Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XVI Arowhena

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[121]XVI Arowhena


Por esta hora, talvez o leitor terá aprendido uma coisa que eu mesmo tinha suspeitado antes que tivesse vinte e quatro horas na casa do sr. Nosnibor – eu quero dizer, que, embora os Nosnibor mostrassem-me toda atenção, eu não poderia cordialmente gostar deles, com exceção de Arowhena, quem era bastante diferente do resto. Eles não eram exemplos justos dos erewhonianos. Eu vi muitas famílias, com quem eles estiveram em termos de visita, cujas maneiras encantaram-me mais do que eu sei como dizer, mas eu nunca pude superar o meu preconceito original contra o sr. Nosnibor por ele ter desviado dinheiro. A sra. Nosnibor, também, era uma mulher muito mundana, contudo, ao ouvir a conversa dela, alguém poderia ter pensado que ela era singularmente o inverso; nem eu conseguia suportar Zulora; contudo, Arowhena era perfeição.

Ela é quem realizava todas as pequenas tarefas para sua mãe e o sr. Nosnibor e Zulora, e dava aquelas mil provas de doçura e altruísmo que geralmente se requer que um membro de uma família dê. Durante todo o dia era, Arowhena isto, e Arowhena aquilo; mas ela nunca parecia saber o que ela estava indo fazer, e sempre estava radiante e de boa vontade da manhã até a noite. Zulora era realmente muito linda, mas Arowhena era infinitamente a mais graciosa das duas e era o exato ne plus ultra de juventude e beleza. Eu não tentarei a descrever, pois qualquer coisa que eu pudesse dizer falharia tanto em descrever a realidade quanto apenas confundiria o leitor. Que se pense no mais amável mesmo que se possa imaginar, e ainda estará abaixo da verdade. Tendo dito isso, dificilmente eu tenho de dizer que eu tinha me apaixonado por ela.

Ela deve ter percebido o que eu sentia por ela, mas eu tentava intensamente não deixar isso aparecer mesmo através do sinal mais leve. Eu tinha muitas razões para isso. Eu não tinha ideia do que o sr. e a sra. Nosnibor diriam sobre isso; e eu sabia que Arowhena não olharia para mim (não ainda, de qualquer maneira) se o pai e a mãe dela desaprovassem, o que eles provavelmente fariam, considerando [122]que eu não tinha nada exceto a pensão de aproximadamente uma libra por dia do dinheiro que o Rei tinha me concedido. Eu ainda não conhecia nenhum obstáculo mais sério.

Entrementes, eu posso dizer que eu tinha sido apresentado à corte, e disseram que a minha recepção tinha sido considerada como singularmente graciosa; de fato, eu tive várias entrevistas tanto com o Rei quanto com a Rainha, nas quais, de tempos em tempos, a Rainha obteve de mim tudo o que eu tinha no mundo, roupas e tudo, exceto os dois botões que eu tinha dado a Yram, a perda dos quais pareceu incomodá-la bastante. Presentearam-me com uma vestimenta de corte, e sua majestade fez com que minhas roupas antigas fossem colocadas em um boneco de madeira, sobre o qual elas provavelmente permanecem, a menos que elas tenham sido removidas em consequência da minha queda subsequente. As maneiras de sua majestade eram aquelas de um educado cavalheiro inglês. Ele ficou muito agradado ao ouvir que o nosso governo era monárquico, e que a massa do povo estava resoluta em que ele não deveria ser mudado; de fato, eu fui tão encorajado pelo prazer evidente com o qual ele me ouviu, que eu me aventurei a citar para ele aquela belas linhas de Shakespeare -


Há uma divindade que cerca um rei,

Grosseira molda-lhe como nós podemos;”


Mas subsequentemente eu fiquei triste que tenha feito isso, pois não penso que sua majestade admirou as linhas tanto quanto eu poderia ter desejado.

Não há ocasião para eu demorar-me mais em minha experiência da corte, mas talvez eu deva aludir a uma das minhas conversas com o Rei, na medida que ela foi prenhe das consequências mais importantes.

Ele estava perguntando-me sobre meu relógio, e inquirindo se tais invenções perigosas eram toleradas no país do qual eu vinha. Eu reconheci, com alguma confusão, que relógios não eram incomuns; mas, observando a gravidade que surgia no rosto de sua majestade, eu tomei a liberdade [123]dizer que eles estavam rapidamente se acabando, e que nós tínhamos poucas de quaisquer invenções mecânicas que era provável que ele desaprovasse. Em consequência de ele me pedir para nomear algumas de nossas máquinas mais avançadas, eu não me atrevi a contar-lhe dos nossos motores a vapor e ferrovias e telégrafos elétricos, e estava confundindo meu cérebro pensar no que eu poderia dizer quando, de todas as coisas no mundo, os balões sugeriram a si mesmos, e eu fiz-lhe um relato de uma subida muito notável que foi realizada há alguns anos. O Rei foi polido demais para contradizer, mas eu tive certeza de que ele não me acreditou, e a partir daquele dia em diante, embora ele sempre me mostrasse a atenção que era devida ao meu gênio (pois sob essa luz minha compleição era considerada), ele nunca me questionou novamente sobre as maneiras e costumes do meu país.

Contudo, para retornar a Arowhena. Eu logo deduzi que nem o sr. nem a sra. Nosnibor teriam nenhuma objeção ao meu casamento com alguém da família; em Erewhon, uma excelência física é considerada como um contra-argumento contra qualquer outra desqualificação, e meu cabelo claro era suficiente para me tornar uma combinação elegível. Mas junto com esse fato bem-vindo, eu inferi outro que me encheu de desânimo: esperava-se que eu casasse com Zulora, por quem eu já tinha concebido uma grande aversão.

Inicialmente, eu dificilmente notei as primeiras pistas e os artifícios aos quais se recorriam para nos juntar, mas, após um tempo, eles tornaram-se muito evidentes. Zulora, quer ela estivesse apaixonada por mim que não, estava destinada a casar-se comigo, e eu deduzi em uma conversa com um jovem cavalheiro de minha familiaridade, quem frequentemente visitava a casa e de quem eu desgostava grandemente, que era considerada uma regra sagrada e inviolável que, quem quer que se case com alguém da família, tem de se casar com a filha mais velha que à época esteja solteira. O jovem cavalheiro insistia isso comigo tão frequentemente que, por fim, eu percebi que ele mesmo estava apaixonado por Arowhena, e queria que eu tirasse Zulora do caminho; mas outros me contaram a mesma história sobre o costume do país, e eu [124]vi que havia uma séria dificuldade. Meu único conforto era que Arowhena esnobava o meu rival e não olharia para ele. Tampouco ela olharia para mim; mesmo assim, havia uma diferença na forma do desdém dela; isso era tudo que eu podia obter dela.

Não que ela me evitasse; pelo contrário, eu tive muitos tête-à-tête com ela, pois a mãe e a irmã dela estavam muito ansiosas para eu depositar uma parte da minha pensão nos Bancos Musicais, isso estando em concordância com os ditames da deusa Ydgrun, de quem tanto a sra. Nosnibor quanto Zulora eram grandes devotas. Eu não estava certo de seu eu tinha de impedir que o meu segredo fosse descoberto por Arowhena mesma, mas nenhum dos outros suspeitava de mim, assim ela se determinou a fazer com que eu abrisse uma conta e, de qualquer maneira, pro forma, com os Bancos Musicais; e dificilmente eu preciso dizer que ela teve sucesso. Mas eu não me rendi de uma vez; eu aprecei o processo de argumentar muito intensamente para perder por uma concessão imediata; além disso, um pouco de hesitação tornou a concessão mesma mais valiosa. Foi no curso dessas conversas sobre o assunto que eu aprendi as opiniões religiosas mais definidas dos erwhonianos, que coexistem com o sistema do Banco Musical, mas não são reconhecidas por aquelas instituições curiosas. Eu as descreverei tão brevemente quanto possível nos capítulos seguintes antes de eu retornar às aventuras pessoais de Arowhena e de mim mesmo.

Eles eram idólatras, embora de um tipo comparativamente iluminado; mas aqui, como em outras coisas, havia uma discrepância entre a sua crença professada e a atual, pois eles tinham uma fê potente e genuína que existia sem reconhecimento ao longo da sua adoração de ídolos.

Os deuses que eles adoravam eram abertamente personificações de qualidades humanas, tais como justiça, força, esperança, medo, amor, etc, etc. As pessoas pensam que os protótipos dessas têm uma existência real objetiva em uma região muito além das nuvens, sustentando, como fizeram os antigos, que elas eram semelhantes a homens e [125]mulheres tanto em corpo quanto em paixão, exceto que elas são mesmo mais graciosas e mais poderosas, e também que elas podem torna-se invisíveis para a visão humana. Elas são capazes de serem agradadas e de virem em assistência daqueles que pedem sua ajuda. Os interesses delas em assuntos humanos é agudo e, no todo, beneficente; mas elas tornam-se muito raivosas se negligenciadas, e punem antes o primeiro com o qual elas se deparam do que a pessoa real que as ofendeu; a fúria delas sendo cega quando ela é provocada, embora nunca provocada sem razão. Elas não punirão com menos severidade quando as pessoas pecam contra elas por ignorância e sem chance de terem tido conhecimento; elas não aceitarão nenhuma desculpa desse tipo, mas são mesmo como a lei inglesa, a qual se assume ser conhecida por todos.

Dessa forma, eles têm uma lei de que dois pedaços de matéria não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, lei que é presidida e administrada pelos deuses do tempo e espaço conjuntamente, de maneira que, se uma pedra voadora e a cabeça de um homem tentarem ofender esses deuses, “arrogando-se um direito que elas não possuem” (pois assim está escrito em um dos livros deles), e ocuparem o mesmo espaço simultaneamente, uma punição severa, algumas vezes a morte mesma, é certa de se seguir, sem nenhuma consideração de se a pedra sabia que a cabeça do homem estava ali, ou a cabeça, a pedra; pelo menos essa é a visão deles dos acidentes comuns da vida. Além disso, eles consideram suas divindades serem bastantes desinteressadas dos motivos. Com elas, é a coisa realizada que é tudo, e o motivo não vale nada.

Dessa maneira, eles consideram estritamente proibido para um homem seguir sem ar comum em seus pulmões por mais do que uns poucos minutos; e, se de qualquer maneira eles entram na água, o deus do ar fica muito irado e não tolerará isso; não importa se o homem entra na água por acidente ou de propósito, se através da tentativa de salvar uma criança ou através de desdém pretensioso pelo deus do ar, o [126]deus do ar mata-lo-á, a menos que ele mantenha a sua cabeça suficientemente alta fora da água e, dessa forma, conceda ao deus do ar o que lhe é devido.

Isso com respeito às divindades que gerenciavam os assuntos físicos. Suplementarmente eles personificavam a esperança, o medo, o amor e assim por diante, dando-lhes templos e sacerdotes e esculpindo aparências deles em pedra, as quais eles verdadeiramente acreditam serem representações fiéis de seres vivos que não são apenas humanos sendo mais do que humanos. Se qualquer um nega a existência objetiva dessas divindades, e diz que realmente não existe ser tal como uma bela mulher chamada de Justiça, com seus olhos vendados e um par de bandejas, positivamente vivendo e movendo-se em uma região remota e etérea, mas que a justiça é apenas a expressão personificada de certos modos de pensamento e ação humanos – eles dizem que ele nega a existência da justiça ao negar-lha a personalidade, e que ele é um perturbador devasso das convicções religiosas do homem. Eles não detestam nada tanto quanto qualquer tentativa de os conduzir a concepções espirituais mais elevadas das divindades a quem eles professar adorar. Arowhena e eu tivemos uma batalha armada sobre esse ponto, e deveríamos ter tido muitas mais, senão por minha prudência em deixar ela levar a melhor sobre mim.

Eu estou certo em meu coração de que ele suspeitava de sua própria posição, pois ela retornou mais de uma vez ao assunto. “Você não vê,” eu tinha reclamado, “que o fato da justiça ser admirável não será afetado pela ausência de uma crença em ela também ser um agente vivo? Você realmente pensa que os homens serão uma polegada menos esperançosos porque eles não acreditam que a esperança é uma pessoa atual?” Ela sacudiu a cabeça e disse que, junto com a crença dos homens na personalidade, todo incentivo à reverência da coisa mesma, justiça ou esperança, cessaria; a partir dessa hora, os homens nunca mais seriam nem justos nem esperançosos.

Eu não a pude mover, nem, de fato, eu desejava seriamente o fazer. Ela rendia-se a mim na maioria das coisas, mas ela nunca recuava de sustentar suas opiniões se elas fossem colocadas [127]em questão; nem, até hoje, ela abateu uma partícula da crença na religião de sua infância, embora, em concordância com requisições repetidas, ela permitiu-se ser batizada na igreja inglesa. Embora ela tenha feito um disfarce de sua fé original para o efeito de que o bebê dela e eu fossem os únicos seres humanos isentos da vingança das divindades por não acreditarmos em sua personalidade. Ela está bastante certa de que nós estamos isentos. De outra maneira, ela nunca deveria teve uma convicção tão forte nisso. Como isso se originou, ela não sabe, nem ela deseja saber; há coisas que é melhor não conhecer, e essa é uma delas; mas quando eu digo a ela que eu acredito nas divindades dela tanto quanto ela o faz – e que essa é uma diferença de palavras, não coisas, ela torna-se silente com uma leve ênfase.

Eu reconheço que ela quase me conquistou uma vez; pois ela perguntou-me o que eu deveria pensar se ela devesse contar-me que o meu Deus, cuja natureza e atributos eu estive explicando para ela, era apenas a expressão para a concepção mais elevada de bondade, sabedoria e poder do homem; que, para gerar uma concepção mais vívida de um pensamento tão grande e glorioso, o homem a tenha personificado e chamado-a por um nome; que era uma concepção indigna do Deus considerá-Lo pessoal, na medida que escapar das contingências humanas tornou-se, dessa forma, impossível; que a coisa real que os homens deveriam adorar era o Divino, em qualquer lugar que eles a possam encontrar; que “Deus” era apenas uma maneira para o homem expressar a sua sensação do Divino; que justiça, esperança, sabedoria, etc, eram todas partes da bondade, assim, Deus era a expressão que englobava toda bondade e todo bom poder; que as pessoas não deixariam menos de amar a Deus se cessassem de acreditar em Sua personalidade objetiva, do que eles teriam deixado de amar a justiça ao descobrirem que ela não era realmente pessoal; ou melhor, que eles nunca verdadeiramente O amariam até que eles O vissem dessa maneira.

Ela disse tudo isso de sua maneira simples, e sem nada da [128]coerência com a qual eu escrevi aqui; a face dela estava acessa, e ela sentiu-se certa de que tinha me convencido de que eu estava errado, e que a justiça era uma pessoa viva. De fato, eu vacilei um pouco, mas eu recuperei-me imediatamente, e apontei para ela que nós tínhamos livros cuja genuinidade estava além de toda possibilidade de dúvida, visto que nenhum deles tinham menos de 1800 anos de idade; que nesses haviam os relatos mais autênticos de homens com os quais a Divindade Mesma tinha falado, e de um profeta quem tinha sido permitido a ver as costas de Deus, embora a mão estivesse colocada sobre o rosto dele.

Isso foi conclusivo; e eu falei com tanta solenidade que ela ficou um pouco assustada, e apenas respondeu que eles também tinham seus livros, nos quais os ancestrais deles tinham visto os deuses; no que eu percebi que, de maneira alguma, argumentos adicionais seriam prováveis de a convencer; e temendo que ela devesse contar à mãe dela o que eu estive dizendo, e que eu poderia perder o domínio das afeições dela, os quais eu estava começando a sentir-me bastante certo que eu estava obtendo, eu comecei a deixar ela ter vantagem e convencer-me; de nenhuma maneira, antes que nós estivéssemos seguramente casados, eu mostrei o pé rachado novamente.

Mesmo assim, as observações dela assombraram-me, e desde então eu tenho me encontrado com muitas pessoas muito divinas que tinham um grande conhecimento da divindade, mas nenhuma sensação do divino: e novamente, eu tenho visto um esplendor no rosto daqueles que estavam adorando o divino ou na arte ou natureza – em pintura ou estátua – no campo ou nuvem ou mar – no homem, na mulher ou na criança – que eu nunca vi acesso por nenhuma conversa sobre a natureza e os atributos de Deus. Menciona-se apenas a palavra divindade e a nossa sensação do divino é encoberta.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 121-128. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/121/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo VIII

A Múmia! Um Conto do Século XXII


Por Jane C. London


Volume I


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Capítulo VIII


[162]A jornada do duque e do seu grupo para Londres não teve nada nela para a distinguir de centenas de outras jornadas, eles não encontraram uma única aventura digna de ser registrada e chegaram em perfeita segurança ao palácio do duque, o qual estava situado na Strand (essa sendo naqueles dias, como nós afirmamos antes, a parte mais elegante de Londres) e tinha lindos jardins declinando-se abruptamente até o Tâmisa.

O duque tinha trazido todo o seu pessoal para a cidade; e seria difícil conceber qualquer um em um alvoroço maior do que a digna sra. Russel, por vários dias após a chegada deles. O afetuoso Abelard não conseguia encontrá-la [163]livre por um único momento, para ouvir as afusões poéticas dele. Contudo em um dia, tendo ficado, como ele concebia, particularmente feliz, ele determinou-se a fazer a si mesmo ouvido. Portanto, ele esperou pela bela Eloisa, quem ele encontrou ocupadamente empregada dando direcionamentos aos servos.

Sra. Russel!” suspirou ele, na cadência mais suave do amor; mas a sra. Russell não o ouviu; ela estava falando com a cozinheira. “Você tem de alterar bastante o seu estilo, Angelina,” disse ela, “lembre-se, nada pode ser simples demais para grandes pessoas. Fricassés e ragus são apenas devorados pela canaille.”

Eu fui instruída sobre isso, madame,” respondeu Angelina, uma cozinheira grande, gorda e bonita, “mas eu lisonjeio-me de que saiba como inventar pratos ----”

Isso é a coisa mesma que você tem de evitar,” interrompeu a Sra. Russel, “qualquer coisa feita pelo país, mas aqui o caso é diferente: a posição social do duque requer um certo grau de estilo, e agora é moda para as pessoas grandes terem apenas um prato, e esse tão simplesmente cozido [164]quanto possível. Um amigo meu contou-me, um que deu uma espiada no grande jantar que a rainha deu outro dia para embaixadores estrangeiros, que não havia absolutamente nada sobre a mesa, exceto uma carne de coxa cozida, e um grande prato de batatas defumadas, ainda com suas cascas.”

Bem, madame,” retornou Angelina, “eu reunirei igualmente minhas energias físicas e mentais para propiciar a você toda a satisfação em meu poder; a despeito disso, eu estou livre para confessar que, em minha opinião, a ciência gastronômica está agora cruelmente negligenciada, e que eu não penso que os poderes digestivos do estômago podem ser apropriadamente excitados a partir do seu estado dormente por uma comida tão desestimulante quanto você menciona. Ademais, a força muscular do estômago deve ficar constrangida para decompor comidas tão sólidas, e eu deveria considerar o diafragma seriamente machucado-”

Você, Alphonso,” continuou a Sra. Russel, dirigindo-se ao criado, e cruelmente interrompendo a arenga instruída da cozinheira, “tem de tomar mais cuidado com a limpeza das pinturas. Há [165]uma bela grande pintura de um dos antigos artistas ingleses, sobre a porta, no melhor salão, as cores da qual estão bastante enfraquecidas; eu temo que você tenha usado alguma coisa impropria para a limpar.”

De fato, madame,” retornou Alphonso, “Eu penso que a falta está na pintura mesma. Ela não secou bem originalmente; eu não penso que o óleo que foi usado em sua composição tinha o carbono e hidrogênio misturados em proporções apropriadas. Você sabe, madame, que o óleo em geral tem afinidade espetacular com o oxigênio e absorve-o rapidamente; agora, embora o óleo dessa pintura tenha estado exposto por anos à ação do ar atmosférico comum, todavia, ele nunca se espessou apropriadamente em um estado concreto.”

Sra. Russel!” bradou Abelard, aventurando-se a suspirar um pouco mais alto.

Oh, sr. Abelard!” exclamou a bela Eloisa, com uma bela simulação de confusão, “como você me assustou! Eu declaro que você fez eu erguer o adnato dos meus órgãos visuais, como um dos gênero anas quando as nuvens estão carregadas com fluido elétrico, enquanto meu coração [166]saltou de sua posição transversa em meu diafragma, e pareceu enfiar-se como um grande osso exatamente através do meu esôfago.”

Quão miserável eu sou por ter ocasionado temores no teu amável seio. Aham, aham! Poderia eu ter a esperança de ser favorecido com uma breve entrevista.”

Em um momento, querido sr. Abelard! Eu atenderei você; eu apenas concluirei minhas instruções. Você sabe, o duque dá um grande jantar hoje, e meu coração palpita no seio com o temor de que eu deveria cometer algum erro. Essas pessoas criadas na cidade são tão peculiares.

Você não tem de temer nenhum escrutínio.”

Ah, sr. Abelard! Eustace!” dirigindo-se ao mordomo, “você não deve se importar em trazer nenhuma variedade de vinhos para a mesa; nada é bebido agora, exceto vinho do porto e vinho de xerez, e mesmo eles estão saindo de moda. Contudo, eu tenho muita cerveja forte e cerveja preta, pois agora elas são reconhecidas como os licores mais elegantes para as damas.”

Eu deverei realizar meu esforço máximo para obedecer às suas injunções, madame,” disse Eustace, [167]curvando-se respeitosamente; “mas eu não posso imaginar que qualquer espécie de milho, mesmo se ela tiver passado por fermentação vínica, possa produzir um líquido tão agradável para o paladar, tanto quanto condutivo à sanidade do corpo, como o suco de uva.”

Você não pode dispôr de um único momento para me ouvir?” suspirou Abelard.

Eu quase terminei: eu apenas tenho de pedir para vocês, Evelina e Cecilia,” dirigindo-se às criadas, “ vocês superintenderão cuidadosamente o arranjo dos dormitórios: deixem o ar sair das camas e reinflem-nas – examinem os colchões de molas elásticas – varram os carpetes de veludo e cuidem de se os tubos para retirada do ar decomposto e admissão de ar fresco estão em ordem adequada; - também, limpem as banheiras anexadas a cada câmara, e cuidem de se há um suprimento abundante de água.”

Disseram-me que ablução no fluido aquoso comum está tornando-se de mais bom gosto do que quaisquer banhos medicados,” disse Evelina, “e que algumas pessoas de posição social efetivamente usam uma [168]composição de álcali e óleo para remover as partículas pulverizadas que podem ter se alojado sobre a epiderme delas durante o curso do dia.”

A partir dos comandos que você proferiu, madame,” regressou Cecilia, “eu temo que você esteve desatenta da alteração que foi efetuada no dormitório superior. O ar lá não é mais mudado através de tubos – mas há um ventilador de pena de leque fixo no teto, o qual, através de suas ondulações gentis, ocasiona uma circulação livre do fluido aeriforme. Contudo, eu não considero que seja muito adequado suprir o lugar com os tubos, visto que, ao entrar no aposento nesta manhã, eu percebi uma forte sensação de azoto, e considerei que a proporção de nitrogênio mais do que triplicou do que aquela de oxigênio através do apartamento todo.”

Eu sinto por isso, mas, como não pode ser evitado, nós devemos nos submeter. Agora, sr. Abelard, eu estou pronta para o atender.”

Eu tomei a liberdade de – de – desejar,” disse o mordomo, por sua vez, em sua comovente surpresa, “mostrar a você um pouco de poesia. Estes são alguns versos próprios, no estilo acromonogramático, [169]apenas que cada linha começa com a mesma palavra com a qual a última terminou, em vez de com a mesma letra. Permitir-me-á lê-los para você?”

A sra. Russel graciosamente sorriu consentindo, e Abelard, desdobrando o papel, leu como se segue: -


SOBRE O AMOR


De todos os poderes no Céu acima,

Acima de todos os outros, triunfa o Amor;

O amor governa a alma – o coração invade,

Invade as cidades e as sombras.

As sombras não formam abrigo do seu poder,

O poder treme em seu caramanchão cortês.

Caramanchão da beleza – tu és livre?

Livre tu não és – nem podes tu ser!

Seja toda outra classe liberada,

Liberada do amor, tua infelicidade intensificada;

Intensificada por todo o peso do cuidado,

Cuidado fluindo a partir do desespero completo.”


Charmoso!” exclamou a sra. Russel, “eu apenas confesso que não entendo porque o desespero vem na última linha.”

Desespero – desespero: oh! Para rimar com cuidado, minha Eloisa. Espero que eu não deva ter nenhuma outra razão para falar de desespero.”

[170]“Oh querido sr. Abelard, não tente tirar vantagem indevida da minha ternura.”

Que os céus proíbam!” exclamou ele, tomando a mão dela, quando a cena de amor deles foi cruelmente interrompida pela visão inesperada de Edric, quem aconteceu de, neste momento, passar no balão de lorde Gustavus de Montfort. O reconhecimento foi mútuo, e Edric, quem ficou tão excessivamente agitado com este encontro, o qual o convenceu que o seu pai estava na cidade, de modo que ele se determinou a não mais adiar a sua jornada, visto que o seu temor do encontro era excessivo. Portanto, ele resolveu procurar seu mentor e, se ele o encontrasse inclinado a procrastinar, a partir sem ele. Contudo, ao alcançar a câmara do doutor, ele encontrou metade de sua inquietação convertida em riso diante da situação ridícula do pobre filósofo, quem, cercado como ele estava por todos os lados por uma multidão de mercadores clamorosos por pedidos, parecia alguma coisa como Mercúrio rodeado por uma tribo de fantasmas descontentes sobre os bancos de areia do Estige.

Sim, sim, sr. Jones,” disse ele; “Eu vejo que você me entende. Os casacos devem ser aqueles [171]tecidos em máquinas, onde a lã é removida das costas da ovelha por uma extremidade, e casaco sai, completamente produzido, na moda mais recente, na outra.”

Muito bem, Sir,” disse o sr. Jones, abanando suas orelhas em sinal de assentimento; pois naqueles dias de educação universal, mesmo os músculos da cabeça eram treinados para desempenharem funções que, em dias antigos, era apenas possível que eles pudessem conseguir: “Você está muito certo, Sir, - nenhuma pessoa de moda nunca usa qualquer outra coisa agora.”

Oh, Edric!” bradou o doutor, “Eu deverei estar pronto para atender você diretamente: - e assim, sra. Celestina, você deve fazer a sopa, se lha agradar, à prova d’água; e você, sr. Crispin, tem de ter as botas prontas para dissolver imediatamente. Oh céus! Oh céus, em que confusão eu estou, minha cabeça está seguindo como um barco a vapor, à razão de sessenta milhas por hora?”

Acredite em mim, doutor,” disse Edric, olhando em volta, consternado, “se nós devêssemos levar as coisas reunidas aqui, eu não sei [172]onde nós deveríamos encontrar um balão suficientemente grande até para nos elevar do chão.”

Eu mostrarei a você,” respondeu o doutor, misteriosamente; e solenemente sacando uma chave do seu peito, a qual parecia estar suspensa por uma fita no pescoço dele, ele lentamente abriu, com grande dificuldade, uma gaveta secreta em seu escritório, e expôs dos recessos mais íntimos uma garrafa de borracha indiana. A gravidade de estilo do doutor, e a extensão de tempo que ele tinha empregado nessa operação, excitaram a curiosidade de Edric, e ele irrompeu em um violenta e incontrolável crise de riso quando ele viu o resultado.

Qual é o problema, Edric?” respondeu o doutor, com a solenidade máxima; “qual pode ser a ocasião dessa leviandade sem cerimônia e inoportuna?”

Montanhas parturientes, meu cado doutor,” respondeu Edric, ainda rindo, - “você sabe o resto.”

O ridículo, Edric,” disse o doutor gravemente, “de maneira nenhuma é o teste de verdade. Os tolos frequentemente [173]– ou melhor, geralmente, riem daquilo que eles não podem entender, e quando eu dever ter explicado os motivos da minha conduta, eu confio que você se sentirá envergonhado da sua presente hilaridade fraca e irracional. A borracha, Edric, é uma substância capaz de dilatação e contração surpreendentes; ao passo que a elasticidade e tenacidade peculiares das suas fibras dão-lhe uma força e solidez, muito raras em corpos quando em um estado de tensão extrema. Mas antes que eu informe a você o novo uso ao qual eu intenciono aplicá-la; há vários fenômenos extraordinários relacionados aos corpos elásticos, os quais eu estou feliz de ter uma oportunidade apropriada de explicar a você.” (Edric bocejou.) “Você sabe, as substâncias elásticas têm o poder de resistir maravilhosamente a uma força que aniquilaria sólidos, aparentemente infinitamente mais fortes do que elas mesmas, como uma cama de penas resistiria a uma bola de canhão que penetraria facilmente através de uma mesa espessa. Agora, a razão para isso é evidente: o corpo elástico tem o poder de convocar todas as suas forças para a sua assistência, pois o efeito de um golpe pode ser traçado até a sua extremidade mais remota; ao passo que a substância sólida pode apenas [174]se opor ao seu inimigo pela mera resistência da idêntica parte golpeada.”

Certamente,” disse Edric, esperando para suprimir um bocejo; “nada pode ser mais claro.”

Nada,” resumiu o doutor. “Eu estava certo que você admiraria a força do meu raciocínio; de fato, eu vejo o excesso da sua admiração nos bocejos involuntários aos quais você esteve cedendo. Em algumas ocasiões, Edric, o homem livra-se das restrições sociais da sociedade, e irrompe na liberdade completa da natureza honesta e não sofisticada: - dessa forma é com você, Edric. Em tempos antigos, a extensão das mandíbulas era considerada sinônima da extensão do entendimento, e a abertura da boca e dos olhos era considerada como o maior sinal possível de prazer que poderia ser dado. Nas obras de um antigo autor, cuja poesia uma vez, sem dúvida, foi considerada muito fina, uma vez que agora é bastante ininteligível, nós encontramos a passagem seguinte: - ”


E Hodge permaneceu perdido em especulação de boca aberta.’


Novamente,


[175]‘Seu olhos e boca o heroi arreganhou.’


- e diversas outras, as quais -”

Nós deixaremos isso para uma oportunidade mais conveniente, se você desejar,” disse Edric, interrompendo-o. “No presente, favoreça-me com a sua atenção por cinco minutos. Nós não podemos levar todas essas coisas.”

Por que não?” perguntou o doutor, encarando o seu pupilo com sua surpresa; “pela minha parte, eu não penso que nós possamos dispensar um único artigo.”

Esses mantos,” disse Edric, “e aquelas cestas, por exemplo, não podem ser da menor utilidade.”

Eu suplico o seu perdão,” retornou o doutor: “Os mantos são de abesto, e serão necessários para nos proteger de ignição, se nós devemos encontrar qualquer matéria elétrica nas nuvens; e os cestos estão cheios com tampões elásticos para nossos ouvidos e narizes, e tubos e barris de ar comum, para nós respirarmos quando nós chegarmos além da atmosfera da terra.”

Mas que ocasião nós deveremos ter para ir além disso?”

Como pode ser de outra maneira? Certamente você [176]não quer dizer viajar a distância toda no balão? É claro, eu pensei que você adotaria a presente forma da moda de viajar, e, após montar as dezessete milhas ou aproximadamente, o que é necessário para se livrar da atração mundana, esperar lá até que o giro do globo deva trazer o Egito diretamente sob os nossos pés.”

Mas não é a mesma latitude.”

Verdadeiro, eu não pensei nisso! Bem, então,” suspirando profundamente, “eu suponho que nós temos de conseguir sem o cesto?”

Certamente; e sem aquelas caixas e garrafas, também, eu espero.”

Oh não! Nós não podemos conseguir sem aquelas. Aquelas garrafas contêm o meu elixir mágico, que curas todas as doenças meramente pelo odor: - uma nova ideia essa. Você sabe que foi há muito descoberto que a inteira matéria médica poderia ser transportada em um anel, e que todos os instrumentos de cirurgia poderiam ser comprimidos dentro de uma bengala. Mas a ideia de farejar saúde em uma pitada de rapé, eu lisonjeio-me, é exclusivamente minha própria.”

[177]“Muito provável; mas não podemos ficar sobrecarregados com a sua panaceia em nossa viagem aérea.”

Então aquela caixa contém minha bateria galvânica portátil; aquela, meu aparato para produzir e coletar ar inflamável; e aquela, minha máquina para produzir e concentrar o vapor mercúrio, o qual deve servir como o poder propulsor para nos impulsionar adiante, no lugar do vapor; e essas bexigas estão cheias com gás do riso, para o único propósito de manter nossos espíritos elevados.

Os três primeiros serão úteis,” disse Edric; “mas eu positivamente não aceitarei mais.”

Adieu! Adieu! Então, meus tesouros preciosos!” exclamou o doutor, olhando tristemente ao redor: “Querida prole dos meus cuidados! Filhos da minha mente! E eu tenho de abandonar vocês em alguma mão rude, a qual, descuidada do seu valor inestimável, pode dispersar vocês aos ventos? Ai de mim! Ai de mim!”

O café da manhã está pronto, e meu lorde está esperando!” Interrompeu a voz esganiçada de um dos servos de lorde Gustavus.

[178]“Então nós temos de ir!” disse o doutor; e o resto dessa lamentação patética permaneceu para sempre enterrado em seu próprio peito.

lorde Gustavus já estava sentado, quando eles entraram no aposento, com dois cavalheiros, quem ele introduziu aos nossos viajantes como lorde Noodle e lorde Doodle. Esses nobres lordes eram ambos conselheiros de estado, assim como o seu ilustre anfitrião, e tinham alcançado essa alta honra exatamente da mesma maneira, a saber, eles ambos tinham sucedido aos seus respectivos pais. Não é fácil ser muito difuso na descrição deles, visto que eles eram membros daquela fraternidade honorável e numerosa, quem nunca aceitam o problema de julgar por si mesmos, mas, satisfeitos, nadam com a corrente, em qualquer direção que ela possa fluir, e não têm nada sobre eles para os distinguir no grau mais leve da multidão. No presente, lorde Gustavus era a sua estrela-líder e eles, muito apropriadamente, poderiam ser denominados de satélites dele. Dessa forma, quando qualquer nova ideia aparecia, eles cautelosamente evitavam dar uma opinião até que eles descobrissem o que ele pensava dela: - então eles pareceriam sábios, [179]sacudiriam suas cabeças, e diriam, “Exatamente assim!” “Certamente!” “Ninguém pode duvidar disso!” ou alguma dessas outras convenientes frases ripieno, as quais preenchem tão agradavelmente as pausas na conversação, sem requerer nenhum exercício dificultoso dos poderes mentais, quer do ouvinte, quer do falante. Esses cavalheiros agora tinham visitado lorde Gustavus, com o propósito de o acompanhar e a Edric à recepção da Rainha, e, tinham tomado café da manhã, o grupo todo, com a exceção do Dr. Entwerfen, prosseguiu para a corte.

Contudo, quando chegaram, eles descobriram que a Rainha ainda não tinha se levantado. “Sua majestade está atrasada nesta manhã,” observou lorde Maysworth, um cavalheiro carregado de ordens e decorações, dirigindo a lorde Gustavus: - “Eu não estou surpreso,” disse sua senhoria, “pois sua mais graciosa Majestade me disse outro dia que ela dormiu mal por algum tempo.”

É claro, o que lhe causou grande tristeza?” perguntou o dr. Hardman, um pequeno cavalheiro, de aparência satírica, em uma peruca curta.

[180]“Pensando como eu penso,” disse lorde Gustavus gravemente, “e como eu estou certo de que cada um aqui deve pensar, ou, pelo menos, deveria pensar, a falta de sono de sua Majestade é uma circunstância de importância muito séria.”

Oh! Muito!” exclamou lorde Noodle, sacudindo a cabeça. “Muito certamente!” exclamou lorde Doodle, sacudindo a dele.

Por quê?” demandou o doutor; “de que possível consequência isso pode ser para os súditos dela, se sua Majestade dorme corretamente ou tem pesadelos?”

Da maior consequência,” respondeu lorde Gustavus, solenemente.

Nada pode ser maior!” ecoaram seus satélites.

Bem!” observou lorde Maysworth, “de minha parte, eu sou um traidor tão grande quanto a pensar que nós poderíamos existir, mesmo se a Rainha não dormisse de qualquer maneira.”

Ou se ela dormisse para sempre,” ressurgiu o doutor, significativamente.

Oh, nossa!” exclamou lorde Gustavus; “o que [181]se tornaria de nós se o grande sol do hemisfério político estivesse para se pôr!”

Nós temos de observar a ascensão de outro, eu suponho,” disse lorde Maysworth.

Sim,” continuou o dr. Hardman: “e então as energias das pessoas seriam excitadas. Eles querem despertar do seu torpor presente – eles dormiram por tempo demais sob os efeitos paralisantes da tirania. O governo carece de reforma; a corrupção comeu raiz dele, e ela deve ser erradicada antes que a Inglaterra possa ser livre, ou o seu povo feliz. Quisessem os céus que eu pudesse viver para auxiliar no esforço glorioso; para que eu pudesse ver o povo afirmar o direito dele, e o demônio, o Despotismo, afundar sob seus golpes!”

Eu sempre admirei,” disse lorde Maysworth, “a elevada integridade e os princípios finos do digno doutor, os quais não apenas obtiveram para ele o aplauso da Inglaterra, mas a admiração da Europa. A coragem, sabedoria e pureza da mente dele não podem ser exaltadas altamente demais; e todos quem [182]o conhecem concordam em o chamar de amigo firme e devotado do gênero humano. Eu também fui um apoiador humilde dos planos de economia e cerceamento; e fui eu quem teve a honra de sugerir ao conselho, em outro dia, que uma petição humilde deveria ser apresentada a sua Majestade, requisitando, respeitosamente, a ela ordenar uma diminuição das luzes se seu salão, provando incontestavelmente, que haviam, pelo menos, seis mais do que o absolutamente necessário.”

Pensando como eu penso, e como eu estou certo que cada um aqui deve pensar,” começou lorde Gustavus, - mas, antes que ele tivesse tempo de terminar o seu exórdio, as portas dobráveis nos fundos da câmara de audiência forma abertas, e a Rainha apareceu, sentando-se sobre um trono deslumbrante e cercada pelos oficiais da sua casa, todos esplendidamente vestidos.

As cerimônias usuais ocorreram: - Claudia sorriu graciosamente para Edric enquanto ele beijava a mão dela, e inquiriu quando ele intencionava partir. Edric informou-a, pela manhã; quando, condescendendo para expressar arrependimento, e desejando ver-lhe em seu retorno, [183]ela desejou-lhe uma viagem agradável e dispensou-o.

É um dos mais gloriosos atributos da grandeza, ter o poder da conceder grande prazer dizendo muito poucas palavras; todavia, como durante a viagem deles para casa, o lorde Gustavus não pode falar sobre nada exceto sobre a graciosidade da Rainha, sobre a qual ele ainda estava expandindo, quando o balão parou; Edric, embora ele se sentisse agradecido pela gentileza dela, ficou aborrecido por ouvir tanto sobre ela, e apressou-se para o deixar, tão logo ele pudesse, com propriedade. No caminho para o seu apartamento, ele ouviu um barulho estranho e assustador, como a voz de alguém gritando em uma agonia de ira e dor, o qual parecia provir da câmara apropriada pelo seu instruído tutor; e ele estava indo para lá para determinar a causa, quando a forma agitada do filósofo infeliz irrompeu sobre ele.

Triste, de fato, era a condição na qual esse ornamento esplêndido do século XXII agora se apresentava diante dos olhos do seus pupilo assombrado. O rosto dele brilhava como fogo; [184]o chapéu dele foi tirado, e água fluía de cada parte do seu corpo, até que ele parecia a efígie de uma divindade da água em uma fonte.

Aqui está a administração!” bradou ele, tão logo a sua ira permitiu-lhe falar; “aqui está o tratamento para alguém dedicado ao serviço do gênero humano! Mas eu serei vingado, e séculos ainda por vir deverão tremer diante da minha ira.”

Ele continuou dessa maneira; e, estando ocupado demais com essas denúncias horríveis para ser capaz de dar qualquer informação quanto a qual calamidade o tinha trazido a essa situação imprópria, será necessário retornar um pouco para explicar isso para ele.

Quando o dr. Entwerfen deixou a sala do café da manhã de lorde Gustavus, o que ele não fez até um tempo considerável depois do resto do grupo ter saído, ele estava tão absorvido em meditação que ele não sabia exatamente por qual caminho ele estava indo; e, acontecendo infelizmente de ele virar para a direita quando ele deveria ter ido para a esquerda, para sua surpresa infinita, ele descobriu-se na cozinha, em vez do seu próprio escritório.

Contudo, ausente como o doutor estava, a atenção [185]dele logo foi excitada pela cena diante dele. Sendo, como muitos de sua irmandade instruída, um pouco guloso, a indignação dele foi violentamente excitada ao encontrar a cozinheira confortavelmente adormecida em um sofá em um lado do cômodo; enquanto que a carne planejada para o banquete, uma refeição que era então da moda tomar por volta do meio-dia, estava tão confortavelmente descansando dos seus labores no outro. O substituto químico para o fogo, o qual a deveria ter cozido, tendo se esgotado, e o cochilo da cozinheira excluindo toda expectativa razoável de sua reiluminação, a ira do doutor foi acessa, embora o fogo não o fosse, e, em uma ira violenta, ele agarrou o ombro da gentil Celestina, e sacudiu-a até que ela despertou.

Onde eu estou?” exclamou ela, abrindo os olhos.

Em qualquer lugar, exceto onde você deveria estar,” bradou o doutor, em uma fúria. “Olhe, petulante! Olhe para a bela junta de carne, jazendo bastante fria e encharcada em seu próprio vapor.”

Céus!” retornou Celestina, bocejando, “eu realmente estou muito desafortunada hoje! Um acidente infeliz já aconteceu a uma perna de [186]carneiro, a qual devia ter formado parte dos alimentos de hoje; e agora esta peça de bife também está destruída. Eu temo que não haverá nada para o jantar, exceto alguns vegetais sacarinos mucilaginosos, e eles, muito provavelmente, serão fervidos a uma consistência viscosa.”

E que desculpa você pode oferecer para tudo isso?” exclamou o doutor, a voz dele tremendo de paixão.

Era inevitável,” respondeu Celestina, friamente. “Enquanto eu estava lidando um aspecto do Apolo Belvidere nesta manhã, tendo aplicado descuidadamente calórico ao recipiente contendo a perna de carneiro, o fluido aquoso no qual ela estava imersa, evaporou, e a comida tornou-se completamente calcinada; ao passo que o outro assunto-”

Quieta, quieta!” interrompeu o doutor; “Eu não posso suportar ouvir você mencionar isso. Oh, certamente Jó mesmo nunca sofreu um tal teste da sua paciência. De fato, as dificuldades dele eram escassamente dignas de serem mencionadas, pois ele nunca foi amaldiçoado com servos instruídos!”

Dizendo isso, o doutor retirou-se, lamentando o seu [187]destino difícil por não ter nascido naqueles dias idílicos quando os cozinheiros não obtinham nada exceto suas aves; enquanto que o peito de Celestina arquejava com indignação diante da reclamação dele. Logo uma oportunidade para vingança ofereceu-se; e, vendo o manobrista a vapor do doutor, ela traiçoeiramente aplicou uma porção dupla de calórico: em consequência da qual a máquina explodiu no ato de escovar a gola do casaco, e descarregando toda água escaldante contida em seu caldeirão sobre ele, reduziu-o ao estado melancólico que nós já mencionamos.

O medo do ridículo acrescido a esse incidente, em uma grande medida reconciliou o doutor com o projeto de Edric de uma partida rápida, e, na manhã seguinte, eles desejavam adieu a lorde Gustavus e, entrando em seu balão, navegaram para o Egito.


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ORIGINAL:

LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.162-187. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n176/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XV Os Bancos Musicais

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[108]XV Os Bancos Musicais


Em meu retorno à sala de estar, eu descobri que a atualidade de Mahaina tinha se desgastado. As damas estavam meramente guardando o seu trabalho e preparando-se para sair. Eu perguntei a elas onde elas estavam indo. Elas responderam, com um certo ar de reserva, que elas estavam indo ao banco para obter algum dinheiro.

Agora eu já tinha inferido que os assuntos mercantis do erewhonianos eram conduzidos em um sistema totalmente diferente do nosso próprio; contudo, eu tinha concluído pouco até agora, exceto que eles tinham dois distintos sistemas comerciais, dos quais um apelava mais fortemente à imaginação do que qualquer coisa com a qual nós estávamos acostumados na Europa, na medida que os bancos que eram conduzidos nesse sistema eram decorados na mais profusa maneira, e todas as transações mercantis eram acompanhadas por música, de maneira que eles eram chamados de Bancos Musicais, embora a música fosse horrível para um ouvido europeu.

Quanto ao sistema mesmo, eu nunca consegui o entender, nem eu consigo fazer isso agora: eles têm um código em conexão com ele, o qual eu não tenho a mais leve dúvida de que eles entendem, mas nenhum estrangeiro pode ter a esperança de conseguir isso. Uma regra funciona a favor, e contra, outra como em uma gramática mais complicada, ou como na pronúncia chinesa, na qual me contaram que a mais leve mudança em acentuação ou tom de voz altera o significado de uma sentença inteira. O que quer que seja incoerente na minha descrição deve ser referido ao fato de eu nunca ter alcançado uma compreensão completa do assunto.

Contudo, até onde pude inferir qualquer coisa certa, eu deduzi que eles têm duas moedas distintas, cada uma sob o controle dos seus próprios bancos e códigos mercantis. Supunha-se que uma dessas (aquela com os Bancos Musicais) devia ser o sistema, e distribuir a moeda na qual todas as transações monetárias deveriam ser levadas a cabo; e, até onde eu conseguia ver, todos que desejavam ser considerados respeitáveis, mantinham uma balança maior ou menor nesses bancos. Por [109]outro lado, se há uma coisa da qual eu estou mais certo do que outra é que o montante assim mantido não tinha valor comercial direto no mundo externo; eu estou certo de que os gerentes e caixas do Bancos Musicais não eram pagos na sua própria moeda. O sr. Nosnibor costumava ir a um desses bancos, ou melhor, ao grande banco-mãe da cidade, algumas vezes, mas não muito frequentemente. Ele era um pilar de um desses outros tipos de bancos, embora ele parecesse ter também algum cargo menor nos musicais. As damas geralmente iam sozinhas; como de fato era o caso na maioria das famílias, exceto em ocasiões de estado.

Há muito eu desejava conhecer mais sobre esse sistema estranho, e tinha o maior desejo de acompanhar minha anfitriã e suas filhas. Eu tinha visto elas saírem quase toda manhã desde a minha chegada e tinha notado que elas levavam suas bolsas nas mãos, não exatamente ostentosamente, contudo, meramente como aqueles que as encontrassem deveriam ver para onde elas estavam indo. Contudo, eu mesmo ainda nunca tinha sido chamado para ir com elas.

Não é fácil comunicar as maneiras de uma pessoa por palavras, e eu dificilmente posso dar qualquer ideia do sentimento peculiar que me afetou quando eu vi as damas prestes a saírem para o banco. Havia alguma coisa de arrependimento, alguma coisa como se elas desejassem levar-me com elas, mas não quisessem me perguntar, e, todavia, como se eu dificilmente pedisse para ser levado. Contudo, eu estava determinado a trazer a questão de ir com elas à baila com minha anfitriã, e, após uma pequena negociação, e muitas perguntas quanto a se eu estava perfeitamente certo de que eu mesmo desejava ir, foi decidido que eu poderia fazê-lo.

Nós passamos por várias ruas de casas mais ou menos consideráveis e, finalmente virando em um canto, nós descobrimos uma grande praça, no fim da qual ficava um prédio magnificente, de uma arquitetura estranha mas nobre, e de grande antiguidade. Ele não se abria diretamente para a praça, havendo um anteparo, através do qual ficava uma arcada, [110]entre a praça e os recintos reais do banco. Passando sob a arcada nós entramos em um relvado verde, em volta da qual corria uma arcada ou claustro, enquanto, diante de nós erguiam-se as torres majestosas do banco e sua frente venerável, a qual era dividida em três profundos recessos e adornada com todos os tipos de mármores e muitas esculturas. Do outro lado havia belas árvores antigas nas quais os pássaros estavam ocupados à centena, e um número de casas pitorescas mais substanciais de aparência singularmente confortáveis; elas ficavam situadas em meio a pomares e jardins, e deram-me uma impressão de grande paz e abundância.

De fato, não tinha sido um erro dizer que esse prédio era algo que apelava à imaginação; ele fazia mais – ele carregava tanto imaginação quanto julgamento por tempestade. Era um épico em pedra e mármore, e tão poderoso foi o efeito que ele produziu em mim que, enquanto eu o contemplava, eu fiquei encantado e derretido. Eu senti-me mais consciente da existência de um passado remoto. Alguém sempre sabe disso, mas o conhecimento nunca é tão vívido como na presença de alguma testemunha da vida de eras passadas. Eu senti como quão curto, em um espaço de vida humana, era o período da nossa própria existência. Eu fiquei mais impressionado com a minha própria insignificância, e muito mais inclinado a acreditar que as pessoas cujo sentido de aptidão das coisas era igual à elevação de um trabalho manual tão sereno, dificilmente eram prováveis de estarem erradas nas conclusões que elas podem encontrar de qualquer assunto. Meu sentimento foi de que a moeda deste banco deve ser a correta.

Nós cruzamos o relvado e entramos no prédio. Se o exterior tinha sido impressionante, o interior ainda o era mais. Ele era muito alto e dividido em várias partes por paredes que descansavam sobre pilares massivos: as janelas estavam cheias com vitrais descrevendo os principais incidentes comerciais do banco por muitas eras. Em uma parte remota do banco haviam homens e meninos cantando; [111]isso foi a única característica perturbadora, pois como a escala musical ainda era desconhecida, não havia música no país que pudesse ser agradável a um ouvido europeu. Os cantores pareciam ter derivado suas inspirações a partir das canções dos pássaros e do lamento do vento, os quais, por fim, eles tentavam imitar em cadências melancólicas que, às vezes, degeneravam-se em um uivo. Para meu pensamento o barulho era horrendo, mas ele produzia um grande efeito sobre minhas companheiras, quem se declaravam muito tocadas. Tão logo a cantoria terminou, as damas pediram-me para permanecer onde eu estava enquanto elas entravam no lugar a partir do qual o canto parecia ter saído.

Durante a ausência delas, certas reflexões forçaram-se sobre mim.

Em primeiro lugar, surpreendeu-me como estranho que o prédio devesse estar tão quase vazio; eu estava quase sozinho, e os poucos além de mim mesmo tinham sido conduzidos por curiosidade, e não tinham intenção de fazer negócios com o banco. Mas poderia haver mais dentro. Eu movi-me sorrateiramente para a cortina e aventurei-me a puxar a ponta extrema dela de um lado. Não, dificilmente havia alguém ali. Eu vi um grande número de caixas, todos as mesas deles prontas para pagar cheques, e um ou dois que pareciam os parceiros gerentes. Eu também vi minha anfitriã e as filhas dela, e duas ou três outras damas; também três ou quatro mulheres idosas e os meninos de um dos vizinhos Colégios de Insensatez; mas não havia mais ninguém. Não parecia como se o banco estivesse fazendo um negócio muito grande; e, contudo, sempre me contaram que todos na cidade lidam com o estabelecimento.

Eu não posso descrever tudo que ocorria nesses recintos interiores, pois uma pessoa de aparência sinistra em uma toca negra veio e fez gestos desagradáveis para mim por eu estar espiando. Aconteceu de eu ter em meu bolso uma das peças do Banco Musical, a qual tinha sido dada a mim pela sra. Nosnibor, assim eu tentei suborná-lo com ela; mas tendo visto o que era isso, ele [112]ficou tão irado que eu tive de lhe dar uma peça do outro tipo de dinheiro para o pacificar. Quando eu tinha feito isso, ele tornou-se cortês diretamente. Tão logo ele tinha ido embora, eu aventurei-me a dar uma segunda olhada, e vi Zulora no ato mesmo de entregar uma peça de papel, a qual se parecia com um cheque, para um dos caixas. Ele não a examinou, mas, colocando sua mão em um antigo cofre próximo, ele puxou uma quantidade de peças de metal aleatoriamente e entregou-as sem as contar; nem Zulora as contou, mas colocou-as em sua bolsa e retornou ao seu assento após deixar cair umas poucas peças da outra cunhagem dentre de uma caixa de esmolas que ficava ao lado do caixa. A sra. Nosnibor e Arowhena agiram da mesma maneira, mas um pouco depois elas deram tudo (até onde eu pude ver) que elas tinham recebido do caixa de volta para um sacristão, quem, eu não tenho dúvida, colocou de volta dentro do cofre do qual tinha sido tomado. Elas começaram a ir na direção da cortina; onde eu a deixei cair e retirei-me para uma distância razoável.

Logo elas se juntaram a mim. Por alguns minutos todos nós mantivemos silêncio, mas, finalmente, eu aventurei-me a observar que o banco não estava tão ocupado hoje como ele provavelmente frequentemente era. Diante disso, a sr. Nosnibor disse que, de fato, era realmente melancólico ver a pouca atenção que as pessoas concediam a mais preciosa de todas as instituições. Eu não consegui dizer nada em resposta, mas eu sempre fui da opinião de que a maior parte da humanidade conhece aproximadamente onde eles obtém o que lhe faz bem.

A sra. Norsnibor prosseguiu para dizer que eu não devo pensar que havia qualquer falta de confiança no banco porque eu tinha visto tão poucas pessoas lá; o coração do país era completamente devotado a esses estabelecimentos, e qualquer sinal deles estarem em perigo traria suporte dos mais inesperados quartéis. Era apenas porque as pessoas sabiam que eles estavam tão muito seguros que, em alguns casos (como ela lamentava dizer no do sr. Nosnibor), elas sentiam que o seu suporte era desnecessário. Além disso, essas instituições [113]nunca se afastavam muito dos mais seguros e mais aprovados princípios bancários. Dessa forma, eles nunca permitem juros sobre depósito, uma coisa agora frequentemente realizada por certas companhias de bolha, as quais, realizando comércio ilegítimo, afastaram muito consumidores; e mesmo os acionistas agora eram menos do que antes, devido às inovações dessas pessoas inescrupulosas, pois os Bancos Musicais pagavam pouco ou nenhum dividendo, mas dividiam seus lucros através de bônus sobre as ações uma vez em cada trinta mil anos; e como agora eram apenas dois mil anos desde que houve uma dessas distribuições, as pessoas sentiam que elas não poderiam ter esperança de outra em sua época e prefeririam investimentos através dos quais eles obtinham retorno mais tangível; tudo isso, ela disse, era muita melancolia para pensar.

Tendo feito essas últimas confissões, ela retornou à sua afirmação original, a saber, que todos neste país realmente suportava esses bancos. Quanto à escassez das pessoas, e a ausência dos fisicamente aptos, ela indicou para mim, com alguma justiça, que isso era exatamente o que nós deveríamos esperar. Os homens que eram mais familiarizados com a estabilidade das instituições humanas, tais como os advogados, homens de ciência, doutores, estadistas, pintores e semelhantes, eram exatamente aqueles mais prováveis de serem enganados pelas suas próprias realizações fantasiosas, e serem tornados indevidamente suspeitos por seu desejo licencioso por grande retorno presente, o que está na raiz de nove décimos da oposição; pela sua vaidade, a qual os incitaria a simular superioridade para os prejuízos do vulgo; e pelos ferrões da sua própria consciência, a qual estava constantemente os censurando da maneira mais cruel por causa dos seus corpos, os quais geralmente estavam doentes.

Que o intelecto de uma pessoa (ela continuou) não possa nunca ser tão correto, a menos que o corpo dela esteja em saúde absoluta, ele nunca pode formar nenhum julgamento que valha a pena ter em questões desse tipo. O corpo é tudo: talvez ele não tenha de ser um corpo tão forte (ela disse isso porque viu que eu estava pensando nas [114]pessoas velhas e de aparência doente que eu tinha visto no banco), mas ele tem de estar em saúde perfeita; nesse caso, quanto menos força ativa ele tiver, mas livre ele estaria para o trabalho do intelecto e, portanto, mais correta a conclusão. Portanto, na realidade, as pessoas que eu tinha visto no banco eram exatamente aquelas cujas opiniões valia a pena ter; eles declaravam suas vantagens serem incalculáveis, e até professavam considerar o retorno imediato ser muito maior do que aquele ao qual eles tinham direito; e assim ela seguiu, nem ela parou até que nós tínhamos retornado à casa.

Ela poderia dizer o que desejasse, mas os seus modos não transmitiam nenhuma convicção, e posteriormente eu vi sinais da indiferença geral com esses bancos que não deviam ser equivocadas. Os seus apoiadores frequentemente a negavam, mas a negação geralmente era tão oculta quanto a adicionar outra prova da sua existência. Em pânicos comerciais, e em épocas de dificuldade geral, o povo, como uma massa, nem mesmo pensava em se voltar para esses bancos. Alguns poucos poderiam fazê-lo, alguns a partir de hábito e treinamento inicial, alguns a partir de instinto que nos incita a agarrar qualquer bagatela quando nos consideramos afundando, mas alguns poucos a partir da crença genuína de que os Bancos Musicais poderiam salvá-los da ruína, se eles fossem incapazes de satisfazer os seus compromissos com outros tipos de moedas.

Em conversação com um dos gerentes do Banco Musical eu tentei insinuar isso tão evidentemente quanto a polidez permitiria. Ele disse que ultimamente isso tinha sido mais ou menos verdadeiro; mas que agora eles tinham colocado novas janelas com vitrais em todos os bancos do país, e reparado os prédios, e alargado os órgãos; além disso, os presidentes tinham aprendido a deslocar-se de ônibus e a falar agradavelmente com as pessoas nas ruas, e a lembrar-se das idades dos seus filhos e de dar-lhes coisas quando eles eram malcriados, de maneira que, daqui em diante, tudo seguiria tranquilamente.

Mas você não fez nada com o dinheiro mesmo?” disse eu, timidamente.

[115]“Não é necessário,” ele respondeu; “isso não é minimamente necessário, eu asseguro a você.”

E contudo, qualquer um poderia dizer que o dinheiro dado para esses bancos não era aquele com o qual as pessoas compravam o seu pão, comida e roupas. À primeira vista, ele era parecido com ele, e frequentemente era estampado com designs que eram de grande beleza; novamente, ele não era de cunhagem espúria, feito com a intenção de que ele deveria ser confundido com o dinheiro em uso efetivo; era mais como um dinheiro de brinquedo, ou as fichas usadas para certos jogos de cartas; pois, a despeito da beleza dos designs, o material sobre o qual eles eram estampados era quase tão sem valor quanto possível. Alguns eram cobertos com papel laminado, mas, francamente, a maior parte era de um metal base barato, a natureza exata do qual eu fui incapaz de determinar. De fato, eles eram feitos de uma grande variedade de materiais, ou, talvez, mais precisamente, de ligas, algumas das quais eram duras, enquanto outras se curvavam facilmente e assumiam quase qualquer forma que o seu possuidor pudesse desejar no momento.

É claro, todos sabiam que o valor comercial deles era nil, mas todos aqueles que desejavam ser considerados respeitáveis consideravam obrigação deles reter umas poucas moedas em sua posse, e deixarem-nas ser vistas, de tempos em tempos, em suas mãos e bolsas. Não apenas isso, mas ele se fixariam em que a moeda corrente do reino era escória em comparação com a cunhagem do Banco Musical. Contudo, talvez a coisa mais estranha de todas era que, às vezes, essas pessoas mesmas tirariam sarro, de maneiras muito pequenas, do inteiro sistema; de fato, dificilmente havia alguma insinuação contra isso que eles não tolerariam e até aplaudiriam em seus jornais cotidianos, se escrita anonimamente, enquanto que, se a mesma coisa fosse dita sem ambiguidade em suas caras – caso nominativo, verbo e acusativo estando todos em seus locais corretos, e a dúvida impossível – eles se considerariam muito seria e justamente indignados, e acusariam o falante de estar adoentado.

[116]Eu nunca pude entender (nem posso eu agora o fazer completamente, embora eu comece a enxergar melhor o que eles querem dizer) porque uma única moeda não deveria ser suficiente para eles; parecer-me-ia como, dessa maneira, todas as suas negociações teriam sido grandemente simplificadas; mas eu era respondido com um olhar de horror se alguma vez eu me atrevesse a insinuar isso. Mesmo aqueles que, para o meu conhecimento, mantinham apenas dinheiro suficiente pelo qual jurar nos Bancos Musicais, chamariam os outros bancos (onde seus títulos ficavam) de frios, amortecidos, paralisantes e semelhantes.

Contudo, eu notei outra coisa, a qual me impressionou muito. Eu fui levado à inauguração de um desses bancos em uma cidade vizinha, e vi uma grande reunião de caixas e gerentes. Eu sentei-me oposto a eles e examinei atentamente os rostos deles. Eles não me agradaram; com algumas exceções, eles careciam da verdadeira franqueza erewhoniana; e um número igual de qualquer outra classe teria parecido com homens mais felizes e melhores. Quando eu os encontrava nas ruas, eles não se pareciam com outras pessoas, mas, como regra, tinham uma expressão constrangida em seus rostos, a qual me afligia e deprimia-me.

Aqueles que vinham do campo eram melhores; eles pareciam ter vivido menos como uma classe separada, e ser mais livres e mais saudáveis; mas a despeito de eu não ver alguns poucos que parecessem benignos e nobres, eu não pude evitar de perguntar a mim mesmo, relativo ao maior número daqueles a quem eu encontrei, se Erewhon seria um país melhor se a expressão deles devesse ser transferida para as pessoas em geral. Eu respondia-me enfaticamente, não. A expressão nos rostos dos altos Ydgrunitas era aquela que alguém desejava difundir, e não aquela dos caixas.

A expressão de um homem é o seu sacramento; ela é o sinal externo e visível da sua graça interna e espiritual, ou da falta de graça; e conforme eu examinava a maior parte desses homens, eu não pude evitar de sentir que deve haver alguma coisa em [117]suas vidas que tinha tolhido o seu desenvolvimento natural, e que eles teriam sido mais saudavelmente dispostos em qualquer outra profissão. Eu sempre me sentia triste por eles, pois em nove de dez casos eles eram pessoas bem-intencionados; no geral, eles eram muito pobremente pagos; como uma regra, as constituições deles estavam acima de suspeita; e havia instâncias sem número registradas do seu autossacrifício e generosidade; mas eles tinha tido o infortúnio de terem sido traídos em uma falsa posição em uma idade onde, pela maior parte, o julgamento deles não estava maduro e, depois, sido mantidos em ignorância estudada das dificuldades reais do sistema. Mas isso não torna a posição deles uma menos falsas, e os maus efeitos dela sobre eles mesmos eram inconfundíveis.

Poucas pessoas falariam bastante aberta e livremente diante deles, o que me impressionou como um sinal muito ruim. Quando eles estavam na sala, todos falariam como se toda a moeda exceto aquela dos Bancos Musicais devesse ser abolida; e todavia eles sabiam perfeitamente bem que até os caixas mesmos dificilmente usavam o dinheiro dos Bancos Musicais mais do que as outras pessoas. Era esperado deles que eles devessem parecer fazê-lo, mas isso era tudo. Os menos pensativos deles não pareciam particularmente infelizes, mas muitos eram evidentemente doentes no coração, embora talvez eles dificilmente o soubessem, e não teriam admitido sê-lo. Alguns poucos eram oponentes do sistema inteiro; mas esses eram passíveis de serem demitidos do seu emprego em qualquer momento, e isso os tornava muito cuidadosos, pois um homem que uma vez tenha sido caixa em um Banco Musical estava fora de campo para outros empregos, e geralmente era inadequado para eles em razão do curso do tratamento que era chamado de sua educação. De fato, ela era uma carreira da qual se retirar era virtualmente impossível, e dentro da qual jovens homens geralmente eram induzidos a entrar antes que eles pudessem ser razoavelmente esperados, considerando seu treinamento, ter formado quaisquer opiniões próprias. De fato, quietamente eles era induzidos, pelo que nós na [118]Inglaterra deveríamos chamar de influência indevida, dissimulação e fraude. De fato, poucos eram aqueles que tinham a coragem para insistir em verem ambos os lados da questão antes que eles se comprometessem com o que praticamente era um salto no escuro. Alguém teria pensado que cautela nesse aspecto teria sido um princípio elementar, - uma das primeiras coisas que um homem honorável ensinaria para o seu filho entender; mas na prática isso não era assim.

Eu até vi casos nos quais os pais compraram o direito de apresentação ao ofício de caixa em um desses bancos, com a determinação fixa de que algum dos seus filhos (talvez uma mera criança) devesse preenche-lo. Ali estava o rapaz mesmo – crescendo com toda promessa de se tornar um homem bom e honorável – mas completamente sem cautela relativa ao calçado de ferro que o seu protetor natural estava providenciando para ele. Quem poderia dizer se a coisa inteira não terminaria em uma mentira de uma vida e irritação vã para escapar? Eu confesso que havia poucas coisas em Erewhon que me chocaram mais do que isso.

Contudo, nós fazemos alguma coisa não muito diferente disso mesmo na Inglaterra, e, enquanto se diz respeito ao sistema comercial dual, todos os países têm, e têm tido, uma lei da terra, e também outra lei, a qual, embora professadamente mais sagrada, tinha muito menos efeito em sua vida e ações diárias. Parece como se a necessidade de alguma lei suplementar e, algumas vezes, até conflitando com a lei da terra, deve jorrar a partir de alguma coisa que jaz profundamente na natureza do homem; de fato, é difícil pensar que o homem alguma vez poderia ter-se tornado homem em absoluto, exceto através da evolução gradual de uma percepção de que, embora este mundo assome tão grande quando nós estamos neles, ele pode parecer uma coisa pequena quando saímos dele.

Quando o homem cresceu até a percepção que no eterno é e não é da natureza, o mundo e tudo que ele contem, incluindo o homem, é, ao mesmo tempo, visível e invisível, ele sentiu a necessidade de duas regras de vida, uma para [119]o lado visível e outra para o invisível das coisas. Para as leis afetando o mundo visível ele reivindicou a sanção dos poderes visíveis; para o invisível (do qual ele nada conhece, exceto que existe e é poderoso) ele apelou para o poder invisível (do qual, novamente, ele não conhece nada, exceto que existe e é poderoso), ao qual ele dá o nome de Deus.

Algumas observações erewhonianas relativas ao entendimento do embrião não nascido, que eu me arrependo que meu espaço não me permitirá estabelecer diante do leitor, conduziram-me a concluir que os Bancos Musicais erewhonianos, e talvez os sistemas religiosos de todos os países, são agora mais ou menos uma tentativa de suportar a insondável e inconsciente sabedoria instintiva de milhões de gerações passadas, contra o comparativamente raso e consciente raciocínio e as conclusões efêmeras extraídas daquelas dos últimos trinta ou quarenta.

A característica salvadora do sistema do Banco Musical erewhoniano (enquanto distinto das visões quase idolatras que coexistem com ele, e nas quais eu tocarei depois) é que, embora ele testemunhasse a existência de um reino que não é deste mundo, ele não fez tentativa de perfurar o véu que o oculta dos olhos humanos. É aqui que quase todas as religiões erram. Os sacerdotes delas tentam fazer nós acreditarmos que eles conhecem mais sobre o mundo invisível do que aqueles cujos olhos estão cegos pelo visível, podem alguma ver conhecer – esquecendo-se de que, enquanto negar a existência de um reino invisível é ruim, pretender que nós conhecemos mais sobre ele do que a sua simples existência não é melhor.

Este capítulo já é mais longo do que eu pretendia, mas eu devo gostar de dizer que, a despeito da característica salvadora que mencionei há pouco, eu não posso deixar de pensar que os erewhonianos estão na véspera de alguma grande mudança em suas opiniões religiosas ou, pelo menos, naquela parte dela que encontra expressão através dos seus Bancos Musicais. Até onde eu pude ver, completamente noventa por cento da população da [120]metrópole olhava para esses bancos com alguma coisa não muito distante do desdém. Se for assim, qualquer evento tão surpreendente, como é certo de surgir mais cedo ou mais tarde, pode servir como núcleo para uma nova ordem de coisas que estarão mais em harmonia tanto com as cabeças quanto com os corações do povo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 108-120. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/108/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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