[147]Eu acordei cedo. A explicação de Moreau colocou-se diante de minha mente, clara e definida, desde o momento de meu despertar. Eu saí da minha rede de dormir e caminhei até a porta para me assegurar de que a chave estava virada. Em seguida, eu tentei a barra da janela, e encontrei-a firmemente fixa. Que essas criaturas semelhantes a homens eram, na verdade, apenas monstros bestiais, meras caricaturas grotescas de homens, encheu-me com uma incerteza vaga que era muito pior do qualquer medo definido.
Uma batida surgiu na porta, e eu ouvi os sotaques glutinosos de M’ling falando. Eu coloquei um dos revólveres dentro do bolso (mantendo uma mão sobre ele) e abri para ele.
“Bom dia, senhor,” ele disse, trazendo, em adição ao costumeiro café da manhã de ervas, um coelho mal cozido. Montgomery seguiu-o. [148]O olho errante dele notou a posição do meu braço, e ele sorriu torto.
O puma estava descansando para se recuperar naquele dia; mas Moreau, quem era singularmente solitário em seus hábitos, não se juntou a nós. Eu falei com Montgomery para clarear minhas ideias sobre a maneira na qual o povo-besta vivia. Em particular, eu estava desesperado para saber como esses monstros inumanos eram impedidos de caírem sobre Moreau e Montgomery e de despedaçarem um ao outro. Ele explicou para mim que a segurança comparativa de Moreau e dele mesmo era devida ao escopo mental limitado desses monstros. A despeito da sua inteligência limitada e da tendência de seus instintos animais serem redespertados, eles tiveram certas ideias fixas implantadas por Moreau nas mentes deles, a qual restringia absolutamente as suas imaginações. Eles estavam realmente hipnotizados; tem sido contado a eles que certas coisas eram impossíveis, e que certas coisas não deviam ser feitas, e que estas proibições estavam entrelaçadas nas texturas das suas mentes além de qualquer possibilidade de desobediência ou disputa.
Contudo, certos assuntos nos quais o velho instinto estava em guerra com a conveniência de Moreau, [149]estavam em uma condição menos estável. Uma série de proposições chamadas de a Lei (eu já as tinha ouvido recitadas) batalhava em suas mentes com os desejos profudamente arraigados e sempre rebeldes de suas naturezas animais. Essa Lei eles estavam sempre repetindo, eu descobri, e sempre infringindo. Tanto Montgomery quanto Moreau exibiam solicitude particular para os manter ignorantes do gosto de sangue; eles temiam as sugestões inevitáveis desse sabor. Montgomery disse-me que a Lei, especialmente entre o povo-besta felino, tornava-se estranhamente enfraquecido por volta do anoitecer; que então o animal estava no seu mais forte; que um espírito de aventura surge neles durante o anoitecer, quando eles se atreveriam a coisas sobre as quais eles nunca pareceram sonhar durante o dia. A isso eu devi a minha perseguição pelo homem-leopardo, na noite da minha chegada. Mas durante esses dias iniciais da minha estada eles infringiram a Lei apenas furtivamente e após a escuridão; à lei luz dia havia uma atmosfera geral por suas proibições multifárias.
E talvez aqui eu possa fornecer alguns fatos gerais sobre a ilha e o povo-besta. A ilha, a qual era de contorno irregular e [150]estendia-se sobre o mar aberto, tinha uma área total de, eu suponho, sete ou oito milhas quadradas.1 Ela era de origem vulcânica, e agora era orlada em três lados por recifes de corais; algumas fumarolas para o norte, e uma fonte quente, eram os únicos vestígios das forças que há muito desde então a originaram. De vez em quando, um tremor fraco de terremoto seria sensível, e, algumas vezes, a ascensão do cone de fumaça seria tornada tumultuosa pelas rajadas de vapor; mas isso era tudo. A população da ilha, Montgomery informou-me, agora se contava em mais do que sessenta dessas estranhas criações da arte de Moreau, não contando as monstruosidades menores que viviam na vegetação rasteira e não tinham a forma humana. No todo, ele tinha criado quase cento e vinte; mas muitas tinham morrido, e outras – como a Coisa Sem pés que se contorce sobre as quais ele me contou – tinham chegado a um fim violento. Em resposta à minha questão, Montgomery disse que eles efetivamente se reproduziam, mas que esses geralmente morriam. Quando eles viviam, Moreau tomava-os e estampava a forma humana sobre eles. Não havia evidência da [151]herança dessas características humanas adquiridas. As fêmeas eram muito menos numerosas do que os machos, e sujeitas à muita perseguição furtiva a despeito da monogamia que a Lei ordenava.
Seria impossível para eu descrever esse povo-besta em detalhe; meus olhos não tinham tido treinamento em detalhes, e infelizmente, eu não posso bosquejar. Talvez o mais impactante na aparência geral fosse a desproporção entre as pernas dessas criaturas e o comprimento dos corpos delas; e todavia – tão relativa é a nossa ideia de graça – meu olho tornou-se habituado com as formas deles, e, finalmente, eu mesmo aceitei que minhas próprias coxas longas eram desajeitadas. Outro ponto era a postura para frente da cabeça, e a curvatura desajeitada e inumana da espinha. Mesmo o homem-macaco carecia daquela curva sinuosa para dentro que torna a figura humana tão graciosa. A maioria tinha os seus membros curvados desajeitadamente, e os seus curtos antebraços pendiam fracamente aos seus lados. Poucos deles eram visivelmente peludos, pelo menos até o fim do meu tempo na ilha.
A próxima deformidade óbvia estava nos rostos deles, quase todos os quais eram prognatos, [152]malformados em volta das orelhas, com narizes grandes e protuberantes, muito peludos ou cabelo muito eriçado, e frequentemente olhos estranhamente coloridos ou estranhamente posicionados. Nenhum poderia rir, embora o homem-macaco tivesse um riso manso tagarelante. Além dessas características gerais, as cabeças deles tinham pouco em comum; cada um preservava a qualidade de sua espécie particular: a marca humana distorceu mas não ocultou o leopardo, o boi, ou o porco, ou outro animal ou animais a partir dos quais a criatura tivesse sido moldada. Também as vozes variavam excessivamente. As mãos sempre eram malformadas; e embora algumas me surpreendessem por sua aparência humana inesperada, quase todas eram deficientes no número de dedos, grosseiras em volta das unhas dos dedos, e carecendo de qualquer sensibilidade táctil.
Os mais formidáveis homens-animais eram o meu homem-leopardo e uma criatura feita de hiena e suíno. Maiores do que esses eram as três criaturas-touro que puxaram o bote. Em seguida vinha o homem de cabelo prateado, quem também era o Pronunciador da Lei, M’ling, e uma criatura de macaco e bode semelhante a um sátiro. Havia três homens-suínos e uma mulher-suína, uma criatura rinoceronte-égua, e várias outras fêmeas cujas [153]fontes eu não determinei. Havia várias criaturas-lobo, um touro-urso, e um homem-são bernardo. Eu já descrevi o homem-macaco, e havia uma velha mulher particularmente odiosa (e de sorriso maligno) feita de raposa e urso, a quem eu odiei desde o começo. Dizia-se que ela era uma devota apaixonada da Lei. Criaturas menores eram certos jovens manchados e minha pequena criatura-preguiça. Mas basta deste catálogo.
Inicialmente, eu tive um horror trêmulo dos brutos, sentia agudamente demais que eles ainda eram brutos; mas insenvivelmente eu me tornei um pouco habituado com a ideia deles, e, além deles, eu fui afetado pela atitude de Montgomery em relação a eles. Ele tinha estado com eles por tanto tempo que ele tinha chegado a considerá-los como seres humanos quase normais. Os dias dele em Londres pareciam um passado glorioso, impossível para ele. Apenas uma vez por ano ou aproximadamente ele vai à África para lidar com o agente de Moreau, um comerciante de animais lá. Ele dificilmente se encontrava com os melhores tipos de humanidade naquela vila de viagens marítimas de mestiços espanhóis. Os homens a bordo do navio, ele contou-me, pareceram inicialmente tão estranhos para ele como os homens-besta pareciam para mim, - não naturalmente [154]longos na perna, chatos no rosto, proeminentes na testa, suspeitos, perigosos e insensíveis. De fato, ele não gostava de homens: o coração dele ficou aquecido para mim, ele pensou, porque ele tinha salvado a minha vida. Portanto, eu até imaginei que ele tinha uma bondade furtiva por alguns desses brutos metamorfoseados, uma simpatia viciosa com alguns das suas maneiras, mas isso ele tentou ocultar de mim, inicialmente.
M’ling, o homem de rosto negro, o assistente de Montgomery, o primeiro do povo-besta que eu tinha encontrado, não vivia com os outros através da ilha, mas em uma pequena casota na retaguarda da cercada. A criatura era escassamente tão inteligente quanto o homem-macaco, mas muito mais dócil, e a maior parte de todo o povo-besta de aparência humana; e Montgomery tinha treinado-a para preparar comida e, de fato, para desembaraçar todos os trabalhos domésticos que fossem requeridos. Ela era um troféu complexo da horrível habilidade de Moreau, - um urso adulterado com cão e boi, e uma das mais elaboradamente produzidas de todas as criaturas deles. Ela tratava Montgomery com uma ternura e devoção estranhas. Algumas vezes ele a notaria, afagá-la-ia, chamá-la-ia de nomes meio zombeteiros, meio jocosos, [155]e assim a faria saltar com prazer extraordinário; algumas vezes ele a maltrataria, especialmente após ele ter estado bêbado de uísque, chutando-a, espancando-a, atirando pedras ou fusíveis acessos nela. Mas quer ele a tratasse bem quer mal, ela não amava nada tanto quanto ficar próximo a ele.
Eu digo que eu habituei ao povo-besta, de modo que mil coisas que tinham parecido não naturais e repulsivas rapidamente tornavam-se naturais e ordinárias para mim. Eu suponho que tudo na existência toma suas cores da tonalidade média dos seus arredores. Montgomery e Moreau eram particulares e individuais demais para manter minhas impressões gerais de humanidade bem definidas. Eu veria uma das criaturas-bovinas desajeitadas, quem trabalhavam na lancha, caminhando pesadamente através da vegetação rasteira, e descobrindo eu mesmo perguntando, tentando intensamente me lembrar, como ela diferia de algum caipira realmente humano caminhando pesadamente para casa dos seus labores mecânicos; ou eu descobriria a face astuta, vulpina da mulher urso-raposa estranhamente humana em sua artimanha especulativa, e até imagino que eu a tenha encontrado em algum caminho estreito de cidade.
Contudo, de vez em quando, a besta piscaria para mim além de dúvida e negação. Um [156]homem feio, um humano selvagem corcunda em toda a aparência, agachando-se na abertura de um das tocas, esticaria os seus braços e bocejaria, mostrando com surpreendente rapidez incisivos como gumes de tesouras e caninos semelhantes a sabres, afiados e brilhantes como facas. Ou em algum caminho estreito, lançando um olhar de ousadia transitória para os olhos de alguma pequena figura feminina ágil, enfaixada em branco, eu subitamente veria (com uma repulsa espasmódica) que ela tinha pupilas semelhante a fendas, ou encarando para baixo notava a garra curva com a qual ela segurava o seu cobertor sem forma em volta dela. É uma coisa curiosa, a propósito, a qual eu sou bastante incapaz de explicar, que essas criaturas estranhas – as fêmeas, eu quero dizer – tinham, nos primeiros dias da minha estada, uma sensação instintiva de sua própria falta de jeito repulsiva, e, em consequência, exibiam uma consideração mais do que humana pela decência e decoro de costume extenso.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 147-156. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/147/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [150]Em todos os aspectos, essa descrição corresponder à Ilha do Nobre. - C. E. P.