Capítulo
anterior
[38]“Eu
EXPLIQUEI
a alguns de vocês na última quinta-feira os princípios da Máquina
do Tempo, e mostrei a vocês a coisa mesma,
incompleta, na oficina.
Ali
ela está agora, um pouco gasta pela viajem, verdadeiramente; e uma
das barras de marfim está rachada, e um trilho
de bronze, torto; mas o é resto está perfeito
o suficiente. Eu esperava ter terminado-a na sexta-feira; mas na
sexta-feira, quando a montagem
estava quase concluída, eu descobri que uma das barras de níquel
estava exatamente uma polegada muito curta, e isso tive de refazer;
de modo que a coisa não ficou completa até esta
manhã. Foi às dez horas de hoje que a primeira máquina do tempo de
todas começou sua carreira. Dei-a
uma
última
válvula,
testei todos os parafusos novamente, [39]coloquei
mais uma gota de óleo na haste de quartzo, e sentei-me na sela.
Suponho
que um suicida que segure uma pistola contra
o seu
próprio crânio sente quase
o mesmo pasmo
quanto ao que virá em seguida como eu então senti. Peguei
a alavanca de partida numa mão e a de parada em outra, pressionei a
primeira, e quase imediatamente a segunda. Eu parecia cambalear;
senti uma assustadora
sensação de queda; e, olhando em volta, vi o laboratório
exatamente como antes. Acontecera
alguma coisa? Por um momento,
suspeitei que meu intelecto enganara-me. Então, notei o relógio. Um
minuto antes, como parecia,
ela
colocou-se a um minuto ou mais passados
as dez; agora eram quase três e meia!”
“Respirei,
cerrei meus dentes, agarrei a alavanca inicial com ambas as mãos, e
sai
com um baque.
O
laboratório ficou nebuloso e escureceu. A Sra. Watchett entrou, e
caminhou, aparentemente sem me ver, em direção à porta do jardim.
Eu
[40]suponho
que demorou um minuto ou algo
assim para ela atravessar o lugar, mas, para mim, ela parecia correr
através da sala como um foguete.
Eu pressionei a alavanca até sua posição extrema. A noite chegou
como o apagar
de uma lâmpada e, em outro momento, veio o amanhã. O laboratório
enfraqueceu
e fiou nebuloso, em seguida, mais fraco
e sempre mais fraco. A noite de amanhã
chegou, em seguida, o dia novamente, noite novamente, dia novamente,
cada vez mais rápido. Um murmúrio turbilhoante encheu meus ouvidos
e uma confusão estranha, estúpida, desceu em minha mente.”
“Temo
que não possa transmitir
as sensações peculiares da viajem no tempo.
Elas
são excessivamente desagradáveis. Há um sentimento exatamente como
aquele que alguém tem em uma
montanha-russa
—
de um desamparado
movimento de
cabeça para baixo!
Eu também senti a mesma horrível antecipação, de um choque
iminente. Conforme
eu
colocava
em
ritmo, o
dia
seguiu-se noite, como os
sopapos repetidos
de algum corpo em
rotação.
A
sombria ideia
do laboratório [41]logo
pareceu esvair-se de mim, e eu vi o sol saltitar velozmente através
do céu, saltando a cada minuto, e cada minuto marcando um dia. Eu
imaginei
que o laboratório fora destruído, e eu saíra para o ar
aberto. Eu tive uma sombria impressão de um andaime,
mas eu já estava indo muito rápido para ter consciência de
quaisquer coisas moventes. O mais lento caracol que alguma rastejou
arremessou-se
perto,
muito rápido para mim.
A
sucessão cintilante de trevas e luz era excessivamente dolorosa par
ao olho. Então, nas
trevas intermitentes, eu vi a lua girando velozmente através de suas
fases,
de nova à
cheia, e tive um
leve
vislumbre de estrelas circulando.
Logo, conforme eu prosseguia, ainda ganhando velocidade, a palpitação
de noite e dia mesclou-se em um cinza contínuo;
o céu assumiu
a profundidade maravilhosa do azul, uma esplêndida cor luminosa como
aquela do crepúsculo inicial; o sol
bobo tornou-se uma faixa de fogo, um arco brilhante no espaço,
a [42]lua,
uma flutuante banda mais fraca; e eu não pude ver nada das estrelas,
salvo, de vez em quando, um círculo mais brilhante chamejando no
azul.”
“A
paisagem era nebulosa e vaga.
Eu
ainda estava na encosta
sobre a qual esta casa agora se ergue, e o rebordo
erguia-se
sobre mim cinza
e sombrio. Eu
vi árvores crescendo e mudando como lufadas
de vapor, agora marrons, agora verdes; elas cresciam, espalhavam-se,
flutuavam e morriam.
Eu vi grandes construções erguerem-se, fracas
e belas,
e passarem como sonhos. A inteira superfície da terra parecia em
mudança – dissolvendo-se
e fluindo sob meus olhos.
As pequenas mãos sobre meus mostradores,
que registraram minha velocidade, corriam
em torno,
cada vez mais rápido. Logo notei que o cinturão
do sol oscilava para cima e para baixo, de
solstício a solstício, em um minuto ou menos, e que,
consequentemente, meu
passo estava
a mais de um ano por
minuto; e minuto por minuto a neve branca
brilhava através do mundo e desaparecia, e era [43]seguida
pelo verde brilhante e breve da primavera.”
“As
sensações desagradáveis
do começo estavam menos pungentes
agora. Finalmente,
elas misturaram-se numa
alegria
histérica. Observei,
de fato, um balanço
desajeitado
da máquina, o qual fui incapaz de explicar. Mas minha mente estava
muito confusa
para cuidar disso, assim, com uma
loucura crescendo em mim, lancei-me
à futuridade.
Primeiramente,
eu mal pensei em parar, escassamente pensei em coisa alguma senão
nessas novas sensações. Mas logo uma série fresca de impressões
cresceu em minha mente,
—
uma
certa curiosidade, e com isso um certo pavor,
—
até
que finalmente eles tomaram controle de mim. Que estranhos
desenvolvimentos da humanidade, que maravilhosos avanços sobre nossa
civilização rudimentar, pensei, não poderiam aparecer quando eu
viesse a olhar de perto no mundo sombrio, elusivo, que corria e
flutuava diante de meus olhos! Eu vi arquiteturas [44]grandes
e esplêndidas erguendo-se ao redor de mim, mais massivas do que
quaisquer prédios de nosso tempo, e contudo, como parecia,
construídas de vislumbre
e névoa. Eu vi um verde mais rico fluir encosta acima, e permanecer
ali sem nenhuma
interrupção de inverno.
Mesmo através do véu de minha confusão, a terra parecia muito
bela. E assim minha mente mudou
de ideia em relação à questão de parar.”
“O
risco peculiar
jaz na possibilidade do
meu encontro com alguma
substância no espaço o qual eu, ou a máquina,
ocupava.
Contanto
que eu viajasse a uma alta velocidade através do tempo, isso
escassamente importava: eu estava,
por
assim dizer,
atenuado
—
estava deslizando como um vapor através dos
interstícios
de substâncias intervenientes! Mas,
chegar
a uma parada, envolvia o aperto de mim mesmo, molécula por molécula,
dentro do que seja o que for que se estendesse em meu caminho,
significava
colocar meus átomos em um
contato tão
íntimo
com os daquele obstáculo que
uma
profunda reação [45]química
—
possivelmente
uma vasta explosão
—
resultaria,
e explodiria
a mim
mesmo e meu dispositivo
para fora do Universo Rígido —
de todas as dimensões possíveis —
para o Desconhecido. Essa possibilidade ocorrera-me de novo e de novo
enquanto eu estava construindo a máquina; mas
eu alegremente
a aceitara como um risco inevitável —
um daqueles riscos que um homem tem de assumir! Agora que
o risco era inevitável, eu não o via mais sob a mesma luz alegre. O
fato é que, insensivelmente, a estranheza absoluta de tudo,
o sacudido
e remelexo
doentios da máquina, acima de tudo, o sentimento prolongado de
queda, perturbara
absolutamente meu nervo.
Eu disse para mim mesmo que nunca poderia parar e, com um gosto de
petulância, resolvi
parar sem
demora.
Como um tolo impaciente, puxei
a alavanca,
e imediatamente a coisa prosseguiu cambaleando, e fui lançando
precipitadamente ao
ar.”
“Houve
o som de um estrondo
[46]de
trovão em meus ouvidos.
Posso
ter ficado aturdido por um momento. Um
granizo impiedoso estava sibilando à minha volta, e eu estava
sentado na relva macia diante da máquina estragada.
Tudo
ainda parecia cinzento, mas logo observei que a confusão em meus
ouvidos passara. Olhei
ao meu redor. Eu
estava no que parecia ser um pequeno gramado em um jardim, cercado
por arbustos
de rododendros, e notei que as flores malvas e purpuras deles estavam
caindo
como um chuveiro sob a batedura dos granizos. O
ricochete,
o granizo dançante em uma pequena nuvem sobre a máquina, e impelido
junto
ao
chão, como fumaça. Em um momento, estava molhada até a pele. ‘Bela
hospitalidade,’ disse eu, ‘para
um homem que viajou inumeráveis anos para ver-te!’”
“Logo,
pensei que tolo fui para me
molhar.
Ergui-me
e olhei ao redor de mim. Uma figura colossal, aparentemente esculpida
em alguma pedra branca, assomava indistintamente além [47]dos
rododendros
através do aguaceiro nebuloso. Mas, tudo o mais do mundo estava
invisível.”
“Minhas
sensações seriam difíceis de descrever.
Conforme
as colunas de granizaram afinavam,
eu vi a figura branca mais distintamente. Era muito grande, pois
uma bétula
prateada tocava-lhe no ombro. Era de mármore prateado, na forma de
alguma coisa como uma esfinge alada, mas as asas, em vez de
carregadas verticalmente nos lados, estavam estendidas de modo que
ela parecia planar. O pedestal, ele parecia a mim, era de bronze, e
estava
grosso com verdete. Aconteceu
que aquela face estava voltada para mim; os olhos sem visão pareciam
vigiar-me; havia a
fraca sombra
de
um sorriso em seus lábios. Estava muito desgastada
pelo tempo, e aquilo transmitia uma sugestão desagradável de
doença. Permaneci
olhando para ela por um curto espaço de tempo —
um meio minuto, talvez, ou uma meia hora. Parecia avançar e recuar
conforme o granizo movido
na frente
era mais denso ou mais fino. [48]Finalmente,
tirei meus olhos dela por um momento, e vi que a cortina de granizo
consumira-se
batida,
e que o céu estava brilhando com a promessa de sol.”
“Olhei
novamente para cima, para
a
forma branca agachada, e a inteira temeridade da minha viajem
subitamente veio a mim.
O
que poderia aparecer quando a cortina nebulosa fosse completamente
retirada? O que não poderia ter acontecido aos homens?
E se a crueldade crescera
em uma paixão comum? E
se, nesse intervalo, a raça perderá sua dignidade
e desenvolvera-se em alguma coisa inumana, insensível, e
esmagadoramente
poderosa? Eu poderia parecer
algum animal selvagem do mundo antigo, somente mais terrível
e repugnante para nossa aparência comum
—
uma criatura imunda para ser imediatamente
morta.”
“Eu
já via
outras formas vastas —
construções
imensas com baluartes intrincados e colunas altas, com encosta
arborizada rastejando vagamente para mim [49]através
da tempestade que diminuía. Fui
pego por um medo de pânico. Voltei-me
freneticamente para a Máquina do Tempo, e lutei muito para
reajustá-la. Enquanto eu fazia isso,
os raios
do sol castigavam através da tempestade. O
aguaceiro cinzento fora
seco e desapareceu
como os trajes arrastados de um fantasma. Acima de mim, no azul
intenso do sol de verão, alguns fracos fragmentos marrons de nuvens
rodopiavam
para o nada.
As
grandes construções ao meu redor erguiam-se clara e distintamente,
brilhando com o molhado
da tempestade, e selecionadas
em branco pelos granizos não derretidos empilhados ao
longo de seus contornos.
Senti-me
nu em um mundo estranho. Senti-me
como talvez um pássaro pode sentir-se no ar claro, sabendo que as
asas de falcão acimam
e atacarão violentamente.
Meu medo tornou-se frenesi.
Tomei
um espaço
para respirar, cerrei meus dentes, e novamente agarrei-me ferozmente,
pulso e joelho, com a máquina. Ela cedeu sob minha investida
desesperada e virou.
Atingiu meu queixo violentamente. Uma mão [50]na
sela, a outra na alavanca,
ergui-me ofegando pesadamente em atitude de montar novamente.”
“Mas
com essa recuperação
de
uma retirada imediata, minha
coragem
recuperou-se.
Olhei
mais curiosamente e menos assustadamente para esse mundo do futuro
remoto. Em uma abertura circular, alta na muralha
da casa mais próxima, eu vi um grupo de figuras envoltas em ricos
robes macios. Eles viram-me, e suas faces foram dirigidas para mim.”
“Em
seguida,
ouvi vozes
aproximando-se de mim.
Vindo
através dos arbustos
próximos da esfinge branca estavam
as cabeças e ombros de homens correndo. Um deles emergiu em um
caminho levando diretamente ao pequeno gramado
sobre o qual eu estava de pé com minha máquina. Ele era uma
criatura delgada
– talvez de quatro pés
de altura
– envolto em túnica purpura, circundado na cintura com um cinto de
couro. Sandálias
ou peles
– eu não pude distinguir claramente quais – estavam em seus pés;
suas pernas estavam nuas até os joelhos, e sua cabeça estava
descoberta. Notando isso, [51]reconheci
pela primeira vez
quão quente estava o ar.”
“Ele
atingiu-me
como
sendo uma criatura muito bela e graciosa, mas indescritivelmente
frágil.
Sua
face ruborizada lembrou-me do mais belo tuberculoso
—
aquela beleza febril
sobre a qual tanto costumávamos ouvir. Mediante
a visão dele, eu subitamente ganhei confiança. Tirei
minhas mãos da máquina.”
Próximo
capítulo
ORIGINAL:
WELLS,
H.G.
The
Time
Machine;
An
Invention.
New
York:
Henry
Holt and Company,
1895.
pp.38-51.
Disponível em:
<https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/38/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Eidonet
Licença:
CC
BY-NC-SA 4.0