A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo II – O Homem que estava indo a Lugar nenhum

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[15]A cabine na qual eu encontrava-me era pequena e bastante desarrumada. Um homem bastante jovem com um cabelo linhoso, um hirsuto bigode cor de palha e um lábio inferior caído, estava sentado e segurando meu pulso. Por um minuto, nós encaramos um ao outro sem falar. Ele tinha olhos cinzentos aquosos, estranhamente vazios de expressão. Então, por cima da cabeça, veio um som como o de uma férrea armação de cama sendo batida, e o baixo rosnado raivoso de algum grande animal. Ao mesmo tempo, o homem falava. Ele repetiu a questão dele, -

Como se sente agora?”

Eu acho que disse que me sentia bem. Eu não podia me lembrar de como eu chegara ali. Ele deve ter visto a questão em meu rosto, pois minha voz estava inacessível para mim.

Você foi recolhido em um bote, faminto. O nome do bote era o ‘Lady Vain,’ e existiam manchas de sangue na amurada.”

[16]Ao mesmo tempo, meu olho capturou minha mão, magra, de modo que parecia como uma suja bolsa de pele cheia de ossos frouxos, e todo o assunto do bote retornou a mim.

Aceite um pouco disto,” disse ele, e deu-me uma dose de alguma coisa escarlate, gelada.

Tinha o gosto de sangue e fez-me sentir mais forte.

Você estava com sorte,” disse ele, “ser recolhido por uma embarcação com um médico a bordo.” Ele falou com uma articulação babante, com o fantasma de uma balbuciação.

Que embarcação é esta?” Eu disse lentamente, rouco de meu longo silêncio.

É um pequeno navio mercante de Arica e Callao. Eu nunca perguntei no começo de onde ele veio, - da terra dos tolos nascidos, eu acho. Eu mesmo sou um passageiro, de Arica. O asno bobo que o possui, - ele é o capitão dele também, chamado de Davies, - ele perdeu o certificado dele, ou alguma coisa. Você conhece o tipo de homem, - chama a coisa de ‘Ipecacuanha,’ de todos os nomes bobos, infernais; embora, quando há muito de um mar sem qualquer vento, ele certamente age de acordo.”

(Então o barulho acima da cabeça começou novamente, um [17]resmungo rosnante e uma voz de ser humanos, juntos. Então outra voz, dizendo a algum “idiota esquecido pelo céu” para desistir.)

Você estava quase morto,” disse o interlocutor. “Era uma coisa muito próxima. De fato. Mas agora eu coloquei alguma coisa dentro de você. Nota seus braços doloridos? Injeções. Você esteve insensível por quase trinta horas.”

Eu pensava lentamente. (Agora eu fui distraído pelo latido de um número de cães.) “Eu estou elegível para comida sólida?” Perguntei.

Graças a mim,” ele disse. “Agora mesmo o carneiro está cozinhando.”

Sim,” eu disse com confiança; “eu poderia comer um pouco de carneiro.”

Mas,” disse ele com uma hesitação momentânea, “eu estou morrendo de curiosidade para saber como você veio a ficar sozinho naquele bote. Maldito seja esse uivo!” Eu pensei que detectei uma certa suspeita nos olhos dele.

Subitamente, ele deixou a cabine, e eu ouvi-o em uma controvérsia violenta com alguém, quem, parecia-me, falar sem sentido para ele. A coisa parece como se acabasse em golpes, mas nisso eu pensei que meus ouvidos estavam enganados. [18]Então, ele berrou com os cães e retornou à cabine.

Bem?” disse ele na soleira da porta. “Você estava precisamente começando a contar-me.”

Eu contei-lhe meu nome, Edward Prendick, e como eu me adaptara à História Natural como um alívio do entediamento da minha independência confortável.

Ele pareceu interessado nisso. “Eu mesmo estudei alguma ciência. Eu estudei minha Biologia no Colégio Universitário, - saindo do ovário da minhoca e da rádula do caracol, e tudo isso. Senhor! São dez anos. Mas prossiga! Prossiga! Conte-me sobre o bote.”

Evidentemente, ele estava satisfeito com a franqueza da minha história, a qual eu contei em sentenças suficientemente concisas, pois sentia-me horrivelmente fraco; e, quando ela estava terminada, ele retornou imediatamente ao tópico da História Natural e aos seus próprios estudos biológicos. Ele começou a questionar-me rigorosamente sobre a Tottenham Court Road e a Gower Street. “O Caplatzi ainda está florescendo? Que mercado era aquele!” Evidentemente, ele fora uma estudante de medicina muito ordinário e flutuou incontinentemente para o tópicos dos salões musicais. Ele contou-me algumas anedotas. [19]“Abandonei tudo isso,” ele disse, “há dez anos. Quão alegre tudo isso costumava ser! Mas eu fiz de mim mesmo um jovem asno, - joguei-me fora antes que tivesse vinte e um. Eu ouso dizer, está tudo diferente agora. Mas eu tenho de procurar aquele asno de cozinheiro, e ver se ele terminou com seu carneiro.”

O rosnado acima da cabeça foi renovado e com tanta ira selvagem que me assustou. “O que é isso?” Eu chamei por ele, mas a porta fechara. Ele voltou novamente com o carneiro cozido, e eu fiquei tão excitado pelo cheiro apetitoso dele que esqueci do barulho da fera que e perturbara.

Após um dia de sono e alimentação alternados, eu estava tão recuperado para ser capaz de deixar meu beliche e ir à escotilha, e ver os mares verdes tentando manter o ritmo conosco. Eu julguei que a escuna estava navegando à frente do vento. Montgomery – esse era o nome do homem de cabelo linhoso – entrou novamente enquanto eu estava de pé ali, e pedi algumas roupas a ele. Ele emprestou-me algumas coisas de algodão dele mesmo, pois aquelas que eu usara no bote foram jogadas ao mar. Elas ficaram bastante frouxas em mim, pois ele era grande e longo em seus membros. Casualmente ele contou-me que [20]o capitão estava três quartos bêbado em sua própria cabine. Enquanto eu aceitava as roupas, eu comecei a perguntar-lhe algumas questões sobre o destino do navio. Ele disse que o navio estava destinado ao Havaí, mas que ele devia desembarcar primeiro.

Onde?” eu disse.

É uma ilha, onde eu vivo. Até onde eu sei, ela nunca recebeu um nome.”

Ele encarou-me com seu lábio inferior caído, e pareceu subitamente tão voluntariamente estúpido que surgiu em minha mente que ele desejava evitar minhas questões. Eu tive a prudência de não perguntar mais nada.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.15-20. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/15/mode/1up>


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A Água das Ilhas Maravilhosas - A Quarta Parte: Dos Dias de Permanência - Capítulo III Agora Birdalone deseja cavalgar fora do Castelo

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[201]Após um tempo ela desceu novamente, foi até as mulheres e sentou-se trabalhando com elas por um tempo, e assim se consumiram duas horas. Em seguida, ela convocou o sacerdote e teve a lição dela com ele. Quando ela estivera em lição por outras duas horas, ela mandou ele começar e ensiná-la a escrever. Nenhuma relutância ele teve com isso; verdadeiramente, ele há muito ansiara para solicitar que ela aceitasse ele ensiná-la, mas não se atrevia. Pois em tal ensino é necessário que ele se sentasse muito perto dela, e observar as mãos dela, e os dedos dela esforçando-se para dar forma às letras; mais que isso, visto que ele precisava tocar a mão dela com a dele, e segurá-la. Portanto, ele garantiu para si mesmo um gosto do Paraíso. Além disso, ele era inteiramente adequado para a ensinar, visto que ele era um dos melhores escribas, e um bom escritor inteiramente habilidoso.

Então eles começaram a lição, e ela tornou-se ansiosa ali, aprendeu rápido e abriu caminho para o trabalho, enquanto a alma dele estava atormentada pelo anseio por ela. E dessa maneira passaram-se umas três horas. Nessa altura, subitamente, ela olhou para cima cansada de seu trabalho, e aflição dela foi despertada, e o anseio por sua amiga de fala. Ela deu ao sacerdote licença por aquele dia, mas aceitou ele beijar a mão dela por recompensas.

Então ela apressou-se para o topo da torre, quando a tarde estava se consumindo em noite; e permaneceu ali muito tempo olhando através das águas, até que começou a escurecer. Nessa altura, ela desceu miseravelmente e retornou para as mulheres dela.

[202]O dia seguinte foi como esse; nada aconteceu, e ela consumiu as horas às vezes subindo para o topo da torre e olhando através do lago, às vezes bordando em meio as suas criadas, às vezes aprendendo o trabalho de escriturário com Sir Leonard, mas sempre se consumindo por seu anseio.

No terceiro desses dias ela chamou o castelão a si para uma conversa, e perguntou-lhe o que ele pensava disto, deste atraso do retorno de seus senhores. Respondeu o grisalho: ‘Minha senhora, nós não podemos nos maravilhar se eles demoraram-se por uns poucos dias; pois essa é uma aventura na qual eles partiram, e muito acasos ocorrem em tais contos. Agora, eu suplico-te, não atormentes a ti mesma; pois ainda não é chegada a hora para tu mesma duvidares se eles falharam.’

As palavras dele muito a consolaram por aquela ocasião, considerando que ela viu que ele falava apenas a verdade. Assim ela lhe agradeceu, e sorriu amavelmente para ele. Ele ficou arrebatado por causa disso, e estava para se ajoelhar diante dela e beijar as mãos dela como era o costume dele; mas ela sorriu novamente, deteve-o e disse: ‘Não, não ainda, bom amigo; isso fica para a partida, e eu ainda tenho uma palava para ti: a saber, que eu anseio para ir para fora dos portões, e isso consolar-me-ia e dar-me-ia paciência para aguardar a chegada de meus amigos. Pois tu precisas saber, Sir Aymeris, que eu fui criada em meio aos bosques e aos prados, com a ardência do sol, e as batidas do vento; e agora, por falta de alguma parte disso, eu estou tornando-me branca e fraca. E tu não desejarias me ter caindo doente em tuas mãos agora, desejarias?’

[203]‘Não, certamente, senhora,’ disse Sir Aymeris; ‘este dia mesmo eu cavalgarei contigo; e duas vintenas ou mais de homens armados deverão cavalgar conosco por medo de contratempos. Disse Birdalone, franzindo as sobrancelhas: ‘Não, cavaleiro, eu não necessito de teus homens de armas; eu ficaria satisfeita de ir livre e sozinha. Pois tu não ouviste que aquele Cavaleiro Vermelho está ferido e é mantido na cama dele? Então, que perigo há?’ Disse Sir Aymeris: ‘Sim, senhora; mas o Cavaleiro Vermelho não é o único inimigo, embora ele seja o pior: mas bem pode ser que a história seja apenas simulada, pois o dito inimigo têm muitas artimanhas. E olhe para você, senhora gentil, é mais provável que por agora ele tenha ouvido como em meu pobre castelo é mantida uma joia, uma pérola de grande valor, que não tem seu semelhante no mundo, e causará o roubo dela se ele puder.

Birdalone riu e disse: ‘Mas como, se além disso a dita joia tem uma vontade, e pernas e pés, e está pronta a tomar o perigo sobre ela e irá para fora dos portões se ela desejar? O que tu farás então, senhor?’ Então, disse o castelão, ‘Eu deverei trazer-te de volta, e, embora seja uma tristeza para mim, ter-te trazida de volta forçosamente, se nada mais posso fazer. Pois assim o juramento feito a meus senhores compele-me.’

Novamente Birdalone riu e disse: Escuta, para onde vai todo esse ajoelhar e beijar de mão! Mas tenha em mente, bom senhor, como uma vez tu me terias fora dos portões, desejasse eu ou não, e agora, desejo eu ou não, tu me manterias dentro; assim os tempos mudaram e, pode acontecer, que eles ainda mudem novamente. Mas conta-me, eu sou uma senhora sobre minhas mulheres para ordenar [204]o que eu desejar a elas?’ ‘Indubitavelmente,’ disse ele, ‘e sobre todos nós.’ Disse ela: ‘Se então, eu ordeno a elas, umas duas ou três, vinde comigo para uma jornada de meio dia nos prados e bosques para nossa diversão, como então? Por essa vez,disse Sir Aymeris, ‘eu deveria ordenar a elas desobedecer a senhora delas.’ Disse Birdalone: ‘E se eles desobedecerem a ti e obedecerem a mim?’ Respondeu o Si Aymeris: ‘Se elas trouxerem-te de volta segura, elas talvez possam cantar ao arco de rabeca de galhos, que elas foram avisadas de semelhantes tolice; mas, se elas retornarem sem ti, por Todos os santos, o vento da cólera deverá arrancar as cabeças delas.’

Birdalone ruborizou diante dessa palavra e ficou em silêncio por um tempo. E seguida ela disse, fazendo um semblante alegre novamente: ‘Tu és um mestre rígido, senhor castelão; mas eu devo obedecer-te. Portanto, eu aceitarei tua ordem, e cavalgarei para fora de tal maneira que eu deverei assustar a terra com um exército, uma vez que de nenhuma outra maneira posso eu contemplar a terra de verão. Mas hoje eu não irei, nem amanhã, talvez; mas algum dia, em breve. E em boa calma eu agradeço-te por teu cuidado atento de mim, e gostaria que eu fosse mais digna dele. Não, não, tu não deves te ajoelhar para mim, mas eu para ti: pois tu és verdadeiramente o mestre.’

Com isso ela se levantou do lado dele, ajoelhou-se diante dele, tomou a mão dele, beijou-a, e saiu, deixando-o arrebatado pelo amor dela. Mas agora ela não tinha desprezo dele, mas considerava, como se fosse verdade, que ele era tanto valente quanto de confiança e gentil, e ela agradecia-lhe em seu coração assim como em suas palavras.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 201-204. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/201/mode/1up


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Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo III A Paliçada

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[77]Quando Oliver e Felix partiram, eles deixaram Philip, o terceiro e mais jovem dos irmãos, ainda no café da manhã. Eles voltaram-se para a esquerda, ao saírem pelas portas, e novamente para esquerda, através da passagem coberta entre o depósito do mordomo e as cozinhas. Então, cruzando a área dos carroções, eles pararam por um momento para darem uma olhada na forja, onde dois homens estavam reparando parte de um arado.

[78]Oliver também precisou procurar sua égua por um momento, após o que eles dirigiram seu passos para o Portão Sul. A massiva porta de carvalho, os ferrolhos tendo sido recolhidos ao sopro de corneta. Havia uma sala de guarda em um lado do portão sob a plataforma no canto, onde sempre se supunha haver um vigia.

Mas em tempos de paz, e quando não havia nenhum receio de ataque, os homens cuja vez era vigiar aquele lugar eram chamados para longe por um tempo para auxiliarem no progresso de alguma tarefa e, naquele momento, eles estavam ajudando a mover os pacotes de lã mais para dentro do armazém. Ainda assim, eles estavam perto à mão, e houvesse o vigia ou sentinela, quem agora estava sobre o teto, soprado seu chifre, teriam se apressado imediatamente para o portão. Felix não gostou desse relaxamento da disciplina. Suas ideias precisas ficaram perturbadas pela ausência da guarda; método, organização e precisão eram as características da mente dele, e esse tipo de incerteza irritava-o.

Eu desejaria que Sir Constans insistisse na manutenção da guarda.” Ele comentou. Crianças, falando sobre seus pais, invariavelmente lhes davam os títulos deles. Agora, o título do pai deles era devidamente “meu senhor,” já que ele era um barão, e um dos mais antigos. Mas há muito que ele renunciara ao exercício de seus direitos e privilégios, afundando o nobre no mecânico, de modo que homens se esqueceram do título apropriado através do qual eles deviam endereçar-se a ele. “Sir” era aplicado a todos os nobres, quer eles possuíssem propriedades ou não. Os irmãos eram invariavelmente tratados como Sir Felix ou Sir Oliver. Portanto, isso marcava a baixa [79]estima com a qual o Barão era considerado até quando seus próprios filhos falavam sobre ele com aquele título.

Oliver, embora um militar por profissão, riu diante da visão estrita dos deveres dos guardas. Familiaridade com perigo e descuido natural tornaram-no desdenhoso disso.

Não há risco,” disse ele, “que eu possa ver. Quem nos atacaria? Os homens do mato nunca sonhariam com isso; os romani seriam vistos com antecedência chegando; nós estamos muito distantes do Lago para os piratas; e, como nós não somos povo grande, como nós poderíamos ter sido, nós não precisamos temer inimizade privada. Além do que, quaisquer atacantes precisam passar primeiro pelas paliçadas.

Bastante verdadeiro. Ainda assim, eu não gosto; é uma maneira relaxada de se fazerem as coisas.”

Fora do portão eles seguiram a trilha do carroção, ou a Estrada Sul, por aproximadamente meia milha. Ela cruzava prados separados por cercas baixas, e eles observavam, conforme caminhavam, a baixa altura da grama, a qual, por falta de chuva, não estava nem perto de adequada para sega. No último ano, houve uma colheita ruim de trigo; neste ano, no presente, escassamente há qualquer grama. Essas questões eram da mais alta importância; paz ou guerra, fome ou abundância, poderiam depender do clima dos próximos poucos meses.

Os prados, além de serem divididas pelas cercas, mantidas propositalmente cortadas baixas, eram rodeadas, como todas as terras cultivadas, por altas e fortes paliçadas. A meia milha abaixo na Estrada Sul eles deixaram o caminho e, seguindo um atalho de algumas centenas de jardas, chegaram à lagoa [80]onde Oliver banhara-se naquela manhã. O rio, o qual corria através dos terrenos fechados, estava bem raso, pois eles estão próximos de sua fonte nas colinas, mas exatamente ali ele se alargava e enchia uma depressão de cinquenta ou sessenta jardas de lado a lado, a qual era suficientemente profunda para natação. Além da lagoa, o córrego curvava-se e deixava a cercada; a paliçada, ou, pelo menos, uma obra aberta de estacas, continuava através dela. Essa obra permitia ao córrego fluir livremente, mas era suficientemente estreita para excluir qualquer um que pudesse tenta entrar rastejando furtivamente pelo leito do rio.

Eles cruzaram o rio exatamente acima da lagoa através de algumas alpondras, grandes blocos deslizados para esse propósito, e aproximaram-se da paliçada. Ela era formada de árvores pequenas mas inteiras; jovens olmos, abetos ou freixos muito grossos, fincados em fileira dupla na terra, a fileira primeira ou interior, lado a lado, a fileira exterior preenchendo os interstícios, e o todo sendo unido na base por salgueiro divido, entrelaçado para dentro e para fora. Esse entrelaçamento se estende apenas três pés acima, e foi primeiramente projetado para unir a estrutura e, em segundo lugar, para excluir pequenos animais que poderiam rastejar por entre as estacas. A razão pela qual ele não levado todo até em cima era que ele não deveria propiciar o apoio de pés de ladrões humanos desejos de escalar.

Os postes lisos por si mesmos não concediam nenhum entalhe ou ponto de apoio para o pé nu de um homem do mato. Eles erguiam-se nove ou dez pés acima do salgueiro, de maneira que a altura total da paliçada era de aproximadamente doze pés, e os topos das estacadas eram afiados. A construção de tais grandes paliçadas requeria grande labor e apenas podia ser executada por [81]aqueles que podiam comandar os serviços de numerosos homens, de maneira que para um pequeno proprietário era impossível, a não ser dentro das muralhas de uma cidade. Essa paliçada em particular não era em hipótese alguma extensa, em comparação com as propriedades de nobres mais proeminentes.

A cercada imediatamente circundante da Casa Antiga era de uma irregular forma oval, talvez de um milha em extensão, e não bem três quartos de uma milha de largura, a casa ficando situada para a extremidade norte e mais elevada do oval. O rio cruzava-a, entrando no lado ocidental e saindo no oriental. A cercada era, pela maior parte, prado e pasto, pois aqui era mantido o gado que supria a casa com leite, queijo e manteiga, enquanto que aqueles destinados ao abate eram conduzidos para cá para o último mês de engorda.

Os cavalos efetivamente usados para montaria, ou para os carroções, também saiam para cá temporariamente. Havia duas baias e estaleiros dentro dela, um ao lado do rio, outro mais abaixo. A Estrada Sul descia quase pelo centro, passando ambos os estaleiros e deixando a paliçada na extremidade sul, chamada de a barreira. Na extremidade norte da oval, a paliçada passava a menos de trezentas jardas da casa, e havia outra barreira, à qual a estrada conduzia a partir do Portão de Bordo, o qual foi mencionado. A partir dali ela prosseguia através das colinas até a cidade de Ponze. Dessa maneira, qualquer um aproximando-se da Casa Antiga primeiro tinha de atravessar a barreira e entrar na paliçada.

Em cada barreira havia uma cabana e uma sala de guarda, [82]embora, como uma questão de fato, a vigilância era mantida em tempos pacíficos ainda mais descuidadosamente do que nos portões internos da muralha em volta da casa mesma. Muito do mesmo plano, com variações locais, era buscado em outras propriedades da província, embora a paliçada na Casa Antiga fosse notável pelo cuidado e habilidade com os quais fora construída. Parte do dever do vigia no teto era manter um olho nas barreiras, a qual ele poderia ver de sua posição elevada.

No caso de uma incursão de ciganos, ou de qualquer perigo, supunha-se que, de uma vez, o guarda na barreira fechasse o portão, soprasse um chifre e exibisse uma bandeira. Ao ouvir o chifre ou observar a bandeira, o sentinela no teto subia o alarme, e assistência era enviada. Tal era o sistema, mas, como nenhum ataque ocorrera por alguns anos, a disciplina afrouxara-se.

Após cruzarem as alpondras, Oliver e Felix logo estavam sob a paliçada, a qual corria alta acima deles, e era aparentemente tão difícil de sair dela quanto de entrar nela. Pela estrita lei do estado, qualquer pessoa que deixasse a paliçada, exceto pela barreira pública, tornava-se passível de chicotada ou aprisionamento. Qualquer pessoa, mesmo um retentor, atrevendo-se a entrar através do poste, escada ou corda, poderia ser morto com uma flecha ou dardo, colocando-se na posição de um bandido. É claro, na prática, essa lei era frequentemente evitada. Ela não se aplicava à família do proprietário.

Sob alguns arbustos perto da paliçada ficava uma escada de corda; os degraus, contudo, de madeira. Colocando seu equipamento de pesca [83]e lança para javali no chão, Oliver pegou a escada e arremessou a extremidade sobre a paliçada. Ele então escolheu um poste com um garfo ao final dos arbustos, deixados ali, é claro, para o propósito, e com o garfo empurrou os degraus para cima até que a escada estivesse ajustada, metade dentro e metade fora da paliçada. Ela pendia pelos degraus e, quando no topo, inclinava-se de dentro para fora e puxava a parte externa da escada, a qual ele colocara no lado de dentro da paliçada, de maneira que, ao transferir o seu peso para o lado de fora, ela poderia suportá-lo. Caso contrário, a escada, quando ele superasse as pontas das estacas, precisa ter deslizado a distância entre um degrau e um segundo.

Tendo ajustado isso, ele subiu, e Felix, carregando as lanças e equipamento, entregou-os a ele. Felix seguiu e, dessa maneira, em três minutos, eles estavam do lado de fora da paliçada. Originalmente, o chão por vinte jardas e todo o entorno externo da paliçada, fora limpo de árvores e arbustos para que não pudessem abrigar animais daninhos, ou porco-espinho, ou facilitar a aproximação de inimigos humanos. Parte do trabalho semanal dos meirinhos era andar em volta da inteira circunferência da paliçada para ver se ela estava em ordem e ter qualquer arbusto que começasse a crescer removido. Como com outras questões, contudo, com o espaço de tempo os meirinhos tornaram-se descuidados, e talvez o comando muito clemente de Sir Constans não lhes lembrasse de seus deveres com suficiente intensidade.

Amoras pretas e espinheiros e outras vegetações rasteiras começaram a cobrir o espaço que deveria ter ficado aberto, e jovens [84]rebentos de carvalho surgiram a partir das bolotas caídas. Felix indicava isso para Oliver, quem raramente o acompanhava; de fato, ele estava bastante feliz da oportunidade para o fazer, como Oliver tinha mais interesse em Sir Constans do que em si mesmo. Oliver admitiu que isso mostrava grande negligência, mas acrescentou que, depois de tudo, isso não importava. “O que eu desejo,” disse ele, “é que Sir Constans fosse para a Corte, e tomasse sua posição apropriada.”

Sobre isso eles estavam bem acordados; de fato, isso era quase o único ponto sobre o qual todos os três irmãos concordavam. Algumas vezes eles falavam sobre isso até que eles se separavam em um temperamento furioso, não um com o outro, mas com ele. Havia um distinto traço de pegadas através da estreita faixa de baixos espinheiros e vegetação rasteira entre a paliçada e a floresta. Isso foi feito por Felix em suas visitas diárias a sua canoa.

A floresta ali consistia principalmente em espinheiros-alvares e matagais de espinhos, e moitas de espinhos, com alguns carvalhos e freixo espalhados; a madeira era esparsa, mas agora a samambaia estava crescendo rapidamente, tão espessa que, no auge do verão, seria difícil caminhar através dela. Agora, as pontas das frondas não estavam à altura do joelho; depois a samambaia alcançaria o ombro. O caminho abria-se em torno das moitas (a abrunheira sendo bastante impenetrável exceto com o machado) e chegava novamente ao rio a umas quatrocentas ou quinhentas jardas a partir da paliçada. O córrego, que corria de oeste para leste através da cercada, aqui se virava e seguia diretamente para o sul.

No banco de areia, Felix encontrara um belo álamo-negro, o [85]maior, mais reto e melhor crescido do tipo em alguma distância em volta, e esse ele selecionara para sua canoa. Aqui, redras quebravam a corrente em redemoinhos, abaixo dos quais haviam profundos buracos e bueiros sobre os quais amieiros penduravam-se, e uma faia sempre sussurrante espalhava a sombra de seus galhos através da água. A lama de coloração clara, formada de giz desintegrado, no lado mais distante e raso era apenas parcialmente oculta por espadanas e juncos, os quais gostam de uma terra mais rica e aluvial. Nem os arbustos cresciam muito densamente neste solo através do giz, de maneira que havia mais espaço para o lançamento do isca do que usualmente seria o caso onde um córrego corre através da floresta. Oliver, após colocar seus equipamentos em ordem, imediatamente começou a lançar, enquanto Felix, pendurando seu gibão em um galho frequentemente usado, e inclinando sua lança contra uma árvore, tomou seus cinzéis e goivas da cesta de espadana.

Ele escolhera o álamo-negro para a canoa porque ele era a madeira mais leve e flutuaria melhor. Derrubar uma árvore tão grande tinha sido um grande labor, pois os machados eram de qualidade pobre, cortavam mal e, frequentemente, requeriam amolação. Facilmente ele teria ordenado meia dúzia de homens a derrubar a árvore, e eles teriam obedecido imediatamente; mas então a individualidade e o interesse do trabalho teriam sido perdidas. A menos que ele mesmo fizesse isso sua importância e valor para ele teriam sido diminuídas. Agora tinha estado caída por algumas semanas, fora talhada em uma forma exterior, e, a maior parte do interior, lentamente escavada com cinzel e goiva.

Ele começara enquanto o espinheiro-alvar estava apenas [86]crescendo seu primeiro raminho, quando as moitas e as árvores ainda estavam nuas. Agora, a flor do espinheiro-alvar perfumava o ar, a floresta estava verde, e o trabalho dele aproximava-se da conclusão. De fato, ali restavam algum desbastamento e arredondamento, e a construção, ou antes, o talhe de uma gaveta secreta na popa. Essa gaveta não era nada mais do que uma abertura quadrada cinzelada como um entalhe, entrando não a partir de cima, mas em paralelo com a base, e devia ser fechada com justo pedaço de madeira acertado à força de malho.

Uma pequena pintura, então, ocultaria as fendas delgadas, e o bote poderia ser examinado de qualquer maneira possível sem qualquer traço desse esconderijo ser observado. A canoa tinha aproximadamente onze pés de comprimento, e quase três pés na largura máxima; ela afunilava em cada extremidade, de maneira que poderia ser propelida para trás ou para frente sem virar, e proa e popa (definições intercambiáveis neste caso) cada uma erguia-se aproximadamente duas polegadas de espessura da amurada geral. Os lados eram de aproximadamente duas polegadas de espessura, a base, três, de maneira que, embora escavada a partir de madeira leve, a canoa era bastante pesada.

Primeiramente Felix construiu uma cabana leve de abetos coberta com galhos de abetos sobre a tora, de modo que ele poderia trabalhar abrigado dos ventos cruéis do começo da primavera. Conforme o calor aumentada, ele derrubou a cabana, e agora, conforme o sol subia mais alto, ficava feliz com a sombra de uma faia adjacente.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.77-86. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/77/mode/1up>


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A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo I – No Bote do “Lady Vain”

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[9]Eu não me proponho a acrescentar coisa alguma ao que já foi escrito relativo à perda do “Lady Vain.” Como todo o mundo sabe, ele colidiu com um objeto abandonado dez dias depois de ter saído de Callao. O escaler, com sete da tripulação, foi apanhado dezoito dias depois, pela canhoneira H.M. “Myrtle,” e a história de privações terríveis tornou-se bastante bem conhecida como o caso muito mais horrível do “Medusa.” Mas eu tenho de acrescentar à história publicada do “Lady Vain” outra, possivelmente tão horrível e muito mais estranha. Até agora, tem-se suposto que os quatro homens que estavam no bote pereceram, mas isso está incorreto. Eu tenho [10]a melhor evidência para essa asserção: eu fui um dos quatro homens.

Mas, em primeiro lugar, eu devo declarar que nunca houve quatro homens no bote, - o número era três. Constans, quem foi “visto pelo capitão ao pular dentro do gig,”1 felizmente para nós e infelizmente para ele, não nos alcançou. Ele desceu a partir de um emaranhado de cordas sob os esteios do gurupés esmagado, alguma pequena corda capturou o calcanhar dele enquanto ele desembaraçava-se, e ele pendeu por um momento de cabeça para baixo, em seguida caiu e atingiu um bloco ou um mastro flutuando na água. Nós arrancamos na direção dele, mas ele nunca emergiu.

Eu digo felizmente para nós que ele nunca nos alcançou e quase poderia dizer felizmente para ele mesmo; pois nós tínhamos apenas um pequeno barril de água e alguns biscoitos encharcados do navio conosco, tão súbito tinha sido o alarme, tão despreparado o navio [estava] para qualquer desastre. Nós pensávamos que o povo na lancha estaria melhor provisionado (embora pareça que eles não estavam) e nós tentamos chamá-los. Eles não conseguiram ouvir-nos e, na manhã seguinte, quando a garoa clareou, - o que [11]não foi antes de passado o meio-dia, - nós não podíamos ver nada deles. Nós não podíamos ficar de pé para olhar à nossa volta, por causa da oscilação do bote. Os dois outros homens que até agora escaparam comigo eram um homem chamado de Helmar, uma passageiro como eu mesmo, e um marinheiro cujo o nome eu não conheço, - um baixo homem robusto, com gaguejado.

Nós ficamos à deriva famintos e, após nossa água ter chegado a um fim, atormentados por uma sede intolerável, por oito dias ao todo. Após o segundo dia, o mar baixou lentamente a uma calma sem movimento. É bastante impossível para o leitor ordinário imaginar aqueles oito dias. Felizmente para ele mesmo, ele não tem nada em sua memória com o que imaginar. Após o primeiro dia, nós falamos pouco um com o outro, deitamos em nossos lugares no bote e encaramos o horizonte, ou assistimos, com os olhos que se tornavam maiores e mais abatidos a cada dia, a miséria e a fraqueza progredindo sobre nossos companheiros. O sol tornou-se impiedoso. A água terminou no quarto dia, e nós já estávamos pensando em coisas estranhas e dizendo-as com nossos olhos; mas, eu considero, era o sexto dia antes que Helmar desse voz à coisa [12]na qual todos nós estávamos pensando. Eu lembro que nossas vozes estavam secas e finas, de maneira que nos inclinamos um na direção do outro e poupamos nossas palavras. Eu posicionei-me contra isso com toda minha força, era antes por fugir de bote e perecer juntos em meio aos tubarões que nos seguiam; mas, quando Helmar disse que, se a proposta dele fosse aceita, nós deveríamos ter bebido, o marinheiro mudou de ideia.

Eu não escolheria aleatoriamente, contudo, e à noite o marinheiro sussurrou para Helmar de novo e de novo, e eu sentei na proa com meu canivete em minha mão, embora eu duvidasse de que eu tinha a disposição em mim para lutar. Pela manhã eu concordei com a proposta de Helmar, e nós entregamos meio centavos para encontrar o homem excedente. O quinhão caiu sobre o marinheiro; mas ele era o mais forte de nós e não se conformaria com isso. Ele atacou Helmar com suas mãos. Eles agarraram-se e quase ficaram de pé. Eu arrastei-me através do bote até eles, pretendendo ajudar Helmar agarrando a perna do marinheiro; mas o marinheiro cambaleou com o balanço do bote, e os dois caíram sobre a amurada e rolaram juntos pela borda fora. Eles afundaram como pedras. Eu lembro-me de rir disso, e [13]ponderando porque eu ria. O riso pegou-me subitamente, como uma coisa a partir de fora.

Eu deitei-me sobre um dos bancos do bote por não sei quanto tempo, pensando que, se tivesse a força, eu beberia a água do mar e enlouqueceria para morrer rapidamente. E, mesmo enquanto deitava-me ali, eu vi, com não mais interesse do que se tivesse sido uma pintura, uma vela surgir através do horizonte. Minha mente deve ter ficado vagando e, contudo, eu lembro-me de tudo que aconteceu, bastante distintamente. Eu lembro-me de como minha cabeça oscilou com as ondas e de como o horizonte, com a vela acima dele, dançou para cima e para baixo; mas também lembro distintamente de que eu tive a convicção de que estava morto e que considerei que piada era que eles deveriam chegar atrasados por tão pouco para me alcançar em meu corpo.

Por um período sem fim, como me pareceu, eu deitei com minha cabeça sobre o banco do bote, observando a escuna (ela era uma pequena embarcação, escuna equipada de proa à popa) surgir no mar. Ela continuava alinhavando para lá e para cá em um compasso em expansão, pois ela estava velejando morta ao vento. Nunca entrou em minha cabeça tentar atrair atenção, e eu não me lembro [14]distintamente de coisa alguma após a vista do lado dela até que me encontrei em uma pequena cabine de popa. Há uma sombria meia memória de ser erguido ao passadiço, e de um grande semblante vermelho coberto com sardas e circundado com cabelo vermelho encarando-se sobre as amuradas. Eu também tive uma impressão desconectada de um rosto negro, com olhos extraordinários, próximo a mim; mas isso eu pensei que fosse um pesadelo, até que o encontrei novamente. Eu imagino que me recordo de alguma coisa sendo derramada entre meus dentes; e isso é tudo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.9-14. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/n14/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[10]Daily News, 17 de março de 1887.

A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo I

Introdução


[1]No ano de 2126 a Inglaterra desfrutava de paz e tranquilidade sob o domínio absoluto de uma soberana feminina. Numerosas mudanças ocorreram por alguns séculos no estado político do país, e várias formas de governo foram sucessivamente adotadas e destruídas, até que, como geralmente é o caso após revoluções violentas, todos eles estabeleceram-se em uma monarquia absoluta. A religião do país era tão mutável quanto seu governo; e, no final, pela adoção do Catolicismo, parecia [2]ter chegado a quase o mesmo resultado; despotismo no estado, de fato, naturalmente produz despotismo na religião; a fé implícita e obediência passiva requeridas em um caso, sendo os melhores de todos os possíveis preparativos para a submissão absoluta tanto na mente quanto no corpo necessário no outro.

Em tempos mais antigos, a Inglaterra tinha sido abençoada com um governo misto e uma religião tolerante, sob os quais o povo desfrutara de tanta liberdade quanto talvez alguma vez eles possam fazer, consistentemente com sua prosperidade e felicidade. Mas não está na natureza da mente humana ficar contente: nós sempre precisamos ou ter esperança ou temer; e as coisas à distância parecem tão muito mais belas do que elas parecem quando nos aproximamos delas, que nós sempre imaginamos o que nós não temos, infinitamente superior a qualquer coisa que nós temos: e negligenciamos prazeres dentro de nosso alcance, para buscarmos outros, os quais, como ignes fatui, esquivam-se de nosso alcance no momento mesmo em que nós pensamos tê-los alcançado.

Dessa maneira era com o povo da Inglaterra:- Não satisfeitos com serem ricos e prósperos, [3]eles ansiavam por alguma coisa a mais. A abundância de riqueza originou projetos selvagens e especulações gigantes; e, embora muitos falhassem, contudo, conforme alguns sucederam, a enormidade das somas ganhas pelos projetores, incitou outros a buscarem a mesma carreira. Novos países foram descobertos e civilizados; a terra inteira foi trazida ao mais elevado nível de cultura; cada canto dela foi explorado; montanhas foram aplainadas, minas foram escavadas, e o globo exaurido até o seu centro. Nem o ar, nem o mar não escaparam, e toda a natureza foi compelida a submeter-se à irresistível supremacia do Homem.
Entretanto, o povo da Inglaterra não estava satisfeito:- permitidos a satisfazerem cada desejo até que a indulgência sucedesse à saciedade, eles ainda estavam infelizes; talvez, precisamente porque eles não tinham mais dificuldades a encontrar. A educação tornou-se universal, e os termos técnicos de ciências de difícil compreensão, familiares à mecânica mais baixa; enquanto questões de religião, política e metafísica, agitadas por eles diariamente, supriam aquele estímulo, pelo qual as mentes deles, enfraquecias por [4]cultura excessiva, constantemente imploravam. As consequências podem ser prontamente concebidas. Era impossível para aqueles que estudavam profundamente quem tinham de laborar pelo pão diário; e não tendo tempo para fazerem a si mesmos mestres de qualquer assunto dado, eles apenas aprendiam o suficiente de todos para os tornar discutidores e descontentes. As cabeças deles estavam cheias de palavras às quais eles não afixavam ideias precisas, e o pouco senso com o qual o céu abençoara-os foi perdido debaixo de uma massa de conhecimento não digerido e mal aplicado.
Presunção inevitavelmente leva a rebelião. A consequência natural da turba considerando a si mesma tão sábia quanto seus governantes foi que eles tomaram a primeira oportunidade conveniente que se ofereceu para empurrarem esses governantes supracitados de seus assentos. Uma aristocracia foi estabelecida e, mais tarde, uma democracia; mas ambas compartilharam do mesmo destino; pois os líderes de cada uma, por sua vez, descobriram que os instrumentos dos quais eles fizeram uso para subir, logo se tornaram ingovernáveis. O povo provara das doçuras do poder, eles aprenderam sua própria força, eles foram iluminados; e, [5]imaginando que eles entenderam a arte de governar tão bem quanto seus antigos diretores, eles não viram razão porque, após se livrarem do controle de um mestre, eles deveriam depois se submeterem ao domínio de muitos. “Nós estamos livres,” disseram eles, “nós não reconhecemos leis senão aquelas da natureza e daqueles que nós estamos tão competentes para julgar quanto nossos pretensos mestres. No que eles são superiores a nós mesmos? A natureza tem sido tão beneficente para nós quanto para eles, e nós temos tido as mesmas vantagens de educação. Então por que nós deveríamos trabalhar duro para lhes dar conforto? Nós somos capazes de governar a nós mesmos. Por que nós deveríamos pagá-los para nos governar? Por que deveríamos ser excluídos de prazeres mentais e condenados a trabalho manual? Não são nossos gostos tão refinados quanto os deles, e nossas mentes tão altamente cultivadas? Nós asseveraremos nossa independência e jogaremos fora o jugo. Se qualquer homem deseja luxos, que ele labore para os procurar para si mesmo. Nós não seremos mais escravos; nós todos seremos mestres.”
Dessa maneira eles raciocinaram, e dessa maneira eles agiram, até que governo após governo tendo sido [6]derrubado, a anarquia completa prevaleceu; e o povo começou a descobrir, contudo, ai de mim!, muito tarde, que havia pouco prazer em serem mestres quando não havia súditos; e que era impossível desfrutar de prazeres intelectuais, considerando que cada homem era compelido a laborar por seu próprio pão diário. Contudo, isso era inevitável, pois, como a igualdade perfeita foi declarada, é claro que ninguém condescenderia a trabalhar por seu vizinho; e cada coisa era feita de maneira ruim; como, por mais habilidoso que qualquer homem seja em qualquer arte ou profissão particulares, é bastante impossível que ele possa distinguir-se em todas.
Enquanto isso, o povo, embora eles escassamente soubessem porque, quem amarrados à ideia de igualdade daquela libertação da labuta, descobriam, para a infinita surpresa deles, que os fardos deles aumentaram dez vezes, considerando que seus confortos inexplicavelmente diminuíram na mesma proporção. As bençãos da civilização estavam, de fato rapidamente, escapulindo deles. Cada homem ficou com medo de que os suados meios de existência deviam ser arrancados de sua posse; pois, como todas as leis tinham sido abolidas, o [7]forte tiranizava o fraco, e a mais iluminada nação no mundo estava em perigo iminente de degenerar em uma horda de bárbaros rapaces.
Esse estado de coisas não podia continuar; descobrindo a partir da experiência que a igualdade perfeita não era exatamente a mais invejável forma de governo, eles começaram a suspeitar de que uma divisão de trabalho e uma distinção de classes eram absolutamente necessárias para a civilização; e procuraram sua antiga nobreza, para tentar reestabelecer alguma coisa como ordem para a sociedade. Esses personagens ilustres logo foram encontrados: aqueles que não emigraram, retiraram-se para suas propriedades no campo, onde, rodeados por seus dependentes e os poucos amigos que permaneceram fiéis a eles, eles desfrutavam de otium cum dignitate, e consolavam a si mesmos pela perda de sua antiga grandeza, maldizendo o mais virilmente aqueles que os privaram dela.
Entre esse número, estava a descendência linear da última família real, e para ela o povo agora resolvia, humilde e incondicionalmente, [8]oferecer a coroa; imaginando, com a veemência e inconsistência usuais das comoções populares, que um governo arbitrário deve ser o melhor para eles, como sendo o reverso mesmo daquele de sujos os males eles há pouco tão forçosamente experienciaram.
Contudo, o príncipe a quem a delegação do povo fez essa oferta aconteceu de não ser ambicioso. Como outro Cincinato, ele colocou toda sua felicidade no cultivo de uma pequena fazenda e teve prudência suficiente para rejeitar uma grandeza que ele sentia dever ser comprada pelo sacrifício de sua paz. Os delegados ficaram em desespero diante da recusa dele; e ele insistiram novamente em seu pedido com cada argumento que a dificuldade de sua situação podia inspirar. Eles pintaram em cores brilhantes os horrores da anarquia que prevalecia, a miséria do reino, o desespero do povo e, finalmente encerraram seus argumentos com um solene apelo ao Céu, para que, se ele persistisse em sua recusa, a miséria futura do povo poderia cair sobre a cabeça dele. O príncipe continuou inflexível; e os delegados estavam [9]preparando-se para se retirar, quando a filha do príncipe, quem estivera presente durante toda a entrevista, precipitou-se e evitou a retirada deles:- “Fiquem! Eu serei a Rainha de vocês,” bradou ela energicamente; “Eu salvarei meu país, ou perecerei na tentativa!”
A princesa era uma bela mulher, de aproximadamente vinte e seis anos; e, nesse momento, os olhos dela brilhantes com entusiasmo, as bochechas dela brilhantes, a face e figura inteiras dela exalando dignidade a partir do propósito elevado da alma dela, ela parecia aos delegados quase como um ser sobrenatural; e, considerando a oferta dela como uma inspiração direta do Céu, eles trouxeram-na em triunfo à multidão reunida que aguardava o retorno deles: considerando que as pessoas, sempre apanhadas pela novidade, e desejosas de qualquer mudança para as libertar da miséria que elas estavam suportando, saudaram o aparecimento dela com alegria e, por unanimidade, proclamaram-na a Rainha deles.
A nova soberana logo descobriu que a tarefa que ela aceitara era uma tarefa difícil; mas, afortunadamente acontecendo de possuir senso comum e prudência, unidos a uma disposição firme e ativa, ela [10]efetuou a tempo restaurar a ordem, e confirmar seu próprio poder, visto que ela contribuía para a felicidade do povo dela. A face do reino mudou rapidamente – a melhoria da segurança produzida – e os nobres autoexilados da antiga dinastia reunindo-se em torno da nova Rainha, ela escolheu entre eles os mais sábios e experientes como seus conselheiros e, com a ajuda deles, compôs um excelente código de leis. Esse livro foi aberto para o reino inteiro; e, os casos sendo decididos pelo princípio em vez do precedente, o litígio era quase desconhecido: pois, conforme as leis eram completa e claramente explicadas, assim como a serem entendidas por todos, poucos se atreviam a agir em violação delas, a punição sendo certa de se seguir à detecção; e todos os prazeres agonizantes de uma ação judicial foram inteiramente destruídos, como todos sabiam, no momento em que os fatos fossem declarados, como inevitavelmente terminariam. Essa renovação da idade de ouro continuou por vários anos sem interrupção, o povo estando encantado demais com os confortos pessoais dos quais eles desfrutavam, para reclamar dos erros inseparáveis [11]de todas as instituições humanas; considerando que a lembrança do que eles sofreram durante o reino da anarquia, fazia-os tremer diante de uma mudança, e pacientemente se submetiam a inconveniências insignificantes para evitarem o risco de males certos.
Essa geração passou, e com ela morreu, não apenas a recordação dos infortúnios passados do reino, mas também o espírito de satisfação que eles engendraram. Uma nova raça surgiu, quem, com a ignorância e presunção da inexperiência, encontrava defeito em cada coisa que eles não entendiam, e acusavam a Rainha e seus ministros de senilidade, meramente porque eles não realizavam impossibilidades. Contudo, o governo estava muito firmemente estabelecido para ser facilmente abalado. A economia judiciosa da Rainha enchera seu tesouro com riquezas; as suas regulações prudentes estenderam o comércio de seus súditos a uma extensão quase inacreditável; enquanto que sua disposição firme e decidida tornaram-na universalmente respeitada tanto em casa quanto no exterior. Portanto, os descontentes foram intimidados à submissão, e obrigados, a despeito deles mesmos, a descansar [12]satisfeitos com rosnar para o governo que eles não eram suficientemente forte para perturbar. Por essa época, a Rainha morreu, e o estado de coisas experienciou uma mudança importante.
Mencionou-se anteriormente que a religião do país alterara-se com seu governo. Ateísmo, liberdade racional e fanatismo seguiram-se um ao outro em sucessão regular; e o povo descobriu, por experiência fatal, que perseguição e intolerância assimilavam-se tão naturalmente como descrença com superstição. Um governo firme parecia requerer uma religião estabelecida; e a multidão, sempre em extremos, arrojava-se do excesso de liberdade à intolerância. A fé Católica foi restaurada, novos santos canonizados, e confessores indicados nas famílias de cada pessoa de distinção. Contudo, esses sacerdotes estavam muito longe de possuírem o poder que eles possuíram em tempos antigos. Os olhos estiveram abertos por muito tempo para serem facilmente fechados novamente. A educação continuava entre as classes inferiores; e embora, no tempo que essa história começa, ela estava saindo de moda com [13]pessoas de classe, a sua influência era sentida até por aqueles mais imbuídos de preconceito contra ela. Durante o reino da Rainha falecida, as mentes do público, não tendo quaisquer assuntos de estado com os quais se ocuparem, direcionaram-se para as melhorias das artes e ciências; e tantas novas invenções foram atacadas, tantas maravilhosas descobertas feitas e tantas invenções engenhosas colocadas em execução, que a pobre Natureza parecia estar degradada de seu trono, e o homem usurpador ter avançado para suprir o lugar dela.
Antes que a Rainha morresse, ela escolheu a sobrinha dela, Cláudia, para a suceder; e, como ela promulgou que nenhum de suas sucessoras deveria casar, ela ordenou que todas as futuras rainhas deveriam ser escolhidas pelo povo, a partir dos membros femininos da família dela que poderiam estar entre vinte e vinte e cinco de idade, à época do trono tornando-se vago. Cada homem em toda parte do reino que alcançara a idade de vinte e um, devia ter uma voz na eleição; mas, como foi presumido, poderia ser inconveniente convocar esses numerosos eleitores em um lugar, [14]foi acordado que cada dez mil deveriam escolher um delegado para seguir para Londres para os representar, e que a maioria desses delegados deveria eleger a Rainha. Contudo, parecia provável para todas as mentes pensantes que esse esquema, como o mais verossímil em teoria, apresentaria algumas dificuldades quando ele fosse colocado em prática; mas com essas, a antiga Rainha nunca se incomodou em pensar. Ela preparou-se contra qualquer distúrbio imediato pela escolha de sua própria sucessora e deixou à posteridade cuidar de si mesma.
A Rainha Cláudia foi um daqueles soberanos fainéant, de quem é extremamente difícil escrever a história, pela razão simples, mas incontestável, de que eles nunca realizam qualquer ação digna de ser registrada. Mas, como ela raramente fazia qualquer mal, embora ela não fizesse muito bem, ela efetuou escapar quer de censura ou de aplauso violentos; e, em resumo, para atravessar a vida muito decentemente, sem fazer muito alvoroço sobre isso. Ela continuou com os mesmos conselheiros que tinham sido empregados por sua predecessora, indicando os filhos, quando os pais [15]morriam, para evitar problema. Ela deixou as leis como as encontrou pela mesma razão; e, em resumo, deixou os assuntos de governo continuarem quietamente, e tão exatamente na mesma rotina que antes, de maneira que, por dois ou três após sua sucessão, o povo escassamente ficou consciente de que qualquer mudança ocorrera.



ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.1-15. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n15/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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