os seus pensamentos paravam, jogava flores ou seixos na água, observando como aquelas flutuavam e esses afundavam; ou ela colocaria para flutuar botes formados por cascas de árvores ou folhas, com uma pena por vela, e observaria intensamente a navegação da sua embarcação entre corredeiras e rasos do riacho. Entrementes, a sua imaginação ativa tecia mil combinações; ela sonhava “com acidentes movidos por enchente e campo” – ela perdia-se com prazer nesses devaneios autocriados, e retornava com espírito relutante para o detalhe aborrecido da vida comum.
[18]A pobreza era a nuvem que cobria as excelências dela, e tudo que era bom nela parecia prestes a perecer pela carência do orvalho cordial da afeição. Ela nem mesmo teve a mesma vantagem que eu na recordação dos nossos pais; ela apegava-se a mim, o irmão dela, como seu único amigo, mas a aliança dela comigo completava a aversão que os protetores dela sentiam por ela; e cada erro era magnificado por eles em crimes. Se ela tivesse sido criada naquela esfera de vida para a qual, por herança, a estrutura delicada da mente e pessoa dela estava adaptada, ela teria sido objeto de quase adoração, pois as suas virtudes eram tão eminentes quantos os seus defeitos. Todo o gênio que enobrecia o sangue do pai dela ilustrava o dela; uma corrente generosa fluía nas veias dela, artifício, inveja ou mesquinharia, estavam nos antípodas da natureza dela; o seu semblante, quando iluminado por sentimento amável, poderia ter pertencido a uma rainha de nações; os olhos dela eram brilhantes; sua aparência, destemida.
Embora por nossa situação e nossas disposições, [19]nós quase estivéssemos igualmente isolados das formas usuais de intercurso social, nós formávamos um forte contraste um com o outro. Eu sempre requeria os estímulos de companheiros e aplauso. Perdita era completamente suficiente em si mesma. A despeito de meus hábitos ilegais, minha disposição era sociável, a dela, reclusa. Minha vida era despendida em realidades tangíveis, a dela era um sonho. Eu até poderia ser dito amar meus inimigos, uma vez que, excitando-me, eles, de uma maneira, concediam-me felicidade; Perdita quase detestava os amigos delas, pois eles interferiam com os seus humores visionários. Todos os meus sentimentos, mesmo de exultação e triunfo, eram mudados em amarguras, se não participados; Perdita, mesmo em alegria, fugia para a solidão, e poderia seguir, dia após dia, nem expressando suas emoções, nem buscando um sentimento companheiro em outra mente. Ou melhor, ela poderia amar e demorar-se com ternura na visão e voz do amigo dela, enquanto seu comportamento expressava a mais fria reserva. Com ela, uma sensação tornava-se um sentimento, e ela nunca falava a menos que ela tivesse [20]misturado suas percepções dos objetos externos com outras que eram o crescimento nativo de sua própria mente. Ela era como um solo frutífero que absorvia os ares e orvalhos do céu, e emitia de volta para a luz nas formas mais amáveis de frutos e flores; mas então ela era frequentemente escura e acidentada como aquele solo, descoberta, e de novo semeada com semente invisível.
Ela habitava em uma cabana cujo gramado aparado inclinava-se para baixo até as águas do lago Uls-water; um bosque de faias estendia-se até a colina atrás, e um riacho ronronante, gentilmente caindo da encosta, corria através dos bancos de areia sombreados por álamos para dentro do lado. Eu vivia com um fazendeiro cuja casa era construída mais alto entre as colinas: um rochedo escuro erguia-se atrás dela, e, exposto para o norte, a neve jaz em suas fendas no verão todo. Antes da aurora, eu conduzia o meu rebanho para passeios, e guardava-os através do dia. Era uma vida de labuta; pois chuva e frio eram mais frequentes do que luz do sol; mas era meu orgulho desdenhar dos elementos. Meu cão [21]de confiança vigiava as ovelhas enquanto eu escapava para o encontro com os meus camaradas e, a partir dai, para a realização dos nossos esquemas. Ao meio dia, nós nos encontrávamos novamente, e jogávamos fora com desdém a nossa comida de camponês, enquanto nós construíamos a nossa fogueira e acendíamos a chama viva destinada a cozinhar a caça roubadas das áreas vizinhas. Então vinham os contos de fugas por um triz, combates com cães, emboscada e luta, visto que semelhantes a ciganos nós cercávamos a nossa panela. A busca por um cordeiro desgarrado, ou os artifícios pelos quais nós evitávamos ou tentávamos evitar punição enchiam as horas da tarde; à noite, o meu rebanho ia para o seu recinto, e eu para a minha irmã.
De fato, era raramente que nós escapávamos, para usar uma frase antiquada, sem consequências. Frequentemente a nossa comida delicada era trocado por golpes ou prisões. Uma vez, quando com treze anos de idade, eu fui enviado para a prisão do condado. Eu saí, minha moral não melhorada, meu ódio pelos meus opressores aumentado dez vezes. Pão e [22]água não domaram meu sangue, nem confinamento solitário inspirou-me pensamentos gentis. Eu estava irado, impaciente, miserável; minhas únicas horas felizes eram aquelas durantes as quais eu concebia esquemas de vingança; esses foram aperfeiçoados em minha solidão forçada, de maneira que, durante a inteira temporada seguinte, e eu era libertado mais cedo em setembro, eu nunca falhei em fornecer comida excelente e abundantes para mim mim e meus camaradas. Esse foi um inverno glorioso. A geada forte e as nevascas pesadas domavam os animais, e mantinham os cavalheiros da região perto de suas lareiras; nós conseguimos mais caça do que poderíamos comer, e meu cão fiel tornou-se lustroso em consequência dos nossos restos.
Os anos passaram-se dessa forma; e os anos apenas adicionavam amor fresco à liberdade, e desdém por tudo que não fosse tão selvagem e rude quanto eu mesmo. À idade de dezesseis eu tinha crescido em aparência até a estatura de homem; era alto e atlético; era experiente em feitos de força, acostumado à inclemência dos elementos. A minha pele era amorenada pelo solo; meu passo era firme com [23]poder consciente. Eu não temia nenhum homem, e não amava ninguém. Posteriormente na vida, eu olharia para trás com admiração para aquilo que então eu era; quão completamente desprezível eu teria me tornado se eu perseguisse minha carreira em lei. Minha vida era como aquela de um animal, e minha mente estava em perigo de degenerar naquela que dá forma à natureza bruta. Até agora, meus hábitos selvagens não me causaram um prejuízo radical; meus poderes físicos cresceram e floresceram sob a influência deles, e minha mente, passando pela mesma disciplina, foi imbuída com todas as virtudes ousadas. Mas agora, minha independência alardeada estava diariamente me instigando a atos de tirania, e a liberdade estava tornando-se licenciosidade. Eu erguia-me à beira da idade viril; paixões, fortes como as árvores de uma floresta, já tinham se enraizado dentro de mim, e estavam prestes a obscurecer, com sua exuberância nociva, meu caminho de vida.
Eu ansiava por iniciativas além das minhas façanhas juvenis, e formava sonhos destemperados de ação futura. Eu evitava os meus antigos camaradas, [24]e logo os perdi. Eles alcançaram a idade quando eles foram enviados para realizarem suas situações destinadas em vida; enquanto eu, um pária, com ninguém para me liderar e conduzir adiante, parei. O velho começava a olhar para mim como um exemplo, o jovem a ponderar sobre mim como sendo distinto dele mesmo; eu odiava-os, e comecei, degradação última e pior, a odiar a mim mesmo. Eu apeguei-me a meus hábitos ferozes, contudo, quase os detestava; eu continuava minha guerra contra a civilização e, contudo, entretinha um desejo de pertencer a ela.
Eu ponderava repetidas vezes tudo de que eu me lembrava que a minha mãe tinha me contado da vida antiga do meu pai; eu contemplava as poucas relíquias que eu possuía pertencentes a ele, as quais falavam de refinamento maior do que poderia ser encontrado nas cabanas de montanhas; mas nada em tudo isso me servia como um guia para me conduzir a outra e mais agradável forma de vida. Meu pai tinha estado conectado com nobres, mas tudo que eu conhecia de semelhante conexão era a negligência subsequente. O nome do rei, - ele a quem o meu pai moribundo tinha [25]endereçado as suas últimas preces, e quem barbaramente as insultava, era associado apenas com as ideias de grosseria, injustiça e ressentimento consequente. Eu nasci para alguma maior do que eu era – e maior eu me tornaria; mas grandeza, pelo menos nas minhas percepções distorcidas, não era associada necessária da bondade, e meus pensamentos selvagens não eram controlados por considerações morais quando eles se revoltavam em sonhos de distinção. Dessa forma, eu estava de pé sobre um pináculo, um mar de mal rolava aos meus pés; eu estava prestes a precipitar-me dentro dele, e troar como uma torrente sobre todas as objeções ao objeto dos meus desejos – quando uma estranha influência surgiu sobre a corrente de minhas fortunas, e mudou o curso turbulento delas para o que era, em comparação, como os gentis meandros de um riacho que circunda o prado.
ORIGINAL:
SHELLEY, M. W. The Last Man. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1826. p.1-25. Disponível em:<https://archive.org/details/lastman01shel/page/n22/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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