Erewhon: ou, Além da Cordilheira - IX Para a Metrópole

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[59]IX Para a Metrópole


Com as palavras acima, o bom homem deixou a sala antes que eu tivesse tempo de expressar meu espanto ao ouvir linguagem tão extraordinária dos lábios de alguém que parecia ser um membro respeitável da sociedade. “Desviou uma grande soma de dinheiro sob circunstâncias singularmente dolorosas!” Eu exclamei para mim mesmo, “e pediu para eu ir e permanecer com ele! Eu não deverei fazer nada do tipo – comprometer a mim mesmo, no início mesmo, aos olhos de todas as pessoas decentes, e desferir o golpe mortal em minhas chances de ou os converter, se eles forem as tribos perdidas de Israel, ou de fazer dinheiro com eles, se eles não forem! Não. Eu farei qualquer coisa além disso.” E quando eu vi meu professor na próxima ocasião eu disse a ele que eu absolutamente não gostei do som do que tinha sido proposto para mim, eu não aceitaria ter nada a ver com isso. Pois, por minha educação e o exemplo dos meus próprios pais e, eu confio, também em algum grau de instinto inato, eu tenho uma aversão genuína por todas as negociações desagradáveis em questões de dinheiro, embora ninguém possa ter uma consideração maior por dinheiro do que eu tenho, se ele for obtido justamente.

O intérprete ficou muito surpreendido pela minha resposta, e disse que eu deveria ser muito tolo se eu persistisse em minha recusa.

Sr. Nosnibor,” ele continuou, “é um homem de pelo menos 500.000 cavalos-vapor” (pois a maneira deles de contar e classificar homens é pelo número de libras-pé que eles têm dinheiro suficiente para levantar, ou, mais aproximadamente, pelo cavalo-vapor deles), “e mantém uma mesa capital; além disso, suas duas filhas estão entre as mulheres mais belas em Erewhon.”

Quando eu ouvi tudo isso, eu confesso que fiquei muito mexido e investiguei se ele era favoravelmente considerado na melhor sociedade.

Certamente,” foi a resposta; “nenhum homem no país tem posição social mais elevada.”

Então ele prosseguiu para dizer que alguém teria pensado, a partir dos meus modos, que meu proposto anfitrião tinha tido icterícia [60]ou pleusiria, ou tinha sido infeliz de maneira geral, e que eu estava com temor de infecção.

Eu não tenho muito medo de infecção,” disse eu, impacientemente, “mas eu tenho alguma consideração por me caráter; e se eu sei que um homem é um estelionatário do dinheiro de outras pessoas, esteja certo disso, eu lhe concederei um margem de manobra tão amplo quanto eu posso. Se ele fosse doente ou pobre ---”

Doente ou pobre!” interrompeu o intérprete, com um rosto de grande alarme. “Então essa é a sua noção de propriedade! Você consorciar-se-ia com os mais baixos criminosos e, contudo, considera simples fraude uma barreira para intercurso amigável. Eu não consigo entender você.”

Mas eu mesmo sou pobre,” exclamei eu.

Você era,” disse ele; “e você estava sujeito a ser severamente punido por isso, - de fato, segundo o conselho que foi sustentado relativo a você, esse fato estava muito próximo de consignar você ao que eu deveria chamar de um castigo bem-merecido” (pois ele estava ficando irado, e assim eu estava também); “mas a Rainha estava tão curiosa, e desejava tanto ver você, que ela peticionou ao Rei e fez ele conceder a você o seu perdão e atribuir a você uma pensão em consideração a sua aparência meritória. É sorte para você que ele não ouviu o que você estava dizendo agora, ou seria certo que ele cancelaria isso.”

Enquanto eu ouvia essas palavras, meu coração afundava dentro de mim. Eu senti a extrema dificuldade da minha posição, e quão perverso eu deveria ser ao contrariar o uso estabelecido. Eu permaneci silente por vários minutos e, em seguida, disse que deveria ficar feliz de aceitar o convite do estelionatário, diante do que o meu instrutor se iluminou e disse que eu era um sujeito sensato. Mas eu senti-me muito desconfortável. Quando ele tinha saído do aposento, eu meditei sobre a conversa que há pouco tinha ocorrido entre nós, mas eu não consegui discernir nada nisso, exceto que isso demonstrou uma perversidade ainda maior de visão mental do que aquela para a qual eu até agora estava preparado. E isso me tornou miserável; pois eu não posso suportar [61]ter muito a ver com pessoas que pensam muito diferentemente de mim mesmo. Todos os tipos de pensamentos errantes continuavam entrando em minha cabeça. Eu pensei na cabana do meu mestre, e eu sentado sobre o lado da montanha, onde primeiramente concebi a ideia insana de exploração. Quantos anos pareciam ter passado desde que eu comecei minha jornada!

Eu pensei nas minhas aventuras no desfiladeiro, na jornada para cá e em Chowbok. Eu pergunto-me o que Chowbok contou a eles sobre mim quando ele retornou, - ele tinha feito bem em retornar, Chowbok tinha. Ele não era bonito – ou melhor, ele era horrível; e teria sido difícil para ele. O crepúsculo aproximava-se, e a chuva respingava contra a janela. Contudo, eu nunca tinha me sentido tão infeliz, exceto durante três dias de enjoo no começo de minha viagem à Inglaterra. Eu sentei meditando até que Yram apareceu com luz e jantar. Ela também, pobre garota, estava miserável; pois ela tinha ouvido que eu devia deixá-los. Ele tinha decidido que eu devia permanecer sempre na cidade, mesmo depois que o meu aprisionamento estivesse acabado; e eu imagino que tinha resolvido casar-se comigo, embora eu nunca tivesse nem mesmo uma pista dela fazer isso. Assim, com a conversa angustiantemente estranha com meu professor, a minha própria condição sem amigos e a melancolia de Yram, eu senti-me mais infeliz do que eu posso descrever, e permanecei assim até que eu fui para a cama e dormi com minhas pálpebras celadas.

Ao acordar na manhã seguinte, eu estava muito melhor. Estava decidido que eu devia partir em um transporte que devia estar na espera por mim por volta das onze da manhã; e a antecipação da mudança colocou-em em bons espíritos, os quais mesmo a face chorosa de Yram dificilmente poderiam perturbar completamente. Eu beijei-a repetidas vezes, assegurei-a de que nós deveríamos nos encontrar posteriormente e que, enquanto isso, eu nunca deveria me esquecer da bondade dela. Eu dei a ela dois botões do meu casaco e um cacho do meu cabelo como uma lembrança, tomando um cacho vistoso da sua própria linda cabeça em [62]retorno: e assim, tendo dito adeus mil vezes, até que eu estivesse bastante dominado pela grande doçura e tristeza dela, eu separei-me dela e desci as escadas para a calèche que estava esperando. Quão grato eu fiquei quando tudo isso estava terminado, e eu fui conduzido para longe e para fora da vista. Eu desejaria que pudesse sentir que também estava fora da mente! Oro ao céus que seja assim agora, e que ela esteja felizmente casada entre o seu próprio povo, e tenha esquecido de mim!

E agora começava uma jornada longa e tediosa, com a qual eu dificilmente deveria incomodar o leitor se eu pudesse. Contudo, ele está seguro, pela simples razão de que eu estive vendado durante a maior parte da minha viagem. Uma bandagem era colocada sobre meu olhos a cada manhã e era removida apenas à noite, quando nós chegávamos à estalagem na qual nós deveríamos passar a noite. Nós viajávamos lentamente, embora as estradas fossem boas. Nós guiávamos apenas um cavalo, o qual nos levava a jornada do nosso dia, da manhã até a noite, aproximadamente seis horas, excluindo as duas hora de descanso no meio do dia. Eu não suponho que nós fizéssemos mais do que trinta ou quarenta e cinco milhas em média. A cada dia nós tínhamos um novo cavalo. Como já disse, eu não pude ver nada do país. Eu apenas sei que ele era plano, e que várias vezes nós tivemos de cruzar grandes rios em balsas. As estalagens eram limpas e confortáveis. Em uma ou duas das cidades maiores, elas eram bastante suntuosas, e a comida era boa e bem cozida. As mesmas saúde e graça e beleza maravilhosas prevaleciam em todos os lugares.

Eu descobri a mim mesmo um objeto de grande interesse; a tal ponto que o condutor me disse que ele teve de manter a rota secreta e, às vezes, de ir por lugares que não estavam diretamente na nossa rota, a fim de evitar a pressão que, de outra maneira, teria nos esperado. À cada noite eu tinha uma recepção e ficava profundamente cansado de dizer as mesmas coisas uma e outra vez em respostas às mesmas questões, mas era impossível ficar com raiva de pessoas cujas maneiras eram [63]tão encantadoras. Nunca eles me perguntaram sobre minha saúde, ou até se eu estava fatigado da viagem; mas a sua primeira questão era quase invariavelmente uma investigação sobre o meu temperamento, a naiveté da qual me surpreendeu até que eu fiquei acostumado com ela. Um dia, estando cansado e com frio, e cansado de dizer a mesma coisa uma e outra vez, eu virei-me para o meu questionador e disse que eu estava muito indisposto, e que eu dificilmente podia sentir-em em um humor pior comigo e com qualquer um do que naquele momento. Para minha surpresa, eu fui respondido com as mais amáveis expressões de condolência, e ouvi sussurrado em volta da sala que eu estava em um mau temperamento; no que as pessoas começaram a dar-me coisas belas para cheirar e comer, as quais realmente pareciam ter alguma qualidade de melhoria de temperamento nelas, pois logo eu me senti melhor e, imediatamente, fui congratulado por estar melhor. Na manhã seguinte, duas ou três pessoas enviaram os seus servos ao hotel com doces e perguntas de se eu tinha me recuperado do meu mau humor. Ao receber as coisas boas, eu quase senti uma disposição para ficar mal-humorado à cada noite; mas eu não gostava das condolências e perguntas, e considerava mais confortável manter o meu temperamento natural, o qual é suficientemente suave de maneira geral.

Entre aqueles que vieram me visitar estavam alguns que tinham recebido uma educação liberal no Colégio da Irracionalidade, e alcançado os graus mais elevados em hipotética, a qual é o seu principal estudo. Esses cavalheiros agora tinham se estabelecido em vários empregos no país, como endireitadores, gerentes e encarregados dos Bancos Musicais, sacerdotes de religião, ou seja o que for, e, levando sua educação com eles, eles difundiam um fermento de cultura por todo o país. Naturalmente, eu questionei-os sobre muitas das coisas que me confundiram desde a minha chegada. Eu perguntei qual eram o objeto e o significado das estátuas que tinham sido colocadas no platô da passagem. Eles contaram-me que elas datavam de um período muito remoto, e que haviam vários outros de tais grupos no país, mas nenhum [64]tão notável quanto aquele que eu tinha visto. Elas tinham uma origem religiosa, tendo sido projetadas para tornarem os deuses da deformidade e doença propícios. Em tempos antigos tinha sido costume realizar expedições através das cordilheiras e capturar os mais feios dos ancestrais de Chowbok que eles pudessem encontrar, em ordem de os sacrificar na presença dessas divindades e, dessa maneira, evitar feiura e doença para os erewhonianos mesmos. Tinha sido sussurrado (mas o meu informante assegurou-me que falsamente) que, séculos atrás, eles tinham até oferecido alguns do seu próprio povo, que eram feios ou sem riqueza, para os fazer de exemplos; contudo, esses costumes detestáveis há muito tinham sido descontinuado; nem havia no presente nenhuma observância das estátuas.

Eu tive a curiosidade de perguntar o que seria feito de qualquer um da tribo de Chowbok se ele cruzasse para dentro de Erewhon. Eles disseram que ninguém sabia, visto que uma tal coisa não tinha acontecido por eras. Eles seriam feios demais para serem permitidos a caminharem em liberdade, mas nem tanto para serem criminalmente responsáveis. A ofensa deles em terem entrado seria algo moral; mas eles estariam além da arte do endireitador. Possivelmente eles seriam consignados ao Hospital para Chatos Incuráveis, e feitos trabalhar em serem chatos por tantos horas por dias pelos habitantes erewhonianos do hospital, quem são extremamente impacientes com o entendiamento uns dos outros, mas logo morreriam se eles não tivessem ninguém a quem eles pudessem chatear – de fato, eles seriam mantidos como entediados profissionais. Quando eu ouvi isso, ocorreu-me que alguns rumores dessa substância talvez poderiam ter se tornado correntes no povo de Chowbok; pois a agonia do medo dele tinha sido grande demais para ter sido inspirada pele mero pavor de ser queimado vido diante das estátuas.

Eu também os questionei sobre o museu de máquinas antigas, e a causa do retrocesso aparente em todas as artes, ciências e invenções. Eu aprendi que, há aproximadamente quatrocentos anos, o estado do conhecimento [65]mecânico estava muito além do nosso, e estava avançando com rapidez prodigiosa, até que um dos mais instruídos professores de hipotética escreveu um livro extraordinário (do qual eu proponho fornecer extratos posteriormente), provando que as máquinas, em última instância, estavam destinadas a suplantarem a raça do homem, e a tornarem-se instinto com uma vitalidade tão diferente de, e superior a, aquelas dos animais, quanto a do animal está para a vida vegetal. Tão convincente foi o raciocínio, ou não raciocínio, dele para esse efeito, que ele levou o país inteiro com ele; e eles uma aniquilaram todo o maquinário que não tinha estado em uso por mais de duzentos e setenta e um anos (período ao qual se chegou após uma série de compromissos), e proibiram estritamente todas as melhorias e invenções adicionais, sob pena de ser considerado, sob o olho da lei, de estar laborando sob febre do tifo, o que eles consideram como um dos piores de todos os crimes.

Esse é o único caso no qual eles confundiam doenças mentais e físicas, e eles fazem isso mesmo aqui como por uma ficção legal declarada. Eu fiquei apreensivo quando lembrei do meu relógio; mas eles confortaram-me com a segurança de que transgressão nessa questão era tão rara agora que a lei poderia se permitir ser leniente em relação a um completo estrangeiro, especialmente em relação a um quem se tinha uma característica tão bela (eles queriam dizer compleição física) e tão belo cabelo claro. Além disso, o relógio era uma curiosidade real, e seria uma adição bem-vinda à coleção metropolitana; assim, eles não consideravam que eu tinha de o deixar preocupar-me seriamente.

Contudo, eu escreverei mais completamente sobre esse assunto quando eu lidar com os Colégios da Irracionalidade e o Livro das Máquinas.

Em aproximadamente um mês a partir da nossa partida, contaram-me que a nossa jornada estava quase terminada. A bandagem tinha sido dispensada, pois parecia impossível que, alguma vez, eu deveria ser capaz de encontrar o meu caminho de volta sem ser [66]capturado. Então nós rodávamos adiante alegremente através das ruas de uma cidade bonita, e alcançamos uma estrada longa, ampla e plana com árvores de álamo de cada lado. A estrada era levemente elevada acima da região circundante, e anteriormente tinha sido uma estrada de ferro; os campos de cada lado estavam no mais elevado cultivo concebível, mas a colheita e vindima já tinham sido coletadas. O ar tinha esfriado mais rapidamente do que poderia ser bem explicado pelo progresso da estação; assim eu pensei bastante que nós devemos ter nos afastado do sol, e estávamos alguns graus mais distantes do equador do que quando nós partimos. Mesmo aqui a vegetação mostrava que o clima era quente, contudo, não havia falta de vigor entre o povo; pelo contrário, eles era uma raça muito robusta, e capazes de grande resistência. Pela centésima vez eu pensei que, tomando-os no todo, eu nunca tinha visto seus iguais com respeito à condição física, e eles pareciam tão agradáveis quanto eram robustos. As flores tinham passado pela maior parte, mas a ausência delas tinha sido em alguma medida compensada por uma exuberância de frutos deliciosos, muito parecidos com os figos, os pêssegos e as peras da Itália e da França. Eu não vi animais selvagens, mas os pássaros eram abundantes e tantos quanto na Europa, mas não domesticados como eles tinham sido no outro lado das cordilheiras. Atiravam-se neles com bestas e flechas, a pólvora sendo desconhecida ou, de qualquer maneira, não em uso.

Agora nós estávamos nos aproximando da metrópole e eu podia ver grandes torres e fortificações, e construções elevadas que se pareciam com palácios. Eu comecei a ficar nervoso com a minha recepção; mas eu tinha prosseguido muito bem até agora, e resolvei continuar segundo o mesmo plano que até aqui – a saber, comporta-me exatamente como se eu estivesse na Inglaterra até que visse que eu estava cometendo um erro e então não dizer nada até que eu pudesse entender a situação. Nós nos aproximávamos cada vez mais. As notícias da minha chegada tinham chegado longe, e havia uma grande multidão reunida em cada lado da estrada, [67]quem me cumprimentaram com sinais da mais respeitosa curiosidade, mantendo-me curvando-me constantemente em reconhecimento de lado a lado.

Quando estávamos perto de uma milha de distância, nós fomos encontrados pelo prefeito e vários conselheiros, em meio a quem havia um ancião venerável, quem foi introduzido a mim pelo prefeito (pois assim, eu suponho, eu deveria chamá-lo) como o cavalheiro quem tinha me convidado para sua casa. Eu curvei-me profundamente e disse-lhe quão grato eu me sentia com ele, e quão de bom grado eu aceitaria a hospitalidade ele. Ele proibiu-me de falar mais e, apontando para a carruagem dele, a qual estava próxima à mão, ele sinalizou para que eu me senta-se lá. Novamente eu me curvei profundamente para o prefeito e os conselheiros e fui embora com o meu entretedor, cujo nome era Senoj Nosnibor. Após meia milha, a carruagem virou para fora da estrada principal, e nós conduzimos sob as muralhas da cidade até que alcançamos um palazzo sobre uma elevação leve e mesmo na periferia da cidade. Essa era a casa de Senoj Nosnibor, e nada pode ser imaginado de mais fino. Ela estava situada perto das ruínas magníficas e veneráveis da antiga estação da estrada de ferro, a qual formava um aspecto imponente a partir dos jardins da casa. Os terrenos, uns dez ou doze acres de extensão, estendiam-se em jardins em terraços, um acima do outro, com lances de amplos degraus ascendendo e descendo a declividade do jardim. Sobre esses degraus haviam estátuas das mais exótica execução. Além das estátuas haviam vasos cheios com vários arbustos que eram novos para mim; de cada lado dos lances de escadas haviam fileiras de antigos ciprestes e cedros, com aleias gramadas entre eles. Então vinha vinhedos escolhidos e pomares de árvores frutíferas carregadas.

A casa mesma era cercada por um pátio, e cercando-o havia um corredor para o qual as salas se abriam, como em Pompeia. No meio do pátio havia um banho e uma fonte. Tendo passado pelo pátio, nós chegamos ao corpo principal da casa, o qual tinha dois andares de altura. Os [68]aposentos eram grandes e elevados; talvez, à primeira vista, eles parecessem bastante vazios de mobiliário, mas em climas quentes as pessoas geralmente mantêm seus aposentos mais vazios do que em climas mais frios. Eu também não percebi a vista de um grande piano ou algum instrumento similar, ali não havendo meio de produção de música em nenhum dos aposentos, salvo as maiores salas de estar, onde havia uma meia-dúzia de grandes gongos de bronze, os quais as damas usavam ocasionalmente para baterem aleatoriamente para lá e para cá. Não era agradável de os ouvir, mas eu tinha ouvido música bastante desagradável tanto antes quanto desde então.

O sr. Nosnibor conduziu-me através de vários aposentos espaçosos até que nós alcançamos um vestiário de senhoras onde a sua mulher e filhas, sobre as quais eu tinha ouvido do intérprete. A sra. Nosnibor tinha aproximadamente quarenta anos de ideia, e ainda linda, mas ela tinha se tornado muito corpulenta: as filhas delas estavam no apogeu da juventude e eram exoticamente belas. Eu dei preferência quase imediatamente para a mais jovem, cujo o nome era Arowhena; pois a irmã mais velha era arrogante, enquanto que a mais jovem tinha uma maneira muito atraente. A sra. Nosnibor recebeu-me com a perfeição da cortesia, de modo que, de fato, eu devo ter sido tímido e nervoso se imediatamente eu não me senti bem-vindo. Escassamente a cerimônia da minha introdução estava bem completa antes que um servo anunciasse que o jantar estava pronto no aposento seguinte. Eu estava excessivamente faminto, e o jantar estava além de todo elogio. Pode o leitor maravilhar-se de que eu comecei a considerar-me em excelentes acomodações? “Aquele homem desvia dinheiro?” Eu pensei comigo mesmo; “impossível.”

Mas eu percebi que o meu anfitrião esteve inquieto durante a refeição inteira, e que ele não tinha comido nada exceto um pouco de pão e leite; pelo final do jantar, chegou um alto homem magro com uma barba negra, a quem o sr. Nosnibor e a família inteira prestaram grande atenção: ele era o endireitador da família. Com esse cavalheiro o sr. Nosnibor retirou-se para dentro de outro aposento, a partir do qual ali procedeu um som de choro e lamento. Eu dificilmente pude acreditar em meus ouvidos, mas, [69]em uns poucos minutos, eu vim a conhecer com certeza que eles vinham do sr. Nosnibor mesmo.

Pobre papai,” disse Arowhena, como se ela servisse a si mesma de maneira composta com o sal, “quão terrivelmente ele tem sofrido.”

Sim,” respondeu a mãe dela, “mas eu penso que agora ele está bastante longe de perigo.”

Em seguida, eles prosseguiram para me explicar as circunstâncias da casa, e o tratamento que o endireitador tinha prescrito, e quão bem-sucedido ele tinha sido – tudo que eu reservarei para outro capítulo, e colocarei antes na forma de um sumário geral das opiniões correntes sobre esses assuntos do que nas palavras exatas nas quais esses fatos foram transmitidos a mim; contudo, o leitor é sinceramente requisitado a acreditar que, tanto neste próximo capítulo quando naqueles que o seguem, eu tento aderir o mais conscienciosamente possível à precisão mais estrita, e que nunca, voluntariamente, eu deturpei, embora eu possa algumas vezes ter falhado em entender todos as relevâncias de uma opinião ou costume.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 59-69. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/59/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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