A Floresta além do Mundo - Capítulo XVII Sobre a Casa e o Prazer na Floresta

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[121]Na manhã do próximo dia Walter demorou-se por um tempo ao redor da casa, até que a manhã envelhecera e então, por volta do meio dia, ele pegou seu arco, flechas e entrou nos bosques ao norte, para conseguir-lhe alguma veação. Ele foi um pouco longe antes que atirasse em um gamo, então sentou-se para descansar sob a sombra de uma castanheira, pois [a parte] mais quente do dia não se passara há muito. Ele olhou ao redor a partir daquele lugar e viu abaixo dele um pequeno vale com um córrego aprazível correndo através dele; ele imaginou-se tomando banho naquele lugar. Então ele desceu e teve seu prazer na água e nas margens cheias de salgueiros; pois deitou-se nu por um tempo, sobre a grama perto da beira da água, de alegria da sombra vacilante, assim como da pequena [122]briza que corria sobre as longas e baixas ondulações do riacho.

Em seguida, ele arrumou seu traje e começou a subir a seus caminhos até a campina, mas dificilmente tinha ido trés passos antes que visse uma mulher vindo na direção dele do rio abaixo. O coração dele veio à boca quando ele viu-a, pois ela parou e abaixou seu braço, como se ela fosse colocar a mão sobre o tornozelo, de modo que primeiro ele julgou que fosse a Donzela mas, à segunda olhada, ele viu que era a Senhora. Ela ficou de pé parada e olhou para ele, de modo que ele julgou que ela o mandaria vir a ela. Então ele foi encontrá-la, e envergonhou-se um pouco enquanto aproximava-se e maravilhava-se com ela, pois agora ela estava envolta somente em um vestuário de algum material sedoso cinza escuro, embelezada com ele como estava. Uma guirlanda de flores em torno do meio, mas que era tão fina que, conforme o vento impelia-a do lado e do membro, não a encobria mais, apenas pela dita guirlanda, do que se a água estivesse correndo sobre ela. O rosto dela estava cheio de alegria sorridente e satisfação, enquanto ela falava para ele, em uma voz acariciante e gentil, e dizia: ‘Eu dou-te bom dia, bom Escudeiro, e bom é encontrar-te.’ E ela estendeu a mão para ele. Ele ajoelhou-se diante dela, beijou-a [123]e permaneceu parado sobre seus joelhos e abaixando a cabeça.

Mas ela riu abertamente, abaixou-se [na direção] dele, colocou a mão dela sobre seus braços, levantou-o e disse para ele: ‘O que é isto, meu Escudeiro, que tu te ajoelhas para mim como para um ídolo?’

Ele disse vacilante: ‘Eu não sei, mas talvez tu sejas um ídolo e eu tema-te.’

Que!’ Ela disse, ‘mais do que ontem, quando tu viste-me assustada?’

Disse ele: ‘Sim, visto que agora eu vejo-te não oculta e parece-me que não existiu nenhum [ser] semelhante desde os dias antigos dos gentios.

Ela disse: Ainda não refletiste sobre o presente que desejas de mim, um prêmio pela morte de meu inimigo e a minha salvação de mim para longe da morte?

Oh minha Senhora,’ ele disse,[o] mesmo tanto eu teria feito por qualquer outra senhora, ou, verdadeiramente, por qualquer pobre homem; pois assim minha virilidade teria ordenado-me. Então, não fale de presentes para mim. Além disso (e ele ruborizou com isso e a voz deve vacilou), tu não me deste minha doce recompensa ontem? Que mais eu ousaria pedir?

Ela manteve-se calma por um tempo e olhou para ele profundamente. Ele ruborizou sob [124]o olhar dela. Então cólera surgiu na face dela; ela ruborizou, franziu as sobrancelhas, bem como falou para ele em uma voz de ira e disse: ‘Não, o que é isto? Está crescendo em minha mente que tu consideras o presente de mim desprezível! Tu, um estrangeiro, um proscrito; alguém dotado com a pequena sabedoria do Mundo fora da Floresta! E aqui, eu fico de pé diante de ti, toda gloriosa em minha nudez, assim como tão realizada de sabedoria, que eu posso fazer este lugar selvagem mais cheio de alegria do que reinos e cidades do mundo para quem eu amo… E tu! … Ah, mas é o Inimigo que fez isto e tornou a sem culpa culpada! Contudo, eu terei o controle finalmente, embora tu sofras por isso, e eu sofra por ti.’

Walter ficou de pé diante dela com a cabeça pendente, além de estender suas mãos como se suplicando para a raiva dela passar, assim como ponderava em que resposta ele devia preparar; pois agora ele temia por si mesmo e pela Donzela. Então finalmente ele olhou para ela e disse corajosamente: ‘Mais que isso, Senhora, eu sei o que tuas palavras significam, visto que eu lembro de minha primeira acolhida por ti. Eu sei, verdadeiramente, que tu desejaste chamar-me de baixo nascimento, de nenhuma consideração e indigno de tocar a bainha de tuas vestes. Que eu fui muito [125]ousado e culpado relativamente a ti; sem dúvida, isto é verdade, e eu mereci tua raiva. Mas eu não te pedirei para perdoar-me, pois eu fiz apenas o que precisava.’ Agora, ela olhou para ele calmamente e, sem qualquer cólera, mas sim como se ela lesse o que estava escrito no mais íntimo do coração dele. Em seguida, o rosto dela tornou-se alegre novamente; ela bateu as mãos juntas e exclamou: ‘Isto é apenas conversa tola; pois ontem eu vi tua valentia, e hoje eu vi tua grandiosidade. Eu digo, que embora tu não pudeste ser bom o suficiente para uma mulher tola de baronato mundano, contudo, tu és bom o suficiente para mim; a sábia, a poderosa e a encantadora. E visto que tu disseste que eu dei-te apenas desprezo quando primeiro tu chegaste a nos, não faças má vontade de mim por isso, porque foi feito para testar-te; e agora tu estás provado.’

Então, novamente, ele ajoelhou-se diante dela bem como abraçou os joelhos dela. Novamente ela levantou-o e deixou o braço dela suspenso sobre o ombro dele; a bochecha dela tocou a bochecha dele. Ela beijou a boca dele e disse: ‘Por isto, tudo está perdoado, ambas tua ofensa e a minha. Agora venham dias felizes e alegres.’

[126]Com isso, o rosto sorridente dela tornou-se grave; ela ficou de pé diante dele olhando imponente, graciosa e gentil de uma vez só. Ela tomou a mão dele e disse: ‘Tu pudeste julgar meus aposentos na Casa Dourada do Bosque demasiado majestosos, visto que tu não és um homem dominador. Então agora tu escolheste bem o lugar onde encontrar-me hoje; pois, bem perto, do outro lado do córrego fica um caramanchão de prazer, o qual, verdadeiramente, nem todo mundo que chega a esta terra pode encontrar. Lá, deverei eu ser para ti como uma das donzelas do interior de tua própria terra e tu não deverás ficar envergonhado.’

Ela andava timidamente diante dele enquanto falava e, desejasse ele ou não, a doce voz dela fazia cócegas à alma mesma dele com prazer, ademais, ela olhava de lado para ele feliz e bem satisfeita.

Assim, eles atravessaram o córrego pelo raso abaixo do poço no qual Walter banhara-se e, dentro de pouco [tempo], eles alcançaram uma cerca alta de vimes em floco assim como um portão simples . A Senhora abriu o mesmo e, desse modo, eles entraram em uma recinto todo plantado como o mais belo jardim; com cercas vivas de rosa e madressilva, com tílias a florescer e longos caminhos de grama verde entre bordas de lírios e cravos-da-índia, [127]bem como outras doces flores de grinaldas. E um braço do riacho que eles cruzaram há pouco perdia-se através daquele jardim; e no meio ficava uma pequena casa construída de coluna e folha de bétel e coberta com palha amarela, como se fosse recém-construída.

Então Walter olhou por aqui e por ali e maravilhou-se inicialmente, assim como tentou pensar em sua mente no que devia vir depois e em como as coisas iriam-se consigo. Mas o pensamento dele não permaneceria firme em qualquer assunto que não a beleza da Senhora em meio à beleza do jardim. Além disso ela agora tornara-se tão doce e amável, e mesmo um pouco tímida e contraída com ele; de modo que dificilmente ele sabe a mão de quem ele segurava, ou a fragrância de quem envolve ou amacia do lado que caminhava tão próximo dele.

Então, eles erraram por aqui e por ali através do desvanecimento do dia e, quando finalmente entraram na fresca casa sombria, nessa ocasião eles amaram e brincaram juntos, como se eles fossem um par de amantes sem culpa; sem medo do dia seguinte e sem sementes de inimizade e morte semeadas entre eles.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.121-127. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/121/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XVIII A Donzela concede um Encontro a Walter

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[128]Agora no dia seguinte, quando Walter despertou, ele descobriu que não havia ninguém deitado ao seu lado e que o dia não era mais jovem. Assim, ele ergueu-se e atravessou o jardim de ponta a ponta, inteiramente para lá e para cá, e não havia ninguém lá; além disso, embora de tal maneira ele temesse encontrar a Senhora ali, contudo, ele estava triste de coração e temeroso do que podia suceder. De qualquer maneira, ele encontrou o portão através do qual eles entraram ontem, e ele saiu para o pequeno vale; mas, quando ele fora um passo ou dois, ele voltou-se, e não pôde ver nem jardim nem cerca, nem qualquer sinal do que ele vira disso apenas recentemente. Ele franziu sua sobrancelha, ficou de pé parado para pensar sobre isso e o coração dele tornou-se mais pesado desse modo. Mas logo ele seguiu seus caminhos e atravessou o córrego. Apenas escassamente chegou à grama no lado mais além, antes que ele visse [129]uma mulher vindo encontrá-lo. Primeiramente, cheio como ele estava do curso de ontem e do jardim maravilhoso, julgou que seria a Senhora. Mas a mulher deteve seus pés e, parando, colou a mão sobre seu tornozelo direito; ele viu que era a Donzela. Ele aproximou-se dela e viu que ela não estava tão triste de semblante como da última vez que ela encontrara-o, mas de bochecha corada e de olhos brilhantes.

Enquanto ele vinha a ela, ela deu um passo ou dois para encontrá-lo, estendendo suas duas mãos e, em seguida, conteve-se, bem como disse sorrindo: ‘Ah, amigo, provavelmente esta deva ser a última vez que eu deverei dizer para ti ‘não me toques’; ou melhor, não tanto quanto minha mão, ou fosse apenas a bainha do meu vestuário.’

A alegria cresceu no coração dele, ele olhou para ela afetuosamente e disse: ‘Por que? O que então aconteceu recentemente?

Oh amigo,’ ela começou, ‘isto aconteceu.’

Mas, enquanto ele olhava para ela, o sorriso extinguiu-se do rosto dela, e ela empalideceu mortalmente nos lábios mesmos. Ela olhava desconfiadamente para o lado esquerdo de si mesma, [onde] corria o riacho; Walter seguia os olhos dela e considerou por um instante que ele via a disforme visão amarela do anão espreitando ao redor, a partir de uma rocha cinza, mas [de] perto não havia nada. Em seguida, [130]a Donzela, embora ela estivesse pálida como a morte, prosseguiu numa voz forte, firme e clara, onde não havia nem alegria nem gentileza, mantendo seu rosto em Walter e suas costas para o córrego: ‘Isto aconteceu, amigo, que não há mais qualquer necessidade para reprimir teu amor nem o meu. Por esse motivo eu digo para ti, vem a meus aposentos (e são os aposentos vermelhos externos diante dos teus, embora tu não soubeste disto) uma hora antes desta próxima meia-noite e, então, tua tristeza e a minha deverão ter um fim. Agora eu preciso partir. Não me sigas, mas lembra-te!’

E com isso ela virou-se e fugiu, como o vento desce o córrego.

Mas Walter permaneceu de pé, perguntando-se, e não sabia o que fazer, seja para o bem ou para o mal. Pois ele sabia agora que ela empalidecera e fora apanhada pelo pavor por causa do levantamento da cabeça horrenda e, contudo, ela parecia falar a coisa mesma que ela tinha a dizer. ‘Seja como for que ocorra’, ele falou em voz alta para si mesmo: ‘O que acontecer, eu manterei o encontro com ela.’

Em seguida, ele desembainhou sua espada e virou por aqui e por ali, olhando tudo ao redor se ele podia ver qualquer sinal da Coisa Maligna; mas nada puderam seus olhos ver, salvo a grama, o córrego e os arbustos do vale. Então, [131]ainda segurando sua espada desembainhada na mão, ele escalou a inclinação para fora do vale; pois esse era o único caminho que ele conhecia para a Casa Dourada. Quando ele chegou ao topo e a briza de verão soprou em seu rosto, ele olhou para baixo, [para] um belo declive verde ocupado por carvalhos e castanheiras, ficou revigorado com a vida da terra, sentiu a boa espada em seu punho e sabia que havia poder e desejo em si, bem como o mundo parecia aberto para ele.

Assim ele sorriu, como se fosse um pouco sombrio, embainhou sua espada e prosseguiu em direção à casa.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.128-131. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/128/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XVII Sobre a Casa e o Prazer na Floresta

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[121]Na manhã do próximo dia Walter demorou-se por um tempo ao redor da casa, até que a manhã envelhecera e então, por volta do meio dia, ele pegou seu arco, flechas e entrou nos bosques ao norte, para conseguir-lhe alguma veação. Ele foi um pouco longe antes que atirasse em um gamo, então sentou-se para descansar sob a sombra de uma castanheira, pois [a parte] mais quente do dia não se passara há muito. Ele olhou ao redor a partir daquele lugar e viu abaixo dele um pequeno vale com um córrego aprazível correndo através dele; ele imaginou-se tomando banho naquele lugar. Então ele desceu e teve seu prazer na água e nas margens cheias de salgueiros; pois deitou-se nu por um tempo, sobre a grama perto da beira da água, de alegria da sombra vacilante, assim como da pequena [122]briza que corria sobre as longas e baixas ondulações do riacho.

Em seguida, ele arrumou seu traje e começou a subir a seus caminhos até a campina, mas dificilmente tinha ido trés passos antes que visse uma mulher vindo na direção dele do rio abaixo. O coração dele veio à boca quando ele viu-a, pois ela parou e abaixou seu braço, como se ela fosse colocar a mão sobre o tornozelo, de modo que primeiro ele julgou que fosse a Donzela mas, à segunda olhada, ele viu que era a Senhora. Ela ficou de pé parada e olhou para ele, de modo que ele julgou que ela o mandaria vir a ela. Então ele foi encontrá-la, e envergonhou-se um pouco enquanto aproximava-se e maravilhava-se com ela, pois agora ela estava envolta somente em um vestuário de algum material sedoso cinza escuro, embelezada com ele como estava. Uma guirlanda de flores em torno do meio, mas que era tão fina que, conforme o vento impelia-a do lado e do membro, não a encobria mais, apenas pela dita guirlanda, do que se a água estivesse correndo sobre ela. O rosto dela estava cheio de alegria sorridente e satisfação, enquanto ela falava para ele, em uma voz acariciante e gentil, e dizia: ‘Eu dou-te bom dia, bom Escudeiro, e bom é encontrar-te.’ E ela estendeu a mão para ele. Ele ajoelhou-se diante dela, beijou-a [123]e permaneceu parado sobre seus joelhos e abaixando a cabeça.

Mas ela riu abertamente, abaixou-se [na direção] dele, colocou a mão dela sobre seus braços, levantou-o e disse para ele: ‘O que é isto, meu Escudeiro, que tu te ajoelhas para mim como para um ídolo?’

Ele disse vacilante: ‘Eu não sei, mas talvez tu sejas um ídolo e eu tema-te.’

Que!’ Ela disse, ‘mais do que ontem, quando tu viste-me assustada?’

Disse ele: ‘Sim, visto que agora eu vejo-te não oculta e parece-me que não existiu nenhum [ser] semelhante desde os dias antigos dos gentios.

Ela disse: Ainda não refletiste sobre o presente que desejas de mim, um prêmio pela morte de meu inimigo e a minha salvação de mim para longe da morte?

Oh minha Senhora,’ ele disse,[o] mesmo tanto eu teria feito por qualquer outra senhora, ou, verdadeiramente, por qualquer pobre homem; pois assim minha virilidade teria ordenado-me. Então, não fale de presentes para mim. Além disso (e ele ruborizou com isso e a voz deve vacilou), tu não me deste minha doce recompensa ontem? Que mais eu ousaria pedir?

Ela manteve-se calma por um tempo e olhou para ele profundamente. Ele ruborizou sob [124]o olhar dela. Então cólera surgiu na face dela; ela ruborizou, franziu as sobrancelhas, bem como falou para ele em uma voz de ira e disse: ‘Não, o que é isto? Está crescendo em minha mente que tu consideras o presente de mim desprezível! Tu, um estrangeiro, um proscrito; alguém dotado com a pequena sabedoria do Mundo fora da Floresta! E aqui, eu fico de pé diante de ti, toda gloriosa em minha nudez, assim como tão realizada de sabedoria, que eu posso fazer este lugar selvagem mais cheio de alegria do que reinos e cidades do mundo para quem eu amo… E tu! … Ah, mas é o Inimigo que fez isto e tornou a sem culpa culpada! Contudo, eu terei o controle finalmente, embora tu sofras por isso, e eu sofra por ti.’

Walter ficou de pé diante dela com a cabeça pendente, além de estender suas mãos como se suplicando para a raiva dela passar, assim como ponderava em que resposta ele devia preparar; pois agora ele temia por si mesmo e pela Donzela. Então finalmente ele olhou para ela e disse corajosamente: ‘Mais que isso, Senhora, eu sei o que tuas palavras significam, visto que eu lembro de minha primeira acolhida por ti. Eu sei, verdadeiramente, que tu desejaste chamar-me de baixo nascimento, de nenhuma consideração e indigno de tocar a bainha de tuas vestes. Que eu fui muito [125]ousado e culpado relativamente a ti; sem dúvida, isto é verdade, e eu mereci tua raiva. Mas eu não te pedirei para perdoar-me, pois eu fiz apenas o que precisava.’ Agora, ela olhou para ele calmamente e, sem qualquer cólera, mas sim como se ela lesse o que estava escrito no mais íntimo do coração dele. Em seguida, o rosto dela tornou-se alegre novamente; ela bateu as mãos juntas e exclamou: ‘Isto é apenas conversa tola; pois ontem eu vi tua valentia, e hoje eu vi tua grandiosidade. Eu digo, que embora tu não pudeste ser bom o suficiente para uma mulher tola de baronato mundano, contudo, tu és bom o suficiente para mim; a sábia, a poderosa e a encantadora. E visto que tu disseste que eu dei-te apenas desprezo quando primeiro tu chegaste a nos, não faças má vontade de mim por isso, porque foi feito para testar-te; e agora tu estás provado.’

Então, novamente, ele ajoelhou-se diante dela bem como abraçou os joelhos dela. Novamente ela levantou-o e deixou o braço dela suspenso sobre o ombro dele; a bochecha dela tocou a bochecha dele. Ela beijou a boca dele e disse: ‘Por isto, tudo está perdoado, ambas tua ofensa e a minha. Agora venham dias felizes e alegres.’

[126]Com isso, o rosto sorridente dela tornou-se grave; ela ficou de pé diante dele olhando imponente, graciosa e gentil de uma vez só. Ela tomou a mão dele e disse: ‘Tu pudeste julgar meus aposentos na Casa Dourada do Bosque demasiado majestosos, visto que tu não és um homem dominador. Então agora tu escolheste bem o lugar onde encontrar-me hoje; pois, bem perto, do outro lado do córrego fica um caramanchão de prazer, o qual, verdadeiramente, nem todo mundo que chega a esta terra pode encontrar. Lá, deverei eu ser para ti como uma das donzelas do interior de tua própria terra e tu não deverás ficar envergonhado.’

Ela andava timidamente diante dele enquanto falava e, desejasse ele ou não, a doce voz dela fazia cócegas à alma mesma dele com prazer, ademais, ela olhava de lado para ele feliz e bem satisfeita.

Assim, eles atravessaram o córrego pelo raso abaixo do poço no qual Walter banhara-se e, dentro de pouco [tempo], eles alcançaram uma cerca alta de vimes em floco assim como um portão simples . A Senhora abriu o mesmo e, desse modo, eles entraram em uma recinto todo plantado como o mais belo jardim; com cercas vivas de rosa e madressilva, com tílias a florescer e longos caminhos de grama verde entre bordas de lírios e cravos-da-índia, [127]bem como outras doces flores de grinaldas. E um braço do riacho que eles cruzaram há pouco perdia-se através daquele jardim; e no meio ficava uma pequena casa construída de coluna e folha de bétel e coberta com palha amarela, como se fosse recém-construída.

Então Walter olhou por aqui e por ali e maravilhou-se inicialmente, assim como tentou pensar em sua mente no que devia vir depois e em como as coisas iriam-se consigo. Mas o pensamento dele não permaneceria firme em qualquer assunto que não a beleza da Senhora em meio à beleza do jardim. Além disso ela agora tornara-se tão doce e amável, e mesmo um pouco tímida e contraída com ele; de modo que dificilmente ele sabe a mão de quem ele segurava, ou a fragrância de quem envolve ou amacia do lado que caminhava tão próximo dele.

Então, eles erraram por aqui e por ali através do desvanecimento do dia e, quando finalmente entraram na fresca casa sombria, nessa ocasião eles amaram e brincaram juntos, como se eles fossem um par de amantes sem culpa; sem medo do dia seguinte e sem sementes de inimizade e morte semeadas entre eles.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.121-127. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/121/mode/1up


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EderNB do Blog Eidonet

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A Floresta além do Mundo - Capítulo XVI Sobre o Filho do Rei e a Donzela

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[113]Mas, quanto a Walter, ele saiu da casa novamente, e viajou lentamente sobre os relvados do bosque até que chegou a outro bosque próximo ou matagal. Ele entrou a partir de mera licenciosidade, ou para que pudesse estar mais à parte e oculto, assim como para pensar sobre seu caso. Naquele lugar ele deitou-se sob galhos grossos, mas não pôde então reunir seus pensamentos para que eles permanecessem firmes em examinar cuidadosamente o que podia acontecer-lhe dentro dos próximos dias. Antes, apenas visões daquelas duas mulheres e do monstro pairavam diante dele. Medo, desejo e a esperança de vida corriam para lá e para cá em sua mente.

Enquanto deitava-se assim ele ouviu passos aproximando-se. Ele olhou entre os galhos e, embora o sol tinha acabado de pôr-se, podia ver próximo a si um homem e uma mulher caminhando lentamente e eles de mãos dadas. Primeiramente, ele [114]julgou que seriam o Filho de Rei e a Senhora; mas logo ele viu que era o Filho de Rei, de fato, mas que era a Donzela que ele estava segurando pela mão. E neste momento ele percebeu nele, que seus olhos estavam brilhantes com desejo, e nela, que ela estava muito pálida. Contudo, quando ele ouviu-a começar a falar, foi em uma voz firme que ela disse:

Filho de Rei, tu ameaçaste-me frequente e cruelmente; agora tu ameaças-me novamente e não menos cruelmente. Mas, qualquer que fosse tua necessidade sobre isso antes, agora não há mais carência. Pois, minha Mestra, de quem tu estavas cansado, agora está cansada de ti e, provavelmente, não me recompensará por atrair teu amor para mim, como uma vez ela teria feito; a saber, antes da chegada deste estranho. Portanto eu digo, uma vez que eu sou apenas uma escrava, miserável e desamparada, entre vocês dois poderosos: eu não tenho escolha senão fazer tua vontade.’

Enquanto falava, ela olhava tudo em volta de si, como alguém perturbada pela angústia do medo. Walter, em meio a sua ira e pesar, quase desembainhara a espada e saíra correndo de seu covil para cima do Filho de Rei. Mas ele considerou certo que, assim fazendo, devia arruinar a Donzela completamente, assim como a si mesmo também provavelmente. Assim [115]se conteve, embora fosse um caso difícil.

Agora, a Donzela parara seus pés nas proximidades de onde Walter deitava-se, a umas cinco jardas dele apenas, e ele duvidava se ela não o via de onde ela estava de pé. Quanto ao Filho de Rei, ele estava tão concentrado sobre a Donzela, e tão ávido por sua beleza, que não era provável que ele visse alguma coisa.

Agora, além disso, Walter olhou e julgou que contemplava algo através da grama e da samambaia do outro lado daqueles dois; um corpo feio, horrendo e amarelo, o qual, se não fosse alguma fera da espécie da doninha, devia ser o anão monstruoso, ou alguém de sua família. A carne arrepiou-se sobre os ossos de Walter com o pavor dele. Mas o Filho de Rei falou para a Donzela: ‘Docinho, eu deverei tomar o presente que tu deste-me, nem sequer eu deverei ameaçar-te mais uma vez. No entanto, tu deste-o não muito de boa vontade ou graciosamente.’ Ela sorriu para ele, com seus lábios apenas, pois seus olhos estavam errantes e abatidos. ‘Meu senhor,’ ela disse, ‘não é esta a maneira das mulheres?’

Bem,’ ele disse, ‘eu digo que eu tomarei teu amor mesmo assim dado. Contudo, deixa-me ouvir novamente que tu não amas aquele vil recém-chegado e [116]que tu não o viste, salvo esta manhã com minha Senhora. Mais que isso, agora tu deves jurá-lo.

Pelo que eu devo jurar?’ Ela disse.

Disse ele, ‘Tu deves jurar por meu corpo;’ e com isso ele jogou-se próximo diante dela. Mas ela puxou a mão dela da dele, colocou-a sobre o peito dele e disse: ‘Eu juro-o pelo teu corpo.’

Ele sorriu para ela licorosamente, tomou-a pelos ombros, beijou o rosto dela muitas vezes; então ficou de pé distante dela e disse:Agora eu tive garantia. Mas diga-me, quando deverei eu voltar a ti?’

Ela falou alto e claramente: ‘Dentro de três dias no mais tardar; eu te receberei para saber do dia e da hora amanhã, ou o dia seguinte.

Ele beijou-a uma vez mais e disse: ‘Não te esqueças, ou a ameça será verdadeira.

E, após o que, ele virou de volta e seguiu seus caminhos na direção da casa. Walter viu a coisa marrom amarelada rastejando atrás dele, no crepúsculo que se ajuntava.

Quanto à Donzela, ela ficou de pê por um momento sem se mover; procurando pelo Filho de Rei e pela criatura que o seguiu. Em seguida, ela virou-se para onde Walter estava deitado e levemente pôs de lado os galhos. Walter [117]deu um salto e eles ficaram cara a cara. Ela disse suave, mas avidamente: ‘Amigo, não me toque ainda’

Ele não falou nada, mas olhou para ela severamente. Ela disse: ‘Tu estás zangado comigo?’

Ainda ele não falou nada. Mas ela disse: ‘Amigo, isto ao menos eu te implorarei: não brinques com vida e morte, com felicidade e miséria. Tu não te lembras do juramento que nós fizemos um ao outro apenas pouco tempo? E tu julgas que eu mudei nesses poucos dias? És tua opinião concernente a ti e a mim a mesma que era? Se não for assim, diz-me agora. Pois agora eu tenho a intenção de fazer como se nem tu nem eu tivéssemos mudado um para o outro; quem quer que possa ter beijado meus lábios relutantes, ou a quem teus lábios possam ter beijado. Mas, se tu tiveres mudado e não desejares mais me dar teu amor, nem almejares pelo meu, então deva este aço (e ela sacou uma faca afiada de seu cinto) ser para o tolo e o ignóbil que te fez irar-te comigo, meu amigo. Meu amigo que eu julguei ter conquistado. E então, que venha o que vier! Mas, se tu não mudaste e o juramento ainda vale, então, quando pouco tempo tiver passado, possamos nós jogar para trás todo o mal, perfídia e pesar; grande alegria deverá estar diante de nós, assim como vida [118]longa e toda honra na morte. Se apenas tu desejares fazer como eu mando-te. Oh meu querido, meu amigo e meu primeiro amigo!’

Ele olhou para ela e o peito dele levantou-se, como se toda a doçura de amor gentil dela o agarrasse. O rosto dele mudou, as lágrimas encheram os olhos dele, caíram e derramam-se diante dela. Ele estendeu a mão na direção dela.

Então ela disse de um modo excessivamente doce: ‘Agora de fato eu vejo [que] está certo comigo, sim, e contigo também. É uma aflição dolorosa para mim; que nem mesmo agora eu possa segurar tua mão, lançar meus braços ao redor de ti e beijar os lábios que me amam. Mas assim isso tem de ser. Meu querido, ainda assim eu estava disposta a ficar de pé aqui por muito tempo diante de ti, mesmo se nós não falássemos mais nenhuma palavra um para o outro. Mas permanecer aqui é perigoso; pois há sempre um espião maligno sobre minhas ações, que agora, como eu imagino, seguiu o Filho de Rei à casa, mas que retornara quando ele tiver seguido-o para casa do outro lado. Então nós precisaremos separar-nos. Mas talvez ainda haja tempo para uma palavra ou duas. Primeiro, o desígnio no qual eu pensara para nossa libertação está agora em movimento, embora eu não me atrevi a contar-te disso, nem tenha tempo para isso. Mas este tanto eu deverei contar-te; que, ao passo que grande [119]seja a habilidade de minha Senhora em feitiçaria, contudo, eu também tenho alguma capacidade nisso, e isto, que ela não tem, de mudar o aspecto das pessoas tão completamente que elas pareçam diferentes do que verdadeiramente são; de fato, de modo que alguém possa ter o aspecto de outro. Agora a próxima coisa é esta: seja o que for que minha Senhora possa ordenar-te, faze a vontade dela nisso sem mais oposição do que tu julgardes possa agradá-la. E a próxima coisa: onde quer que tu possas encontrar-me, não fales comigo, não faças sinal para mim, mesmo quando eu parecer estar completamente sozinha, até que eu abaixe-me e toque o anel em meu tornozelo com minha mão direita; mas se eu fizer isso, então te demora, sem falhar, até que eu fale. A última coisa que eu te direi, caro amigo, antes que nós sigamos nossos caminhos, é isto. Quando nós estivermos livres, e tu conheceres tudo que eu fiz, eu suplico [que] não me consideres má e perversa bem como não fiques indignado comigo e com minha ação; considerando que tu sabes bem que eu não estou em situação semelhante à de outras mulheres. Eu ouvi dizer que quando o cavaleiro vai à guerra, derrotou seus inimigos através do cilhamento de espadas e de truques astutos, e voltou para casa para sua gente, eles louvaram-lhe, exaltaram-lhe, e coroaram-lhe com flores, e vangloriam-se dele diante de Deus, na [119]igreja, por sua libertação de amigo, do povo e da cidade. Por que devias tu ser pior comigo do que isso? Agora está tudo dito, meu querido e meu amigo; adeus, adeus!’

Com isso ela virou-se e seguiu seus caminhos na direção da casa em toda velocidade, mas fazendo mais ou menos um caminho circular. E, quando ela fora-se, Walter ajoelhou-se e beijou o lugar onde os pés dela estiveram. Depois disso levantou-se e abriu seu caminho em direção à casa, ele também, mas lentamente, demorando-se frequentemente em seu caminho.


Próximo capítulo


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MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.113-120. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/113/mode/1up


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EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XV O Assassinato da Presa

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[107]Assim eles caminharam tranquilamente daquele lugar por aproximadamente meia milha. Constantemente a Senhora teria Walter a andar a seu lado e não a seguir um pouco atrás dela, como era adequado a um servo fazer. Ela tocava a mão dele às vezes, enquanto mostrava-lhe fera, ave doméstica e árvore; a doçura do corpo dela subjugava-lhe, de modo que por um tempo ele não pensava em nada exceto nela.

Agora, quando eles estavam para chegar ao lado do bosque, ela voltou-se para ele e disse: ‘Escudeiro, eu não sou silvícola indisposta, de modo que tu podes confiar-me que nós não devemos ser conduzidos à vergonha a segunda vez: eu deverei agir sabiamente. Então, coloca uma flecha em teu arco, aguarda-me aqui e não te movas daqui; pois eu deverei entrar neste bosque sem os cães de casa e provocar a presa para ti. Vê que tu sejas [108]rápido e de tiro limpo e assim tu deverás receber uma recompensa de mim.

Após o que ela novamente arrumou suas saias ao redor de seu cinto, tomou seu arco curvo na mão, retirou uma flecha da aljava e ligeiramente pôs o pé no matagal; deixando-o a ansiar pela visão dela, enquanto ele ouvia com atenção o pisar dos pés dela sobre as folhas secas e o farfalhar da mata enquanto ela atravessava-a.

Assim ele permaneceu por uns poucos minutos. Então ele ouviu um tipo de grito sem sentido e sem palavras, contudo como de uma mulher, vindo do bosque. Enquanto o coração dele ainda estava reunindo o pensamento de que algo tinha saído errado, ele deslizou velozmente, apenas com pouco tumulto, para dentro da mata.

Ele tinha ido apenas um pouco longe antes que ele visse a Senhora de pé, ali, em uma estreita clareira; o rosto dela pálido como a morte, seus joelhos apegados juntos, o corpo balançando e cambaleando, as mãos penduradas e o arco e a flecha caídos no solo. A dez jardas diante dela uma criatura amarela de cabeça grande, agachando-se plana sobre a terra e lentamente aproximando-se.

Ele parou de repente; uma flecha já estava encaixada na corda, bem como outra pendia [109]folgada dos dedos menores da mão da corda. Ele ergueu sua mão direita e puxou e atirou em um instante. A flecha voou por perto do lado da Senhora e imediatamente todo o bosque soou com um grande rugido, enquanto o leão amarelo virava de um lado para o outro para morder a flecha que afundara profundamente dentro dele, atrás do ombro, como se um relâmpago dos céus tivesse atingido-lhe. Mas imediatamente Walter atirara de novo e então, derrubando seu arco, ele correu para frente com sua espada desembainhada brilhando na mão, enquanto o leão agitava-se e rolava, mas não tinha força para mover-se para frente. Então Walter foi até ele cautelosamente, perfurou-lhe através do coração e saltou para trás, com receio de que a besta ainda tivesse vida em si para atingi-lo; mas ele desistiu de sua luta, sua voz imensa extinguiu-se e abate-se lá imóvel, diante do caçador.

Walter esperou um pouco, encarando-o e, em seguida, virou-se para a Senhora. Ela tinha baqueado em um monte [onde] estava de pé e assentava-se lá toda encolhida e sem voz. depois, ele ajoelhou-se próximo a ela, ergueu a cabeça dela e mandou-a erguer-se, pois o inimigo foi morto. E depois de um tempo ela esticou os membros e virou-se sobre a grama; parecia dormir, a cor voltou a seu rosto [110]novamente, suavizou-se e um pequeno sorriso. Assim ela permaneceu por algum tempo. Walter sentou-se próximo a ela observando-a, até que finalmente ela abriu os olhos, sentou-se, reconheceu-o e, sorrindo para ele, disse: ‘O que aconteceu, Escudeiro, que eu dormi e sonhei?’

Ele não respondeu nada, até que a memória dela voltasse a ela e, em seguida ela ergueu-se, trêmula, pálida e disse: ‘Deixemos este bosque, pois o Inimigo está neste lugar.’

E ela apressou-se para longe diante dele até que eles saíram no lado do bosque [onde] os cães de caça foram deixados; eles estavam de pé lá inquietos e ganindo. Então Walter reuni-os, ao passo que a Senhora não se demorou, mas foi embora rapidamente para casa, e Walter seguiu-a.

Finalmente ela parou os pés velozes, virou-se de volta para Walter e disse: ‘Escudeiro, venha aqui.’

Assim ele fez e ela disse: ‘Eu estou cansada novamente; que sentemos debaixo desta árvore jovem e descansemos.

Então eles sentaram-se e ela sentou-se olhando entre seus joelhos por um tempo. Finalmente ela disse: ‘Por que tu não trazes a pele do leão?’

Ele disse:Senhora, eu retornarei, esfolarei a besta e trarei a pele.

[111]E com isso ele ergueu-se, mas ela apanhou-o pela aba, abaixou-o e disse: ‘Não, tu não deves ir; permanece comigo. Senta-te novamente.’

Ele assim fez, e ela disse: Tu não deves ir-se de mim; pois eu estou assustada. Eu não estou acostumada a olhar no rosto da morte.

Ela empalideceu enquanto falava, colocou a mão sobre o seio e sentou-se assim por um tempo sem falar. Finalmente, ela voltou-se para ele sorrindo e disse: ‘Como estava o aspecto de mim quando eu fiquei diante do perigo do Inimigo?’ E ela colocou uma mão sobre a dele.

Oh graciosa,’ respondeu ele, ‘tu estavas, como sempre, completamente adorável, mas eu temi por ti.’

Ela não moveu a mão dela da dele e ela disse: ‘Bom e verdadeiro Escudeiro, eu disse antes que entrasse no bosque agora mesmo que te recompensaria se tu matasses a presa. Ele está morto, embora tu tiveste deixado a pele para trás sobre a carcaça. Peça agora tua recompensa, mas leve tempo para pensar no que deve ser.

Ele sentiu a mão calorosa dela sobre a sua e atraia o doce odor dela misturado com o perfume da floresta sob o sol quente da tarde. O coração dele foi nublado com desejo masculino por ela. E era uma coisa familiar mas ele falara; e desejava dela [112]o prêmio da liberdade da Donzela e, de tal maneira, que ele pudesse partir com ela para outras terras. Mas, enquanto a mente dele vacilava entre isto e aquilo, a Senhora, que estivera olhando-o profundamente, afastou a mão dele. Com isso, dúvida e medo fluíram para sua mente, e ele absteve-se de falar.

Então ela sorriu alegremente e disse: ‘O bom Escudeiro está envergonhado; ele teme uma senhora mais do que um leão. Será um prêmio para ti se eu te oferecer minha bochecha para beijar?’

Com isso, ela inclinou a face na direção dele. Ele beijou a bela face dela e então se sentou, olhando fixamente para ela, perguntando-se o que deveria acontecer-lhe no dia seguinte.

Depois ela ergueu-se e disse: ‘Venha, Escudeiro, e vamos para casa; não fiques envergonhado, deverá haver outras recompensas futuramente.

Em seguida, eles prosseguiram em seus caminhos silenciosamente; e era perto do pôr do sol [quando] eles entraram na casa novamente. Walter procurou em volta pela Donzela, mas não a viu. A Senhora disse-lhe: ‘Eu vou para meus aposentos, e agora teu serviço está terminado por este dia.’

Então, ela assentiu cordialmente para ele e seguiu em seus caminhos.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.107-112. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/107/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XIV A Caçada do Veado

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[99]Conforme iam, eles encontraram uma mudança na região, a qual se esvaziou de árvores largas e grandes e tornou-se mais ocupada por matagais. De um desses eles despertaram um veado e, depois disso, Walter deixou escapar seus cães de caça, bem como ele e a Senhora acompanharam correndo. Demasiadamente rápida ela era e de bom fôlego além disso, de modo que Walter maravilhou-se com ela. Ela estava tão ansiosa na perseguição quanto os próprios cães, não atentando para o arranhão dos espinheiros ou a batedura dos galhos rígidos enquanto corria. Mas, apesar da caçada ansiosa deles, a presa foi mais depressa que ambos, cães e gente, e entrou em um grande matagal, no meio do qual ficava uma larga poça de água. Dentro do matagal, eles seguiram-no, mas ele foi à água sob os olhos deles e alcançou a terra no outro lado e, por causa do emaranhado de vegetação rasteira, ele nadou de lado a lado muito mais rápido do que eles podiam [100]ter qualquer esperança de chegar em volta dele. Assim foi [que] os caçadores deixaram por fazer dessa vez.

Então a Senhora abaixou-se sobre a grama verde próxima à água, enquanto Walter convocava os cães de caça e agrupava-os. Em seguida, ele virou-se de volta para ela e, oh!, ela estava chorando pela desonra [com] que eles perderam a presa. Novamente Walter maravilha-se de que uma coisa tão pequena devesse provocar uma paixão de lágrimas nela. Ele não se atreveu a perguntar o que a afligia, ou oferecer-lha consolo, mas não ficou mau satisfeito ao contemplar a beleza dela enquanto ela deitava-se.

Logo ela levantou a cabeça, voltou-se para Walter, falou para ele iradamente e disse: ‘Escudeiro, por que tu estás de pé encarando-me como um tolo?’

De fato, Senhora,’ ele disse; ‘mas a visão de ti faz-me insensato para ver mais nada, exceto para olhar-te.’

Ela disse, em uma voz irritadiça: ‘Nádegas, Escudeiro, o dia está muito gasto para falas corteses e suaves; o que era bom lá não é tão bom aqui. Além disso, eu conheço mais de teu coração do que tu julgas.’

Walter pendeu sua cabeça e corou. Ela olhou para ele, o rosto dela mudou, ela sorriu e disse, gentilmente desta vez: Veja você, Escudeiro, eu estou quente, cansada e mal disposta. [101]Mas logo ficará melhor para mim; pois meus joelhos estiveram contando a meus ombros que a água fria deste pequeno lago será doce e agradável neste meio dia de verão, e que eu deverei esquecer minha frustração quando tiver tido meu prazer ali. Portanto, vai tu com teus cães de caça para fora do matagal e lá aguarda minha vinda. E eu ordeno-te; não olhes para trás enquanto tu vais, pois naquele lugar existem perigos para ti. Eu não deverei manter-te esperando sozinho por muito tempo.

Ele curvou a cabeça para ela, virou-se e prosseguiu em seus caminhos. E agora, quando ele estava a uma pequena distância dela, julgou-a verdadeira maravilha entre as mulheres, bem como quase esqueceu de todas as suas dúvidas e medos relativos a ela; quer ela fosse uma bela imagem formada a partir de mentiras e astúcia, ou podia ser somente uma coisa maligna na forma de uma mulher vistosa. Verdadeiramente, quando ele viu-a afagando a querida e amável Donzela, o coração dele voltou-se inteiramente contra ela, apesar do que os olhos e ouvidos dele contaram a sua mente, e ela parecia como se fosse uma serpente envolvendo a singeleza do corpo que ele amava.

Mas agora estava tudo mudado, ele deitou-se na grama e ansiava pela chegada dela, a qual foi atrasada por pouco mais [102]de uma hora. Então ela voltou a ele, sorrindo revigorada e alegre; o vestido verde dela abaixado até os calcanhares.

Ele ergueu-se para encontrá-la; ela aproximou-se dele e falou com um rosto sorridente: ‘Escudeiro, tu não tens comida em tua mochila? Pois, pareceu-me, eu alimentei-te quando tu estiveste faminto outro dia; agora, faz tu o mesmo por mim.

Ele sorriu e curvou-se respeitosamente para ela; pegou sua mochila e retirou daí pão, carne e vinho; espalhou-os todos diante dela na grama verde e, em seguida, ficou de pé perto humildemente diante dela. Mas ela disse: ‘Não, meu Escudeiro, senta-te próximo a mim e come comigo, pois hoje nós dois juntos somos caçadores.’

Então ele sentou-se próximo a ela tremendo, mas nem por admiração de sua grandeza, nem por medo e horror da astúcia e feitiçaria dela.

Por um tempo eles sentaram-se ali juntos, depois de terem acabado a refeição, e a Senhora começou a falar com Walter a respeito das partes da terra, das maneiras dos homens e das viagens para lá e para cá.

Finalmente ela disse: ‘Tu constate-me muito e respondeste todas as minhas questões sabiamente, assim como meu bom Escudeiro devia e isso me agradou. Mas agora, conta-me sobre a cidade na qual [103]tu nasceste e foste criado; uma cidade da qual tu até agora não me contaste nada.

Senhora,’ ele disse, ‘é uma bela e grande cidade e, para muitos, ela parece adorável. Mas eu deixei-a, e agora não é nada para mim.

Tu não tens parentes lá?’ Disse ela.

Sim’, disse ele, ‘e inimigos igualmente e uma mulher falsa enfadou minha vida lá.’

E quem era ela?’ disse a Senhora.

Disse Walter: ‘Ela era apenas minha esposa.’

Ela era bela?’ disse a Senhora.

Walter olhou para ela por um tempo, e então disse: ‘Eu estava para dizer que ela era quase tão bela quanto você; mas isso dificilmente pode ser. Contudo, ela era muito bela. Mas agora, Senhora graciosa e gentil, eu te direi esta palavra: admiro-me que tu perguntaste-me tantas coisas concernentes à cidade de Langton na Várzea, onde eu nasci e onde ainda estão meus parentes; pois pareceu-me que tu conhece-a por ti mesma.’

Eu conheço-a, eu?’ disse a Senhora.

O que, então! Tu não a conheces?’ disse Walter.

Falou a Senhora, e algo de seu antigo desdém estava em suas palavras: Tu julgas que eu vagueio ao redor do mundo e seus lugares de barganha como um dos mascates? Não, eu [104]habito na Floresta além do Mundo e em nenhum outro lugar. O que puseste esta palavra em tua boca?

Ele disse: ‘Perdoe-me, Senhora, se eu agi mal. Mas assim foi: meus próprios olhos contemplaram-te descendo o cais de nossa cidade, daí um bordo de navio e a embarcação navegou para fora do porto. E primeiramente passou um anão estranho, o qual eu vira aqui; em seguida, tua Criada e, então, avançou teu corpo adorável e gracioso.

O rosto da Senhora mudou enquanto ele falava; ela tornou-se vermelha, então pálida e firmou os dentes. Mas ela conteve-se e disse: ‘Escudeiro, eu vejo em ti que tu não és mentiroso, nem leviano de juízo, portanto eu suponho que tu verdadeiramente tenhas visto uma aparência de mim. Mas eu nunca estive em Langton, nem pensei nisso, nem sabia que havia um tal lugar até que tu nomeaste-o agora mesmo. Portanto, eu considero que um inimigo lançou a sombra de mim no ar daquela terra.’

Sim, minha Senhora,’ disse Walter; ‘e que inimigo tu podias ter para ter feito isso?

Ela demorou em responder, mas finalmente falou uma boca trêmula de raiva: ‘Não conheces tu o provérbio, que os inimigos de um homem estão [105]em sua própria casa? Se eu descobrisse a verdade de quem vez isto, o dito inimigo deveria ter uma má hora comigo.

Novamente ela silenciou, fechou as mãos e retesou os membros no calor de sua ira. De modo que Walter ficou com medo dela, todos os receios retornaram ao coração dele novamente e ele arrependeu-se de que contara demais a ela. Mas, em pouco tempo, todo aquele transtorno e ira pareceram fugir dela e, novamente, ela ficou de bom ânimo, amável e doce com ele. Ela disse: ‘Mas, em verdade, não obstante que possa ser, eu agradeço-te, meu Escudeiro e amigo, por contar-me acerca disto. E seguramente nenhuma culpa eu coloco em ti. E, além disso, não foi esta visão que te trouxera para cá? ’

Assim foi, Senhora,’ disse ela.

Então nós temos de agradecê-la,’ disse a Senhora, ‘e tu és bem-vindo à nossa terra.’

E com isso ela estendeu a mão a ele, e ele levou-a para seus joelhos e beijou-a. Em seguida foi como se um ferro quente vermelho transpassasse o coração dele; ele sentiu-se fraco e curvou a cabeça. Mas ele ainda segurou a mão dela e beijou-a muitas vezes, assim como o pulso e o braço, e não sabia onde ele estava.

[106]Mas ela afastou-se um pouco dele, levantou-se e disse:Agora o dia está esgotando-se, e se nós tivermos de trazer de volta alguma veação nós precisamos entregar-nos ao trabalho. Então erga-se, Escudeiro, tome os cães de caça e venha comigo; pois não muito distante fica uma pequena mata que, na maioria das vezes, abriga uma abundância de veados, grandes e pequenos. Percorramos nossos caminhos.’


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.99-106. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/99/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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