Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[18]IV O Anticlinal
Eu sinalizei para ele, mas ele não ouviria. Eu corri atrás dele, mas ele tinha uma dianteira muito boa. Então eu sentei sobre uma pedra e refleti cuidadosamente sobre a situação. Era evidente que Chowbok tinha intencionalmente tentado evitar que eu subisse este vale, contudo ele não tinha mostrado nenhuma falta de vontade para me seguir até qualquer outro lugar. O que isso poderia significar, senão que eu agora estava na única rota pela qual os mistérios das grandes cordilheiras poderiam ser revelados? Então o que eu deveria fazer? Retornar ao momento exato quando tinha se tornado evidente que eu estava na trilha certa? Dificilmente; contudo, prosseguir sozinho seria igualmente difícil e perigoso. Seria suficientemente ruim retornar ao rancho do meu mestre, e atravessar os desfiladeiros rochosos, sem nenhuma chance de ajuda de outro devesse eu entrar em dificuldade; mas avançar por qualquer distância considerável sem uma companha seria porta próxima à loucura. Acidentes que seriam leves com outro à mão (como a torção de um tornozelo, ou a queda para dentro de um lugar de onde seria fácil escapar através de uma mão estendida e um pouco de corda) podem ser fatais para alguém que está sozinho. Quanto mais eu pondero menos eu gosto; e, contudo, menos eu pude me decidir a retornar quando eu vi o anticlinal na cabeça do vale, e notei a facilidade comparativa com a qual a sua área lisa de neve poderia ser superada: parecia que eu via o meu caminho quase da minha posição presente até o topo mesmo. Após muito pensamento, eu resolvei avançar até que eu devesse chegar a algum lugar que fosse realmente perigoso, para apenas então retornar. Dessa maneira, eu esperava, eu deveria de qualquer maneira alcançar o topo do anticlinal, e satisfazer a mim quanto ao que poderia estar do outro lado.
Eu não tinha tempo a perder, pois agora era entre dez e onze da manhã. Afortunadamente, eu estava bem equipado, pois, ao deixar o acampamento e os cavalos na extremidade mais baixa do vale, eu tinha me provido (de acordo como meu costume) com tudo que era provável de eu necessitar para quatro [19]ou cinco dias. Chowbok tinha carregado metade, mas tinha largado o sua bagagem inteira – eu suponho, no momento da sua fuga – pois eu deparei-me com ela quando eu corri atrás deles. Portanto, eu tinha as provisões dele assim como as minhas. Por consequência, eu peguei tantos biscoitos quanto pensei que podia carregar, e algum tabaco, chá e uns poucos fósforos. Eu enrolei todas essas coisas (junto com um frasco de conhaque quase cheio, o qual inha mantido no meu bolso com medo de que Chowbok se apossasse dele) dentro das minhas cobertas, e amarrei-as muito apertado, tornando o todo em um rolo de uns seis pés de comprimento e seis polegadas de diâmetro. Sem seguida, eu amarrei as duas extremidades juntas, e coloquei o todo em volta do meu pescoço e sobre um ombro. Essa é a maneira mais fácil de carregar uma bagagem pesada, pois alguém pode descansar a si mesmo trocando o peso de um ombro para o outro. Eu amarrei meu copo de ferro e um pequeno machado em volta da minha cintura e, bem equipado dessa maneira, comecei a subir o vale, furioso por ter sido enganado por Chowbok, mas determinado ao não retornar até que eu fosse compelido a fazê-lo.
Eu cruzei e recruzei o rio várias vezes sem dificuldades, pois havia muitos bons vaus. A uma da tarde, eu estava ao pé do anticlinal; por quatro horas eu escalei, as últimas duas sobre a neve, onde a escalada foi mais fácil; pelas cinco, eu estava a dez minutos do topo, em um estado de excitação maior, eu penso, do que eu alguma vez tinha conhecido antes. Mais dez minutos, e o ar frio do outro lado estava jogando-se sobre mim.
Uma olhada. Eu não estava na cordilheira principal.
Outra olhada. Havia um rio terrível, turvo e horrivelmente irado, troando através de um imenso leito de rio, a milhares de pés abaixo de mim.
Ele circundava na direção oeste, e eu não podia enxergar o vale mais acima, exceto que havia enormes geleiras que se estendiam em torno da fonte do rio, e a partir das quais ele deve nascer.
Outra olhada, e, nesse momento, eu permaneci sem movimento.
[20]Havia uma passagem fácil nas montanhas diretamente opostas a mim, através da qual eu capturei um vislumbre de uma extensão imensurável de azul e de planícies distantes.
Fácil? Sim, perfeitamente fácil; coberta por grama quase até o topo, a qual era, por assim dizer, um caminho aberto entre duas geleiras, a partir das quais um córrego sem importância descia violentamente através de encostas acidentadas, mais muito alcançáveis, até que ele descia ao nível do grande rio, e formava uma planície onde havia grama e um pequeno arbusto de madeira atrofiada.
Quase antes que eu pudesse acreditar nos olhos, uma nuvem subiu a partir do vale do outro lado, e as planícies ficaram ocultas. Que sorte maravilhosa foi a minha! Tivesse eu chegado cinco minutos depois, a nuvem teria estado sobre a passagem, e eu não deveria ter conhecido a sua existência. Agora que a nuvem estava aí, eu comecei a duvidar da minha memória, e ficar incerto de se tinha sido mais do que uma linha azul de vapor distante que tinha enchido a abertura. Eu apenas poderia ficar certo deste tanto, a saber, de que o rio no vale abaixo tem de ser um ao norte daquele que fluía além do rancho do mestre; disso não poderia haver dúvida. Contudo, eu poderia imaginar que a minha sorte deveria ter conduzido-me a um rio errado em busca de uma passagem, e, contudo, trazer-me ao ponto onde eu poderia detectar o único lugar fraco na fortificação de uma bacia mais ao norte? Isso era improvável demais. Mas, mesmo enquanto eu duvidava, surgiu uma fenda na nuvem oposta, e uma segunda vez eu vi as linhas azuis de baixos pesados, tornando-se cada vez mais fracas, e retirando-se para um espaço mais longe de planície. Era substancial; não havia nenhum equívoco de que fosse. Dificilmente eu tinha me certificado perfeitamente disso, antes que as nuvens se juntassem novamente e eu não pudesse ver mais nada.
Então, o que eu deveria fazer? A noite estaria sobre mim em breve, e eu já estava quase relaxado ao permanecer parado após o esforço da escalada. Permanecer onde eu estava seria [21]impossível; eu devo ou retroceder ou avançar. Eu encontrei uma rocha que me deu abrigo do vento da noite, eu tomei um grande gole do frasco de conhaque, o que imediatamente me aqueceu e encorajou.
Eu perguntei a mim mesmo, eu poderia descer para o leito do rio debaixo de mim? Era impossível dizer quais precipícios poderiam impedir-me de o fazer. Se eu estivesse no leito do rio, atrever-me-ia a cruzá-lo? Eu sou um excelente nadador, contudo, uma vez naquela fúria assustadora de águas, eu deveria ser arremessado para qualquer lugar que ela desejasse, absolutamente impotente. Além disso, havia minha bagagem; eu deveria perecer de frio e fome se eu a deixasse, mas, eu certamente deveria me afogar se eu tentasse carregá-la através do rio. Essas eram considerações sérias, mas a esperança de encontrar disponível uma imensa extensão de região para a criação de ovelhas (a qual eu estava determinado que eu monopolizaria tanto quanto eu possivelmente pudesse) foi suficiente para pesar mais do que elas; e, em uns poucos minutos, eu senti-me resolvido de que, tendo feito uma descoberta tão importante quanto uma passagem para dentro de uma região que provavelmente era tão valiosa quanto aquela do nosso próprio lado das cordilheiras, eu a seguiria e determinaria o seu valor. Mesmo se eu devesse pagar com a vida mesma a penalidade da falha. Quanto mais eu pensava, mais determinado eu tornava-me de, ou conquistar fama e talvez fortuna, entrando em um mundo desconhecido, ou abrir mão da vida na tentativa. De fato, eu sentia que a vida não mais seria valiosa se eu devesse ter visto um prêmio tão grande e recusado-me a agarrar os lucros possíveis dele.
Eu ainda tinha uma hora de boa luz do dia, durante a qual eu poderia começar minha descida para algum agradável terreno de acampamento, mas não havia um momento a ser perdido. Primeiramente, eu progredi rapidamente, pois eu estava sobre a neve, e afundava-me nela o suficiente para me salvar da queda, eu avançasse diretamente para baixo pelo lado da montanha tão rapidamente quanto eu pudesse; mas havia menos neve neste lado do que no outro, e logo eu tinha terminado com ela, chegando a um vale de terreno perigoso e muito pedregoso, onde um escorregão poderia ter-me dado [22]uma queda desastrosa. Mas eu era cuidadoso com toda a minha velocidade, e cheguei com segurança à base, onde havia trechos de grama grossa, e uma tentativa aqui e ali de matagal: o que estava debaixo, eu não conseguia ver. Eu avancei mais uma centena de jardas, e descobri que eu estava à beira de um precipício assustador, o qual ninguém, em são sentido, tentaria descer. Contudo, eu pensei em tentar o riacho que drenava o vale, e ver se ele não poderia ter se tornado em um caminho mais suave. Em uns poucos minutos, eu encontrei-me na extremidade superior de um abismo nas rochas, alguma coisa como Twll Du, apenas em uma escala muito maior; o riacho tinha encontrado o seu caminho para dentro dele, e tinha desgastado um profundo canal através de um material que parecia mais macio que aquele sobre o outro lado da montanha. Eu acredito que deve ter sido uma formação geológica diferente, embora eu lamente dizer que eu não posso dizer qual era.
Eu olhei para essa fenda em grande dúvida; então eu caminhei um pouco de cada lado dela e descobri-me olhando de cima a beira de precipícios horríveis sobre o rio, o qual troava a aproximadamente quatro ou cinco mi pés abaixo de mim. Eu absolutamente não me atrevi a pensar em descer, a menos que eu me empenhasse na fenda, da qual eu estava esperançoso quando eu refleti que a rocha era macia, e que a água poderia ter desgastado o seu canal toleravelmente regular através da inteira extensão. A escuridão estava aumentando com cada minuto, mas eu deveria ter crepúsculo por outra meia-hora, assim eu fui até o abismo (embora de nenhuma maneira sem medo), e resolvi retornar e acampar, e tentar algum outro caminho no dia seguinte, devesse eu chegar a qualquer dificuldade séria. Em aproximadamente cinco minutos eu tinha perdido completamente minha cabeça; o lado da fenda tornou-se de uma altura de centenas de metros, e tão saliente que eu não podia ver o céu. Ele era cheio de rochas, e eu tive muitas quedas e machucados. Eu fiquei molhado ao cair dentro da água, da qual não havia grande volume, mas tinha tal força que eu não podia fazer nada contra ela; uma vez eu tive que saltar para baixo de uma cachoeira considerável, [23]para dentro de um grande poço profundo abaixo, e minha bagagem ficou tão pesada que eu realmente quase me afoguei. De fato, eu escapei por um fio de cabelo; mas, como a sorte mandaria, a Providência estava ao meu lado. Pouco depois, eu comecei a imaginar que a fenda estava ampliando-se e que havia mais matagal. Logo eu me encontrei em uma encosta aberta e gramada, e, sentindo o meu caminho um pouco mais distante ao longo do córrego, eu cheguei sobre um terreno plano com bosque, onde eu pude acampar confortavelmente; o que foi bom, pois agora estava bastante escuro.
Minha preocupação primeira foi com meus fósforos; eles estavam secos? O lado de fora da minha bagagem tinha se molhado completamente; mas, ao desfazer o pacote, eu encontrei as coisas dentro quentes e secas. Quão grato eu fiquei! Eu acendi uma fogueira, e fiquei grato pelo seu calor e companhia. Eu fiz um pouco de chá para mim e comi dos dois meus biscoitos: o meu conhaque eu não toquei, pois eu tinha pouco restante, e eu poderia desejá-lo quando minha coragem falhasse-me. Tudo isso eu fiz, e fiz quase mecanicamente, pois eu não pude compreender a minha situação, além do conhecimento de que eu estava sozinho, e que retornar através do abismo pelo qual eu há pouco tinha descido seria impossível. É um sentimento terrível aquele de ser separado de todo a sua espécie. Eu ainda estava cheio de esperança, e construí castelo dourados para mim mesmo tão logo eu estava aquecido de comida e fogo; mas eu não acredito que homem algum poderia reter sua razão por muito tempo em semelhante solidão, a menos que ele tivesse a companhia de animais. Alguém começa a duvidar de sua própria identidade.
Eu lembro-me de obter conforto mesmo a partir da vista dos meus cobertores, e do som do meu relógio tilintando – coisas que pareciam me vincular a outras pessoas; mas o grito das galinhas selvagens assustou-me, como também um pássaro tagarela que eu nunca tinha ouvido antes, e que parecia rir de mim; embora eu logo tenha me acostumado com ele, e logo pude fantasiar que já faziam muitos anos desde que eu o tinha ouvido pela primeira vez.
Eu tirei minhas roupas, e enrolei-me o meu cobertor interno em torno de mim, até que as minhas coisas estavam secas. A noite estava muito [24]parada e eu acendi um fogo crepitante; logo eu me aqueci, e, finalmente, pude colocar minhas roupas novamente. Então eu amarrei meu cobertor em volta de mim, e fui dormir tão perto do fogo quanto eu podia.
Eu sonhei que havia um órgão colocado no depósito de lã do meu mestre: o depósito de lã desaparecia, e o órgão parecia crescer e crescer em meio a chama de luz brilhante, até que ele se tornou como uma cidade dourada sobre o lado de uma montanha, com fileiras sobre fileiras de canos colocados em penhascos e precipícios, um acima do outro, e em cavernas misteriosas, como aquela de Fingal, dentro das profundezas da qual eu conseguia ver os pilares polidos brilhando. À frente, havia uma linha fileira de terraços elevados, no topo dos quais eu consegui ver um homem com sua cabeça enterrada para frente na direção de um teclado, e seu corpo oscilando de um lado para o outro em meio à tempestade de imensas harmonias arpejadas que vinham colidindo acima da cabeça e em volta. Então houve alguém quem me tocou no ombro e disse, “Você não percebe? É Handel”; mas eu dificilmente tinha apreendido, e estava tentando escalar os terraços, e aproximar-me dele, quando eu despertei, deslumbrado com a vividez e distintividade do sonho.
Um pedaço de madeira tinha se queimado inteiramente, e as extremidades tinham caído em cinzas com a chama: isso, eu supus, tinha igualmente me concedido meu sonho e roubado dele. Eu fiquei amargamente desapontado e, amparando-me sobre o cotovelo, retornei à realidade e aos meus arredores estranhos tão bem quanto eu pude.
Além disso – eu fiquei completamente excitado, eu senti um prenúncio como se minha atenção fosse arrastada por algo mais do que um sonho, embora ainda não se apelasse a nenhum sentido particular. Eu prendi minha respiração e esperei, e então eu ouvi – foi imaginação? Não eu ouvi de novo e de novo, e eu ouvi um fraco e extremamente distante som de música, como aquele da harpa eólica, nascido do vento que estava soprando fresco e frio a partir das montanhas opostas.
[25]As raízes do meu cabelo vibraram. Eu ouvi, mas o vento tinha morrido; e, imaginando que não deve ter sido o vento em si mesmo, subitamente, eu me lembrei do ruído que Chowbok tinha feito no depósito de madeira. Sim; era aquilo.
Graças aos céus, o que quer que fosse, tinha passado. Eu raciocinei comigo mesmo e recuperei minha firmeza. Eu tornei-me convencido de que eu apenas tinha estado sonhando mais vividamente do que o usual. Logo eu até comecei a rir, e a pensar que tolo que eu fui para ficar assustado com nada, lembrando a mim mesmo de que, mesmo se eu devesse chegar a um fim ruim, não seria uma questão tão terrível, afinal. Eu proferi minhas preces, um dever que eu tinha muito frequentemente negligenciado, e, em pouco tempo, caí em um sono realmente refrescante, o qual durou até a ampla luz do dia e restaurou-me. Eu levantei-me e, procurando entre as brasas da minha fogueira, encontrei uns poucos carvões acessos e logo eu tinha uma chama novamente. Eu tomei café da manhã e fiquei encantado de ter a companhia de vários pássaros pequenos, os quais pulavam ao meu redor e empoleiravam-se nas minhas mãos e botas. Eu senti-me comparativamente feliz, mas eu posso assegurar ao leitor que eu tinha tido uma ocasião muito pior do que eu contei-lhe; e eu fortemente recomendo-lha a permanecer na Europa, se ele puder; ou, de qualquer maneira, em alguma país que tenha sido explorado e povoado, em vez de ir a lugares onde não estiveram antes dele. Explorar é encantador de antecipar e de recordar, mas não é confortável no momento, a menos que seja uma natureza tão fácil quanto a não merecer o nome.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 18-25. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/18/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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