Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XVIII A Conscrição do Rei

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[214]A tenda do rei erguia-se à parte do resto; ela não era muito maior, mas adequamente coberta com palha, e a ampla entrada pendurada com cortinas carmesim. Dois estandartes erguiam-se perto dela; um muito mais alto que o outro. O mais alto portava a insígnia do reino, o menor, a própria bandeira do rei como um cavaleiro. Uma defesa temporária cercava a tenda, encerrando um espaço de aproximadamente setenta jardas de diâmetro com um fosso e também estacas plantadas para repelir atacantes. Havia apenas uma entrada, oposta ao campo central, e essa era guardada por soldados completamente armados. Um cavaleiro a cavalo, em armadura, exceto por seu elmo, cavalgava para cima e para baixo diante do portão; ele era o oficial da guarda. Os retentores dele, aproximadamente trinta ou quarenta homens, eram atraídos para perto.

Uma distância de cinquenta jardas intervinha entre esse entricheiramento e o acampamento, e era mantido limpa. No interior do entricheiramento, Felix poderia ver um número de senhores, e vários cavalos enfeitados, mas, a partir da ausência de barulho e do fato de que cada um parecia caminhar delicadamente e na ponta dos pés, ele concluiu que o rei ainda estava dormindo. O riacho corria ao lado do entricheiramento, e entre ele e a cidade; o aposento do rei ficava naquele canto do acampamento mais alto no riacho, de maneira que a água não poderia ser poluída antes que ela o alcançasse.

Contudo, a conscrição do rei não parecia estar por estar [215]redondezas, pois as tendas mais próximas dos quartéis-generais eram evidentemente ocupadas por grandes barões, como Felix sabia a partir de seus estandartes. Aqui havia alguma pouca aparência de formalidade; a soldadesca não era tão barulhenta, e havia vários oficiais se movendo entre eles. Depois ele descobriu que os maiores barões reivindicaram a direita do campo mais próximo do rei, e que a conscrição do rei ficava atrás das tendas deles. Mas, incapaz de descobrir o lugar, e temeroso de perder a sua liberdade se ele demorasse mais, Felix, após hesitar por algum tempo, decidiu aplicar-se diretamente para a guarda no portão do entricheiramento circular.

Enquanto ele cruzava o terreno aberto na direção dela, ele observou que o alojamento do rei era o mais próximo do inimigo. Através do pequeno riacho haviam alguns campos de milho e, além desses, as muralhas da cidade, escassamente a uma milha de distância. Não havia posto avançado, o córrego era apenas um riacho e poderia ser atravessado com facilidade. Ele maravilhou-se diante da falta de precaução; mas ele ainda tinha de aprender que o inimigo, e todos os exércitos da época, eram ignorantes e igualmente descuidados.

Com um comportamento tão humilde quanto ele pôde assumir, Felix tirou o seu boné e começou a falar com o guarda na soleira da porta do entrecheiramento. O mais próximo homem de armas ergueu a sua lança e atingiu-o com a haste. O golpe inesperado caiu sobre o seu ombro esquerdo, e com força tal para o tornar ineficaz. Antes que ele pudesse proferir uma reclamação, um segundo tinha confiscado a sua lança para javali, estalado a haste sobre o joelho, lançado os fragmentos para longe dele. Em seguida, outros tomaram-no pelos [216]ombros e jogaram de volta para o espaço aberto do acampamento, onde eles o chutaram e deixaram-no, machucado, e quase estupefado de indignação. A ofensa dele estava dirigindo-se ao chão do rei com armas em suas mãos.

Posteriormente à tarde, ele encontrou-se sentado sobre um banco de areia do riacho, bem abaixo no acampamento. Ele perambulou para lá sem saber para onde estava indo ou o que estava fazendo. Pelo momento, o espírito dele tinha sido esmagado, não tanto pela brutalidade física, quanto pela repulsa às suas aspirações. Cheio de altas esperanças, e consciente de grandes ideias, ele tinha sido espancado como um cão cruel.

A partir desse ponto perto do riacho o acampamento distante parecia lindo. As bandeiras flutuando, os tetos verdes das tendas (de samambaias e juncos e galhos), o movimento e a vida, pois corpos de tropas agora estavam marchando para lá e para cá, e cavaleiros em vestes alegres cavalgando, formavam uma cena agradável sobre o terreno da encosta com a floresta na retaguarda. Através do córrego a luz do sol iluminava as muralhas da cidade ameaçada, onde, também, muitas bandeiras estavam ondulando. Felix chegou um pouco a si mesmo enquanto ele encarava, e logo reconheceu que ele tinha apenas a si mesmo para culpar. Evidentemente, ele tinha transgredido uma regra, e a ignorância da regra por ele não era desculpa, uma vez que se supunha que aqueles que de qualquer maneira tinham qualquer direito de estar no acampamento entendiam-na.

Ele levantou-se e, retornando lentamente na direção do acampamento, passou em seu caminho pelo lugar de bebida, onde um cavalariço estava dando água a alguns cavalos. O homem chamou ele para ajudar a conter um cavalo de batalha espirituoso, e Felix mecanicamente fez como foi [217]pedido a ele. Os companheiros do rapaz deixaram ele fazer o trabalho deles, e havia muitos cavalos para ele treinar. Felix conduziu para ele o cavalo de batalha de volta para o acampamento, e, em troca, ele foi convidado a beber. Ele preferiu comida, e um suprimento abundante foi colocado diante dele. O cavalariço, tagarelando enquanto ele atendia aos seus deveres, disse que ele sempre dava boas vindas ao começo de uma guerra, pois eles frequentemente estavam quase famintos, e tinham de roer ossos, como os cães, em paz. Mas, quando uma guerra era declarada, vastas quantidades de provisões eram reunidas, e todos comiam vorazmente à vontade. Os próprios cães engordavam; ele apontou para uma meia dúzia que estavam despedaçando um ombro cru de carneiro. Antes que a campanha estivesse terminada, aqueles mesmos cães poderiam passar fome. A qual “guerra” Felix pertencia? Ele respondeu à conscrição do rei.

O cavalariço disse que ali era a conscrição onde eles estavam; mas sob o comando de quem ele estava? Isso confundiu Felix, quem não soube o que dizer e terminou contando a verdade, e implorando ao rapaz para o aconselhar, visto que ele temia perder a liberdade. O homem disse que ele deveria permanecer onde ele estava, e servir com ele sob o Mestre Lacy, quem era suficientemente ruim na cidade, mas gostava de parece liberal nessas condições, quando se associando a cavaleiros e senhores.

Mestre Lacy era um mercador de Aisi, um proprietário de navios. Como a maioria dos seus companheiros, quando a guerra chegava tão perto de casa, ele quase era obrigado a juntar-se à conscrição do rei. Não tivesse ele feito assim, isso teria sido registrado contra ele como falta de lealdade. Os privilégios dele teriam sido [218]tomados deles, possivelmente a riqueza que ele tinha acumulado apreendida, e ele mesmo reduzido à escravidão. Portanto, Lacy colocou armadura e acompanhou o rei ao acampamento. Dessa maneira, Felix, após todas as suas aspirações, descobriu-se servindo como o valete de um mero cidadão.

Ele tinha de levar os cavalos para a água abaixo, limpar armas, buscar madeira da floresta para o fogo. Ele estava ao alcance e à convocação de todos os outros homens, quem nunca tinham escrúpulos em usar os seus serviços e, observando que ele nunca recusava, colocavam ainda mais sobre ele. Por outro lado, quando ele não estava fazendo nada, eles eram muito amáveis e mesmo pensativos. Eles compartilhavam o melhor com ele; ocasionalmente, traziam-lhe vinho (o vinho era escasso, embora a cerveja fosse abundante) como uma delicadeza, e um, quem habilmente tinha tomado uma bolsa, presenteou-lhe com uma meia dúzia de moedas de cobre como seu quinhão do saque. Felix, tornado mais sábio pela experiência, não se atreveu a recusar o dinheiro roubado, isso teria sido considerado o maior insulto; ele aguardou a oportunidade e jogou-o fora.

É claro, os homens rapidamente descobriram a sua educação superior, mas isso não os surpreendeu no mínimo, sendo extremamente comum para pessoas desafortunadas descenderem gradualmente a trabalhos manuais, se alguma vez eles deixassem a propriedade territorial e a herdade à qual eles naturalmente pertenciam. Ali como cadetes, por mais que humildes, eles estavam certos de respeito externo: uma vez fora da influência do líder da casa, e eles saiam-se piores do que o mais baixo retentor. Seus companheiros teriam se ressentido de qualquer mostra de orgulho e rapidamente teriam tornado a sua vida intolerável. Como ele [219]não mostrou nenhuma, eles quase o tratavam como animal de estimação, mas, ao mesmo tempo, esperavam que ele fizesse mais do que a a sua parte do trabalho.

Felix ouviu com espanto as revelações (revelações para ele) da vida interior do acampamento e da corte. A fraqueza do rei, sua gula desordenada e intoxição contínua, seus ataques de temperamento, suas loucuras e excentricidades, pareciam tão familiares para aqueles cavalariços como se eles tivessem habitado com ele. Quanto aos cortesãos e barões, não havia nenhum cujos vícios e crimes secretos não fossem perfeitamente conhecidos para eles. Vícios e crimes têm de ter seus instrumentos; instrumentos são invariavelmente indiscretos, e, dessa forma, os segredos escapam. As intrigas do palácio, as intrigas com outros estados, a influência de certas mulheres, não havia nada que eles não conhecessem.

Dessa maneira vista a partir de baixo, a sociedade inteira parecia podre e corrupta, rude ao último grau, animada apenas pelos motivos mais baixos. Essa fofoca mesma parecia em si mesma criminosa para Felix, mas, no momento, ele não refletia que ela era apenas o conto de servos. Tivesse tal linguagem sido usada por cavalheiros, então, seria traição. Ele mesmo como de nascimento nobre, Felix até agora tinha visto as coisas a partir do ponto de vista da sua própria classe. Agora que ele se associava com cavalariços, ele começou a ver a sociedade a partir do ponto de vista deles, e reconheceu quão debilmente ela era mantida unida por força bruta, intriga, corda e machado, e adulação de mulher. Mas um empurrão parecia ser necessário para a derrubar. Contudo, mesmo assim, ela estava bastante segura, visto que não havia ninguém para dar esse empurrão, e, se qualquer conspiração semelhante tivesse sido formada, aqueles escravos mesmos que mais sofriam [220]teriam sido os homens mesmos que dariam a informação, e torturariam os conspiradores.

Flix nunca tinha sonhado que homens comuns e iletrados, tais como esses cavalariços e retentores, pudessem ter qualquer concepção de razões de estado, ou dos astutos desígnios das cortes.

Agora ele descobria que, embora eles não pudessem nem escrever nem ler, eles tinham aprendido a arte da leitura do homem (do pior e mais baixo lado do caráter) a uma perfeição tal que imediatamente eles detectavam o motivo. Eles liam o rosto; a própria maneira de andar e o gesto dava-lhes uma pista. De fato, eles liam o homem como um animal. Eles entendiam o homem exatamente como eles entendiam os cavalos e cães da caça sob os seus cuidados. Cada humor e indicação viciosa naqueles animais era conhecida por eles, e assim, também, com seus mestres.

Felix pensava em si mesmo como um caçador, e entendido em artesanato em madeira; ele agora descobriu quão enganado ele tinha estado. Ele tinha adquirido o artesanato em madeira como um cavalheiro; ele agora aprendia o artesanato em madeira do valete. Eles ensinaram-lhe uma centena de truques dos quais ele não tinha tido nenhuma ideia. Eles despiam o homem da sua dignidade, e a natureza do seu refinamento. Tudo tinha um lado canalha para si. Ele começou a entender que princípios elevados e teorias abstratas eram apenas palavras para a massa dos homens.

Um dia ele viu cavaleiro friamente topar em um cidadão (um da conscrição do rei) no meio do acampamento e em ampla luz do dia, e quietamente cortar a bolsa dele, pelos menos uma vintena de pessoas olhando. Mas eles eram apenas retentores e escravos; não havia nenhum cuja palavra, por um momento, [221]teria sido recebida contra a de um cavaleiro, quem tinha observado isso e saqueado o cidadão com impunidade. Ele arremessou as moedas menores para a multidão, guardando o ouro e a prata para si mesmo, saiu em meio aos seus aplausos.

Felix viu um escravo pregado a uma árvore, os braços dele colocados em torno de maneira a abraçá-la e então os pregos impelidos através deles. Ali ele foi deixado em sua agonia para perecer. Ninguém soube qual tinha sido a sua falta; o seu mestre apenas dinha desgostado dele. Um guarda foi colocado para ninguém devesse libertar o ser miserável. O horror e a indignação de Felix não poderia ter sido expresso, mas ele estava completamente desamparado.

Sua própria condição de mente durante esse período era tal como não poderia ser bem analisada. Ele mesmo não entendia se seu espírito tinha sido quebrado, se ele foi realmente degradado com os homens com quem ele vivia, ou porque ele permanecia com eles, embora houvesse momentos quando começava a aparecer sobre ele que essa educação, rude como ela era, não era sem o seu valor para ele. Ele não tinha de praticar esses males, mas era bom conhecer a existência deles. Dessa maneira ele peramenceu, quiescente, por assim dizer, e os dias passavam-se. Ele realmente não tinha muito a fazer, embora o resto colocasse as suas obrigações sobre ele, pois a disciplina era tão relaxada, que o auxiliar mais folgado respondia igualmente tão bem quando o mais consciencioso. Uma coisa sobre a qual todos os homens em torno dele pareciam pensar era na satisfação dos seus apetites; uma coisa com a qual eles se regozijavam era o belo clima seco, pois, como seus companheiros contaram a ele, a miséria da vida no acampamento durante chuvas era quase insuportável.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.214-221. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/214/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XVII O Acampamento

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[203]Felix caminhou constantemente por quase três horas, quando o caminho grosseiro, a poeira, e o calor começaram a falar com ele, e ele sentou-se ao lado do caminho. O sol estava declinando agora, e o longo dia de junho, tendendo ao seu fim. Um cavaleiro passou, vindo a partir do acampamento, e, como ele portava apenas uma espada e uma bolsa de couro, ele parecia ser um mensageiro. A poeira levantada perto dos cascos, como ela se ergueu e flutuou acima do mato, tornou o curso dele visível. Algum tempo depois, enquanto ele ainda descansava, estando muito cansado de caminhar através do calor da tarde, ele ouviu o som de rodas, e duas carroças puxadas por cavalos avançavam no caminho a partir da cidade.

As carroças estavam carregadas com pacotes de flechas, talvez os mesmos que ele tinha visto descarregando naquela manhã do navio de guerra, e eram acompanhadas por carroceiros. Conforme eles se aproximavam, ele levantou-se, sentindo que era hora de continuar sua jornada. Seus pés cansados estavam rígidos, e ele mancava enquanto pisava na estrada. Os homens falaram, e ele caminhou tão bem quanto ele pôde ao lado deles, usando sua lança para javalis como apoio. Haviam dois carroceiros [204]em cada carroça; e imediatamente, notando como ele ficava para trás e mal podia acompanhá-los, um deles pegou uma garrafa de madeira da carga em sua carroça e ofereceu-lhe um gole de cerveja.

Dessa maneira um pouco refrescado, Felix começou a falar, e aprendeu que as flechas eram do navio no trajeto do qual ele tinha navegado; que ele tinha sido enviado carregado com provisões para o uso do rei pelo seu amigo, o Princípe de Quinton; que muitos grandes esforços tinham sido feitos para reunir um grande exército nesta campanha: primeiro, porque a cidade assediada era tão perto de casa, e a falha poderia ser desastrosa, e segundo, porque ela era uma das três que eram inteiramente repúblicas, e era certo que as outras duas enviariam assistência. Essas cidades erguiam-se em uma planície, mas separadas por umas poucas milhas, e em uma linha reta sobre os bancos de areia do rio. O rei há pouco se estabeleceu diante da primeira, jurando que ele as derrubaria, uma após a outra, como uma fileira de pinos de madeira.

Em retorno, os carroceiros perguntarem-lhe de que retentor ele era, e ele disse que estava em seu caminho de obter serviço, e que ele ainda não estava sob nenhum estandarte.

Então,” disse o homem que tinha lhe dado uma bebida, “se está livre assim, você deveria juntar-se à conscrição do rei, mas seja cuidadoso para evitar a guerra dos barões. Pois se você juntar-se a qualquer guerra dos barões, eles saberão que você é um estrangeiro, e, muito provavelmente, se virem que você é rápido e ativo, eles não deixarão você livre novamente, e, se você tentar escapar após a campanha, você encontrará a si mesmo extremamente equivocado. O capitão do barão apenas [205]teria a dizer que você sempre foi homem deles; e quanto a sua palavra, ela não seria mais do que um latido de cachorro. Além do que, se você rebelou-se, seria apenas para raspar esse seu bigode e declarar você um escravo, e, como não tem amigos no acampamento, um escravo você seria.

Isso seria muito injusto,” disse Felix. “Certamente o rei não o permitiria?”

Como ele deve saber?” disse outro dos carroceiros. “O filho do meu irmão foi servido exatamente dessa maneira. Ele nasceu livre, o mesmo que toda a nossa família, mas ele foi encontrado errante e, quando alcançou Quinton, ele foi visto pelo Barão Robert, quem estava com falta de homens, e sendo um rapaz apto, eles rasparam o seu lábio, e forçaram ele a laborar sob a correira. Quando o espírito dele foi intimidado, e ele parecia reconciliado, eles deixaram ele crescer o bigode novamente, e agora ele está lá, um retentor, e bem tratado. Mas ainda assim, isso foi contra a vontade ele. Jack está certo; você deveria juntar-se à conscrição do rei.”

A conscrição do rei é composta por seus próprios retentores, pelos habitantes da cidade, quem não são retentores dos barões, por quaisquer cavaleiros e voluntários que querem oferecer seus serviços; e um rei sempre deseja uma conscrição tão grande quanto possível, porque ela lhe possibilita intimidar os seus barões. Esses, quando sua “guerra,” ou forças, são reunidas em um acampamento, são frequentemente problemáticos e inclinados a usurpar autoridade. Portanto, um voluntário sempre é bem-vindo à conscrição do rei.

Felix agradeceu-lhe pela informação que ele tinha dado [206]a ele, e disse que certamente ele deveria seguir o seu conselho. Ele agora dificilmente podia acompanhar as carroças, tendo caminhado por tantas horas e passado por tanto esforço prévio. Descobrindo esse ser o caso, ele desejou-lhes boa noite, e procurou em volta por algum abrigo. Era crepúsculo agora, e ele sabia que não poderia seguir adiante. Quando eles entenderam essa intenção dele, eles deliberaram entre si e, finalmente, fizeram ele subir em uma da carroças e sentar-se sobre os pacotes de flechas, os quais enchiam-nas como larvas. Dessa maneira, ele era sacudido junto, as rodas rudes apenas mal se ajustando no eixo, e frequentemente se afundando dentro de um sulco.

Agora eles estavam na floresta espessa, e o caminho era muito mais estreito, de maneira que ele tinha se tornado gasta em um buraco, como se fosse o leito seco de uma torrente. Os cavalos e os carroceiros estavam cansados, contudo, eles eram obrigados a seguir em frente, visto que as armas tinham de ser entregues antes de amanhã. Eles falavam pouco, exceto para incitar os animais. Felix logo caiu em uma posição reclinada (desconfortável como ela era, era um alívio), e, olhando para cima, viu as estrelas do verão acima. Após um tempo, ele perdeu a consciência e adormeceu profundamente, bastante exausto, a despeito do sacudido e rangido das rodas.

O som de uma trombeta despertou-o com um sobressalto. Por um momento, o seu sono pesado e sem sonhos tinha removido sua memória, e ele não sabia onde estava. Enquanto ele sentava-se, dois sacos caíram dele; os carroceiros tinham jogado-os sobre ele como uma proteção contra o orvalho da noite. A manhã de verão já estava tão brilhante quanto o meio-dia, [207]e o acampamento em torno dele estava agitado. Em um meio minuto, ele retornou a si mesmo e, saindo da carroça, olhou em volta. Todo o seu antigo interesse tinha retornado, o espírito de guerra entrado nele, a trombeta soou novamente, e a briza da manhã estendia os estandartes multicoloridos.

O ponto onde ele estava de pé ficava na retaguarda do acampamento principal, e a uma curta distância da floresta contínua. De cada lado, havia uma massa misturada de suprimentos, carroças e carroções amontoados, sacos e pilhas imensas de forragem, sobre e em volta dos quais vintenas de escravos, condutores e outros estavam dormindo em cada postura possível, muitos deles, evidentemente, ainda sob a influência da cerveja que eles beberam na noite anterior. O que lhe ocorreu imediatamente foi a ausência de qualquer guarda aqui na retaguarda. O inimigo poderia mover-se em segredo a partir da floresta atrás e se servir do que ele escolhesse, ou matar os homens adormecidos, ou, atravessandos as provisões, cair sobre o acampamento mesmo. Para Felix, essa negligência parecia inexplicável; ela indicava um estado mental que ele não podia compreender, um estado apenas descrito por negativos. Não havia integridade, nem sistema, nem organização; era um tipo de casualidade, completamente oposto às suas ideias claras e bem-ordenadas.

O solo inclinava-se gentilmente para baixo, a partir da borda da floresta, e o lugar onde ele tinha estado provavelmente tinha sido arado, mas agora estava pisado achatado e áspero. Perto diante das reservas, ele observou uma longa, baixa cabana construída de mastros e coberto com galhos de abetos; as paredes eram formadas de samambaias, palha, pacotes de feno, qualquer coisa que chegasse [208]à mão. Em um estandarte perto dela, uma bandeira com um padrão de um martelo trabalhado em ouro sobre ela flutuava ao vento. Vinte ou trinta, talvez mais, lanças inclinadas contra uma extremidade dessa rude cabana, suas pontas brilhantes projetando jardas acima do teto. À direita da tenda muitos cavalos estavam amarrados, e não muito longe deles, alguns soldados estava cozinhando em uma fogueira aberta de troncos. Conforme Felix vinha lentamente na direção da tenda, serpenteando para dentro e para fora entre as carroças e pilhas de sacolas, ele viu que instalações similares estendiam-se pela inclinação abaixo por uma longa distância.

Havia centenas delas, algumas grandes, algumas pequenas, não posicionadas em nenhuma ordem, mas montadas onde o acaso e a imaginação levava, os primeiros a chegar tomando os locais que lhes agradavam, e o resto aglomerando-se em torno. Perto de cada cabana erguia-se o estandarte do proprietário, e Felix sabia a partir disso que elas eram ocupadas pelos barões, cavaleiros e capitães do exército. Os retentorres de cada barão acampandos como eles podiam ao ar livre, alguns deles tinham peles de caçadores, e outros usavam feixes de palha para dormir sobre. A fogueira deles ficava tão próxima da cabana do senhor quanto conveniente e, dessa maneira, sempre havia bastante dentro de alcance.

Os servos, ou escravos, também dormiam ao ar livre, mas na retarguarda da tenda do proprietário e à parte dos retentores livres. Felix notou que, embora as cabanas fossem montadas de qualquer maneira e em qualquer lugar, aquelas no terreno mais baixo pareciam construídas ao longo de uma linha, e, olhando mais de perto, ele descobriu que um pequeno riacho corria ali. Posteriormente ele aprendeu que havia usualmente uma rivalidade dos [209]comandantes para estabelecerem os seus estandartes tão próximos da água quanto possível, por causa da conveniência, aqueles na retarguarda frequentemente tendo de conduzir os seus cavalos por uma longa distância até a água. Além do riacho, o terno erguia-se novamente tão gradualmente quanto ele tinha declinado. Ele era aberto e cultivado até as muralhas da cidade sitiada, a qual não estava a uma distância de três quartos de uma milha. Pelo momento, Felix não pôde distinguir o quartel-general do rei. A maneira confusa na qual as tendas estavam construídas impedia-o de enxergar longe, embora, a partir do terreno elevado, fosse fácil enxergar através dos tetos baixos.

Ele agora perambulou até o centro do acampamento, e viu com admiração grupos de retentores em todos os lugares, comendo, bebendo, conversando e até jogando cartas ou dados, mas nenhum único oficial de qualquer posição. Finalmente, parando perto das brazas de uma fogueira, ele perguntou timidamente se ele poderia ter café da manhã. Os soldados riram, e apontaram para uma carroça atrás deles, dizendo a ele para se servir. A corroça estava virada com a parte traseira na direção da fogueira, e carregada com pão e fatias de bacon, fatias que os retentores tinham estado torrando nas brazas.

Ele fez como foi ordenado, e, no minuto seguinte, um soldado, não bastante firme sobre as pernas mesmo àquela hora, ofereceu-lhe o recipiente, “pois,” disse ele,você deveria beber enquanto você pode, jovem. Há sempre plenitude de bebida e boa comida no começo de uma guerra, e, muito frequentemente, nem uma gota ou uma mordida a serem conseguidas no meio dela.Ouvindo as conversas enquanto eel comia o seu café da manhã, Felix descobriu que a razão de não haver nenhum oficial em volta era porque a maioria [210]deles tinham bebido livremente demais na noite anterior. O rei mesmo, diziam eles, tinha sido posto na cama tão apertado quanto um tambor, e não se precisou de nenhuma quantidade pequena para encher um recipiente tão imenso, pois ele era um homem notavelmente grande.

Depois da fatiga da recente marcha, eles tinham de fato refrescado a si mesmos, e lavado a poeira do caminho. Eles consideraram que esse assédio fosse provável de ser uma atividade muito difícil, e congratularam a si mesmo de que não estavam nem a trinta milhas de Aisi, de modo que, enquanto eles permanecessem naquele lugar, eles poderiam, talvez, obter suprimentos de provisões com regularidade tolerável. “Mas se você estivesse do outro da água, meu rapaz,” disse o velho companheiro com o jarro, palitando os dentes com um galho, “e tivesse de obter os seus mantimentos por barco; por Deus, você pode ter de comer grama, ou roer galhos como um cavalo.”

Nenhum desses homens usava nenhuma arma, exceto a inevitável faca; as armas deles estavam empilhadas contra a cabana adjacente, arcos e aljavas, lanças, espadas, podões de guerra e dardos, jogadas juntas conforme eles tinham deixado-as de lado, e mais ou menos enferrujadas do orvalho. Felix pensava que, tivesse o inimigo descido subitamente com força, ele poderia ter feito uma rápida limpeza do campo, pois não havia nenhuma defesa, nem parapeitos, nem fosso, nem qualquer guarda estabelecida. Mas ele esqueceu-se de que o inimigo era tão muito mal organizado quanto os sitiantes; provavelmente eles ainda estavam em uma confusão maior, pois o Rei Isembard era considerado um dos maiores comandantes militares de sua época, se não o maior.

O único sinal de disciplina que ele viu foi a arrumação cuidadosa de alguns cavalos, os quais, ele corretamente advinhou, serem [211]aqueles montados pelos cavaleiros, e o igualmente cuidadoso polimento de peças de armadura diante das portas das cabanas. Ele agora desejava perguntar sobre o seu caminho até a conscrição do rei, mas, enquanto a questão subia até os lábios dele, ele reprimiu-se, lembrando-se do aviso que os carroceiros amigáveis tinham dado a ele. Portanto, ele determinou-se a caminhar de um ponto a outro do campo até que ele encontrasse alguma evidência de que ele estava na vizinhança imediata do rei.

Ele ergueu-se, permaneceu de pé por um tempo para aliviar qualquer possível suspeita (precauções bastante desnecessárias, pois os soldados estavam engajados muito agradavelmente para prestarem a menor atenção nele), e, em seguida, saiu passeando com um ar tão descuidado quanto ele podia assumir. Olhando em torno de si, primeiro para uma forja onde um ferreiro estava colocando ferradura um cavalo, em seguida, em uma pedra de amolar, onde a espada de um cavaleiro estava sendo afiada, ele quase foi derrubado por um cavalo, impelidos com alguma velocidade através das multidões. Por uma corda a partir do colar, três corpos mortos eram arrastados ao longo do terreno, empoeirados e desfigurados pela colisão contra pedra e terra. Eles eram daqueles escravos enforcados no dia anterior, talvez por furto, talvez por um mero capricho, uma vez que cada barão tinha poder da forca.

Eles foram arrastados através do acampamento, e para fora, por umas poucas jardas além, e lá deixados para os corvos. Essa terrível visão, à qual o resto estava tão acostumado e tão indiferente que eles nem mesmo se viraram para olhar para ela, chocou-o profundamente; as características arrastadas e distorcidas, as línguas projetando-se e literalmente lambendo a poeira, assombraram-no por muito tempo depois. Embora o pai dele, como um barão, [212]possuísse o mesmo poder, ele nunca o tinha exercido durante o seu domínio da propriedade territorial, de modo que Felix não tinha sido endurecido pela visão de execuções, suficientemente comuns em outros lugares. Na propriedade da Velha Casa uma espécie de humanidade negativa reinava; se os escravos não eram emancipados, eles não eram enforcados ou cruelmente espancados por ninharias.

Apressando-se a partir do lugar, Felix deparou-se com a artilharia, a qual consistia em aríetes e bestas imensas, as bestas eram construídas a partir de árvores inteiras, ou, mais apropriadamente, postes. Ele inspecionou essas invenções desajeitadas com interesse, e entrou em conversação com alguns homens que estavam ajustando a estrutura sobre a qual o aríete devia oscilar. Sendo extremamente pretensiosos consigo mesmos e com o conhecimento que eles tinham adquirido apenas a partir da experiência (como os golpes repetidos do bloco conduziam para a posição a estaca), eles escassamente o responderam. Mas logo, conforme ele emprestou uma mão para ajudar, e suportou a grosseria deles sem responder, eles amoleceram e, como usual, ofereceram-lhe bebida; por aqui, e do começo ao fim do acampamento, a cerveja era abundante, abundante demais para muito progresso.

Felix aproveitou a oportunidade e sugeriu uma nova forma de gatilho para as bestas de manejo difícil. Ele viu que, como no presente descarregá-la deve requerer alguma força, talvez o esforço unido de vários homens para puxar a seta ou o trinco. Um semelhante esforço deve estragar a mira; essas bestas eram trabalhadas sobre um transporte, e era difícil manter o transporte firme mesmo quando estacas eram inseridas perto das rodas baixas. Ocorreu-lhe imediatamente [213]que o trinco poderia ser deprimido por uma alavanca, de maneira que um homem poderia descarregar o arco por uma mera pressão da mão, e sem interferir com a mira. Os homens logo o entenderam, e reconheceram que essa seria uma grande melhorai. Um, quem era o líder do grupo, considerou-a uma ideia tão valiosa que ele imediatamente saiu para se comunicar com o tenente, quem, por sua vez, levou o assunto ao Barão Ingulph, Mestre da Artilharia.

Os outros congratularam-no, e pediram para partilharem da recompensa que seria dada a ele pela sua invenção. À “guerra” de quem ele pertencia? Felix respondeu, após um pouco de hesitação, à conscrição do rei. Diante disso, eles sussuram entre eles mesmos, e Felix, novamente se lembrando do aviso dos carreteiros, disse que ele precisava auxiliar a reunião (isso foi um palpite puro), mas que depois ele retornaria diretamente. Nunca suspeitando de que ele evitaria a recompensa que eles consideravam como certa, eles não fizeram oposição, e ele apressou-se para longe. Impulsionando-se através dos grupos, e não sabendo no mínimo para onde ele estava indo, Felix finalmente topou com o alojamento do rei.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.203-213. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/203/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

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Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XVI A Cidade

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[194]Descendo lentamente na direção da cidade, Felix procurou em vão por quaisquer meios para cruzar o canal ou a angra, os quais se estendiam do lado deste dela, e nos quais ele contou vinte e duas embarcações mercantis ancoradas, ou atracadas ao banco de areia, além de um número de barcos menores e botes. O navio de guerra, o qual tinha chegado antes dele, estava aterrissado [195]perto de um portão da cidade, o qual se abria para a angra ou o porto, e a tripulação dele estava ocupada descarregando suas reservas. Enquanto ele caminhava perto da angra, tentando chamar a atenção de algum de barqueiro para o atravessar, ele ficou impressionado com o silêncio, pois, embora a muralha da cidade não estivesse a muito mais do que uma pedrada de distância, não havia nada do zumbido usual que surge a partir dos movimentos das pessoas. Olhando de mais perto, ele também observou poucas pessoas nos navios mercantes, e nenhum bando trabalhando para carregar ou descarregar. Exceto pela sentinela espreitando para lá e para cá sobre a muralha, e a tripulação no navio de guerra, não havia ninguém vísivel. Enquanto a sentinela passava para lá e para cá, a lâmina de sua partasana bilhava à luz do sol. Ele deve ter visto Felix, mas, com indiferença militar, ele não prestou a mais leve atenção aos esforços do último para atrair a sua atenção.

Ele agora passou pelo navio de guerra, e gritou para os homens trabalhando, quem estavam, ele pôde ver, carregando feixes de flechas e pacotes de dardos do navio e colocando-os nas carroças; mas eles não se incomodaram em responder. As suas vestes comuns e aparência ordinária não inspiraram neles nenhuma esperança de pagamento a partir dele se eles o favorecessem com um bote. A indiferença completa com a qual a sua aproximação foi vista revelou a ele o desprezo com o qual ele era considerado.

Olhando em volta para ver se não havia nenhuma ponte ou balsa, ele notou a vista da cinzenta torre de igreja, a qual ele tinha observado de longe enquanto navegava. Ela ficava a bem uma milha da cidade e isolada do lado de fora das muralhas. Ela erguia-se [196]sobre a encosta da colina, sobre o pico da qual a torre era vísivel. Ele perambulou na direção dela, visto que ali, usualmente, haviam pessoas dentro ou em torno das igrejas, as quais sempre estavam abertas dia e noite. Se mais ninguém, o porteiro no pavilhão à porta da igreja estaria lá, pois ele ou o seu representante nunca a abandonavam, sempre estando de vigília com medo de que algum ladrão tentasse entrar no tesouro, ou roubar os vassos sagrados.

Mas, enquanto subia a colina, ele encontrou-se com um pastor, os cães do qual se prepararam para voar sobre ele, reconhecendo um estranho. Por um momento, o homem pareceu inclinado a permitir-lhes saciar a sua vontade, mas, vendo Felix baixar sua lança, provavelmente lhe ocorreu que alguns de seus cães seriam mortos. Portanto, ele ordenou-lhes pararem e permanecerem, para escutar. Felix aprendeu que não havia ponte através da angra, e apenas uma através do rio; mas havia uma balsa para qualquer um que fosse conhecido. A nenhum estranho era permitido a atravessar na balsa; ele tem de entrar pela estrada principal através da ponte.

Mas como eu entro naquele lugar, então?” disse Felix. O pastor sacudiu a cabeça, disse que ele não poderia dizer a ele e foi embora para cuidar dos seus negócios.

Desencorajado diante dessas vexações insignificantes, as quais pareciam cruzar o seu caminho a cada passo, Felix encontrou o seu caminho para a balsa, mas, como o pastor tinha tido, o barqueiro recusou-se a transportá-lo, sendo um estranho. Persuasão nenhuma conseguiu movê-lo; nem a oferta de uma pequena moeda de prata, no valor de aproximadamente dez vezes a sua passagem.

[197]“Então eu devo nadar para o outro lado,” disse Felix, preparando-se para tirar suas roupas.

Nade, se você desejar,” disse o barqueiro, com um sorriso sombrio; “mas você nunca chegará à terra.”

Por que não?”

Porque o sentinela disparará uma flecha em você.”

Felix olhou e viu que ele estava oposto ao ângulo extremo da muralha da cidade, um ponto usualmente guardado com cuidado. Havia uma sentinela espreitando para lá e para cá; ele carregava uma partasana, mas, é claro, poderia ter seu arco ao alcance, ou, provavelmente, poderia convocar os soldados da guarda.

Isso é irritante,” disse Felix, pronto para desistir de seu empreendimento. “Como eu alguma vez posso entrar na cidade?”

O velho barqueiro sorriu ironicamente, mas não disse nada, e retornou a uma rede que ele estava consertando. Ele não produziu nenhuma resposta para as questões adicionais que Felix colocou para ele. Em seguida, Felix gritou para a sentinela; o soldado olhou uma vez, mas não prestou mais atenção. Ele ficou profundamente desencorajado. Essas repulsas, ninharias em si mesmas, assumiam uma importância porque a sua mente há muito estava amarrada a um tom alto de tensão. Um homem impassível não teria pensando nada delas. Após um tempo, ele ergueu-se, novamente perguntando a si mesmo como ele deveria se tornar um líder, quem não tinha a perseverença para entrar em uma cidade em uma aparência pacífica?

Não sabendo mais o que fazer, ele seguiu a angra em volta do pé da colina, e assim por diante, por uma milha ou mais. Esse banco de areia era íngreme, por causa do baixo; [198]o outro, cultivado, o milho já estando alto. O cuco cantava (ele ama a redondeza próxima do homem) e voava através do canal na direção de um pequeno grupo de árvores. Quase subitamente, a angra girava em torno, sob um baixo penhasco de gesso, e, em um momento, Felix encontrou a si mesmo confrontado por outra cidade. Essa não tinha muralha; era defendida meramente por um vala e um aterro, sem torre ou bastião.

As casas estavam posicionadas densamente juntas; havia, ele pensava, seis ou sete vezes mais do que ele anteriormente tinha visto, e elas eram cobertas com palha ou com telhas, como aquelas na sua própria região. Ela levantava-se no meio dos campos, e o milho vinha até o fosso; havia muitas pessoas trabalhando, mas, como ele percebia, a maioria delas era de homens velhos, encurvados e fracos. Um pouco mais além, ele viu um segundo ancoradouro de botes no rio; ele apressou-se para lá, e a barqueira, pois o bote era empurrado de lado a lado por uma dama robusta, não criou a menoa dificuldade para o atravessar de barco. Tão encantado ele ficou diante dessa fortuna inesperada que ele deu a ela a pequena moeda de prata, à vista da qual ele instantaneamente cresceu em estima para ela.

Ela explicou a ele, em resposta aos seus inquéritos, que esta também era chamada de Aisi; esta era a cidade do povo comum. Aqueles que eram ricos ou poderosos tinham casas na cidade murada, nos arredores da Corte. Muitas das casas lá, também, eram estalagens das grandes famílias que habitavam no interior, em seus castelos, mas quando elas vinham à Corte requeriam uma casa. Os seus escudos, ou brasões, estavam pintados sobre as portas. A cidade murada era guardada com cuidado tão grande porque muitas tentativas tinham [199]sido realizadas para a surpreender, e para assassinar o rei, a disposição impetuosa e as guerras constantes de quem lhe criaram tantos inimigos. Muito cuidado era tomado para evitar um único estranho de entrar, como se ele fosse a vanguarda de um exército hóstil, e se agora ele retornasse (como ele poderia fazer) à ponte sobre o rio, ele seria parado e questionado e, possivelmente, confinado em um prisão até que o rei retornasse.

Onde está o rei?” perguntou Felix; “Eu vim para fazer uma tentativa e servi-lo.”

Então você será bem-vindo,” disse a mulher. “Ele está no acampamento, e há pouco se sentou diante de Iwis.”

Era por isso que a cidade murada parecia tão vazia, então,” disse Felix.

Sim; todo o povo está com ele; haverá uma grande batalha desta vez.

A que distância fica Iwis?” disse Felix.

Vinte e sete milhas,” respondeu a dama; “e se você aceitar o meu conselho, você deveria caminhar as vinte e sete milhas até lá do que duas milhas de volta até a ponte sobre o rio.”

Alguém chamou do banco de areia oposto, e ela partiu para pegar outro passageiro.

Muito obrigado,” disse Felix, enquanto ele desejava a ela bom dia; “mas, por que o homem na outra não disse que eu podia atravessar aqui?”

A mulher riu imediatamente. “Você supõe que ele colocaria um penny em meu caminho que ele mesmo não pôde conseguir?”

[200]Tão malvado e mesquinho é o mundo! Felix entrou na segunda cidade e caminhou alguma distância através dela, quando ele se lembrou que não tinha comido nada por algum tempo. Ele procurou em vão por uma estalagem, mas, ao falar com um homem que estava se inclinando sobre sua muleta em uma porta, imediatemente foi dito a ele para entrar, e tudo o que a casa dispunha foi colocado diante dele. O homem com a muleta sentou-se em frente e observou que a maioria do povo tinha ido para o acampamento, mas ele não pôde pois o pé dele fora machucado. Em seguida, ele prosseguiu para contar como tinha acontecido, com a usual garrulice do ferido. Ele estava ajudando a colocar a viga de um aríete sobre uma vagoneta (requereram-se dez cavalos para a arrastar) quando uma alavanca estalou e a viga caiu. Tivesse a viga tocado-o, ele teria morrido no lugar; como foi, apenas uma parte da alavanca ou pólo quebrado atingiu-lhe. Arremessado com tal força, o peso do aríete movendo-o, o fragmento do pólo arranhou a perna dele, e ou quebrou um dos pequenos ossos que formam o arco do peito do pé, ou assim o machucou de modo que era pior do que quebrado. Todos os ajustadores de ossos e cirurgiões tinham ido para o acampamento, e ele foi deixado sem assistência, exceto as das mulheres, quem banhavam o pé com loções diariamente, mas ele tinha pouca esperança de recuperação presente, sabendo que tais coisas eram de aproximadamente meses.

Ele pensou que foi sorte não ter sido pior, pois muitos poucos, ele tinha observado, alguma vez se recuperam de ferimentos sérios de lança ou flecha. O ferido geralmente morria; apenas o afortunado escapava. Dessa maneira, ele prosseguia, falando tanto para o seu próprio entretenimento quanto o de seu convidado. [200]Ele afligia-se porque ele não pôde se juntar ao acampamento e ajudar a operar a artilharia; ele supunha que o aríete estaria em posição por agora, e sacudindo a muralha com o seu golpe. Ele ponderava se o Barão Ingulph sentiria falta do rosto dele.

Quem é ele?” perguntou Felix.

Ele é o capitão da artilharia,” respondeu o seu anfitrião.

Você é o retentor dele?”

Não; eu sou um servo.”

Imediatamente, Felix moveu-se um pouco, e apenas controlou a si mesmo para não se levantar da mesa. Um “servo” era um escravo; isso era um eufemismo usado em vez da palavra odiosa, a qual nem mesmo o mais degradado pode suportar ouvir. A classe dos nobres à qual ele pertencia considerava uma desgraça sentar-se com um escravo, comer com ele, mesmo acidentalmente tocar nele. Com os retentores, ou homens livres, eles estavam em termos familiares, embora despóticos ao maior grau; o escravo era menos do que o cão. Então, dando uma olhada sorrateira no rosto do homem, Felix viu que ele não tinha bigode; ele não tinha notado isso antes. A nenhum escravo era permitido usar o bigode.

Esse homem, tendo estado doente em casa alguns dias, tinha negligenciado se barbear, e havia alguma marca no seu lábio superior. Conforme ele notava o olhar do seu anfitrião, o escravo pendeu a cabeça, e pediu ao seu convidado, em uma voz baixa e humilde, para não mencionar essa falta. Com o rosto levemente ruborizado, Felix terminou a sua refeição; ele ficou confuso ao último grau. O seu longo treinamento e o espírito da sociedade na qual ele se movia (embora um membro tão desprezado dela) imbuiam-no tão fortemente de preconceito com o homem cuja [202]hospitalidade era tão bem-vinda. Por outro lado, as ideias que por tanto tempo laboraram em sua mente, em suas conversações solitárias na floresta, eram inteiramente opostas à servidão. No princípio abstrato, há muito, ele a tinha condenada, e desejava aboli-la. Mas aqui estava o fato.

Ele tinha comido à mesa do escravo, e sentado-se com ele face a face. Estranhamente, teoria e prática estão frequentemente em desacordo. Ele sentiu isso como um importante momento; ele sentiu que ele mesmo, por assim dizer, estava em equilíbrio; deveria ele aderir ao seu antigo prejuízo, à antiga exclusividade da sua classe, ou, ousadamente, ele deveria seguir o ditado da sua mente? Ele escolheu a segunda opção, e estendeu a mão para o servo enquanto ele levantava-se para dizer adeus. O ato foi significante; ele conheceu o homem como de casta distinta. O servo não soube do conflito que tinha ocorrido; mas apertar a mão, de qualquer maneira, mesmo de um retentor, como ele supunha que Felix era, foi, de fato, uma surpresa. Ele não conseguiu entender; era a primeira vez que a mão dele tinha sido apertada por qualquer um de posição superior desde que ele tinha nascido. Ele ficou mudo de admiração, e mal pôde indicar a estrada quando perguntado; nem ele aceitou a pequena moeda que Felix ofereceu, uma das poucas que ele possuia. Portanto, Felix deixou-a sobre a mesa e novamente partiu.

Atravessando a cidade, Felix seguiu o caminho que conduzia na direção indicada. Em aproximadamente uma milha, ela conduziu-o a um caminho mais amplo, o qual ele imediatamente reconheceu como o caminho e a estrada principal para o acampamento pelos [203]sulcos e pela poeira, pois o relvado tinha sido pisado por uma largura de cinquenta jardas, e mesmo o milho foi cortado por rodas e cascos de cavalos. O exército tinha passado, e ele apenas tinha de seguir a trilha inconfundível.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.194-203. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/194/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XIV O Doutor Moreau explica

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[127]“E agora, Prendick, eu explicarei,” disse o doutor Moreau, tão logo nós tenhamos comido e bebido. “Eu tenho de confessar que você é o convidado mais ditatorial que eu alguma vez acolhi. Eu aviso a você que isso é a última coisa que eu deverei fazer para favorecer você. A próxima coisa sobre a qual você ameaçar cometer suicídio, eu não deverei o fazer, - mesmo diante de alguma inconveniência pessoal.

Ele sentou-se em minha espreguiçadeira, um cigarro meio consumido em seus dedos brancos de aparência habilidosa. A luz da lâmpada oscilando caiu sobre o cabelo branco dele; ele encarou fixamente, através da pequena janela, para a luz das estrelas. Eu sentei-me tão longe dele quanto possível, a mesa entre nós e os revólveres à mão. Montgomery não estava presente. Eu não me importava de estar com dois deles em um quarto tão pequeno.

Você admite que o ser humano vivissectado, como você o chama, afinal, é apenas o puma?” [128]Disse Moreau. Ele tinha feito eu visitar aquele horror na sala interior, para assegurar a mim mesmo de sua desumanidade.

É o puma,” eu disse, “ainda vivo, mas tão cortado e mutilado que eu oro para que eu nunca veja carne viva novamente. De todas as coisas vis -”

Esqueça-se disso,” disse Moreau; “pelo menos, poupe-me desses horrores juvenis. Montgomery costumava ser exatamente da mesma maneira. Você admite que é o puma. Agora fique quieto, enquanto eu desenrolo minha preleção fisiológica para você.”

E sem demora, começando no tom de um homem supremamente entediado, mas logo se aquecendo um pouco, ele explicou o trabalho dele para mim. Ele era muito simples e convincente. De vez em quando havia um toque de sarcasmo na voz dele. Logo eu descobri a mim mesmo ardido de vergonha diante de nossas posições mútuas.

As criaturas que eu tinha visto não foram homens, nunca tinham sido homens. Elas eram animais, animais humanizados, triunfos de vivissecção.

Você esqueceu-se de tudo que um vivissecionista habilidoso pode fazer com coisas vivas.” disse Moreau. “Por minha própria parte, eu estou perplexo porque as coisas que eu fiz aqui nunca tinham sido feitas antes. [129]É claro, pequenos esforços foram feitos, - amputações, corte de língua, excisões. É claro, você sabe que um estrabismo pode ser induzido ou curado por cirurgia? Então, no caso de excisões, você tem todos os tipos de mudanças secundárias, distúrbios pigmentários, modificações das paixões, alterações na secreção do tecido adiposo. Eu não tenho dúvida de que você ouviu dessas coisas?

É claro,” disse eu. “Mas essas suas criaturas imundas -”

Tudo no momento correto,” disse ele, acenando com a mão para mim; “eu estou apenas começando. Aqueles são casos triviais de alteração. Cirurgia pode fazer coisas melhores do que isso. Há tanto construção quanto demolição e mudança. Talvez você tenha ouvido sobre uma operação cirúrgica à qual se recorria em casos onde o nariz foi destruído: uma aba de pele é cortada da testa, dobrada sobre o nariz e cura-se na nova posição. Isso é um tipo de enxerto em uma nova posição de parte de um animal sobre si mesmo. Enxerto de material recentemente obtido também é possível, - o caso dos dentes, por exemplo. O enxerto de pele e osso é feito para facilitar a cura: o [130]cirurgião coloca no meio do ferimento parte de pele cortadas de outro animal, ou fragmentos de osso de uma vítima recentemente morta. A espora de galo do caçador – possivelmente você ouviu sobre isso – floresceu no pescoço do touro; e o rato rinoceronte dos zuavos argelinos também devem ser considerados, - monstros manufaturados pela transferência de um enxerto da cauda de um rato ordinário para o seu focinho, e permitindo-o curar-se nessa posição.”

Monstros manufaturados!” Eu disse. “Então você quer dizer para mim -”

Sim. Essas criaturas que você viu são animais esculpidos e trabalhados em novas formas. A isso, ao estudo da plasticidade das formas vivas, a minha vida tem sido dedicada. Eu tenho estudado por anos, ganhando em conhecimento conforme eu avanço. Eu vejo que você parece horrorizado e, contudo, eu não estou dizendo a você nada de novo. Tudo se assenta na superfície da anatomia prática há anos, mas ninguém teve a audácia de o tocar. Não é simplesmente a forma externa de um animal que eu posso mudar. A fisiologia, o ritmo químico da criatura, pode ser feita passar por uma modificação permanente, - da qual a vacinação e outros métodos de inoculação com a matéria viva ou morta são [131]exemplos que, sem dúvida, serão familiares a você. Uma operação similar é a transfusão de sangue, - assunto com o qual, de fato, eu comecei. Todos esses são casos familiares. Menos assim, e provavelmente muito mais extenso, eram as operações daqueles praticantes medievais, quem criavam anões, mendigos aleijados, monstros de exibição, - alguns vestígios dos quais a arte ainda permanece na manipulação preliminar dos jovem charlatão ou contorcionista. Vitor Hugo fornece um relato deles em ‘L’Homme qui Rit.’ - Mas talvez a minha intenção torne-se evidente agora. Você começa a perceber que é uma coisa possível transplantar tecido de uma parte de um animal para outra, ou a partir de um animal para outro; alterar suas reações químicas e métodos de crescimento; modificar as articulações dos seus membros; e, de fato, mudá-lo em sua estrutura mais íntima.”

E contudo, esse ramo extraordinário do conhecimento nunca foi procurado como um fim, e sistematicamente, por investigadores modernos até que eu o assumi! Algumas dessas coisas têm sido descobertas no último recurso da cirurgia; a maior parte da evidência aparentada que ocorrerá em sua mente foi demonstrada, por assim dizer, por acidente, - por [132]tiranos, por criminosos, por criadores de cães e de cavalos, por todos os tipos de destreinados homens de mãos desajeitadas trabalhando para os seus próprios fins imediatos. Eu fui o primeiro homem a assumir essa questão armado com cirúrgia antisséptica e com um conhecimento realmente científico das leis de crescimento. Contudo, alguém imaginaria que isso foi praticado em segredo antes. Criaturas tais como os Gêmeos Siameses – e nos porões da Inquisição. Sem dúvida, o objetivo principal deles foi a tortura artística, mas alguns dos inquisidores, pelo menos, têm de ter tido um toque de curiosidade científica.”

Mas,” eu disse, “essas coisas – esses animais falam!

Ele disse que era assim, e prosseguiu para ressaltar que a possibilidade de vivissecção não para na mera metamorfose física. ‘Um porco pode ser educado. A estrutura mental é ainda menos deteminada do que a corporal. Na ciência crescente do hipnotismo, nós descobrimos a premissa de uma possibilidade de suplantar antigos instintos herdados através de novas sugestões, enxertando sobre ou substituindo as ideias fixas herdadas. De fato, muito do que nós chamamos de educação moral,’ ele disse, ‘é uma modificação tão artificial e pervesão do [133]instinto; a combatividade é treinada em autossacrifício corajoso, e a sexualidade suprimida em emoção religiosa. E a grande diferença entre homem e macaco está na laringe,’ ele continuou, - ‘na incapacidade de construir símbolos sonoros delicamente diferentes pelos quais o pensamento poderia ser sustentado.’ Nisso eu falhei em concordar com ele, mas, com uma certa incivilidade, ele declinou de notar a minha objeção. Ele repetiu que a coisa era assim, e continuou com sua explicação do seu trabalho.

Eu perguntei a ele porque ele tinha tomado a forma humana como um modelo. Isso pareceu para mim à época, e ainda parece para mim agora, uma estranha pervesidade para essa escolha.

Ele confessou que tinha escolhido aquela forma por acaso.Eu poderia exatamente tão bem ter trabalhado para formar ovelhas em lhamas e lhamas em ovelhas. Eu suponho que haja alguma coisa na forma humana que apele à modificação artística mais poderosamente do que qualquer forma animal pode. Mas eu não me confinei à produção de homens. Uma ou duas vezes -” Ele ficou silente, por um minuto, talvez. “Esses anos! Como eles se escoaram! E aqui eu desperdicei um dia salvando a sua vida, [134]e agora desperdiçando uma hora explicando-me!”

Mas,” disse eu, “Eu ainda não entendo. Onde está a sua justificação para inflingir toda essa dor? A única coisa que poderia desculpar para mim a vivissecção seria alguma aplicação -

Precisamente,” disse ele. “Mas, veja você, eu sou diferentemente constituído. Nós estamos sobre princípios diferenes. Você é um materialista.”

Eu não sou um materialista,” eu comecei intensamente.

Em minha visão – em minha visão. Pois, é apenas a questão da dor que nos separa. Enquanto a dor visível ou audível deixar você doente; enquanto as suas próprias dores conduzirem você; enquanto a dor subjazer às suas proposições sobre pecado, - enquanto assim for, eu digo a você, você será um animal, pensando um pouco menos obscuramente o que um animal sente. Essa dor -”

Eu dei de ombros impacientemente diante de um sofisma tão grande.

Oh, mas ela é uma coisa tão pequena! Uma mente verdadeiramente aberta para o que a ciência tem a ensinar deve perceber que ela é uma coisa pequena. Pode ser que, exceto neste pequeno planeta, nesta partícula de poeira cósmica, invisível muito antes que a estrela mais próxima pudesse ser alcançada, - pode ser, eu digo, que em nenhum outro lugar [135]essa coisa chamada de dor ocorra. Mas as leis com respeito às quais nós sentimos o nosso caminho – Por que, mesmo nesta terra, mesmo entre coisas vivas, que dor existe?”

Enquanto ele falava ele sacou um pequeno canivete do bolso, abriu a lâmina menor, e moveu a cadeira dele de modo que eu pudesse ver a coxa dele. Em seguida, escolhendo o lugar deliberadamente ele enfiou a lâmina em sua perna e removeu-a.

Sem dúvida,” ele disse, “você viu isso antes. Uma picada de alfinete não machuca. Mas o que isso revela? A capacidade para dor não é necessária no músculo, e ela não está colocada ali, - é apenas um pouco necessária na pele, e apenas aqui e ali através da pele é um ponto capaz de sentir dor. A dor é simplesmente o nosso intrínseco conselheiro médico, para nos avisar e estimular-nos. Nem toda carne viva é dolorosa; nem é todo nervo, nem mesmo todo nervo sensorial. Não há tom de dor, dor real, nas sensações do nervo ótico. Se você machucar o nervo ótico, você meramente vê flashes de luz, - exatamente como a doença do nervo auditivo meramente significa um zumbido em nossos ouvidos. As plantas não sentem dor, nem os animais inferiores; é possível que tais animais [136]como a estrela-do-mar e a lagosta absolutamente não sintam dor. Então com homens, quanto mais inteligentes eles tornam-se, mais inteligentemente eles procurarão o seu próprio bem estar, e menos eles necessitará de aguilhoada para os manter fora de perigo. Eu nunca ouvi sobre uma coisa inútil que não fosse excluída da existência pela evolução, mais cedo ou mais tarde. Você ouviu? E a dor torna-se desnecessária.

Então, eu sou um homem religioso, Prendick, como todo homem são precisa ser. Pode ser, eu imagino, que eu tenha visto mais dos caminhos do Criador desse mundo do que você, - pois eu busquei as leis dele, da minha maneira, toda a minha vida, enquanto você, eu entendo, tem estado coletando borboletas. E eu digo a você, prazer e dor não têm nada a ver com paraíso ou inferno. Prazer e dor – bah! O que é o êxtase do seu teólogo senão a houri de Maomé no escuro? Essa provisão na qual homens e mulheres colocam o prazer e a dor, Prendick, é a marca da besta sobre eles, - a marca da besta a partir da qual eles surgiram! Dor, dor e prazer, eles apenas são para nós enquanto nós nos contorcemos no poeira.

Veja você, eu segui com essa pesquisa exatamente [137]da maneira que ela me conduziu. Essa é a única maneira que eu alguma vez ouvi falar de verdadeira pesquisa avançando. Eu fiz uma pergunta, concebi algum método de obter uma resposta, e obtive uma nova questão. Era isto ou aquilo possível? Você não pode imaginar o que isso significa para um investigador, que paixão intelectual cresce sobre ele! Você não pode imaginar o deleite estranho, incolor, desses desejos intelectuais! A coisa diante de você não é mais um animal, uma criatura companheira, mas um problema! Dor simpática, - tudo o que eu conheço disso eu lembro como uma coisa da qual eu costumava sofrer há alguns anos. Eu desejava – era a única coisa que eu desejava – encontrar o limite extremo da plasticidade em uma forma viva.”

Mas,” eu disse, “a coisa é uma abominação -”

Até hoje eu nunca fui incomodado sobre a ética da questão,” ele continuou. “O estudo da Natureza torna um homem, pelo menos, tão sem remorso quando a própria Natureza. Eu prossegui, não prestando atenção a nada exceto a questão que eu estava perseguindo; e o material – pingou dentro das cabanas acolá. São realmente onze anos desde que nós chegamos aqui, eu e Montgomery e seis canacas. Eu lembro da [138]quietude verde da ilha e do oceano vazio à nossa volta como se fosse ontem. O lugar parecia esperar por mim.”

As provisões foram desembarcadas e a casa foi construída. Os canacas fundaram algumas cabanas próximas da ravina. Eu prossegui para trabalhar sobre o que eu tinha trazido comigo. Inicialmente, houve algumas coisas desagradáveis que aconteceram. Eu comecei com uma ovelha, e matei-a após um dia e meio com um deslize do bistúri. Eu pequei outra ovelha, e fiz uma coisa de dor e medo e deixa-a amarrada para se curar. Ela parecia bastante humana para mim quando eu tinha terminado-a; mas, quando eu caminhei até ela, eu fiquei descontente com ela. Ela lembrava-se de mim; e ficou aterrorizada além da imaginação; e não tinha mais do que a inteligência de uma ovelha. Quanto mais eu olhava para ela, mas desajeitada ela parecia, até que, por fim, eu tirei o monstro de sua miséria. Esses animais sem coragem, essas coisas assombradas pelo medo, comandadas pela dor, sem uma centelha de energia pugnaz para encarar o tormento, - elas não são boas para a criação de homens.

Em seguida, eu peguei um gorila que eu tinha; e sobre isso, trabalhando com cuidado infinito e dominando dificuldade após dificuldade, eu criei meu primeiro homem. Toda [139]semana, toda noite e todo dia, eu moldava-o. Com ele, era principalmente o cérebro que necessitava de modelagem; muito teve de ser adicionado, muito mudado. Eu considerei-o um belo espécime do tipo negróide quando eu tinha o concluído, e ele permaneceu em bandagens, amarrado e sem movimento diante de mim. Foi apenas quando a vida dele estava assegurada que eu o deixei e entrei no quarto dele novamente, e encontrei Montgomery muito como você está. Ele tinha ouvido alguns dos gritos conforme a criatura se tornava humana, - gritos como aqueles que perturbam você assim. Inicialmente, eu não confiei nele completamente. E os canacas também tinham compreendido alguma coisa disso. Eles ficaram assustados à irracionalidade pela visão de mim. Eu recuperei Montgomery para mim – de uma forma; mas eu e ele tivemos o trabalho mas difícil para evitar que os canacas desertassem. Finalmente, eles o fizeram; e, dessa maneira, nós perdemos o iate. Eu despendi muitos dias educando o bruto, completamente, eu o tive por três ou quatro meses; eu ensinei-lhe os rudimentos do inglês; dei-lhe ideias de contagem; até fiz a coisa ler o alfabeto. Mas nisso ele foi lento, embora eu tenha me encontrado com idiotas mais lentos. Mentalmente, ele começou com uma folha em branco; não tinha memórias deixadas em sua mente do [140]que ele tinha sido. Quando as cicatrizes dele estavam bastante curadas, e ele não era mais alguma coisa exceto dolorido e rígido, e capaz de conversar um pouco, eu levei-o acolá e apresentei-o aos canacas como um clandestino interessante.”

Inicialmente, eles ficaram horrivelmente assustados com ele, de alguma maneira, - o que me ofendeu bastante, pois eu estava vaidoso sobre ele; mas as maneiras dele pareciam tão suaves, ele era tão abjeto, que, após um tempo, eles receberem-no e tomaram a educação dele em mãos. Ele foi rápido para aprender, muito imitativo e adaptativo, e construiu para si mesmo uma cabana bastante melhor, pareceu-me, do que os seus próprios barracos. Havia entre os rapazes um pouco de missionários, e eles ensinaram a coisa a ler, ou, pelo menos, a selecionar letras, e concederam-lhe algumas ideias rudimentares de moralidade; mas parece que os hábitos da besta não eram tudo que é desejável.

Depois disso, eu descansei por alguns dias, e fiquei com um ânimo de escrever um relato do assunto todo para despertar a fisiologia inglesa. Então, eu deparei-me com a criatura agachando-se em uma árvore e falando sem sentido para dois canacas quem a tinham estado provocando. Eu ameacei-a, contei [141]a ela sobre a inumanidade de um semelhante procedimento, excitei o sentido dela de vergonha e voltei à casa, resolvido a fazer melhor antes que eu levasse o meu trabalho de volta para a Inglaterra. Eu estive fazendo melhor. Mas, de alguma maneira, as coisas deslizam para trás: a teimosa carne da besta cresce de volta dia após dia novamente. Mas eu ainda pretendo fazer as coisas melhores. Eu pretendo vencer isso. Esse puma -

Mas essa é a história. Todos os rapazes canacas estão mortos agora; um caiu ao mar a partir da lancha, e um morreu de um calcanhar machucado que ele envenenou de alguma maneira com suco de planta. Três sumiram no iate, e eu suponho, e espero, que estejam afogados. O outro – foi morto. Bem, eu substitui-os. Montgomery continuou muito como você está disposto a fazê-lo, inicialmente, e então -”

O que aconteceu com o outro?” disse eu bruscamente, - “o outro canaca que foi morto?”

O fato é, após eu ter criado um número de criaturas eu criei uma Coisa.” Ele hesitou.

Sim,” eu disse.

Foi morto.”

[142]“Eu não entendo,” eu disse; “você quer dizer-”

A Coisa matou os canacas – sim. Ela matou várias outras coisas que capturou. Nós a perseguimos por alguns dias. Ela apenas escapou por acidente – eu nunca pretendi que ela escapasse. Ela não estava terminada. Era puramente um experimento. Era uma coisa sem membros, com um rosto horrível, que se contorcia para frente no chão de uma maneira serpentina. Ela era imensamente forte, e estava com uma dor enfuriante. Ela ocultou-se nos bosques por alguns dias, até que nós a caçamos; e então ela contorceu-se para dentro da parte norte da ilha, e nós dividimos o grupo para a cercar. Montgomery insistiu em vir comigo. O homem tinha um rifle; e quando o corpo dele foi encontrado, um dos canos estava curvado na forma de um S e quase inteiramente mordido. Montgomery atirou na coisa. Depois disso, eu fixei-me no ideial de humanidade – exceto para pequenas coisas.”

Ele tornou-se silente. Eu sentei-me observando o rosto dele.

Assim, por vinte anos no todo – contando os nove anos na Inglaterra – eu estive prosseguindo; [143]e ainda há alguma coisa em tudo o que eu faço que me derrota, deixa-me insatisfeito, desafia-me a esforço adicional. Algumas vezes eu elevo-me acima do meu nível, algumas vezes, eu caio abaixo dele; mas sempre eu não alcanço as coisas com as quais eu sonho. A forma humana eu posso obter agora, quase com facilidade, de maneira que ela é ágil e graciosa, ou espessa e forte; mas, frequentemente, há dificuldade com as mãos e as garras, - coisas dolorosas, às quais eu não me atrevo a dar forma frequentemente. Mas é no enxerto e remodelagem sútis que o meu problema jaz. Frequentemente, a inteligência é estranhamente baixa, com incontáveis fins em branco, lacunas inesperadas. E o menos satisfatório de tudo é alguma coisa que eu não posso tocar, em algum lugar – eu não posso determinar onde – no local das emoções. Anseios, instintos, desejos que causam dano à humanidade, um estranho reservatório oculto que irrompe subitamente e inunda o inteiro ser da criatura com raiva, ódio ou medo. Essas minhas criaturas pareceramm estranhas e fabulosas para você quando você começou a observá-las; mas para mim, exatamente depois de eu criá-las, elas parecem ser indisputavelmente seres humanos. É subsequentemente, conforme eu as observo, que a persuasão enfraquece. Primeiro, [144]um traço animal, em seguida, outro se arrasta para a superfície e encara-me. Mas eu ainda o conquistarei! A cada vez que eu mergulho uma criatura viva dentro do banho de dor ardente, eu digo, ‘Desta vez que eu queimarei todo o animal; desta vez eu mesmo criarei uma criatura racional! Afinal, o que são dez anos? Os homens estiveram uma centena de milhares em criação.’ Ele pensou sombriante. ‘Mas eu estou aproximando-me da estabilidade. Esse meu puma -’ Após um silêncio, ‘E eles retrocedem. Tão logo minha mão é retirada deles, a besta começa a rastejar de volta, começa a afirmar-se novamente.’” Outro silêncio longo.

Então você leva as coisas que você cria para dentro daqueles antros?” Eu disse.

Eles vão. Eu volto-me para eles quando eu começo a sentir a besta neles, e, dentro em pouco, eles perambulam por lá. Todos eles temem esta casa e a mim. Há um tipo de caricatura de humanidade através daquele lugar. Montgomery sabe sobre isso, pois ele interfere nos assuntos deles. Ele treinou um ou dois deles para o nosso serviço. Ele está envergonhado disso, mas eu acredito que ele quase gosta de alguma daquelas bestas. É a ocupação dele, não a minha. Eles frequentemente me deixam doente com uma sensação de falha. Eu [145]não tenho interesse nelas. Eu imagino que elas sigam nas linhas que o missionário canaca marcou, e têm um tipo de zombaria de uma vida racional, pobres bestas! Há alguma coisa que eles chamam de a Lei. Cantam hinos sobre ‘tudo é teu.’ Elas constroem para elas mesmas as suas próprias tocas, colhem frutas, e manejam ervas – até casam-se. Mas eu consigo ver através disso tudo, enxegar das almas mesmas delas, e ver lá nada exceto as almas de bestas, bestas que perecem, têm raiva, os desejos para viverem e gratificarem a si mesmas. - Conturo, elas são estranhas; complexas, como tudo o mais vivo. Há um tipo de esforço ascendente nelas, parte vaidade, parte emoção sexual desperdiçada, parte curiosidade desperdiçada. Eu tenho alguma esperança com aquele puma. Eu tenho trabalhado intensamente na cabeça e cérebro dele -

E agora,” ele disse, ficando de pé após um longo intervalo de silêncio, durante o qual cada um perseguia os seus próprios pensamentos, “o que você pensa? Ainda está com medo de mim?”

Eu olhei para ele, e vi um homem de rosto branco e cabelo branco, com olhos calmos. Salvo pela serenidade dele, o toque de quase beleza que resultava a partir de sua tranquilidade determinada e sua constituição [146]magnificente, ele poderia ter passado em inspeção em meio a uma centena de outros idosos cavalheiros confortáveis. Então eu estremeci. Na forma de resposta à sua segunda questão, eu entreguei-lhe um révolver com cada uma das mãos.

Fique com eles,ele disse e estendeu a mão em um bocejo. Ele ficou de pé. Encarou-me por um minuto, e sorriu. “Você teve dois dias agitados,” ele disse. “Eu deveria aconselhar algum sono. Eu estou feliz de que tudo está claro. Boa noite.” Ele ponderou sobre mim por um momento, em seguida, saiu pela porta interna.

Eu imediatamente virei a chave na porta externa. Eu sentei-me novamente; sentei-me por um momento em um tipo de humor estagnado, tão cansado, emocionalmente, mentalmente e fisicamente, que eu não pude pensar além do ponto no qual ele tinha me deixado. A janela preta encarava-me como um olho. Finalmente, com um esforço, eu apaguei a luz e entrei na rede para dormir. Dentro de pouco tempo, eu estava adormecido.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 127-146. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/127/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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