[327]É
duvidoso se o dom era inato. De minha
parte, eu penso que lhe chegou subitamente. De fato, até os trinta
ele era cético e não acreditava em poderes miraculosos. E aqui, já
que é o lugar mais conveniente, eu preciso mencionar que ele era um
homem pequeno, tinha olhos de um castanho
quente, cabelo ruivo muito ereto, um bigode com pontas que ele torcia
e sardas. O nome dele era George McWhirter Fotheringay – não
é o tipo de nome que por quaisquer meios leve a alguma expectativa
de milagres – e ele era um funcionário na Gomshott’s. Ele era
muito dedicado a argumentos assertivos. Foi
enquanto ele estava afirmando a impossibilidade de milagres que ele
teve sua primeira indicação de seus poderes extraordinários. Esse
particular argumento estava sendo sustentado no bar Long Dragon, e
Toddy Beamish estava conduzindo a oposição através de um monótono,
mas efetivo “Assim você diz”, [328]que
levava o Sr.
Fotheringay ao limite mesmo de sua
paciência.
Lá
estavam presentes, além desses dois, um ciclista muito empoeirado,
senhorio Cox, e senhorita Maybridge, a
perfeitamente respeitável e bastante corpulenta garçonete do
Dragon. A senhorita Maybridge estava de pé com as costas para o Sr.
Fotheringay, lavando copos; os outros estavam observando-o, mais ou
menos divertidos pela presente
inefetividade do método assertivo. Incitado pela tática Torres
Vedras do Sr.
Beamish, o Sr.
Fotheringay determinou-se a fazer um
esforço retórico não usual. “Olhe aqui, Mr. Beamish”, disse o
Sr.
Fotheringay. “Deixe-nos entender claramente o que é um milagre. É
algo contrário ao curso da natureza feito pelo poder da Vontade,
algo que não poderia ocorrer sem ser especialmente desejado.”
“Então
você diz,” diz o Sr.
Beamish, rejeitando-o.
O
Sr. Fotheringay apelou ao ciclista, que
até então tinha sido um ouvinte silencioso, e recebeu seu
assentimento – dado com uma tosse
hesitante e um olhar para o Sr.
Beamish. O senhorio não expressaria nenhuma opinião e o Sr.
Fotheringay, retornando ao Sr. Beamish,
recebeu uma concessão inesperada de um qualificado assentimento a
sua definição de milagre.
[329]“Por
exemplo”, disse o Sr.
Fotheringay, muito encorajado. “Aqui seria um milagre.
Aquela lâmpada, no curso natural da natureza, não poderia queimar
como que de cabeça para baixo, poderia, Beamish?”
“Você
disse que não poderia” disse Beamish.
“E
você?” disse Fotheringay. “Você não quer dizer – eh?”
“Não”
disse Beamish relutantemente. “Não, não poderia.”
“Muito
bem” disse o Sr. Fotheringay. “Então
chega alguém, que podia ser eu, por aqui, fica de pé como pode ser
aqui e diz para aquela lâmpada, como eu podia fazer, reunindo toda a
minha vontade – Vire-se de cabeça para baixo
sem quebrar, continue queimando firmemente, e – Pronto!”
Isso
foi o suficiente para fazer qualquer um dizer “Pronto!”. O
impossível, o incrível, estava visível a
todos eles. A lâmpada pendurada invertida no ar, queimando
tranquilamente, com sua chama apontado para baixo. Era tão firme,
tão indisputável como nunca a lâmpada foi, a prosaica lâmpada
comum do bar Long Dragon.
O
Sr. Fotheringay ficou
de pé, com um dedo indicador estendido e as sobrancelhas comprimidas
de alguém que antecipa uma catastrófica queda. O ciclista,
que estava sentado próximo da lâmpada, abaixou-se e saltou através
do bar. Todos pularam, mais ou [330]menos.
A senhorita Maybridge virou-se e gritou. Por aproximadamente três
segundos a lâmpada permaneceu imóvel. Um clamor fraco de aflição
veio do Sr. Fotheringay. “Eu não
posso manter”, ele disse, “não mais”. Ele cambaleou para trás
e a lâmpada invertida subitamente queimou, caiu de
encontro ao canto do bar, ricocheteou de lado, esmagou-se
sobre o chão e extinguiu-se.
Foi
sorte que tinha
um receptáculo
de metal ou o lugar inteiro teria ficado em chamas. O
Sr. Cox foi o primeiro a falar, e
seu comentário, despojado de excrescências desnecessárias, era no
sentido de que Fotheringay foi um tolo. Fotheringay estava além de
contestar uma proposição tão fundamental quanto essa! Ele estava
atônito além da medida com a coisa que ocorreu. A discussão
subsequente não lançou absolutamente
nenhuma luz sobre o assunto
tanto quanto Fotheringay estava interessado; a opinião geral
não apenas seguiu Mr. Cox de muito perto, mas veementemente. Todos
acusaram Fotheringay de um truque bobo e apresentaram-no para ele
mesmo como um tolo destruidor do conforto e da segurança. A mente
dele ficou em um tornado de perplexidade; ele estava em si mesmo
inclinado a concordar com eles e fez uma oposição marcadamente
inefetiva à proposição de sua saída.
Ele
foi para casa corado e acalorado, o
colarinho do casaco
[331]amassado,
olhos argutos e ouvidos rubros. Ele observou nervosamente cada
uma das dez lâmpadas de rua enquanto passava. Foi somente quando ele
encontrou-se sozinho no pequeno quarto em
Church Row que foi capaz de atracar-se seriamente com suas memórias
do ocorrido e perguntar, “O que realmente aconteceu?”
Ele
tirara seu casaco, botas e estava sentado na cama com as mãos em
seus bolsos repetindo o texto de sua defesa para décima sétima vez,
“eu não quis o troço perturbador para transtornar”, quando lhe
ocorreu que, no preciso momento em que dissera
as palavras de comando; ele inadvertidamente desejara a coisa
dita e que, quando vira a lâmpada no ar, tinha sentido que aquilo
dependia dele para manter-se sem ser claro como isso era feito. Ele
não tinha uma mente particularmente complexa, ou ele podia ter
emperrado por um tempo no “inadvertidamente desejado”,
abraçando-o, como se faz, os problemas mais
obscuros da ação voluntária.
Mas como foi, a ideia ocorreu-lhe com uma imprecisão muito
aceitável. E a partir desse ponto, seguindo, como eu admito, nenhum
caminho logicamente claro, ele chegou ao teste de experimento.
Ele
apontou resolutamente para sua vela e reuniu sua mente, embora
sentisse que fazia uma coisa tola. “Levante-se”, ele
disse. Mas em um segundo [332]que
cambaleando
desapareceu. A vela foi erguida, pendurada no
ar por um momento vertiginoso e, como o
Sr. Fotheringay engasgou, caiu com
choque sobre sua mesa de banheiro,
deixando-o no escuro salvo pelo brilho expirante de seu pavio.
Por
um tempo, o Sr.
Fotheringay sentou-se no escuro, perfeitamente imóvel. “Aconteceu,
depois de tudo,” ele disse. “E
como eu tenho de explicar eu não sei.”
Ele suspirou pesadamente, e começou a
apalpar em seus bolsos por um fósforo. Ele não pode encontrar
nenhum, levantou-se e tateou ao redor da mesa
de banheiro. “Eu desejo que
tivesse um fósforo,” ele disse. Ele recorreu
a seu casaco e ali não havia nenhum, então
lhe veio
à mente que milagres eram possíveis
mesmo com fósforos. Ele estendeu uma
mão e franziu as sobrancelhas ao fazê-lo no escuro. “Que
haja um fósforo naquela mão”, ele disse. Ele sentiu algum
objeto leve cair na
palma de sua mão e seus dedos
fecharam-se sobre um fósforo.
Após
várias tentativas ineficazes de lançar luz sobre isso, ele
descobriu que isso era um palito de fósforo. Ele
derrubou-o e então lhe
ocorreu que podia ter desejado-o aceso.
Ele fê-lo
e percebeu-o queimando no meio de seu tapete da
mesa de banheiro.
Ele pegou-o apresadamente e extinguiu-o.
Sua percepção das possibilidades ampliou-se, ele apalpou pelo
castiçal e substituiu a vela. “Aqui!
Você
acenda-se,” disse
o Sr.
Fotheringay, [333]imediatamente
a vela estava queimando e ele viu um pequeno buraco negro na
mesa de banheiro,
com um punhado de fumaça subindo a partir dele. Por um tempo, ele
olhou fixamente deste ponto
até a pequena chama e de volta, então olhou para cima e encontrou
seu próprio olhar pasmado no espelho. Através
esta ajuda ele comungou consigo mesmo em silêncio por um tempo.
“E
quanto a milagres agora?” disse o Sr. Fotheringay finalmente,
endereçando-se a
seu reflexo.
As
meditações subsequentes do
Sr.
Fotheringay foram de uma espécie
severa mas confusa. Até
agora, ele pôde
ver que isso
era um caso de pura disposição dentro dele. A natureza de suas
experiências até agora lhe indispusera
para quaisquer experiências ulteriores, pelos menos até que ele
tenha reconsiderado-as. Mas ele levantou uma folha de papel e
transformou um copo de água rosa e depois verde. Ele
criou um caracol, o qual ele miraculosamente aniquilou, e obteve para
si uma miraculosa nova escova dental. Em algum momento nas primeiras
horas da manhã, ele chegou ao fato de
que sua força de vontade devia
ser de uma qualidade particularmente rara e pungente; um fato do qual
ele certamente tivera suspeitas antes,
mas nenhuma garantia certa. O susto e a perplexidade de sua primeira
descoberta eram
agora qualificados
pelo orgulho na evidência da singularidade e pelas vagas insinuações
de vantagem. Ele tornou-se ciente de que o relógio da igreja era
impressionante e, como não lhe [334]ocorreu
que seus deveres diários em Gomshott’s podiam ser miraculosamente
dispensados, ele prosseguiu despindo-se, a fim de ir para a cama sem
mais atraso. Enquanto ele esforçava-se
para arranjar sua camisa sobre a
cabeça, ele foi atingido por uma ideia brilhante. “Que eu esteja
na cama,” ele disse e assim encontrou a si mesmo. “Despido,”
ele estabeleceu e, encontrando os lençóis frios, adicionou
apressadamente, “e em minha camisola
– não em uma agradável camisola de lã macia. Ah!” ele disse
com prazer imenso. “e agora deixe-me ficar confortavelmente
adormecido…”
Ele
acordou em sua hora usual e esteve
pensativo durante todo
o café da manhã, considerando se sua
experiência na noite anterior não possa ter sido um sonho
particularmente vivido. Longamente
sua mente voltou-se novamente para experiências cautelosas. Por
exemplo, ele tinha três ovos para café da manhã; dois sua senhoria
suprira, bons, mas limitados e um era um delicioso ovo fresco de
ganso, posto cuidadosamente,
cozido e servido por sua vontade extraordinária. Ele apressava-se
para Gomshott’s em um estado de
profunda, mas cuidadosamente dissimulada excitação,
e somente se lembrou da casca do
terceiro ovo quando sua senhoria falou dela
naquela noite. Durante todo o dia ele não pôde trabalhar por causa
de seu surpreendentemente novo autoconhecimento, mas isto não lhe
causou nenhum [335]inconveniente,
porque ele compensou nos últimos dez minutos.
Enquanto
o dia passou-se,
seu estado mental passou de admiração
para euforia, embora as circunstâncias de sua despedida
do Long Dragon ainda fossem
desagradáveis de recordar, e uma
consideração
confusa do assunto que atingira seus colegas conduzia
a alguma brincadeira. Era evidente que
ele precisava ser cuidadoso com o modo
como ele levantava peças
frágeis, mas,
de outros modos, seu dom prometia mais e
mais conforme ele revolvia-o
em sua
mente. Ele planejava, entre outras coisas,
incrementar sua propriedade pessoal através de atos sem ostentação
de criação. Ele chamou à existência
um par de botões de diamante muito esplendidos, e apressadamente
aniquilou-os novamente, conforme o jovem Gomshott veio
através do escritório de contabilidade
para sua mesa. Ele temera que o jovem Gomshott pudesse ficar curioso
sobre como
ele chegou até eles. Ele viu claramente que o dom requeria cuidado e
vigilância em seu exercício, mas, tão longe quanto
ele podia julgar, as dificuldades
tratando de sua mestria não seriam maiores do que aquelas que
ele já encarava
no estudo do ciclismo. Foi aquela analogia, talvez, tanto como
o sentimento de que ele seria mau recebido no Long Dragon, que
expulsou-o depois da ceia para a pista além da usina de gás, para
ensaiar uns poucos milagres em particular.
[336]Possivelmente
havia um certo desejo de originalidade em suas tentativas, pois, à
parte de sua força de vontade, o Sr.
Fotheringay não era um homem excepcional.
O milagre do cajado de Moisés ocorreu a
sua mente, mas a noite estava escura e desfavorável para o controle
apropriado de grandes serpentes miraculosas. Então ele rememorou a
história de “Tannhäuser” que leu nas costas do programa da
Filarmônica. Aquilo parecia para ele singularmente atrativo e
inofensivo. Ele enfiou
sua bengala – uma muito boa bengala
de Poona – na relva que beirava a
trilha e ordenou a madeira seca a florescer. O ar foi enchido
imediatamente pelo aroma de rosas e, através de um fósforo,
ele viu por si mesmo que este belo milagre fora
realizado de fato. Sua satisfação foi
terminada por passos que avançavam.
Receoso de uma descoberta prematura de seus poderes, ele endereçou-se
ao bastão
florescido precipitadamente: “Volte.” O que ele queria dizer era
“Mude de volta;” mas é claro ele estava confuso. O bastão
retrocedeu em uma velocidade considerável e, incontinentemente, veio
um grito de ira e um palavrão
da pessoa que se aproximava. “Em quem você está jogando amoras,
seu tolo?” gritou a voz. “Aquilo acertou-me na canela.”
“Desculpe-me,
velho amigo,” disse o Sr. Fotheringay
e, então percebendo a estranha natureza da
[337]explicação,
agarrou nervosamente seu bigode. Ele viu
Winch, um dos três policiais de Immering,
avançando.
“O
que você quer dizer com isso?” perguntou o policial. “Olá! É
você, é? O cavalheiro que quebrou a lâmpada no Long Dragon!”
“Eu
não quero
dizer nada com aquilo,” disse
o Sr. Fotheringay. “Nada mesmo.”
“O
que você quer fazer então?”
“Oh,
aborrecimento!” disse o Sr. Fotheringay.
“Incomodo
mesmo! Você sabe que o bastão machuca? O que você vai fazer, eh?”
Para
o momento, o Sr.
Fotheringay não podia pensar no que ele fizera para [merecer]
isso. Seu silêncio pareceu irritar o
Sr. Winch. “Você esteve atacando
a polícia, jovem, desta vez. Isso é o que você fez.”
“Veja
aqui, Sr. Winch,” disse o Sr. Fotheringay, irritado e confuso, “Eu
sinto muito. O fato é---.”
“Bem?”
Ele
não pôde
pensar em nenhum outro caminho que não a verdade. “Eu
estava trabalhando num milagre.” Ele tentou
falar de modo improvisado, mas tentar [apenas],
visto que ele não poderia.
“Trabalhando
em um ----! Antes, não fale tolice.
Trabalhando num milagre, de fato. Milagre! Bem,
isso é francamente engraçado! Por que, você é o camarada [338]que
não acredita em milagres … O fato é; este é outro de seus
truques de conjuração bobos – isso é o que é. Agora,
eu vou dizer a você ----”
Mas
o Sr.
Fotheringay nunca ouviu o que o Sr.
Winch estava para contar-lhe. Ele
percebeu que ele revelara-se, atirando
seu segredo valioso a todos os ventos do céu. Um gosto violento de
irritação varreu-o à
ação. Ele virou-se contra
o policial rápida e ferozmente. “Aqui,” ele disse, “eu tive o
suficiente disso, eu tive! Eu mostrar-te-ei um tolo truque de
conjuração, eu mostrarei! Vá para o Hades! Vá, agora!”
Ele
estava sozinho.
O
Sr. Fotheringay não realizou mais
nenhum milagre naquela noite, nem se
incomodou de ver o que
se tornou seu bastão em flor.
Ele retornou à cidade, assustado
e muito quieto, e foi para seu quarto. “Senhor!”
ele disse, “é um dom poderoso – um
dom extremamente poderoso. Eu dificilmente
tencionei tanto quanto aquilo. Não realmente… eu pergunto-me como
o Hades é!”
Ele
sentou-se na cama tirando suas botas.
Atingido por um pensamento feliz, ele
transferiu o policial para São Francisco, e, sem maior interferência
com a causação
normal, foi sobriamente para a cama. Na noite ele sonhou com a ira de
Winch.
No
próximo dia, o Sr. Fotheringay ouviu dois [339]interessantes
artigos de notícias.
Alguém plantara uma rosa muito
bonita trepada contra a casa particular
do velho Sr.
Gomshott na rua Lullaborough, e o rio
até o Moinho de Rawling estava
para ser dragado por causa do Policial Winch.
O
Sr. Fotheringay esteve abstrato e
pensativo durante todo aquele dia e
não realizou milagres, exceto certas provisões para Winch e o
milagre de completar seu trabalho do
dia, com perfeição pontual, apesar de todo enxame que zumbia
através de sua mente. E a abstração extraordinária e mansidão de
sua maneira foram
notadas por
várias pessoas e originaram
uma questão para brincadeira. Pois, durante
a maior parte do
dia, ele estava pensando em Winch.
No
domingo à
noite ele foi a capela e,
curiosamente, o
Sr. Maydig, que tomou um certo interesse
em assuntos ocultos, pregou sobre “coisas que não são lícitas.”
O Sr.
Fotheringay não era um frequentador regular de capelas, mas o
sistema de ceticismo assertivo, ao qual eu já aludi, estava agora
muito abalado. O teor do sermão lançou uma luz inteiramente nova
sobre esses novos
dons e ele de repente decidiu consultar o
Sr. Maydig imediatamente depois o
serviço. Assim,
logo que aquilo fora determinado, ele [340]encontrou
a si mesmo perguntando-se o porquê
ele não fizera assim
antes.
O
Sr. Maydig, um homem magro, emotivo, com
pulsos e
pescoço notavelmente
muito longos, foi
gratificado com um pedido para uma conversa privada [da
parte] de um jovem cujo descuido em
matérias religiosas era tópico para
obervação geral na cidade. Após alguns atrasos necessários, ele
conduziu-o para
o estúdio do Presbitério, o qual era contíguo à capela; sentou-o
confortavelmente, e, pondo-se de pé diante de um fogo animado –
suas pernas lançavam um arco rodiano de sombra sobre a parede oposta
– pediu ao Sr.
Fotheringay para expor
seu assunto.
No
início, o Sr.
Fotheringay estava um pouco embaraçado e encontrou alguma
dificuldade no começo do assunto. “Você
escassamente me acreditará, Sr.
Maydig, eu estou assutado” - e
assim por diante por algum tempo. Finalmente,
ele tentou uma questão finalmente e
perguntou ao
Sr. Maydig
a opinião dele sobre milagres.
O
Sr. Maydig ainda estava dizendo “Bem”,
em um tom extremamente judicial, quando o
Sr. Fotheringay interrompeu novamente:
“Você
não acredita, eu suponho, que algum tipo
comum de pessoa – como eu mesmo, por exemplo – que
podia estar sentado aqui agora, pudesse
ter algum tipo de habilidade
dentro dele que o fizesse
capaz de fazer coisas através de
sua vontade.”
[341]“É
possível,” disse o Sr. Maydig. “Algo do
tipo, talvez, seja possível.”
“Se
eu pudesse franquear-me com algo aqui, acho que poderia mostrar a
você através
um tipo de experimento,” disse
o Sr. Fotheringay. “Agora, pegue aquele pote
de tabaco sobre a mesa, por exemplo. O que eu quero saber é
se o que eu estou para fazer com ele é um milagre ou não. Somente
meio minuto, Sr. Maydig, Por favor.”
Ele
uniu suas sobrancelhas, apontou para o pote de tabaco, e disse:
“Seja um vaso de violetas.”
O
pote de tabaco fez como fora ordenado.
O
Sr. Maydig encetou-se
violentamente diante da
mudança e permaneceu olhando do taumaturgo ao vaso de flores.
Ele não disse nada. Em breve ele
arriscou-se a inclinar-se sobre a mesa e cheirar as violetas; elas
eram recém-colhidas e muito boas. Depois ele encarou novamente ao
Sr. Fotheringay.
“Como
você fez aquilo?” ele perguntou.
O
Sr. Fotheringay puxou o bigode. “Acabei de dizê-lo – e ai você
está. É um milagre, ou é arte negra, ou que é? E o que você acha
que é o caso comigo? Isso é o que eu quero perguntar.”
“É
uma ocorrência das mais extraordinárias.”
“E
a este dia
na última semana eu não sabia melhor
que eu podia fazer coisas como essa do
que você sabia. [342]Veio
bem de repente.
É algo estranho sobre minha vontade, eu
suponho, e isso é tanto quanto eu posso ver.”
“É
aquilo – a
única coisa. Você poderia fazer outras coisas além daquilo?”
“Senhor,
sim” disse Mr. Fotheringay. “Apenas
qualquer coisa.” Ele pensou e subitamente recordou um
entretenimento de conjuração que ele vira. “Aqui!”
Ele apontou. “Mude para uma vasilha de
peixes – não, não aquilo – mude para um pote de vidro cheio de
água com um peixe-dourado nadando nele. Isso é melhor! Você vê
isso, Sr.
Maydig?”
“É
surpreendente. É incrível. Você é ou o mais extraordinário …
mas não ____”
“Eu
poderia mudá-lo em qualquer coisa,” disse o Sr. Fotheringay.
“Apenas qualquer coisa. Aqui! Seja um pombo, você gostaria?”
Em
outro instante,
um pombo
azul estava rodopiando
em torno da
sala e fazendo o
Sr. Maydig evitá-lo
cada vez que ele chegava perto dele.
“Pare acolá, você parará,”
disse o Sr.
Fotheringay; e o pombo suspendeu-se sem movimento no ar. “Eu podia
mudá-lo de volta à vasilha de flores,” ele disse e depois,
devolvendo o pombo sobre a mesa,
trabalhou naquele milagre. “Eu imagino que você gostaria
de seu cachimbo em um pedaço,” ele disse e restaurou o pote de
tabaco.
[343]O
Sr. Maydig seguira todas essas mudanças
posteriores em um tipo de silêncio ejaculatório.
Ele encarou O
Sr. Fotheringay e, em uma maneira muito
cuidadosa, pegou o pote de tabaco, examinou-o, e devolveu-o sobre a
mesa. “Bem!” foi a única expressão de seus sentimentos.
“Agora,
depois daquilo é mais fácil explicar sobre
o
que eu passei”
disse
o
Sr.
Fotheringay;
e
continuou com um longa e baralhada narrativa de suas experiências
estranhas, começando com o caso da lâmpada no Long Dragon e
complicado pelas persistentes alusões a Winch. Conforme ele
avançava, o orgulho efêmero que
a consternação do
Sr.
Maydig causara faleceu; ele tornou-se novamente o muito ordinário
Sr.
Fotheringay do trato cotidiano. O
Sr.
Maydig ouviu atentamente, o jarro de tabaco em sua mão, e sua
atitude mudou também com o curso da narrativa. Logo, enquanto o
Sr.
Fotheringay estava lidando com o milagre do terceiro ovo, o ministro
interrompeu com uma agitada mão estendida -
“É
possível,” Ele disse. “É
credível. É surpreendente, é claro, mas isso concilia um número
de dificuldades assombrosas. O poder de fazer milagres é um dom –
uma qualidade peculiar como gênio ou clarevidência
– até agora ele veio muito raramente
e a pessoas excepcionais. Mas neste [344]caso…
eu sempre me maravilhei com os milagres de Maomé, com os milagres de
Yogi e os milagres de Madame Blavatsky. Mas, é claro! Sim, é
simplesmente um dom! Defende
tão belamente os argumentos daquele grande pensador”
- a voz do
Sr. Maydig abateu-se
- “Sua Graça Duque
de Argyll – mais profundo do que as leis ordinárias da natureza.
Sim – sim. Continue. Continue.”
O
Sr. Fotheringay prosseguiu para contar de sua
desventura com Winch e o Sr. Maydig, não
mais intimidado ou assutado, começou a
sacudir seus membros ao redor e intercalar
admiração. “É
isto que me
importuna mais,” prosseguiu
o Sr.
Fotheringay; “é para isto que eu estou mais fortemente
em necessidade de conselho. É
claro que ele está em São Francisco – onde quer que São
Francisco possa ficar
– mas é claro; é embaraçoso para nós dois, como você verá,
Sr. Maydig.
Eu não vejo como nós podemos entender
o que aconteceu e, ouso dizer, ele está tremendamente assustado,
algo exasperado e tentando chegar a
mim. Eu ouso dizer que
ele continua começando
a vir
aqui. Eu
envio-o de volta, por um milagre, a cada poucas horas, quando eu
penso nisso. E é claro, aquilo é uma coisa que ele não seria capaz
de entender, e é um limite para
irritá-lo. E,
é claro, se ele usar [345]um
bilhete a cada vez custar-lhe-á muito dinheiro. Eu
fiz o melhor que eu puder por ele, mas é claro que é difícil para
ele colocar-se no meu lugar. Mais tarde eu pensei que as roupas dele
podiam ter
sido queimadas, você sabe – se o Hades for
tudo que eu suponho ser – antes de eu deslocá-lo. Nesse caso, eu
suponho, eles
teriam trancado-o em São Francisco. É claro, eu desejei-lhe um novo
conjunto de roupas nele
imediatamente que eu pensei nisso. Mas, você vê, eu já estou em um
diabo de um emaranhado ----”
O
Sr. Maydig pareceu sério. “Eu vejo
que você está numa complicação. Sim,
é uma posição difícil. Como você terminará isso…” Ele
tornou-se difuso e inconclusivo.
“Contudo,
nós deixaremos Winch por um tempo e
discutiremos a questão maior. Eu
não acho que isto seja
um caso de arte negra ou algo do tipo. Eu
não acho que haja
qualquer mancha de criminalidade sobre isso de qualquer modo, Sr.
Fotheringay – nenhuma
que seja, a menos que você esteja abafando
fatos materiais. Não, são milagres – puros milagres – milagres,
se eu posso dizer isso, de classe muito alta.”
Ele
começou a andar a passo sobre o tapete
da lareira e a gesticular,
enquanto o Sr. Fotheringay sentou-se com seu braço sobre a mesa e
sua cabeça sobre seu braço, olhando preocupadamente. “Eu
não sei como eu tenho
de administrar [a situação] de Winch,” ele disse.
[346]“Um
dom de operar milagres – aparentemente
um dom muito poderoso,” disse O Sr. Maydig.
“você
encontrará um caminho a respeito de
Winch – nem tema. Meu
caro senhor, você é um homem muito importante – um homem das
possibilidades mais espantosas. Como evidência, for exemplo! E de
outros modos, as coisas que você pode fazer…”
“Sim,
eu pensei em
uma ou duas coisas,” disse o Sr. Fotheringay.
“Mas –
algumas das coisas vieram um pouco sinuosas. Você viu aquele peixe
em princípio? Tipo errado de vasilha e tipo errado de peixe. E
eu achei
que eu perguntaria a alguém.”
“Um
curso adequado,” disse o Sr.
Maydig, “um curso muito adequado – de
modo geral o
curso adequado.” Ele parou e olhou
para o Sr.
Fotheringay. “É praticamente um dom ilimitado. Deixe-nos testar
seus poderes, por exemplo. Se eles são realmente … se eles são
realmente tudo que parecem ser.”
E
assim, incrível como possa
parecer, no estúdio da pequena casa atrás da Capela
Congregacional,
na noite de
domingo, 10 de novembro de 1896, o Sr.
Fotheringay incitado e inspirado pelo
Sr. Maydig, começou a operar milagres.
A atenção do leitor é especialmente e
definitivamente chamada para a data. Ele objetará, provavelmente já
objetou antes, que certos pontos nesta história são improváveis;
que, se quaisquer coisas do tipo já descrito ocorreram de fato,
[347]elas
estariam em todos os jornais há um ano. Os detalhes imediatamente
seguintes ele achará particularmente difíceis de aceitar, porque
entre outras coisas eles envolvem a conclusão de que ele ou ela, o
leitor em questão, deveria
ter sido morto de um modo violento e
sem precedentes há mais de um ano. Agora,
um milagre não é
nada se não improvável e, na
realidade, o leitor foi morto de um
modo violento e
sem precedentes há um ano. No curso
subsequente desta história isso
tornar-se-á
perfeitamente claro e verossímil, como cada leitor razoável e
moderado admitirá. Mas este não é o lugar para
o final da história, sendo somente um pouco além do
lado de cá
do meio. E no início, os milagres operados pelo
Sr. Fotheringay foram tímidos pequenos
milagres – pequenas coisas com as
xícaras e os
moveis do
gabinete, tão debeis quanto os milagres
dos Teosofistas, e, fracos como eles eram, eles foram recebidos com
admiração por seu colaborador. Ele teria preferido resolver o
negócio de Winch que estava fora de
controle, mas o
Sr. Maydig não lhe permitiria. Mas,
após eles terem trabalhado uma
dúzia dessas trivialidades domésticas, a
sua sensação
de poder cresceu, sua imaginação começou a mostrar sinais de
estimulação e sua imaginação ampliou-se. O primeiro
empreendimento maior deles foi devido à fome e à negligência de
Sra.
[348]Minchin,
a empregada doméstica
do Sr.
Maydig. A refeição para a qual o ministro conduziu o
Sr. Fotheringay foi certamente mal
colocada e pouco convidativa, como descanso para dois industriosos
realizadores de milagres; não obstante
eles estavam sentados, e o Sr.
Maydig estava discorrendo de tristeza em vez de raiva sobre as faltas
de sua empregada doméstica, antes que ocorresse ao
Sr. Fotheringay que uma oportunidade
colocava-se diante dele. “Você não acha, Sr.
Maydig,” ele disse, “supondo que
isto não seja
uma familiaridade demasiada,
eu ----”
“Meu
querido Sr. Fotheringay! É claro! Não – Eu não achei.”
O
Sr. Fotheringay agitou sua mão.
“Que nós
devemos ter?” ele
disse, em um grande, inclusivo espírito, e, por meio da ordem do
Sr. Maydig,
revisou a ceia muito minuciosamente. “Quanto a mim,” ele disse,
olhando a seleção do Sr.
Maydig, “eu fico
sempre particularmente afeiçoado a uma caneca de cerveja forte e uma
bela torrada com queijo galesa, e eu
pedirei de tal maneira. Eu não sou muito dado a
vinho de Borgonha,” e
imediatamente cerveja escura e torrada com queijo galesa apareceram a
seu comando. Eles sentaram-se longamente junto
a sua ceia, falando como
iguais, conforme o Sr.
Fotheringay logo entendeu,
com um brilho de surpresa e gratificação, de todos os milagres que
eles logo fizeram. “E, a propósito, Sr.
Maydig,” disse o Sr.
Fotheringay, “eu podia talvez ser capaz de ajudar-lhe – em um
modo doméstico.”
[349]“Não
compreendo bem,” diz o Sr. Maydig vertendo uma taça do Borgonha
miraculosamente velho.
O
Sr. Fotheringay ficou à vontade com uma
torrada com queijo galesa tirada do vazio e tomou um bocado.
“Estive
pensando,” ele
disse, “eu podia se capaz (chum, chum) de fazer (chum, chum) um
milagre com Sra.
Minchim (chum, chum) – fazê-la uma mulher melhor.”
O
Sr. Maydig abaixou a taça e olhou
duvidosamente. “Ela
é ---- ela desaprova fortemente interferências, você sabe, Sr.
Fotheringay. E – de fato – já são bem mais de onze horas e
provavelmente ela está na cama e adormecida. Você acha, no todo
----”
O
Sr. Fotheringay considerou essas objeções. “Eu não
vejo o porquê
isso não devia ser feito durante o sono
dela.”
Por
um tempo, o Sr.
Maydig opôs-se à ideia e, em seguida,
ele deu-se por vencido.
O Sr.
Fotheringay emitiu suas ordens e, talvez
um pouco menos à vontade, os dois cavalheiros continuaram com sua
refeição. O Sr.
Maydig estava aumentando sobre as
mudanças que ele esperava em sua empregada doméstica no próximo
dia, com um otimismo que parecia, mesmo à
sensação da ceia
do Sr.
Fotheringay, um pouco forçado e
agitado, quando uma série de barulhos confusos do andar de cima
começou. Os olhos deles trocaram interrogações, [350]e
o Sr.
Maydig deixou a sala apressadamente. O
Sr. Fotheringay ouviu-o
chamando por sua
empregada e, em seguida, seus passos subindo
suavemente em direção a ela.
Em
um minuto ou então, o ministro retornou, seu passo leve, sua
face radiante. “Maravilhoso!” ele disse, “E
tocante! O mais tocante!”
Ele
começou andar a
passo sobre o tapete da
lareira. “Um
arrependimento – um arrependimento muito comovente – através da
fresta da porta. Pobre mulher! Uma mudança muito maravilhosa! Ela
levantou-se. Ela precisava levantar-se de uma vez. Ela levantou-se
para fora de seu sono para quebrar
uma garrafa particular
de conhaque em sua caixa. E para confessá-lo
também! … Mas isto dá-nos
– abre – um panorama surpreendente de possibilidades. Se nós
pudermos trabalhar essa mudança miraculosa nela…”
“A
aparentemente ilimitação da coisa,” disse o Sr. Fotheringay. “E
sobre o Sr. Winch.---”
“Ilimitado
de modo geral.” E do tapete da lareira o Sr. Maydig, afastando a
dificuldade de Winch, revelou uma série de propostas maravilhosas –
propostas que ele inventou conforme ele prosseguia.
Agora,
o quê essas propostas eram não interessa ao essencial desta
história. Suficiente é que elas foram desenhadas em um espírito de
benevolência infinita, o tipo de benevolência que costumava
[351]ser
chamada de pós-prandial. Suficiente, também, que o problema de
Winch permaneceu não resolvido. Nem é necessário descrever quão
longe aquela série atingiu seu
cumprimento. Houve mudanças surpreendentes. As
primeiras horas da manhã encontraram o Sr. Maydig e o Sr.
Fotheringay correndo através da fria praça do mercado debaixo da
lua calma, em um tipo êxtase de taumaturgia; o Sr. Maydig todo
agitação e gesto, o Sr. Fotheringay, lacônico, eriçado e não
mais envergonhado de sua grandeza. Ele reformaram cada bêbado na
seção Parlamentar, mudaram toda a bebida e álcool para água (o
Sr. Maydig prevalecera sobre o Sr. Fotheringay neste ponto); além
disso, melhoraram grandemente a comunicação ferroviária do lugar,
drenaram o pântano de Flinder, melhoraram o solo da Colina de Uma
Árvore e curaram a verruga do Vigário. Ele estavam indo ver o quê
podia ser feito com o píer danificado da Ponte Sul. “O lugar,”
ofegou o Sr. Maydig, “não será o mesmo lugar amanhã. Quão
surpresos e agradecidos todos serão!” E bem naquele momento o
relógio da igreja atingiu as três horas.
“Eu
digo,” disse Mr. Fotheringay, “são três horas! Eu tenho de ir
voltando. Eu tenho que estar na empresa perto das oito. E além
disso, a Sra. Wimms ----”
[352]“Nós
estamos apenas começando,” disse o Sr. Maydig, cheio da doçura do
poder ilimitado. “Nós estamos apenas começando. Pense em todo o
bem que nós estamos fazendo. Quando as pessoas acordarem ----”
“Mas
----,” disse o Sr. Fotheringay.
O
Sr. Maydig agarrou o braço dele subitamente. Seus olhos estavam
brilhantes e selvagens. “Meu caro amigo,” disse ele, “não há
pressa. Veja” - ele apontou para a lua no Zênite - “Josué!”
“Josué?”
disse o Sr. Fotheringay.
“Josué,”
disse o Sr. Maydig. “Por que não? Pare-o.”
O
Sr. Fotheringay olhou para a lua.
“Isso
é um pouco alto,” ele disse depois de uma pausa.
“Por
que não?” disse o Sr. Maydig. “É claro, ela não para. Você
para a rotação da terra, você sabe. O tempo para. Não é como se
nós estivéssemos fazendo mal.”
“Hm!”
disse o Sr. Fotheringay. “Bem.” ele suspirou. “Eu tentarei.
Aqui ----”
Ele
abotoou seu casaco e endereçou-se ao globo habitado, com uma
presunção de confiança tão boa quanto a disposição em seu
poder. “Pare de girar, você ira,” disse o Sr. Fotheringay.
Incontinentemente,
ele estava voando de ponta-cabeça através do ar à razão de
dezenas de milhas por minuto. Apesar dos inumeráveis círculos
[353]que
ele estava descrevendo por segundo, ele pensou; pois o pensamento é
maravilhoso – algumas vezes tão lento quando piche corrente,
algumas vezes tão instantâneo quanto a luz. Ele pensou em um
segundo, e desejou. “Que eu desça são
e salvo. O que mais acontecer, que eu desça são e salvo.”
Ele
desejou-o apenas na hora certa, pois suas roupas, aquecidas pelo voo
rápido através do ar, estavam começando a chamuscar. Ele desceu
com um forçoso, mas de nenhum modo injurioso, impacto no que pareceu
ser um monte de terra recém-revirada. Uma grande massa de metal e
alvenaria, extraordinariamente semelhante à torre do relógio no
centro da praça do mercado, atingiu a terra próximo a ele,
ricocheteou sobre ele, e voou para dentro de
cantaria, tijolos e alvenaria como uma bomba prestes a
rebentar. Uma vaca arremessada atingiu um dos maiores blocos e
esmagou-se como um ovo. Houve uma batida que fez com que todas as
batidas mais violentas de sua vida passada parecessem como o som de
poeira cadente, e isto foi seguido por uma série descendente de
batidas menores. Um vento imenso rugiu através da terra e do céu,
de modo que ele escassamente pôde erguer sua cabeça para olhar. Por
um tempo ele estava muito sem folego e atônito para ver onde estava
ou o quê acontecera. E seu primeiro movimento foi sentir sua cabeça
[354]e
tranquilizar a si mesmo de que seu cabelo fluente ainda era o seu
próprio.
“Senhor!”
arquejou o Sr. Fotheringay, escassamente capaz de falar por causa do
vendaval, “eu tive um guincho! O que deu errado? Tempestades e
trovão. E somente há um minuto uma bela noite. Maydig colocou-me
neste tipo de coisa. Que vento! Se eu continuar zombando deste modo
estou obrigado a ter um acidente com trovões!…”
“Onde
está Maydig?”
“Em
que confusa bagunça tudo está!”
Ele
olhou ao redor de si mesmo tão longe quanto seu casaco agitado
permitiria. A aparência das coisas era de fato extremamente
estranha. “O céu está completamente bem de qualquer maneira,”
disse o Sr. Fotheringay. “E isso é quase tudo que está
inteiramente certo. E mesmo lá parece como um terrível vendaval
chegando. Porém, há a lua por cima da cabeça. Exatamente como foi
agora mesmo. Brilhante como meio-dia. Mas quanto ao resto --- Onde
está a vila? Onde está --- Onde está qualquer coisa? E o que
realmente colocou este vento soprando? Eu não ordenei nenhum vento.”
O
Sr. Fotheringay lutou para ficar de pé em vão e, após uma falha,
permaneceu completamente de quatro, segurando-se. Ele inspecionou o
mundo enluarado ao sotavento, com as extremidades de sua jaqueta
agitando-se sobre sua cabeça. “Há algo [355]seriamente
errado,” disse o Sr. Fotheringay. “E o que é --- Deus sabe.”
Em
toda parte nada era visível no brilho branco, através da neblina de
poeira que se formava diante de um alto vendaval, salvo massas
tombadas de terra e montes de ruínas imperfeitas, sem árvores, sem
casas, sem formas familiares; somente uma imensidão de desordem que
desaparece finalmente dentro das trevas abaixo de colunas rodopiantes
e flâmulas; os relâmpagos e os trovões de uma tempestade
rapidamente ascendente. Próximo dele, no brilho livido, estava algo
que podia uma vez ter sido um olmo; uma massa esmagada de espinhos,
tremida dos galhos à base, e, além disso, uma massa torcida de
vigas de ferro – apenas também, evidentemente, o viaduto –
ergueu-se para fora da confusão amontoada.
Entenda,
quando o Sr. Fotheringay impedira a rotação do globo sólido, ele
não fizera nenhuma estipulação concernente às coisas móveis
insignificantes sobre sua superfície. E a terra gira tão rápido
que a superfície em seu equador está viajando a um pouco mais do
que mil milhas por hora, e nestas latitudes a um pouco mais do que
metade daquele ritmo. Então aquela vila, o Sr. Maydig, o Sr.
Fotheringay, todos e todas as coisas foram lançados violentamente
adiante a aproximadamente nove milhas por segundo – quer dizer,
muito mais violentamente do que se eles tivessem sido disparados de
um [356]canhão.
E cada ser humano, cada criatura viva, cada casa e cada árvore –
todo o mundo como nós conhecemo-lo – fora assim lançado, esmagado
e realmente destruído. Isso foi tudo.
Essas
coisas o Sr. Fotheringay, é claro, não apreciou completamente. Mas
ele percebeu que seu milagre malograra e, com isso, um grande
desgosto de milagre veio sobre ele. Ele estava nas trevas agora, pois
as nuvens foram varridas juntas e apagaram o seu vislumbre momentâneo
da lua; e o ar estava preenchido de espectros de granizo irregulares,
contorcidos e torturados. Um grande rugido de vento e águas
preencheu terra e céu, e, espreitando debaixo de sua mão, através
do pó e do granizo ao barlavento, ele viu, próxima à brincadeira
dos relâmpagos, uma grande parede de água derramando-se na direção
dele.
“Maydig!”
gritou a débil voz do Sr. Fotheringay em meio ao tumulto elemental.
“Aqui --- Maydig!”
“Pare!”
exclamou o Sr. Fotheringay para a água que avançava. “Oh, pelo
amor de Deus, pare!”
“Só
um momento,” disse o Sr. Fotheringay para os relâmpagos e o
trovão. “Parem um momento enquanto eu reúno meus pensamentos… E
agora, o que devo fazer? O que devo fazer? Senhor! E gostaria
que Maydig estivesse por perto.”
[357]“Eu
sei,” disse o Sr. Fotheringay. “E, pelo amor de Deus, vamos
acertar desta vez.”
Ele
permaneceu de quatro, inclinando-se contra o vento, muito decidido a
acertar em tudo.
“Ah!”
ele disse. “Que nada do que eu estou para ordenar ocorra até que
eu diga ‘Fora’…Senhor! Eu queria ter pensado nisso antes!”
Ele
levantou a voz contra a furação, gritando mais alto e mais alto no
desejo vão de ouvir a si mesmo falar. “Agora então! - Aqui vai!
Preste atenção no que eu disse exatamente agora. Em primeiro lugar,
quando tudo que eu tiver de dizer estiver dito, que eu perca meu
poder miraculoso, que minha vontade torne-se exatamente igual à
vontade de qualquer pessoa e que todos esses milagres perigosos sejam
parados. Eu não gosto deles. Eu gostaria em vez de não os ter
feito. Nunca tão grandes. Isso é a primeira coisa. E a segunda é –
que eu volte para bem antes de os milagres começarem; que tudo fique
exatamente como estava antes que aquela lâmpada abençoada virasse
para cima. É um grande trabalho, mas é o último. Você entendeu?
Sem mais milagres, tudo como era – eu de volta no Long Dragon
exatamente antes que eu bebesse meu meio quartilho. É isso! Sim.”
Ele
cavou com seus dedos dentro do solo, fechou olhos, e disse “Fora!”
Tudo
ficou perfeitamente quieto. Ele percebeu que ele estava de pé ereto.
[358]“Assim
você disse,” disse uma voz.
Ele
abriu os olhos. Ele estava no bar do Long Dragon, argumentando sobre
milagres com Toddy Beamish. Ele teve uma sensação vaga de alguma
grande coisa esquecida que passou instantaneamente. Veja você que,
exceto pela perda de seus poderes miraculosos, tudo estava de volta
como fora, sua mente e memória assim sendo estavam agora exatamente
como elas estiveram no momento em que esta história começou. De
modo que ele não sabia absolutamente de nada de tudo que está
contado aqui; sabe nada de tudo que é contada aqui até este dia. E
entre outras coisas, é claro, ele ainda não acredita em milagres.
“Eu
digo-te que milagres, propriamente falando, não podem possivelmente
ocorrer,” ele disse, “qualquer coisa que você queira sustentar.
E eu estou preparado para prová-lo inteiramente.”
“Isso
é o que você pensa,” disse Toddy Beamish, e “Prove-o se você
puder.”
“Olhe
aqui, Sr. Beamish,” disse o Sr. Fotheringay “Vamos entender
claramente o que é um milagre. É algo ao contrário do curso da
natureza feito pelo poder da Vontade…”
O
Fim
WELLS,
H.G. The Man Who
Could Work Miracles. In:______.
Tales of Space
and Time.
London: MacMillan and Co, 1920. pp.327-358.
Disponível em:
<https://archive.org/details/talesofspacetime00well/page/327/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Eidonet
Licença:
CC
BY-NC-SA 4.0