[165]‘AGORA, amigo, pela clareza da lua e essa luz de fogueira eu te contarei o que eu posso e o que é possível de minha história. É deste modo: se eu sou inteiramente da raça de Adão eu não tenho conhecimento; nem posso eu contar-te quantos anos de idade eu tenho. Pois há, por assim dizer, fragmentos ou lacunas em minha vida, na qual há apenas poucas coisas vagamente lembradas e, sem dúvida, muitas esquecidas. Eu lembro-me de quando eu era uma pequena criança, e bem feliz, e havia pessoas em minha volta que eu amava, e quem me amavam. Não era nesta terra; mas todas as coisas eram amáveis lá; o começo de ano, o feliz meio de ano, o ano desvanecente, o final de ano, e em seguida, novamente, seu começo. Isso passou e então, por um tempo, é mais do que obscuridade, pois de nada eu me lembro salvo que eu era. Depois disso, eu lembro-me novamente, e eu sou uma jovem [166]donzela, e eu sei algumas coisas e anseio por saber mais. De maneira nenhuma eu sou feliz; eu estou em meio a pessoas que me ordenam ir embora, e eu vou; ninguém me ama, ninguém me atormenta; mas eu consumo meu coração em ansiar pelo que escassamente eu sei. Tampouco nessa ocasião eu estou nesta terra, mas em uma terra que eu não amo, e em uma casa que é grande e majestosa, mas nada amável. Em seguida, é tempo obscuro novamente, e desde então um tempo não muito claro; um tempo mau, no qual eu estou mais velha quase crescida à idade adulta. Há muita gente em volta de mim, e eles são desagradáveis, e gananciosos, e difíceis; e meu espírito é feroz, mas meu corpo está fraco; e eu sou colocada em tarefas que eu não faria, por eles que são menos sábios do que eu; e golpeada eu sou, por eles que são menos valentes do que eu; e eu conheço carência, marcas e miséria diversas. Mas tudo isso agora se tornou apenas uma imagem sombria para mim, salvo que em meio a todos esses não amigos há uma amiga para mim; uma mulher mais velha, quem me conta doces contos de outra vida, nos quais tudo é elevado e majestoso, ou ao menos valente e bravo, ele coloca esperança em meu coração e ensina-me, e faz-me conhecer muito … Oh muito … de modo que eu torno-me sábia, e sábia para ser poderosa, se eu me atrever. Contudo, eu não estou [167]nesta terra durante todo esse tempo, mas, como me parece, em uma grande e desagradável cidade.’
‘E em seguida, por assim dizer, eu adormeço; e em meu sono não há nada, salvo às vezes um sonho selvagem, algo amável, algo horrível: mas desse sonho é minha Senhora uma parte, e o monstro, além disso, de quem a cabeça tu cortaste hoje. Mas, quando eu desperto dele, então verdadeiramente eu estou nesta terra, e eu mesma, como tu me vês hoje. E a primeira parte de minha vida aqui é está: que eu estou no salão colunado acolá, meio vestida e com mãos amarradas; e o Anão conduz-me à Senhora, eu ouço crocito horrível dele conforme ele diz: ‘Senhora, está aqui servirá?’ e, em seguida, a doce voz da Senhora dizendo: ‘Está servirá; tu deverás ter tua recompensa; agora, estabelece tu a marca sobre ela.’ Em seguida eu lembro-me do Anão arrastando-me para longe, meu coração afundando de medo dele; mas, àquela vez, ele não me fez nenhum outro mal do que fixar em minha perna este anel de ferro que tu vês.’
‘Assim, a partir daquela ocasião em diante, eu tenho vivido nesta terra, e sido serva da Senhora; e eu lembro-me de minha vida aqui dia a dia, e nenhuma parte dela caiu na obscuridade dos sonhos. Dessa circunstância eu te contarei somente [168]pouco. Mas isto eu te contarei, que, apesar de meus sonhos passados, ou talvez por causa deles, eu não perdi a sabedoria que a velha mulher outrora me ensinou, e por mais sabedoria eu ansiei. Talvez esse desejo deverá agora fazer a ti e a mim felizes, mas, pela passagem do tempo, trouxe-me pesar. Pois de início minha Senhora ficou de fato instável comigo, apenas como uma grande senhora poderia ser com serva adquirida, enquanto, às vezes me afagando, às vezes me castigando, conforme seu humor variava; mas ela não parecia ser cruel por malícia, ou por qualquer propósito estabelecido. Apenas assim foi (em vez de pouco a pouco por alguma grande descoberta de meu intento), que ela veio a saber que eu também tinha um pouco da sabedoria pela qual ela vivia sua vida de rainha. Isso foi aproximadamente há dois anos depois que eu primeiro me tornei sua serva, e três anos exaustivos passaram-se desde que ela começou a ver em mim a inimiga dos dias dela. Agora, por qual razão ou motivo eu não sei, mas parece que não a beneficiaria matar-me abertamente, ou me fazer sofrer até a morte; mas nada a impedia de acumular pesares e misérias sobre minha cabeça. Finalmente, ela colocou o servo dela, o Anão, encarregado de mim, aquele mesmo cuja a cabeça tu cortaste hoje. Muitas coisas eu suportei dele, sobre as quais seria [169]impróprio para minha língua contar diante de ti; mas a ocasião chegou na qual ele excedeu-se, e eu não pude suportar mais. Então eu mostrei-lhe a faca afiada (com a qual eu teria atravessado-me o coração se tu não tivesses perdoado-me agora mesmo), e eu contei-lhe que se ele não se abstivesse de mim, eu mataria, não ele, mas eu mesma; e disso ele não poderia escapar, por causa da ordem da Senhora, que lhe dera a ordem de que, em qualquer caso, eu deveria ser mantida viva. E a mão dela, além disso, guardava o medo de algo futuro. Contudo, houve a necessidade para mim de toda a minha sabedoria; pois, com tudo isso, o ódio dela crescia, e às vezes se irava dentro dela tão furiosamente que subjugava o medo ela e, em tais ocasiões, ela teria mandado matar-me se eu não tivesse escapado dela através de alguma oportunidade de meu conhecimento.’
‘Agora, além disso, eu deverei contar-te que, de alguma maneira, há mais de um ano, chegou a esta terra o Filho de Rei, o segundo homem vistoso, enquanto tu és o terceiro, a quem as feitiçarias dela atraíram para cá desde que eu tenho habitado aqui. Verdadeiramente, quando ele primeiro chegou, ele parecia-nos, para mim, e ainda mais para minha Senhora, ser tão belo quanto um anjo, intensamente ela o amou; e ele ela, segundo o [170]costume dele: mas ele era volúvel e insensível, e com o tempo ele teve de virar os olhos dele para mim, e oferecer o amor dele a mim, o que foi somente desagradável e cruel como se revelou; pois, quando eu dizia não a ele, como talvez eu não tivesse feito, salvo por medo de minha Senhora, ele não tinha piedade de mim, e não me poupava de me conduzir à armadilha da ira dela, e deixar-me sem ajuda, ou uma boa palavra. Mas, oh amigo, apesar de todo o pesar e angústia, eu ainda aprendi, e tornei-me sábia, e mais sábia, aguardando o dia de minha libertação, o qual chegou, e tu vieste.’
Após o que ela pegou as mãos de Walter e beijou-as; mas ele beijou a face dela, e as lágrimas dela molharam os lábios dela. Em seguida, ela prosseguiu: ‘Mas desde então, meses atrás, a Senhora começou a cansar desse covarde, a despeito da beleza dele; e então era tua vez de ser atraído para dentro da rede dela; eu até certo ponto imagino como. Pois em um dia, em plena luz do dia, enquanto eu estava servindo minha Senhora no salão, e o Coisa Maligna, cuja cabeça agora está cortada, estava deitado na soleira da porta, [algo] como se fosse um sonho caiu sobre mim, embora eu me esforçasse para o rejeitar por medo de punição; pois o salão colunado tremulou, desapareceu de minha vista, e meus pés estavam pisando sobre um pavimento de pedra [171]áspera em vez da maravilha de mármore do salão, e havia o cheiro do mar salgado e do equipamento de navios, e atrás de mim estavam altas casas, e diante de mim navios de fato, com seus cabos batendo-se e suas velas agitando-se e seus mastros oscilando; e em meus ouvidos havia o vigor e a destreza de marinheiros; coisas que eu vira e ouvira na obscuridade de minha vida passada.’
‘E lá estávamos eu, e o Anão diante de mim, e a Senhora depois de mim, passando por cima da passarela abordo de uma elevada embarcação, e ela conseguiu passagem e saiu do porto e, imediatamente, eu vi os marinheiros soltarem sua bandeira.’
Disse Walter: ‘Que então! Lá tu viste o brasão, de uma besta semelhante ao lobo esbravejando contra uma donzela? E que poderia bem ter sido tu.’
Ela disse: ‘Sim, assim era; mas te detém para que eu possa contar-te minha história! O navio e o mar desapareceram, mas eu não estava de volta ao salão da Casa Dourada; e novamente estávamos nós três na rua da exatamente mesma cidade que nós deixáramos há pouco; mas de alguma maneira sombria era minha visão dela, e eu vi pouco, salvo a porta de uma casa vistosa diante de mim, e rapidamente sumiu, e nós estávamos [172]novamente no salão sustentado por pilares, no qual minha servidão foi tornada manifesta.’
‘Donzela,’ disse Walter, ‘uma pergunta eu desejaria fazer-te; a saber, tu viste-me no cais próximo às embarcações?’
‘Não,’ ela disse, ‘havia muitas pessoas em volta, mas elas eram todas imagens de estrangeiros para mim. Agora ouve mais com atenção: trés meses depois disso os sonhos vieram sobre mim novamente, quando nós três estávamos todos juntos no Salão Colunado; e novamente a visão esteve um pouco sombria. Uma vez mais nós estávamos na rua de uma cidade movimentada, mas inteiramente diferente daquela outra, e havia homens de pé juntos, do lado de nossas mãos direitas, perto da porta de uma casa.’
‘Sim, sim,’ disse Walter; ‘e, verdadeiramente, um deles era apenas eu.’
‘Abstém-te, amado!’ Ela disse; ‘pois meu conto aproxima-se do fim, e eu gostaria de te manter ouvindo-o atentamente: pois talvez uma vez mais tu deverás conceder perdão a meu feito passado. Uns vinte dias após desse último sonho, eu tive algum tempo livre do serviço de minha Senhora. Assim eu fui divertir-me perto do Poço do Carvalho (ou verdadeiramente ela poderia ter colocado em minha mente o pensamento de ir lá, para que eu pudesse encontrar-te e dar a ela algum motivo contra mim); e eu sentei-me perto dali, de maneira nenhuma [173]amando a terra, apenas doente de coração, por causa da última [vez que] o Filho de Rei tinha sido mais do que nunca direto comigo para lhe entregar o meu corpo, ameaçando-me do contrário com me lançar a tudo de pior que poderia fazer-me de tomentos e vergonhas dia a dia. Eu digo que meu coração falhou-me e eu quase fora trazida ao ponto de dizer sim aos desejos dele, para que eu pudesse correr o risco de alguma coisa acontecer que fosse menos ruim do que o pior. Mas aqui eu preciso contar-te uma coisa, e implorar-te para a tomar seriamente. Isto, mas do que qualquer outra coisa, dera-me força para dizer não àquele covarde; que minha sabedoria tanto foi como agora é, a sabedoria de uma donzela sábia, e não a de uma mulher, e todo o poder disso eu deveria perder com minha donzelice. Mal tu pensarás de mim, então, pois tudo eu tentara tão severamente, que eu estava a ponto de a jogar inteiramente fora, tão miseravelmente quanto eu encolhia-me do horror da ira da Senhora.’
‘Apenas lá enquanto eu sentava ponderando sobre essas coisas, eu vi um homem chegando, e não pensei disso senão que fosse o Filho de Rei, até que eu vi o estranho aproximando-se com seu cabelo dourado, e seus olhos cinzentos; e então eu ouvi a voz dele, e a gentileza dele penetrou em meu coração, e eu sabia que meu amigo chegara [174]para me ver; e oh, amigo, essas lágrimas são pela doçura dessa hora passada!’
Disse Walter: ‘Eu vim para ver minha amiga, eu também. Agora eu notei o que tu ordenaste-me; e eu me absterei de tudo conforme tu comandaste-me, até que nós estejamos a salvo fora do deserto e muito longe de todas as coisas más; mas tu me banirás de todas carícias?’
Ela riu em meio às lágrimas, e disse: ‘Oh, não, pobre rapaz, se tu fores apenas prudente.’
Em seguida, ela inclinou-se em direção a mim, e tomou o rosto dele entre as mãos e beijou-o frequentemente, e as lágrimas surgiram nos olhos dele por amor e piedade dela.
Então ela disse: ‘Ai de mim, amigo! Mesmo que tu ainda possas condenar-me culpada, e todo teu amor afastar-se de mim, quando eu tiver contado tudo que eu fiz pelo meu e teu bem. Oh, se então pudesse haver algum castigo para mulher culpada, e não mera separação!’
‘Nada temas, querida,’ disse ele; ‘pois de fato eu considero que eu já saiba parcialmente o que tu fizeste.’
Ela suspirou, e disse: ‘Eu te contarei em seguida, que eu bani teu beijo e carinho de mim até hoje, porque eu sabia que minha Senhora certamente saberia se um homem, se tu, [175]tivesses tocado tanto quanto um dedo meu em amor. Foi para me tentar aqui que naquela manhã da caçada que ela beijou-me e abraçou-me, até que eu quase morresse disso, e mostrou-te meu ombro e membros; e para te tentar, além disso, se teu olho deveria brilhar ou tua bochecha ruborizar por causa disso; pois de fato ela estava furiosa de ciúme de ti. Em seguida, meu amigo, mesmo enquanto nós estávamos conversando ao lado do Poço da Rocha, eu estava considerando como nós deveríamos fazer para escapar dessa terra de mentiras. Talvez tu dirás: ‘Por que tu não pegaste minha mão e fugiste comigo como nós fugimos hoje?’ Amigo, é mais verdadeiro que, não estivesse ela morta, nós não teríamos escapado tão longe. Pois seus cães de caça teriam seguido-nos, enviados por ela, e trazido-nos de volta para um destino maligno. Portanto, eu conto-te que, desde o início, eu planejei a morte daqueles dois, o Anão e a Senhora. Pois de nenhuma outra maneira tu podias viver, ou eu escapar da morte em vida. Mas quanto ao covarde que me ameaçou com as dores da servidão, eu não me acautelei dele quanto a viver ou morrer, pois bem eu sabia que tua espada valente, sim, ou tuas mãos nuas, rapidamente o subjugariam. Agora, primeiro eu sabia que precisava fazer uma aparência de entrega ao Filho de Rei; e mais ou menos [176]eu fiz isso naquele lugar, tu sabes. Mas nenhuma noite e nenhuma ocasião eu dei-lhe para deitar comigo, até que eu tivesse encontrado-me contigo, enquanto tu vinhas à Casa Dourada, antes da aventura da busca da pele de leão; e até aquela ocasião eu escassamente sabia o que fazer, salvo sempre te ordenar, com tristeza e sofrimentos doloridos, a te entregar ao desejo perverso de mulher. Mas, enquanto nós conversávamos perto do córrego, e eu via que o Coisa Maligna (cuja a cabeça tu cortaste agora mesmo) estava espiando, então, em meio a moléstia do horror que sempre vinha sobre mim sempre que eu pensava nele, e muito mais quando eu o via (ah! Ele está morto agora!), surgiu brilhando na minha mente como eu poderia destruir meu inimigo. Portanto, eu tornei o Anão meu mensageiro para ela, ao te convidar para minha cama de uma maneira que ele pudesse ouvir. E tu bem sabias, que ele velozmente levava as notícias a ela. Entrementes, eu apressei-me para mentir ao Filho de Rei e, de maneira inteiramente secreta, convidei-o, e não a ti, para vir a mim. E depois disso, pela necessidade de esperar e assistir, e aproveitar a única chance que havia, eu encontrei-te enquanto tu voltavas da busca pela pele de leão que nunca existiu, e dei-te aquele aviso, ou senão de fato nós estaríamos perdidos.’
[177]Disse Walter: ‘Era o leão de fabricação dela ou da tua então?’
Ela disse: ‘Dela: por que eu deveria lidar com semelhante caso?’
‘Sim,’ disse Walter, ‘mas ela verdadeiramente desmaiou, e ela ficou verdadeiramente irada com o Inimigo.’
A Donzela sorriu, e disse: ‘Se a mentira dela não fosse muito verdadeira, então ela não teria sido a mestra de arte que eu sabia que ela era: alguém pode mentir de outra maneira que com a língua: contudo, de fato, a ira dela contra o Inimigo não era nada fingida; pois o Inimigo mesmo era eu, e nesses últimos dias nunca a ira dela deixou-me. Mas para continuar com meu conto.’
‘Agora, não duvides tu, que, quando vieste ao salão na véspera de ontem, a Senhora conhecia o teu encontro falso comigo, e não desejava senão a morte para ti; contudo, primeiro te teria nos braços dela novamente, portanto ela mimou-te à mesa (e aquilo também foi parcialmente para meu tormento), e portanto ela teve aquele encontro contigo, e julgava, sem dúvida, que tu não te atreverias a renunciá-lo, mesmo se devesses estar comigo depois disso.’
‘Agora eu instruíra aquele covarde para mim como eu contei-te, apenas eu dei-lhe uma inalação sonolenta, de modo que, quando eu viesse à cama, ele [178]não poderia mover-se na minha direção nem abrir os olhos: apenas eu deitei-me ao lado dele, de modo que a Senhora poderia saber que meu corpo estivera lá; pois bem ela saberia se ele não estivera. Então, enquanto eu deitava lá, eu lancei sobre ele a tua forma, de modo que ninguém poderia ter sabido, apenas que tu estiveste deitado ao meu lado, e lá, tremendo, eu aguardei o que deveria ocorrer. Dessa maneira eu passei a hora enquanto tu devias ter estado nos aposentos dela, e o tempo de meu encontro contigo chegou, como a Senhora consideraria; de modo que eu procurei por ela rapidamente, e meu coração quase me falhou por medo da crueldade dela.’
‘Logo então eu ouvi um movimento nos aposentos dela, e eu deslizei para fora da cama, e escondi-me atrás das cortinas, e estava para morrer de medo dela. Oh, logo ela entrou movendo-se sorrateiramente, segurando uma lâmpada em um mão e uma faca na outra. E eu conto-te de uma verdade; que eu também tinha uma faca afiada em minha mão para defender minha vida se necessário fosse. Ela ergueu a lâmpada acima da cabeça antes que ela se aproximasse do lado da cama e eu ouvia-a murmurar: ‘Então ela não está aqui! Mas ela deverá ser pega.’ Em seguida, ela subiu na cama e colocou-se de pé sobre ela, e colocou a mão no lugar onde eu deitara. [179]Com isso os olhos dela viraram-se para a imagem falsa ali deitada, e ela começou a tremer e sacudir, e a lâmpada caiu no chão e foi apagada (mas havia um luar brilhante no quarto, e ainda eu pude ver o que ocorreu). Apenas ela soltou um barulho como um rugido baixo de uma besta selvagem, e eu vi o braço e mão dela erguerem-se, e o brilho do aço sob a mão, e em seguida vieram abaixo a mão e o aço. Eu quase desmaiei com medo de que talvez eu trabalhara muito bem, e tua imagem fosse tu mesmo. O covarde morreu sem um gemido: por que eu deveria lamentá-lo? Eu não posso. Mas a Senhora puxou-o na direção de si mesma e arrancou as roupas dos ombros e peito dele, e começou a tagarelar sons principalmente sem sentido, mas interrompidos às vezes por palavras. Então eu ouvi-a dizer: ‘Eu deverei esquecer; eu deverei esquecer; e os novos dias deverão vir.’ Em seguida, ela fez um pouco de silêncio e após o que ela gritou em uma voz terrível: ‘Oh não, não, não! Eu não posso esquecer; eu não posso esquecer;’ e ela elevou um grande grito de lamento que encheu toda a noite com horror (tu não o ouviste?), e pegou a faca da cama e atravessou com ela o peito, e caiu um monte morto sobre [180]a cama e sobre o homem que ela matara. E então eu pensei em ti, e a alegria atingiu-me através de meu horror; como eu deveria opor-me a isso? E eu fugi para ti, e tomei tuas mãos nas minhas, tuas queridas mãos, e nós fugimos juntos. Deveremos continuar juntos?’
Ele falou lentamente, e não a tocou, e ela, abstendo-se de todo soluço e choro, sentou-se olhando melancolicamente para ele. Ele disse: ‘Eu acho que tu contaste-me tudo; e quer tua astúcia matou-a, ou o próprio coração maligno dela, ela morreu na última noite, ela quem se deitou em meus braços na noite anterior. Isso foi mal, e mal feito de mim, pois eu não a amava, mas a ti, e desejava a morte dela de modo que eu pudesse estar contigo. Tu sabes disso, e ainda tu me amas, isso pode ser presunçoso. O que eu tenho de dizer, então? Se há alguma culpa na astúcia, eu também estive na astúcia; e se há alguma culpa de assassinato, eu também estive no assassinato. Dessa maneira nós dizemos um ao outro; e a Deus e seus Santos nós dizemos: ‘Nós dois conspiramos e matamos a mulher que atormentava um de nós, e teríamos matado o outro; e se nós erramos nisso, então nós dois deveremos juntos pagar a pena; pois nisso nós tornamo-nos um corpo e uma alma.’’
[181]Após o que ele colocou seus braços ao redor dela e beijou-a, apenas sóbria e amigavelmente, como ele fosse confortá-la. E depois disso ele disse a ela: ‘Talvez amanhã, à luz do sol, eu te perguntarei sobre essa mulher, o que ela verdadeiramente era; mas agora, que ela seja. E tu, tu estás muito cansada, e ordeno-te dormir.’
Em seguida ele caminhou ao redor e reuniu um grande monte de samambaia para cama dela, e arrumou seu casaco sobre ela, e conduziu-a àquele local, e ela deitou-se mansamente, e sorriu cruzou seus braços sobre o seio, e logo adormeceu. Mas quanto a ele, ele aguardou ao lado do fogo até que o amanhecer começou a cintilar e, em seguida, ele deitou-se também e adormeceu.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.165-181. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/165/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0