Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XV Navegando Adiante

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[186]Quando Felix acordou, ele soube imediatamente, através da altura do sol, que a manhã estava muito avançada. Jogando fora o manto, ele colocou-se de pé, mas imediamente se agachou novamente, pois uma embarcação estava passando a apenas uma pequena distância da costa, e quase oposta ao acampamento dele. Ela tinha dois mastros, e a partir das bandeiras ondulando, os numerosos estandartes e os movimentos de tantos homens a bordo, ele reconheceu-a ser um navio de guerra. Ele estava ansioso a fim de que ele não devesse ser visto, e arrependeu-se de que a canoa dele estivesse tão exposta, pois o arbusto perto do qual ele a aterrisou ocultava-a a partir de um único lado. Como a costa estava tão vazia e aberta, se eles olhassem naquela direção os homens a bordo dificelmente falhariam em a ver, até poderiam distingui-lo. Mas, se eles estivessem muito engajados com os seus próprios assuntos, ou mantivessem uma observação descuidada, nenhuma indicação parece ter sido discernida, nenhum bote foi baixado.

Ele observou o navio de guerra por quase uma hora antes que ele se aventurasse a mover-se. O curso dele era para o leste, dentro da franja de ilhas. De que ele não era nem irlandês nem [187]galês, ele ficou certo a partir da forma e das bandeiras dele; eles estavam distantes demais para os desenhos exatos sobre eles serem vistos, mas suficientemente perto para ele saber que eles não eram aqueles exibidos pelos estrangeiros. Ele navegava rápido, tendo o vento quase à popa, o que era adequado às suas duas velas quadradas.

O vento tinha subido durante a noite, e agora soprava quase uma tempestade, de maneira que ele viu que precisava abandonar pelo presente o seu projeto de navegar para o mar aberto. As ondas ali eram altas demais para a canoa dele, a qual flutuava baixo na água, e tinha apenas aproximadamente seis polegadas de borda livre. Elas banhariam-na e, possivelmente, inundar-la-iam. Apenas dois cursos estavam abertos para ele: ou navegar no meio das ilhas, sob o abrigo da terra, ou permanecer onde ele estava até que a brisa moderasse. Se ele navegasse no meio das ilhas, seguindo o curso para o norte do navio mercante que ele tinha observado na tarde anterior, isso o conduziria para além de Eaststock, o porto oriental de Sypolis, cidade que, ela mesma no interior da terra firme, tinha dois portos, com o ocidental dos quais (Weststock) ela tinha comunicação através da água.

Devesse ele continuar a navegar, ele logo alcançaria aquela parte do continente setentrional que estava ocupada pelos postos avançados irlandeses. Por outro lado, seguir o navio de guerra, leste pelo sul, ele sabia, trá-lo-ia para perto da grande cidade de Aisi, famosa pelo seu comércio, suas riquezas e a disposição guerreira do seu rei, Isembard. Ele era o reconhecido líder das forças da Liga; mas contudo, com a inconsistência da idade, atacava [188]outros membros dela. A sua furiosa energia estava sempre perturbando o mundo, e Felix não tinha dúvida de que agora ele estava em guerra com um ou outro, e que o navio de guerra que ele tinha visto estava a caminho para o assistir ou os seus inimigos. Uma das possibilidades que o tinham impelido à sua viagem era servir a algum rei ou comandante, e, dessa forma, gradualmente, ascender a si mesmo a comando.

Tais aventuras eram muito comuns, cavaleiros frequentemente partindo em tais expediçõe quando insatisfeitos com seus próprios soberanos, e, usualmente, eles eram muito bem recebicos como uma adição à força do acampamento que eles buscavam. Mas havia esta diferença: que semelhantes cavaleiros portavam com eles recomendação substancial, quer numerosos retentores bem armados e acostumados à batalha, tesouro considerável, quer, pelo menos, uma reputação por proeza no campo de batalha. Felix não tinha nada para oferecer, e por nada, nada é dado.

O mundo não reconhecia valor intrínseco ou gênio potencial. O gênio deve alcançar algum resultado sólido antes que ele seja aplaudido e recebido. O arquiteto desconhecido pode dizer: “Eu tenho um projeto em minha mente para um castelo inexpugnável.” Mas o mundo não pode ver ou apreciar o mero projeto. Se, por qualquer sacríficio pessoal de tempo, dignidade ou amor-próprio, o arquiteo, após longos anos, pode persuadir alguém a permitir que ele construa o castelo, para colocar o seu projeto em rocha sólida, contra a qual esquadrões podem bater suas cabeças em vão, então ele é reconhecido. Então, há um resultado tangível.

Felix estava na posição do arquiteto. Ele acreditava [189]que tinha ideias, mas ele não tinha nada de substancial, nenhum resultado, para o qual apontar. Portanto, ele tinha apenas pouca esperança de sucesso, e a sua natural arrogância e orgulho revoltavam-se contra se aplicar para um recrutamente que deve ser acompanhada por muita humilhação pessoal, uma vez que, na melhor ds hipóteses, ele apenas poderia começar nas posições comuns. A ideia mesma de pedir era repugnante para ele. Contudo, o pensamento Aurora, atraía-o.

O orgulho era falso, ele disse a si mesmo, e surgia a partir uma estima muito elevada de suas próprias habilidades; ou era consequência de viver por tanto tempo inteiramente isolado do mundo. Ele reconheceu para si mesmo que não tinha sido batido a esse nível. Cheio de devoção para com Aurora, ele resolveu humilhar a si mesmo, buscar o serviço mais humilde no acampamento do Rei Isembard, curvar o seu espírito às ordens de homens acima dele em posição social, mas abaixo dele em nascimento e habilidade, submeter-se às indignidades sem número da vida de um soldado comum.

Ele prosseguiu para lançar a canoa, e já tinha quase colocado o cofre a bordo quando lhe ocorreu que as dificuldades que ele tinha encontrado na noite anterior, quando sua canoa foi tão quase perdida, surgiram a partir da sua ignorância dos canais. Seria aconselhável subir a colina e cuidadosamente observar a costa tão longe quanto possível antes de partir. Ele assim o fez. O navio de guerra estava vísivel a partir do topo, mas, enqunato ele observava, ele ficou oculto pelas ilhas intervenientes. A espuma branca e a aparência furiosa da distante água aberta na direção leste revelaram quão sábio ele tinha sido de não tentar [190]a exploração dela. Protegido pela terra o vento estava firme; acolá, onde a ventania atinge a superfície com toda a sua força, as ondas eram grandes e poderesas.

A partir deste ponto ele pôde ver quase a inteira extensão do estreito, e, olhando fixamente na direção através da qual ele tinha vindo, ele via alguns botes cruzando à distância. Como eles se moviam tão lentamente, e pareciam tão amplos, ele conjectutou que eles eram barcos de fundo chato, e, esforçando os olhos, ele imaginou que detectou cavalos a bordo. Ele observou quatro atravessarem e logo o primeiro barco de fundo chato retornou, como se em busca de outra carga. Ele agora observava que havia uma rota terrestre pela qual viajantes e carroções desciam a partir do norte, e cruzavam o estreito por uma balsa. Parecia que a balsa não estava na parte mais estreita do estreito, mas mais próxima de sua boca ocidental, onde as costas eram planas e cobertas com juncos e bandeiras. Ele ponderou que não tinha visto nada dos lugares de desembarque, ou dos botes, ou algum sinal do tráfego quando ele passou, mas concluiu que a trilha estava oculta em meio ao denso crescimento de juncos e bandeiras, e que os barcos de fundo chato, não estando em uso naquele dia, tinham sido arrastados para cima e talvez cobertos com galhos verdes para os abrigar do calor do sol do verão.

Contudo, o fato da existência dessa rota dava importância adicional ao estabelecimento de um forte na costa do estreito, como ele há muito tinha contemplado. Por agora, o primeiro bote de fundo chato tinha obtido outra carga, e estava atravessando novamente o canal. Era evidente que uma caravana de viajantes ou mercadores tinha chegado, tais pessoas usualmente viajando [191]em grandes corpos por segurança, de maneira que, frequentemente, as rotas ficavam completamente desertas por semanas e então, subitamente, cobertas de pessoas. De fato, elas eram rotas e não estradas; meras trilhas usadas através das florestas e sobre as colinas, frequentemente intransponíveis a partir de inundações.

Ainda mais satisfeito de que sua ideia original de um castelo aqui estava fundamentada em uma estimativa correta do valor do ponto, Felix resolveu manter a concepção para si mesmo, e não novamente a arriscar com outros, quem poderiam o desprezar mas adotar o projeto dele. Com uma última longa olhada fixa para a estreita faixa de água que formava a parte central, por assim dizer, de seus muitos planos, ele desceu da colina e empurrou a canoa.

Desta vez, o seu curso deu-lhe muito menos problema que no dia anterior, quando, frequentemente, ele teve de mudar a sua trajetória. A brisa firme e forte vinha da terra, da qual ele estava perto demais para que quaisquer ondas surgirem, e hora após hora passaram-se sem nenhuma necessidade de deslocar a vela, mais do que para afrouxar ou apertar as escotas conforme o curso da terra variava. Gradualmente, o vento cruzava mais e mais com o curso dele, em ângulos retos para ele, e então começava a cair à popa enquanto ele descrevia um arco e a terra projetava-se na direção norte.

Ele viu várias vilas pequenas na costa, e passou por uma baía estreita, a qual parecia, de fato, penetrar na terra mais profundamente do que ele efetivamente conseguia ver. Subitamente, após quatro ou cinco horas de navegação, ele viu a torre de uma igreja através de colinas cobertas por bosques. Isso, ele sabia, tem de indicar a posição de Aisi. A questão agora surgiu, se ele [192]deveria navegar para dentro do porto, quando ele, é claro, imediatamente seria visto e teria de passar pelo exame dos oficiais; ou deveria ele desembarcar e ir a pé para a cidade? Uma reflexão de minuto assegurou-lhe que a última opção era o melhor plano, pois a canoa dele era de construção tão incomum que ela seria mais do que cuidadosamente examinada e não improvavelmente os pequenos tesouros deles seriam descobertos e tomados. Portanto, sem hesitação e congratulando a si mesmo de que não havia embarcações à vista, ele apressou-se com a canoa para a costa, em meio às bandeiras e juncos que faziam fronteira com ela.

Ele puxou-a para cima tão longe quanto a sua força permitia, e não apenas baixou a vela, mas desmontou o mastro; em seguida, cortando uma quantidade de juncos mortos, ele espalhou-os sobre ela, de modo que, a menos que um bote passasse muito perto da terra, ela não seria vista. Enquanto fez uma refeição, ele considerou como faria melhor em proceder. As únicas armas nas quais ele se distinguia eram o arco e a flecha; portanto, claramente, se ele desejava uma ocupação, ele levaria esses com ele e exibiria a sua habilidade. Mas bem ele conhecia a completa ausência de lei e justiça, exceto para o poderoso. O arco dele, o qual ele tão grandemente valorizava, e o qual estava tão bem amadurecido, e poderia ser dependido, poderia ser tomado dele.

As flechas dele, tão cuidadosamente preparadas a partir de madeira escolhida e com pontas de aço, poderiam ser tomadas. Tanto o arco quanto as flechas eram muito superiores àqueles usados pelos caçadores e pela soldadesca, ele temia perdê-los. Havia a sua besta, mas ela era fraca, e projetada para matar apenas caça pequena, como pássaros, e a uma distância curta. Ele não poderia [193]se exibir com isso. Ele não tinha espada para defesa; ali restava apenas a sua lança para javali, e com isso ele resolveu ficar contente, confiando em obter o empréstimo de um arco quando o momento para exibir o seu talento chegasse, e que a fortuna o capacitaria a triunfar com uma arma inferior.

Após descansar por um tempo e esticar seus membros, apertados da canoa, ele partiu (carregando apenas a sua lança para javali) ao longo da costa, pois o crescimento espesso de abetos não o permitiria penetrar na direção que ele tinha visto a torre. Ele teve de forçar o seu caminho através dos juncos e bandeiras e matagal, o quais floresciam entre os abetos e a borda da água. Era difícil caminhar, ou antes se impulsionar através desses obstáculos, e ele regozijou-se quando emergiu sobre um declive de um baixo onde havia um relvado aberto e apenas uns poucos grupos espalhados de abetos. O fato de ser aberto, e a pouca altura do relvado, revelava imediatamente que ele era usado para propósitos de pastagem para gado e ovelha. Consequentemente, ele pôde caminhar livremente e, dentre em pouco, alcançou o topo. A partir dali, a cidade era visível quase sob ele.

Ela erguia-se na base de um longo estreito, promontório que se estendia por um longo caminho dentro do Lago. O estreito banco de areia, próximo de onde ele se juntava com a terra firme, era penetrado por um canal ou uma angra, aproximadamente de uma centena de jardas de largura, ou menos, canal que parecia entrar na terra e era perdido de vista em meio às árvores. Além desse canal, um rio corria para dentro do lago e no Y, entre a angra e o rio, a cidade tinha sido construída.

[194]Ela era cercada por uma parede de tijolos, e havia duas grandes torres de tijolos no lado da terra, as quais indicavam a posição do castelo e palácio. O espaço fechado pelas paredes não era mais do que de uma meia milha quadrada, e as casas não ocupavam quase tudo disso. Existiam locais abertos, jardins e mesmo pastos para cavalos em meio a eles. Nenhuma das casas eram mais alta do que dois andares, mas o que imediatamente ocorria a um estranho era o fato de que todas elas eram cobertas com telhas vermelhas, a maioria das casas daqueles dias sendo cobertas com palha ou ripas de madeira. Como Felix posteriormente aprendeu, isso tinha sido efetuado durante o reinado do rei atual, cujo objetivo era para proteger a cidade dele de ser incendiada por flechas em chamas. A muralha circundante tinha se tornado de um tom vermelho aborrecido a partir de exposição prolongada ao clima, mas os telhados eram de um vermelho mais brilhante. Não havia nenhuma bandeira ondulando em nenhuma das torres, a partir do que ele concluiu que o rei estava ausente naquele momento.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.186-194. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/186/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XIV Os Estreitos

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[178]A passagem contraía-se ali até pouco mais de uma meia-milha, mas esses estreitos não continuavam muito longe; as costas, tendo dessa maneira aproximado-se uma da outra, rapidamente retrocediam, até que logo elas estavam separadas por, pelo menos, duas milhas. O navio mercante tinha atravessado os estreitos com o auxílio de suas correntes paralelas à costa, mas ele movia-se lentamente, e, como parecia para ele, com dificuldade. Ele estava aproximadamente a uma milha e meia de distância, e próximo da boca leste do estreito. Enquanto Felix observava, ele viu a vela quadrada dele novamente elevada, revelando que ele tinha alcançado um ponto onde as colinas deixaram de bloquear o vento. Entrando no Lago aberto, ele alterou o curso de navegou para o norte-nordeste, seguindo o curso da terra firme setentrional.

Olhando agora para o leste, através do Lago, ele via uma vasta e linda extensão de água, sem ilha ou falha de nenhum tipo, extendendo-se até o horizonte. Para o norte e [179]para o sul a terra desaparecia rapidamente, orlada, como usual, por ilhotas e bancos de areia, entre os quais as embarcações costeiras usualmente viajavam. Ele tinha ouvido sobre essa água aberta, e era intenção dele navegar para fora e explorá-la, mas, conforme o sol agora começava a declinar na direção do oeste, ele considerou que faria melhor em esperar pela manhã, e, dessa maneira, ter um dia inteiro diante dele. Entrementes, ele remaria através do canal, aterrisaria a canoa em uma ilhota que ficava mais longe e, dessa maneira, começaria seguro no dia seguinte.

Virando-se agora para olhar para trás na outra direção para o oeste, ele ficou surpreso ao ver um segundo canal, o qual chegava quase do pé da colina sobre a qual ele estava de pé, mas ali terminava, e não se conectava com o primeiro. A entrada para ele era escondida, como ele agora via, por uma ilha, além da qual ele deve ter navegado naquela tarde. Esse canal segundo ou sem saída parecia mais familiar para ele do que a costa plana e coberta de juncos na boca do verdadeiro estreito, e ele agora a reconhecia como uma para a qual ele tinha viajado a pé através da floresta. À época ele não tinha absolutamente atingido o estreito verdadeiro; ele tinha se sentado e ponderado ao lado dessa ilhota enganosa, pensando que ela dividia as terras firmes. A partir dessa descoberta, ele viu quão fácil era estar enganado em tais questões.

Mas isso ainda o convenceu mais completamente da importância desse lugar não habitado e negligenciado. Ele parecia como um canal cortado de propósito para abastecer um forte na retaguarda, a partir do Lado, com provisões e material, supondo o acesso na frente impedido por frotas e exercítos hóstis. Um castelo, se construído próximo de onde ele estava de pé, dominaria o canal; de fato, flechas [180]não poderiam ser disparadas através dele, mas as embarcações sob a proteção do castelo poderiam disputar a passagem, obstruída como ela poderia estar por barragens flutuantes. Um invasor vindo a partir do norte tinha de atravessar aqui; por muitos anos passados tem havido um sentimento geral de que, algum dia, um tal tentativa seria realizada. Fortificações seriam de valor incalculável para repelir as hordas hóstis e impedir o desembarque delas.

Quem possuísse este estreito possuiria a chave do Lago, e seria o mestre de, ou, pelo menos, manteria a balança entre os reis e as repúblicas que pontilhavam ao longo das costas de cada lado. Nenhuma embarcação poderia atravessar sem a permissão dele. Isso era a ilustração mais patente da perspectiva extremamente local, da visão mental contraída dos reis insignificantes e seus homens de estado, quem estavam tão preocupados com as fronteiras das suas províncias e frequentemente interferiam e lutavam por uma propriedade territorial ou baronia cercada por paliçada, contudo, estavam desatentos da oportunidade de império aberta aqui para qualquer um que pudesse a aproveitar.

Se o governandor de um tal castelo como ele imaginava construísse sobre o estreito e tivesse embarcações de guerra, ele poderia posicionar-se nesse segundo canal abrigado de todos os ventos e pronto para atacar e levar uma força de ataque sobre o flanco. Enquanto ele poderava sobre essas vantagens, ele não pôde esconder de si mesmo que, uma vez, ele sentou-se e sonhou junto a essa segunda enseada, considerando-a ser o canal. A dúvida surgiu de, se ele era tão facilmente enganado em uma questão tão grande, trangível e puramente física, se ele não poderia também estar enganado em suas ideias; [181]se, se testadas, elas não poderiam falhar; se o mundo não estava certo e ele errado.

A clareza mesma e o caráter multifacetado da mente dele frequentemente impediam, e mesmo completamente reprimiam, o melhor estabelecimento das impressões dele, mais especialmente quando ele, por assim dizer, permanecia parado e pensava. No devaneio, a sutileza da mente dele embaraçava-o; na ação, ele quase sempre estava certo. A ação incitava a decisão dele. Descendo da colina, ele agora toma algum refresco e, em seguida, ele impulsiona-se novamente para fora na canoa. Tão poderosa era a corrente na parte mais estreita do estreito que ela o ocupou por duas horas remando por tantas milhas.

Quando ele estivesse livre do canal, ele alçaria vela e dirigiria o seu curso diretamente para fora, por uma ilha que se erguia quase oposta à entrada. Mas, conforme ele aproximava-se, conduzido adiante em um bom ritmo, subitamente a conoa pareceu ser agarrada debaixo. Em um instante ele soube que estava encalhado em lama macia e saltou para baixar a vela, mas, antes que ele pudesse fazê-lo, a canoa chegou a uma imbobilização sobre o banco de lama, e as ondas seguindo por trás, imediatamente ela parou, parada sobre a popa. Afortunadamente, elas eram bastante pequenas, tendo apenas uma milha ou aproximadamente para rolarem a partir da praia, mas, em uns poucos minutos, elas lançaram água suficiente a bordo para estragar parte das provisões dele, e para deixar boiando o que estava solto no casco da embarcação.

Ele estava apreensivo com medo de que ela devesse encher, pois agora ele percebia que tinha se esquecido de qualquer coisa com a qual a embalar. Alguma coisa sempre é esquecida. Tendo baixado a vela (com medo de que o vento devesse estalar o [182]mastro), ele tentou duramente forçar a canoa de volta com o seu remo mais longo, usado como um leme móvel. O peso dela e a resistência da lama aderente, sobre a qual ela tinha sido impelida com muita força, eram grandes demais; ele não pôde empurrar. Quando empurrada, o remo afundava-se no fundo macio, e não lhe dava nada contra o que forçar. Após procurar libertar-se por algum tempo, ele parou, começando a temer que a sua viagem já tinha alcançado um fim.

Um pensamento de minuto, mais potente do que a força de dez homens, mostrou-lhe que a canoa precisava ser aliviada. Não havia carga para ser jogada ao mar, nem lastro. Ele era o único peso. Imediatemente, ele se despiu e lançou-se ao mar à proa, mantendo o controle do tronco. Os pés dele afundaram-se profundamente dentro do lodo; ele sentia como se, houvesse ele deixado passar, ele gradualmente deveria ter descido para dentro da areia movediça da lama fina. Contudo, movendo rapidamente os pés, ele conseguia empurrar a canoa; ela elevou-se consideravelmente tão logo ele estava fora dela, e, embora ele tivesse o controle da proa, o corpo dele ainda estava mais leve na água. Empurrando, debatendo-se, e pressionando para frente, ele, por puro impacto, por assim dizer, pois os pés dele não encontraram suporte na lama, forçou-a de volta através de graus lentos.

Os golpes das ondas conduziam-no adiante quase tanto quanto ele a empurrava para trás. Ainda, em tempo, e quando a força dele estava diminuindo rapidamente, ela moveu-se, e ele teve a satisfação do sentimento da água mais profunda sobre ele. Mas, quando ele tentou puxar-se sobre a proa para dentro da canoa, imediatamente o poder motor dele cessou, as ondas desfizeram o avanço que ele tinha alcançado, e ele teve de recomeçar o [183]seu labor. Desta vez, pensando novamente, antes que ele tentasse entrar novamente na canoa, ele virou a lateral dela para o vento, com o estabilizador para o sotavento. Quando a proa aguda e a quilha arredondada dela atingiram o fim do banco de lama, ela fluiu facilmente ao longo dele. Mas, virada lateramente, o comprimento dela encontrou mais resistência, e, embora as ondas a lançassem a alguma distância sobre ele, ela logo chegou a uma imobilização. Ele subiu para dentro com esforço tão rapidamente quanto ele pôde (não é fácil entrar em um bote a partir da água, o corpo é sentido tão pesado), e, tomando o remo, sem esperar para se vestir, laborou para fora do lugar.

Não até que ele tivesse com aproximadamente um quarto de milha para trás na direção da terra firme ele parou para se secar e retomar parte da roupa dele; a canoa, ainda estando parcialmente cheia de água, não era útil para colocar tudo sobre ela. Descansando por um tempo após os seus esforços severos, ele olhou para trás, e agora presumiu, a partir da cor da água e das indicações gerais, que esses rasos se estendiam a uma longa distância, circundando as ilhas na boca do canal, de maneira que nenhuma embarcação poderia entrar ou atravessar para fora em uma linha direta, mas precisa conduzir para o norte ou sul até que o obstáculo fosse rodeado. Com medo de tentar desembarcar em outro ilha, o seu único curso, conforme o sol estava descendo, era retornar à terra firme, a qual ele alcançou sem muito problema, visto que a corrente o favoreceu.

Ele puxou a canoa para a terra tão longe quanto ele conseguiu. Não era um bom lugar para desembarcar, visto que o fundo era de gesso, lavado em buracos pelas ondas, e decorado com pedras angulares. Enquanto o vento estava fora da costa, isso não [184]importava; se ele tivesse soprado a partir do leste, a canoa dele muito provavelmente teria sido muito danificada. A costa estava coberta com aveleiras até dentro de uma distância de vinte jardas da água, então, o chão subia e era vestido com pequenos freixos, os galhos dos quais pareciam muito restritos por tempestade, revelando quão exposto aos vendavais do leste o ponto era primavera. O vento sudoeste estava bloqueado pelas colinas atrás. Felix estava tão cansado que, por um tempo, ele não fez nada exceto descansar sobre o chão, o qual era apenas escassamente coberto por grama. Contudo, um descanso de uma hora restauro-o a si mesmo.

Ele recolheu alguns galhos secos (havia muitos sobre os freixos), bateu seu sílex contra o aço, acendeu a madeira, e logo tinha uma fogueira. Isso não era necessário para calor, a tarde de junho era suave e quente, mas era o instinto do caçador. Ao acampar pela noite, o caçador, a menos que se suspeite de que homens do mato estejam nas redondezas, invarialmente acende uma fogueira, primeiro para cozinhar o seu jantar e, em segundo lugar e frequentemente de maneira principal, para fazer do lugar a sua casa. A fogueira é o lar, quer haja paredes em volta dele, quer não. Imadiatmente existam cinzas brilhantes, o lugar não é mais selvagem, ele torna-se humano. Felix não tinha nada que necessitasse de cozinhar. Ele pegou a sua pele de vaca da canoa e esticou-o sobre o chão.

Uma pele de vaca bem amadurecida é a primeira posse de todo caçador; ele protege-o da umidade; e com uma segunda, suportada sobre três curtas estacas fincadas na terra (duas cruzadas no topo à frente, formando uma bifurcação, e amarradas com uma tira de couro, a terceira descansando sobre elas), ele protege [185]a si mesmo da chuva mais pesada. A pequena tenda sempre é construída com o fundo para o barlavento. Felix não erigiu um novo esconderijo, a tarde estava tão quente e bela que ele não teve necessidade disso, o manto seria bastante para cobertura. A fogueira crepitou e brilhou em intervalos, bastante distante dele para que ele não sentisse nenhuma inconvência a partir do calor dela.

Os tordos cantavam em todo bosque de freixo em torno dele, o cuco chamava, e a felosa-comum nunca parava por um momento. Diante dele estendia-se a vastidão das águas; mesmo aqui ele podia enxergar através das ilhas baixas. No céu, a faixa de nuvens estava manchada pelo pôr do sol, lentamente tornando-se mais pálida enquanto a luz partia. Ele reclinou-se naquele estado inativo, sem pensamento, que se segue ao esforço incomum, até que a sombra que se aprofunda e o fogo que afunda, e o aparecimento de uma estrela, avisaram-lhe que a noite estava realmente aqui. Então ele levantou-se, jogou mais combustivel e buscou seu manto, seu cofre, e sua lança para javali da canoa. O cofre ele cobriu com um canto da pele, enrolou-se no manto, trazendo bem sobre o seu rosto, por conta do orvalho; então, puxando os cantos inferiores da pele sobre seus pés e membros, ele esticou-se à plena altura e adormeceu, com a lança ao lado dele.

Havia a possibilidade de homens do mato, mas não muita probabilidade. Havia muito mais perigo perto do caminho da floresta, onde eles poderiam esperar um viajante e observar para o emboscar, mas eles não poderiam dizer antecipadamente onde ele descansaria aquela noite. Se alguém tivesse visto os movimentos da canoa dele, se algo iluminado sobre o bivaque dele por acaso, [186]o destino dele era certo. Ele sabia disso, mas confiava na extrema improbabilidade dos homens do mato frequentando um lugar onde não havia nada para pilhar. Além disso, ele não tinha escolha, visto que ele não podia alcançar as ilhas. Se havia risco, ele foi alcançado na extremidade do seu cansaço.


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JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.178-186. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/178/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Água das Ilhas Maravilhosas - A Quinta Parte: O Conto do Fim da Busca - Capítulo VI Da Conversa entre Birdalone e Viridis

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[285]Quando despertou novamente, ela tinha dormindo a noite toda e era dia pleno, e, por um momento, ela deitou-se ponderando qual era o fardo sobre ela. Dentre em pouco ela o evocou e considerou que seria bom se ela pudesse esquecer-se de tudo novamente. Imediatamente ela se tornou ciente de alguém se movendo aqui e ali na câmara, e ela olhou em volta infelizmente; e oh! Uma mulher, bela e elegante, toda envolta em verde, e era Viridis que tinha chegado ali. Mas, quando ela viu Birdalone se mexendo, ela veio a ela e beijou-a doce e amavelmente, e chorou sobre ela, de maneira que Birdalone de maneira nenhuma pôde conter as próprias lágrimas. Mas quando ela pôde cessar o choro, ela disse a Viridis: ‘Conta-me, tu estás chorando por teu amigo quem está perdido, e quem não deverá mais ser teu amigo, ou por tua amiga a quem tu encontraste?’ Disse Viridis: ‘Verdadeirametne eu chorei abundantemente por Baudoin, e ele é digno disso, pois ele era valente e verdadeiro e amável.’ Disse Birdalone: ‘Isso é verdadeiro; mas eu não intencionei minha questão assim; mas, em vez disso, eu te perguntaria se tu choras porque teu coração necessita rejeitar-me, ou porque tu me encontraste novamente?’ Respondeu Viridis: ‘Seja quem for que possa estar morto, ou seja quem for que vivo, mas, se fosse Hugh, meu adorável, eu ficaria feliz além de medida por te encontrar, minha amiga.’ E novamente ela beijou-a como alguém que estava contente e era gentil. Mas, por causa d novo descanso de alma e da alegria, Birdalone começou imediatamente a chorar outra vez.

Novamente, ela falou:E que opinião têm os [286]outros sobre mim? Pois tu és apenas uma, embora a mais querida, salvo … E eles me puniriam por minha falta e loucura que matou o melhor homem no mundo? Se a punição for menos do que me excluir da companhia deles, eu estaria inclinada a isso.

Viridis riu:Verdadeiramente,ela disse, ‘eles têm muito pelo que te punir! Considerando que foi por teu feito e tua valentia que nós todos nos reunimos novamente e Busca está realizada.’ ‘Não, apenas me conta,’ disse Birdalone, ‘o quê eles dizem de mim, cada um deles?’

Viridis ruborizou; ela disse:Hugh, meu companheiro, disse tudo de bom de ti; embora ninguém dentre os camponeses pode estar mais triste pela perda de seu camarada. Aurea não coloca a perda do homem dela sobre ti; e ela disse: “Quando a fonte de lágrimas estiver seca em mim, eu a verei e confortá-la-ei, como ela a mim.” Atra disse: ela disse bastante pouco, todavia, ela disse: “Assim, está destinado. Talvez eu não tivesse feito melhor, mais pior, do que ela.”

Agora Birdalone ficou vermelha e, em seguida, pálida novamente, e ela disse, mas em uma voz trêmula:E o Escudeiro Negro, Arthur, o que diz ele?Disse Viridis: ‘Ele não disse nada de ti, mas que ele ouviria todo o conto do que te ocorreu no Vale Negro.’ ‘Querida amiga,’ disse Birdalone, ‘eu suplico-te tua bondade e doçura que tu vás a ele imediatamente e traga-o aqui, e então eu contarei tudo a ele; e ele e tu e eu juntos.’

Viridis disse:Há isto para ser dito, que, quando um homem ama uma mulher, ele cobiça-a, para a ter [287]inteiramente toda para ele, e dureza e mal ele cresce pelo tempo que ele duvida daquela a quem ele ama. E eu te contarei que esse homem é ciumento com receio de que tu nunca foste tão pouco amável para matar o cavaleiro estranho cuja cabeça o tirano pendurou em volta de ti. Além disso, eu temo que não haja auxílio quanto a que tu desfarás a felicidade de um de nós, que é Atra; todavia fosse melhor que isso acontecesse mais tarde do que mais cedo. E se o Sir Arthur vir aqui para ti, e receber teu conto com ninguém ao lado exceto eu, parece-me que a pobre Atra sentirá uma aflição amarga por causa disso. Não seria melhor que nós todos nos encontrássemos no solar, e que lá tu contes teu conto para nós? E depois nós deveremos contar o conto da nossa libertação e vinda para cá. E, assim o fazendo, parecerá menos provável o rompimento de nossa amizade.

Disse Birdalone: ‘Será difícil para eu contar meu conto na frente de Atra e na frente dele. Não poderia ser que tu o ouças com atenção aqui e agora, e conta-o para os outros depois?’ ‘Não, não,’ disse Viridis, ‘eu não sou menestrel adequado para receber a palavra a partir da tua boca. Nunca eu deverei ser capaz de a contar de que maneira que eles devam crê-la como se absolutamente eles a tivessem visto. Além disso, quanto tudo estiver contado, então nós deveremos estar mais unidos novamente. Eu suplico-te, e eu suplico-te, doçura, faz tanto por mim quanto a contar teu conto para a nossa companhia. E, se isso for difícil para ti, olhe para isso como meu quinhão na punição que é devida a ti por ter caído naquela adversidade.’

Birdalone sorriu pesarosamente e disse:Assim seja; e possa o quinhão dos outros ser tão leve quanto o teu, [288]irmã. Contudo, verdadeiramente estaria eu mais de bom grado se meu corpo e minha pele devessem pagar a falta. Mas agora, uma vez que eu preciso fazer isso, mas cedo é o melhor, parece-me.

Em uma breve meia hora,disse Viridis,eu trarei o que resta de nossa companhia para o solar para te ouvirem atentamente. Assim, vem tu para lá quando estiveres vestida. E ouve tu! Não sê tão mansa e humilde, e não curves a ti mesma para nós com medo de nosso sofrimento. Pois visto que tu falaste de nós punimos-te, haverá alguém lá que tu podes facilmente punir para teu prazer; verdadeiramente, amiga, eu lamento que assim seja; mas, uma vez que isso não ficará melhor, o que posso eu fazer senão desejar-te feliz e ele também.

Com isso, ele virou-se e saiu da câmara, e Birdalone, deixada consigo mesma, sentia uma alegria secreta na alma dela, que ela não pôde dominar, a despeito do pesar de suas amigas, seja o que for que pudesse ser.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 285-288. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/285/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XIII Navegando para Longe

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[169]Mas na manhã seguinte, Felix levantou-se imediatamente do seu sono, resolvido a levar a cabo o seu plano. Sem se demorar um momento para pensar, sem exame adicional dos vários lados do problema, ele levantou subitamente no instante que seus olhos estavam abertos, completamente determinado em sua viagem. O hálito da manhã de junho brilhante, enquanto ele abria a persiana, encheu-o com esperança; o coração respondeu a essa influência alegre. A excitação que tinha perturbado a mente tinha tido tempo para diminuir. Na sonolência parada da noite, a forte corrente subterrânea do pensamento dele retomou seu curso, e ele despertou com sua vontade firmemente inclinada em uma direção.

Quando ele tinha se vestido, ele pegou seu arco e o cofre amarrado com tiras de couro, e desceu. Era cedo, mas o Barão já tinha terminado o café da manhã e saído para os seus jardins; a Baronesa ainda não tinho aparecido. Enquanto ele estava tomando um café da manhã apressado (pois [170]agora tendo se decicido, ele estava ansioso para colocar sua resolução em execução), Oliver entrou e, vendo o cofre e arco, entendeu que a hora tinha chegado. Imediatamente, ele disse que ele deveria acompanhá-lo até a Baía da Garça, e auxiliá-lo na partida, e saiu para ordernar os cavalos. Sempre havia muitos cavalos na Casa Antiga (como em qualquer mansão fortificada), e não houve a menor dificuldade em obter outro para Felix no lugar do seu favorito.

Oliver insistiu em levar o cofre de madeira, o qual era bastante pesado, diante dele na sela, de modo que Felix não tivesse nada para carregar exceto o seu arco favorito. Oliver ficou surpreso de que Felix não foi primeiro aos jardins e dissesse adeus ao Barão, ou, pelo menos, batesse à porta da Baronessa e desejasse-a adeus. Mas ele não fez observação, conhecendo o temperamento orgulhoso e ocasionalmente difícil de Felix. Sem uma palavra, Felix deixou o antigo lugar.

Ele cavalgou adiante a partir do Portão Norte, e nem mesmo parou para olhar para trás. Nem ele nem Oliver pensaram nos eventos que pudessem ocorrer antes que eles devessem se encontrar novamente na velha casa familiar! Quando o círculo está uma vez quebrado, frequentemente são anos antes que ele seja reformado. De fato, frequentemente, os membros dele nunca se encontram novamente, pelo menos, não da mesma maneira, a qual, talvez, eles então detestassem, e sempre depois se arrependeram. Sem uma palavra de adeus, sem uma olhadela, Felix cavalgou para dentro da floresta.

o houve muita conversa na trilha para Baía da Garça. Os servos ainda estavam lá, encarregados da canoa, [171]e ficaram suficientemente felizes de ver a aproximação deles, e, dessa forma, em serem liberados de sua vigilância solitária. Eles lançaram a canoa com facilidade, as provisões foram colocadas a bordo, os cafre amarrado no mastro para que ele não pudesse ser perdido, o arco favorito também foi amarrado na vetical no mastro por segurança, e simplesmente apertando a mão de Oliver, Felix empurrou-a para a angra. Ele remou a canoa até a entrada e, para fora, para dentro do Lago, até que ele chegou onde a brisa sudoeste, vinda através a floresta, tocava e ondulava a água, a qual, próxima à costa, estava perfeitamente calma.

Então, içando a vela, ele colocou para fora o remo maior que correspondia a um leme, tomou seu assento, e, acenando com a mão para Oliver, começou sua viagem. O vento estava bastante leve e quase favorável demais, pois ele determinara-se a navegar para o leste; por nenhuma razão específica, apenas porque ali o sol nascia, e ali era o quartel da luz e esperança. A canoa dele, com uma longa vela de proa a popa, e tão bem-adaptada para funcionar ao vento, não estava bem equipada para deslizar diante de uma brisa, o que era que ele estava fazendo agora. Ele tinha meramente de manter a canoa diante do vento, conduzindo de maneira a desobstruir o promontório íngreme do Cavalo Branco, o qual se erguia azul a partir da borda água longe à frente dele. Embora o vento fosse leve, a canoa, sendo tão afunilada e fina na proa, e a vela tão larga em comparação, deslizava a partir da costa mais rápido do que ele inicialmente imaginou.

Enquanto ele conduzia obliquamente a partir da pequena baía para fora, para dentro do grande Lago, as ondulações rolando diante do vento gradualmente se alargaram em pequenas ondas, essas, novamente, aumentaram, e em meia hora, conforme o vento agora brincava sobre elas através de uma milha da [172]superfície, eles pareciam na canoa dele, com sua borda livre baixa, serem ondas consideráveis. Até agora, propositalmente, ele tinha evitado olhar para trás, com medo de que eles devessem pensar que ele se arrependia da partida, e, em seu coração, desejava retornar. Mas agora, sentido que ele tinha realmente começado, ele deu uma olhada para trás. Ele não conseguiu ver ninguém.

Ele tinha esquecido que o ponto de onde eles lançaram a canoa ficava no fim de uma enseada, e, enquanto ele navegava para longe, a angra era bloqueada da visão pela costa da Lagoa. Incapaz de chegar à boca da baía por causa da vegetação rasteira e do solo pantanoso, Oliver tinha permanecido por um minuto ou dois olhando fixamente na direção que a canoa tinha tomado, absorvido em pensamento (quase o período mais longo que, alguma vez, ele desperdiçara em uma semelhante ocupação) e, em seguida, com um assobio, virou-se para partir. Os servos, entendendo que eles não eram mais requeridos, reuniram suas coisas e, em pouco tempo, seguiram seu caminho para casa. Oliver, segurando o cavalo de Felix pela rédea, já tinha cavalgado daquela forma, mas ele logo parou, esperou até que os três homens o alcançassem. Então, ele entregou o cavalo aos cuidados deles e, virando-se para a direita, ao longo do caminho da floresta que ali se ramificava, foi para o Ponze. Portanto, Felix não pôde ver ninguém quando ele olhou para trás, e, de fato, eles já estavam nos caminhos deles a partir do lugar.

Agora ele sentia que estava sozinho. Ele tinha se separado da costa, e de todas as suas associações antigas; ele estava não apenas avançando rapidamente sobre a água, mas para o futuro desconhecido. Mas o espírito dele não mais vacilava; agora que ele estava realmente no começo de seu empreendimento há muito [173]contemplado, sua natural força de mente retornou. A fraqueza e irresolução, a hesitação, deixaram-lhe. Ele encheu-se de sua aventura e do pensamento de nada mais.

A brisa sudoeste, soprando como um homem respira, com subidas e descidas alternadas, agora o conduzindo rapidamente para frente até que a água borbulhasse sobre a proa, agora afundando, surgiu sobre o seu ombro direito e esfriou a bochecha dele, pois agora era meio-dia, e o sol de junho não estava contido por nuvens. Ele não conseguia mais distinguir a forma das árvores e da costa; todos os galhos estavam misturados juntos em um grande bosque, estendendo-se tão longe quanto ele conseguia ver. Do lado esquerdo dele, ficava uma cadeia de ilhas, algumas cobertas por abetos, e outras apenas com matagal, enquanto outras, ainda, eram tão baixas e chatas que as ondas no clima tempestuosas quase rebentavam sobre elas.

Enquanto ele se aproximava do Cavalo Branco, cinco brancas gaivinas, ou andorinhas, voaram acima; ele não deu boas vindas ao seu aparecimento, visto que, usualmente, elas antecediam tempestades fortes. O promontório, coberto por bosques até sua crista, agora se erguia alto contra o céu; freixo e aveleira e espinheiro tinham ocultado a antiga figura gravada do cavalo sobre o seu lado, mas a tradição não foi esquecida e o lugar retinha o seu nome. Ele tinha estado conduzindo dessa maneira como apenas para clarear o promontório, mas ele lembrou-de de que, quando tinha visitado o topo da colina, ele tinha observado que os bancos de areia e baixio estendiam-se muito longe da costa, e ficavam quase no nível da superfície do Lago. Em uma calma eles eram visíveis, mas as ondas ocultavam-nos, e, a menos que o timoneiro reconhecesse [173]o redemoinho suficientemente cedo para mudar o seu curso, eles eram extremamente perigosos.

Felix suportou mais a partir da terra, e passando completamente de uma milha para o norte, deixou os bancos de areia à direita. Do seu outro lado, havia uma ilha arenosa e desolada, escassamente a uma distância de um quarto de milha, sobre a qual ele pensou ter visto as madeiras de um naufrágio. Era bastante provável, pois a ilha estendia-se na trilha das embarcações costeando ao longo da praia. Além do Cavalo Branco, a terra desaparecia em uma série de indentações curvando-se para dentro na direção sul; uma costa inóspita, pois as colinas desciam à costa terminando abruptamente em penhascos de gesso baixos, mas íngremes. Muitas ilhas de grande tamanho levantavam-se à esquerda, mas Felix, não conhecendo a forma do lago além do Cavalo Branco, considerou melhor seguir a tendência da terra. Dessa forma ele descobriu, após aproximadamente três horas, que ele tinha se afastado muito do seu curso, pois a curva semelhante a um golfo da costa agora começava a retornar na direção norte, e, olhando nessa direção, ele viu uma embarcação mercante sob a sua única vela quadrada de grande tamanho, colocando-se através da baía.

Ela estava aproximadamente a cinco milhas de distância, e, evidentemente, estava conduzindo de modo a manter-se exatamente dentro da linha das ilhas. Com alguma dificuldade, Felix conduziu em uma direção para a interromper. O vento sudeste estando então imediatamente à popa, a vela dele não respondeu bem; logo ele a baixou, e remou até que ele tivesse virado o curso de maneira que o estabilizador estava agora do lado leste. Em seguida, içando a vela novamente, ele sentou-se no que antes tinha sido a proa, e conduziu um ponto ou aproximadamente para mais próximo do vento. Isso [175]melhorou a navegção dele, mas, visto que a embarcação mercante tinha, pelo menos, cinco milhas de dianteira, tomaria algumas horas para a superar. Nem, ao refletir, ele estava de qualquer maneira ansioso para a alcançar, pois marinheiros eram temidos por sua conduta sem lei, estando, quando em uma viagem, além de toda jurisdição.

Por um lado, se eles percebecessem uma oportunidade, eles não hesitavam em aterrisar e pilhar uma casa, ou mesmo uma aldeia. Pelo outro lado, aqueles que habitavam em qualquer ponto perto da costa consideravam bom esporte acender uma fogueira e atrair uma embarcação para a sua destruição, ou se ela estivesse privada de vento, navegar em botes, atacar e, talvez, destruir tanto o navio quando a tripulação. Por isso os muitos naufrágios, e as perdas, e os riscos de navegação, não tanto a partir de obstáculos naturais, uma vez que as inumeráveis ilhas, e as enseadas e as ilhotas da terra firme, quase sempre ofereciam abrigo, não importa de que forma a tempestade soprasse, mas a partir da animosidade do povo da costa. Se houvesse um porto e uma cidade importante onde provisões pudessem ser obtidas, ou reparos efetuados, o direito de entrada era zelosamente guardado, e nenhum navio, por mais que pressionado pela tempestade, era permitido partir, se ele tivesse ancorado, sem o pagamento de uma taxa. De maneira que as embarcações, tanto quanto possível, evitavam portos e cidades, e a terra firme completamente, navegando para frente ao lado das ilhas, as quais eram, pela maior parte, desabitadas, e ancorando sob o abrigo do vento propiciado por elas, à noite.

Felix, lembrando-se do caráter dos marinheiros, resolveu manter-se bem distante deles, mas observar o curso deles como um guia para si mesmo. A terra firme agora se estendia [176]abruptamente para o norte, e a canoa, conforme ele a trazia mais para o vento, saltava adiante em um ritmo rápido. O estabilizador evitava que ela fizesse qualquer declinação, ou de se inclinar para um lado, e a larga expansão da vela forçava-a velozmente através da água. Ele tinha perdido a vista do navio por trás de algumas ilhas, e, enquanto ele se aproximava delas, começou a perguntar a si mesmo se não teria sido melhor puxar para baixo sua vela ali, visto que agora ele deve estar aproximando-se dele, quando, para a surpresa dele, ao aproximar-se, ele viu o grande vela quadrada no meio da terra, por assim dizer. A costa ali era plana, as colinas que, até então, restingiam-na, subitamente desapareceram; ela estava coberta com juncos e espadas e, a aproximadamente duas milhas de distância a vela negra do navio mercante flutuava sobre esses, o casco estando oculto. Imediatamente ele viu que tinha alcançado a boca ocidental dos estreitos que dividiam a terra firme do sul da do norte. Quando ele caminhou para ver o canal a pé através da floresta, ele teve tê-lo atingido a uma milha ou duas mais para o ocidente, onde ele girava sob as colinas.

Em outra hora ele chegou à abertura do estreito; ela era aproximadamente de uma milha de largura, e cada costa era bastante plana, aquela à direita, por um curta distância, a variedade das descidas aproximava-se dentro de duas milhas; aquela à esquerda, ou norte, estava plana tão longe ele conseguia ver. Novamente, agora ele teve de baixar a vela dele, para ter o estabilizador sobre seu sotavento enquanto ele virava para a direita e conduzia na direção leste para dentro do canal. Enquanto a costa esteve plana, ele não teve dificuldade, pois o vento soprava sobre ela, mas, quando as colinas gradualmente se aproximavam, e quase se sobressaiam sobre o canal, elas bloquearam muito da [177]brisa e o progresso dele ficou lento. Quando ele virou e correu estreitando-se a cada momento para o sul, o vento falhou-se completamente.

À costa direita, colinas cobertas por bosques surgiam a partir da água como uma parede; à esquerda, estava um plano perfeito. Ele não conseguiu ver nada do navio mercante, embora ele soubesse que não poderia navegar ali, mas precisava superarar com os movimentos dela. O casco pesado e arco amplo dele devem tornar o ato de remar um processo lento e laborioso; portanto, ele não poderia estar muito a frente, mas estava oculto pela curvatura do estreito. Ele baixou a vela, visto que agora ela era inútil, e começou a remar; em um período muito curto de tempo ele considerou o calor sobre as colinas opressivo quando trabalhando dessa forma. Ele tinha estado à deriva agora entre seis ou sete horas, e deve ter chegado a trinta milhas completas, talvez muito mais do que vinte, em uma linha reta, e ele sentia um pouco cansado e apertado de se sentar por tanto tempo na canoa.

Embora ele remasse duramente, ele não parecia fazer muito progresso, e, à distância, ele reconheceu que havia uma corrente distante, a qual se opunha ao seu avanço, fluindo através do canal, a partir do leste para o oeste. Se ele parasse de remar, ele se descobriria lentamente impelido de volta; as longas ervas-daninhas aquáticas, pelas quais ele passava, também, todas estendiam seus flâmulas flutuantes na direção oeste. Nós não conhecíamos isso até que Felix Aquilo observou e registrou.

Cansado e faminto (pois, cheio de sua viagem, ele não tinha descansado desde que partiu), ele resolveu desembarcar, descansar um pouco, e, em seguida, subir a colina, e ver o que ele podia do canal. Ele logo conseguiu alcançar a costa, o [178]estreito tendo estreitado-se para menos de uma milha de largura, e conduziu a canoa para o solo perto de um arbusto, ao qual, saindo, ele amarrou o proiz. O alívio de esticar os membros foi tão grande que parecia lhe conceder força renovada, e, sem esperar para comer, de uma vez, ele escalou a colina. A partir do topo, o restante do estreito pôde ser facilmente distinguido. Mas, a uma curta distância de onde ele se colocava de pé, ele inclinava-se novamente, e prosseguia na direção leste.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.169-178. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/169/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

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