Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[81]XI Alguns Julgamentos Erewhonianos
Como em outros países, há em Erewhon algumas cortes de justiça para lidar com assuntos especiais. O infortúnio, como eu expliquei acima, é considerado mais ou menos criminoso, mas ele admite classificação, e uma corte é indicada para cada uma das principais categorias sob as quais se supõe que ele deve ser classificado. Não muito depois que tinha alcançado a capital, eu deparei-me com a Corte de Luto Pessoal, e fiquei muito interessado e aflito ao ouvir do julgamento de um homem que foi acusado de ter perdido uma esposa a quem ele estava ternamente apegado, e quem o tinha abandonado com três crianças pequenas, de quem o mais velho tinha apenas três anos de idade.
A defesa que o advogado do prisioneiro tentou estabelecer foi que o prisioneiro nunca tinha realmente amado a sua esposa; mas isso desmoronou completamente, pois o promotor público convocou testemunha após testemunha que depuseram para o fato de que o par tinha sido devotado um ao outro, e o prisioneiro chorava repetidamente conforme os incidentes eram colocados em evidência, o que o lembrava da natureza irreparável da perda que ele tinha sofrido. O júri retornou um veredito de culpado após muito pouca deliberação, mas recomendou misericórdia ao prisioneiro baseado em que ele apenas recentemente tinha colocado em seguro a vida de sua esposa por uma soma considerável, e isso poderia ser considerado sorte, na medida que ele tinha recebido o dinheiro sem objeção da companhia de seguro, embora ele tivesse pago apenas dois prêmios.
Há pouco eu disse que o júri considerou o prisioneiro culpado. Quando o juiz pronunciou a sentença, eu fui surpreendido pela maneira pela qual o advogado do prisioneiro foi repreendido por ter sido referido a um trabalho no qual a culpa de infortúnios tão grandes quanto os do prisioneiro foi minorada a um grau que inflamou a indignação da corte.
“Ocasionalmente, nós deveremos aceitar,” disse o juiz, “esses livros crus e subversivos até que seja reconhecido como um axioma de moralidade que a sorte é o único objeto adequado de veneração humana. Até onde um homem tem qualquer direito [82]de ser mais sortudo e, consequentemente, mas venerável do que os seus vizinhos, é um ponto que sempre foi, e sempre será, determinado aproximadamente por um tipo de pechinchar e barganhar do mercado e, em última instância, por força bruta; mas, de qualquer maneira que isso possa ser, é evidente que a nenhum homem deveria ser permitido ser mais sem sorte do que uma extensão muito moderada.”
Em seguida, voltando-se para o prisioneiro, o juiz continuou: “Você sofreu uma grande perda. A natureza vincula uma penalidade severa a semelhantes ofensas, e a lei humana tem de enfatizar os decretos da natureza. Mas, pela recomendação do júri, eu deverei dar a você seis meses de trabalho pesado. Contudo, eu comutarei sua sentença para uma de três meses, com a opção de uma multa de vinte e cinco por cento do dinheiro que você recebeu da companhia de seguro.”
O prisioneiro agradeceu ao juiz, e disse que ele não tinha ninguém para cuidar dos seus filhos se ele fosse enviado para a prisão, ele adotaria a opção misericordiosamente permitida a ele por sua senhoria, e pagaria a soma que ele tinha indicado. Em seguida, ele foi removido do banco dos réus.
O caso seguinte foi o de um jovem mal chegado à condição de homem, quem foi acusado de ter sido fraudado de uma grande propriedade durante a sua minoridade por seu guardião, quem também era um de suas relações mais próximas. O pai dele há muito tinha morrido, e foi por essa razão que a ofensa dele veio a julgamento na Corte do Luto Pessoal. O rapaz, quem estava sem defensor, alegou que ele era jovem, inexperiente, grandemente em reverência do seu guardião, e sem conselho profissional independente. “Rapaz,” disse severamente o juiz, “não fale sem sentido. As pessoas não têm direito a serem jovens, inexperientes, grandemente em reverência dos seus guardiões, e sem conselho profissional independente. Se através de semelhantes indiscrições elas ofendem o senso moral de seus amigos, eles devem esperar sofrer de acordo.” Então ele ordenou ao prisioneiro desculpar-se com seu guardião, e receber doze golpes com um chicote.
[83]Mas talvez eu deverei melhor comunicar ao leitor uma ideia da inteira perversão de pensamento que existe em meio a esse povo extraordinário descrevendo o julgamento público de um homem que foi acusado de tuberculose – uma ofensa que era punida com morte até muito recentemente. Isso não me ocorreu até que eu tivesse estado alguns meses no país, e eu estou desviando-me da ordem cronológica ao informá-la aqui; mas talvez eu fizesse melhor ao informá-lo em ordem para que eu possa esgotar esse assunto antes de prosseguir para outros. Além disso, eu nunca deveria chegar a um fim devesse eu manter-me em uma forma estritamente narrativa, e detalhar as absurdidades infinitas com as quais eu entrei em contato.
O prisioneiro foi colocado no banco dos réus, e o júri jurou exatamente como na Europa; quase todas as nossas formas de procedimento foram reproduzidas, mesmo à requisição do prisioneiro para se declarar culpado ou não culpado. Ele declarou-se não culpado. A evidência para acusação era muito forte; mas eu preciso ser justo com a corte e observar que o julgamento foi absolutamente imparcial. Ao advogado para o prisioneiro foi permitido argumentar tudo o que pudesse ser dito em sua defesa: a linha adotada foi que o prisioneiro estava simulando tuberculose a fim de fraudar uma companhia de seguro da qual ele estava prestes a comprar uma anuidade e que, dessa maneira, ele esperava obtê-la em termos mais vantajosos. Se isso pudesse ter sido mostrado ser o caso, ele teria escapado de uma acusação criminal e sido enviado para um hospital para padecimento moral. Contudo, a visão não era uma que poderia ser racionalmente sustentada, a despeito de toda a ingenuidade e eloquência de um dos mais celebrados advogados do país. O caso era apenas claro demais, pois o prisioneiro estava quase no ponto de morte, e era surpreendente que ele não tivesse sido julgado e condenado há muito tempo. A sua tosse foi incessante durante todo o julgamento, e era tudo que os dois carcereiros encarregados dele poderiam fazer para o manter sobre suas pernas até que tudo estivesse terminado.
[84]O resumo do juiz foi admirável. Ele demorou-se em cada ponto que poderia ser interpretado em favor do prisioneiro, mas, conforme ele prosseguia, tornou-se claro que a evidência era convincente demais para admitir dúvida, e havia apenas uma opinião na corte quanto ao veredicto iminente quando júri se retirou do seu assento. Eles ausentaram-se por aproximadamente dez minutos e, quando retornaram, o presidente do júri pronunciou o prisioneiro culpado. Houve um fraco murmúrio de aplauso, mas foi instantaneamente reprimido. Então o juiz prosseguiu para pronunciar a sentença em palavras que eu nunca poderei esquecer, e as quais eu copiei em um caderno de notas no dia seguinte, a partir do relatório que foi publicado em jornal de destaque. Eu devo condensar um pouco, e nada que eu pudesse dizer daria mais do uma fraca ideia da solenidade solene, para não dizer majestática, com a qual ele foi comunicado. A sentença foi como se segue:
“Prisioneiro no tribunal, você foi acusado do grande crime de laborar sob tuberculose e, após um julgamento imparcial diante de um júri de concidadãos, você foi considerado culpado. Contra a justiça do veredito eu não posso dizer nada: a evidência contra você foi conclusiva, e apenas resta para eu pronunciar uma tal sentença sobre você, como para satisfazer os fins da lei. Essa sentença deve ser uma severa. Atormenta-me muito ver alguém quem ainda é tão jovem, e cujos prospectos na vida eram de outra maneira tão excelentes, trazido a essa condição angustiante por uma constituição que eu apenas posso considerar como radicalmente viciosa; mas o seu não é caso para compaixão: essa não é a sua primeira ofensa: você tem levado uma carreira de crime, e apenas tem lucrado pela leniência mostrada a você, em consequência de suas ocasiões passadas, para ofender ainda mais seriamente as leis e instituições do seu país. Você foi condenado de bronquite agravada no último ano: eu considero que, embora tenha apenas vinte e três anos de idade, você esteve aprisionado em não menos do que catorze ocasiões por doenças de um carácter mais ou menos odioso; de fato, não é [85]demais dizer que você despendeu a maior parte da sua vida em uma prisão.”
“É muito bom para você dizer que você proveio de país pouco saudáveis, e teve um acidente severo em sua infância que permanentemente enfraqueceu a sua constituição; desculpas como essas são o refúgio ordinário do criminoso; mas, nem por um momento, elas podem ser ouvidas pelo ouvido da justiça. Eu não estou aqui para entrar em curiosas questões metafísicas quanto à origem disto ou daquilo – questões para as quais não haverá fim uma vez que fosse tolerada a sua introdução, e que resultariam no lançamento da única culpa sobre os tecidos da célula primordial ou nos gases elementares. Não há questão de como você chegou a ficar perverso, mas apenas esta – a saber, você é ou não perverso? Isso foi decidido no afirmativo, nem eu posso hesitar em um único momento para dizer que isso foi decidido justamente. Você é uma pessoa má e perigosa, e permanece marcado aos olhos do seus concidadãos com uma das mais ofensas hediondas mais conhecidas.”
“Não é minha obrigação justificar a lei: em alguns casos, a lei pode ter suas dificuldades inescapáveis, e eu posso sentir arrependimento de que eu não tenha a opção de pronunciar uma sentença menos severa do que eu estou compelido a fazer. Mas o seu não é um caso semelhante; pelo contrário, não tivesse a pena capital por tuberculose sido abolida, eu certamente deveria infligi-la agora.”
“É intolerável que se deva permitir a um exemplo de enormidade tão terrível continuar impune no geral. A sua presença na sociedade de pessoas respeitáveis levaria os menos corporalmente capazes a pensarem mais levemente sobre todas as formas de doenças; nem pode ser permitido que você deva ter a chance de corromper seres ainda não nascidos que poderiam futuramente importunar você. Não se deve permitir ao não nascido chegar perto de você: e isso não tanto para a proteção deles (pois eles são nossos inimigos naturais), quando para a nossa própria; pois, uma vez que eles não serão completamente contrariados, deve ser providenciado [86]para que eles devam ser aquarteladas por aqueles menos prováveis de os corromper. ”
“Mas independentemente dessa consideração, e independentemente da culpa física que se vincula a um crime tão grande quanto o seu, há outra razão pela qual nós deveríamos ser incapazes de mostrar misericórdia a você, mesmo se nós estivéssemos inclinado a fazê-lo. Eu refiro-me à existência de uma classe de homens que jaz oculta entre nós, e que são chamados de médicos. Devesse a severidade da lei ou o sentimento corrente do país ser relaxado alguma vez tão levemente, essas pessoas abandonadas, quem agora são compelidas a praticarem secretamente e quem podem ser consultados apenas ao maior risco, tornar-se-iam visitantes frequentes em cada lar; sua organização e familiaridade íntima com todos os segredos de família conceder-lhes-ia um poder, tanto social quanto político, ao qual nada poderia resistir. O líder da família tornar-se-ia subordinado ao médico da família, quem interferiria entre homem e esposa, entre mestre e servo, até que os médicos devessem ser os únicos depositários de poder na nação, e ter tudo que nós consideramos precioso à mercê deles. Uma época de desfisicalização seguir-se-ia; vendedores de medicamento de todos os tipos abundariam nas nossas ruas e anunciariam em todos os nossos jornais. Há um remédio para isso, e apenas um. É aquele pelo qual as leis deste país há muito recebidas e obedecidas, e consiste na repressão mais severa de quaisquer doenças que sejam, tão logo a existência delas seja tornada manifesta ao olho da lei. Que que esse olho fosse mais penetrante do que ele é.”
“Mas eu não me prolongarei mais sobre coisas que são elas mesmas tão óbvias. Você pode dizer que não é sua falta. A resposta está suficientemente pronta, e ela equivale a esta – que se você tivesse nascido de país ricos e prósperos, e sido bem cuidado quando era uma criança, você nunca teria ofendido as leis do seu país, nem encontrado a si mesmo na presente [87]situação vergonhosa. Se você me disser que não teve influência em sua ascendência e educação e que, portanto, é injusto colocar essas coisas sob sua responsabilidade, eu respondo que se você está com uma tuberculose é sua falta ou não, é uma falta em você, e é meu dever providenciar para que, contra faltas como essa, a comunidade política deva estar protegida. Você pode dizer que é seu infortúnio ser criminoso; eu respondo que é seu crime ser desventurado.”
“Por último, eu deverei indicar que, mesmo se o júri tivesse absolvido você – uma suposição que eu não posso seriamente entreter – eu deveria ter sentido em meu dever infligir uma sentença dificilmente menos severa do que aquela que eu devo pronunciar no presente; pois, quando mais você tivesse sido considerado sem culpa do crime imputado a você, mais você teria sido considerado culpado de um dificilmente menos hediondo – eu quero dizer o crime de ter sido caluniado injustamente.”
“Portanto, eu não hesito em sentenciá-lo a aprisionamento, com trabalho pesado, pelo resto da sua existência miserável. Durante esse período eu sinceramente suplicaria a você arrepender-se dos erros que você já cometeu, e reformar inteiramente a constituição do seu corpo inteiro. Eu entretenho apenas pouca esperança de que você prestará atenção ao meu conselho; você já está abandonado demais. Dependesse de mim mesmo, eu não deveria acrescentar nada em mitigação da sentença que eu pronunciei, mas é a provisão misericordiosa da lei que, mesmo ao mais duro criminoso deveria ser permitido um dos três remédios oficiais, o qual deve ser prescrito na ocasião de sua condenação. Portanto, eu deverei ordenar que você receba duas colheres de sopa cheias de olho de castor diariamente, até que o gozo da corte seja mais conhecido.”
“Quando a sentença foi concluída, o prisioneiro reconheceu em umas poucas palavras escassamente audíveis que ele foi justamente punido, e que ele tinha tido um julgamento justo. Então ele foi removido para a prisão a partir da qual ele nunca devia retornar. Houve uma segunda tentativa de aplauso quando o [88]juiz tinha terminado de falar, mas, como antes, ela foi imediatamente reprimida; e embora o sentimento da corte fosse fortemente contra o prisioneiro, não houve mostra de nenhuma violência contra ele, se alguém pode excetuar uma pequena vaia dos espectadores quando ele estava sendo removido na van de prisioneiros. De fato, nada me surpreendeu mais durante toda a minha estada no país do que o respeito geral pela lei e ordem.”
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 81-88. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/81/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0