Erewhon: ou, Além da Cordilheira - VII Primeiras Impressões

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[44]VII Primeiras Impressões


Nós seguimos um caminho alpino por aproximadamente quatro milhas, agora a centenas de pés acima de um córrego murmurante que descia das geleiras, e agora quase ao longo dele. A manhã estava fria e um pouco nublada, pois o outono tinha feito realizado grandes progressos ultimamente. Algumas vezes, nós atravessávamos florestas de pinheiro, ou antes de teixos, embora eles parecessem pinheiros; e eu lembro que ocasionalmente nós passávamos por um santuário à beira da estrada onde havia uma estátua de grande beleza, representando alguma figura, masculina ou feminina, no auge mesmo da juventude, fortaleza e beleza, ou da mais dignificada maturidade e velhice. Os meus anfitriões sempre curvavam as cabeças quando eles passavam por um desses santuários, e chocou-me ver estátuas que não tinham nenhuma objetivo aparente, além da crônica de alguma excelência ou beleza individual, receber uma homenagem tão séria. Contudo, eu não mostrei sinal de admiração ou desaprovação; ou pois eu lembrei de que ser todas as coisas para todos os homens era uma das injunções do Apóstolo Gentio, no que, pelo presente, eu deveria fazer bem em prestar atenção. Logo depois de passar por uma dessas capelas nós subitamente topamos com um vila que surgiu da névoa; e eu fiquei alarmado com medo de que eu deveria ser tornado em um objeto de curiosidade ou aversão. Mas não foi assim. Meus guias falaram de passagem com muitos, e aqueles falados mostraram muita admiração. Contudo, meus guias eram bem-conhecidos, e a polidez natural das pessoas impedia-os de me colocar qualquer inconveniência; mas eles não conseguiam evitar de me encarar, nem eu a eles. Igualmente eu posso dizer de uma vez o que minha experiência subsequente ensinou – a saber, que, com todas as suas faltas e toda a obliquidade da visão mental deles sobre muitos assuntos, eles são o povo melhor criado com o qual eu alguma vez me deparei.

A vila era exatamente como aquelas que nós tínhamos deixado, apenas bastante maior. As ruas eram estreitas e não pavimentadas, mas bastante limpas. A vinha crescia do lado de fora de muitas casas; [45]e havia algumas com letreiros, sobre os quais estavam pintados uma garrafa e uma taça, que me fizeram sentir muito em casa. Mesmo nessa projeção da sociedade humana havia um crescimento atrofiado de lojas pequenas, as quais se enraizaram e vegetaram de alguma maneira, como se em um ar mercantil do mais sombrio. Até agora era assim: todas as coisas eram genericamente as mesmas que na Europa, as diferenças sendo apenas de espécie; e eu fiquei entretido ao ver em uma janela algumas garrafas com doces e bombons para crianças, como em casa; mas os doces estavam em bandejas, não em bastões torcidos, eram de um colorido azul. O vidro era abundante nas melhores casas.

Por último, eu deveria dizer que as pessoas eram de uma beleza física que era simplesmente incrível. Eu nunca vi nada no mínimo comparável com elas. As mulheres eram vigorosas e tinham um porte muito majestoso, as cabeças delas estando estabelecidas em seus pescoços com uma graça além de todo poder de expressão. Cada característica estava acabada, com pálpebras, cílios e orelhas sendo quase invariavelmente perfeitos. A cor delas era igual aquela das mais belas pinturas italianas; sendo da oliva mais clara e, contudo, corada com um brilho de saúde perfeita. A expressão delas era divina; e, enquanto elas davam olhadas para mim timidamente, mas com lábios repartidos em grande espanto, eu esqueci-me de todos os pensamentos de sua conversão em sentimentos que eram muito mais terrenos. Eu fiquei deslumbrado enquanto eu via uma depois da outra, das quais eu apenas podia sentir que cada uma era a mais amável que eu alguma tinha visto. Mesmo na meia idade elas ainda eram atraentes, e as mulheres idosas de cabelos grisalhos, às portas de suas cabanas, tinham uma dignidade, para não falar em majestade, própria.

Os homens eram tão bonitos quanto as mulheres eram belas. Eu sempre me deliciei na e reverenciei a beleza; mas eu senti-me confundido na presença de um tipo tão esplêndido – um composto de tudo que é melhor no egípcio, grego e italiano. As crianças eram infinitas em número e excessivamente felizes; eu dificilmente tenho de dizer que elas estavam sujeitas à sua [46]parte completa na beleza prevalente. Eu expressei através de sinais a minha admiração e prazer para os meu guias, eles ficaram grandemente agradados. Eu deveria acrescentar que todos pareciam ter orgulho de sua aparência pessoal, e que mesmo os mais pobres (e nenhum parecia rico) eram bem cuidados e arrumados. Eu poderia encher muitas páginas com uma descrição de sua vestimenta e dos ornamentos que eles usavam, e uma centena de detalhes que me atingiam com toda a força de novidade; mas eu não devo me demorar para o fazer.

Quando nós passamos a vila, a neblina subiu e revelou visões magníficas das montanhas nevadas e dos seus limites mais próximos, enquanto, a frente, eu podia, agora e novamente, captar vislumbres das grandes planícies que eu tinha analisado na noite anterior. A região era altamente cultivada, cada saliência dela sendo plantada com castanheiras, nogueiras e macieiras das quais as maçãs agora estavam sendo colhidas. Os bodes eram abundantes; também um tipo de pequeno gado negro, nos brejos perto do rio, o qual agora estava rapidamente se alargando, e correndo entre planícies maiores a partir das quais as colinas recuavam mais e mais. Eu vi algumas ovelhas como narizes redondos e caudas enormes. Cães havia em plenitude, e muito ingleses; mas eu não vi gatos, nem, de fato, essas criaturas são conhecidas, o lugar delas sendo suprido por um tipo de pequeno terrier.

Em aproximadamente quatro horas de caminhada a partir da vila da qual nós partimos, e após passar por mais duas ou três vilas, nós chegamos a uma cidade considerável, e meus guias fizeram muitas tentativas para me fazer entender alguma coisa, mas eu não obtive nenhum ideia vaga da intenção deles, exceto que eu não tinha de estar com nenhum receio de perigo. Eu pouparei o leitor de qualquer descrição da cidade, e apenas o convidaria a pensar em Domodossola ou Faido. É suficiente que eu me encontrei levado diante do magistrado-chefe e, por suas ordens, fui colocado em uma apartamento com duas outras pessoas, quem eram as primeiras que eu tinha visto parecendo qualquer coisa exceto boas e belas. De fato, uma delas estava evidentemente muito longe da [47]saúde, e tossia violentamente de tempos e tempos, a despeito dos esforços manifestos para o suprimir. A outra parecia pálida e doente, mas era maravilhosamente autocontida, e era impossível dizer qual era o problema com ela. Ambas elas pareciam atônitas ao ver alguém que era evidentemente um estrangeiro, mas elas estavam doentes demais para me abordarem e formarem conclusões ao meu respeito. Essas duas foram os primeiros convocados; e, em aproximadamente um quarto de hora, eu fui feito segui-las, o que eu fiz com algum medo, e com muita curiosidade.

O magistrado-chefe era um homem de aparência venerável, com cabelo e barba brancas e um rosto de grande sagacidade. Ele observou-me todo por aproximadamente cinco minutos, deixando seus olhos perambularem do topo da minha cabeça às solas dos meus pés, para cima e para baixo, e para baixo e para cima; nem a mente dele pareceu no mínimo mais clara quando ele tinha terminado uma observação do que quando ele tinha começado. Por fim, ele fez uma única breve questão “Quem eu sou?” Eu respondi em inglês, com bastante compostura, como se ele me entendesse, e arrisquei-me a ser o meu eu mais natural tão bem quanto eu pude. Ele pareceu mais e mais intrigado e, em seguida, retirou-se, retornando com mais dois outros como ele mesmo. Então ele levou-me para dentro de uma sala interna, e os dois recém-chegados despiram-me, enquanto o chefe observava. Eles sentiram meu pulso, examinaram minha língua, ouviram meu peito, eles sentiram todos os meus músculos e, ao final de cada operação, eles olhavam para o chefe e acenavam com a cabeça, e diziam alguma coisa em um tom bastante agradável, como se eu estivesse todo correto. Eles até puxaram minhas pálpebras para baixo, e, eu suponho, olharam para ver se elas estavam injetadas de sangue; mas não era assim. Finalmente, eles desistiram; e eu penso que todos ficaram satisfeitos de eu estar na mais perfeita saúde, e muito robusto para ser útil. Finalmente o velho magistrado fez-me um discurso de aproximadamente cinco minutos de duração, o qual os outros dois pareceram considerar grandemente ao ponto, mais do qual eu não pude obter nada. [48]Tão logo isso estava terminado, eles prosseguiram para inspecionar minha bagagem e os conteúdos dos meus bolsos. Isso deu-me um pouco de inquietação, pois eu não tinha dinheiro comigo, nem absolutamente nenhuma coisa da qual fosse provável que eles carecessem, ou a qual eu me importasse de perder. Pelo menos eu imaginava assim, mas eu logo descobri meu equívoco.

Inicialmente, eles lidaram confortavelmente com isso, embora eles ficassem muito intrigados com meu cachimbo e insistissem em me ver usá-lo. Quando eu tinha mostrado a eles o que eu fazia com ele, ele ficaram atônitos mas não descontentes, e pareceram gostar do cheiro. Mas aos poucos eles chegaram ao meu relógio, o qual eu tinha escondido no bolso secreto que eu tinha, e do qual eu tinha me esquecido quando eles começaram a sua busca. Eles parecerem muito preocupados e apreensivos tão logo eles se apossaram dele. Então eles me fizeram abri-lo e mostrar o funcionamento; e, quando eu tinha feito isso, eles deram sinais de descontentamento muito grave, o que me perturbou ainda mais porque eu não conseguia conceber eu poderia ter os ofendido.

Eu lembro que, quando eles o encontraram pela primeira vez, eu tinha pensado em Paley, e em como ele nos conta que um selvagem, ao ver um relógio, imediatamente conclui que ele foi projetado. Verdadeiro, essas pessoas não eram selvagens, mas, mesmo assim, eu senti-me seguro de que essa era a conclusão a qual elas chegariam; e eu estava pensando que homem maravilhosamente sábio o arquidiácono Paley deve ter sido, quando eu fui provocado por uma aparência de horror e desalento sobre o rosto do magistrado, uma aparência que me transmitiu a impressão de que ele considerava o meu relógio não como tendo sido projetado, mas como o projetista de si mesmo e do universo; ou, de qualquer maneira, como uma das primeiras grandes causas de todas as coisas.

Então ocorreu que essa visão era bastante tão provável de ser aceita, por pessoas que não tinham experiência com a civilização europeia, quanto a outra, e eu fiquei um pouco irritado com Paley por ter-me desencaminhado tanto; mas logo eu descobri que eu tinha interpretado mal a expressão do rosto do [49]magistrado, e que ela não era uma de medo, mas de ódio. Ele falou comigo solene e severamente por dois ou três minutos. Então, refletindo que isso não era de utilidade, ele levou-me a ser conduzido, através de várias passagens, para dentro de uma grande sala, a qual eu depois descobri que era o museu da cidade, e na qual eu contemplei uma visão que me espantou mais do que qualquer coisa que eu até agora tinha visto.

Estava cheio com caixas contendo toda forma de curiosidades – tais como esqueletos, pássaros e animais empalhados, esculturas em pedra (das quais eu vi várias que eram como aquelas no anticlinal, apenas menores), mas a grande parte da sala estava ocupada com maquinário de todas as descrições. As amostras maiores tinham um caixa para si mesmas, e etiquetas com escrita nelas em uma escrita que eu não podia entender. Havia fragmentos de motores a vapor, todos quebrados e enferrujados; entre eles eu vi um cilindro e um pistão, um volante quebrado, e parte de uma manivela, a qual estava deitada sobre o chão ao lado deles. Novamente, havia uma antiga carruagem, cujas rodas, a despeito da ferrugem e decadência, eu podia ver, tinham sido originalmente projetadas para trilhos de ferro. De fato, há fragmentos de uma grande quantidade das nossas invenções mais avançadas; mas todas elas pareciam ter várias centenas de anos de idade, e estar colocadas onde elas estavam não para instrução, mas por curiosidade. Como eu disse antes, todas estavam estragadas e quebradas.

Nós passamos por várias caixas, e, finalmente, por uma na qual havia vários relógios e dois ou três relógios antigos. Aqui o magistrado parou e, abrindo uma caixa, começou comparando meu relógio com os outros. O design era diferente, mas claramente a coisa era a mesma. Diante disso, ele virou-se para mim e fez-me um discurso em um tom severo e ofendido de voz, apontando repetidamente para os relógios na caixa e para o meu próprio; nem ele pareceu no mínimo apaziguado até que eu fiz sinais de que ele faria melhor em tomar o meu relógio e colocá-lo com os outros. Isso teve algum efeito para o acalmar. Eu disse em inglês (confiando no tom e [50]na maneira para transmitir o meu significado) que eu estava excessivamente arrependido se eu tinha sido descoberto ter qualquer contrabando em minha posse; que eu não tinha intenção de fugir de pedágios ordinários, e que eu alegremente perderia o relógio se, ao fazer isso, eu repararia uma violação não intencional da lei. Logo ele começou a abrandar, e falou comigo em um tom mais gentil. Eu acho que ele percebeu que eu tinha ofendido sem conhecimento; mas eu acredito que a coisa principal que o fez mudar de opinião foi eu não parecer ter medo dele, embora eu fosse bastante respeitoso; isso, e eu ter cabelo e complexão claros, sobre o qual ele tinha observado anteriormente por sinais, como todos os outros tinham feito.

Subsequentemente, eu descobri que era considerado um mérito muito grande ter cabelo claro, essa sendo uma coisa da mais rara ocorrência e grandemente admirada e invejadas em todos que a possuíam. Não obstante isso possa ser assim, o meu relógio foi tomado de mim; mas a nossa paz foi formada, e eu fui conduzido de volta para a sala onde eu tinha sido examinado. Em seguida, o magistrado fez-me outro discurso, após o que eu fui conduzido a uma sala próxima, a qual eu logo descobri ser a prisão comum da cidade, mas na qual um apartamento foi atribuído a mim, separado dos outros prisioneiros. A sala continha uma cama, mesa, e cadeiras, também uma lareira e um lavatório. Havia outra porta, a qual se abria para uma varanda, com um lance de degraus descendo para dentro de um jardim murado de algum tamanho. O homem que me conduziu para dentro desta sala fez-me sinais de que eu poderia descer e caminhar no jardim sempre que eu desejasse e sugeriu que em breve eu deveria ter alguma trazida para eu comer. Foi permitido que eu retivesse meus cobertores, e as poucas coisas que eu tinha embrulhado dentro deles, mas era evidente que eu devia considerar-me um prisioneiro – por quão longo período, eu não podia determinar por nenhum meio. Em seguida, ele deixou-me sozinho.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 44-50. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/44/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - VI Dentro de Erewhon

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[35]VI Dentro de Erewhon


E agora eu me encontrei em um caminho estreito que seguia um pequeno curso de água. Eu estava feliz demais de ter um caminho fácil para minha fuga, para apreender a significância completa da sua existência. Contudo, o pensamento logo se apresentou para mim de que eu devia estar em uma região habitada, mas uma que ainda era desconhecida. Portanto, qual devia ser o meu destino nas mãos dos seus habitantes? Eu deveria ser capturado e oferecido como um holocausto para aqueles terríveis guardiões da passagem? Poderia ser assim. Eu estremeci diante do pensamento, todavia, os horrores da solidão agora tinham bastante posse de mim; e tão atordoado eu estava, e gelado, e aflito, que eu não conseguia apreender nenhuma ideia firmemente em meio à multidão de fantasias que se mantinham perambulando no meu cérebro.

Eu apressei-me adiante – para baixo, para baixo, para baixo. Mais córregos chegaram; então havia uma ponte, umas toras de pinheiro jogadas sobre água; mas elas deram-me conforto, pois selvagens não constroem pontes. Em seguida, eu tive um deleite tal como eu não posso nunca comunicar no papel – um momento, talvez, o mais impactante e inesperado na minha inteira vida – um que, eu penso, com algumas três ou quatro exceções, eu mais de boa vontade, teria novamente, fosse eu capaz de lembrar. Eu cheguei abaixo do nível das nuvens, dentro de uma explosão de brilhante luz do sol da tarde. Eu estava encarando o noroeste, e o sol estava cheio sobre mim. Oh, como a sua luz animou-me! Mas o que eu vi! Era uma expansão tão grande como foi revelada a Moisés quando ele ficou de pé no cume do Monte Sinai, e contemplou aquela terra prometida que não devia ser sua para entrar. O belo céu de por do sol era carmesim e dourado; azul, prata e púrpura; esquisito e tranquilizador; desaparecendo ali havia planícies, sobre as quais eu podia ver uma vila e cidade, com prédios que tinha com campanários elevados e cúpulas arredondas. Mais perto debaixo de mim estendiam-se crista por trás de crista, contorno por trás de contorno, luz do sol por trás de sombra, e sombra por trás de luz do sol, ravina escavada e serrada. Eu vi grandes florestas de pinheiro, e o brilho de uma rio nobre serpenteando [36]o seu caminho sobre as planícies; também muitas vilas e aldeias, algumas delas bastante próximas à mão; e era sobre essas que eu mais ponderei. Eu afundei-me sobre o chão ao pé de uma grande árvore e pensei sobre o que eu deveria fazer; mas eu não pude me decidir. Eu estava bastante cansado; e logo, sentindo-me aquecido pelo sol, e acalmado, eu caí em um sono profundo.

Eu despertei pelo som de sinos tilintando e, olhando para cima, eu vi quatro ou cinco bodes alimentando-se perto de mim. Tão logo eu me movi, as criaturas viraram as cabeças na minha direção com uma expressão de admiração infinita. Eles não correram, mas permaneceram estupidamente paradas, e examinaram-me a partir de cada lado, como eu a elas. Em seguida surgiu o som de tagarelice e riso, e ali se aproximaram duas garotas amáveis, de aproximadamente dezessete ou dezoito anos, cada uma vestida em um tipo de gabão de linho, com um cinto em volta da sua cintura. Elas viram-me. Eu sentei-me bastante quieto e examinei-as, deslumbrado com a sua beleza extrema. Por um momento, elas examinaram-me e a si mesmas em grande admiração; em seguida, elas deram um grito pouco assustado e correram tão intensamento quanto elas puderam.

Então é isso,” eu disse para mim mesmo, enquanto eu as observava correndo precipitadamente. Eu sabia que eu faria melhor em permanecer onde eu estava e encontrar meu destino, seja o que for que ele devesse ser, e mesmo se houvesse um curso melhor, eu não tinha força restante para o tomar. Melhor não parecer com medo deles, como eu deveria fazer correndo para longe e sendo capturado com brado ou grito amanhã ou no próximo dia. Assim, eu permaneci parado e esperei. Em aproximadamente uma hora eu ouvi vozes falando animadamente e, em uns poucos minutos, eu vi as duas garotas trazendo um grupo de seis ou sete homens, bem armados com arcos e flechas e piques. Não havia nada para isso, assim eu permaneci sentado bastante quieto, mesmo após eles terem visto-me, até que eles chegaram perto. Então todos demos uma boa olhada uns nos outros.

Tanto as garotas quanto os homens eram muito escuros em cor, [37]mas não mais do que italianos do sul ou espanhóis. Os homens não usavam calças, mas estavam vestidos quase igualmente aos árabes que eu tinha visto na Algeria. Eles eram da presença mais magnificente, sendo não menos fortes e belos do que as mulheres eram belas; e não apenas isso, mas a expressão deles era cortês e benigna. Eu penso que eles teriam me matado imediatamente, se eu tivesse feito a mais leve demonstração de violência; mas eles não deram nenhuma impressão de serem prováveis de me machucar enquanto eu ficasse quieto. Eu não sou muito de gostar de ninguém à primeira vista, mas essas pessoas me impressionaram muito mais favoravelmente do que eu deverei ter considerado possível, de maneira que eu não podia os temer enquanto eu examinava os seus rostos, um depois do outro. Eles todos eram homens poderosos. Eu poderia ter sido um rival para qualquer um deles isoladamente, pois me contaram que eu tenho mais glória na carne do que em qualquer outro aspecto, sendo mais de seis pés de altura e proporcionalmente forte; mas quaisquer dois poderiam ter me dominado, mesmo se eu não estivesse abandonado de energia pelas minhas aventuras recentes. Minha cor parecia surpreender-lhes muito, pois eu tinha cabelo claro, olhos azuis e uma compleição clara. Eles não podiam entender como essas coisas podiam existir; minhas roupas também pareciam bastante além deles. Os olhos deles se mantiveram percorrendo-me todo, e, quanto mais eles olhavam, menos eles pareciam capazes de me entender.

Finalmente eu fiquei de pé e, apoiando-me sobre meu bastão, eu falei seja o que for que veio em minha cabeça para o homem que parecia o principal entre eles. Eu falei em inglês, embora eu estivesse certo de que ele não entenderia. Eu disse que não tinha ideia de em qual país eu estava; com o qual eu tinha topado quase que por acidente, após uma série de escapadas por um triz; e que eu confiava que eles não permitiriam que nenhum mal me atingisse agora que eu estava completamente sob a misericórdia deles. Tudo isso eu disse quieta e firmemente, dificilmente com alguma mudança de expressão. Eles não conseguiram me entender, mas eles olharam aprovativamente uns para os outros, e pareceram [38]satisfeitos (assim eu pensei) que eu não mostrei nenhum medo nem reconhecimento de inferioridade – o fato sendo que eu estava além do senso de medo. Em seguida, um deles apontou para a montanha, na direção das estátuas, e fez uma careta em imitação de uma delas. Eu ri e estremeci expressivamente, no que todos eles irromperam rindo também, e tagarelaram uns com os outros. Eu não consegui entender nada do que eles disseram, mas eu penso que eles consideraram uma piada muito boa que eu tivesse atravessado as estátuas. Em seguida, um entre eles veio adiante e gesticulou para que eu o seguisse, o que eu fiz sem hesitação, pois eu não me atrevi a contrariá-los; além disso, eu gostava suficientemente bem deles, e tinha toleravelmente certeza que eles não tinha intenção de me machucar.

Em aproximadamente um quarto de hora nós chegamos a uma pequena aldeia construída sobre o lado de uma colina, com uma rua estreita e casas amontoadas. Os tetos eram largos e salientes. Algumas poucas janelas eram envidraçadas, mas não muitas. No todo, a vila era excessivamente semelhante àquelas com as quais alguém se depara descendo as passagens menos conhecidas através do Alpes para a Lombardia. Eu passarei por cima da excitação que a minha chegada causou. É suficiente que, embora houvesse uma abundância de curiosidade, não houve grosseria. Eu fui levado à casa principal, a qual parecia pertencer à gente que tinha me capturado. Ali, eu fui hospitaleiramente entretido, e uma ceia de leite e carne de bode com um tipo de bolo de aveia foi colocada diante de mim, da qual comi sinceramente. Mas, durante todo o tempo que eu estava comendo, eu não consegui evitar de virar meu olhos para as duas belas garotas que eu primeiramente tinha visto, e que pareciam me considerar como seu prêmio legítimo – o que, de fato, eu era, pois teria atravessado fogo e água por qualquer uma delas.

Em seguida veio a surpresa inevitável ao verem-me fumar, da qual eu pouparei o leitor; mas eu notei que, quando eles me viram acender um cigarro, houve um burburinho de excitação que, quando me atingiu, não estava completamente desagregado de desaprovação; porque, eu não conseguia advinhar. Então as mulheres [39]retiraram-se, e eu fui deixado sozinho com os homens, quem tentaram falar comigo de todo forma concebível; não nós não pudemos chegar a nenhum entendimento, exceto que eu estava bastante sozinho, e tinha vindo de um longo caminho através das montanhas. No curso do tempo, eles cansaram-se, e eu tornei-me sonolento. Eu fiz sinais como se eu fosse dormir sobre o chão em minhas cobertas, mas eles deram-me uma das suas tarimbas com abundância de samambaia e grama seca, sobre a qual eu tinha, não antes que eu me deitasse, adormecido; nem eu despertei antes que estivesse bem dentro do dia seguinte, quando eu me encontrei na cabana com dois homens mantendo guarda sobre mim e uma velha mulher cozinhando. Quando eu acordei, os homens pareceram satisfeitos, e falaram comigo como se desejando bom dia em um tom agradável.

Eu saí pelas portas para me lavar em um riacho que corria a umas poucas jardas da casa. Os meus anfitriões estavam absortos comigo, como sempre; eles nunca tiravam os olhos deles de mim, seguindo cada ação que eu realizava, não importa quão insignificante. Eles tinham grande interesse em minha abluções, pois eles pareciam ter duvida de se, em todos os aspectos, eu era humano como eles mesmos. Eles até seguraram os meus braços e inspecionaram-nos, e expressaram aprovação quando eles viram que eram fortes e musculares. Agora eles examinaram minhas pernas e, especialmente, meus pés. Quando desistiram, eles acenaram aprovativamente com a cabeça uns para os outro; e quando eles tinham penteado e escovado meu cabelo e, geralmente, tornado-me tão limpo e bem arrumado quanto as circunstâncias permitiriam, eu pude ver que o respeito deles por mim aumentou grandemente, e que eles, de maneira nenhuma, estavam certos que eles tinham me tratado com deferência suficiente – uma questão sobre a qual eu não era competente para decidir. Tudo o que eu sabia é que eles eram muito bons para mim, pelo que eu os agradeci de coração, visto que bem poderia ter sido de outra maneira.

Pela minha própria parte, eu gostava deles e admirava-os, pois seus autocontrole quieto e tranquilidade dignificada impressionaram-me [40]agradavelmente de imediato. Nem as maneiras deles fizeram-me sentir como seu eu fosse pessoalmente desagradável para eles – apenas que eu era uma coisa completamente nova e inesperada, a qual eles não conseguiam compreender. O tipo deles era mais como o daquele dos mais robustos italianos do que de qualquer outro; as maneiras deles também eram eminentemente italianas, em sua inteira inconsciência de si. Tendo viajado bastante pela Itália, eu fui atingido com pequenos gestos da mão e dos ombros, os quais constantemente me lembravam daquele país. Meu sentimento era que o plano mais sábio seria prosseguir como eu tinha começado e ser simplesmente eu mesmo, para melhor ou pior, tal como eu era, e tomar cada chance de acordo.

Eu pensei nessas coisas enquanto eles estava esperando eu ter terminado de me lavar, e estava no meu caminho de volta. Então eles deram-me café da manhã – pão e leite quentes e carne frita de alguma coisa entre carneiro e veado. As maneiras deles de cozinhar e comer eram europeias, embora eles apenas tivessem um espeto por um garfo e um tipo de faca de açougueiro com a qual cortar. Quanto mais eu examinava tudo na casa, mas eu ficava chocado com essa característica quase-europeia; e tivessem as paredes coladas com extratos de The Illustrated London News e Punch, eu quase poderia me imaginar em uma cabana de pastor no rancho de ovelhas do meu mestre. E contudo, tudo era levemente diferente. Era muito o mesmo com os pássaros e as flores do outro lado, quando comparados com os ingleses. Durante a minha chegada eu tinha ficado muito satisfeito notando que quase todas as plantas e todos os pássaros eram muito como os ingleses comuns: dessa forma, havia um pisco, e um cotovia, e uma carriça, e margaridas, e dentes-de-leão; não exatamente os mesmos que os ingleses, mas ainda muito semelhantes a eles – muito suficientemente semelhantes a eles para serem chamados pelo mesmo nome; assim agora, aqui, as maneiras desses dois homens, e as coisas que eles tinham na casa, eram todas muito quase as mesmas que na Europa. Absolutamente não era como na China ou no Japão, onde tudo que alguém vê é estranho. De fato, eu imediatamente fiquei chocado com o caráter primitivo dos utensílios deles, pois [41]eles pareciam estar a alguns cinco ou seis séculos atrás da Europa em suas invenções; mas esse é caso em muitas vilas italianas.

Durante todo o tempo que eu estava tomando meu café da manhã eu continuei especulando sobre a qual família de humanidade eles poderiam pertencer; e pouco depois surgiu uma ideia em minha cabeça, a qual trouxe sangue para minhas bochechas com excitação enquanto eu pensava nela. Era possível que eles pudessem ser as dez tribos perdidas de Israel, de quem eu tinha ouvido tanto do meu avô quanto de meu pai fazerem menção como existindo em uma país desconhecido, e esperando um retorno final à Palestina? Era possível que eu pudesse ter sido designado pela Providência como instrumento da conversão delas? Oh, que pensamento era esse! Eu baixei meu espeto e dei-lhes uma rápida análise. Não havia nada de um tipo judaico sobre eles: os narizes deles eram distintamente gregos, e seus lábios, embora cheios, não eram judaicos.

Como eu poderia resolver essa questão? Eu não conhecia nem o grego nem o hebreu, e mesmo se eu devesse conseguir entender a linguagem falada aqui, eu deveria ser incapaz de detectar as raízes de qualquer uma dessas línguas. Eu não tinha estado entre eles por tempo suficientemente longo para determinar os seus hábitos, mas eles não me deram a impressão de serem um povo religioso. Isso também era natural: as dez tribos sempre tinham sido lamentavelmente irreligiosas. Mas eu não poderia fazê-los mudar? Restaurar as últimas dez tribos de Israel a um conhecimento da verdade única: aqui, de fato, seria uma coroa imortal de glória! Meu coração batia rápido e furioso enquanto eu entretinha o pensamento. Que posição isso não me asseguraria no próximo mundo; ou talvez mesmo neste! Que loucura seria jogar fora essa chance. Eu deveria ranquear-me próximo dos Apóstolos, se não tão alto quanto eles – certamente acima dos profetas menores, e possivelmente acima de qualquer escritor do Antigo Testamente, exceto Moisés e Isaías. Por um tal futuro como esse eu sacrificaria tudo o que eu tenho sem um momento de hesitação, pudesse eu estar razoavelmente certo disso. Eu sempre tinha [42]aprovado cordialmente os esforços missionários, e, às vezes, tinha contribuído minha migalha em relação ao suporte e extensão deles; mas, até agora, eu nunca tinha me sentido atraído na direção de me tornar um missionário; e de fato, sempre os admirei, invejei e respeitei, mas do que exatamente eu tinha gostado deles. Mas se essas pessoas fossem as dez tribos perdidas de Israel, o caso seria amplamente diferente: a oportunidade seria excelente demais para ser perdida, e eu resolvi que, devesse eu ver indicações que pareciam confirmar minha impressão de que, de fato, eu tinha me deparado com as tribos faltantes, eu certamente as converteria.

Aqui eu posso mencionar que essa descoberta é uma à qual eu aludi nas páginas iniciais da minha história. O tempo fortaleceu a impressão produzida inicialmente sobre mim; e, embora eu permanecesse em dúvida por vários meses, eu agora não me sentia mais incerto.

Quando eu terminei de comer, meus anfitriões aproximaram-se, e apontaram vale abaixo conduzindo para a sua própria região, como se desejosos de mostrar que eu devo ir com eles; ao mesmo, eles seguraram meus braços, e fizeram como se eles me tomassem, mas não usaram violência. Eu ri e movi minha mão através da garganta, apontando vale abaixo, como se eu estivesse com medo de que eu devesse ser morto quando eu chegasse lá. Mas eles adivinharam-me imediatamente e sacudiram as cabeças com muita decisão para mostrar que eu não estava em perigo. A maneira deles muito me tranquilizou; e, em uma meia-hora ou aproximadamente, eu tinha empacotado a minha bagagem, e estava ansioso pela viagem adiante, sentindo-me maravilhosamente fortalecido e refrescado pela boa comida e bom sono, enquanto minha esperança e curiosidade foram excitadas aos seus máximos pela posição extraordinária na qual eu me encontrava.

Mas a minha excitação já começou a esfriar; e eu refleti que, afinal essas pessoas poderiam não ser as dez tribos; caso no qual eu não poderia senão me arrepender de que minhas esperanças de fazer dinheiro, as quais tinham me conduzido a tanto trabalho e perigo, estavam quase aniquiladas pelo fato de que [43]o país estava cheio para transbordar, com um povo que, provavelmente, já tinha desenvolvido os seus recursos mais valiosos. Além disso, como eu devia retornar? Pois, havia alguma coisa sobre os meus anfitriões que me dizia que eles tinham me pego, e pretendiam manter-me, a despeito de toda a sua bondade.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 35-43. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/35/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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