A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XV Relativo ao Povo-besta

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[147]Eu acordei cedo. A explicação de Moreau colocou-se diante de minha mente, clara e definida, desde o momento de meu despertar. Eu saí da minha rede de dormir e caminhei até a porta para me assegurar de que a chave estava virada. Em seguida, eu tentei a barra da janela, e encontrei-a firmemente fixa. Que essas criaturas semelhantes a homens eram, na verdade, apenas monstros bestiais, meras caricaturas grotescas de homens, encheu-me com uma incerteza vaga que era muito pior do qualquer medo definido.

Uma batida surgiu na porta, e eu ouvi os sotaques glutinosos de M’ling falando. Eu coloquei um dos revólveres dentro do bolso (mantendo uma mão sobre ele) e abri para ele.

Bom dia, senhor,” ele disse, trazendo, em adição ao costumeiro café da manhã de ervas, um coelho mal cozido. Montgomery seguiu-o. [148]O olho errante dele notou a posição do meu braço, e ele sorriu torto.

O puma estava descansando para se recuperar naquele dia; mas Moreau, quem era singularmente solitário em seus hábitos, não se juntou a nós. Eu falei com Montgomery para clarear minhas ideias sobre a maneira na qual o povo-besta vivia. Em particular, eu estava desesperado para saber como esses monstros inumanos eram impedidos de caírem sobre Moreau e Montgomery e de despedaçarem um ao outro. Ele explicou para mim que a segurança comparativa de Moreau e dele mesmo era devida ao escopo mental limitado desses monstros. A despeito da sua inteligência limitada e da tendência de seus instintos animais serem redespertados, eles tiveram certas ideias fixas implantadas por Moreau nas mentes deles, a qual restringia absolutamente as suas imaginações. Eles estavam realmente hipnotizados; tem sido contado a eles que certas coisas eram impossíveis, e que certas coisas não deviam ser feitas, e que estas proibições estavam entrelaçadas nas texturas das suas mentes além de qualquer possibilidade de desobediência ou disputa.

Contudo, certos assuntos nos quais o velho instinto estava em guerra com a conveniência de Moreau, [149]estavam em uma condição menos estável. Uma série de proposições chamadas de a Lei (eu já as tinha ouvido recitadas) batalhava em suas mentes com os desejos profudamente arraigados e sempre rebeldes de suas naturezas animais. Essa Lei eles estavam sempre repetindo, eu descobri, e sempre infringindo. Tanto Montgomery quanto Moreau exibiam solicitude particular para os manter ignorantes do gosto de sangue; eles temiam as sugestões inevitáveis desse sabor. Montgomery disse-me que a Lei, especialmente entre o povo-besta felino, tornava-se estranhamente enfraquecido por volta do anoitecer; que então o animal estava no seu mais forte; que um espírito de aventura surge neles durante o anoitecer, quando eles se atreveriam a coisas sobre as quais eles nunca pareceram sonhar durante o dia. A isso eu devi a minha perseguição pelo homem-leopardo, na noite da minha chegada. Mas durante esses dias iniciais da minha estada eles infringiram a Lei apenas furtivamente e após a escuridão; à lei luz dia havia uma atmosfera geral por suas proibições multifárias.

E talvez aqui eu possa fornecer alguns fatos gerais sobre a ilha e o povo-besta. A ilha, a qual era de contorno irregular e [150]estendia-se sobre o mar aberto, tinha uma área total de, eu suponho, sete ou oito milhas quadradas.1 Ela era de origem vulcânica, e agora era orlada em três lados por recifes de corais; algumas fumarolas para o norte, e uma fonte quente, eram os únicos vestígios das forças que há muito desde então a originaram. De vez em quando, um tremor fraco de terremoto seria sensível, e, algumas vezes, a ascensão do cone de fumaça seria tornada tumultuosa pelas rajadas de vapor; mas isso era tudo. A população da ilha, Montgomery informou-me, agora se contava em mais do que sessenta dessas estranhas criações da arte de Moreau, não contando as monstruosidades menores que viviam na vegetação rasteira e não tinham a forma humana. No todo, ele tinha criado quase cento e vinte; mas muitas tinham morrido, e outras – como a Coisa Sem pés que se contorce sobre as quais ele me contou – tinham chegado a um fim violento. Em resposta à minha questão, Montgomery disse que eles efetivamente se reproduziam, mas que esses geralmente morriam. Quando eles viviam, Moreau tomava-os e estampava a forma humana sobre eles. Não havia evidência da [151]herança dessas características humanas adquiridas. As fêmeas eram muito menos numerosas do que os machos, e sujeitas à muita perseguição furtiva a despeito da monogamia que a Lei ordenava.

Seria impossível para eu descrever esse povo-besta em detalhe; meus olhos não tinham tido treinamento em detalhes, e infelizmente, eu não posso bosquejar. Talvez o mais impactante na aparência geral fosse a desproporção entre as pernas dessas criaturas e o comprimento dos corpos delas; e todavia – tão relativa é a nossa ideia de graça – meu olho tornou-se habituado com as formas deles, e, finalmente, eu mesmo aceitei que minhas próprias coxas longas eram desajeitadas. Outro ponto era a postura para frente da cabeça, e a curvatura desajeitada e inumana da espinha. Mesmo o homem-macaco carecia daquela curva sinuosa para dentro que torna a figura humana tão graciosa. A maioria tinha os seus membros curvados desajeitadamente, e os seus curtos antebraços pendiam fracamente aos seus lados. Poucos deles eram visivelmente peludos, pelo menos até o fim do meu tempo na ilha.

A próxima deformidade óbvia estava nos rostos deles, quase todos os quais eram prognatos, [152]malformados em volta das orelhas, com narizes grandes e protuberantes, muito peludos ou cabelo muito eriçado, e frequentemente olhos estranhamente coloridos ou estranhamente posicionados. Nenhum poderia rir, embora o homem-macaco tivesse um riso manso tagarelante. Além dessas características gerais, as cabeças deles tinham pouco em comum; cada um preservava a qualidade de sua espécie particular: a marca humana distorceu mas não ocultou o leopardo, o boi, ou o porco, ou outro animal ou animais a partir dos quais a criatura tivesse sido moldada. Também as vozes variavam excessivamente. As mãos sempre eram malformadas; e embora algumas me surpreendessem por sua aparência humana inesperada, quase todas eram deficientes no número de dedos, grosseiras em volta das unhas dos dedos, e carecendo de qualquer sensibilidade táctil.

Os mais formidáveis homens-animais eram o meu homem-leopardo e uma criatura feita de hiena e suíno. Maiores do que esses eram as três criaturas-touro que puxaram o bote. Em seguida vinha o homem de cabelo prateado, quem também era o Pronunciador da Lei, M’ling, e uma criatura de macaco e bode semelhante a um sátiro. Havia três homens-suínos e uma mulher-suína, uma criatura rinoceronte-égua, e várias outras fêmeas cujas [153]fontes eu não determinei. Havia várias criaturas-lobo, um touro-urso, e um homem-são bernardo. Eu já descrevi o homem-macaco, e havia uma velha mulher particularmente odiosa (e de sorriso maligno) feita de raposa e urso, a quem eu odiei desde o começo. Dizia-se que ela era uma devota apaixonada da Lei. Criaturas menores eram certos jovens manchados e minha pequena criatura-preguiça. Mas basta deste catálogo.

Inicialmente, eu tive um horror trêmulo dos brutos, sentia agudamente demais que eles ainda eram brutos; mas insenvivelmente eu me tornei um pouco habituado com a ideia deles, e, além deles, eu fui afetado pela atitude de Montgomery em relação a eles. Ele tinha estado com eles por tanto tempo que ele tinha chegado a considerá-los como seres humanos quase normais. Os dias dele em Londres pareciam um passado glorioso, impossível para ele. Apenas uma vez por ano ou aproximadamente ele vai à África para lidar com o agente de Moreau, um comerciante de animais lá. Ele dificilmente se encontrava com os melhores tipos de humanidade naquela vila de viagens marítimas de mestiços espanhóis. Os homens a bordo do navio, ele contou-me, pareceram inicialmente tão estranhos para ele como os homens-besta pareciam para mim, - não naturalmente [154]longos na perna, chatos no rosto, proeminentes na testa, suspeitos, perigosos e insensíveis. De fato, ele não gostava de homens: o coração dele ficou aquecido para mim, ele pensou, porque ele tinha salvado a minha vida. Portanto, eu até imaginei que ele tinha uma bondade furtiva por alguns desses brutos metamorfoseados, uma simpatia viciosa com alguns das suas maneiras, mas isso ele tentou ocultar de mim, inicialmente.

M’ling, o homem de rosto negro, o assistente de Montgomery, o primeiro do povo-besta que eu tinha encontrado, não vivia com os outros através da ilha, mas em uma pequena casota na retaguarda da cercada. A criatura era escassamente tão inteligente quanto o homem-macaco, mas muito mais dócil, e a maior parte de todo o povo-besta de aparência humana; e Montgomery tinha treinado-a para preparar comida e, de fato, para desembaraçar todos os trabalhos domésticos que fossem requeridos. Ela era um troféu complexo da horrível habilidade de Moreau, - um urso adulterado com cão e boi, e uma das mais elaboradamente produzidas de todas as criaturas deles. Ela tratava Montgomery com uma ternura e devoção estranhas. Algumas vezes ele a notaria, afagá-la-ia, chamá-la-ia de nomes meio zombeteiros, meio jocosos, [155]e assim a faria saltar com prazer extraordinário; algumas vezes ele a maltrataria, especialmente após ele ter estado bêbado de uísque, chutando-a, espancando-a, atirando pedras ou fusíveis acessos nela. Mas quer ele a tratasse bem quer mal, ela não amava nada tanto quanto ficar próximo a ele.

Eu digo que eu habituei ao povo-besta, de modo que mil coisas que tinham parecido não naturais e repulsivas rapidamente tornavam-se naturais e ordinárias para mim. Eu suponho que tudo na existência toma suas cores da tonalidade média dos seus arredores. Montgomery e Moreau eram particulares e individuais demais para manter minhas impressões gerais de humanidade bem definidas. Eu veria uma das criaturas-bovinas desajeitadas, quem trabalhavam na lancha, caminhando pesadamente através da vegetação rasteira, e descobrindo eu mesmo perguntando, tentando intensamente me lembrar, como ela diferia de algum caipira realmente humano caminhando pesadamente para casa dos seus labores mecânicos; ou eu descobriria a face astuta, vulpina da mulher urso-raposa estranhamente humana em sua artimanha especulativa, e até imagino que eu a tenha encontrado em algum caminho estreito de cidade.

Contudo, de vez em quando, a besta piscaria para mim além de dúvida e negação. Um [156]homem feio, um humano selvagem corcunda em toda a aparência, agachando-se na abertura de um das tocas, esticaria os seus braços e bocejaria, mostrando com surpreendente rapidez incisivos como gumes de tesouras e caninos semelhantes a sabres, afiados e brilhantes como facas. Ou em algum caminho estreito, lançando um olhar de ousadia transitória para os olhos de alguma pequena figura feminina ágil, enfaixada em branco, eu subitamente veria (com uma repulsa espasmódica) que ela tinha pupilas semelhante a fendas, ou encarando para baixo notava a garra curva com a qual ela segurava o seu cobertor sem forma em volta dela. É uma coisa curiosa, a propósito, a qual eu sou bastante incapaz de explicar, que essas criaturas estranhas – as fêmeas, eu quero dizer – tinham, nos primeiros dias da minha estada, uma sensação instintiva de sua própria falta de jeito repulsiva, e, em consequência, exibiam uma consideração mais do que humana pela decência e decoro de costume extenso.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 147-156. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/147/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [150]Em todos os aspectos, essa descrição corresponder à Ilha do Nobre. - C. E. P. 

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XIX Lutando

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[222]Duas vezes Felix viu o rei. Uma vez houve uma revista dos cavalos fora do acampamento, e Felix, tendo de comparecer com o terceiro cavalo de batalha do seu mestre (uma mera exibição e afeição, pois não havia a menor necessidade dele se necessário), ficava de vez em quando próximo do monarca.  Pois, pelo menos naquele dia, ele olhou cada detalhe que a fama tinha relatado-o ser. Um homem de tamanho incomum, a sua corpulência tornava-o conspícuo diante da multidão. A sua cabeça massiva parecia concordar bem com a posse do poder despótico.

A testa estava um pouco nua, pois ele não era mais jovem, mas a sua nuca estava coberta com espessos cachos pequenos de cabelo castanho, tão espessos quando a parcialmente ocultarem o diadema de ouro que ele usava. Um curto manto carmesim, escassamente alcançando a cintura dele, estava jogado para trás a partir dos seus ombros, de maneira que o seu corselete de aço cintilava ao sol. Era a única armadura que ele tinha colocada; uma longa espada pendia ao seu lado. Ele cavalgava um poderoso cavalo negro, de inteiras dezoito mãos altura, de longe o mais belo animal no campo; ele requeria isso, pois o peso dele deve ter sido grande. Felix passou suficientemente perto para observar que os olhos dele eram castanhos, e a expressão do rosto dele, aberta, franca e agradável. A impressão deixada sobre o observador era aquela de um intelecto forte, mas de um físico ainda forte, com o segundo muito frequentemente sendo superior ao primeiro. Ninguém [223]poderia olhar para ele sem admiração, e era difícil pensar que ele poderia diminuir-se tanto quanto a chafurdar na indulgência mais grosseira.

Quanto à revista, embora fosse uma cena brilhante, Felix não pôde ocultar de si mesmo que aqueles cavaleiros eram extremamente irregulares em seus movimentos, e nenhuma única evolução foi realizada corretamente, porque eles estavam continuamente disputando sobre a precedência, e um não consentiria em seguir o outro. Contudo, ele logo entendeu que a disciplina não era o objetivo, nem a regularidade considerada; coragem pessoal e destreza pessoal eram tudo. Essa revista era o prelúdio para operações ativas, e agora Felix esperava ter algumas lições práticas em campanha.

Ele estava enganado. Em vez de um grande assalto, ou uma abordagem regular, o luta foi meramente uma série de combates entre pequenos destacamentos e grupos do inimigo. Dois ou três cavaleiros com seus retentores partiriam, cruzariam o córrego, e, cavalgando diretamente além da cidade sitiada, tentariam saquear alguma pequena aldeia, ou a herdade de um nobre. A partir da cidade, uma surtida sucederia; algumas vezes, os dois grupos apenas ameaçavam um ao outro à distância, o primeiro retraindo-se conforme o segundo avançava. Algumas vezes, apenas umas poucas flechas eram disparadas; ocasionalmente eles chegavam a golpes, mas as baixas raramente eram pesadas.

Uma tal bando, enquanto retornando, foi seguido por um esquadrão de cavaleiros, a partir da cidade, na direção do riacho, para dentro de três centenas de jardas do alojamento do rei. [224]Inflamados diante dessa arrogância, vários cavaleiros montaram seus cavalos e cavalgaram para reforçar o destacamento retornante, o qual estava carregado com pilhagem. Descobrindo a si mesmo reforçado, eles jogaram as suas pilhagens para baixo, posicionaram-se em volta, e Felix viu pela primeira vez uma refrega real e desesperada. Os cavaleiros do rei, com cavalos muito melhores, e cheios de desejo de exibirem o seu valor para o acampamento, apressaram-se com fúria tão grande que eles derrubaram o inimigo e cavalgaram sobre ele.

Felix viu as tropas encontrarem-se; houve uma colisão e um estalido conforme as lanças se quebravam, quatro ou cinco rolaram da cela para o milho pisado, e, no momento seguinte, a massa emaranhada de homens e cavalos desenrolou a si mesma conforme o inimigo se apressava de volta para as muralhas. Felix ficou ansioso para se juntar a uma briga tão grande, mas ele não tinha nem cavalo nem arma. Em outra ocasião, cedo em uma manhã brilhante, quatro cavaleiros e seus seguidores, aproximadamente quarenta no total, deliberadamente partiram do acampamento e avançaram no terreno inclinado em direção à cidade. O acampamento logo ficou agitado assistindo às suas ações, e o rei, sendo familiarizado com o que estava acontecendo, saiu de sua tenda. Felix, quem agora entrava no entrincheiramento circular sem nenhuma dificuldade, subiu o monte com vintenas de outros, onde, segurando às estacas, eles tinham uma boa visão.

O rei permaneceu em um banco e observou as tropas avançarem, sombreando os olhos com a mão. Visto que era apenas uma meia milha para as muralhas, eles podiam enxergar tudo que ocorria. Quando os cavaleiros tinham chegado a duzentas jardas e flechas começaram a cair sobre eles, eles desmontaram [225]dos seus cavalos e deixaram-nos sob os cuidados dos cavalariços, quem caminharam com eles para lá e para cá, nenhum permanecendo ainda um minuto, de maneira a escaparem da mira dos arqueiros do inimigo. Em seguida, desembainhando suas espadas, os cavaleiros, quem estavam de armadura completa, colocaram-se na vanguarda do bando, e avançaram a passo firme para a muralha. Em sua malha, e com seus escudos diante deles, eles não se importavam com arqueiros tão débeis, nem mesmo com os dardos que se derramavam sobre eles conforme eles chegavam ao alcance. Não havia fosso para a muralha, de modo que, empurrando para frente, logo eles chegaram à base. Tão facilmente eles tinham alcançado-a que Felix quase considerou a cidade já vencida. Agora ele via blocos de pedra, dardos e vigas de madeira jogadas neles a partir do parapeito, o qual não ficava mais do que doze pés acima do solo.

Bastante não perturbados, os cavaleiros instalaram suas escadas, das quais eles tinham apenas quatro, uma para cada. Os homens de armas sustentaram essas por força principal contra a muralha, os sitiantes tentando jogá-las para longe e cortando os degraus com os seus machados. Mas as escadas eram bem calçadas com ferro para resistirem a tais golpes, e, em um momento, Felix viu, com deleite e admiração intensos, os quatro cavaleiros lentamente subirem nos parapeitos e cortarem os defensores com as suas espadas. O inimigo jogou-se sobre eles com piques, mas pareceu recuar de combate mais próximo, e, um momento depois, os quatro galantes erguiam-se sobre o topo da muralha. As figuras deles, envoltas em malha e escudo à mão, eram distintamente vistas contra o céu. Para cima se aglomeraram [226]os homens de armas atrás deles, e alguns pareceram descer para o outro lado. Um grito subiu a partir do acampamento e ecoou através dos bosques. Felix gritou com o resto, feroz com excitação.

No próximo minuto, enquanto os cavaleiros ainda permaneciam sobre as muralhas, e escassamente pareciam saber o que fazer em seguida, ali apareceram pelo menos uma dúzia de homens de armadura correndo ao longo da muralha na direção deles. Depois Felix entendeu que a facilidade com a qual os quatro inicialmente conquistaram a muralha era devida a não haver homens de posição cavalheiresca entre os defensores no momento anterior. Aqueles que tinham se reunido para repelir o assalto eram cidadãos, retentores, escravos, qualquer um, de fato, quem tivesse estada próximo. Mas agora as notícias tinham alcançado os líderes do inimigo, e alguns deles se apressaram para a muralha. Conforme esses eram vistos se aproximando, o acampamento foi silenciado, e cada olho esticou-se sobre os combatentes.

Os quatro nobres não puderam todos se oporem aos seus assaltantes, a muralha era suficientemente larga apenas para dois deles lutarem; mas os outros dois tiveram de trabalhar suficientemente no próximo minuto, visto que mais oito ou dez homens em malha avançavam na outra direção. Assim eles lutaram, de costas um para o outro, dois encarando uma direção, e dois, outra. As espadas subiam e caiam. Felix viu um flash de luz voar alto no céu – era a ponta de espada, quebrada curta. Aos pés da muralha, os homens que não tinham tido tempo para subir esforçavam-se para ajudar os seus mestres apunhalando para cima com suas lanças.

De repente, dois dos cavaleiros foram arremessados a partir da muralha; um pareceu ser pego pelos seus homens, o outro chegou pesadamente ao chão. Enquanto eles estavam lutando [227]com os seus antagonistas imediatos, outros no interior da muralha tinham chegado com lanças, e, literalmente, jogaram-nas a partir do parapeito. Os outros dois, ainda lutaram costa a costa por um momento; em seguida, descobrindo-se a si mesmos sobrecarregados, eles saltaram para baixo em meio aos seus amigos.

No minuto em que os dois primeiros caíram, os cavalariços correram na direção da muralha com os cavalos, e, a despeito da chuva de flechas, dardos e pedras a partir do parapeito, Felix viu com alívio três dos quatro cavaleiros colocados em seus cavalos de batalha. Apenas um poderia sentar-se corretamente sem ajuda, dois eram suportados em suas celas, e o quarto foi carregado pelos retentores. Dessa forma, eles retiraram-se, e, aparentemente sem ferimento adicional, pois o inimigo sobre a muralha amontoou-se demais de modo a interferir com a mira dos seus dados, os quais, também, logo erraram. Mas houve um monte negro debaixo da muralha, onde dez ou doze retentores e escravos, quem não usavam nenhuma arma, tinha sido mortos ou incapacitados. Sobre esses, a perda invariavelmente caiu.

Ninguém tentou seguir o grupo em retirada, quem lentamente retornou na direção do acampamento, e logo aparentemente estava em segurança. Mas subitamente um novo grupo apareceu sobre a muralha, e, no instante seguinte, três retentores caíram, como se atingidos por relâmpado. Eles tinha sido atingidos por pedras de funda, rodopiadas com grande força por fundibulários experientes. Esses seixos arredondados vinham com ímpeto tão grande para atordoar um homem a duzentas jardas. É verdadeiro, a mira é incerta, mas onde há um corpo de tropas eles estão certos de atingirem alguém. Apresando-se, deixando os três homens caídos onde eles jaziam, o resto, em dois [228]minutos, estava fora de alcance e entrou seguramente no acampamento. Todos, enquanto eles cruzavam o córrego, correram para os encontrar, o rei incluído, e, enquanto ele passava na multidão, Felix ouviu ele observar que eles tinham tido uma principal briga de galos aquela manhã.

Dos cavaleiros apenas um ficou muito ferido; ele tinha caído sobre uma pedra, e duas costelas foram quebradas; o resto sofreu contusões severas, mas nenhum ferimento. Seis homens-de-armas estavam faltando, provavelmente prisioneiros, pois, tão corajosos quanto seus mestres, eles tinham pulado para dentro da cidade a partir da muralha. Outros onze retentores ou escravos foram mortos, ou tinham desertado, ou eram prisioneiros, e nenhum esforço foi feito por eles. Quanto aos três que foram derrubados por pedras de funda, lá eles deitaram até que eles recuperaram seus sentidos, quando eles se arrastaram para dentro do acampamento. Esse incidente esfriou o ardor de Felix pelo combate, pois ele refletiu que, se machucado dessa forma, ele também, como um mero cavalariço, seria abandonado. A devoção dos retentores para salvar e socorrer os mestres deles foi quase heroica. Os cavaleiros couraçados não pensavam mais em seus homens, a menos que fosse algum favorito particular, do que como em um cão de caça golpeado por uma presa de javali na perseguição.

Quando a primeira descarga de excitação tinha passado, Felix, pensando sobre a cena da manhã enquanto ele levava seus cavalos para a água no riacho, tornou-se cheio de desprezo, inicialmente, e, em seguida, de indignação. Que o principal comandante militar da época devesse observar dessa maneira enquanto a muralha foi conquistada diante dos seus olhos e, contudo, nunca enviar um forte destacamento, ou mover a si mesmo com seu interior exército para [229]aproveitar-se da vantagem, pareceu entendimento perdido. Se ele não pretendeu aproveitar-se dela, porque permitir tais aventuras desesperadas, as quais seriam esmagadas pelos meros números, e apenas poderiam resultar na morte de homens corajosos? E se ele não permitiu, por que, quando ele os viu derrubados, ele não enviou um esquadrão para cobrir a retirada deles? Chamar uma semelhante exibição de coragem “uma briga de galos,” olhar para isso como uma mera exibição para o seu entretenimento, foi bárbaro e cruel ao extremo. Ele excitou-se até um estado de ira, o qual o tornou menos cauteloso do que o usual na expressão das suas opiniões.

O rei não era tão culpado quanto Felix, argumentando a partir de princípios abstratos, imaginava. Ele tinha tido longa experiência de guerra, e ele conhecia a sua extrema incerteza. O problema da maior batalha frequentemente pende sobre a conduta de um único líder, ou mesmo de um único homem de armas. Ele tinha visto muralhas vencidas e perdidas antes. Aproveitar-se de uma aventura tão grande com um destacamento forte tem de resultar em uma de duas coisas: ou o destacamento, por sua vez, tem de ser suportado por um exército inteiro, ou, eventualmente, ele tem de recuar. Se recuasse, a perda de prestígio seria séria, e poderia encorajar o inimigo a atacar o acampamento, pois era apenas o prestígio dele que evitava isso. Se suportado pelo exército inteiro, então, o destino da expedição inteira dependia daquele único dia.

O inimigo tinha a vantagem da muralha, das ruas estreitas e dos cercados interiores, das casas, cada uma das quais se tornaria uma fortaleza, e, dessa forma, nas ruas sinuosas uma repulsão facilmente poderia acontecer. Arriscar um [230]tal evento seria loucura ao último grau, antes que a cidade tivesse sido desanimada e desencorajada pela continuação do cerco, a falha das provisões, ou a queda dos seus principais líderes nos combates diários que ocorriam.

O exército não tinha nenhuma disciplina que fosse, além daquela da ligação do retentor ao seu senhor, e do pavor da punição por parte do escravo. Não havia posições distintas, tropas organizadas. Os cavaleiros seguiam os grandes barões, os retentores, os cavaleiros; os grandes barões seguiam o rei. Um semelhante exército não poderia ser arriscado em um assalto desse tipo. A aventura não foi ordenada, nem foi desencorajada; de fato, desencorajar todas as tentativas teria sido má política; era da coragem e bravura desses cavaleiros que o rei dependia, e sobre elas apenas dependiam suas esperanças de vitória. O grande barão cujo estandarte eles seguiam teria enviado assistência se ele tivesse considerado-a necessária. O rei, a menos no dia de batalha, não se preocuparia com um semelhante detalhe. Quanto á observação de que eles tinham tido “um grande briga de galos naquela manhã,” ele simplesmente expressou o sentimento do acampamento inteiro. De fato, o espetáculo que Felix tinha visto foi meramente uma instância da força e da fraqueza do exército e do monarca mesmos.

Subsequentemente, Felix reconheceu essas coisas para si mesmo, mas, no momento, cheio de admiração pela bravura dos quatro cavaleiros e dos seus seguidores, ele estava cheio de indignação e proferia suas visões livremente demais. Os seus companheiros-cavalariços avisaram-lhe; mas o seu espírito estava elevado, e ele [231]expressou seus sentimentos sem restrições. Agora, rir das fraqueza do rei, de sua gula ou suas loucuras, era uma coisa; criticar a sua conduta militar era outra. A primeira era meramente brincadeira, e o rei mesmo poderia ter rido tivesse ele ouvido isso; a outra era traição, e, além disso, provável de tocar o monarca no assunto delicado da sua reputação militar.

Disso Felix rapidamente se tornou ciente. De fato, seus companheiros tentaram defendê-lo; mas, possivelmente, o cidadão seu mestre tinha inimigos no acampamento, barões, talvez, de quem ele tinha emprestado dinheiro, e quem observavam por uma oportunidade de assegurarem a sua queda. Em todo o caso, cedo no dia seguinte, Felix foi rudemente preso pelo preboste em pessoa, amarrado com cordas e colocado na tenda do preboste. Ao mesmo tempo, o mestre dele foi ordenado a permanecer dentro, e um guarda foi colocado sobre ele.

 

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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.222-231. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/222/mode/1up>

 

TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0 

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