[214]A tenda do rei erguia-se à parte do resto; ela não era muito maior, mas adequamente coberta com palha, e a ampla entrada pendurada com cortinas carmesim. Dois estandartes erguiam-se perto dela; um muito mais alto que o outro. O mais alto portava a insígnia do reino, o menor, a própria bandeira do rei como um cavaleiro. Uma defesa temporária cercava a tenda, encerrando um espaço de aproximadamente setenta jardas de diâmetro com um fosso e também estacas plantadas para repelir atacantes. Havia apenas uma entrada, oposta ao campo central, e essa era guardada por soldados completamente armados. Um cavaleiro a cavalo, em armadura, exceto por seu elmo, cavalgava para cima e para baixo diante do portão; ele era o oficial da guarda. Os retentores dele, aproximadamente trinta ou quarenta homens, eram atraídos para perto.
Uma distância de cinquenta jardas intervinha entre esse entricheiramento e o acampamento, e era mantido limpa. No interior do entricheiramento, Felix poderia ver um número de senhores, e vários cavalos enfeitados, mas, a partir da ausência de barulho e do fato de que cada um parecia caminhar delicadamente e na ponta dos pés, ele concluiu que o rei ainda estava dormindo. O riacho corria ao lado do entricheiramento, e entre ele e a cidade; o aposento do rei ficava naquele canto do acampamento mais alto no riacho, de maneira que a água não poderia ser poluída antes que ela o alcançasse.
Contudo, a conscrição do rei não parecia estar por estar [215]redondezas, pois as tendas mais próximas dos quartéis-generais eram evidentemente ocupadas por grandes barões, como Felix sabia a partir de seus estandartes. Aqui havia alguma pouca aparência de formalidade; a soldadesca não era tão barulhenta, e havia vários oficiais se movendo entre eles. Depois ele descobriu que os maiores barões reivindicaram a direita do campo mais próximo do rei, e que a conscrição do rei ficava atrás das tendas deles. Mas, incapaz de descobrir o lugar, e temeroso de perder a sua liberdade se ele demorasse mais, Felix, após hesitar por algum tempo, decidiu aplicar-se diretamente para a guarda no portão do entricheiramento circular.
Enquanto ele cruzava o terreno aberto na direção dela, ele observou que o alojamento do rei era o mais próximo do inimigo. Através do pequeno riacho haviam alguns campos de milho e, além desses, as muralhas da cidade, escassamente a uma milha de distância. Não havia posto avançado, o córrego era apenas um riacho e poderia ser atravessado com facilidade. Ele maravilhou-se diante da falta de precaução; mas ele ainda tinha de aprender que o inimigo, e todos os exércitos da época, eram ignorantes e igualmente descuidados.
Com um comportamento tão humilde quanto ele pôde assumir, Felix tirou o seu boné e começou a falar com o guarda na soleira da porta do entrecheiramento. O mais próximo homem de armas ergueu a sua lança e atingiu-o com a haste. O golpe inesperado caiu sobre o seu ombro esquerdo, e com força tal para o tornar ineficaz. Antes que ele pudesse proferir uma reclamação, um segundo tinha confiscado a sua lança para javali, estalado a haste sobre o joelho, lançado os fragmentos para longe dele. Em seguida, outros tomaram-no pelos [216]ombros e jogaram de volta para o espaço aberto do acampamento, onde eles o chutaram e deixaram-no, machucado, e quase estupefado de indignação. A ofensa dele estava dirigindo-se ao chão do rei com armas em suas mãos.
Posteriormente à tarde, ele encontrou-se sentado sobre um banco de areia do riacho, bem abaixo no acampamento. Ele perambulou para lá sem saber para onde estava indo ou o que estava fazendo. Pelo momento, o espírito dele tinha sido esmagado, não tanto pela brutalidade física, quanto pela repulsa às suas aspirações. Cheio de altas esperanças, e consciente de grandes ideias, ele tinha sido espancado como um cão cruel.
A partir desse ponto perto do riacho o acampamento distante parecia lindo. As bandeiras flutuando, os tetos verdes das tendas (de samambaias e juncos e galhos), o movimento e a vida, pois corpos de tropas agora estavam marchando para lá e para cá, e cavaleiros em vestes alegres cavalgando, formavam uma cena agradável sobre o terreno da encosta com a floresta na retaguarda. Através do córrego a luz do sol iluminava as muralhas da cidade ameaçada, onde, também, muitas bandeiras estavam ondulando. Felix chegou um pouco a si mesmo enquanto ele encarava, e logo reconheceu que ele tinha apenas a si mesmo para culpar. Evidentemente, ele tinha transgredido uma regra, e a ignorância da regra por ele não era desculpa, uma vez que se supunha que aqueles que de qualquer maneira tinham qualquer direito de estar no acampamento entendiam-na.
Ele levantou-se e, retornando lentamente na direção do acampamento, passou em seu caminho pelo lugar de bebida, onde um cavalariço estava dando água a alguns cavalos. O homem chamou ele para ajudar a conter um cavalo de batalha espirituoso, e Felix mecanicamente fez como foi [217]pedido a ele. Os companheiros do rapaz deixaram ele fazer o trabalho deles, e havia muitos cavalos para ele treinar. Felix conduziu para ele o cavalo de batalha de volta para o acampamento, e, em troca, ele foi convidado a beber. Ele preferiu comida, e um suprimento abundante foi colocado diante dele. O cavalariço, tagarelando enquanto ele atendia aos seus deveres, disse que ele sempre dava boas vindas ao começo de uma guerra, pois eles frequentemente estavam quase famintos, e tinham de roer ossos, como os cães, em paz. Mas, quando uma guerra era declarada, vastas quantidades de provisões eram reunidas, e todos comiam vorazmente à vontade. Os próprios cães engordavam; ele apontou para uma meia dúzia que estavam despedaçando um ombro cru de carneiro. Antes que a campanha estivesse terminada, aqueles mesmos cães poderiam passar fome. A qual “guerra” Felix pertencia? Ele respondeu à conscrição do rei.
O cavalariço disse que ali era a conscrição onde eles estavam; mas sob o comando de quem ele estava? Isso confundiu Felix, quem não soube o que dizer e terminou contando a verdade, e implorando ao rapaz para o aconselhar, visto que ele temia perder a liberdade. O homem disse que ele deveria permanecer onde ele estava, e servir com ele sob o Mestre Lacy, quem era suficientemente ruim na cidade, mas gostava de parece liberal nessas condições, quando se associando a cavaleiros e senhores.
Mestre Lacy era um mercador de Aisi, um proprietário de navios. Como a maioria dos seus companheiros, quando a guerra chegava tão perto de casa, ele quase era obrigado a juntar-se à conscrição do rei. Não tivesse ele feito assim, isso teria sido registrado contra ele como falta de lealdade. Os privilégios dele teriam sido [218]tomados deles, possivelmente a riqueza que ele tinha acumulado apreendida, e ele mesmo reduzido à escravidão. Portanto, Lacy colocou armadura e acompanhou o rei ao acampamento. Dessa maneira, Felix, após todas as suas aspirações, descobriu-se servindo como o valete de um mero cidadão.
Ele tinha de levar os cavalos para a água abaixo, limpar armas, buscar madeira da floresta para o fogo. Ele estava ao alcance e à convocação de todos os outros homens, quem nunca tinham escrúpulos em usar os seus serviços e, observando que ele nunca recusava, colocavam ainda mais sobre ele. Por outro lado, quando ele não estava fazendo nada, eles eram muito amáveis e mesmo pensativos. Eles compartilhavam o melhor com ele; ocasionalmente, traziam-lhe vinho (o vinho era escasso, embora a cerveja fosse abundante) como uma delicadeza, e um, quem habilmente tinha tomado uma bolsa, presenteou-lhe com uma meia dúzia de moedas de cobre como seu quinhão do saque. Felix, tornado mais sábio pela experiência, não se atreveu a recusar o dinheiro roubado, isso teria sido considerado o maior insulto; ele aguardou a oportunidade e jogou-o fora.
É claro, os homens rapidamente descobriram a sua educação superior, mas isso não os surpreendeu no mínimo, sendo extremamente comum para pessoas desafortunadas descenderem gradualmente a trabalhos manuais, se alguma vez eles deixassem a propriedade territorial e a herdade à qual eles naturalmente pertenciam. Ali como cadetes, por mais que humildes, eles estavam certos de respeito externo: uma vez fora da influência do líder da casa, e eles saiam-se piores do que o mais baixo retentor. Seus companheiros teriam se ressentido de qualquer mostra de orgulho e rapidamente teriam tornado a sua vida intolerável. Como ele [219]não mostrou nenhuma, eles quase o tratavam como animal de estimação, mas, ao mesmo tempo, esperavam que ele fizesse mais do que a a sua parte do trabalho.
Felix ouviu com espanto as revelações (revelações para ele) da vida interior do acampamento e da corte. A fraqueza do rei, sua gula desordenada e intoxição contínua, seus ataques de temperamento, suas loucuras e excentricidades, pareciam tão familiares para aqueles cavalariços como se eles tivessem habitado com ele. Quanto aos cortesãos e barões, não havia nenhum cujos vícios e crimes secretos não fossem perfeitamente conhecidos para eles. Vícios e crimes têm de ter seus instrumentos; instrumentos são invariavelmente indiscretos, e, dessa forma, os segredos escapam. As intrigas do palácio, as intrigas com outros estados, a influência de certas mulheres, não havia nada que eles não conhecessem.
Dessa maneira vista a partir de baixo, a sociedade inteira parecia podre e corrupta, rude ao último grau, animada apenas pelos motivos mais baixos. Essa fofoca mesma parecia em si mesma criminosa para Felix, mas, no momento, ele não refletia que ela era apenas o conto de servos. Tivesse tal linguagem sido usada por cavalheiros, então, seria traição. Ele mesmo como de nascimento nobre, Felix até agora tinha visto as coisas a partir do ponto de vista da sua própria classe. Agora que ele se associava com cavalariços, ele começou a ver a sociedade a partir do ponto de vista deles, e reconheceu quão debilmente ela era mantida unida por força bruta, intriga, corda e machado, e adulação de mulher. Mas um empurrão parecia ser necessário para a derrubar. Contudo, mesmo assim, ela estava bastante segura, visto que não havia ninguém para dar esse empurrão, e, se qualquer conspiração semelhante tivesse sido formada, aqueles escravos mesmos que mais sofriam [220]teriam sido os homens mesmos que dariam a informação, e torturariam os conspiradores.
Flix nunca tinha sonhado que homens comuns e iletrados, tais como esses cavalariços e retentores, pudessem ter qualquer concepção de razões de estado, ou dos astutos desígnios das cortes.
Agora ele descobria que, embora eles não pudessem nem escrever nem ler, eles tinham aprendido a arte da leitura do homem (do pior e mais baixo lado do caráter) a uma perfeição tal que imediatamente eles detectavam o motivo. Eles liam o rosto; a própria maneira de andar e o gesto dava-lhes uma pista. De fato, eles liam o homem como um animal. Eles entendiam o homem exatamente como eles entendiam os cavalos e cães da caça sob os seus cuidados. Cada humor e indicação viciosa naqueles animais era conhecida por eles, e assim, também, com seus mestres.
Felix pensava em si mesmo como um caçador, e entendido em artesanato em madeira; ele agora descobriu quão enganado ele tinha estado. Ele tinha adquirido o artesanato em madeira como um cavalheiro; ele agora aprendia o artesanato em madeira do valete. Eles ensinaram-lhe uma centena de truques dos quais ele não tinha tido nenhuma ideia. Eles despiam o homem da sua dignidade, e a natureza do seu refinamento. Tudo tinha um lado canalha para si. Ele começou a entender que princípios elevados e teorias abstratas eram apenas palavras para a massa dos homens.
Um dia ele viu cavaleiro friamente topar em um cidadão (um da conscrição do rei) no meio do acampamento e em ampla luz do dia, e quietamente cortar a bolsa dele, pelos menos uma vintena de pessoas olhando. Mas eles eram apenas retentores e escravos; não havia nenhum cuja palavra, por um momento, [221]teria sido recebida contra a de um cavaleiro, quem tinha observado isso e saqueado o cidadão com impunidade. Ele arremessou as moedas menores para a multidão, guardando o ouro e a prata para si mesmo, saiu em meio aos seus aplausos.
Felix viu um escravo pregado a uma árvore, os braços dele colocados em torno de maneira a abraçá-la e então os pregos impelidos através deles. Ali ele foi deixado em sua agonia para perecer. Ninguém soube qual tinha sido a sua falta; o seu mestre apenas dinha desgostado dele. Um guarda foi colocado para ninguém devesse libertar o ser miserável. O horror e a indignação de Felix não poderia ter sido expresso, mas ele estava completamente desamparado.
Sua própria condição de mente durante esse período era tal como não poderia ser bem analisada. Ele mesmo não entendia se seu espírito tinha sido quebrado, se ele foi realmente degradado com os homens com quem ele vivia, ou porque ele permanecia com eles, embora houvesse momentos quando começava a aparecer sobre ele que essa educação, rude como ela era, não era sem o seu valor para ele. Ele não tinha de praticar esses males, mas era bom conhecer a existência deles. Dessa maneira ele peramenceu, quiescente, por assim dizer, e os dias passavam-se. Ele realmente não tinha muito a fazer, embora o resto colocasse as suas obrigações sobre ele, pois a disciplina era tão relaxada, que o auxiliar mais folgado respondia igualmente tão bem quando o mais consciencioso. Uma coisa sobre a qual todos os homens em torno dele pareciam pensar era na satisfação dos seus apetites; uma coisa com a qual eles se regozijavam era o belo clima seco, pois, como seus companheiros contaram a ele, a miséria da vida no acampamento durante chuvas era quase insuportável.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.214-221. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/214/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0