Capítulo anterior
[84]A
linguagem
dos Vril-ya é particularmente interessante, porque
parece-me
exibir com grande clareza os traços das três maiores transições
através das quais a linguagem
passa na
obtenção da perfeição
da forma.
Um
dos mais ilustres dentre
os
filólogos
recentes, Max Müller, ao
argumentar pela
analogia entre os estratos
da linguagem e as camadas
da terra, estabelece
este dogma absoluto:
“Nenhuma linguagem pode, por
qualquer possibilidade, ser flexional
sem ter passado pelos estratos
aglutinativo
e isolante.
Nenhuma linguagem pode ser aglutinante sem agarrar-se
com suas raízes à camada
subjazente de
isolação.”-
‘Sobre
A Estratificação da Linguagem,’
p.20.
Tomando
então a língua chinesa como o melhor tipo existente de original
estrato
isolante, “como
a fotografia fiel de um homem em suas
cordas [85]condutoras
(leading-strings),
esforçando os músculos de sua mente, tateando seu caminho, e assim
satisfeito com suas primeiras compreensões de sucesso que ele repete
de novo e de novo,”
- nós temos, na linguagem dos Vril-ya, ainda “o
apegar-se com suas raízes à camada subjacente.”
Ela é rica em monossílabos, os quais são as
fundações da linguagem. A
transição para a forma aglutinativa
marca uma época que tem de ser gradualmente estendida
através de eras, a literatura escrita da
qual somente sobreviveu
em uns poucos fragmentos de mitologia simbólica e em
certas sentenças concisas,
as quais passaram para provérbios populares. Com
a literatura existente
dos Vril-ya,
a camada
flexional começa.
Sem
dúvida naquela
época operaram causas concorrentes;
na fusão das raças por algum povo dominante, assim
como na ascensão de algum
grande fenômeno literário por meio do qual a linguagem tornou-se
presa
e fixa. Conforme a etapa
flexional
prevalecia sobre a aglutinativa,
é surpreendente ver como
muito mais audaciosamente as raízes originais da linguagem
projetam-se a partir da superfície que as oculta.
[86]Nos
antigos fragmentos e provérbios da
etapa precedente, os monossílabos que compõem aquelas raízes
desaparecem em meio a palavras de tamanho enorme, compreendendo
sentenças inteiras das quais parte nenhuma pode ser desembaraçada
da outra e empregada separadamente. Mas,
quando a forma flexional
da linguagem tornou-se
tão avançada para ter seus
estudiosos e gramáticos, eles
parecem ter unido-se para extirpar todos aqueles monstros
polissintéticos ou polissilábicos,
como invasores devoradores das formas primitivas. Palavras além de
três sílabas tornaram-se proscritas como bárbaras e,
na proporção conforme a linguagem simplificava-se
desse modo, ela aumentou
em
força, em dignidade e em doçura. Embora agora muito comprimida em
som, ela ganha em clareza através dessa compressão. Por meio de uma
letra singular, de acordo com sua posição, eles
conseguem
expressar tudo aquilo que, com
as nações civilizadas em
nosso mundo de cima,
requer o desperdício, as
vezes de sílabas, as vezes
de sentenças, para expressar.
Permita-me
aqui citar um ou dois exemplos: An
(que eu traduzirei por ‘homem’),
Ana
(‘homens’);
a letra s
é com eles uma letra
implicando multidão, de acordo com onde [87]é
colocada; ‘Sana’
significa ‘humanidade’,
Ansa,
‘uma
multidão de homens’.
O prefixo de certas letras no
alfabeto deles invariavelmente denota significados
compostas. Por exemplo, GI (a
qual com eles é uma letra única, como th
é uma letra única com os gregos) no começo de uma palavra implica
em uma coleção ou união de coisas, as
vezes aparentadas, as
vezes diferentes – como
Oon,
‘uma
casa’;
Gloon,
‘uma
cidade’
(isto
é, uma reunião de
casas). Ata
é ‘tristeza’;
Glata,
’uma
calamidade pública’'.
Aur-an
é a ‘saúde
ou bem-estar
de um homem’;
e uma palavra que constantemente está nas bocas deles é A-glauran,
que denota seu credo político
– a saber, que “o
primeiro princípio de uma comunidade é o bem de todos.”
Aub
é ‘uma
invenção’;
Sila,
‘um
tom em música’.
Glaubsila,
como ‘união
de ideias de invenção e de entonação musical’
é a palavra
clássica para poesia –
abreviada, na conversa
ordinária, para Glaubs.
Na, que entre eles é, como GI, apenas uma letra única, sempre,
quando uma inicial, implica ‘alguma
coisa antagônica à vida à felicidade ou ao
conforto’
assemelhando-se a sua raiz ariana 'Nak', ‘expressão
de perecimento ou [88]destruição’.
Nax
é ‘escuridão’;
Narl,
‘morte’;
Naria,
‘pecado
ou mal.' Nas
- ‘uma
condição extrema de pecado ou mal
– corrupção’.
Na escrita, eles consideram desrespeitoso
expressa o Ser Supremo por qualquer nome especial. Ele é simbolizado
pelo que pode ser denominado de hieroglifo de uma pirâmide, Λ.
Em oração eles endereçam-se
a Ele por meio de um
nome que eles consideram demasiado sagrado para confiar a um
estranho, e eu não o conheço. Em conversação, eles geralmente
usam um epíteto perifrástico, tal como Todo-Bem.
A letra V,
simbólica da pirâmide invertida, onde é uma inicial, quase sempre
denota excelência ou poder; como Vril, sobre o qual eu disse tanto;
Veed,
‘um
espírito imortal’,
Veed-ya,
‘imortalidade’;
Koom,
pronunciado como o galês 'Cwm',
denota ‘algo
de vazio’.
Koom
mesmo é ‘uma
caverna’;
Koom-in,
‘um
buraco’;
Zi-koom,
‘um
vale’;
Koom-zi,
‘vazio
ou vácuo’;
Bodh-koom,
‘ignorância’
(literalmente, ‘vazio
de conhecimento’).
Koom-Posh
é o termo deles
para o governo de muitos,
ou a ascendência do mais ignorante ou vazio. Posh
é uma maneira de dizer quase intraduzível, implicando em, como o
leitor verá depois, ‘desprezo’.
A
mais próxima interpretação
que eu posso dar para isso é nossa gíria,
[89]“tolice”;
e, desse modo, Koom-Posh
pode ser vagamente interpretado como “tolice
vazia.” Mas quando a
democracia ou Koom-Posh
degenera da ignorância popular naquela paixão popular ou ferocidade
que recede sua morte, como (cito exemplos
do mundo de cima) durante o Reino do Terror em França, ou durante os
cinquenta anos da República Romana que precederam à ascendência de
Augusto, o nome deles para esse estado de coisas é Glek-Nas.
Ek
é ‘conflito’
- Glek,
‘o
conflito universal’. Nas,
como eu disse antes, é ‘corrupção’
ou ‘podridão’;
desse modo Glek-nas
pode ser traduzido como, “o
conflito – podridão universal”.
Suas
palavras
compostas
são muito expressivas;
desse modo Bodh
sendo ‘conhecimento’
e Too
uma partícula que implica em ‘ação
de aproximação cautelosa’,
- Too-bodh
é a palavra deles para ‘Filosofia’;
Pah
é uma exclamação desdenhosa análoga a nossa maneira de dizer,
“coisas e bobagens;”
Pah-bodh (literalmente,
‘conhecimento
de coisas e bobagens’)
é o termo deles para filosofia falsa ou fútil, e aplicada às
espécies
de raciocinação especulativa ou metafísica em voga, a qual
consiste em fazer pesquisas que não podiam ser respondidas, e não
valiam
a pena serem feitas;
tais como, por exemplo, “Por
que [90]um
An tem cindo dedos em seus pés em vez de quatro ou seis? Tinha o
primeiro An, criado pelo Todo-Bem,
o mesmo número de dedos que seus descendentes? Em qual forma um An
será reconhecido por seus amigos no futuro estado de ser, ele reterá
quaisquer dedos em absoluto, e, se assim, eles serão dedos materiais
ou espirituais?” Eu tomo
essas
ilustrações
de Pah-bodh,
não como ironia ou piada, apenas porque as investigações
mesmas que eu nomeio formaram
o assunto da controvérsia
pelos últimos
cultivadores daquela ‘ciência’
- há 4000 anos.
Na
declinação
dos substantivos
eu fui informado que antigamente havia oito casos (um a mais do que
na Gramática do Sânscrito); mas o efeito do
tempo tem
sido o
de
reduzir casos e multiplicar, ao invés
desses, as terminações variantes,
preposições explanatórias. Atualmente, na gramática submetida a
meu estudo, havia quatro casos para nomes, três possuindo
terminações variantes
e o quarto um prefixo diferente.
[91]Na
literatura flexional
mais antiga
existiu
a forma dual – está
há muito
obsoleta.
Com
eles o
caso genitivo é também obsoleto; o dativo provê
seu lugar: eles dizem a Casa ‘para um’ Homem, em
vez de
a Casa ‘de’ um Homem.
Quando usado (algumas vezes
em poesia), o genitivo na
terminação é o mesmo que o nominativo; assim é o ablativo,
a preposição que o marca sendo um prefixo ou sufixo
à
opção
e geralmente decidida pelo ouvido, de acordo com o som do nome. Será
observado que o prefixo Hil
marca o caso vocativo. Ele é sempre mantido
ao dirigir-se a outro, exceto nas relações mais domésticas
e
íntimas; sua omissão seria
considerada rude: assim como, em nossas antigas formas de falar, ao
endereçar-se a um rei, teria sido considerado desrespeitoso dizer
“Rei,” e reverencial dizer “Ó Rei.” De fato, como eles não
possuem
títulos de honra, a
adjuração
vocativa provê
o lugar de um título
e é dada imparcialmente a todos. O prefixo Hil
entra na composição de palavras que implicam comunicações
distantes,
como Hil-ya, ‘viajar’.
Na
conjugação dos verbos deles, a
qual é um tema muito prolixo
para entrar aqui, o [92]verbo
auxiliar Ya,
“ir”
o qual desempenha
papel tão considerável no Sânscrito, aparece e cumpre
uma função aparentada, como se fosse um radical em alguma linguagem
da qual ambas descenderam. Apenas
outro auxiliar de significação oposta
também o acompanha e compartilha de suas tarefas – a saber, Zi,
‘permanecer ou repousar’. Desse modo,
Ya
entra no tempo futuro, e Zi
no pretérito
de todos os
verbos
que requerem auxiliares. Yam,
‘Eu vou’ - Yiam,
‘eu posso ir’ - Yani-ya,
‘Eu devo ir’ (literalmente, ‘Eu vou ir’) Zampoo-yan,
‘Eu fui’ (literalmente, ‘Eu descanso de ter ido’). Ya,
como uma terminação, implica,
por analogia,
em;
progresso, movimento, eflorescência. Zi,
como um final,
denota firmeza, as
vezes em um bom sentido, as
vezes em um mau, de acordo com a palavra com o
qual
está unida.
Iva-zi,
‘bondade eterna’; Nan-zi,
‘mal eterno’. Poo
(‘de’) entra como um prefixo em palavras que denotam repugnância,
ou coisas das quais nós devemos ser adversos.
Poo-pra,
‘aversão’; Poo-naria,
‘falsidade’, o tipo mais vil de mal. Poosh
ou Posh
eu já confessei ser intraduzível literalmente.
É uma expressão de desprezo
misturada com piedade. Esse radical parecer ter-se originado de uma
simpatia própria entre o [93]esforço
labial e o sentimento que o impele, Poo
sendo uma expressão na qual a respiração
explode dos lábios com mais ou menos veemência. Por outro lado, Z,
quando uma inicial,
é com
eles
um som no qual a respiração é
sugada para dentro e,
desse modo,
Zu,
pronuncia-se Zoo (que na língua dele é uma letra), é o prefixo
ordinário que significa algo que atrai, apraz, toca o coração –
como Zummer,
‘amante’; Zutze,
‘amor’; Zuzulia,
‘prazer’. Esse som introspectivo de Z
parece de fato naturalmente apropriado ao carinho. Dese modo, mesmo
em nossa linguagem, mães
dizem a seus bebês, em desafio à gramática, “Zoo querido;” e
eu
ouvi um instruído professor em Boston chamar sua esposa (ele tinha
sido casado
somente há um mês) “Zoo pequena querida.”
Eu
não posso
deixar
este assunto, contudo, sem observar que,
com
leves mudanças nos dialetos favorecidos por
diferentes tribos da mesma raça, o significado e a beleza originais
dos sons podem
tornar-se
confusos e deformados.
Zee contou-me com muita indignação que Zummer
(amante) o
qual,
no
modo como ela pronunciou-o, parecia lentamente tomado
às profundezas mesmas do coração dela, [94]era,
em comunidades não muito distantes dos Vril-ya, viciado no meio
assobio,
meio
nasal,
inteiramente desagradável, som de Subber.
Eu pensei para mim mesmo que somente
carecia
da
introdução de
n
antes de u
para torná-lo em uma palavra em inglês significando a última
qualidade que uma Gy amorosa desejaria em seu Zummer.
Eu
mencionarei outra peculiaridade nesta
linguagem, a qual dá igual força e brevidade as suas formas de
expressões.
‘A’
é com
eles, assim como
conosco, a primeira letra do alfabeto, e é frequentemente usado como
uma palavra
de prefixo
para transmitir
a complexa ideia de soberania ou chefia,
ou princípio que preside.
Por exemplo, Iva
é ‘bondade’;
Diva,
‘bondade
e felicidade
unidas’;
A-Diva
é ‘verdade
absoluta e infalível’.
Eu já notei o valor de A em A-galuran,
portanto,
em vril (às propriedades do qual eles traçam o seu presente estado
de civilização), A-vril,
denota, como eu disse, ‘a
civilização mesma’.
O
filólogo
terá
visto a partir do
acima [relatado]
quanto a linguagem dos Vril-ya é aparentada
da ariana ou indo-germânica; mas, como todas as linguagens, contem
palavras e formas nas
quais transfere [95]a
partir de fontes
muito
opostas
da fala
da qual foram tomadas.
O título mesmo de Tur, o qual eles dão a seu magistrado supremo,
indica
‘roubo’
segundo uma
língua aparentada ao turaniano. Eles dizem a si mesmos que essa é
uma palavra estrangeira,
emprestada
de
um
título o qual os registros históricos deles mostram ter sido
portada
pelo chefe de uma nação com quem os ancestrais dos Vril-ya
estiveram,
em períodos muito remotos, em termos amigáveis, mas a qual há
muito
se
extinguiu.
Eles
dizem que,
quando, depois da descoberta do vril, remodelaram suas instituições
políticas, adotaram expressamente um título
tomado
de uma
raça extinta e de uma língua morta para aquele de seu magistrado
supremo, a fim de evitar todos os títulos com os quais tinham
associações prévias para aquele cargo público.
Caso
a vida seja-me poupada,
eu
posso reunir
em
uma forma sistemática
conhecimento tão
grande
quanto eu adquiri desta linguagem durante minha permanência
entre os Vril-ya.
Mas o que eu já disse, talvez,
será suficiente para
mostrar aos genuínos estudantes de filologia que uma linguagem que,
preservando tantas das raízes em formas primitivas,
e
desobstruindo
do imediato, mas transitório, estágio
polissintético
[96]tantos
encargos
rudes,
alcançou
uma união tal de simplicidade e compreensão
em suas formas flexionais
finais,
necessita ter sido o trabalho gradual de inúmeras eras e de
muitas
variedades de opiniões;
de
tal modo
isso
contem a evidência da fusão entre raças convenientes,
e necessitou,
para chegar
à
forma na qual que dei exemplos, a cultura contínua de um povo
altamente pensativo.
Que,
porém, a literatura que
pertence a esta linguagem é uma literatura do passado; que o
presente estado aprazível
da sociedade que os Ana atingiram,
proíbe o cultivo
progressivo da literatura, especialmente nas duas maiores divisões
da ficção e da história,
- eu deverei
ter ocasião
de mostrar depois.
Próximo capítulo
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON,
E. The Coming
Race.
Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 84-96.
Disponível:
<https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/84/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Eidonet
Licença:
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