[101]Embora, como eu disse, os Vril-ya desencorajem todas as especulações sobre a natureza do Ser Supremo, eles parecem concordar numa crença pela qual pensam resolver aquele grande problema da existência do mal, o qual deixou tão perplexa a filosofia do mundo de cima. Eles sustentam que onde quer que Ele uma vez tenha dado vida, com as percepções daquela vida, por mais débil que seja, como em uma planta, a vida nunca é destruída: ela passa para formas novas e melhoradas, embora não neste planeta (diferindo a esse respeito da doutrina ordinária da metempsicose), e que a coisa viva retém o sentido de identidade, de modo que conecta sua vida passada à sua vida futura, assim como é consciente de seu aperfeiçoamento progressivo na escala de felicidade. Pois eles dizem que, sem essa suposição, eles não podem, de acordo com as luzes da razão humana concedidas a eles, [102]descobrir a justiça perfeita a qual precisa ser uma qualidade constituinte do Todo-Sábio e Todo-Bom. Injustiça, eles dizem, somente pode emanar de três causas: carência de sabedoria para perceber o que é justo, carência de benevolência para desejar, carência de poder para realizá-lo; e cada um dessas três carências é incompatível no Todo-Sábio, Todo-Bom, Todo-Poderoso. Mas que, enquanto mesmo nesta vida, a sabedoria, a benevolência e o poder do Ser Supremo são suficientemente aparentes para compelir nosso reconhecimento, a justiça, necessariamente resultante desses atributos, realmente requer outra vida, não somente para o homem, mas para cada coisa viva das ordens inferiores. Que, de modo semelhante aos mundos animal e vegetal, nós vemos um individuo capitular, por circunstâncias além de seu controle, muito miserável comparado a seus vizinhos – alguém que somente exista como presa para outro – mesmo uma planta sofre de doença até que ela pereça prematuramente, enquanto a planta próxima a ela regojiza-se com sua vitalidade e vive sua vida feliz, livre de uma aflição. Que é uma analogia errônea das enfermidades humanas responder dizendo que o Ser Supremo somente age através de leis gerais, desse modo [103]fazendo suas próprias causas secundárias potentes o suficiente para desfigurar a bondade essencial da Primeira Causa; e uma concepção ainda mais mesquinha e ignorante do Todo-Bom, dispensar com um desdém breve toda a consideração de justiça para a miríade de fomas às quais ele infundiu vida, e assumir que a justiça somente é devida ao produto único do An. Não há pequeno e não há grande aos olhos do divino Doador de Vida. Mas uma vez concedido que nada, por mais humilde que seja, que sinta que vive e sofre, pode perecer através da série de idades, que todo o seu sofrimento aqui, se contínuo do momento de seu nascimento até aquele de sua transferência para outra forma de ser, seria mais breve comparado com a eternidade do que o choro de um recém-nascido é comparado à vida inteira de um homem; e uma vez suposto que essa coisa viva retenha seu sentido de identidade quando transferida (pois sem esse sentido não poderia ser consciente de ser futuro), e embora, de fato, o cumprimento da justiça divina está removido do alcance de nosso conhecimento, contudo, nós temos um direito de assumi-lo ser uniforme e universal, e não variante e parcial, como seria se agindo apenas segundo leis secundárias gerais; pois [104]semelhante justiça perfeita fluí da necessidade a partir da perfeição do conhecimento para conceber, perfeição do amor para desejar, e perfeição do poder para completá-la.
Por mais fantástica que essa crença dos Vril-ya possa ser, ela tende talvez a confirmar politicamente os sistemas de governo que, admitindo diferentes graus de riqueza, contudo, estabelecem perfeita igualdade de classe, suavidade extraordinária em todas as relações e tratos, e ternura para com todas as coisas criadas que o bem da comunidade não os requeira destruir. E embora a noção deles de compensação para um inseto torturado ou uma flor corrompida possa parece a alguns de nós uma fantasia muito selvagem, contudo, ao menos, não é uma perniciosa; e pode fornecer assunto para a agradável reflexão de pensar que, no interior dos abismos da terra, nunca iluminado por um raio dos céus materiais, naquele lugar teria penetrado uma convicção tão luminosa da bondade inefável do criador – uma ideia tão fixa de que as leis gerais pelas quais Ele age não podem admitir nenhuma justiça ou mal parcial, e portanto não podem ser compreendidas sem referência a ação delas sobre todo o espaço e ao longo de todo o tempo. E [105]uma vez que, como eu deverei ter ocasião de observar depois, as condições intelectuais e os sistemas sociais desta raça subterrânea compreendem e harmonizam grandes, e aparentemente antagônicas, variedades na doutrina e especulação filosóficas que tem sido de tempos em tempos iniciada, discutida, dispensada e tem reaparecido em meio aos pensadores ou sonhadores no mundo de cima, - assim eu posso talvez concluir apropriadamente esta referência à crença dos Vril-ya, que a vida senciente ou autoconsciente uma vez dada é indestrutível em meio às criaturas inferiores assim como no homem, com uma passagem eloquente daquele eminente zoólogo, Louis Agassiz, com o qual eu encontrei-me há pouco, muitos anos depois que eu comprometera-me a registrar aquelas recordações da vida dos Vril-ya que agora reduzo a alguma coisa como harmonia e forma: “As relações que animais individuais suportam uns dos outros são de um feitio tal que elas devem há muito ter sido consideradas como prova suficiente de que nenhum ser organizado poderia alguma vez ter sido chamado à existência pela ação de outro senão pela intervenção direta de uma mente reflexiva. Isso argumenta fortemente a [106]favor da existência em cada animal de um princípio imaterial semelhante àquele [que], através de sua excelência e dotes superiores, posiciona o homem tão muito acima dos animais; contudo o princípio inquestionavelmente existe, e seja chamado de sentido, razão, ou instinto, apresenta na variedade inteira de seres organizados uma série de fenômenos intimamente ligados, e sobre eles são baseados não somente as manifestações mais altas da mente, mas a permanência mesma das diferenças específicas que caracterizam cada organismo. A maioria dos argumentos a favor da imortalidade do homem aplicam-se igualmente à permanência desse princípio em outros seres vivos. Não posso eu acrescentar que a vida futura, na qual o homem seria privado daquela grande fonte de felicidade e aperfeiçoamento moral e intelectual que resulta da contemplação das harmonias de um mundo orgânico, envolveria uma perda lamentável? E não podemos nós olhar para o acordo espiritual dos mundos combinados e todos os seus habitantes na presença de seu Criador como a mais alta concepção de paraíso?” - ‘Ensaio sobre Classificação’, sect. xvii. p.97-99.
ORIGINAL:
BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp.101-106. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/101/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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