Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[35]VI Dentro de Erewhon
E agora eu me encontrei em um caminho estreito que seguia um pequeno curso de água. Eu estava feliz demais de ter um caminho fácil para minha fuga, para apreender a significância completa da sua existência. Contudo, o pensamento logo se apresentou para mim de que eu devia estar em uma região habitada, mas uma que ainda era desconhecida. Portanto, qual devia ser o meu destino nas mãos dos seus habitantes? Eu deveria ser capturado e oferecido como um holocausto para aqueles terríveis guardiões da passagem? Poderia ser assim. Eu estremeci diante do pensamento, todavia, os horrores da solidão agora tinham bastante posse de mim; e tão atordoado eu estava, e gelado, e aflito, que eu não conseguia apreender nenhuma ideia firmemente em meio à multidão de fantasias que se mantinham perambulando no meu cérebro.
Eu apressei-me adiante – para baixo, para baixo, para baixo. Mais córregos chegaram; então havia uma ponte, umas toras de pinheiro jogadas sobre água; mas elas deram-me conforto, pois selvagens não constroem pontes. Em seguida, eu tive um deleite tal como eu não posso nunca comunicar no papel – um momento, talvez, o mais impactante e inesperado na minha inteira vida – um que, eu penso, com algumas três ou quatro exceções, eu mais de boa vontade, teria novamente, fosse eu capaz de lembrar. Eu cheguei abaixo do nível das nuvens, dentro de uma explosão de brilhante luz do sol da tarde. Eu estava encarando o noroeste, e o sol estava cheio sobre mim. Oh, como a sua luz animou-me! Mas o que eu vi! Era uma expansão tão grande como foi revelada a Moisés quando ele ficou de pé no cume do Monte Sinai, e contemplou aquela terra prometida que não devia ser sua para entrar. O belo céu de por do sol era carmesim e dourado; azul, prata e púrpura; esquisito e tranquilizador; desaparecendo ali havia planícies, sobre as quais eu podia ver uma vila e cidade, com prédios que tinha com campanários elevados e cúpulas arredondas. Mais perto debaixo de mim estendiam-se crista por trás de crista, contorno por trás de contorno, luz do sol por trás de sombra, e sombra por trás de luz do sol, ravina escavada e serrada. Eu vi grandes florestas de pinheiro, e o brilho de uma rio nobre serpenteando [36]o seu caminho sobre as planícies; também muitas vilas e aldeias, algumas delas bastante próximas à mão; e era sobre essas que eu mais ponderei. Eu afundei-me sobre o chão ao pé de uma grande árvore e pensei sobre o que eu deveria fazer; mas eu não pude me decidir. Eu estava bastante cansado; e logo, sentindo-me aquecido pelo sol, e acalmado, eu caí em um sono profundo.
Eu despertei pelo som de sinos tilintando e, olhando para cima, eu vi quatro ou cinco bodes alimentando-se perto de mim. Tão logo eu me movi, as criaturas viraram as cabeças na minha direção com uma expressão de admiração infinita. Eles não correram, mas permaneceram estupidamente paradas, e examinaram-me a partir de cada lado, como eu a elas. Em seguida surgiu o som de tagarelice e riso, e ali se aproximaram duas garotas amáveis, de aproximadamente dezessete ou dezoito anos, cada uma vestida em um tipo de gabão de linho, com um cinto em volta da sua cintura. Elas viram-me. Eu sentei-me bastante quieto e examinei-as, deslumbrado com a sua beleza extrema. Por um momento, elas examinaram-me e a si mesmas em grande admiração; em seguida, elas deram um grito pouco assustado e correram tão intensamento quanto elas puderam.
“Então é isso,” eu disse para mim mesmo, enquanto eu as observava correndo precipitadamente. Eu sabia que eu faria melhor em permanecer onde eu estava e encontrar meu destino, seja o que for que ele devesse ser, e mesmo se houvesse um curso melhor, eu não tinha força restante para o tomar. Melhor não parecer com medo deles, como eu deveria fazer correndo para longe e sendo capturado com brado ou grito amanhã ou no próximo dia. Assim, eu permaneci parado e esperei. Em aproximadamente uma hora eu ouvi vozes falando animadamente e, em uns poucos minutos, eu vi as duas garotas trazendo um grupo de seis ou sete homens, bem armados com arcos e flechas e piques. Não havia nada para isso, assim eu permaneci sentado bastante quieto, mesmo após eles terem visto-me, até que eles chegaram perto. Então todos demos uma boa olhada uns nos outros.
Tanto as garotas quanto os homens eram muito escuros em cor, [37]mas não mais do que italianos do sul ou espanhóis. Os homens não usavam calças, mas estavam vestidos quase igualmente aos árabes que eu tinha visto na Algeria. Eles eram da presença mais magnificente, sendo não menos fortes e belos do que as mulheres eram belas; e não apenas isso, mas a expressão deles era cortês e benigna. Eu penso que eles teriam me matado imediatamente, se eu tivesse feito a mais leve demonstração de violência; mas eles não deram nenhuma impressão de serem prováveis de me machucar enquanto eu ficasse quieto. Eu não sou muito de gostar de ninguém à primeira vista, mas essas pessoas me impressionaram muito mais favoravelmente do que eu deverei ter considerado possível, de maneira que eu não podia os temer enquanto eu examinava os seus rostos, um depois do outro. Eles todos eram homens poderosos. Eu poderia ter sido um rival para qualquer um deles isoladamente, pois me contaram que eu tenho mais glória na carne do que em qualquer outro aspecto, sendo mais de seis pés de altura e proporcionalmente forte; mas quaisquer dois poderiam ter me dominado, mesmo se eu não estivesse abandonado de energia pelas minhas aventuras recentes. Minha cor parecia surpreender-lhes muito, pois eu tinha cabelo claro, olhos azuis e uma compleição clara. Eles não podiam entender como essas coisas podiam existir; minhas roupas também pareciam bastante além deles. Os olhos deles se mantiveram percorrendo-me todo, e, quanto mais eles olhavam, menos eles pareciam capazes de me entender.
Finalmente eu fiquei de pé e, apoiando-me sobre meu bastão, eu falei seja o que for que veio em minha cabeça para o homem que parecia o principal entre eles. Eu falei em inglês, embora eu estivesse certo de que ele não entenderia. Eu disse que não tinha ideia de em qual país eu estava; com o qual eu tinha topado quase que por acidente, após uma série de escapadas por um triz; e que eu confiava que eles não permitiriam que nenhum mal me atingisse agora que eu estava completamente sob a misericórdia deles. Tudo isso eu disse quieta e firmemente, dificilmente com alguma mudança de expressão. Eles não conseguiram me entender, mas eles olharam aprovativamente uns para os outros, e pareceram [38]satisfeitos (assim eu pensei) que eu não mostrei nenhum medo nem reconhecimento de inferioridade – o fato sendo que eu estava além do senso de medo. Em seguida, um deles apontou para a montanha, na direção das estátuas, e fez uma careta em imitação de uma delas. Eu ri e estremeci expressivamente, no que todos eles irromperam rindo também, e tagarelaram uns com os outros. Eu não consegui entender nada do que eles disseram, mas eu penso que eles consideraram uma piada muito boa que eu tivesse atravessado as estátuas. Em seguida, um entre eles veio adiante e gesticulou para que eu o seguisse, o que eu fiz sem hesitação, pois eu não me atrevi a contrariá-los; além disso, eu gostava suficientemente bem deles, e tinha toleravelmente certeza que eles não tinha intenção de me machucar.
Em aproximadamente um quarto de hora nós chegamos a uma pequena aldeia construída sobre o lado de uma colina, com uma rua estreita e casas amontoadas. Os tetos eram largos e salientes. Algumas poucas janelas eram envidraçadas, mas não muitas. No todo, a vila era excessivamente semelhante àquelas com as quais alguém se depara descendo as passagens menos conhecidas através do Alpes para a Lombardia. Eu passarei por cima da excitação que a minha chegada causou. É suficiente que, embora houvesse uma abundância de curiosidade, não houve grosseria. Eu fui levado à casa principal, a qual parecia pertencer à gente que tinha me capturado. Ali, eu fui hospitaleiramente entretido, e uma ceia de leite e carne de bode com um tipo de bolo de aveia foi colocada diante de mim, da qual comi sinceramente. Mas, durante todo o tempo que eu estava comendo, eu não consegui evitar de virar meu olhos para as duas belas garotas que eu primeiramente tinha visto, e que pareciam me considerar como seu prêmio legítimo – o que, de fato, eu era, pois teria atravessado fogo e água por qualquer uma delas.
Em seguida veio a surpresa inevitável ao verem-me fumar, da qual eu pouparei o leitor; mas eu notei que, quando eles me viram acender um cigarro, houve um burburinho de excitação que, quando me atingiu, não estava completamente desagregado de desaprovação; porque, eu não conseguia advinhar. Então as mulheres [39]retiraram-se, e eu fui deixado sozinho com os homens, quem tentaram falar comigo de todo forma concebível; não nós não pudemos chegar a nenhum entendimento, exceto que eu estava bastante sozinho, e tinha vindo de um longo caminho através das montanhas. No curso do tempo, eles cansaram-se, e eu tornei-me sonolento. Eu fiz sinais como se eu fosse dormir sobre o chão em minhas cobertas, mas eles deram-me uma das suas tarimbas com abundância de samambaia e grama seca, sobre a qual eu tinha, não antes que eu me deitasse, adormecido; nem eu despertei antes que estivesse bem dentro do dia seguinte, quando eu me encontrei na cabana com dois homens mantendo guarda sobre mim e uma velha mulher cozinhando. Quando eu acordei, os homens pareceram satisfeitos, e falaram comigo como se desejando bom dia em um tom agradável.
Eu saí pelas portas para me lavar em um riacho que corria a umas poucas jardas da casa. Os meus anfitriões estavam absortos comigo, como sempre; eles nunca tiravam os olhos deles de mim, seguindo cada ação que eu realizava, não importa quão insignificante. Eles tinham grande interesse em minha abluções, pois eles pareciam ter duvida de se, em todos os aspectos, eu era humano como eles mesmos. Eles até seguraram os meus braços e inspecionaram-nos, e expressaram aprovação quando eles viram que eram fortes e musculares. Agora eles examinaram minhas pernas e, especialmente, meus pés. Quando desistiram, eles acenaram aprovativamente com a cabeça uns para os outro; e quando eles tinham penteado e escovado meu cabelo e, geralmente, tornado-me tão limpo e bem arrumado quanto as circunstâncias permitiriam, eu pude ver que o respeito deles por mim aumentou grandemente, e que eles, de maneira nenhuma, estavam certos que eles tinham me tratado com deferência suficiente – uma questão sobre a qual eu não era competente para decidir. Tudo o que eu sabia é que eles eram muito bons para mim, pelo que eu os agradeci de coração, visto que bem poderia ter sido de outra maneira.
Pela minha própria parte, eu gostava deles e admirava-os, pois seus autocontrole quieto e tranquilidade dignificada impressionaram-me [40]agradavelmente de imediato. Nem as maneiras deles fizeram-me sentir como seu eu fosse pessoalmente desagradável para eles – apenas que eu era uma coisa completamente nova e inesperada, a qual eles não conseguiam compreender. O tipo deles era mais como o daquele dos mais robustos italianos do que de qualquer outro; as maneiras deles também eram eminentemente italianas, em sua inteira inconsciência de si. Tendo viajado bastante pela Itália, eu fui atingido com pequenos gestos da mão e dos ombros, os quais constantemente me lembravam daquele país. Meu sentimento era que o plano mais sábio seria prosseguir como eu tinha começado e ser simplesmente eu mesmo, para melhor ou pior, tal como eu era, e tomar cada chance de acordo.
Eu pensei nessas coisas enquanto eles estava esperando eu ter terminado de me lavar, e estava no meu caminho de volta. Então eles deram-me café da manhã – pão e leite quentes e carne frita de alguma coisa entre carneiro e veado. As maneiras deles de cozinhar e comer eram europeias, embora eles apenas tivessem um espeto por um garfo e um tipo de faca de açougueiro com a qual cortar. Quanto mais eu examinava tudo na casa, mas eu ficava chocado com essa característica quase-europeia; e tivessem as paredes coladas com extratos de The Illustrated London News e Punch, eu quase poderia me imaginar em uma cabana de pastor no rancho de ovelhas do meu mestre. E contudo, tudo era levemente diferente. Era muito o mesmo com os pássaros e as flores do outro lado, quando comparados com os ingleses. Durante a minha chegada eu tinha ficado muito satisfeito notando que quase todas as plantas e todos os pássaros eram muito como os ingleses comuns: dessa forma, havia um pisco, e um cotovia, e uma carriça, e margaridas, e dentes-de-leão; não exatamente os mesmos que os ingleses, mas ainda muito semelhantes a eles – muito suficientemente semelhantes a eles para serem chamados pelo mesmo nome; assim agora, aqui, as maneiras desses dois homens, e as coisas que eles tinham na casa, eram todas muito quase as mesmas que na Europa. Absolutamente não era como na China ou no Japão, onde tudo que alguém vê é estranho. De fato, eu imediatamente fiquei chocado com o caráter primitivo dos utensílios deles, pois [41]eles pareciam estar a alguns cinco ou seis séculos atrás da Europa em suas invenções; mas esse é caso em muitas vilas italianas.
Durante todo o tempo que eu estava tomando meu café da manhã eu continuei especulando sobre a qual família de humanidade eles poderiam pertencer; e pouco depois surgiu uma ideia em minha cabeça, a qual trouxe sangue para minhas bochechas com excitação enquanto eu pensava nela. Era possível que eles pudessem ser as dez tribos perdidas de Israel, de quem eu tinha ouvido tanto do meu avô quanto de meu pai fazerem menção como existindo em uma país desconhecido, e esperando um retorno final à Palestina? Era possível que eu pudesse ter sido designado pela Providência como instrumento da conversão delas? Oh, que pensamento era esse! Eu baixei meu espeto e dei-lhes uma rápida análise. Não havia nada de um tipo judaico sobre eles: os narizes deles eram distintamente gregos, e seus lábios, embora cheios, não eram judaicos.
Como eu poderia resolver essa questão? Eu não conhecia nem o grego nem o hebreu, e mesmo se eu devesse conseguir entender a linguagem falada aqui, eu deveria ser incapaz de detectar as raízes de qualquer uma dessas línguas. Eu não tinha estado entre eles por tempo suficientemente longo para determinar os seus hábitos, mas eles não me deram a impressão de serem um povo religioso. Isso também era natural: as dez tribos sempre tinham sido lamentavelmente irreligiosas. Mas eu não poderia fazê-los mudar? Restaurar as últimas dez tribos de Israel a um conhecimento da verdade única: aqui, de fato, seria uma coroa imortal de glória! Meu coração batia rápido e furioso enquanto eu entretinha o pensamento. Que posição isso não me asseguraria no próximo mundo; ou talvez mesmo neste! Que loucura seria jogar fora essa chance. Eu deveria ranquear-me próximo dos Apóstolos, se não tão alto quanto eles – certamente acima dos profetas menores, e possivelmente acima de qualquer escritor do Antigo Testamente, exceto Moisés e Isaías. Por um tal futuro como esse eu sacrificaria tudo o que eu tenho sem um momento de hesitação, pudesse eu estar razoavelmente certo disso. Eu sempre tinha [42]aprovado cordialmente os esforços missionários, e, às vezes, tinha contribuído minha migalha em relação ao suporte e extensão deles; mas, até agora, eu nunca tinha me sentido atraído na direção de me tornar um missionário; e de fato, sempre os admirei, invejei e respeitei, mas do que exatamente eu tinha gostado deles. Mas se essas pessoas fossem as dez tribos perdidas de Israel, o caso seria amplamente diferente: a oportunidade seria excelente demais para ser perdida, e eu resolvi que, devesse eu ver indicações que pareciam confirmar minha impressão de que, de fato, eu tinha me deparado com as tribos faltantes, eu certamente as converteria.
Aqui eu posso mencionar que essa descoberta é uma à qual eu aludi nas páginas iniciais da minha história. O tempo fortaleceu a impressão produzida inicialmente sobre mim; e, embora eu permanecesse em dúvida por vários meses, eu agora não me sentia mais incerto.
Quando eu terminei de comer, meus anfitriões aproximaram-se, e apontaram vale abaixo conduzindo para a sua própria região, como se desejosos de mostrar que eu devo ir com eles; ao mesmo, eles seguraram meus braços, e fizeram como se eles me tomassem, mas não usaram violência. Eu ri e movi minha mão através da garganta, apontando vale abaixo, como se eu estivesse com medo de que eu devesse ser morto quando eu chegasse lá. Mas eles adivinharam-me imediatamente e sacudiram as cabeças com muita decisão para mostrar que eu não estava em perigo. A maneira deles muito me tranquilizou; e, em uma meia-hora ou aproximadamente, eu tinha empacotado a minha bagagem, e estava ansioso pela viagem adiante, sentindo-me maravilhosamente fortalecido e refrescado pela boa comida e bom sono, enquanto minha esperança e curiosidade foram excitadas aos seus máximos pela posição extraordinária na qual eu me encontrava.
Mas a minha excitação já começou a esfriar; e eu refleti que, afinal essas pessoas poderiam não ser as dez tribos; caso no qual eu não poderia senão me arrepender de que minhas esperanças de fazer dinheiro, as quais tinham me conduzido a tanto trabalho e perigo, estavam quase aniquiladas pelo fato de que [43]o país estava cheio para transbordar, com um povo que, provavelmente, já tinha desenvolvido os seus recursos mais valiosos. Além disso, como eu devia retornar? Pois, havia alguma coisa sobre os meus anfitriões que me dizia que eles tinham me pego, e pretendiam manter-me, a despeito de toda a sua bondade.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 35-43. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/35/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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