Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XI Alguns Julgamentos Erewhonianos

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[81]XI Alguns Julgamentos Erewhonianos


Como em outros países, há em Erewhon algumas cortes de justiça para lidar com assuntos especiais. O infortúnio, como eu expliquei acima, é considerado mais ou menos criminoso, mas ele admite classificação, e uma corte é indicada para cada uma das principais categorias sob as quais se supõe que ele deve ser classificado. Não muito depois que tinha alcançado a capital, eu deparei-me com a Corte de Luto Pessoal, e fiquei muito interessado e aflito ao ouvir do julgamento de um homem que foi acusado de ter perdido uma esposa a quem ele estava ternamente apegado, e quem o tinha abandonado com três crianças pequenas, de quem o mais velho tinha apenas três anos de idade.

A defesa que o advogado do prisioneiro tentou estabelecer foi que o prisioneiro nunca tinha realmente amado a sua esposa; mas isso desmoronou completamente, pois o promotor público convocou testemunha após testemunha que depuseram para o fato de que o par tinha sido devotado um ao outro, e o prisioneiro chorava repetidamente conforme os incidentes eram colocados em evidência, o que o lembrava da natureza irreparável da perda que ele tinha sofrido. O júri retornou um veredito de culpado após muito pouca deliberação, mas recomendou misericórdia ao prisioneiro baseado em que ele apenas recentemente tinha colocado em seguro a vida de sua esposa por uma soma considerável, e isso poderia ser considerado sorte, na medida que ele tinha recebido o dinheiro sem objeção da companhia de seguro, embora ele tivesse pago apenas dois prêmios.

Há pouco eu disse que o júri considerou o prisioneiro culpado. Quando o juiz pronunciou a sentença, eu fui surpreendido pela maneira pela qual o advogado do prisioneiro foi repreendido por ter sido referido a um trabalho no qual a culpa de infortúnios tão grandes quanto os do prisioneiro foi minorada a um grau que inflamou a indignação da corte.

Ocasionalmente, nós deveremos aceitar,” disse o juiz, “esses livros crus e subversivos até que seja reconhecido como um axioma de moralidade que a sorte é o único objeto adequado de veneração humana. Até onde um homem tem qualquer direito [82]de ser mais sortudo e, consequentemente, mas venerável do que os seus vizinhos, é um ponto que sempre foi, e sempre será, determinado aproximadamente por um tipo de pechinchar e barganhar do mercado e, em última instância, por força bruta; mas, de qualquer maneira que isso possa ser, é evidente que a nenhum homem deveria ser permitido ser mais sem sorte do que uma extensão muito moderada.”

Em seguida, voltando-se para o prisioneiro, o juiz continuou: “Você sofreu uma grande perda. A natureza vincula uma penalidade severa a semelhantes ofensas, e a lei humana tem de enfatizar os decretos da natureza. Mas, pela recomendação do júri, eu deverei dar a você seis meses de trabalho pesado. Contudo, eu comutarei sua sentença para uma de três meses, com a opção de uma multa de vinte e cinco por cento do dinheiro que você recebeu da companhia de seguro.”

O prisioneiro agradeceu ao juiz, e disse que ele não tinha ninguém para cuidar dos seus filhos se ele fosse enviado para a prisão, ele adotaria a opção misericordiosamente permitida a ele por sua senhoria, e pagaria a soma que ele tinha indicado. Em seguida, ele foi removido do banco dos réus.

O caso seguinte foi o de um jovem mal chegado à condição de homem, quem foi acusado de ter sido fraudado de uma grande propriedade durante a sua minoridade por seu guardião, quem também era um de suas relações mais próximas. O pai dele há muito tinha morrido, e foi por essa razão que a ofensa dele veio a julgamento na Corte do Luto Pessoal. O rapaz, quem estava sem defensor, alegou que ele era jovem, inexperiente, grandemente em reverência do seu guardião, e sem conselho profissional independente. “Rapaz,” disse severamente o juiz, “não fale sem sentido. As pessoas não têm direito a serem jovens, inexperientes, grandemente em reverência dos seus guardiões, e sem conselho profissional independente. Se através de semelhantes indiscrições elas ofendem o senso moral de seus amigos, eles devem esperar sofrer de acordo.” Então ele ordenou ao prisioneiro desculpar-se com seu guardião, e receber doze golpes com um chicote.

[83]Mas talvez eu deverei melhor comunicar ao leitor uma ideia da inteira perversão de pensamento que existe em meio a esse povo extraordinário descrevendo o julgamento público de um homem que foi acusado de tuberculose – uma ofensa que era punida com morte até muito recentemente. Isso não me ocorreu até que eu tivesse estado alguns meses no país, e eu estou desviando-me da ordem cronológica ao informá-la aqui; mas talvez eu fizesse melhor ao informá-lo em ordem para que eu possa esgotar esse assunto antes de prosseguir para outros. Além disso, eu nunca deveria chegar a um fim devesse eu manter-me em uma forma estritamente narrativa, e detalhar as absurdidades infinitas com as quais eu entrei em contato.

O prisioneiro foi colocado no banco dos réus, e o júri jurou exatamente como na Europa; quase todas as nossas formas de procedimento foram reproduzidas, mesmo à requisição do prisioneiro para se declarar culpado ou não culpado. Ele declarou-se não culpado. A evidência para acusação era muito forte; mas eu preciso ser justo com a corte e observar que o julgamento foi absolutamente imparcial. Ao advogado para o prisioneiro foi permitido argumentar tudo o que pudesse ser dito em sua defesa: a linha adotada foi que o prisioneiro estava simulando tuberculose a fim de fraudar uma companhia de seguro da qual ele estava prestes a comprar uma anuidade e que, dessa maneira, ele esperava obtê-la em termos mais vantajosos. Se isso pudesse ter sido mostrado ser o caso, ele teria escapado de uma acusação criminal e sido enviado para um hospital para padecimento moral. Contudo, a visão não era uma que poderia ser racionalmente sustentada, a despeito de toda a ingenuidade e eloquência de um dos mais celebrados advogados do país. O caso era apenas claro demais, pois o prisioneiro estava quase no ponto de morte, e era surpreendente que ele não tivesse sido julgado e condenado há muito tempo. A sua tosse foi incessante durante todo o julgamento, e era tudo que os dois carcereiros encarregados dele poderiam fazer para o manter sobre suas pernas até que tudo estivesse terminado.

[84]O resumo do juiz foi admirável. Ele demorou-se em cada ponto que poderia ser interpretado em favor do prisioneiro, mas, conforme ele prosseguia, tornou-se claro que a evidência era convincente demais para admitir dúvida, e havia apenas uma opinião na corte quanto ao veredicto iminente quando júri se retirou do seu assento. Eles ausentaram-se por aproximadamente dez minutos e, quando retornaram, o presidente do júri pronunciou o prisioneiro culpado. Houve um fraco murmúrio de aplauso, mas foi instantaneamente reprimido. Então o juiz prosseguiu para pronunciar a sentença em palavras que eu nunca poderei esquecer, e as quais eu copiei em um caderno de notas no dia seguinte, a partir do relatório que foi publicado em jornal de destaque. Eu devo condensar um pouco, e nada que eu pudesse dizer daria mais do uma fraca ideia da solenidade solene, para não dizer majestática, com a qual ele foi comunicado. A sentença foi como se segue:

Prisioneiro no tribunal, você foi acusado do grande crime de laborar sob tuberculose e, após um julgamento imparcial diante de um júri de concidadãos, você foi considerado culpado. Contra a justiça do veredito eu não posso dizer nada: a evidência contra você foi conclusiva, e apenas resta para eu pronunciar uma tal sentença sobre você, como para satisfazer os fins da lei. Essa sentença deve ser uma severa. Atormenta-me muito ver alguém quem ainda é tão jovem, e cujos prospectos na vida eram de outra maneira tão excelentes, trazido a essa condição angustiante por uma constituição que eu apenas posso considerar como radicalmente viciosa; mas o seu não é caso para compaixão: essa não é a sua primeira ofensa: você tem levado uma carreira de crime, e apenas tem lucrado pela leniência mostrada a você, em consequência de suas ocasiões passadas, para ofender ainda mais seriamente as leis e instituições do seu país. Você foi condenado de bronquite agravada no último ano: eu considero que, embora tenha apenas vinte e três anos de idade, você esteve aprisionado em não menos do que catorze ocasiões por doenças de um carácter mais ou menos odioso; de fato, não é [85]demais dizer que você despendeu a maior parte da sua vida em uma prisão.”

É muito bom para você dizer que você proveio de país pouco saudáveis, e teve um acidente severo em sua infância que permanentemente enfraqueceu a sua constituição; desculpas como essas são o refúgio ordinário do criminoso; mas, nem por um momento, elas podem ser ouvidas pelo ouvido da justiça. Eu não estou aqui para entrar em curiosas questões metafísicas quanto à origem disto ou daquilo – questões para as quais não haverá fim uma vez que fosse tolerada a sua introdução, e que resultariam no lançamento da única culpa sobre os tecidos da célula primordial ou nos gases elementares. Não há questão de como você chegou a ficar perverso, mas apenas esta – a saber, você é ou não perverso? Isso foi decidido no afirmativo, nem eu posso hesitar em um único momento para dizer que isso foi decidido justamente. Você é uma pessoa má e perigosa, e permanece marcado aos olhos do seus concidadãos com uma das mais ofensas hediondas mais conhecidas.”

Não é minha obrigação justificar a lei: em alguns casos, a lei pode ter suas dificuldades inescapáveis, e eu posso sentir arrependimento de que eu não tenha a opção de pronunciar uma sentença menos severa do que eu estou compelido a fazer. Mas o seu não é um caso semelhante; pelo contrário, não tivesse a pena capital por tuberculose sido abolida, eu certamente deveria infligi-la agora.”

É intolerável que se deva permitir a um exemplo de enormidade tão terrível continuar impune no geral. A sua presença na sociedade de pessoas respeitáveis levaria os menos corporalmente capazes a pensarem mais levemente sobre todas as formas de doenças; nem pode ser permitido que você deva ter a chance de corromper seres ainda não nascidos que poderiam futuramente importunar você. Não se deve permitir ao não nascido chegar perto de você: e isso não tanto para a proteção deles (pois eles são nossos inimigos naturais), quando para a nossa própria; pois, uma vez que eles não serão completamente contrariados, deve ser providenciado [86]para que eles devam ser aquarteladas por aqueles menos prováveis de os corromper.

Mas independentemente dessa consideração, e independentemente da culpa física que se vincula a um crime tão grande quanto o seu, há outra razão pela qual nós deveríamos ser incapazes de mostrar misericórdia a você, mesmo se nós estivéssemos inclinado a fazê-lo. Eu refiro-me à existência de uma classe de homens que jaz oculta entre nós, e que são chamados de médicos. Devesse a severidade da lei ou o sentimento corrente do país ser relaxado alguma vez tão levemente, essas pessoas abandonadas, quem agora são compelidas a praticarem secretamente e quem podem ser consultados apenas ao maior risco, tornar-se-iam visitantes frequentes em cada lar; sua organização e familiaridade íntima com todos os segredos de família conceder-lhes-ia um poder, tanto social quanto político, ao qual nada poderia resistir. O líder da família tornar-se-ia subordinado ao médico da família, quem interferiria entre homem e esposa, entre mestre e servo, até que os médicos devessem ser os únicos depositários de poder na nação, e ter tudo que nós consideramos precioso à mercê deles. Uma época de desfisicalização seguir-se-ia; vendedores de medicamento de todos os tipos abundariam nas nossas ruas e anunciariam em todos os nossos jornais. Há um remédio para isso, e apenas um. É aquele pelo qual as leis deste país há muito recebidas e obedecidas, e consiste na repressão mais severa de quaisquer doenças que sejam, tão logo a existência delas seja tornada manifesta ao olho da lei. Que que esse olho fosse mais penetrante do que ele é.”

Mas eu não me prolongarei mais sobre coisas que são elas mesmas tão óbvias. Você pode dizer que não é sua falta. A resposta está suficientemente pronta, e ela equivale a esta – que se você tivesse nascido de país ricos e prósperos, e sido bem cuidado quando era uma criança, você nunca teria ofendido as leis do seu país, nem encontrado a si mesmo na presente [87]situação vergonhosa. Se você me disser que não teve influência em sua ascendência e educação e que, portanto, é injusto colocar essas coisas sob sua responsabilidade, eu respondo que se você está com uma tuberculose é sua falta ou não, é uma falta em você, e é meu dever providenciar para que, contra faltas como essa, a comunidade política deva estar protegida. Você pode dizer que é seu infortúnio ser criminoso; eu respondo que é seu crime ser desventurado.”

Por último, eu deverei indicar que, mesmo se o júri tivesse absolvido você – uma suposição que eu não posso seriamente entreter – eu deveria ter sentido em meu dever infligir uma sentença dificilmente menos severa do que aquela que eu devo pronunciar no presente; pois, quando mais você tivesse sido considerado sem culpa do crime imputado a você, mais você teria sido considerado culpado de um dificilmente menos hediondo – eu quero dizer o crime de ter sido caluniado injustamente.”

Portanto, eu não hesito em sentenciá-lo a aprisionamento, com trabalho pesado, pelo resto da sua existência miserável. Durante esse período eu sinceramente suplicaria a você arrepender-se dos erros que você já cometeu, e reformar inteiramente a constituição do seu corpo inteiro. Eu entretenho apenas pouca esperança de que você prestará atenção ao meu conselho; você já está abandonado demais. Dependesse de mim mesmo, eu não deveria acrescentar nada em mitigação da sentença que eu pronunciei, mas é a provisão misericordiosa da lei que, mesmo ao mais duro criminoso deveria ser permitido um dos três remédios oficiais, o qual deve ser prescrito na ocasião de sua condenação. Portanto, eu deverei ordenar que você receba duas colheres de sopa cheias de olho de castor diariamente, até que o gozo da corte seja mais conhecido.”

Quando a sentença foi concluída, o prisioneiro reconheceu em umas poucas palavras escassamente audíveis que ele foi justamente punido, e que ele tinha tido um julgamento justo. Então ele foi removido para a prisão a partir da qual ele nunca devia retornar. Houve uma segunda tentativa de aplauso quando o [88]juiz tinha terminado de falar, mas, como antes, ela foi imediatamente reprimida; e embora o sentimento da corte fosse fortemente contra o prisioneiro, não houve mostra de nenhuma violência contra ele, se alguém pode excetuar uma pequena vaia dos espectadores quando ele estava sendo removido na van de prisioneiros. De fato, nada me surpreendeu mais durante toda a minha estada no país do que o respeito geral pela lei e ordem.”


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 81-88. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/81/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - X Opiniões Correntes

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[70]X Opiniões Correntes


Foi isto o que eu inferi. Que naquele país, se um homem adoece, ou contrai qualquer desordem, ou enfraquece corporalmente de qualquer maneira, antes dos setenta anos de idade, ele é julgado diante de um júri de seus compatriotas e, se condenado, ele é erguido ao escárnio público e sentenciado mais ou menos severamente conforme possa ser o caso. Há subdivisões das doenças em crimes e contravenções, da mesma maneira que ofensas contra nós mesmos – um homem sendo punido muito severamente por doença séria, enquanto insuficiência de olhos e audição em alguém que tenha mais de sessenta e cinco, quem até então tenha tido boa saúde, é tratada apenas com multa, ou aprisionamento, em inadimplência de pagamento. Mas se um homem falsifica um cheque, ou coloca fogo em sua casa, ou rouba de pessoa com violência, ou faz qualquer outra daquelas coisas que são criminosas no nosso próprio país, ele é, ou levado para um hospital e muito cuidadosamente tratado à custa pública, ou, se ele está em boas circunstâncias, faz-se saber a todos seus amigos que ele está sofrendo de uma crise severa de imoralidade, exatamente como nós fazemos quando estamos doentes, e eles vêm e visitam com grande solicitude, e perguntam com grande interesse como tudo aconteceu, quais sintomas se revelaram primeiro, e assim por diante,- questões às quais ele responderá com franqueza perfeita; pois má conduta, embora não considerada menos deplorável do que doença para conosco mesmos, e inquestionavelmente indicando alguma coisa seriamente errada com o indivíduo que se portou mal, mesmo assim, é considerada ser o resultado de ou infortúnio pré-natal ou pós-natal.

Contudo, a parte estranha da história é que, embora eles atribuam defeitos morais ao efeito do infortúnio, quer no caráter quer nos arredores, eles não ouvem a súplica do infortúnio em casos que, na Inglaterra, encontram apenas simpatia e comiseração. Má sorte de qualquer tipo, ou mesmo mau tratamento nas mãos de outros, é considerada uma ofensa contra a sociedade, na medida torna as pessoas algo desconfortável sobre o que se ouvir falar. Portanto, perda de fortuna ou perda de algum amigo querido de quem alguém era muito [71]dependente dificilmente é punido menos severamente do que delinquência física.

De fato, estrangeiras como semelhantes ideias são para as nossas próprias, traços de opiniões um pouco similares podem ser encontrados mesmo na Inglaterra do século dezenove. Se uma pessoa tem um abscesso, o médico dirá que ele contém matéria “pecante,” e as pessoas dizem que elas têm um braço ou dedo “mau,” ou que elas são inteiramente “más,” quando elas apenas querem dizer “doentes.” Entre as nações estrangeiras, a opinião erewhoniana pode ainda mais claramente ser notada. Por exemplo, os maometanos, até os dias de hoje, enviam suas prisioneiras para hospitais, e os maoris da Nova Zelândia punem qualquer infortúnio com entrada forçada na casa do ofensor, e quebra e queima de todos os bens dele. Novamente, os italianos usam a mesma palavra para “desgraça” e “infortúnio.” Uma vez eu ouvi uma dama italiana falar sobre um jovem amigo a quem ela descreveu como dotado de toda virtude sob o céu, “ma,” ela exclamou, “povero disgraziato, ha ammazzato suo zio.” (“Pobre rapaz infeliz, ele assassinou o tio.”)

Mencionando isso, o que eu ouvi quando levado para a Itália como um menino por meu pai, a pessoa a quem eu o disse não mostrou surpresa. Ele disse que tinha sido conduzido, por dois ou três anos em uma certa cidade, por um jovem cocheiro siciliano de maneiras e aparência simpáticas, mas depois o perdeu de vista. Quando perguntando o que tinha acontecido com ele, contaram-lhe que ele estava na prisão por ter atirado no pai dele com a intenção de o matar – sem resultados sérios, afortunadamente. Alguns anos depois, o meu informante novamente se encontrou abordado calorosamente pelo jovem cocheiro simpático. “Ah, caro signore,” ele exclamou, “sono cinque anni che non lo vedo – tre anni di militare, e due anni di disgrazia,” etc. (“Meu caro senhor, faz cinco anos que eu vi você – três anos de serviço militar, e dois anos de desgraça”) – durante os últimos dois dos quais o pobre rapaz tinha estado na prisão. De sentido moral, ele não mostrou nem tanto quanto um traço. [72]Ele e o pai dele estavam agora em termos excelentes, e era provável que permanecessem assim, a menos que qualquer um deles devesse ter a desgraça para ofender mortalmente o outro.

No capítulo seguinte eu darei uns poucos exemplos da maneira pela qual o que nós chamaríamos de infortúnio, sofrimento ou doença são tratados pelo erewhonianos, mas, pelo momento, eu retornarei ao tratamento deles dos casos que conosco são criminais. Como eu já disse, esses, embora não judicialmente puníveis, são reconhecidos como requerendo correção. Portanto, existe uma classe de homens treinada na arte da alma, a quem eles chamam de endireitadores, tão aproximadamente quanto eu posso traduzir uma palavra que literalmente significa “alguém que desdobra o torto.” Esses homens praticam exatamente como os médicos na Inglaterra, e recebem uma taxa quase sub-reptícia em cada visita. Eles são tratados com a mesma franqueza, e obedecidos tão prontamente, que os nossos próprios doutores – quer dizer, no todo, suficientemente – porque as pessoas sabem que é do seu interesse melhorar assim que elas puderem, e que elas não seriam observadas como elas seriam se seu corpos estivessem fora de ordem, mesmo se elas pudessem passar por um curso muito doloroso de tratamento.

Quando eu digo que elas não serão observadas, eu não quero dizer que um erewhoniano não sofrerá nenhuma inconveniência, nós diríamos, de ter cometido fraude. Os amigos abandoná-lo-ão, porque ele é uma companhia menos agradável, exatamente como nós mesmos ficamos desinclinados a tornar companheiros aqueles que são ou pobres ou adoentados. Ninguém com nenhum senso de autorrespeito colocar-se-á em igualdade em questão de afeição com aqueles que são menos sortudos do que ele mesmo em nascimento, saúde, dinheiro, boa aparência, capacidade ou qualquer outra coisa. De fato, que aversão e mesmo desgosto deveriam ser sentidos da parte do afortunado pelo desafortunado, ou, de qualquer maneira, por aqueles que foram descobertos ter experienciado qualquer um dos infortúnios mais sérios e menos familiares, isso não é apenas natural mas desejável por qualquer sociedade, quer de homem quer de bruto.

[73]Portanto, o fato de que os erewhonianos não acrescentam nenhuma daquela culpa pelo crime que eles cometem a padecimentos físicos, não impede, por exemplo, o mais egoísta entre eles de negligenciar um amigo que tenha roubado um banco até que ele tenha se recuperado completamente; mas impede-os até de pensar em tratar criminosos com aquele tom desdenhoso que pareceria dizer, “Se eu fosse você; eu deveria ser um homem melhor do que você é,” um tom que é considerado bastante razoável com respeito ao padecimento físico. Consequentemente, embora eles ocultem a má saúde através de qualquer astúcia, hipocrisia e artifício que eles possam conceber, eles são bastante abertos sobre as mais flagrantes doenças mentais, devessem elas existir, o que, para fazer justiça ao povo, não é frequentemente. De fato, há alguns que são, por assim dizer, valetudinários espirituais, e que tornam a si mesmos excessivamente ridículos através de sua suposição nervosa de que eles são perversos, enquanto eles são pessoas muito toleráveis todo o tempo. Contudo, isso é excepcional e, no todo, eles usam a mesma reserva ou franqueza sobre o estado do seu bem-estar moral que nós usamos sobre a nossa saúde.

Consequentemente, todas as saudações ordinárias entre nós mesmos, tais como, 'Como você está?' e semelhantes são consideradas sinais de grosseira malcriação; nem as classes mais polidas toleram um comentário elogioso tão comum como dizer a um homem que ele está parecendo bem. Eles saúdam-se com, “Eu espero que você esteja bem esta manhã”; ou “Eu espero que você tenha se recuperado da irritabilidade da qual você estava sofrendo da última vez que eu vi você”; e se a pessoa saudada não estava bem, ou ainda está irritada, ela diz isso de uma vez e recebe condolências de acordo. De fato, os endireitadores foram tão longe quanto a dar nomes da linguagem hipotética (como ensinada nos Colégios da Insensatez) para todas as formas conhecidas de indisposição mental, e para as classificar de acordo com um sistema próprio, o qual, embora eu não pude entender, parecia funcionar bem na prática; pois eles sempre parecem capazes de dizer a um homem qual é o problema [74]com ele tão logo eles tenham ouvido a sua história, e a familiaridade deles com nomes longos assegura-lhe que eles entendem completamente o caso dele.

O leitor não terá dificuldades em acreditar que as leis relativas à saúde ruim foram frequentemente evitadas pela ajuda de ficções reconhecidas, as quais todos entendiam, mas que seriam consideradas grosseira malcriação até parecer entender. Dessa maneira, um ou dois dias depois da minha chegada até a casa dos Nosnibors, uma das muitas damas que me invocou desculpou-se pelo seu esposo estar apenas enviando a sua pessoa divertida, baseado que, quando atravessando o mercado naquela manhã, ele tinha roubado um par de meias. Já tinham me avisado que eu nunca deveria mostrar surpresa, assim eu meramente expressei minha simpatia, e disse que, embora eu apenas tenha estado na capital por um tempo tão breve, eu já tinha escapado por pouco de roubar uma escova de roupa, e que, embora eu tenha resistido à tentação até agora, eu estava tristemente receoso de que, se eu visse qualquer objeto de interesse especial que não fosse nem muito quente nem muito pesado, eu deveria ter de me colocar nas mãos do endireitador.

A sra. Nosnibor, quem esteve ouvindo tudo que eu estivesse dizendo, elogiou-me quando a senhora tinha saído. Nada, ela disse, poderia ter sido mais polido de acordo com a etiqueta erewhoniana. Então ela explicou que ter roubado um par de meias, ou ‘ter as meias’ (em uma linguagem mais coloquial), era uma maneira reconhecida de dizer que a pessoa em questão estava levemente indisposta.

A despeito de tudo isso, eles têm um sentido agudo de prazer como um resultado do que eles chamam de estar “bem.” Eles admiram a saúde mental e amam-na nas outras pessoas, e esforçam-se como podem (consistentemente com seus outros deveres) para a assegurar para si mesmos. Eles têm um desdém extremo pelo que consideram casar em famílias doentes. Eles convocam imediatamente o endireitador sempre que eles forem culpados de alguma coisa seriamente hedionda – frequentemente mesmo se eles pensam que estão a ponto de [75]a cometer; e embora os remédios deles sejam algumas vezes excessivamente dolorosos, envolvendo confinamento estrito por semanas e, em alguns casos, as torturas físicas mais cruéis, eu nunca ouvi sobre um erewhoniano razoável recusando-se a fazer o que endireitador lhe disse, não mais do que um inglês razoável se recusando a passar até pela operação mais assustadora, se seus médicos dissessem-lhe que ela era necessária.

Na Inglaterra, nós nunca evitamos dizer ao médico qual é o problema conosco meramente através do medo de que ele nos machucará. Nós deixamos que ele faça o seu pior conosco, e suportamos sem um murmúrio, porque nós não somos observados por estarmos doentes, e porque nós sabemos que o médico está fazendo o seu melhor para nos curar, e que ele pode julgar o nosso caso melhor do que nós podemos; mas nós deveríamos ocultar toda doença se nós fossemos tratados como são os erewhonianos quando eles têm qualquer coisa que importa com eles; nós deveríamos fazer o mesmo como doenças morais e intelectuais, - nós deveríamos simular saúde com a arte mais perfeita, até que nós fôssemos descobertos, e devêssemos odiar cada flagelação dada na forma de mera punição mais do que a amputação de um membro, se isso fosse amável e cortesmente realizado a partir de um de desejo para nos ajudar a sair da nossa dificuldade, e com a consciência completa da parte do médico de que era apenas por acidente de constituição que ele mesmo não estava em uma condição difícil similar. Dessa maneira, os erewhonianos levam uma flagelação uma vez por semana, e uma dieta combinada um dieta de pão e água por dois ou três meses, sempre que o endireitador deles recomenda-os.

Eu não suponho que mesmo o meu anfitrião, tendo trapaceado uma viúva confiante de toda a propriedade dela, foi colocado em mais sofrimento efetivo do que um homem prontamente se submeterá nas mãos de um médico inglês. E todavia, ele deve ter tido um tempo muito ruim nisso. Os sons que eu ouvi eram suficientes para mostrar que a dor dele ela intensa, mas ele nunca recuava de se submeter a ela. Ele estava bem certo de que ela fazia bem a ele; e eu penso que ele estava certo. Eu não posso acreditar [76]que esse homem alguma vez desviará novamente dinheiro. Ele pode – mas será um longo tempo antes que ele possa fazê-lo.

Durante o meu confinamento na prisão, e em minha jornada, eu já tinha descoberto uma grande quantidade do acima mencionado; mas isso ainda parecia parecia surpreendentemente estranho, e eu estava em constante medo de cometer alguma peça de rudeza, através de minha inabilidade para olhar para as coisas a partir da mesma perspectivas que os meus vizinhos; mas, após uma estada de poucas semanas com os Nosnibors, eu cheguei a entender melhor as coisas, especialmente ao ter ouvido tudo sobre a doença do meu anfitrião, sobre a qual ele contava-me completa e repetidamente.

Parecia que ele tinha estado na Bolsa de Valores de Londres por muitos anos e tinha acumulado riqueza imensa, sem exceder os limites do que geralmente era considerado negócio justificável ou, de qualquer maneira, permissível; mas extensivamente, em várias ocasiões, ele tinha se tornado ciente de um desejo para fazer dinheiro através de representações fraudulentas, e efetivamente tinha lidado com duas ou três somas de uma maneira que o tinha deixado bastante desconfortável. Infelizmente, ele tinha considerado isso não seriamente e descartou com desdém o padecimento, até que, eventualmente, as circunstâncias para fraudar em uma escala muito considerável apresentaram-se; - ele contou-me quais elas foram, elas foram tão ruins quanto qualquer coisa poderia ser, sem eu ter necessidade de as detalhar; ele agarrou a oportunidade, e tornou-se ciente, quando era tarde demais, de que ele deveria estar seriamente desordenado. Ele tinha negligenciado a si mesmo por muito tempo.

Ele dirigiu-se para casa imediatamente, informou as más notícias a sua esposa e suas filhas tão gentilmente quanto ele pôde, e convocou um dos mais celebrados endireitadores do reino para consulta com o praticante da família, pois o caso era evidentemente sério. Na chegada do endireitador ele contou sua história, e expressou o seu medo de que a sua moral devesse estar permanentemente debilitada.

O homem eminente tranquilizou-o com umas poucas palavras animadoras e, em seguida, prosseguiu para produzir um [77]diagnóstico mais cuidadoso do caso. Ele perguntou aos pais do sr. Nosnibor – a saúde moral deles tinha sido boa? Respondeu-se a ele que não tinha havido nada seriamente errado com eles, mas que o seu avô, a quem se supunha que ele se assemelhava um pouco em pessoa, tinha sido um canalha consumado e tinha terminado os seus dias em um hospital, - enquanto que um irmão do seu pai, após ter levado uma vida muito hedionda, finalmente tinha sido curado por um filósofo de uma nova escola, a qual, até onde eu pude entender, comportava a mesma relação com a antiga que a homeopatia com a alopatia. O endireitador sacudiu a cabeça diante disso, e rindo respondeu que a cura deve ter sido devida à natureza. Após mais umas poucas questões ele escreveu uma prescrição e partiu.

Eu vi a prescrição. Ela ordenava uma multa para o estado do dobro do dinheiro desviado; nenhuma comida exceto pão e leite por seis meses, e flagelação severa uma vez por mês por doze meses. Eu fiquei surpreso de ver que nenhuma parte da multa devia ser paga à pobre mulher cujo dinheiro tinha desviado, mas, ao perguntar, eu aprendi que ela teria sido processada no Tribunal da Confiança Extraviada, se ela não tivesse escapado de suas garras ao morrer logo depois que ela tinha descoberto a sua perda.

Quanto ao sr. Norsnibor, ele tinha recebido a sua décima-primeira flagelação no dia da minha chegada. Eu vi-o depois na mesma tarde, e ele ainda estava dolorido; mas não havia escapatória do seguimento da prescrição do endireitador, pois as assim chamadas de leis sanitárias de Erewhon são muito rigorosas e, a menos que o endireitador ficasse satisfeito de que suas ordens tivessem sido obedecidas, o paciente teria sido levada para um hospital (como os pobres são), e teria sido muito pior. Pelo menos essa era a lei, mas nunca é necessário a aplicar.

Em uma ocasião subsequente, eu estive presente em uma entrevista entre o sr. Nosnibor e o endireitador da família, quem era considerado competente para observar a realização da [78]cura. Eu fiquei impressionado com a delicadeza com a qual ele evitava mais remota semelhança de inquirição pelo bem-estar físico do seu paciente, embora houvesse um certo amarelecimento em volta dos olhos do meu anfitrião, o que demonstrava um hábito bilioso de corpo. Ter notado isso teria sido uma brecha grosseira da etiqueta profissional. Contudo, disseram-me que algumas vezes um endireitador considera correto vislumbrar a possibilidade de alguma leve desordem física, se ele considera-a importante a fim de assisti-lo em sua diagnose; mas as respostas que ele obtém são geralmente falsas ou evasivas, e ele forma suas próprias conclusões sobre a questão tão bem quanto ele pode. Conhecem-se homens sensíveis que dizem que, em estrita confiança, ao endireitador deveria ser contado de cada padecimento físico que é provável de ser influente para o caso; mas as pessoas são naturalmente tímidas de fazerem isso, pois elas não gostam de se rebaixarem na opinião do endireitador, e a ignorância dele da ciência médica é suprema. De fato, eu ouvi de uma dama que teve a coragem para confessar que o surto furioso de mau humor e imaginações extravagantes pelos quais ela estava buscando conselho, eram possivelmente o resultado de indisposição. “Você deveria resistir a isso,” disse o endireitador, em uma voz amável, mas grave; “nós não podemos fazer nada pelos corpos de nossos pacientes; tais questões estão além de nossa província, eu desejo poder não ouvir mais particulares.” A dama começou a chorar, e prometeu fielmente que ela nunca ficaria indisposta novamente.

Mas, para retornar ao sr. Nosnibor. Conforme a tarde passava, muitas carruagens se moviam com visitantes para inquirir como ele tinha suporta sua flagelação. Ela tinha sido muito severa, mas as inquirições amáveis de cada lado davam-lhe grande prazer, e ele assegurou-me que quase se sentia tentar a errar novamente pela solicitude com a qual os seus amigos o tinham tratado durante a sua recuperação: nisso eu dificilmente tenho de dizer que ele não era sério.

Durante o restante da minha estada no país, o sr. [79]Nosnibor esteve constantemente atento aos seus negócios, e largamente aumentou suas já grandes posses; mas eu nunca ouvi um sussurro para o efeito dele ter sido indisposto uma segunda vez, ou de ter feito dinheiro através de quaisquer outros meios senão os mais estritamente honoráveis. Depois eu ouvi em confiança que tinha havido razão para acreditar que a sua saúde não tinha sido nem um pouco afetada pelo tratamento do endireitador, mas os amigos dele escolheram não ficar excessivamente curiosos sobre o assunto e, com seu retorno ao negócios, era, pelo consentimento comum, passado por cima como dificilmente criminoso em alguém que, de outra maneira, estava tão aflito. Pois eles consideram padecimentos corporais como os mais perdoáveis em proporção, visto que eles tinham sido produzidos por causas independentes de constituição. Dessa forma, se uma pessoa arruína sua saúde por excessiva indulgência à mesa ou bebendo, eles consideram isso ser quase uma parte da doença mental que o causou, e assim se prossegue por pouco, mas eles não têm misericórdia sobre aquelas doenças como febres ou constipações ou doenças de pulmão, as quais, para nós, parecem estar além do controle do indivíduo. Eles apenas são mais lenientes em relação às doenças do jovem – tais como sarampo, o qual eles consideram ser como a semeadura das aveias selvagens de alguém – e consideram-nas como indiscrições perdoáveis se eles não foram tão sérias, e esse elas forem expiadas por completa recuperação subsequente.

Dificilmente é necessário dizer que o cargo público do endireitador é um que requer treinamento longo e especial. É evidente que aquele que curaria um padecimento moral deve estar praticamente familiarizado com ele em todas as suas relevâncias. Requer-se do estudante para a profissão que ele selecione algumas estações para a prática de cada vício por vez, como um dever religioso. Essas estações são chamadas de “abstinências,” e são continuadas pelo estudante até que ele considere que realmente pode subjugar todos os vícios mais comuns em sua própria pessoa e, consequentemente, pode aconselhar os seus pacientes a partir dos resultados da sua própria experiência.

Aqueles que pretendem ser praticantes especialistas, em vez de generalistas, [80]devotam-se mais particularmente ao ramo no qual a sua prática principalmente permanecerá. Alguns estudantes têm sido obrigados a continuarem com seus exercícios durante suas vidas inteiras, e alguns homens devotados efetivamente morreram como mártires para a bebida, a gula, ou qualquer que seja o ramo de vício que eles possam ter escolhido para o seu estudo especial. Contudo, o número maior não sofre dano pelas excursões dentro dos vários departamentos de vício que é incumbência deles estudar.

Pois os erewhonianos sustentam que virtude pura não é uma coisa a ser imoderadamente satisfeita. Foi-me mostrado mais de um caso no qual as virtudes reais ou supostas dos pais eram acompanhadas pelos filhos até a terceira ou quarta geração. Os endireitadores dizem que o máximo que verdadeiramente pode ser dito pela virtude é que há uma balança considerável em seu favor, e que no todo é melhor acordo estar do seu lado do que contra ela; mas eles insistem que há muita pseudo-virtude circulando, a qual está apta a deixar as pessoas muito mal antes que elas possam descobri-la. Aqueles homens, eles dizem, são melhores quando não são notáveis nem por virtude nem por vício. Eu contei a eles sobre os aprendizes industrioso e inativo de Hogarth, mas eles não pareceram considerar que o aprendiz industrioso fosse uma pessoa muito boa.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 70-80. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/70/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - IX Para a Metrópole

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[59]IX Para a Metrópole


Com as palavras acima, o bom homem deixou a sala antes que eu tivesse tempo de expressar meu espanto ao ouvir linguagem tão extraordinária dos lábios de alguém que parecia ser um membro respeitável da sociedade. “Desviou uma grande soma de dinheiro sob circunstâncias singularmente dolorosas!” Eu exclamei para mim mesmo, “e pediu para eu ir e permanecer com ele! Eu não deverei fazer nada do tipo – comprometer a mim mesmo, no início mesmo, aos olhos de todas as pessoas decentes, e desferir o golpe mortal em minhas chances de ou os converter, se eles forem as tribos perdidas de Israel, ou de fazer dinheiro com eles, se eles não forem! Não. Eu farei qualquer coisa além disso.” E quando eu vi meu professor na próxima ocasião eu disse a ele que eu absolutamente não gostei do som do que tinha sido proposto para mim, eu não aceitaria ter nada a ver com isso. Pois, por minha educação e o exemplo dos meus próprios pais e, eu confio, também em algum grau de instinto inato, eu tenho uma aversão genuína por todas as negociações desagradáveis em questões de dinheiro, embora ninguém possa ter uma consideração maior por dinheiro do que eu tenho, se ele for obtido justamente.

O intérprete ficou muito surpreendido pela minha resposta, e disse que eu deveria ser muito tolo se eu persistisse em minha recusa.

Sr. Nosnibor,” ele continuou, “é um homem de pelo menos 500.000 cavalos-vapor” (pois a maneira deles de contar e classificar homens é pelo número de libras-pé que eles têm dinheiro suficiente para levantar, ou, mais aproximadamente, pelo cavalo-vapor deles), “e mantém uma mesa capital; além disso, suas duas filhas estão entre as mulheres mais belas em Erewhon.”

Quando eu ouvi tudo isso, eu confesso que fiquei muito mexido e investiguei se ele era favoravelmente considerado na melhor sociedade.

Certamente,” foi a resposta; “nenhum homem no país tem posição social mais elevada.”

Então ele prosseguiu para dizer que alguém teria pensado, a partir dos meus modos, que meu proposto anfitrião tinha tido icterícia [60]ou pleusiria, ou tinha sido infeliz de maneira geral, e que eu estava com temor de infecção.

Eu não tenho muito medo de infecção,” disse eu, impacientemente, “mas eu tenho alguma consideração por me caráter; e se eu sei que um homem é um estelionatário do dinheiro de outras pessoas, esteja certo disso, eu lhe concederei um margem de manobra tão amplo quanto eu posso. Se ele fosse doente ou pobre ---”

Doente ou pobre!” interrompeu o intérprete, com um rosto de grande alarme. “Então essa é a sua noção de propriedade! Você consorciar-se-ia com os mais baixos criminosos e, contudo, considera simples fraude uma barreira para intercurso amigável. Eu não consigo entender você.”

Mas eu mesmo sou pobre,” exclamei eu.

Você era,” disse ele; “e você estava sujeito a ser severamente punido por isso, - de fato, segundo o conselho que foi sustentado relativo a você, esse fato estava muito próximo de consignar você ao que eu deveria chamar de um castigo bem-merecido” (pois ele estava ficando irado, e assim eu estava também); “mas a Rainha estava tão curiosa, e desejava tanto ver você, que ela peticionou ao Rei e fez ele conceder a você o seu perdão e atribuir a você uma pensão em consideração a sua aparência meritória. É sorte para você que ele não ouviu o que você estava dizendo agora, ou seria certo que ele cancelaria isso.”

Enquanto eu ouvia essas palavras, meu coração afundava dentro de mim. Eu senti a extrema dificuldade da minha posição, e quão perverso eu deveria ser ao contrariar o uso estabelecido. Eu permaneci silente por vários minutos e, em seguida, disse que deveria ficar feliz de aceitar o convite do estelionatário, diante do que o meu instrutor se iluminou e disse que eu era um sujeito sensato. Mas eu senti-me muito desconfortável. Quando ele tinha saído do aposento, eu meditei sobre a conversa que há pouco tinha ocorrido entre nós, mas eu não consegui discernir nada nisso, exceto que isso demonstrou uma perversidade ainda maior de visão mental do que aquela para a qual eu até agora estava preparado. E isso me tornou miserável; pois eu não posso suportar [61]ter muito a ver com pessoas que pensam muito diferentemente de mim mesmo. Todos os tipos de pensamentos errantes continuavam entrando em minha cabeça. Eu pensei na cabana do meu mestre, e eu sentado sobre o lado da montanha, onde primeiramente concebi a ideia insana de exploração. Quantos anos pareciam ter passado desde que eu comecei minha jornada!

Eu pensei nas minhas aventuras no desfiladeiro, na jornada para cá e em Chowbok. Eu pergunto-me o que Chowbok contou a eles sobre mim quando ele retornou, - ele tinha feito bem em retornar, Chowbok tinha. Ele não era bonito – ou melhor, ele era horrível; e teria sido difícil para ele. O crepúsculo aproximava-se, e a chuva respingava contra a janela. Contudo, eu nunca tinha me sentido tão infeliz, exceto durante três dias de enjoo no começo de minha viagem à Inglaterra. Eu sentei meditando até que Yram apareceu com luz e jantar. Ela também, pobre garota, estava miserável; pois ela tinha ouvido que eu devia deixá-los. Ele tinha decidido que eu devia permanecer sempre na cidade, mesmo depois que o meu aprisionamento estivesse acabado; e eu imagino que tinha resolvido casar-se comigo, embora eu nunca tivesse nem mesmo uma pista dela fazer isso. Assim, com a conversa angustiantemente estranha com meu professor, a minha própria condição sem amigos e a melancolia de Yram, eu senti-me mais infeliz do que eu posso descrever, e permanecei assim até que eu fui para a cama e dormi com minhas pálpebras celadas.

Ao acordar na manhã seguinte, eu estava muito melhor. Estava decidido que eu devia partir em um transporte que devia estar na espera por mim por volta das onze da manhã; e a antecipação da mudança colocou-em em bons espíritos, os quais mesmo a face chorosa de Yram dificilmente poderiam perturbar completamente. Eu beijei-a repetidas vezes, assegurei-a de que nós deveríamos nos encontrar posteriormente e que, enquanto isso, eu nunca deveria me esquecer da bondade dela. Eu dei a ela dois botões do meu casaco e um cacho do meu cabelo como uma lembrança, tomando um cacho vistoso da sua própria linda cabeça em [62]retorno: e assim, tendo dito adeus mil vezes, até que eu estivesse bastante dominado pela grande doçura e tristeza dela, eu separei-me dela e desci as escadas para a calèche que estava esperando. Quão grato eu fiquei quando tudo isso estava terminado, e eu fui conduzido para longe e para fora da vista. Eu desejaria que pudesse sentir que também estava fora da mente! Oro ao céus que seja assim agora, e que ela esteja felizmente casada entre o seu próprio povo, e tenha esquecido de mim!

E agora começava uma jornada longa e tediosa, com a qual eu dificilmente deveria incomodar o leitor se eu pudesse. Contudo, ele está seguro, pela simples razão de que eu estive vendado durante a maior parte da minha viagem. Uma bandagem era colocada sobre meu olhos a cada manhã e era removida apenas à noite, quando nós chegávamos à estalagem na qual nós deveríamos passar a noite. Nós viajávamos lentamente, embora as estradas fossem boas. Nós guiávamos apenas um cavalo, o qual nos levava a jornada do nosso dia, da manhã até a noite, aproximadamente seis horas, excluindo as duas hora de descanso no meio do dia. Eu não suponho que nós fizéssemos mais do que trinta ou quarenta e cinco milhas em média. A cada dia nós tínhamos um novo cavalo. Como já disse, eu não pude ver nada do país. Eu apenas sei que ele era plano, e que várias vezes nós tivemos de cruzar grandes rios em balsas. As estalagens eram limpas e confortáveis. Em uma ou duas das cidades maiores, elas eram bastante suntuosas, e a comida era boa e bem cozida. As mesmas saúde e graça e beleza maravilhosas prevaleciam em todos os lugares.

Eu descobri a mim mesmo um objeto de grande interesse; a tal ponto que o condutor me disse que ele teve de manter a rota secreta e, às vezes, de ir por lugares que não estavam diretamente na nossa rota, a fim de evitar a pressão que, de outra maneira, teria nos esperado. À cada noite eu tinha uma recepção e ficava profundamente cansado de dizer as mesmas coisas uma e outra vez em respostas às mesmas questões, mas era impossível ficar com raiva de pessoas cujas maneiras eram [63]tão encantadoras. Nunca eles me perguntaram sobre minha saúde, ou até se eu estava fatigado da viagem; mas a sua primeira questão era quase invariavelmente uma investigação sobre o meu temperamento, a naiveté da qual me surpreendeu até que eu fiquei acostumado com ela. Um dia, estando cansado e com frio, e cansado de dizer a mesma coisa uma e outra vez, eu virei-me para o meu questionador e disse que eu estava muito indisposto, e que eu dificilmente podia sentir-em em um humor pior comigo e com qualquer um do que naquele momento. Para minha surpresa, eu fui respondido com as mais amáveis expressões de condolência, e ouvi sussurrado em volta da sala que eu estava em um mau temperamento; no que as pessoas começaram a dar-me coisas belas para cheirar e comer, as quais realmente pareciam ter alguma qualidade de melhoria de temperamento nelas, pois logo eu me senti melhor e, imediatamente, fui congratulado por estar melhor. Na manhã seguinte, duas ou três pessoas enviaram os seus servos ao hotel com doces e perguntas de se eu tinha me recuperado do meu mau humor. Ao receber as coisas boas, eu quase senti uma disposição para ficar mal-humorado à cada noite; mas eu não gostava das condolências e perguntas, e considerava mais confortável manter o meu temperamento natural, o qual é suficientemente suave de maneira geral.

Entre aqueles que vieram me visitar estavam alguns que tinham recebido uma educação liberal no Colégio da Irracionalidade, e alcançado os graus mais elevados em hipotética, a qual é o seu principal estudo. Esses cavalheiros agora tinham se estabelecido em vários empregos no país, como endireitadores, gerentes e encarregados dos Bancos Musicais, sacerdotes de religião, ou seja o que for, e, levando sua educação com eles, eles difundiam um fermento de cultura por todo o país. Naturalmente, eu questionei-os sobre muitas das coisas que me confundiram desde a minha chegada. Eu perguntei qual eram o objeto e o significado das estátuas que tinham sido colocadas no platô da passagem. Eles contaram-me que elas datavam de um período muito remoto, e que haviam vários outros de tais grupos no país, mas nenhum [64]tão notável quanto aquele que eu tinha visto. Elas tinham uma origem religiosa, tendo sido projetadas para tornarem os deuses da deformidade e doença propícios. Em tempos antigos tinha sido costume realizar expedições através das cordilheiras e capturar os mais feios dos ancestrais de Chowbok que eles pudessem encontrar, em ordem de os sacrificar na presença dessas divindades e, dessa maneira, evitar feiura e doença para os erewhonianos mesmos. Tinha sido sussurrado (mas o meu informante assegurou-me que falsamente) que, séculos atrás, eles tinham até oferecido alguns do seu próprio povo, que eram feios ou sem riqueza, para os fazer de exemplos; contudo, esses costumes detestáveis há muito tinham sido descontinuado; nem havia no presente nenhuma observância das estátuas.

Eu tive a curiosidade de perguntar o que seria feito de qualquer um da tribo de Chowbok se ele cruzasse para dentro de Erewhon. Eles disseram que ninguém sabia, visto que uma tal coisa não tinha acontecido por eras. Eles seriam feios demais para serem permitidos a caminharem em liberdade, mas nem tanto para serem criminalmente responsáveis. A ofensa deles em terem entrado seria algo moral; mas eles estariam além da arte do endireitador. Possivelmente eles seriam consignados ao Hospital para Chatos Incuráveis, e feitos trabalhar em serem chatos por tantos horas por dias pelos habitantes erewhonianos do hospital, quem são extremamente impacientes com o entendiamento uns dos outros, mas logo morreriam se eles não tivessem ninguém a quem eles pudessem chatear – de fato, eles seriam mantidos como entediados profissionais. Quando eu ouvi isso, ocorreu-me que alguns rumores dessa substância talvez poderiam ter se tornado correntes no povo de Chowbok; pois a agonia do medo dele tinha sido grande demais para ter sido inspirada pele mero pavor de ser queimado vido diante das estátuas.

Eu também os questionei sobre o museu de máquinas antigas, e a causa do retrocesso aparente em todas as artes, ciências e invenções. Eu aprendi que, há aproximadamente quatrocentos anos, o estado do conhecimento [65]mecânico estava muito além do nosso, e estava avançando com rapidez prodigiosa, até que um dos mais instruídos professores de hipotética escreveu um livro extraordinário (do qual eu proponho fornecer extratos posteriormente), provando que as máquinas, em última instância, estavam destinadas a suplantarem a raça do homem, e a tornarem-se instinto com uma vitalidade tão diferente de, e superior a, aquelas dos animais, quanto a do animal está para a vida vegetal. Tão convincente foi o raciocínio, ou não raciocínio, dele para esse efeito, que ele levou o país inteiro com ele; e eles uma aniquilaram todo o maquinário que não tinha estado em uso por mais de duzentos e setenta e um anos (período ao qual se chegou após uma série de compromissos), e proibiram estritamente todas as melhorias e invenções adicionais, sob pena de ser considerado, sob o olho da lei, de estar laborando sob febre do tifo, o que eles consideram como um dos piores de todos os crimes.

Esse é o único caso no qual eles confundiam doenças mentais e físicas, e eles fazem isso mesmo aqui como por uma ficção legal declarada. Eu fiquei apreensivo quando lembrei do meu relógio; mas eles confortaram-me com a segurança de que transgressão nessa questão era tão rara agora que a lei poderia se permitir ser leniente em relação a um completo estrangeiro, especialmente em relação a um quem se tinha uma característica tão bela (eles queriam dizer compleição física) e tão belo cabelo claro. Além disso, o relógio era uma curiosidade real, e seria uma adição bem-vinda à coleção metropolitana; assim, eles não consideravam que eu tinha de o deixar preocupar-me seriamente.

Contudo, eu escreverei mais completamente sobre esse assunto quando eu lidar com os Colégios da Irracionalidade e o Livro das Máquinas.

Em aproximadamente um mês a partir da nossa partida, contaram-me que a nossa jornada estava quase terminada. A bandagem tinha sido dispensada, pois parecia impossível que, alguma vez, eu deveria ser capaz de encontrar o meu caminho de volta sem ser [66]capturado. Então nós rodávamos adiante alegremente através das ruas de uma cidade bonita, e alcançamos uma estrada longa, ampla e plana com árvores de álamo de cada lado. A estrada era levemente elevada acima da região circundante, e anteriormente tinha sido uma estrada de ferro; os campos de cada lado estavam no mais elevado cultivo concebível, mas a colheita e vindima já tinham sido coletadas. O ar tinha esfriado mais rapidamente do que poderia ser bem explicado pelo progresso da estação; assim eu pensei bastante que nós devemos ter nos afastado do sol, e estávamos alguns graus mais distantes do equador do que quando nós partimos. Mesmo aqui a vegetação mostrava que o clima era quente, contudo, não havia falta de vigor entre o povo; pelo contrário, eles era uma raça muito robusta, e capazes de grande resistência. Pela centésima vez eu pensei que, tomando-os no todo, eu nunca tinha visto seus iguais com respeito à condição física, e eles pareciam tão agradáveis quanto eram robustos. As flores tinham passado pela maior parte, mas a ausência delas tinha sido em alguma medida compensada por uma exuberância de frutos deliciosos, muito parecidos com os figos, os pêssegos e as peras da Itália e da França. Eu não vi animais selvagens, mas os pássaros eram abundantes e tantos quanto na Europa, mas não domesticados como eles tinham sido no outro lado das cordilheiras. Atiravam-se neles com bestas e flechas, a pólvora sendo desconhecida ou, de qualquer maneira, não em uso.

Agora nós estávamos nos aproximando da metrópole e eu podia ver grandes torres e fortificações, e construções elevadas que se pareciam com palácios. Eu comecei a ficar nervoso com a minha recepção; mas eu tinha prosseguido muito bem até agora, e resolvei continuar segundo o mesmo plano que até aqui – a saber, comporta-me exatamente como se eu estivesse na Inglaterra até que visse que eu estava cometendo um erro e então não dizer nada até que eu pudesse entender a situação. Nós nos aproximávamos cada vez mais. As notícias da minha chegada tinham chegado longe, e havia uma grande multidão reunida em cada lado da estrada, [67]quem me cumprimentaram com sinais da mais respeitosa curiosidade, mantendo-me curvando-me constantemente em reconhecimento de lado a lado.

Quando estávamos perto de uma milha de distância, nós fomos encontrados pelo prefeito e vários conselheiros, em meio a quem havia um ancião venerável, quem foi introduzido a mim pelo prefeito (pois assim, eu suponho, eu deveria chamá-lo) como o cavalheiro quem tinha me convidado para sua casa. Eu curvei-me profundamente e disse-lhe quão grato eu me sentia com ele, e quão de bom grado eu aceitaria a hospitalidade ele. Ele proibiu-me de falar mais e, apontando para a carruagem dele, a qual estava próxima à mão, ele sinalizou para que eu me senta-se lá. Novamente eu me curvei profundamente para o prefeito e os conselheiros e fui embora com o meu entretedor, cujo nome era Senoj Nosnibor. Após meia milha, a carruagem virou para fora da estrada principal, e nós conduzimos sob as muralhas da cidade até que alcançamos um palazzo sobre uma elevação leve e mesmo na periferia da cidade. Essa era a casa de Senoj Nosnibor, e nada pode ser imaginado de mais fino. Ela estava situada perto das ruínas magníficas e veneráveis da antiga estação da estrada de ferro, a qual formava um aspecto imponente a partir dos jardins da casa. Os terrenos, uns dez ou doze acres de extensão, estendiam-se em jardins em terraços, um acima do outro, com lances de amplos degraus ascendendo e descendo a declividade do jardim. Sobre esses degraus haviam estátuas das mais exótica execução. Além das estátuas haviam vasos cheios com vários arbustos que eram novos para mim; de cada lado dos lances de escadas haviam fileiras de antigos ciprestes e cedros, com aleias gramadas entre eles. Então vinha vinhedos escolhidos e pomares de árvores frutíferas carregadas.

A casa mesma era cercada por um pátio, e cercando-o havia um corredor para o qual as salas se abriam, como em Pompeia. No meio do pátio havia um banho e uma fonte. Tendo passado pelo pátio, nós chegamos ao corpo principal da casa, o qual tinha dois andares de altura. Os [68]aposentos eram grandes e elevados; talvez, à primeira vista, eles parecessem bastante vazios de mobiliário, mas em climas quentes as pessoas geralmente mantêm seus aposentos mais vazios do que em climas mais frios. Eu também não percebi a vista de um grande piano ou algum instrumento similar, ali não havendo meio de produção de música em nenhum dos aposentos, salvo as maiores salas de estar, onde havia uma meia-dúzia de grandes gongos de bronze, os quais as damas usavam ocasionalmente para baterem aleatoriamente para lá e para cá. Não era agradável de os ouvir, mas eu tinha ouvido música bastante desagradável tanto antes quanto desde então.

O sr. Nosnibor conduziu-me através de vários aposentos espaçosos até que nós alcançamos um vestiário de senhoras onde a sua mulher e filhas, sobre as quais eu tinha ouvido do intérprete. A sra. Nosnibor tinha aproximadamente quarenta anos de ideia, e ainda linda, mas ela tinha se tornado muito corpulenta: as filhas delas estavam no apogeu da juventude e eram exoticamente belas. Eu dei preferência quase imediatamente para a mais jovem, cujo o nome era Arowhena; pois a irmã mais velha era arrogante, enquanto que a mais jovem tinha uma maneira muito atraente. A sra. Nosnibor recebeu-me com a perfeição da cortesia, de modo que, de fato, eu devo ter sido tímido e nervoso se imediatamente eu não me senti bem-vindo. Escassamente a cerimônia da minha introdução estava bem completa antes que um servo anunciasse que o jantar estava pronto no aposento seguinte. Eu estava excessivamente faminto, e o jantar estava além de todo elogio. Pode o leitor maravilhar-se de que eu comecei a considerar-me em excelentes acomodações? “Aquele homem desvia dinheiro?” Eu pensei comigo mesmo; “impossível.”

Mas eu percebi que o meu anfitrião esteve inquieto durante a refeição inteira, e que ele não tinha comido nada exceto um pouco de pão e leite; pelo final do jantar, chegou um alto homem magro com uma barba negra, a quem o sr. Nosnibor e a família inteira prestaram grande atenção: ele era o endireitador da família. Com esse cavalheiro o sr. Nosnibor retirou-se para dentro de outro aposento, a partir do qual ali procedeu um som de choro e lamento. Eu dificilmente pude acreditar em meus ouvidos, mas, [69]em uns poucos minutos, eu vim a conhecer com certeza que eles vinham do sr. Nosnibor mesmo.

Pobre papai,” disse Arowhena, como se ela servisse a si mesma de maneira composta com o sal, “quão terrivelmente ele tem sofrido.”

Sim,” respondeu a mãe dela, “mas eu penso que agora ele está bastante longe de perigo.”

Em seguida, eles prosseguiram para me explicar as circunstâncias da casa, e o tratamento que o endireitador tinha prescrito, e quão bem-sucedido ele tinha sido – tudo que eu reservarei para outro capítulo, e colocarei antes na forma de um sumário geral das opiniões correntes sobre esses assuntos do que nas palavras exatas nas quais esses fatos foram transmitidos a mim; contudo, o leitor é sinceramente requisitado a acreditar que, tanto neste próximo capítulo quando naqueles que o seguem, eu tento aderir o mais conscienciosamente possível à precisão mais estrita, e que nunca, voluntariamente, eu deturpei, embora eu possa algumas vezes ter falhado em entender todos as relevâncias de uma opinião ou costume.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 59-69. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/59/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - VIII Na Prisão

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[51]VIII Na Prisão


E agora, pela primeira vez, minha coragem falhou-me. É suficiente dizer que eu estava sem dinheiro, e era um prisioneiro em um país estrangeiro, onde eu não tinha nenhum amigo, nem nenhum conhecimento dos costumes ou da linguagem do povo. Eu estava à mercê de homens com os quais eu tinha pouco em comum. E contudo, absorto como eu estava com minha posição extremamente difícil e duvidosa, eu não podia evitar o sentimento profundamente interessado no povo em meio ao qual eu tinha caído. Qual era o significado daquela sala cheia de maquinário que eu tinha visto há pouco, e do descontentamento com o qual o magistrado tinha considerado o meu relógio? As pessoas tinham muito pouco maquinário agora. Isso tinha me ocorrido uma e outra vez, embora eu não tivesse estado a mais do que vinte e quatro horas no país. Eles eram aproximadamente tão avançados quanto os europeus dos séculos XII ou XIII; certamente não mais do que isso. E contudo eles devem ter tido, em algum momento, o conhecimento mais completo das nossas mais recentes invenções. Como poderia ter acontecido que, uma vez tendo estado tão avançados, eles agora estavam tão igualmente atrás de nós? Era evidente que isso não era por ignorância. Eles reconheceram meu relógio como um relógio quando eles o viram; e o cuidado com o qual as máquinas antigas eram preservadas e etiquetadas, provava que eles não tinham perdido a memória de sua antiga civilização. Quando mais eu pensava, menos eu compreendia isso; mas, por fim, eu conclui que eles devem ter minerado suas minas de carvão e ferro, até que nada restasse, ou tão pouco, que o uso desses metais ficasse restrito à mais alta nobreza. Essa foi a única solução na qual eu pude pensar; e, embora depois eu descobrisse quão inteiramente equivocado eu estava, no momento eu senti-me bastante certo que ela tinha de ser a correta.

Dificilmente eu cheguei a essa opinião por mais do que quatro ou cinco minutos, quando a porta se abriu, e uma jovem mulher apareceu com uma bandeja, e um cheiro muito apetitoso de jantar. Eu contemplei-a com admiração enquanto ela [52]estendia uma toalha de mesa e colocava um prato de aparência saborosa sobre a mesa. Enquanto eu a observava, eu senti como se a minha posição já fosse muito melhorada, pois a própria visão dela transmitia um grande conforto. Ela não tinha mais do que vinte anos de idade, estava bastante acima da altura média, ativa e forte, contudo muito delicadamente configurada; os lábios dela eram cheios e doces; os olhos dela eram de uma profunda cor de avelã, franjeados com cílios longos e saltados; o cabelo dela era ordenadamente trançado para longe de sua testa; sua compleição era simplesmente extraordinária; a sua figura era tão robusta quanto consistente com a mais perfeita beleza feminina, contudo, não demais; as mãos e pés dela poderiam ter servido como modelos para um escultor. Tendo colocado o ensopado sobre a mesa, ela retirou-se com uma olhadela de piedade, onde (lembrando-me do parente da pena) eu decidi que ela deveria se apiedar de mim um pouco mais. Ela retornou com uma garrafa e um copo e encontrou-me sentado na cama com as mãos sobre o rosto, parecendo o retrato mesmo da miséria abjeta e, como todos os retratos, bastante mentiroso. Enquanto eu a observava, através de meus dedos, sair do quarto novamente, eu tive certeza de que ela estava excessivamente triste por mim. As costas dela viraram-se, eu comecei a trabalhar e a comer o meu jantar, o qual estava excelente.

Ela retornou em aproximadamente uma hora para tirar o jantar; e ali veio com ela um homem quem tinha um grande monte de chaves em sua cintura, e cujo modo convenceu-me que ele era o carcereiro. Depois eu descobri que ele era o pai da bela criatura que tinha me trazido meu jantar. Eu não sou um hipócrita muito maior do que outras pessoas e, fazer o que eu fizesse, eu não pude parecer tão miserável. Eu já tinha me recuperado de meu abatimento, e sentia-me em um humor muito cordial, tanto com meu carcereiro quanto com sua filha. E agradeci-lhes pela atenção deles comigo; e, embora eles não puderam me entender, eles olharam um para o outro e riram e tagarelaram até que o velho disse alguma coisa ou outra que eu suponho ser uma piada; pois a garota riu alegremente e correu, deixando o pai dela retirar as coisas do jantar. Em seguida, eu tive outro visitante, quem não era [53]tão simpático, e quem parecia ter uma grande ideia de si mesmo e uma pequena de mim. Ele trouxe um livro consigo, e canetas e papel – tudo muito inglês; e contudo, nem o papel, nem a impressão, nem a encadernação, nem a caneta, nem a tinta, eram exatamente iguais aos nossos.

Ele deu-me a entender que ele devia me ensinar a linguagem e que nós devíamos começar imediatamente. Isso me deliciou, tanto porque eu deveria ficar mais confortável, quando eu pudesse entender e fazer-me entendido, quanto porque eu supunha que dificilmente as autoridades ensinar-me-iam a linguagem se eles pretendessem qualquer uso cruel em relação a mim depois. Nós começamos imediatamente, e eu aprendi os nomes de tudo na sala, e também os numerais e os pronomes pessoais. Para meu pesar, eu descobri que a semelhança com coisas europeias, a qual tão frequentemente tinha observado até então, não continuou verdadeira na questão da linguagem; pois eu não pude detectar qualquer analogia entre esta e qualquer língua da qual eu tenho o mínimo conhecimento, - uma coisa que me fez considerar possível que eu poderia estar aprendendo hebreu.

Eu não preciso detalhar mais; desde esse momento os meus dias foram despendidos com uma monotonia que teria sido tediosa exceto pela sociedade de Yram, a filha do carcereiro, quem tinha tomado uma grande afeição por mim e tratava-me com a máxima gentileza. O homem vinha todos os dias para me ensinar a linguagem, mas o meu dicionário e a minha gramática reais era Yram; e eu consultava-os para tal propósito que eu realizei o progresso mais extraordinário, sendo capaz, ao final de um mês, de entender um grande montante de conversa que eu ouvia entre Yram e o pai dela. Meu professor declarou-se muito satisfeito, e disse que ele deveria fazer um relato favorável de mim para as autoridades. Eu então questionei-o quanto ao que provavelmente seria feito de mim. Ele contou-me que a minha chegada causou uma grande excitação por todo o país, e que eu devia ser detido como um prisioneiro fechado até o recebimento de recomendações do [54]governo. Eu ter um relógio foi a única característica prejudicial no caso. E, em seguida, em resposta a minha pergunta de porque isso deveria ser assim, ele concedeu uma longa história da qual, por causa do meu conhecimento imperfeito da linguagem, eu não poderia fazer qualquer coisa que fosse, exceto que isso foi uma ofensa muito hedionda, quase tão ruim (pelo menos assim eu pensei que o entendi) como ter febre do tifo. Mas ele disse que pensava que o meu cabelo claro salvar-me-ia.

Foi permitido que eu caminhasse no jardim; havia uma muralha alta de maneira que eu jogar um tipo de fives de mão, o qual evitou que eu sentisse os efeitos ruins do meu confinamento, embora fosse um esforço estúpido jogar sozinho. No curso do tempo, pessoas da cidade e vizinhança começaram a incomodar o carcereiro para serem permitidas a ver-me, e sobre o recebimento de belas taxas se ele as deixasse fazê-lo. As pessoas eram boas comigo; quase boas demais, pois elas estavam inclinadas a tratar-me como um leão, o que eu odiava – pelo menos as mulheres estavam; apenas elas tinham de estar cientes de Yram, quem era uma jovem dama de temperamento ciumento e mantinha um olho afiado tanto sobre mim quanto sobre minhas damas visitantes. Contudo, eu sentia-me tão gentil em relação a ela, e estava tão inteiramente dependente dela para quase tudo que tornava minha vida uma benção e um conforto para mim, que eu tomava grande cuidado para não a irritar, e nós permanecemos excelentes amigos. Os homens eram muito menos inquisitivos e, eu acredito, não teriam se aproximado de mim por seu próprio desejo; mas as mulheres tornaram-nos como acompanhantes. Eu fiquei deliciado com o seu semblante belo e agradáveis maneiras cordiais.

A minha comida era simples, mas sempre variada e saudável, e o bom vinho vermelho era admirável. Eu tinha descoberto um tipo de vegetal no jardim, o qual eu fiz suar em montes e em seguida sequei, obtendo dessa maneira um substituto para o tabaco; de modo que, com aquilo com Yram, a linguagem, os visitantes, o fives no jardim, fumo e cama, meu tempo deslizava mais rápida e agradavelmente do que poderia ter sido esperado. Eu também construí para mim mesmo uma pequena flauta; e, sendo um flautista tolerável, entretinha-me às vezes tocando fragmentos de [55]óperas e árias, tais como “Oh where and oh where,” e “Home, sweet home.” Isso foi de grande vantagem para mim, pois o povo do país era ignorante dessa escala diatônica e dificilmente podia acreditar em seus ouvidos ao ouvirem algumas das melódias mais comuns. Também frequentemente, ele far-me-iam cantar; e em qualquer momento eu poderia fazer os olhos de Yram flutuarem com lágrimas cantando “Villikins and his Dinah,” “Billy Taylor,” “The Ratcatcher’s Daughter,” ou tanto delas quanto eu conseguia lembrar.

Eu tive uma ou duas discussões com eles sobre porque eu nunca cantava no Domingo (das quais eu mantive registro no meu livro de apontamentos), exceto cânticos e melodia de hino; desses, eu arrependo-me de dizer, que eu tinha esquecido das palavras, de maneira que eu apenas poderia cantar a melodia. Eles pareciam ter pouco ou nenhum sentimento religioso, e nunca terem nem mesmo ouvido sobre a instituição divina do Sábado, então eles atribuíram minha observância dela a um ajuste de mau humor, os quais eles observavam como chegando sobre mim a cada sétimo dia. Mas eles eram muito tolerantes, e um deles disse-me, bastante amavelmente, que ele sabia quão impossível era evitar ficar mal-humorado às vezes, apenas ele pensava que eu deveria ver alguém se isso se tornasse mais sério – uma peça de conselho que então eu falhei em entender, embora eu pretendesse tomá-lo bastante como uma questão de curso.

Apenas uma vez Yram tratou-me de uma maneira que foi cruel e irracional, - pelo menos, assim eu pensei no momento. Isso aconteceu desta maneira. Eu tinha estado jogando fives no jardim e fiquei muito quente. Embora o dia estivesse frio, e Porto Frio (como o nome da cidade na qual a minha prisão ficava devia ser traduzido) ficasse a completos 3000 pés acima do mar, eu tinha jogada sem meu casaco e colete, e tomei um frio agudo descansando por muito tempo ao ar livre sem proteção. Na manhã seguinte, eu tive um resfriado severo e senti-me realmente ruim. Estando pouco acostumado aos padecimentos mais leves, e pensando que seria bastante agradável ser acariciado e mimado por Yram, [56]eu certamente não me fiz parecer estar nada melhor do que eu estava; de fato, eu lembro que eu fiz o pior das coisas, e tomei em minha cabeça considerar-me na lista de doente. Quando Yram me trouxe meu café da manhã eu reclamei um pouco alegremente de minha indisposição, esperando a simpatia e graça que eu deveria ter recebido de minha mãe e minhas irmãs em casa. Nem um pouco disso. Ela acendeu imediatamente, e perguntou-me o que eu queria dizer com isso, e como eu me atrevia a presumir mencionar uma tal coisa, especialmente considerando o lugar onde eu estava. Ela estava decidida a contar ao pai dela, apenas que ela estava preocupada com as consequências seriam tão muito sérias para mim. A maneira dela foi tão ofendida e decidida, e sua ira tão evidentemente sincera que eu me esqueci do meu resfriado imediatamente, suplicando a ela, de todo jeito, para contar ao pai dela se desejasse fazê-lo, e dizendo a ela que eu não tinha ideia de ser protegido por ela de qualquer coisa que fosse; logo apaziguando, após eu ter dito tantas coisas irônicas quanto eu pude, eu perguntei a ela o que tinha feito de errado, e prometi emenda tão logo eu alguma vez me tornasse ciente disso. Ela viu que eu realmente fui ignorante, e não tinha tido intenção de ser rude com ela; no que surgiu que doença do meu tipo era considerada em Erewhon ser altamente criminosa e imoral; e que eu estava sujeito, mesmo por pegar resfriado, a ser levado diante dos magistrados e aprisionado por um período considerável – um anúncio que me atingiu tolo com espanto.

Eu acompanhei a conversa tão bem quanto o meu conhecimento imperfeito da linguagem permitiria, e apreendi um reflexo da posição dela com respeito a problemas de saúde; mas nem mesmo então eu compreendi completamente, nem ainda eu tive nenhuma ideia das outras perversões extraordinárias de pensamento que existiam entre os erewhonianos, mas com as quais eu logo deveria tornar-me familiar. Portanto, eu proponho, para não fazer nenhuma menção ao que se passou entre nós nessa ocasião, exceto que nos reconciliamos, e que ela [57]trouxe para mim sorrateiramente uma taça de espíritos quentes e água antes de eu ir para cama, como também uma pilha de cobertores extras e, na próxima manhã, eu estava bastante melhor. Eu nunca me lembrei de ter melhorado de um resfriado tão rapidamente.

Essa pequena questão explicou muito do que, até então, tinha me intrigado. Parecia que os dois homens quem foram examinados diante dos magistrados antes no dia da minha chegada do país, tinham sido condenados por causa de problemas de saúde, e ambos foram condenados a uma longa pena de prisão com trabalho pesado; agora eles estavam expiando a ofensa delas nesta prisão mesma, e o terreno de exercício deles era um quintal separado pela minha parede de fives do jardim no qual eu caminhava. Isso explicava os sons de tosse e gemido que eu tinha notado frequentemente enquanto vindo do outro lado da muralha; ela era alta, e eu não tinha me atrevido a escalá-la por medo do carcereiro ver-me e pensar que eu estava tentando escapar; mas eu frequentemente tinha me maravilhado de qual tipo de pessoas eles poderiam ser do outro lado, e tinha resolvido perguntar ao carcereiro; mas eu raramente o via, e Yram e eu geralmente encontrávamos outras coisas sobre as quais falar.

Outro mês voou, durante o qual eu realizei tal progresso na linguagem que eu podia entender tudo que era dito para mim, e expressar-me com fluência tolerável. Meu instrutor declarou estar surpreso com o progresso que eu tinha feito; eu fui cuidadoso para atribuir isso às dificuldades que ele tinha enfrentado comigo e ao seu método admirável de explicar minhas dificuldades, assim nós nos tornamos excelentes amigos.

Meus visitantes tornaram-se mais e mais frequentes. Entre eles havia alguns, tanto homens quanto mulheres, quem me deliciavam inteiramente pela sua simplicidade, inconsciência de si, maneiras gentilmente cordiais e por último, mas não menos importante, pela sua beleza extraordinária; aí chegavam outros, menos bem-criados, mas ainda pessoas graciosas e agradáveis, enquanto outros eram esnobes, pura e simplesmente.

Ao final do terceiro mês, o carcereiro e meu [58]instrutor vieram juntos me visitar e disseram que comunicações tinham sido recebidos do Governo para o efeito de que eu tinha me comportado bem e parecia geralmente razoável, e que se não houvesse absolutamente nenhuma suspeita sobre a minha saúde e o meu vigor corporais, e se meu cabelo fosse realmente claro e meus olhos azuis e compleição fresca, eu devia ser enviado imediatamente à metrópole a fim de que o Rei e a Rainha poderiam ver-me e conversar comigo; mas quando eu chegasse lá eu deveria ser liberado, e um subsídio adequado deveria ser concedido-me. Meu professor também me disse que um dos mercadores principais tinha me enviado um convite para me dirigir à casa dele e considerar-me seu convidado por quanto tempo eu escolhesse. “Ele é um homem encantador,” continuou meu intérprete, “mas tem sofrido” (aqui surgiu uma longa palavra que eu não pode apreender bem, apenas que era muito mais longa do que cleptomania), “e apenas recentemente se recuperou de desviar uma grande soma de dinheiro sobre circunstâncias singularmente dolorosas; mas ele superou bastante isso, e os endireitadores dizem que ele realizou uma recuperação realmente maravilhosa; certamente você deverá gostar dele.”


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 51-58. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/51/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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