[186]Quando Felix acordou, ele soube imediatamente, através da altura do sol, que a manhã estava muito avançada. Jogando fora o manto, ele colocou-se de pé, mas imediamente se agachou novamente, pois uma embarcação estava passando a apenas uma pequena distância da costa, e quase oposta ao acampamento dele. Ela tinha dois mastros, e a partir das bandeiras ondulando, os numerosos estandartes e os movimentos de tantos homens a bordo, ele reconheceu-a ser um navio de guerra. Ele estava ansioso a fim de que ele não devesse ser visto, e arrependeu-se de que a canoa dele estivesse tão exposta, pois o arbusto perto do qual ele a aterrisou ocultava-a a partir de um único lado. Como a costa estava tão vazia e aberta, se eles olhassem naquela direção os homens a bordo dificelmente falhariam em a ver, até poderiam distingui-lo. Mas, se eles estivessem muito engajados com os seus próprios assuntos, ou mantivessem uma observação descuidada, nenhuma indicação parece ter sido discernida, nenhum bote foi baixado.
Ele observou o navio de guerra por quase uma hora antes que ele se aventurasse a mover-se. O curso dele era para o leste, dentro da franja de ilhas. De que ele não era nem irlandês nem [187]galês, ele ficou certo a partir da forma e das bandeiras dele; eles estavam distantes demais para os desenhos exatos sobre eles serem vistos, mas suficientemente perto para ele saber que eles não eram aqueles exibidos pelos estrangeiros. Ele navegava rápido, tendo o vento quase à popa, o que era adequado às suas duas velas quadradas.
O vento tinha subido durante a noite, e agora soprava quase uma tempestade, de maneira que ele viu que precisava abandonar pelo presente o seu projeto de navegar para o mar aberto. As ondas ali eram altas demais para a canoa dele, a qual flutuava baixo na água, e tinha apenas aproximadamente seis polegadas de borda livre. Elas banhariam-na e, possivelmente, inundar-la-iam. Apenas dois cursos estavam abertos para ele: ou navegar no meio das ilhas, sob o abrigo da terra, ou permanecer onde ele estava até que a brisa moderasse. Se ele navegasse no meio das ilhas, seguindo o curso para o norte do navio mercante que ele tinha observado na tarde anterior, isso o conduziria para além de Eaststock, o porto oriental de Sypolis, cidade que, ela mesma no interior da terra firme, tinha dois portos, com o ocidental dos quais (Weststock) ela tinha comunicação através da água.
Devesse ele continuar a navegar, ele logo alcançaria aquela parte do continente setentrional que estava ocupada pelos postos avançados irlandeses. Por outro lado, seguir o navio de guerra, leste pelo sul, ele sabia, trá-lo-ia para perto da grande cidade de Aisi, famosa pelo seu comércio, suas riquezas e a disposição guerreira do seu rei, Isembard. Ele era o reconhecido líder das forças da Liga; mas contudo, com a inconsistência da idade, atacava [188]outros membros dela. A sua furiosa energia estava sempre perturbando o mundo, e Felix não tinha dúvida de que agora ele estava em guerra com um ou outro, e que o navio de guerra que ele tinha visto estava a caminho para o assistir ou os seus inimigos. Uma das possibilidades que o tinham impelido à sua viagem era servir a algum rei ou comandante, e, dessa forma, gradualmente, ascender a si mesmo a comando.
Tais aventuras eram muito comuns, cavaleiros frequentemente partindo em tais expediçõe quando insatisfeitos com seus próprios soberanos, e, usualmente, eles eram muito bem recebicos como uma adição à força do acampamento que eles buscavam. Mas havia esta diferença: que semelhantes cavaleiros portavam com eles recomendação substancial, quer numerosos retentores bem armados e acostumados à batalha, tesouro considerável, quer, pelo menos, uma reputação por proeza no campo de batalha. Felix não tinha nada para oferecer, e por nada, nada é dado.
O mundo não reconhecia valor intrínseco ou gênio potencial. O gênio deve alcançar algum resultado sólido antes que ele seja aplaudido e recebido. O arquiteto desconhecido pode dizer: “Eu tenho um projeto em minha mente para um castelo inexpugnável.” Mas o mundo não pode ver ou apreciar o mero projeto. Se, por qualquer sacríficio pessoal de tempo, dignidade ou amor-próprio, o arquiteo, após longos anos, pode persuadir alguém a permitir que ele construa o castelo, para colocar o seu projeto em rocha sólida, contra a qual esquadrões podem bater suas cabeças em vão, então ele é reconhecido. Então, há um resultado tangível.
Felix estava na posição do arquiteto. Ele acreditava [189]que tinha ideias, mas ele não tinha nada de substancial, nenhum resultado, para o qual apontar. Portanto, ele tinha apenas pouca esperança de sucesso, e a sua natural arrogância e orgulho revoltavam-se contra se aplicar para um recrutamente que deve ser acompanhada por muita humilhação pessoal, uma vez que, na melhor ds hipóteses, ele apenas poderia começar nas posições comuns. A ideia mesma de pedir era repugnante para ele. Contudo, o pensamento Aurora, atraía-o.
O orgulho era falso, ele disse a si mesmo, e surgia a partir uma estima muito elevada de suas próprias habilidades; ou era consequência de viver por tanto tempo inteiramente isolado do mundo. Ele reconheceu para si mesmo que não tinha sido batido a esse nível. Cheio de devoção para com Aurora, ele resolveu humilhar a si mesmo, buscar o serviço mais humilde no acampamento do Rei Isembard, curvar o seu espírito às ordens de homens acima dele em posição social, mas abaixo dele em nascimento e habilidade, submeter-se às indignidades sem número da vida de um soldado comum.
Ele prosseguiu para lançar a canoa, e já tinha quase colocado o cofre a bordo quando lhe ocorreu que as dificuldades que ele tinha encontrado na noite anterior, quando sua canoa foi tão quase perdida, surgiram a partir da sua ignorância dos canais. Seria aconselhável subir a colina e cuidadosamente observar a costa tão longe quanto possível antes de partir. Ele assim o fez. O navio de guerra estava vísivel a partir do topo, mas, enqunato ele observava, ele ficou oculto pelas ilhas intervenientes. A espuma branca e a aparência furiosa da distante água aberta na direção leste revelaram quão sábio ele tinha sido de não tentar [190]a exploração dela. Protegido pela terra o vento estava firme; acolá, onde a ventania atinge a superfície com toda a sua força, as ondas eram grandes e poderesas.
A partir deste ponto ele pôde ver quase a inteira extensão do estreito, e, olhando fixamente na direção através da qual ele tinha vindo, ele via alguns botes cruzando à distância. Como eles se moviam tão lentamente, e pareciam tão amplos, ele conjectutou que eles eram barcos de fundo chato, e, esforçando os olhos, ele imaginou que detectou cavalos a bordo. Ele observou quatro atravessarem e logo o primeiro barco de fundo chato retornou, como se em busca de outra carga. Ele agora observava que havia uma rota terrestre pela qual viajantes e carroções desciam a partir do norte, e cruzavam o estreito por uma balsa. Parecia que a balsa não estava na parte mais estreita do estreito, mas mais próxima de sua boca ocidental, onde as costas eram planas e cobertas com juncos e bandeiras. Ele ponderou que não tinha visto nada dos lugares de desembarque, ou dos botes, ou algum sinal do tráfego quando ele passou, mas concluiu que a trilha estava oculta em meio ao denso crescimento de juncos e bandeiras, e que os barcos de fundo chato, não estando em uso naquele dia, tinham sido arrastados para cima e talvez cobertos com galhos verdes para os abrigar do calor do sol do verão.
Contudo, o fato da existência dessa rota dava importância adicional ao estabelecimento de um forte na costa do estreito, como ele há muito tinha contemplado. Por agora, o primeiro bote de fundo chato tinha obtido outra carga, e estava atravessando novamente o canal. Era evidente que uma caravana de viajantes ou mercadores tinha chegado, tais pessoas usualmente viajando [191]em grandes corpos por segurança, de maneira que, frequentemente, as rotas ficavam completamente desertas por semanas e então, subitamente, cobertas de pessoas. De fato, elas eram rotas e não estradas; meras trilhas usadas através das florestas e sobre as colinas, frequentemente intransponíveis a partir de inundações.
Ainda mais satisfeito de que sua ideia original de um castelo aqui estava fundamentada em uma estimativa correta do valor do ponto, Felix resolveu manter a concepção para si mesmo, e não novamente a arriscar com outros, quem poderiam o desprezar mas adotar o projeto dele. Com uma última longa olhada fixa para a estreita faixa de água que formava a parte central, por assim dizer, de seus muitos planos, ele desceu da colina e empurrou a canoa.
Desta vez, o seu curso deu-lhe muito menos problema que no dia anterior, quando, frequentemente, ele teve de mudar a sua trajetória. A brisa firme e forte vinha da terra, da qual ele estava perto demais para que quaisquer ondas surgirem, e hora após hora passaram-se sem nenhuma necessidade de deslocar a vela, mais do que para afrouxar ou apertar as escotas conforme o curso da terra variava. Gradualmente, o vento cruzava mais e mais com o curso dele, em ângulos retos para ele, e então começava a cair à popa enquanto ele descrevia um arco e a terra projetava-se na direção norte.
Ele viu várias vilas pequenas na costa, e passou por uma baía estreita, a qual parecia, de fato, penetrar na terra mais profundamente do que ele efetivamente conseguia ver. Subitamente, após quatro ou cinco horas de navegação, ele viu a torre de uma igreja através de colinas cobertas por bosques. Isso, ele sabia, tem de indicar a posição de Aisi. A questão agora surgiu, se ele [192]deveria navegar para dentro do porto, quando ele, é claro, imediatamente seria visto e teria de passar pelo exame dos oficiais; ou deveria ele desembarcar e ir a pé para a cidade? Uma reflexão de minuto assegurou-lhe que a última opção era o melhor plano, pois a canoa dele era de construção tão incomum que ela seria mais do que cuidadosamente examinada e não improvavelmente os pequenos tesouros deles seriam descobertos e tomados. Portanto, sem hesitação e congratulando a si mesmo de que não havia embarcações à vista, ele apressou-se com a canoa para a costa, em meio às bandeiras e juncos que faziam fronteira com ela.
Ele puxou-a para cima tão longe quanto a sua força permitia, e não apenas baixou a vela, mas desmontou o mastro; em seguida, cortando uma quantidade de juncos mortos, ele espalhou-os sobre ela, de modo que, a menos que um bote passasse muito perto da terra, ela não seria vista. Enquanto fez uma refeição, ele considerou como faria melhor em proceder. As únicas armas nas quais ele se distinguia eram o arco e a flecha; portanto, claramente, se ele desejava uma ocupação, ele levaria esses com ele e exibiria a sua habilidade. Mas bem ele conhecia a completa ausência de lei e justiça, exceto para o poderoso. O arco dele, o qual ele tão grandemente valorizava, e o qual estava tão bem amadurecido, e poderia ser dependido, poderia ser tomado dele.
As flechas dele, tão cuidadosamente preparadas a partir de madeira escolhida e com pontas de aço, poderiam ser tomadas. Tanto o arco quanto as flechas eram muito superiores àqueles usados pelos caçadores e pela soldadesca, ele temia perdê-los. Havia a sua besta, mas ela era fraca, e projetada para matar apenas caça pequena, como pássaros, e a uma distância curta. Ele não poderia [193]se exibir com isso. Ele não tinha espada para defesa; ali restava apenas a sua lança para javali, e com isso ele resolveu ficar contente, confiando em obter o empréstimo de um arco quando o momento para exibir o seu talento chegasse, e que a fortuna o capacitaria a triunfar com uma arma inferior.
Após descansar por um tempo e esticar seus membros, apertados da canoa, ele partiu (carregando apenas a sua lança para javali) ao longo da costa, pois o crescimento espesso de abetos não o permitiria penetrar na direção que ele tinha visto a torre. Ele teve de forçar o seu caminho através dos juncos e bandeiras e matagal, o quais floresciam entre os abetos e a borda da água. Era difícil caminhar, ou antes se impulsionar através desses obstáculos, e ele regozijou-se quando emergiu sobre um declive de um baixo onde havia um relvado aberto e apenas uns poucos grupos espalhados de abetos. O fato de ser aberto, e a pouca altura do relvado, revelava imediatamente que ele era usado para propósitos de pastagem para gado e ovelha. Consequentemente, ele pôde caminhar livremente e, dentre em pouco, alcançou o topo. A partir dali, a cidade era visível quase sob ele.
Ela erguia-se na base de um longo estreito, promontório que se estendia por um longo caminho dentro do Lago. O estreito banco de areia, próximo de onde ele se juntava com a terra firme, era penetrado por um canal ou uma angra, aproximadamente de uma centena de jardas de largura, ou menos, canal que parecia entrar na terra e era perdido de vista em meio às árvores. Além desse canal, um rio corria para dentro do lago e no Y, entre a angra e o rio, a cidade tinha sido construída.
[194]Ela era cercada por uma parede de tijolos, e havia duas grandes torres de tijolos no lado da terra, as quais indicavam a posição do castelo e palácio. O espaço fechado pelas paredes não era mais do que de uma meia milha quadrada, e as casas não ocupavam quase tudo disso. Existiam locais abertos, jardins e mesmo pastos para cavalos em meio a eles. Nenhuma das casas eram mais alta do que dois andares, mas o que imediatamente ocorria a um estranho era o fato de que todas elas eram cobertas com telhas vermelhas, a maioria das casas daqueles dias sendo cobertas com palha ou ripas de madeira. Como Felix posteriormente aprendeu, isso tinha sido efetuado durante o reinado do rei atual, cujo objetivo era para proteger a cidade dele de ser incendiada por flechas em chamas. A muralha circundante tinha se tornado de um tom vermelho aborrecido a partir de exposição prolongada ao clima, mas os telhados eram de um vermelho mais brilhante. Não havia nenhuma bandeira ondulando em nenhuma das torres, a partir do que ele concluiu que o rei estava ausente naquele momento.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.186-194. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/186/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0