Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[89]XII Descontentes
Eu confesso que me senti muito infeliz quando cheguei em casa e pensei mais cautelosamente sobre o julgamento que há pouco tinha testemunhado. Pelo momento, eu tinha sido arrebatado pela opinião daqueles entre os quais eu estava. Eles não tinham dúvidas sobre o que estavam fazendo. Não parecia haver nenhuma pessoa na corte inteira que tivesse a menor dúvida, apenas que tudo era exatamente como deveria ser. Essa universal confiança desavisada foi transmitida para mim mesmo por simpatia, a despeito de todo o meu treinamento em opiniões tão amplamente diferentes. Assim é com a maioria de nós: que aquilo que nós observamos ser tomado como uma coisa natural por aqueles a nossa volta, nós mesmos tomamos como uma coisa natural. E, afinal, é nosso deve fazer isso, salvo em consequência de grave ocasião.
Mas quando eu fiquei sozinho, e comecei a refletir sobre o julgamento, ele certamente me surpreendeu como revelando uma posição estranha e insustentável. Tivesse o juiz dito que ele reconhecia a verdade provável, a saber, que o prisioneiro nasceu de pais pouco saudáveis, ou tivesse passado fome na infância, ou tivesse passado por acidentes que tivesse desenvolvido tuberculose; e em seguida, tivesse ele prosseguido para dizer que, embora ele conhecesse tudo isso, ele arrependia-se amargamente de que a proteção da sociedade obrigava-o a infligir dor adicional sobre alguém que já tinha sofrido tanto, todavia, que não havia ajuda para isso, eu poderia ter entendido a posição, por mais equivocada que eu poderia tê-la considerado. O juiz estava completamente persuadido de que a imposição de dor sobre o fraco e doente era o único meio para evitar que a fraqueza e doença se espalhem, e que dez vezes o sofrimento agora infligido sobre o acusado eventualmente foi desviado de outros pela presente severidade aparente. Portanto, eu poderia perfeitamente entender sua imposição de qualquer dor que ele pudesse considerar necessária a fim de evitar que um exemplo tão ruim se espalhasse mais e rebaixasse o padrão erewhoniano; mas pareceu quase infantil dizer ao prisioneiro que ele poderia ter estado em boa saúde, se ele tivesse sido [90]mais afortunado em sua constituição, e tivesse sido exposto a menos sofrimentos quando ele era um menino.
Eu escrevo com grande desconfiança, mas parece-me que não há injustiça em punir pessoas por seus infortúnios, ou recompensá-las por sua pura boa sorte: é a condição normal da vida humana que isso deveria ser feito, e nenhuma pessoa moderada reclamaria de estar sujeita ao tratamento comum. Não há alternativa aberta para nós. É inútil dizer que os homens não são responsáveis pelos seus infortúnios. O que é responsabilidade? Certamente, ser responsável significa ser responsável por ter de dar uma resposta devesse ela ser demandada, e todas as coisas que vivem são responsáveis por suas vidas e ações, devesse a sociedade entender adequado questioná-las através da boca de seu agente autorizado.
Qual é a ofensa de um cordeiro para que nós deveríamos cuidá-lo, e guardá-lo, e acalmá-lo à segurança, para o propósito expresso de o matar? A sua ofensa é o infortúnio de ser alguma coisa que a sociedade quer comer, e que não pode se defender. Isso é suficiente. Quem deverá limitar o direito da sociedade exceto a sociedade mesma? E que consideração pelo indivíduo é tolerável a menos que a sociedade seja a ganhadora por esse meio? Portanto, deveria um homem ser tão ricamente recompensado por ter sido filho de um milionário, não fosse isso claramente demonstrável que, dessa maneira, o bem-estar comum é melhor promovido? Nós não podemos depreciar o mérito de um homem em ter sido o filho de um pai rico sem colocar em perigo o nosso gozo de coisas que nós não queremos comprometer; se isso fosse de outra maneira, nós não deveríamos deixá-lo manter o seu dinheiro por uma única hora; nós o reclamaríamos de uma vez. Pois propriedade é roubo, mas então, nós todos somos assaltantes ou pretensos assaltantes juntos, e consideramos essencial organizar o nosso roubo, como nós consideramos necessário organizar a nossa luxúria e nossa vingança. Propriedade, casamento e a lei; como o leito para o rio, assim a regra e convenção pelo instinto; e ai daquele que mexe com os bancos de areio enquanto a enchente está fluindo.
[91]Mas para retornar. Mesmo na Inglaterra um homem a bordo de um navio com febre amarela é responsabilizado por seu infortúnio, não importa o que possa custar a ele ser mantido em quarentena. Ele pode contrair a febre e morrer; nós não podemos evitar isso; ele tem de arriscar como as outras pessoas arriscam; mas certamente seria crueldade desesperada adicionar contumélia a nossa autoproteção, a menos que, de fato, nós acreditemos que a contumélia seja um dos nossos melhores meios de autopreservação. Novamente, tome-se o caso dos maníacos. Nós dizemos que eles são irresponsáveis pelas ações deles, ou deveríamos tomar muito cuidado, para que eles devessem responder pela insanidade deles, e nós os aprisionaríamos no que nós chamamos de um asilo (que santuário moderno!), se nós não gostássemos das respostas deles. Esse é um caso estranho de irresponsabilidade. O que nós podemos dizer é que podemos nos permitir ficar satisfeitos com uma resposta menos satisfatória de um lunático do que de alguém que não é louco, porque loucura é menos infecciosa do que crime.
Nós matamos uma serpente se ficamos em perigo por ela, simplesmente por tal e tal ser uma serpente e estar em um lugar tal e tal; mas nós nunca diremos que a serpente tem apenas a si mesma para culpar por não ter sido uma criatura inofensiva. O seu crime é ser o ser que ela é: mas isso é uma ofensa capital, e nós estamos certos em a matar para fora do caminho, a menos que nós consideremos mais perigoso fazer isso do que a deixar escapar; mesmo assim, nós apiedamo-nos da criatura, mesmo se nós a matamos.
Mas no caso daquele cujo julgamento eu descrevi acima, era impossível que qualquer um na corte não devesse ter conhecido que foi apenas por um acidente de nascimento e circunstâncias que ele mesmo também não estava com uma tuberculose; e contudo ninguém pensou que os desgraçava ouvir o juiz dar vazão aos truísmos mais cruéis sobre ele. O juiz mesmo era uma pessoa amável e pensativa. Ele era um homem de presença magnífica e benigna. Ele era evidentemente de uma constituição de aço, e seu rosto usava uma expressão da sabedoria mais madura e experiência; todavia, por tudo isso, idoso e instruído como ele era, ele não podia ver coisas [92]que alguém teria pensado teriam sido aparentes até para uma criança. Ele não podia se emancipar, ou melhor, nem mesmo lhe ocorreu o sentimento, da sujeição às ideias nas quais ele tinha nascido e sido criado.
Assim também foi com o júri e os espectadores; e – o mais maravilhoso de tudo – assim foi mesmo com o prisioneiro. Embora ele parecesse completamente impressionado com a noção de que se estava lidando com ele justamente: ele não viu nada arbitrário ao ser dito a ele pelo juiz que ele devia ser punido, não tanto como uma proteção necessária para a sociedade (embora isso não estivesse inteiramente perdido de vista), como porque ele não tinha sido melhor nascido em criado do que ele foi. Mas isso me levou a ter esperança de que ele sofreu menos do que ele teria sofrido se ele tivesse visto a questão à mesma luz que eu vi. E, afinal, justiça é relativa.
Eu posso mencionar aqui que, há apenas alguns anos antes da minha chegada no país, o tratamento de todos os inválidos condenados tinha sido muito mais bárbaro do que agora, pois nenhum remédio físico era fornecido, e os prisioneiros eram colocados para o labor mais severo em todos os tipos de clima, de maneira que a maioria deles logo sucumbia aos sofrimentos extremos que eles sofriam; supunha-se que isso era benefício de algumas maneiras, na medida que colocava o país para gastar menos com a manutenção de sua classe criminosa; mas o crescimento da luxúria induziu a um relaxamento da antiga severidade, e uma era sensível não mais toleraria o que parecia ser um excesso de rigor, mesmo em relação ao mais culpado; além disso, descobriu-se que os júris estavam menos dispostos a condenar, e a justiça frequentemente era trapaceada, porque não havia alternativas entre virtualmente condenar um homem a morte e deixá-lo ir livre; também se sustentou que o país pagava em reincidências por sua severidade exagerada; pois aqueles que tinham sido aprisionados mesmo padecimentos insignificantes frequentemente ficavam permanentemente incapacitados pelo seu aprisionamento; e quando um homem tinha sido condenado uma vez, era provável que ele raramente ficaria fora das mãos do país subsequentemente.
[93]Há muito esses males tinham sido aparentes e reconhecidos; todavia, as pessoas eram indolentes demais, e indiferentes demais a sofrimento de outros, para se moverem para colocarem um fim nele, até que, por fim, um reformador benevolente devotou sua vida inteira a efetuar as mudanças necessárias. Ele dividiu todas as doenças em três classes – aquelas afetando a cabeça, o tronco e os membros inferires – e obteve uma promulgação de que todas as doenças da cabeça, ou internas ou externas, deveriam ser tratadas com láudano, aquelas do corpo com óleo de castor, e aquelas dos membros inferiores com um linimento de forte ácido sulfúrico e água.
Pode ser dito que a classificação não foi suficientemente cuidadosa, e que os remédios foram mal escolhidos; mas é uma coisa difícil iniciar qualquer reforma, e foi necessário familiarizar a mente pública com o princípio, inserindo primeiro a borda fina da cunha; portanto, não é para se maravilhar que, entre um povo tão prático, ainda deva haver espaço para melhoria. A massa da nação estava bem satisfeita com os arranjos existentes, e acreditava que o seu tratamento dos criminosos deixa pouco ou nada a ser desejado; mas há uma minoria energética que sustenta o que são consideradas opiniões extremas, e que absolutamente não está disposta a descansar contente até que o princípio admitido nos últimos tempos seja levado mais adiante.
Eu tive algumas dificuldades para descobrir as opiniões desses homens e suas razões para as entreter. Eles são consideradas em grande ódio pela generalidade do público, e são considerados subversores de qualquer moralidade que seja. Os descontentes, por outro lado, afirmam que doenças são o resultado inevitável de certas condições antecedentes, as quais, na grande maioria dos casos, estavam além do controle do indivíduo, e que, portanto, um homem é culpado apenas por estar com uma tuberculose da mesma maneira que uma fruta podre é culpada por ter apodrecido. Verdadeiro, a fruta tem de se jogada de lado como imprópria para o uso do homem, e o homem com uma tuberculose tem de ser colocado na prisão para a proteção dos [94]seus companheiros cidadãos; mas esses radicais não o puniriam além da perda de liberdade e uma vigilância estrita. Enquanto fosse evitado que ele prejudicasse a sociedade, eles o permitiram tornar-se útil provendo quaisquer carência da sociedade que ele pudesse prover. Se ele sucedesse ganhando dinheiro dessa maneira, eles o teriam tornado tão confortável na prisão quanto possível, e de nenhuma maneira interfeririam com sua liberdade mais do que fosse necessário para evitar que ele escapasse, ou de se tornar mais severamente indisposto no interior das muralhas da prisão; mas eles deduziriam dos seus ganhos os custos de sua alimentação, alojamento, vigilância e metade daqueles da sua condenação. Se ele estivesse muito fraco para o seu suporte na prisão, eles não lhe permitiriam nada exceto pão e água, e muito pouco disso.
Eles dizem que a sociedade é tola por se recusar a deixar-se ser beneficiada por um homem meramente porque ele tinha causado prejuízo a ela até então, e que a objeção ao labor das classes doentes é apenas proteção em outra forma. É uma tentativa de elevar o preço natural de uma mercadoria dizendo que tais e tais pessoas, quem são capazes e estão dispostas a produzi-la não deveriam fazê-lo, pelo que alguém tem de pagar mais por ela.
Além disso, enquanto um homem não foi efetivamente morto ele é uma criatura companheira, embora talvez alguém muito desagradável. É em grande grau pelo feito de outros que ele é o que ele é, ou, em outras palavras, a sociedade que agora o condena é parcialmente responsabilizável por ele. Eles dizem que não há medo de qualquer aumento de doença sob essas circunstâncias, a dedução considerável e compulsória dos ganhos do prisioneiro, o uso muito frugal de estimulantes (dos quais ele permitiriam muito pouco para qualquer um, e nenhum para aqueles que não os ganharam), o celibato aplicado e, acima de tudo, a perda de reputação entre os amigos, são, na opinião deles, como amplas salvaguardas para a sociedade contra uma negligência [95]geral de saúde como a qual aqueles agora recorreram. Portanto (assim eles dizem), um homem deveria levar sua profissão ou ofício para a prisão com ele, se possível; se não, ele deve ganhar sua vida pela coisa mais próxima a eles que ele pode; mas se ele for um cavalheiro nascido e criado para nenhuma profissão, ele deve apanhar estopa, ou escrever crítica de arte para um jornal.
Essas pessoas dizem mais, que a maior parte da doença que existe em seu país é causado pela maneira insana na qual ela é tratada.
Eles acreditam que, em muitos casos, a doença é exatamente tão curável quanto as doenças morais que eles veem diariamente curadas em volta deles, mas que uma grande reforma é impossível até que os homens aprendam a adotar uma visão mais justa de a partir de qual obliquidade ela procede. Os homens ocultarão suas doenças enquanto eles forem observados ao tornarem-se conhecidos de que eles estão doentes; é a observação, não o remédio, que produz a ocultação; e se um homem sentisse que as notícias de seu estar em má saúde seriam recebidas pelos seus vizinhos como um fato deplorável, mas um muito como o resultado de causas antecedentes necessárias, como se ele tivesse invadido uma joalheria e roubado um valioso colar de diamantes – como um fato que poderia exatamente tão facilmente ter acontecido com eles mesmos, apenas que eles tiveram a sorte de ser melhor nascidos ou criados; e se ele também sentisse que eles não se tornariam mais desconfortáveis na prisão do que a proteção da sociedade contra infecção e o tratamento apropriado da sua própria doença efetivamente exigiam, os homens entregariam a si mesmos para a polícia tão prontamente ao perceberem que eles contraíram varíola, como eles agora vão ao endireitador quanto eles sentem que eles estão prestes a forjarem um testamento, ou fugirem com a esposa de alguém.
Mas o argumento principal do qual eles dependem é aquele da economia: pois eles sabem que alcançaram mais cedo o seu fim apelando para os bolsos dos homens, no qual eles geralmente têm alguma coisa deles mesmos, do que para as cabeças deles, a qual contém, pela maior parte, pouco exceto propriedade emprestada ou [96]roubada; e também, eles acreditam ser esse o teste mais pronto e aquele que tem mais para revelar por si mesmo. Se um curso de conduta pode ser revelado custar menos a um país, e isso não através de economia desonrosa e sem gasto indiretamente aumentado de outras maneiras, eles sustentam que ele requer um grande montante para perturbar os argumentos em favor da sua adoção, e se correta ou erroneamente, eu não posso pretender dizer, eles pensam que o tratamento mais medicinal e humano do doente, do qual eles são os defensores, a longo prazo, seria mais barato para o país: mas eu não inferi que esses reformadores eram opostos a corresponderem algumas das formas mais violentas de doença com o chicote, ou com a morte, porque eles não viram forma tão efetiva de as controlar; portanto, eles iriam flagelar e enforcar, mas eles o fariam piedosamente.
Talvez eu já tenha me demorado de mais sobre opiniões que podem não ter nenhuma influência possível sobre a nossa própria, mas eu não disse a décima parte do que esses aspirantes a reformadores insistiram comigo. Contudo, eu sinto que eu violei o suficiente da atenção do leitor.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 89-96. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/89/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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