A Água das Ilhas Maravilhosas - A Primeira Parte: Sobre A Casa do Cativeiro - Capítulo I Capturada em Utterhay

[1]WHILOM, como conta a história, era uma cidade-mercado murada nomeada Utterhay, a qual foi construída numa reentrância de terra um pouco distante da grande estrada que ia de cima das montanhas para o mar.

A dita cidade ficava próxima das bordas de um bosque, o qual os homens consideravam ser extremamente grande, ou talvez incomensurável; embora poucos de fato tenham adentrado-o, e eles que o fizeram, trouxeram de volta dali histórias selvagens e confusas.

Naquele lugar não havia nem estrada principal nem atalho, nem supervisor de floresta nem guardião de estrada; nunca veio mascate de lá para Utterhay; nenhum homem de Utterhay era tão pobre ou tão audaz que ele se atrevesse a provocar a caça naquele lugar; nenhum fora da lei atrevia-se a fugir para lá; nenhum homem de Deus tinha tanta confiança nos santos para que ele se atrevesse a construir para si um aposento naquele bosque.

Pois todos os homens consideravam-no mais do que perigoso; e alguns diziam que ali caminhava o pior dos mortos; outros que a Deusa dos Gentios assombrava lá; outros novamente que eram antes as fadas, mas elas cheias de malícia e astúcia. Porém, mais comumente se considerava que os diabos pululavam em meio aos matagais, e que onde quer que um homem buscasse, quem era uma vez rodeado por [2]ele, sempre era ao Portão do Inferno a que ele chegava. E eles diziam que o bosque era chamado de Evilshaw.

Mesmo assim a cidade-mercado prosperava não imperfeitamente; pois quaisquer que fossem as coisas malignas que assombravam Evilshaw, nunca elas entraram em Utterhay em uma forma tal que os homens conhecessem-nas, nem sabiam eles de qualquer dano que eles receberam dos Diabos de Evilshaw.

Agora na dita cidade, em um dia, era [hora de] mercado e meio dia, e na feira estavam muitas pessoas reunindo-se. Em meio a elas caminhava uma mulher, alta e forte de aspecto, aparentando uns trinta invernos, de cabelos negros, de nariz de gancho e de olhos de falcão, não tão bela de olhar-se quanto poderosa e orgulhosa. Ela guiava um grande asno cinzento entre dois cestos, nos quais ela carregava seus produtos. Mas agora ela concluíra seu regateio e estava olhando ao redor de si, como se para observar as pessoas para seu divertimento; mas quando ela deparava-se com uma criança, quer fosse trazida em braços ou guiada por suas parentas, ou estivesse indo sozinha, como algumas estavam, ela aprecia mais atenta disso, e olhava-as mais de perto do que qualquer outra coisa.

Então ela passeou ao redor até que ela chegou aos arredores da multidão. Ali ela deparou-se com um bebê de aproximadamente dois invernos, o qual estava arrastando-se ao redor sobre suas mãos e joelhos, com um trapo escasso sobre seu pequeno corpo. Ela observava-o e olhava para onde estava indo; viu uma mulher sentada sobre uma pedra, sem ninguém próximo a ela, seu rosto curvado sobre os joelhos como se ela estivesse cansada ou triste. Até ela arrastou-se o pequenino, murmurante e alegre, e colocou seus braços ao redor das pernas da mulher, e enterrou seu rosto nas dobras de seu vestido. [3]Com isso ela olhou e revelou uma face que uma vez fora inteiramente bela, mas agora tornou-se esquelética e abatida, embora ela dificilmente houvesse passado dos vinte e cinco anos. Ela pegou a criança e puxou-a para seu seio, e beijou-a, rosto e mãos, e fez a ela grande alegria, apenas sempre tristemente. A estranha alta permaneceu olhando abaixo para ela e observou quão perversamente ela estava vestida, bem como ela parecia não ter nada para fazer com aquela multidão de feirantes prósperos; ela sorriu um pouco azedamente.

Finalmente ela falou, e a voz dela não era tão áspera quanto poderia ter parecido a partir de seu rosto: ‘Senhora’, ela disse, ‘tu pareces estar menos ocupada do que a maioria das pessoas aqui; poderia eu almejar de ti para dizer a uma estrangeira, quem tem apenas uma hora para permanecer nesta bela cidade, onde ela pode encontrar para si um aposento no qual descansar e comer um bocado, assim como ficar imperturbada por grosseiros e má companhia? Disse a esposa pobre; Curta dever minha história; eu sou muito pobre para conhecer albergues e tabernas das quais eu possa contar-te algo’. Disse a outra: ‘Talvez algum vizinho teu aceitar-me-ia por tua causa? Disse a mãe: ‘Que vizinhos tenho eu desde que meu marido morreu. Eu morrendo de fome, e nesta cidade de poupança e abundância?

A guia do asno ficou silenciosa por um tempo, então ela disse; Pobre mulher! Eu começo a ter pena de ti; assim como eu digo-te que a sorte chegou para ti hoje.

Agora, a esposa pobre pusera-se de pé, com o bebê em seus braços, e estava virando-se para seguir em seus caminhos; mas a estrangeira estendeu a mão para ela e disse: ‘Levante-se [4]e ouça boas notícias. E ela colocou a mão na bolsa da cintura, retirou de lá uma boa peça dourada, uma moeda, e disse: Quando eu estiver sentada em tua casa tu terás merecido isto e, quando eu tiver tirado as solas de meus pés de lá, haverá três vezes mais de semelhante aprovação, se entrementes eu estiver contente contigo.

A mulher olhou para o ouro, e lágrimas vieram-lhe aos olhos; mas ela riu e disse: Alojamento eu sinceramente posso dar-te por uma hora, bem como além disso água do poço, e uma refeição de pão para morder. Se tu consideras que vale três moedas de ouros, como posso eu dizer-te não, quando elas podem salvar a vida de meu pequenino. Entretanto o que mais tu desejas de mim? Pouco o suficiente, disse a estrangeira; então, leva-me diretamente para tua casa.

Assim elas prosseguiram para a feira. A mulher guiou-os, a estrangeira e o asno, para fora da rua através do portão oeste de Utterhay, o qual, a saber, olhava para Evilshaw e, assim, para uma rua dispersa sem a muralha, o fim da qual aproximava-se de um canto do bosque supracitado. As casas não eram tão más de forma, mas, considerando que elas estavam tão próximos do Parque do Diabo, os ricos não tinham poder tão distante sobre elas, e elas tornaram-se artigos para gente pobre.

Agora a mulher da cidade colocou a mão sobre o trinco da porta que era a dela, e abriu a porta; então ela estendeu a mão à outra, e disse: Tu dá-me o primeiro ouro agora, uma vez que descanso está assegurado para ti, enquanto tu desejares? A guia do asno colocou-o na mão dela, e ela tomou-o e [5]colocou-o na bochecha de seu bebê, em seguida beijou ambos ouro e bebê juntos; então ela virou-se para a estrangeira e disse: ‘Quanto à tua besta de percurso, eu não tenho nada para ela, nem feno nem cereal: tu ficas melhor se deixá-la na rua. A estranha acenou com a cabeça em concordância, e os três entraram juntos, a mãe, a criança e a estrangeira.

Não exatamente pequena era a câmara; mas havia pouco ali; um banquinho a saber, uma cadeira de teixo, uma pequena mesa e uma arca: não havia fogo no centro, nada salvo cinzas brancas de madeira pequena; mas era Junho, de modo que não era de nenhuma importância.

A convidada sentou-se na cadeira de teixo, e a esposa pobre gentilmente colocou a criança no chão, veio e colocou-se diante da estranha, como se aguardando sua oferta.

Falou a estrangeira: ‘Nada tão desagradável ou estreito é teu aposento; e tua criança, a qual eu vejo é de natureza feminina, e portanto provavelmente deve por longo tempo continuar contigo, ela é encantadora de forma e bela de perfil. Agora também tu deverás ter dias melhores, como eu considero, e suplico por eles em tua cabeça.’

Ela falava numa gentil voz lisonjeira. A face da esposa pobre suavizou-se e logo as lágrimas dela caíram sobre a mesa, mas ela não falou palavra alguma. A convidada retirou, não três moedas de ouro, mas quatro, colocou-as sobre a mesa e disse: Eis, minha amiga, as três moedas de ouro que te prometi! Agora são elas tuas; mas esta outra tu deves pegar e gastá-la por mim. à cidade e compre-me pão branco do melhor; e carne certamente boa, ou poulaine se pode ser, já cozida [6]e preparada; e, além disso, o melhor vinho que tu possas conseguir, e docinhos para tua bebê; e quando tu voltares, nós sentaremos juntas e jantaremos aqui. E depois disso, quando nós estivermos cheias de comida e bebida, nós deveremos inventar algo mais para tua prosperidade.

A mulher ajoelhou-se diante dela chorando, mas não pôde falar palavra nenhum por causa da plenitude de seu coração. Ela beijou as mãos da convidada e pegou o dinheiro. Então levantou-se, apanhou sua criança e beijou sua pele nua muitas vezes. Em seguidas se apressou para fora da casa, rua acima e através do portão. A convidada sentou-se escutando o som de seus passos até que se extinguiu, e nada havia para ser ouvido salvo o murmúrio distante do mercado, e as palmas do pequenino no chão.

Então ergue-se a convidada e pegou a criança do chão, quem chutou, gritou e almejou pela mãe dela tanto quanto sua voz débil podia. Mas a estrangeira falou suavemente com ela, e disse: Silêncio, querida, e seja boa, e nós iremos e encontrá-la-emos. Após o que ela deu-lhe uma ameixa doce a partir de sua sacola. Em seguida, ela saiu pelas portas e falou rapidamente para a pequena: Agora veja esta bela besta de percurso. Nós cavalgaremos alegremente sobre ela para encontrar tua mãe.

Então ela deitou a criança no cesto, com uma macia almofada debaixo e um pano de seda sobre ela, de modo que ela deitou-se ali alegremente. Em seguida ela tomou a rédea de seu asno e prosseguiu em seus caminhos através da região selvagem em direção a Evilshaw; pois, como vós podeis considerar, onde as casas e a rua terminavam, a estrada batida terminava também.

Quieta e velozmente ela foi, e apenas encontrou-se com três [7]homens no caminho. Quando eles viram-na, e que ela estava montando para Evilshaw, eles viraram suas cabeças, cada um, benzeram a si mesmos e passaram rapidamente. Ninguém buscou obstar-lhe, ou manteve conversa com ela, bem como nenhum pé ela ouviu seguindo-a. Assim, em pouco mais do que o proferimento de uma missa baixa, ela estava em meio às árvores, com seu asno, suas mercadorias e sua vítima.

Nenhuma demora ela fez ali, mas manteve-se adiante em seu melhor [passo] antes que a noite devesse cair sobre ela. E seja o que for que pudesse ser dito relativo às criaturas que outras pessoas tenham encontrado em Evilshaw, quanto a ela, precisa ser dito que, naquele lugar, ela não se deparou com nada pior do que ela mesma.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 1-7. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/n12/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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