Erewhon: ou, Além da Cordilheira – XXIX Conclusão – Final

 Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[234]XXIX Conclusão


O navio era o Princípe Umberto, destinado de Callao para Gênova; ele tinha levado um número de imigrantes para o Rio, tinha ido de lá para Callao, para onde ele tinha levado uma carga de guano, e agora estava retornando para casa. O capitão era um certo Giovanni Gianni, um nativo de Sestri; ele gentilmente admitiu que eu me referisse a ele em caso de que a verdade da minha história devesse ser disputada; mas eu lamento dizer que o tolerei enganar a si mesmo em alguns particulares importantes. Eu deveria acrescentar que, quando nós fomos recolhidos, nós estávamos mil milhas da terra.

Assim que nós estávamos a bordo, o capitão começou a questionar-nos sobre o cerco de Páris, cidade a partir da qual ele tinha assumido que nós devíamos ter vindo, a despeito da nossa imensa distância da Europa. Como se pode supor, eu não tinha ouvido nem uma silaba sobre a guerra entre França e Alemanha, e estava doente demais para fazer mais do que consentir com tudo que ele escolhia colocar na minha boca. Meu conhecimento de italiano é muito imperfeito, e eu inferi pouco do que ele disse; mas eu estava contente em ocultar o nosso verdadeiro ponto de partida, e resolvi aceitar qualquer pista que ele escolhesse me dar.

Dessa maneira, a linha que sugeriu a si mesma foi que tinham havido outros dez ou doze no balão, que eu era um milorde inglês, e Arowhena, uma condessa russa; que todos os outros tinham se afogado, e que os despachos que nós tínhamos carregado foram perdidos. Depois eu cheguei a aprender que essa história não teria sido crível, não tivesse o capitão estado por algumas semanas no mar, pois eu descobri que quando nós fomos recolhidos, os alemães há muito tinham sido mestres de Páris. Por assim dizer, o capitão estabeleceu a história inteira para mim, e eu fiquei bem contente.

Em uns poucos dias, nós avistamos uma embarcação inglesa destinada de Melbourne para Londres com lã. Diante da minha requisição séria, a despeito do clima tempestuoso que tornava perigoso para um bote levar-nos de um barco para o outro, o capitão [235]consentiu em sinalizar para a embarcação inglesa, e nós fomos recebidos a bordo, mas nós fomos transferidos com dificuldade tão grande que nenhuma comunicação ocorreu quanto à maneira de nós sermos encontrados. De fato, eu ouvi o amigo italiano que estava encarregado do bote gritar alguma coisa em francês para o significado de que nós tínhamos sido recolhidos de uma balão, mas o barulho do vento era tão grande, e o capitão entendia tão pouco de francês, que ele não compreendeu nada da verdade, e assumiu-se que nós eramos duas pessoas que tinham sido salvas de um naufrágio. Quando o capitão perguntou-me em qual navio eu tinha naufragado, eu disso que uma parte de nós tinha sido levada pelo mar em um bote recreacional por uma corrente forte, e que apenas Arowhena (a quem eu descrevi como uma dama peruana) e eu fomos salvos.

Havia vários passageiros, cuja bondade para conosco nós nunca poderemos retribuir. Eu lamento pensar que eles não podem falhar em descobrir que nós não confiamos completamente neles; mas, tivéssemos nós contado tudo a eles, eles não acreditariam em nós, e foi determinado que ninguém deveria ouvir sobre Erewhon, ou ter a chance de chegar lá antes de mim, enquanto eu pudesse evitar isso. De fato, a memória das muitas falsidades que então eu fui obrigado a contar, tornaria minha vida miserável, não fosse eu sustentado pelas consolações da minha religião. Entre os passageiros havia um clérigo muito estimado, por quem Arowhena e eu fomos casados dentro de uns poucos dias de nós chegarmos a bordo.

Após uma viagem próspera de aproximadamente dois meses, nós avistamos ao Land’s End, e, em outra semana, nós desembarcamos em Londres. Uma contribuição monetária liberal foi feita para nós a bordo da embarcação, para que nós não nos encontrássemos em nenhuma dificuldade imediata sobre dinheiro. Por conseguinte, eu levei Arowhena para Somersetshire, onde minha mãe e irmãs tinham residido quando eu ouvi sobre elas pela última vez. Para meu grande sofrimento, eu descobri que minha mãe estava morta, e que a morte dela tinha sido acelerada pelo relato de eu ter [236]sido morto, o qual tinha sido trazido até a fazenda do meu empregador por Chowbok. Parecia que ele deve ter esperado uns poucos dias para ver se eu retornava, para que então ele considerasse seguro assumir que eu nunca o deveria fazer, e, portanto, inventou uma história sobre eu ter caído dentro de um redemoinho de águas ferventes enquanto descendo o vale na direção de casa. Busca foi realizada pelo meu corpo, mas o patife tinha escolhido atrair-me para um lugar onde não havia nenhuma chance dele alguma vez ser recuperado.

Minhas irmãs estavam ambas casadas, mas nenhum dos seus esposos era rico. Ninguém parecia muito alegre com o meu retorno; e eu logo descobri que, quando os parentes de um homem prantearam-no como morto, eles raramente gostam da perspectiva de terem de o prantear uma segunda vez.

Portanto, eu retornei a Londres com minha esposa e, através da assistência de um antigo amigo, eu sustentei-me escrevendo boas histórias curtas para revistas, e para uma sociedade de panfletos. Eu era bem pago; e confio que eu não posso ser considerado presunçoso ao dizer que algumas das brochuras mais populares que eram distribuídas nas ruas, e que devem ser encontradas em salas de espera de estações ferroviárias, tinham prosseguido da minha caneta. Durante o tempo que eu pude poupar, eu organizei minhas notas e diário até que eles assumiram a sua forma presente. Ali não resta nada a acrescentar, exceto revelar o esquema que eu proponho para conversão de Erewhon.

Esse esquema apenas bastante recentemente foi decidido, em consequência de ser um que parece mais provável de ser exitoso.

Será visto de uma vez que seria loucura para eu ir com dez ou doze missionários subordinados pelo mesmo caminho que aquele que me levou a descobrir Erewhon. Eu deveria ser aprisionado por tifo, além de ser entregue aos endireitadores por ter fugido com Arowhena: um destino ainda mais sombrio, ao qual eu dificilmente [237]me atrevo a aludir novamente, seria reservado para os meus devotos trabalhadores companheiros. Portanto, é evidente que alguma outra forma tem de ser descoberta para chegar aos erewhonianos, e eu fico grato de dizer que uma outra maneira não está em falta. Um dos rios que descia a partir das Montanhas Nevadas, e passava através de Erewhon, é conhecido ser navegável por várias milhas a partir da sua boca. Suas águas superiores ainda nunca foram exploradas, mas eu tenho pouca dúvida de que será considerado possível levar uma leve canhoneira (pois nós temos de proteger a nós mesmos) aos arredores do país erewhoniano.

Portanto, eu proponho que uma dessas associações deveria ser formada na qual o risco de cada um dos membros esteja confinado ao montante da sua aposta no interesse. O primeiro passo seria desenhar um prospecto. Nesse, eu aconselharia que nenhuma menção devesse ser feita ao fato de que os erewhonianos são as últimas tribos. A descoberta é uma de interesse absorvente para mim mesmo, mas ela é de valor sentimental em vez de comercial para mim, e negócio é negócio. O capital a ser levantado não deveria ser de menos do que cinquenta mil libras esterlinas, e poderia ser em quotas de libras esterlinas de cinco ou em dez como subsequentemente determinado. Isso deveria ser amplamente suficiente para as despesas de uma viagem experimental.

Quando o dinheiro tiver sido contribuído, seria o nosso dever contratar um navio a vapor de aproximadamente doze ou quatorze mil toneladas de carga, e com acomodações para um carregamento de passageiros de terceira classe. Ele deveria carregar dois ou três armas, no caso dele ser atacado por selvagens na boca do rio. Botes de tamanho considerável também deveriam ser providenciados, e eu penso que seria desejável que também esses deveriam carregar dois ou três canhões de seis libras. O navio deveria ser levado rio acima até onde fosse considerado seguro, e um grupo deveria ser escolhido para subir nos botes. A presença tanto de Arowhena quanto de mim mesmo seria necessária nesse estágio, na medida que o nosso conhecimento da linguagem desarmaria suspeitas e facilitaria negociações.

[238]Nós deveríamos começar representando as vantagens proporcionados ao labor na colônia de Queensland, e apontar para os erewhonianos que, ao emigrarem para lá, eles seriam capazes de acumular, cada um e todos eles, fortunas enormes – um fato que seria facilmente provável através de uma referência às estatísticas. Eu não tenho dúvida de que, dessa forma, um número muito grande poderia ser induzido a retornar conosco em grandes botes, e que nós poderíamos encher nossas embarcações com emigrantes em duas ou três jornadas.

Devêssemos nós sermos atacados, o nosso curso de ação seria ainda mais simples, pois os erewhonianos não têm pólvora, e ficariam tão surpresos com os seus efeitos que nós deveríamos ser capazes de capturar tantos quantos nós escolhêssemos; nesse caso, nós deveríamos ser capazes de nos engajar com eles em termos mais aventurosos, pois eles seriam prisioneiros de guerra. Mas mesmo se nós não devêssemos encontrar violência, eu não duvido de que um carregamento de sete ou oito centenas de erewhonianos poderiam ser induzidos, uma vez que eles estivessem a bordo, a assinarem um acordo, o qual deveria ser mutuamente vantajoso para nós e eles.

Então nós deveríamos prosseguir para Queensland, e dispor do nosso engajamento com os erewhonianos para os cultivadores de açúcar daquele assentamento, quem estão em grande carência labor; acredita-se que o dinheiro realizado dessa maneira possibilitaria que nós declarássemos um belo dividendo, e deixaria uma balança considerável, o qual poderia ser gasto repetindo nossas operações para trazer mais outros carregamentos de erewhonianos, com consequentes lucros frescos. De fato, nós poderíamos ir e voltar enquanto houvesse uma demanda por labor em Queensland, ou, de fato, em qualquer outra colônia cristã, pois o suprimento de erewhonianos seria ilimitado, e eles poderiam ser amontoados e alimentados a um custo muito razoável.

Seria o meu dever e o de Arowhena cuidar para que os nossos emigrantes devessem ser embarcados e alojados nos lares de produtores de açúcar religiosos; essas pessoas conceder-lhes-iam [239]o benefício de instrução da qual eles estão tão intensamente em necessidade. A cada dia, tão logo eles pudessem ser dispensados do seu trabalho nas plantações, eles seriam reunidos para prece, e estariam completamente fundamentados no catecismo da igreja, enquanto cada sábado inteiro deveria ser devotado ao cântico de salmos e à ida à igreja.

Deve-se insistir sobre isso, tanto para colocar um fim em qualquer sentimento de desconforto que poderia se mostrar ou em Queensland ou na pátria quanto aos meios através dos quais os erewhonianos foram obtidos, quanto também porque isso daria aos nossos próprios acionistas o conforto de refletirem que eles estavam salvando almas e enchendo os seus próprios bolsos em um e mesmo momento. Pela época que os imigrantes tivessem se tornado velhos demais para trabalhar, eles estariam completamente instruídos em religião; então eles poderiam ser embarcados de volta para Erewhon e levar a boa semente com eles.

Eu não posso ver nenhum impedimento nem dificuldade sobre o assunto, e confio que este livro anunciará suficientemente o esquema para assegurar a subscrição do capital necessário; tão logo isso esteja prestes a ser publicado, eu garantirei que eu converto os erewhonianos não apenas em bons cristãos, mas também em uma fonte de lucro considerável para os acionistas.

Eu deveria acrescentar que não posso reivindicar o crédito por ter originado o esquema acima. Por meses eu tinha estado no limite de minha inteligência, formando plano depois de plano para a evangelização de Erewhon, quando, através de uma daquelas interposições especiais que deveriam ser uma resposta suficiente para o cético, e tornar até o mais confirmado racionalista irracional, meu olhar foi dirigido para o seguinte parágrafo no jornal Times, de um dos primeiros dias de janeiro de 1872:

POLINÉSIOS EM QUEENSLAND. - O marquês de Normanby, o novo governador de Queensland, completou sua inspeção dos distritos norte da colônia. É afirmado que em Mackay, um dos melhores distritos cultivadores de açúcar, [240]sua excelência viu uma grande quantidade de polinésios. No curso de um discurso para aqueles que lá o entreteram, o marquês disse: ‘Disseram-me que os meios através dos quais os polinésios foram obtidos não foram legítimos, mas eu tenho falhado em perceber isso, na medida que, pelo menos, até onde se diz respeito à Queensland; e se alguém pode julgar pelos semblantes e maneiras dos polinésios, eles não experienciam nenhum arrependimento diante de sua posição.’ Mas sua excelência apontava a vantagem de lhes conceder instrução religiosa. Tenderia a colocar em repouso um sentimento desconfortável que no presente existia no país saber que eles eram inclinados a reter os polinésios e ensinar-lhe religião.”

Eu sinto que o comentário é desnecessário e, portanto, eu concluirei com uma palavra de agradecimento ao leitor, quem teve a paciência de me seguir através das minhas aventuras sem perder a sua calma; mas com dois, para qualquer um quem possa escrever de uma vez para o Secretário da Companhia de Evangelização de Erewhon, Limitada (no endereço que depois deverá ser anunciado), e requisitar ter seu nome colocado como um acionista.


P.S. - Eu acabei de receber e corrigir a última prova do volume anterior, e estava caminhando o Strand abaixo do Temple Bar para a Charing Cross, quando, ao passando pelo Exeter Hall, eu vi um número de pessoas de aparência devota aglomerando-se com rostos cheios de interesse e antecipação complacente. Eu parei, e vi uma anúncio de que um encontro de missionários devia ser realizado imediatamente, e que o missionário nativo, o rev. William Habakkuk, de ----- (a colônia a partir da qual eu tinha partido em minhas aventuras), seria apresentado, e fazer um breve discurso. Após alguma dificuldade, eu obtive admissão, e ouvi dois ou três discursos, os quais foram prefácios à introdução do sr. Habakkuk. Um desses me impressionou como talvez o mais pretensioso [241]que eu alguma vez tinha ouvido. O orador disse que as raças de quem o sr. Habakkuk era um exemplo, eram, com toda probabilidade, as dez tribos perdidas de Israel. Eu não me atrevi a contradizê-lo então, mas eu senti-me irado e injuriado ouvir que orador pulou para uma conclusão tão irracional em consequência de fundamentos tão insuficientes. A descoberta das dez tribos era minha, e minha apenas. Eu ainda estava no auge mesmo de indignação quanto houve um murmúrio de expectativa no salão, e o sr. Habakkuk foi trazido à frente. O leitor pode julgar sobre minha surpresa ao descobrir que ele não era outro senão meu velho amigo Chowbok!

Meu queixo caiu, e meus olhos quase saltaram da minha cabeça com espanto. O pobre camarada estava terrivelmente assustado, e a tempestade de aplauso que saudou sua introdução parecia apenas adicionar à sua confusão. Eu não me atrevo a confiar em mim mesmo para relatar o seu discurso – de fato, eu dificilmente consegui ouvi-lo, pois eu estava quase chocado tentando suprimir meus sentimentos. Eu estou certo de que eu entendi as palavras “Adelaide, a Rainha Viúva,” e eu acho que logo depois eu ouvi “Maria Madalena,” mas então eu tive de deixar o salão, por medo de ser revelado. Enquanto na escadaria, eu ouvi outra irrupção de aplausos prolongados e entusiasmados, assim, eu suponho que a audiência ficou satisfeita.

Os sentimentos que surgiram em primeiro lugar em minha mente dificilmente foram de uma caráter muito solene, mas eu pensei na minha experiência com Chowbok, na cena no galpão de lã, nas inumeráveis mentiras que ele me contou, nas suas investidas repetidas sobre o conhaque, e nas muitos incidentes nos quais eu não considerava que vale a pena demorar-me; e eu não pude senão derivar alguma satisfação a partir da esperança de que meus próprios esforços poderiam ter contribuído para a mudança que sem dúvida tinha sido operada sobre ele, e que o rito que eu tinha realizado, por mais que amadoramente, sobre aquele selvagem leito de rio em terras altas, não foi inteiramente sem efeito. Eu confio que o que escrevi [242]sobre ele na parte inicial do meu livro pode não ser difamatório, e que isso não pode causar nenhum prejuízo com seus empregadores. Ele era então não regenerado. Certamente eu tenho de o encontrar e ter uma conversa com ele; mas, antes que eu deva ter tempo para o fazer, estas páginas estarão nas mãos do público.


Finalmente, eu vejo a probabilidade de uma complicação que me causa muita inquietação. Por favor, contribua rapidamente. Dirija-se a Mansion House, aos cuidados do lorde prefeito, a quem eu instruirei para receber nomes e contribuições para mim até que eu possa organizar um comitê.


FIM


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 234-242. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/234/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXVIII Fuga

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[223]XXVIII Fuga


Embora ativamente ocupado com a tradução dos extratos fornecidos nos cinco últimos, eu também estava colocando as coisas nos trilhos para minha fuga com Arowhena. E de fato já era hora, pois eu recebi uma intimação de um dos caixas os Bancos Musicais, que eu devia ser processado em uma corte criminal, aparentemente por sarampo, mas realmente por ter possuído um relógio, e tentado a reintrodução do maquinário.

Eu perguntei, por que sarampo? E disseram que havia um temor de que circunstâncias atenuantes devessem impedir um júri de me condenar, se eu fosse indiciado por tifo ou varíola, mas que um veredito provavelmente seria obtido por sarampo, uma doença que poderia ser suficientemente punida em uma pessoa de minha idade. Fizeram-me entender que, a menos que alguma mudança inesperada devesse ocorrer a sua Majestade, eu poderia esperar o golpe ser desferido dentre de uns poucos dias.

Meu plano era este – que Arowhena e eu deveríamos escapar juntos em um balão. Eu temo que o leitor desacreditará desta parte da minha história, contudo, em nenhuma outra eu tenho tentado aderir mais conscientemente aos fatos, e posso apenas me abandonar à caridade dele.

Eu já tinha ganho o ouvido da Rainha, e tinha trabalhado tanto sobre a sua curiosidade que ela prometeu conseguir licença para eu ter um balão construído e inflado; eu indiquei a ela que nenhum maquinário complicado seria necessário – nada, de fato, exceto uma grande quantidade de seda oleada, um cesto, umas poucas cordas, etc, etc, e algum tipo de gás leve, tal como os antiquários, quem eram familiarizados com os meios empregados pelos antigos para a produção de gases mais leves facilmente poderiam instruir os seus artífices como fornecer. A avidez dela por ver uma vista tão estranha quanto a ascensão de um ser humano ao céu superou qualquer escrúpulo de consciência que, de outra maneira, ela poderia ter sentido, e ela incumbiu os antiquários de mostrarem aos artífices deles como produzir o gás, e enviou suas criadas para comprar óleo, uma grande [224]quantidade de seda (pois eu estava determinado de que o balão deveria ser grande) antes mesmo que ela começasse a tentar obter e obter a permissão do rei; contudo, isso ela se colocou a fazer, pois eu tinha enviado a ela notícia de que o meu processo era iminente.

Quanto a mim mesmo, dificilmente preciso dizer que eu nada conhecia sobre balões; nem eu via meu caminho para colocar Arowhena sorrateiramente dentro do cesto; mesmo assim, sabendo que nós não tínhamos outra chance de escapar de Erewhon, eu extrai inspiração da dificuldade na qual nós estávamos colocados, e criei um modelo a partir do qual os trabalhadores da Rainha foram capazes de trabalhar exitosamente. Entrementes, os construtores de carruagens da Rainha ocuparam-se com a construção do cesto, e foi com as ligações desse com o balão que eu tive a maior dificuldade; de fato, eu duvido de se eu deveria ter sucedido aqui, exceto pela grande inteligência de um capataz, quem se jogou de coração e alma no problema, e frequentemente tanto previu requerimentos, a necessidade dos quais me escapou, quanto sugeriu os meios de se preparar para eles.

Aconteceu que tinha havido uma longa seca, durante a parte mais recente da qual preces tinham sido oferecidas em vão em todos os templos do deus do ar. Quando eu primeiro contei a sua Majestade que eu precisava de um balão, eu disse que a minha intenção era subir ao céu e levar a melhor sobre o deus do ar através de uma entrevista pessoal. Eu reconheço que essa proposição borda a idolatria, mas há muito eu me arrependi dela, e é pouco provável que eu alguma vez repita a ofensa. Além disso, o engano, como se fosse sério, provavelmente levará à conversão do país inteiro.

Quando a Rainha contou minha proposta a sua Majestade, ele inicialmente não apenas a ridicularizou, mas ficou inclinado a vetá-la. Contudo, sendo um esposo uxório, ele finalmente consentiu – como ele sempre eventualmente fazia com tudo no que a rainha tinha colocado o coração dela. Ele rendeu-se ainda mais prontamente agora, porque não acreditava na possibilidade [225]da minha ascensão; ele estava convencido de que, mesmo se o balão devesse subir uns poucos pés no ar, ele imediatamente colapsaria, onde eu deveria cair e quebrar meu pescoço, e ele deveria livrar-se de mim. Ele demonstrou isso para ela tão convincentemente que ela ficou alarmada, e tentou falar comigo para desistir da ideia, mas ao descobrir que eu persistia no meu desejo de ter o balão construído, ela apresentou uma ordem do Rei para o efeito de todas as instalações que eu pudesse requerer devessem ser concedidas a mim.

Ao mesmo tempo, sua Majestade contou-me que minha ascensão tentada seria tornada em um artigo de impedimento contra mim, no caso de eu não suceder em leva a melhor sobre o deus do ar para parar a seca. Nem o Rei nem a Rainha tinha nenhuma ideia de que eu pretendia sumir imediatamente se eu pudesse fazer com que o vento me levasse, nem tinham nenhuma concepção da existência de uma certa firme corrente superior de ar que estava sempre determinada em uma direção, como poderia ser visto pela forma das nuvens superiores, a qual invariavelmente apontava do sudeste para o noroeste. Há muito eu tinha notado essa peculiaridade no clima, e atribui-a, justamente, eu acredito, a um alísio que era constante alguns milhares de pés acima da terra, mas era perturbado por influências locais em elevações inferiores.

Minha próxima atividade foi revelar o plano para Arowhena, e conceber os meios de a colocar dentro do cesto. Eu tinha certeza de que ela viria comigo, mas tinha me convencido de que se a coragem dela falhasse, a coisa toda deveria resultar em nada. Arowhena e eu tínhamos estado em comunicação constante através da criada dela, mas eu tinha considerado melhor não contar a ela todos os detalhes do meu esquema até que tudo estivesse resolvido. Agora o tempo tinha chegado, e eu organizei com a criada que eu deveria ser admitido por uma porta privada no jardim do sr. Nosnibor por volta da crepúsculo da tarde seguinte.

Eu cheguei no momento marcado; a garota deixou eu entrar no jardim e ordenou que eu esperasse em um beco isolado até que [226]Arowhena devesse chegar. Agora era quase verão, e as folhas estavam tão espessas sobre as árvores, que mesmo se mais alguém tivesse entrado no jardim, eu facilmente poderia ter ocultado a mim mesmo. A noite era uma de beleza extrema; o sol há muito tinha se posto, mas ainda havia um brilho rosado no céu sobre as ruínas da estação ferroviária; abaixo de mim estava a cidade, já cintilando com luzes, enquanto que, além dela, estendiam-se as planícies por muitas léguas até que elas se misturavam com os céus. Eu apenas observei essas coisas, mas eu não pude prestar atenção a elas. Eu não pude prestar atenção a nada até que, enquanto eu espiava na escuridão do beco, eu percebi uma figura branca deslizando velozmente na minha direção. Eu saltei na direção dela e, antes que o pensamento pudesse ou impelir ou verificar, eu tinha pego Arowhena para o meu coração e cobrido sua bochecha sem resistência com beijos.

Tão cheios de alegria nós estávamos que não sabíamos como falar; de fato, eu não sei quando nós deveríamos ter encontrado palavra e retornado aos nossos sentidos, se a criada não tivesse saído em uma crise histérica e despertado-nos para a necessidade de autocontrole; eu mostrei a ela o pior lado, pois eu tinha certeza de que quanto pior a perspectiva, mais provável era que ela devesse vir. Eu contei a ela que o meu plano provavelmente terminaria em morte para nós dois, e que eu não me atrevia a pressioná-lo – que a uma palavra dela, ele deveria ser abandonado; ainda que existisse apenas uma possibilidade de nós escaparmos juntos para alguma parte do mundo onde não haveria empecilho a casarmo-nos, e que eu não conseguia ver nenhuma outra esperança.

Ela não fez resistência, nem um sinal ou pista de dúvida ou hesitação. Ela faria tudo que eu dissesse a ela, e viria para onde quer que eu estivesse pronto; assim eu mandei que ela enviasse sua criada para me encontrar à noite – disse-lhe que ela tem de parecer bem, parecer tão brilhante e feliz quanto ela poderia, de maneira a fazer o pai e a mãe dela, assim como Zulora, pensarem que ela estava esquecendo de mim – e estivesse pronta para, a um aviso súbito, vir para as oficinas [227]da Rainha e ficar escondida em meio ao lastro e sobre as mantas de viagem no carro do balão; e assim nos separamos.

Eu apressei minhas preparações, pois eu temia chuva e também que o Rei pudesse mudar de ideia; mas o clima continuava seco, e em outra semana, os artífices da Rainha tinham terminado o balão e cesto, enquanto o gás estava pronto para ser colocado no balão em qualquer momento. Tudo estando preparado, eu agora estava preparado para ascender na manhã seguinte. Tinham estipulado que eu seria permitido a levar abundância de mantas de viagem e agasalhos como proteção contra o frio da alta atmosfera, e também dez ou doze sacolas de bom tamanho com lastro.

Eu tinha quase um quarto de pensão em mãos, e com isso recompensei a criada de Arowhena e subornei o capaz da Rainha – quem, eu acredito, teriam me concedido assistência mesmo sem um suborno. Ele ajudou-me a esconder comida e vinho nas sacolas do lastro e, na manhã da minha ascensão, ele manteve os outros trabalhadores fora do caminho, enquanto eu colocava Arowhena dentro do carro. Ela chegou cedo, coberta, e nas vestes da sua criada. Supunha-se que ela tinha ido para uma performance cedo nos Bancos Musicais, e disse-me que não se deveria sentir falta dela até o café da manhã, mas nesse momento a ausência dela deveria ser descoberta. Eu arrumei o lastro ao redor dela, de maneira que ele deveria ocultá-la enquanto ela ficasse na base do carro, e cobriu-a com envoltórios. Embora ainda faltassem algumas horas para a hora fixada para minha ascensão, eu não poderia confiar em mim mesmo um momento longe do cesto, assim eu entrei nele de uma vez, e assisti à inflação do balão. Bagagem eu não tinha nenhuma, exceto as provisões nas sacolas de lastro, o livro de mitologias e os tratados sobre máquinas, com meus próprios diários e traduções manuscritas.

Eu sentei-me quietamente, e esperei a hora marcada para minha partida – quieto externamente, mas internamente eu estava em uma agonia de suspense com medo que a ausência de Arowhena deveria ser descoberta antes da chegada do Rei e da Rainha, quem deviam [228]testemunhar a minha ascensão. Eles não eram esperados por outras duas horas, e durante esse tempo uma centena de coisas poderiam ocorrer, qualquer uma das quais me arruinaria.

Finalmente, o balão estava cheio; o cano que o tinha enchido foi removido, o escapamento do gás tendo sido primeiramente cuidadosamente bloqueado. Nada restava para impedir o balão de ascender, exceto as mãos e o peso daqueles que estavam o segurando com cordas. Eu esforcei meus olhos para ver a chegada do Rei e da Rainha, mas não pude ver sinal da aproximação deles. Eu olhei na direção da casa do sr. Nosnibor – não havia nada para indicar distúrbio, mas ainda não era hora do café da manhã. A multidão começou a reunir-se; eles estavam cientes de que eu estava sob a desaprovação da corte, mas eu não pude detectar sinais de eu ser impopular. Pelo contrário, eu recebi muitas expressões amáveis de consideração e encorajamento, com bons desejos quanto ao resultado da minha jornada.

Eu estava falando com um cavalheiro da minha familiaridade, e contando-lhe a substância do que pretendia fazer quando eu chegasse na presença do deus do ar (o que ele pensava de mim, eu não posso acreditar, pois estou certo de que ele não acreditava na existência objetiva do deus do ar, nem que eu mesmo acreditava nela), quando eu me tornei ciente de uma pequena multidão correndo tão rapidamente quanto eles podiam a partir da casa do sr. Nosnibor para as oficinas da Rainha. No momento, meu pulso deixou de bater, e então, sabendo que a hora tinha chegado quando eu tinha ou de agir ou de morrer, eu chamei veementemente aqueles que estavam segurando as cordas (aproximadamente trinta dele) para me deixarem ir de uma vez, e fiz gestos significando perigo, e que haveria prejuízo se eu fosse segurado por mais tempo. Muitos obedeceram; o resto era fraco demais para segurar as cordas, e foram forçados a soltá-las. Nisso, o balão subitamente saltou para cima, mas o meu próprio sentimento era que a terra tinha caído de mim, e estava afundando-se rapidamente no espaço aberto debaixo.

[229]Isso aconteceu no exato momento em que a atenção da multidão estava dividida, uma metade prestando atenção aos gestos ansiosos daqueles vindo da casa do sr. Nosnibor, e a outra às minhas exclamações. Mais um minuto e, sem dúvida, Arowhena teria sido descoberta, mas antes que o minuto passasse, eu estava em uma altura tão grande sobre a cidade que nada poderia me machucar, e a cada segundo tanto a cidade quanto a multidão se tornavam menores e mais confusas. Em um tempo incrivelmente curto, eu podia ver pouco exceto uma vasta parede de planícies azuis subindo contra mim, na direção de qualquer que seja o lado para o qual eu olhasse.

Inicialmente, o balão subiu verticalmente para cima, mas após aproximadamente cinco minutos, quando nós já tínhamos chegado a uma grande elevação, eu fantasiei que os objetos sobre a planície abaixo começaram a mover-se para longe de mim. Eu não senti nem mesmo um sopro de vento, e não pude supor que o balão mesmo estava viajando. Portanto, eu estava ponderando sobre o que esse movimento estranho de objetos fixos poderia significar, quando me ocorreu que as pessoas em um balão não sentem o vento, na medida que elas viajam com ele e não oferecem nenhuma resistência. Então fiquei feliz ao pensar que eu agora tenho de ter alcançado o aliseu da atmosfera superior, e que muito possivelmente eu deveria ser flutuado para centenas ou até milhares de milhas, muito longe de Erewhon e dos erewhonianos.

Eu já tinha removido os envoltórios e libertado Arowhena; mas logo eu a cobri com eles novamente, pois já estava muito frio, e ela estava meio estupefata com a estranheza da situação dela.

E agora começou um momento, como um sonho e delirante, do qual não suponho que eu alguma vez deverei recuperar uma memória distinta. De algumas coisas eu posso lembrar-me – como que logo nós estávamos envelopados em vapor, o qual congelava sobre o meu bigode e suíças; então vem a memória de sentar por horas e horas dentro uma neblina espessa, não ouvindo nenhum som exceto a minha própria respiração e a de Arowhena (pois ela dificilmente falava) [230]e não vendo nenhuma vista exceto o carro debaixo de nós e ao nosso redor e o balão escuro acima.

Talvez o sentimento mais doloroso quando a terra ficou oculta foi que o balão ficou imóvel, ainda que a nossa única esperança estivesse em ir adiante com uma velocidade extrema. De tempos em tempos, através de uma brecha nas nuvens, eu podia capturar um vislumbre de terra, e ficava grato de perceber que nós estávamos voando adiante mais rapidamente do que um trem expresso; mas, logo que a brecha se fechava, a antiga convicção de nós estarmos estacionários retornava com força total, e não se conseguia raciocinar com ela: havia outro sentimento que era quase tão ruim; pois, como uma criança que teme que tenha se tornada cega em longo túnel se não houver luz, assim, antes que a estivesse oculta por muitos minutos, eu tornei-me quase aterrorizado que nós pudéssemos não ter fugido dele limpos e para sempre. Agora e novamente, eu comia e dava comida a Arowhena, mas por conjectura com respeito ao tempo. Então chegou a escuridão, uma hora terrivelmente seca, sem nem mesmo a lua para nos alegrar.

Com a aurora, a cena foi mudada; as nuvens tinham desaparecido e as estrelas da manhã estavam brilhando; a ascensão do esplêndido sol ainda me impressionava como a mais gloriosa que eu alguma vez vi; debaixo de nós havia uma cadeia de montanhas marcadas com neve fresca caída sobre elas; mas nós estávamos muito acima delas; nós dois sentimos a nossa respiração seriamente afetada, mas eu não permitiria o balão descer uma única polegada, não sabendo por quanto tempo nós não necessitaríamos de toda flutuabilidade que nós pudéssemos comandar; de fato, eu fiquei grato em descobrir que, após quase vinte e quatro horas, nós ainda estávamos a uma distância tão grande acima da terra.

Em algumas horas, nós tínhamos passado das cordilheiras, as quais devem ter sido de aproximadamente cento e cinquenta milhas de lado a lado, e novamente eu vi uma extensão de terra plana estendendo-se muito distante para o horizonte. Eu não sabia onde nós estávamos, e não me atrevia a descer com medo de que eu devesse desperdiçar o poder do balão, mas [231]eu estava meio esperançoso de que nós poderíamos estar acima do país a partir do qual eu tinha originalmente partido. Eu procurei ansiosamente por qualquer sinal pelo qual eu poderia reconhecê-lo, mas não pude ver nada, e temi que nós poderíamos estar acima de alguma parte distante de Erewhon, ou de um país habitado por selvagens. Enquanto eu ainda estava em dúvida, o balão foi novamente envolto por nuvens, e nós fomos deixados para espaço vazio e conjecturas.

O tempo cansativo arrastou-se. Como eu ansiei pelo meu relógio infeliz! Eu senti como se nem mesmo o tempo estivesse se movendo, tão monótonos e confundidos estavam os nossos arredores. Algumas vezes, eu sentiria meu pulso, e contava os seus batimentos por meia-hora um com o outro; qualquer coisa para marcar o tempo – para provar que ele estava lá, e para me assegurar que nós estávamos dentro do alcance abençoado da sua influência, e não ficado à deriva na atemporalidade da eternidade.

Eu estive fazendo isso pela vigésima ou trigésima vez, e tinha caído em um sono leve; eu sonhei descontroladamente com uma viagem em um trem expresso, e com a chegada em uma estação ferroviária onde o ar estava cheio do som de motores de locomotiva soprando vapor com um assobio horrível e tremendo; eu despertei assustado e inquieto, mas os barulhos de assobio e batida perseguiam agora que eu estava desperto, e forçaram-me a admitir que eles eram reais. O que eram eles, eu não sei, mas eles tornaram-se cada vez mais fracos e, após um tempo, foram perdidos. Em umas poucas horas as nuvens desapareceram, e eu vi debaixo de mim aquilo que fez o sangue frio correr mais frios em minhas veias. Eu vi o mar, e nada exceto o mar; no principal, escuro, mas salpicado com as cabeças brancas de ondas raivosas, jogadas por tempestade.

Arowhena estava dormindo quietamente no fundo do cesto, e enquanto eu olhava para a doce e santificada beleza dela, eu gemi e amaldiçoei a mim mesmo pela miséria para a qual eu a tinha trazido; mas não havia alternativa agora.

Eu sentei-me e esperei pelo pior, e logo eu vi sinais de como se logo aquele pior estaria à mão, pois o [232]balão tinha começado a afundar. À vista do mar, eu tinha ficado impressionado com a ideia de que nós devemos ter estado caindo, mas agora não poderia haver erro, nós estávamos afundando, e rapidamente. Eu joguei fora uma sacola de lastro, e, por um momento, nós subimos novamente, mas, no curso de umas poucas horas, o afundamento recomeçou, e eu joguei fora outra sacola de lastro.

Então a batalha começou a sério. Ela durou por toda a tarde e através da noite até a tarde seguinte. Eu nunca tinha visto uma vela nem um sinal de uma vela, embora eu tivesse quase cegado a mim mesmo tensionando meus olhos incessantemente em cada direção; nós tínhamos partido com tudo, exceto as roupas que nós tínhamos sobre nossas costas; comida e água tinham acabado, tudo jogado para os albatrozes rondando, para nos salvar por umas poucas horas ou mesmo minutos do mar. Eu não joguei fora os livros até que nós estávamos a uns poucos pés da água, e agarrei-me aos meus manuscritos até o último momento. Não parecia haver qualquer esperança que fosse ali – contudo, de maneira suficientemente estranha, nenhum de nós estava completamente sem esperança, e mesmo com o mal que nós temíamos que estivesse sobre nós, e aquele que nós muito temíamos que tivesse chegado, nós sentamos no cesto do balão com as águas até o meio dos nossos corpos, e ainda sorríamos, com esperança livida, um para o outro.


*


Aquele que cruzou o São Gothard lembrar-se-á de que debaixo do Andermatt há um daqueles vales alpinos que se estendem até os limites máximos mesmos do sublime e terrível. Os sentimentos do viajante tornavam-se mais e mais altamente esgotados a cada passo, até que, finalmente, os precipícios nus e salientes pareciam fechar-se acima da cabeça, enquanto ele cruzava uma ponte suspensa em pleno ar sobre uma queda d’água rugindo, e entra na escuridão de um túnel, escavado na rocha.

O que pode estar guardado para ele ao emergir? Certamente alguma coisa ainda mais selvagem e desolada do que aquela que ele já tinha visto; mesmo que a imaginação dele esteja paralisada, e [233]não possa sugerir nenhuma fantasia ou visão de nada para superar a realidade que ele há pouco testemunhou. Intimidado e sem fôlego, ele avança; quando, ai de mim!, a luz do sol da tarde dá boas vindas a ele enquanto ele deixa o túnel, e contempla um vale sorrindo – um riacho borbulhante, uma vila com altos campanários, e campinas de verde brilhante – essas são as coisas que o cumprimentam, e ele sorri para si mesmo enquanto o terror passa e, em outro momento, é esquecido.

Assim aconteceu agora conosco. Nós tínhamos estado na água por aproximadamente duas ou três horas, e a noite tinha chegado sobre nós. Nós tínhamos dito adeus pela centésima vez, e tínhamos nos resignado a encontrar o nosso fim; de fato, eu mesmo estava lutando contra a sonolência, a partir da qual era apenas muito provável que eu alguma vez deveria despertar; quando subitamente, Arowhena tocou-me o ombro, e apontou para uma luz e para uma massa escura que a estava suportando exatamente sobre nós. Um grito por ajuda – alto e claro e estridente – irrompeu de nós dois de uma vez; e, em outros cinco minutos, nós levados por mãos gentis e tenras para o convés de uma embarcação italiana.


Próxima capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 223-233. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/223/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXVII As Visões de um Filósofo Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Vegetais

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[214]XXVII As Visões de um Filósofo Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Vegetais


Permita-me abandonar essa história infeliz e retornar ao curso de eventos entre os erewhonianos de maneira geral. Não importa quantas leis eles aprovassem aumentando a severidade das punições infligidas sobre aqueles que comiam carne em segredo, as pessoas encontravam maneiras de as colocar de lado tão rapidamente quanto elas eram criadas. De fato, às vezes, elas tornavam-se quase obsoletas, mas, quando elas estavam a ponto de serem repelidas, algum desastre nacional ou pregação de algum fanático redespertavam a consciência da nação, e as pessoas eram aprisionadas às milhares por venda e compra ilícita de comida animal.

Contudo, aproximadamente após seiscentos ou setecentos anos depois da morte do antigo profeta, um filósofo apareceu, quem, embora ele não reivindicasse ter nenhuma comunicação com um poder invisível, estabeleceu a lei com tanta confiança como se um semelhante poder o tivesse inspirado. Muitos pensam que esse filósofo não acreditava em seu próprio ensinamento, e, sendo em segredo um grande comedor de carne, não teve outro fim em vista senão a redução da proibição contra comer comida animal a uma absurdidade, maior até do que um puritano erewhoniano seria capaz de suportar.

Aqueles que aceitam essa visão sustentam que ele sabia quão impossível seria conseguir com que a nação aceitasse legislação que era considerada ser pecaminosa; ele também sabia quão sem esperança seria convencer o povo de que não era perverso matar uma ovelha e comê-la, a menos que ele pudesse mostrar-lhes que ou eles tem de percar a uma certa extensão ou morrer. Portanto, acredita-se que ele fez as propostas monstruosas das quais eu agora falarei.

Ele começou pagando um tributo de profundo respeito para o antigo profeta, cuja defesa dos direitos dos animais, ele admitia, tinha feito muito para suavizar o caráter nacional e alargar suas visões sobre a santidade da vida no geral. Mas ele urgiu que os tempos agora tinham mudado; a lição da [215]qual o país tinha estado em necessidade tinha sido suficientemente aprendida, enquanto que, com respeito aos vegetais, muito do que nem mesmo era anteriormente suspeitado tinha se tornado conhecido, o qual, se a nação devia perseverar naquela aderência estrita aos princípios morais mais elevados que até então tinham sido o segredo da sua prosperidade, tem de necessitar de uma mudança radical em sua atitude com respeito a eles.

De fato, era verdadeiro que muito que agora era conhecido não tinha sido suspeitado antigamente, pois o povo não tinha tido nenhum inimigo estrangeiro, e, sendo tanto perspicaz e inquisitivo dos mistérios da natureza, tinha realizado progresso extraordinário em todos os muitos ramos da arte e ciência. No principal museu erewhoniano, mostraram-me um microscópio de poder considerável que era atribuído pelas autoridades a uma data muito perto daquela do filósofo de quem eu estou falando agora, e alguns até supunham ter sido o instrumento com o qual ele efetivamente tinha trabalhado.

Esse filósofo era professor de botânica na então principal instituição educacional em Erewhon e, se com a ajuda do microscópio ainda preservado, ou com outro, tinha chegado a uma conclusão agora universalmente aceita entre nós mesmos – eu quero dizer, que tudo, tanto animais quanto plantas, tinham tido um ancestral comum, e que, consequentemente, as segundas deveriam ser consideradas tão vivas quanto os primeiros. Portanto, ele argumentava que animais e plantas eram primos, e deveriam ser vistos assim, durante todo o tempo, se as pessoas não estabelecessem uma divisão arbitrária e irracional entre o que elas escolheram chamar de os reinos animal e vegetal.

Ele declarou, e demonstrou para a satisfação de todos aqueles que eram capazes de formar uma opinião sobre o assunto, que não há diferença apreciável, quer por olho quer por qualquer outro teste, entre um germe que se desenvolverá em um carvalho, uma vinha, uma roseira e um que (dadas as suas redondezas acostumadas) tonar-se-á um rato, um elefante ou um homem.

Ele argumentava que o curso de desenvolvimento de qualquer germe [216]era ditado pelos hábitos dos germes a partir dos quais ele descendia, e da identidade daqueles dos quais ele uma vez formou parte. Se um germe se encontrasse posicionado como os germes na linhagem da sua ancestralidade estiveram posicionados, ele agiria como os seus ancestrais tinham agido, e cresceria para o mesmo tipo de organismo que os deles. Se ele encontrasse as circunstâncias apenas um pouco diferentes, ele faria um desvio (com ou sem sucesso) para modificar o seu desenvolvimento de acordo; se as circunstâncias fossem amplamente diferentes, ele morreria, provavelmente sem um esforço de autoadaptação. Ele argumentava que isso se aplicava igualmente aos germes de plantas e animais.

Portanto, ele conectava tudo, tanto desenvolvimento animal quanto vegetal, com a inteligência, quer esgotada e agora inconsciente, quer ainda não esgotada e consciente; e, em suporte da sua visão com respeito à vida vegetal, ele apontava para o caminho através do qual todas as plantas tinham adaptado a si mesmas ao seu meio ambiente habitual. Concedendo que a inteligência vegetal, à primeira vista, parecia diferir materialmente da animal, contudo, ele insistia, ela é como a outra no fato essencial de que ela evidentemente tem se ocupado com questões que são vitais para o bem-estar do organismo que a possui, ela nunca mostrou a mais leve tendência para se ocupar com qualquer outra coisa. Ele insistia nisso como uma prova tão grande de inteligência quanto qualquer ser vivo pode dar.

As plantas,” dizia ele, “não mostram nenhum sinal de se interessarem em assuntos humanos. Nós nunca deveremos conseguir que uma rosa entenda que cinco vezes sete são trinta e cinco, e não há utilidade em conversar com um carvalho sobre flutuações no preço das ações. Consequentemente, nós dizemos que o carvalho e a rosa são não inteligentes, e, descobrindo que eles não entendem os nosso afazeres, concluímos que eles não entendem os deles próprios. Mas o que pode uma criatura que fala dessa maneira conhecer sobre inteligência? O que mostra sinais maiores de inteligência? Ele, ou a rosa e o carvalho?”

E quando nós chamamos as plantas de estúpidas por não entenderem os nossa afazeres, quão capazes nos mostramos de entendermos [217]os delas? Nós podemos formar mesmo a mais fraca concepção da maneira pela qual uma semente de uma roseira torna terra, ar, calor e água em uma roseira desenvolvida? De onde ela obtém sua cor? Da terra, do ar, etc? Sim – mas como? Aquelas pétalas de textura tão inefável – aquela tonalidade que rivaliza com a bochecha de uma criança – aquele perfume novamente? Examine a terra, o ar e água – esses são todos os materiais brutos com os quais a rosa teve de trabalhar; isso revela alguma ausência de inteligência na alquimia com a qual ela transforma lama em pétalas de rosa? Que químico pode fazer alguma coisa comparável? Por que qualquer um não tenta? Simplesmente porque todos sabemos que nenhuma inteligência humana é adequada para a tarefa. Nós desistimos. É o departamento da roseira; deixe-se a roseira cuidar dele – e seja apelidada de não inteligente porque ela nos desconcerta através dos milagres que ela opera, e pela maneira despreocupadamente metódica através da qual ela os opera.”

Novamente, veja que dificuldades as plantas enfrentam para se protegem dos seus inimigos. Elas arranham, cortam, ferroam, produzem cheiros ruins, secretam os venenos mais terríveis (os quais apenas os céus sabem como como eles inventam produzir), cobrem suas preciosas sementes com espinhos como aqueles de um ouriço, intimidam insetos com sistemas nervosos delicados ao assumirem formas portentosas, ocultam a si mesmas, crescem em lugares inaccessíveis, e contam mentiras tão plausivelmente quanto a enganarem os seus inimigos mais sutis.”

Elas colocam armadilhas besuntadas com liga para capturar insetos, e persuadem-lhes a arrastarem-se para dentro de jarros que elas produziram com suas folhas e encheram com água; outras tornam a si mesmas, por assim dizer, em armadilhas de ratos, a qual se fecha com um salto sobre qualquer inseto que se estabelece sobre elas; outras tornam suas flores na forma de uma certa mosca que é uma grande saqueadora de mel, de maneira que, quando a mosca real chega, ela pensa que as flores estão reservadas, e vai para outro lugar. Algumas são tão espertas mesmo para enganarem a si mesmas, como a raiz-forte, a qual é puxada e comida por aquela pungência com a qual ela se protege [218]contra inimigos subterrâneos. Se, por outro lado, elas pensam que qualquer inseto pode servir para elas, veja quão belas elas tornam a si mesmas.”

O que é ser inteligente se saber como fazer o que alguém quer fazer, e fazê-lo repetidamente, não é ser inteligente? Alguns dizem que a semente de rosa não quer crescer em um arbusto de rosa. Então, porque, em nome de tudo que é razoável, ela cresce? Muito provavelmente ela está inconsciente da carência que a está estimulando à ação. Nós não temos nenhuma razão para supormos que um embrião humano sabe que ele quer crescer em um bebê, ou um bebê em um homem. Nada nunca mostra sinais de saber quer o que ele está querendo quer o que está fazendo, quando as suas convicções tanto quanto ao que ele quer quanto a como o obter, foram estabelecidas além do poder adicional de questionar. Quanto menos sinais as criaturas vivas dão de saberem o que elas fazem, com a condição de que elas o façam, e façam-no repetidamente e bem, maior a prova que elas dão de que, na realidade, elas sabem como o fazer e têm-no feito já em um número infinito de ocasiões passadas.”

Alguém pode dizer,” ele continuou, “'O que você quer dizer ao falar sobre um número infinito de ocasiões passadas? Quando uma semente de rosa transformou-se em um arbusto de rosa em qualquer ocasião passada?'”

Eu respondo a essa questão com outra. ‘A semente de rosa alguma vez formou parte da identidade do arbusto de rosa no qual ela cresceu?’ Quem pode dizer que ela não o fez? Novamente, eu pergunto: ‘Esse arbusto de rosa alguma vez esteve vinculado por todos aqueles vínculos que nós comumente consideramos como constituindo identidade pessoal, com a semente a partir da qual ele, por sua vez, cresceu?’ Quem pode dizer que ele não esteve?”

Então, se a semente de rosa número dois é uma continuação da personalidade do seu arbusto de rosa pai, e se esse arbusto de rosa é uma continuação da personalidade da semente de rosa a partir do qual ele brotou, a semente de rosa número dois também tem de ser uma continuação da personalidade da semente de rosa anterior. E essa semente de rosa tem de ser uma continuação da personalidade [219]da semente de rosa precedentes – e assim de volta e de volta, ad infinitum. Consequentemente, é impossível negar personalidade contínua entre qualquer semente de rosa existente e a mais primitiva semente que, de qualquer maneira, pode ser chamada de uma semente de rosa.”

A resposta, então, ao nosso objetor não está longe para buscar. A semente de rosa fez o que ela agora faz nas pessoas dos seus ancestrais – com quem ela tem estado tão ligada quanto a ser capaz de lembrar o que aqueles ancestrais fizeram quando eles estiveram posicionados como a semente de rosa agora está. Cada estágio de desenvolvimento traz de volta a memória do curso tomado no estado precedente, e o desenvolvimento tem sido tão frequentemente repetido que toda a dúvida – e com toda dúvida, toda consciência de ação – está suspensa.”

Mas um objetor ainda pode dizer, ‘Concedido que a ligação entre todas as gerações sucessivas tenha sido tão próxima e ininterrupta, que cada uma delas possa ser concebida como capaz de lembrar o que fez nas pessoas dos seus ancestrais – como você mostra que ela efetivamente se lembrou?’”

A resposta é: ‘Pela ação que cada geração toma – uma ação que repete todos os fenômenos que nós comumente associamos com memória – o que é explicável sobre a suposição de que têm sido guiados por memória – e que nunca foram explicados, nem nunca parecem ser prováveis de serem explicados, em qualquer outra teoria do que a suposição de há uma memória vinculante entre gerações sucessivas.’”

Alguém trará um exemplo de qualquer criatura viva cuja ação nós podemos entender, realizando uma ação inefavelmente difícil e intricada, repetidas vezes, com sucesso invariável, e, contudo, não sabendo como a realizar, e nunca tendo realizado isso antes? Mostre-me o exemplo, e eu não direi mais nada, mas, até que ele seja mostrado a mim, eu deverei creditar ação, onde eu não posso observá-la, como sendo controlada pelas mesmas leis como quando ela é dentro do alcance da nossa vista. Ela se tornará inconsciente tão logo que a habilidade que a dirija se torne perfeita. Portanto, nem a semente de rosa, nem o embrião [220]deveriam ser esperados revelarem sinais de saber que eles sabem o que eles sabem – se eles mostrassem tais sinais, o fato de que eles conhecem o que eles desejam, e como o obter, poderia ser razoavelmente duvidado.”

Algumas das passagens já fornecidas no capítulo 23 foram obviamente inspiradas por essa há pouco citada. Como eu a leio, na reimpressão mostrada a mim por um professor que tinha editado muito da literatura sobre o assunto, eu não pude senão lembrar daquela na qual o nosso Senhor diz aos Seus discípulos para considerarem os lírios no campo, quem nem labutam nem fiam, mas cuja vestimenta supera mesmo aquela de Salomão em toda sua glória.

Elas não labutam, nem elas fiam?” É assim? “Não labutam?” Talvez não, agora que o método de procedimento é tão bem conhecido quanto a não admitir questionamento adicional – mas não é provável que os lírios chegassem a produzirem a si mesmas tão belamente sem nunca terem enfrentado dificuldades sobre a questão. “Tampouco eles fiam?” Não com uma roda de fiar; mas não há tecido fabril em uma folha?

O que os lírios do campo diriam se eles ouvissem um de nós declarando que eles nem laboram nem fiam? Eles diriam, eu aceito-o, muito o que nós deveríamos se nós devêssemos ouvir eles pregando humildade no texto de Salomão e dizendo, “Considere os Salomões em toda a sua glória, eles nem laboram tampouco eles fiam.” Nós deveríamos dizer que os lírios estavam falando sobre coisas que eles não entendiam, e que, se os Salomões não laboram nem fiam, contudo, não tem havido falta quer de labor quer de fiação antes que eles chegassem a ser arrumados tão lindamente.

Retornemos agora ao professor. Eu disse o suficiente para revelar a direção geral dos argumentos dos quais ele dependia para mostrar que vegetais apenas são animais sob outro nome, mas não formulei o caso dele em nada como a completude com a qual ele o estabeleceu diante do público. A conclusão que ele extraiu, ou pretendeu extrair, foi de que, se era pecaminoso matar e comer animais, não era [221]menos pecaminoso agir de maneira semelhante com os vegetais ou suas sementes. Nenhum desses, ele dizia, deveria ser comido, exceto o que tinha morrido de uma morte natural, tais como a fruta que estava estendida no chão e prestes a apodrecer, ou folhas de repolho que tinham amarelado no último outono. Essas e outro lixo semelhante ele declarou serem a única comida que poderia ser comida com uma consciência limpa. Mesmo assim, o comedor tem de plantar as sementes de quaisquer maçãs ou peras que ele possa ter comido, ou quaisquer caroços de ameixa, caroços de cereja, e semelhantes, ou ele se aproximaria de incorrer na culpa de infanticídio. De acordo com ele, o grão dos cereais estava fora de questão, pois cada grão tinha uma alma viva tanto quanto o homem tinha, e tinha um direito tão bom quanto o do homem a possuir essa alma em paz.

Tendo dessa forma conduzido seus concidadãos a um canto, na ponta de uma baioneta lógica, da qual eles sentiam que não havia escapatória, ele propôs que a questão do que devia ser feito deveria ser referida a um oráculo no qual o país inteiro tivesse a maior confiança, e o recurso do qual sempre teve em tempos de dificuldade especial. Era sussurrado que uma relação próxima do filósofo era a donzela da dama para a sacerdotisa que comunicava o oráculo, e o partido puritano declarou que a resposta estranhamente inequívoca do oráculo foi obtida por influência de bastidores; mas, se foi assim ou não, a resposta, tão aproximadamente quanto eu posso traduzir, foi como se segue:


Ele que peca em qualquer coisa

Peca mais do que ele deveria;

Mas ele que peca em nada

Tem muito a ser ensinado.

Espancar ou ser espancado,

Comer ou ser comido,

Ser morto ou matar;

Escolha o que você desejar.”


Está claro que essa resposta sancionava de qualquer maneira a destruição de vida vegetal, quando necessária como comida, pelo homem; [222]e tão forçosamente o filósofo tinha revelado que o que era molho para os vegetais também era para animais, que, embora o partido puritano fizesse um alarido furioso, os atos proibindo o uso de carne foram repelidos por uma maioria considerável. Dessa forma, após várias centenas de anos de peregrinação pelo deserto da filosofia, o país alcançou as conclusões que o senso comum há muito desde então tinha alcançado. Mesmo os puritanos, após uma tentativa vã de subsistirem com um tipo de geleia feita de maçãs e folhas de repolho amarelas, sucumbiram ao inevitável, e resignaram-se com uma dieta de bife e carneiro assados, com todos os complementos de uma mesa de jantar moderna.

Alguém teria pensado que a dança à qual eles tinham sido levados pelo antigo profeta, e a dança ainda mais louca à qual o professor de botânica tinha gravemente, mas, como eu acredito, insidiosamente, proposto a levá-los, teria tornado os erewhonianos suspeitos de profetas, quer eles professassem ter comunicações com um poder invisível ou não; mas, tão enraizado na mente humana está o desejo de acreditar que algumas pessoas realmente conhecem o que elas dizem que conhecem, e, dessa forma, podem salvá-los da dificuldade de pensarem por si mesmos, que, em um breve tempo, pretensos filósofos e caprichosos tornaram-se mais poderosos do que nunca, e gradualmente levaram seus concidadãos a aceitarem todas aquelas absurdas visões de vida, um pouco do relato das quais eu forneci em meus capítulos anteriores. De fato, eu não posso ver esperança para os erewhonianos até que eles tenham chegado a entender que a razão não corrigida pelo instinto é tão ruim quanto o instinto não corrigido pela razão.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 214-222. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/214/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXVI As Visões de um Profeta Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Animais

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[206]XXVI As Visões de um Profeta Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Animais


Será percebido a partir dos capítulos acima expostos que os erewhonianos são um povo manso e resignado, facilmente conduzido pelo nariz, e rápido para sacrificar o senso comum no altar da lógica, quando um filósofo surge em meio a eles, quem os arrebata através de sua reputação por conhecimento especial, ou convencendo-os de que suas instituições existentes não são baseadas nos princípios mais estritos de moralidade.

A série de revoluções na qual eu agora deverei tocar brevemente mostra isso ainda mais evidentemente do que a maneira (já considerada) na qual, em um dia posterior, eles cortaram suas gargantas na questão do maquinário; pois, se o segundo dos dois reformadores de quem eu estou prestes a falar tivesse tido sucesso – ou antes tivesse tido o sucesso que ele professou ter – a raça inteira teria morrido de fome dentro de um período doze meses. Afortunadamente, o senso comum, embora ele seja por natureza a criatura viva mais gentil, quando sente a faca no pescoço, fica inclinado a desenvolver poderes inesperados de resistência e expulsar os doutrinários, mesmo quando eles o têm a mercê deles. O que aconteceu, até onde eu pude reunir a partir das melhores autoridades, foi como se segue:

Há alguns dois mil e quinhentos os erewhonianos ainda eram incivilizados, e viviam através de caça, pesca, um rude sistema de agricultura, e saqueando aquelas poucas nações que eles ainda não tinham conquistado completamente. Eles não tinham escolas ou sistemas de filosofia, mas, por um tipo conhecimento canino, faziam aquilo que era certo aos seus próprios olhos e àqueles dos seus vizinhos; portanto, o senso comum do público ainda não estando viciado, o crime e a doença eram considerados muito como eles eram em outros países.

Mas com o avanço gradual da civilização e intensificação da prosperidade material, as pessoas começaram a perguntar questões sobre coisas que, até então, tinham sido tomadas como coisas [207]naturais, e um velho cavalheiro, quem tinha grande influência sobre eles em razão da santidade da vida dele, e de sua suposta inspiração por um poder invisível, cuja existência estava começando agora a ser sentida, foi dominado pela ideia súbita de se inquietar sobre os direitos dos animais – uma questão que, até então, não tinha incomodado ninguém.

Todos os profetas são mais ou menos temperamentais, e esse velho cavalheiro parecer ter sido um dos mais temperamentais. Sendo sustentado às despesas públicas, ele tinha amplo tempo livre, e, não contente com limitar sua atenção aos direitos dos animais, ele quis reduzir o certo e o errado a regras, para considerar os fundamentos do dever e do bem e do mal, e, de outra forma, colocar todos os tipos de questões sobre uma base lógica, as quais as pessoas cujo o tempo é dinheiro estão contentes em aceitar sem absolutamente nenhuma base.

Como uma coisa natural, a única base sobre a qual ele decidiu que o dever poderia descansar foi uma que não propiciava sala de espera para muitos dos hábitos antigamente estabelecidos do povo. Esses, ele assegurava, estavam todos errados, e sempre que qualquer um se atrevia a diferir dele, ele referia a questão ao poder invisível com o qual apenas ele tinha comunicação direta, e o poder invisível invariavelmente lhe assegurava que ele estava certo. Com respeito aos direitos dos animais, ele ensinava o seguinte:

Você sabe,” ele dizia, “quão perverso é para vocês matarem um ao outro. Há muito tempo, os seus antepassados não tinham escrúpulo sobre não matar, mas também comiam aqueles com quem tinham relações. Ninguém agora retornaria a práticas tão detestáveis, pois é notório que nós temos vivido muito mais felizmente desde que elas foram abandonadas. A partir dessa prosperidade intensificada, nós podemos confiantemente deduzir a máxima de que nós não deveríamos matar e comer as nossas criaturas companheiras. Eu tenho consultado o poder superior por quem você sabem que eu sou inspirado, e ele tem me assegurado que essa conclusão é irrefragável.”

Agora, não pode ser negado que ovelha, gado, veado, [208]pássaros e peixes são as nossas criaturas companheiras. Eles diferem de nós em alguns aspectos, mas aqueles nos quais eles diferem são poucos e secundários, enquanto que aqueles que eles têm em comum conosco são muitos e essenciais. Meus amigos, se é errado para vocês matarem e comerem os seus companheiros humanos, também é errado matar e comer peixe, carne e frango. Pássaros, bestas e peixes têm um pleno direito a viverem tão longamente sem ser molestados pelo homem quanto eles podem, como o homem tem de viver sem ser molestado por seus vizinhos. Essas palavras, deixem-me assegurar-lhes, não são minhas, mas daquele poder superior que me inspira.”

Eu concedo,” ele continuou, “que animais molestam um ao outro, e que alguns vão tão longe quanto a molestarem o homem, mas eu ainda tenho de aprender que nós deveríamos modelar a nossa conduta a partir daquela dos animais inferiores. Em vez disso, nós deveríamos tentar instrui-los e trazê-los a uma disposição melhor. Matar um tigre, por exemplo, que tem vivido da carne de homens e mulheres a quem ele matou, é reduzir-nos ao nível do tigre, e é indigno de pessoas que buscam ser guiadas em tudo pelos mais elevados princípios, tanto em seus pensamentos quanto em suas ações.”

O poder invisível que se revelou apenas para mim mesmo entre vocês, disse-me para contar a vocês que, por esta época, vocês deveriam ter superado os hábitos bárbaros dos seus ancestrais. Se, como vocês acreditam, você conhecem melhor do que eles, vocês deveriam agir melhor. Portanto, ele comanda vocês a absterem-se de matar qualquer ser vivo para o comer. A única comida animal que vocês podem comer é a carne de alguns pássaros, bestas, ou peixes, com a qual vocês podem deparar-se como tendo morrido uma morte prematura, ou qualquer uma que possa ter nascido prematuramente, ou tão deformada que é uma misericórdia livrá-la da dor; vocês também podem comer todos aqueles animais que tenham cometido suicídio. Com respeito aos vegetais, vocês podem comer todos aqueles que os permitirão comê-los com impunidade.”

Tão sabiamente e tão bem o antigo profeta argumenta, e tão terríveis foram as ameaças que ele lançou contra aqueles que deveriam desobedecê-lo, que, no fim, ele levou a parte mais altamente [209]educada do povo com ele e logo as classes mais pobres seguiram o exemplo, ou professaram fazê-lo. Tendo visto o triunfo dos seus princípios, ele reuniu-se com seus padres e, sem dúvida, entrou imediatamente em comunhão plena com aquele poder invisível cujo favor ele já tinha tão preeminentemente desfrutado.

Contudo, ele não tinha estado morto por muito tempo antes que alguns dos mais ardentes dos seus discípulos tomassem para si aperfeiçoar a instrução do mestre deles. O antigo profeta tinha permitido o uso de ovos e leite, mas os discípulos dele decidiram que comer um ovo fresco era destruir uma galinha em potencial, e que isso equivalia exatamente ao mesmo que matar uma viva. Ovos velhos, se fosse bastante certo que eles estavam muito velhos para serem capazes de serem chocados, eram permitidos a contragosto, mas todos os ovos oferecidos para venda tinha de ser submetidos a um inspetor, quem, estando satisfeito que eles eram podres, etiquetá-los-ia “Postos há não menos do que três meses” a partir da data, seja qual for que ela pudesse ser. Esses ovos, eu dificilmente tenho de dizer, eram usados apenas em pudins, e como um remédio em certos casos onde um emético era urgentemente requerido. O leite era proibido, visto que ele não poderia ser obtido em roubar algum bezerro do seu sustento natural, e, dessa maneira, colocar a vida dele em perigo.

Será facilmente acreditado que, inicialmente, houve muitos que concediam às novas regras observância exterior, mas abraçavam cada oportunidade de secretamente se satisfazerem naquelas panelas de carne como as quais eles tinham estado acostumados. Foi descoberto que animais estavam continuamente morrendo de mortes naturais sob circunstâncias mais ou menos suspeitas. A mania de suicídio, novamente, a qual, até então, tinha estado confinada a burros, tornou-se alarmantemente predominante mesmo entre aquelas criaturas, pela maior parte, autorrespeitantes, como ovelha e gado. Era surpreendente como alguns desses animais infelizes, que farejariam a faca de um açougueiro se houvesse uma a uma milha deles, mas correriam diretamente contra ela se o açougueiro não a tirasse do caminho a tempo.

[210]Os cães, novamente, que tinham sido bastante obedientes à lei com respeito às aves domésticas, coelhos domesticados, leitões ou ovelhas e cordeiros, começaram, subitamente, a escapar do controle dos seus mestres, e a matar tudo que se disse a eles para não tocarem. Foi considerado que qualquer animal morto por um cão tinha morrido de uma morte natural, pois era da natureza do cão matar coisas, e ele apenas tinha se abstido até agora de molestar criaturas de fazenda porque a sua natureza tinha adulterada. Infelizmente, quanto mais essas tendências desobedientes tornavam-se desenvolvidas, mais o povo comum parecia deleitar-se em criar os animais mesmos que colocariam tentação no caminho do cão. Há pouca dúvida, de fato, que eles estavam deliberadamente se evadindo da lei; mas, se isso era ou não era assim, eles vendiam ou comiam tudo que os cães deles tinham matado.

A evasão era muito mais difícil no caso dos animais maiores, pois os magistrados não podiam de qualquer maneira fechar os olhos diante dos pretensos suicídios de porcos, ovelha e gado que eram trazidos diante deles. Algumas vezes eles tinham de condenar, e umas poucas condenações tinham um efeito aterrorizador – enquanto que, no caso dos animais mortos por um cão, as marcas dos dentes do cão poderiam ser vistas, e era praticamente impossível provar malícia da parte do proprietário do cão.

Outra fonte fértil de desobediência da lei foi fornecida por uma decisão de um dos juízes que gerou um grande tumulto entre os mais ferventes discípulos do antigo profeta. O juiz considerou que era legal matar qualquer animal em autodefesa, e que essa conduta era tão natural da parte de um homem que encontrasse a si mesmo atacado, que a criatura atacante deveria ser considerada ter morrido de uma morte natural. De fato, os altos vegetarianos tinham boa razão para ficarem alarmados, pois, dificilmente essa decisão tinha se tornado publicamente conhecida antes que um número de animais, até então inofensivos, aproveitaram-se para atacar seus proprietários com ferocidade tão grande que se tornou necessário sujeitá-los a uma morte natural. Novamente, foi bastante comum à época ver a [211]carcaça de um bezerro, cordeiro ou cabrito exposta para a venda com uma etiqueta de um inspetor certificando que ela tinha sido morta em autodefesa. Algumas vezes, até a carcaça de um cordeiro ou bezerro era exposta como “natimorto autorizado,” quando ela apresentada toda aparência de ter desfrutado de menos de um mês de vida.

Quanto à carne de animais que genuinamente tinham morrido de uma morta natural, a permissão para comer era sem valor, pois ela geralmente era comida por algum outro animal antes que o homem obtivesse posse dela; ou, falhando isso, ela frequentemente era venenosa, de modo que as pessoas eram praticamente forçadas a evadirem-se da lei através de alguns dos meios falados acima, ou tornarem-se vegetarianas. Essa última alternativa era tão pouco do gosto dos erewhonianos que as leis contra matar animais estavam caindo em desuso, e muito provavelmente teriam sido repelidas, mas, devido a erupção de uma pestilência, a qual foi atribuída por sacerdotes e profetas da época à ilegalidade do povo na questão de comer carne. Nisso, houve uma reação; leis rigorosas foram passadas, proibindo o uso de carne em qualquer forma ou formato, e não se permitindo nenhuma comida a ser vendida em lojas e mercados, exceto grão, frutas e vegetais. Essas leis foram promulgadas aproximadamente duzentos anos depois da morte do antigo profeta que primeiramente perturbou as mentes das pessoas sobre os direitos dos animais; mas, mal elas tinham sido passadas antes que, novamente, as pessoas começassem a infringi-las.

Dizia-se que a consequência mais dolorosa de toda essa loucura não estava no fato de que as pessoas obedientes à lei tinham de seguir sem comida animal – muitas nações faziam isso e não pareciam piores em nada, e mesmo em países comedores de carne tais como Itália, Espanha e Grécia, os pobres raramente veem carne durante todo o ano. O dano está no sobressalto que proibição indevida dava às consciências de todos exceto aqueles que eram suficientemente fortes para saberem que, embora a consciência, como uma regra, beneficia, ela também pode prejudicar. Frequentemente, a consciência desperta de um indivíduo leva-lo-á a fazer coisas com presa, as quais ele faria melhor em ter deixado não feitas, mas [212]a consciência de uma nação, desperta por um respeitável velho cavalheiro quem tem um poder invisível na manga, pavimentará o inferno com uma vingança.

Dizia-se aos jovens que era um pecado fazer o que seus pais tinha feito incólumes por séculos; além disso, aqueles que pregavam para eles sobre a maldade de comer carne, eram uma gente acadêmica pouco atraente, e, embora eles intimidassem todos exceto os jovens mais ousados, havia poucos que, em seus corações, não desgostassem deles. Por mais que os jovens pudessem ser protegidos, logo se tornou conhecido que homens e mulheres do mundo – frequentemente pessoas muito mais agradáveis do que os profetas que lhes pregavam abstinência – continuamente falavam zombeteiramente das novas leis doutrinárias, e acreditava-se que eles as colocavam de lado em segredo, embora eles não se atrevessem a fazê-lo abertamente. Portanto, pouca surpresa de que os mais humanos entre as turmas de estudantes eram provocados pelos preceitos de não toque, não prove, não manuseie dos seus governantes, para questionarem muito daquilo que, de outra maneira, eles tinham aceitado sem hesitação.

Uma triste história que está no registro é sobre um rapaz de promissora disposição amigável, mas amaldiçoado com mais consciência do que cérebro, quem tinha sido contado pelo seu médico (pois, como eu disse acima, doença ainda não era considerada ser criminosa) que ele deveria comer comer, com ou sem lei. Ele ficou muito chocado e, por um tempo, recusou-se a sujeitar-se ao que ele considerava como conselho injusto dado a ele por seu médico; contudo, finalmente, descobrindo que ele se tornava cada vez mais fraco, em uma noite escura, ele entrou secretamente em um daqueles covis nos quais carne era sorrateiramente vendida, e comprou um quilo de bife de primeira. Ele levou-o para casa, cozinhou-o em seu quarto quando todos na casa tinham ido descansar, comeu-o e, embora ele dificilmente conseguiu dormir de remorso e vergonha, sentiu-se tão muito melhor na manhã seguinte que ele dificilmente conhecia a si mesmo.

Três ou quatro dias depois, ele novamente se encontrou irremediavelmente atraído para esse mesmo covil. Novamente ele comprou um quilo de bife, novamente ele o cozinhou e comeu, e novamente, a [212]despeito de muita tortura mental, na manhã seguinte, ele sentiu-se um homem diferente. Para abreviar a história, embora ele nunca fosse além dos limites da moderação, atormentava a mente dele que ele deveria estar, como certamente estava, escorregando para as fileiras dos infratores habituais.

Durante todo esse tempo, a saúde dele continuou melhorando, e, embora ele tivesse certeza de que ele devia isso aos bifes, quando melhor ele se tornava de corpo, mais a consciência dele não lhe dava descanso; duas vozes estavam para sempre ressoando nos ouvidos dele – uma dizendo, “Eu sou o Senso Comum e a Natureza; presta atenção em mim, e eu te recompensarei como eu recompensei seus pais antes de você.” Mas a outra dizia: “Que nenhum espírito plausível atraia-te para tua ruína. Eu sou o Dever; presta atenção em mim, e eu te recompensarei como recompenseis seus pais antes de você”

Algumas vezes ele até parecia ver os rostos dos falantes. O Senso Comum parecia tão fácil, genial e sereno, tão franco e destemido, que, fizesse o que ele pudesse, ele não poderia desconfiar dele; mas, conforme ele ficava a ponto de o seguir, ele seria impedido pelo rosto austero do Dever, tão grave, mas, contudo, tão amável; e corta-lhe o coração que, de tempos em tempos, ele deveria ver a vez dele lastimando-se para longe dele enquanto ele seguiu o seu rival.

O pobre rapaz continuamente pensava na classe melhor dos seus companheiros estudantes, e tentava modelar a sua conduta no que ele pensava que era a deles. “Eles,” ele disse a si mesmo, “comem um bife? Nunca.” Mas a maioria deles comia um, às vezes, a menos que fosse uma costeleta de carneiro que os tentasse. E eles usavam-lhe como um modelo muito como ele os usava. “Ele,” eles diriam para si mesmos, “come uma costeleta de carneiro? Nunca.” Contudo, uma noite, ele foi seguido por uma das autoridades, quem estava sempre perambulando em busca de infratores da lei, e foi pego saindo do covil com meio ombro de carneiro oculto em vola da sua pessoa. Sobre isso, mesmo se ele não tivesse sido colocado na prisão, ele teria sido mandado embora com suas perspectivas na vida irremediavelmente arruinadas; portanto, ele enforcou-se tão logo ele chegou em casa.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 206-213. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/206/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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