Erewhon: ou, Além da Cordilheira - X Opiniões Correntes

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[70]X Opiniões Correntes


Foi isto o que eu inferi. Que naquele país, se um homem adoece, ou contrai qualquer desordem, ou enfraquece corporalmente de qualquer maneira, antes dos setenta anos de idade, ele é julgado diante de um júri de seus compatriotas e, se condenado, ele é erguido ao escárnio público e sentenciado mais ou menos severamente conforme possa ser o caso. Há subdivisões das doenças em crimes e contravenções, da mesma maneira que ofensas contra nós mesmos – um homem sendo punido muito severamente por doença séria, enquanto insuficiência de olhos e audição em alguém que tenha mais de sessenta e cinco, quem até então tenha tido boa saúde, é tratada apenas com multa, ou aprisionamento, em inadimplência de pagamento. Mas se um homem falsifica um cheque, ou coloca fogo em sua casa, ou rouba de pessoa com violência, ou faz qualquer outra daquelas coisas que são criminosas no nosso próprio país, ele é, ou levado para um hospital e muito cuidadosamente tratado à custa pública, ou, se ele está em boas circunstâncias, faz-se saber a todos seus amigos que ele está sofrendo de uma crise severa de imoralidade, exatamente como nós fazemos quando estamos doentes, e eles vêm e visitam com grande solicitude, e perguntam com grande interesse como tudo aconteceu, quais sintomas se revelaram primeiro, e assim por diante,- questões às quais ele responderá com franqueza perfeita; pois má conduta, embora não considerada menos deplorável do que doença para conosco mesmos, e inquestionavelmente indicando alguma coisa seriamente errada com o indivíduo que se portou mal, mesmo assim, é considerada ser o resultado de ou infortúnio pré-natal ou pós-natal.

Contudo, a parte estranha da história é que, embora eles atribuam defeitos morais ao efeito do infortúnio, quer no caráter quer nos arredores, eles não ouvem a súplica do infortúnio em casos que, na Inglaterra, encontram apenas simpatia e comiseração. Má sorte de qualquer tipo, ou mesmo mau tratamento nas mãos de outros, é considerada uma ofensa contra a sociedade, na medida torna as pessoas algo desconfortável sobre o que se ouvir falar. Portanto, perda de fortuna ou perda de algum amigo querido de quem alguém era muito [71]dependente dificilmente é punido menos severamente do que delinquência física.

De fato, estrangeiras como semelhantes ideias são para as nossas próprias, traços de opiniões um pouco similares podem ser encontrados mesmo na Inglaterra do século dezenove. Se uma pessoa tem um abscesso, o médico dirá que ele contém matéria “pecante,” e as pessoas dizem que elas têm um braço ou dedo “mau,” ou que elas são inteiramente “más,” quando elas apenas querem dizer “doentes.” Entre as nações estrangeiras, a opinião erewhoniana pode ainda mais claramente ser notada. Por exemplo, os maometanos, até os dias de hoje, enviam suas prisioneiras para hospitais, e os maoris da Nova Zelândia punem qualquer infortúnio com entrada forçada na casa do ofensor, e quebra e queima de todos os bens dele. Novamente, os italianos usam a mesma palavra para “desgraça” e “infortúnio.” Uma vez eu ouvi uma dama italiana falar sobre um jovem amigo a quem ela descreveu como dotado de toda virtude sob o céu, “ma,” ela exclamou, “povero disgraziato, ha ammazzato suo zio.” (“Pobre rapaz infeliz, ele assassinou o tio.”)

Mencionando isso, o que eu ouvi quando levado para a Itália como um menino por meu pai, a pessoa a quem eu o disse não mostrou surpresa. Ele disse que tinha sido conduzido, por dois ou três anos em uma certa cidade, por um jovem cocheiro siciliano de maneiras e aparência simpáticas, mas depois o perdeu de vista. Quando perguntando o que tinha acontecido com ele, contaram-lhe que ele estava na prisão por ter atirado no pai dele com a intenção de o matar – sem resultados sérios, afortunadamente. Alguns anos depois, o meu informante novamente se encontrou abordado calorosamente pelo jovem cocheiro simpático. “Ah, caro signore,” ele exclamou, “sono cinque anni che non lo vedo – tre anni di militare, e due anni di disgrazia,” etc. (“Meu caro senhor, faz cinco anos que eu vi você – três anos de serviço militar, e dois anos de desgraça”) – durante os últimos dois dos quais o pobre rapaz tinha estado na prisão. De sentido moral, ele não mostrou nem tanto quanto um traço. [72]Ele e o pai dele estavam agora em termos excelentes, e era provável que permanecessem assim, a menos que qualquer um deles devesse ter a desgraça para ofender mortalmente o outro.

No capítulo seguinte eu darei uns poucos exemplos da maneira pela qual o que nós chamaríamos de infortúnio, sofrimento ou doença são tratados pelo erewhonianos, mas, pelo momento, eu retornarei ao tratamento deles dos casos que conosco são criminais. Como eu já disse, esses, embora não judicialmente puníveis, são reconhecidos como requerendo correção. Portanto, existe uma classe de homens treinada na arte da alma, a quem eles chamam de endireitadores, tão aproximadamente quanto eu posso traduzir uma palavra que literalmente significa “alguém que desdobra o torto.” Esses homens praticam exatamente como os médicos na Inglaterra, e recebem uma taxa quase sub-reptícia em cada visita. Eles são tratados com a mesma franqueza, e obedecidos tão prontamente, que os nossos próprios doutores – quer dizer, no todo, suficientemente – porque as pessoas sabem que é do seu interesse melhorar assim que elas puderem, e que elas não seriam observadas como elas seriam se seu corpos estivessem fora de ordem, mesmo se elas pudessem passar por um curso muito doloroso de tratamento.

Quando eu digo que elas não serão observadas, eu não quero dizer que um erewhoniano não sofrerá nenhuma inconveniência, nós diríamos, de ter cometido fraude. Os amigos abandoná-lo-ão, porque ele é uma companhia menos agradável, exatamente como nós mesmos ficamos desinclinados a tornar companheiros aqueles que são ou pobres ou adoentados. Ninguém com nenhum senso de autorrespeito colocar-se-á em igualdade em questão de afeição com aqueles que são menos sortudos do que ele mesmo em nascimento, saúde, dinheiro, boa aparência, capacidade ou qualquer outra coisa. De fato, que aversão e mesmo desgosto deveriam ser sentidos da parte do afortunado pelo desafortunado, ou, de qualquer maneira, por aqueles que foram descobertos ter experienciado qualquer um dos infortúnios mais sérios e menos familiares, isso não é apenas natural mas desejável por qualquer sociedade, quer de homem quer de bruto.

[73]Portanto, o fato de que os erewhonianos não acrescentam nenhuma daquela culpa pelo crime que eles cometem a padecimentos físicos, não impede, por exemplo, o mais egoísta entre eles de negligenciar um amigo que tenha roubado um banco até que ele tenha se recuperado completamente; mas impede-os até de pensar em tratar criminosos com aquele tom desdenhoso que pareceria dizer, “Se eu fosse você; eu deveria ser um homem melhor do que você é,” um tom que é considerado bastante razoável com respeito ao padecimento físico. Consequentemente, embora eles ocultem a má saúde através de qualquer astúcia, hipocrisia e artifício que eles possam conceber, eles são bastante abertos sobre as mais flagrantes doenças mentais, devessem elas existir, o que, para fazer justiça ao povo, não é frequentemente. De fato, há alguns que são, por assim dizer, valetudinários espirituais, e que tornam a si mesmos excessivamente ridículos através de sua suposição nervosa de que eles são perversos, enquanto eles são pessoas muito toleráveis todo o tempo. Contudo, isso é excepcional e, no todo, eles usam a mesma reserva ou franqueza sobre o estado do seu bem-estar moral que nós usamos sobre a nossa saúde.

Consequentemente, todas as saudações ordinárias entre nós mesmos, tais como, 'Como você está?' e semelhantes são consideradas sinais de grosseira malcriação; nem as classes mais polidas toleram um comentário elogioso tão comum como dizer a um homem que ele está parecendo bem. Eles saúdam-se com, “Eu espero que você esteja bem esta manhã”; ou “Eu espero que você tenha se recuperado da irritabilidade da qual você estava sofrendo da última vez que eu vi você”; e se a pessoa saudada não estava bem, ou ainda está irritada, ela diz isso de uma vez e recebe condolências de acordo. De fato, os endireitadores foram tão longe quanto a dar nomes da linguagem hipotética (como ensinada nos Colégios da Insensatez) para todas as formas conhecidas de indisposição mental, e para as classificar de acordo com um sistema próprio, o qual, embora eu não pude entender, parecia funcionar bem na prática; pois eles sempre parecem capazes de dizer a um homem qual é o problema [74]com ele tão logo eles tenham ouvido a sua história, e a familiaridade deles com nomes longos assegura-lhe que eles entendem completamente o caso dele.

O leitor não terá dificuldades em acreditar que as leis relativas à saúde ruim foram frequentemente evitadas pela ajuda de ficções reconhecidas, as quais todos entendiam, mas que seriam consideradas grosseira malcriação até parecer entender. Dessa maneira, um ou dois dias depois da minha chegada até a casa dos Nosnibors, uma das muitas damas que me invocou desculpou-se pelo seu esposo estar apenas enviando a sua pessoa divertida, baseado que, quando atravessando o mercado naquela manhã, ele tinha roubado um par de meias. Já tinham me avisado que eu nunca deveria mostrar surpresa, assim eu meramente expressei minha simpatia, e disse que, embora eu apenas tenha estado na capital por um tempo tão breve, eu já tinha escapado por pouco de roubar uma escova de roupa, e que, embora eu tenha resistido à tentação até agora, eu estava tristemente receoso de que, se eu visse qualquer objeto de interesse especial que não fosse nem muito quente nem muito pesado, eu deveria ter de me colocar nas mãos do endireitador.

A sra. Nosnibor, quem esteve ouvindo tudo que eu estivesse dizendo, elogiou-me quando a senhora tinha saído. Nada, ela disse, poderia ter sido mais polido de acordo com a etiqueta erewhoniana. Então ela explicou que ter roubado um par de meias, ou ‘ter as meias’ (em uma linguagem mais coloquial), era uma maneira reconhecida de dizer que a pessoa em questão estava levemente indisposta.

A despeito de tudo isso, eles têm um sentido agudo de prazer como um resultado do que eles chamam de estar “bem.” Eles admiram a saúde mental e amam-na nas outras pessoas, e esforçam-se como podem (consistentemente com seus outros deveres) para a assegurar para si mesmos. Eles têm um desdém extremo pelo que consideram casar em famílias doentes. Eles convocam imediatamente o endireitador sempre que eles forem culpados de alguma coisa seriamente hedionda – frequentemente mesmo se eles pensam que estão a ponto de [75]a cometer; e embora os remédios deles sejam algumas vezes excessivamente dolorosos, envolvendo confinamento estrito por semanas e, em alguns casos, as torturas físicas mais cruéis, eu nunca ouvi sobre um erewhoniano razoável recusando-se a fazer o que endireitador lhe disse, não mais do que um inglês razoável se recusando a passar até pela operação mais assustadora, se seus médicos dissessem-lhe que ela era necessária.

Na Inglaterra, nós nunca evitamos dizer ao médico qual é o problema conosco meramente através do medo de que ele nos machucará. Nós deixamos que ele faça o seu pior conosco, e suportamos sem um murmúrio, porque nós não somos observados por estarmos doentes, e porque nós sabemos que o médico está fazendo o seu melhor para nos curar, e que ele pode julgar o nosso caso melhor do que nós podemos; mas nós deveríamos ocultar toda doença se nós fossemos tratados como são os erewhonianos quando eles têm qualquer coisa que importa com eles; nós deveríamos fazer o mesmo como doenças morais e intelectuais, - nós deveríamos simular saúde com a arte mais perfeita, até que nós fôssemos descobertos, e devêssemos odiar cada flagelação dada na forma de mera punição mais do que a amputação de um membro, se isso fosse amável e cortesmente realizado a partir de um de desejo para nos ajudar a sair da nossa dificuldade, e com a consciência completa da parte do médico de que era apenas por acidente de constituição que ele mesmo não estava em uma condição difícil similar. Dessa maneira, os erewhonianos levam uma flagelação uma vez por semana, e uma dieta combinada um dieta de pão e água por dois ou três meses, sempre que o endireitador deles recomenda-os.

Eu não suponho que mesmo o meu anfitrião, tendo trapaceado uma viúva confiante de toda a propriedade dela, foi colocado em mais sofrimento efetivo do que um homem prontamente se submeterá nas mãos de um médico inglês. E todavia, ele deve ter tido um tempo muito ruim nisso. Os sons que eu ouvi eram suficientes para mostrar que a dor dele ela intensa, mas ele nunca recuava de se submeter a ela. Ele estava bem certo de que ela fazia bem a ele; e eu penso que ele estava certo. Eu não posso acreditar [76]que esse homem alguma vez desviará novamente dinheiro. Ele pode – mas será um longo tempo antes que ele possa fazê-lo.

Durante o meu confinamento na prisão, e em minha jornada, eu já tinha descoberto uma grande quantidade do acima mencionado; mas isso ainda parecia parecia surpreendentemente estranho, e eu estava em constante medo de cometer alguma peça de rudeza, através de minha inabilidade para olhar para as coisas a partir da mesma perspectivas que os meus vizinhos; mas, após uma estada de poucas semanas com os Nosnibors, eu cheguei a entender melhor as coisas, especialmente ao ter ouvido tudo sobre a doença do meu anfitrião, sobre a qual ele contava-me completa e repetidamente.

Parecia que ele tinha estado na Bolsa de Valores de Londres por muitos anos e tinha acumulado riqueza imensa, sem exceder os limites do que geralmente era considerado negócio justificável ou, de qualquer maneira, permissível; mas extensivamente, em várias ocasiões, ele tinha se tornado ciente de um desejo para fazer dinheiro através de representações fraudulentas, e efetivamente tinha lidado com duas ou três somas de uma maneira que o tinha deixado bastante desconfortável. Infelizmente, ele tinha considerado isso não seriamente e descartou com desdém o padecimento, até que, eventualmente, as circunstâncias para fraudar em uma escala muito considerável apresentaram-se; - ele contou-me quais elas foram, elas foram tão ruins quanto qualquer coisa poderia ser, sem eu ter necessidade de as detalhar; ele agarrou a oportunidade, e tornou-se ciente, quando era tarde demais, de que ele deveria estar seriamente desordenado. Ele tinha negligenciado a si mesmo por muito tempo.

Ele dirigiu-se para casa imediatamente, informou as más notícias a sua esposa e suas filhas tão gentilmente quanto ele pôde, e convocou um dos mais celebrados endireitadores do reino para consulta com o praticante da família, pois o caso era evidentemente sério. Na chegada do endireitador ele contou sua história, e expressou o seu medo de que a sua moral devesse estar permanentemente debilitada.

O homem eminente tranquilizou-o com umas poucas palavras animadoras e, em seguida, prosseguiu para produzir um [77]diagnóstico mais cuidadoso do caso. Ele perguntou aos pais do sr. Nosnibor – a saúde moral deles tinha sido boa? Respondeu-se a ele que não tinha havido nada seriamente errado com eles, mas que o seu avô, a quem se supunha que ele se assemelhava um pouco em pessoa, tinha sido um canalha consumado e tinha terminado os seus dias em um hospital, - enquanto que um irmão do seu pai, após ter levado uma vida muito hedionda, finalmente tinha sido curado por um filósofo de uma nova escola, a qual, até onde eu pude entender, comportava a mesma relação com a antiga que a homeopatia com a alopatia. O endireitador sacudiu a cabeça diante disso, e rindo respondeu que a cura deve ter sido devida à natureza. Após mais umas poucas questões ele escreveu uma prescrição e partiu.

Eu vi a prescrição. Ela ordenava uma multa para o estado do dobro do dinheiro desviado; nenhuma comida exceto pão e leite por seis meses, e flagelação severa uma vez por mês por doze meses. Eu fiquei surpreso de ver que nenhuma parte da multa devia ser paga à pobre mulher cujo dinheiro tinha desviado, mas, ao perguntar, eu aprendi que ela teria sido processada no Tribunal da Confiança Extraviada, se ela não tivesse escapado de suas garras ao morrer logo depois que ela tinha descoberto a sua perda.

Quanto ao sr. Norsnibor, ele tinha recebido a sua décima-primeira flagelação no dia da minha chegada. Eu vi-o depois na mesma tarde, e ele ainda estava dolorido; mas não havia escapatória do seguimento da prescrição do endireitador, pois as assim chamadas de leis sanitárias de Erewhon são muito rigorosas e, a menos que o endireitador ficasse satisfeito de que suas ordens tivessem sido obedecidas, o paciente teria sido levada para um hospital (como os pobres são), e teria sido muito pior. Pelo menos essa era a lei, mas nunca é necessário a aplicar.

Em uma ocasião subsequente, eu estive presente em uma entrevista entre o sr. Nosnibor e o endireitador da família, quem era considerado competente para observar a realização da [78]cura. Eu fiquei impressionado com a delicadeza com a qual ele evitava mais remota semelhança de inquirição pelo bem-estar físico do seu paciente, embora houvesse um certo amarelecimento em volta dos olhos do meu anfitrião, o que demonstrava um hábito bilioso de corpo. Ter notado isso teria sido uma brecha grosseira da etiqueta profissional. Contudo, disseram-me que algumas vezes um endireitador considera correto vislumbrar a possibilidade de alguma leve desordem física, se ele considera-a importante a fim de assisti-lo em sua diagnose; mas as respostas que ele obtém são geralmente falsas ou evasivas, e ele forma suas próprias conclusões sobre a questão tão bem quanto ele pode. Conhecem-se homens sensíveis que dizem que, em estrita confiança, ao endireitador deveria ser contado de cada padecimento físico que é provável de ser influente para o caso; mas as pessoas são naturalmente tímidas de fazerem isso, pois elas não gostam de se rebaixarem na opinião do endireitador, e a ignorância dele da ciência médica é suprema. De fato, eu ouvi de uma dama que teve a coragem para confessar que o surto furioso de mau humor e imaginações extravagantes pelos quais ela estava buscando conselho, eram possivelmente o resultado de indisposição. “Você deveria resistir a isso,” disse o endireitador, em uma voz amável, mas grave; “nós não podemos fazer nada pelos corpos de nossos pacientes; tais questões estão além de nossa província, eu desejo poder não ouvir mais particulares.” A dama começou a chorar, e prometeu fielmente que ela nunca ficaria indisposta novamente.

Mas, para retornar ao sr. Nosnibor. Conforme a tarde passava, muitas carruagens se moviam com visitantes para inquirir como ele tinha suporta sua flagelação. Ela tinha sido muito severa, mas as inquirições amáveis de cada lado davam-lhe grande prazer, e ele assegurou-me que quase se sentia tentar a errar novamente pela solicitude com a qual os seus amigos o tinham tratado durante a sua recuperação: nisso eu dificilmente tenho de dizer que ele não era sério.

Durante o restante da minha estada no país, o sr. [79]Nosnibor esteve constantemente atento aos seus negócios, e largamente aumentou suas já grandes posses; mas eu nunca ouvi um sussurro para o efeito dele ter sido indisposto uma segunda vez, ou de ter feito dinheiro através de quaisquer outros meios senão os mais estritamente honoráveis. Depois eu ouvi em confiança que tinha havido razão para acreditar que a sua saúde não tinha sido nem um pouco afetada pelo tratamento do endireitador, mas os amigos dele escolheram não ficar excessivamente curiosos sobre o assunto e, com seu retorno ao negócios, era, pelo consentimento comum, passado por cima como dificilmente criminoso em alguém que, de outra maneira, estava tão aflito. Pois eles consideram padecimentos corporais como os mais perdoáveis em proporção, visto que eles tinham sido produzidos por causas independentes de constituição. Dessa forma, se uma pessoa arruína sua saúde por excessiva indulgência à mesa ou bebendo, eles consideram isso ser quase uma parte da doença mental que o causou, e assim se prossegue por pouco, mas eles não têm misericórdia sobre aquelas doenças como febres ou constipações ou doenças de pulmão, as quais, para nós, parecem estar além do controle do indivíduo. Eles apenas são mais lenientes em relação às doenças do jovem – tais como sarampo, o qual eles consideram ser como a semeadura das aveias selvagens de alguém – e consideram-nas como indiscrições perdoáveis se eles não foram tão sérias, e esse elas forem expiadas por completa recuperação subsequente.

Dificilmente é necessário dizer que o cargo público do endireitador é um que requer treinamento longo e especial. É evidente que aquele que curaria um padecimento moral deve estar praticamente familiarizado com ele em todas as suas relevâncias. Requer-se do estudante para a profissão que ele selecione algumas estações para a prática de cada vício por vez, como um dever religioso. Essas estações são chamadas de “abstinências,” e são continuadas pelo estudante até que ele considere que realmente pode subjugar todos os vícios mais comuns em sua própria pessoa e, consequentemente, pode aconselhar os seus pacientes a partir dos resultados da sua própria experiência.

Aqueles que pretendem ser praticantes especialistas, em vez de generalistas, [80]devotam-se mais particularmente ao ramo no qual a sua prática principalmente permanecerá. Alguns estudantes têm sido obrigados a continuarem com seus exercícios durante suas vidas inteiras, e alguns homens devotados efetivamente morreram como mártires para a bebida, a gula, ou qualquer que seja o ramo de vício que eles possam ter escolhido para o seu estudo especial. Contudo, o número maior não sofre dano pelas excursões dentro dos vários departamentos de vício que é incumbência deles estudar.

Pois os erewhonianos sustentam que virtude pura não é uma coisa a ser imoderadamente satisfeita. Foi-me mostrado mais de um caso no qual as virtudes reais ou supostas dos pais eram acompanhadas pelos filhos até a terceira ou quarta geração. Os endireitadores dizem que o máximo que verdadeiramente pode ser dito pela virtude é que há uma balança considerável em seu favor, e que no todo é melhor acordo estar do seu lado do que contra ela; mas eles insistem que há muita pseudo-virtude circulando, a qual está apta a deixar as pessoas muito mal antes que elas possam descobri-la. Aqueles homens, eles dizem, são melhores quando não são notáveis nem por virtude nem por vício. Eu contei a eles sobre os aprendizes industrioso e inativo de Hogarth, mas eles não pareceram considerar que o aprendiz industrioso fosse uma pessoa muito boa.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 70-80. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/70/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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