A Máquina do Tempo - Capítulo II O Viajante do Tempo Retorna

Capítulo anterior


[25]PENSO que àquela vez nenhum de nós acreditou muito na Máquina do Tempo. O fato é: o Viajante do Tempo era um daqueles homens que eram muito espertos para serem acreditados; você nunca sentia que viu tudo em volta dele; você sempre suspeitava de alguma reserva sútil, alguma ingenuidade em emboscada, por trás de sua franqueza lucida. Houvesse Filby mostrado o modelo e explicado o assunto nas palavras do Viajante do Tempo, teríamos mostrado-lhe muito menos ceticismo. O ponto é, teríamos visto seus motivos um matador de porcos poderia entender Filby. Mas o Viajante do Tempo tinha mais do que um toque de extravagância entre suas qualidades, e desconfiávamos dele. Coisas que teriam feito a fama de um homem mais esperto pareciam truques [26]nas mãos dele. É um erro fazer coisas tão facilmente. As pessoas sérias que o tomaram seriamente nunca se sentiam muito certas de sua conduta; elas estavam de algum modo cientes de que confiar nele com suas reputações para julgar era como mobiliar um berçário com casca de ovo de porcelana. Então eu não penso que qualquer um de nós falasse muito sobre viajem no tempo no intervalo entre aquela quinta-feira e a próxima, embora suas potencialidades estranhas, sem dúvida, continuassem na maioria de nossas mentes: sua plausabilidade, quer dizer, sua incredibilidade prática, as possibilidades curiosas de anacronismo e a completa confusão que ela sugeria. De minha própria parte, eu estava particularmente preocupado com o truque do modelo. Isso lembro de ter discutido com o Médico, a quem encontrei na sexta-feira na Linneaen. Ele disse que vira uma coisa semelhante em Tübingen, e colocou ênfase considerável no golpe da vela. Mas como o truque foi feito ele não podia explicar.

[27]Na próxima quinta-feira, fui novamente a Richmond suponho que eu era um dos mais constantes convidados do Viajante do Tempo e, chegando tarde, encontrei quatro ou cinco homens já reunidos em sua sala de estar. O Médico estava de pé diante do fogo, com uma folha de papel em uma mão e seu relógio na outra. Olhei em volta [em busca] do Viajante do Tempo, e -

Agora são meia hora depois das sete,” disse o Médico. “Suponho que seria melhor o jantarmos?”

Onde está ----?” disse eu, nomeando nosso anfitrião.

Você acabou de chegar? É um tanto estranho. Ele está inevitavelmente retido. Ele pede-me, em sua nota, para começar o jantar às sete se ele não estiver de volta. Diz que explicará tudo quando chegar.

Parece uma pena deixar o jantar estragar,” disse o Editor de um jornal diário bem conhecido; e logo a seguir o Doutor tocou a campainha.

O Psicólogo era a única pessoa, além do Doutor e de mim mesmo, [28]que comparecera ao jantar anterior. Os outros homens eram Blank, o Editor supramencionado, um certo jornalista e outro um homem com uma barba, quieto e tímido o qual eu não conhecia, e quem, até onde as observações iam, nunca abriu sua boca durante toda a noite. Houve alguma especulação à mesa de jantar sobre a ausência do Viajante do Tempo, e eu sugeri viajem no tempo, em um espírito meio jocoso. O Editor queria aquilo explicado para ele, e o Psicologo voluntariou um relato desajeitado do “paradoxo e truque engenhosos” que ele testemunhara naquele dia de semana. Ele estava em meio a sua exposição quando a porta do corredor abriu-se lentamente e sem barulho. Eu estava encarando a porta, e viu primeiro.

Olá!” Eu disse. “Finalmente!”

E a porta abriu-se, e o Viajante do Tempo colocou-se de pé diante de nós. Eu dei um grito de surpresa.

Deus do Céu, homem! Qual é o [29]problema?” gritou o Médico, que o viu próximo. E a mesa inteira virou-se em direção à porta.

Ele estava em uma condição surpreendente. Seu casaco estava empoeirado, sujo e manchado de verde até as mangas; seu cabelo desordenado, e, como parecia para mim, mais grisalho ou com poeira e sujeita, ou porque sua color realmente desvanecera. Seu rosto estava pavorosamente pálido; seu queixo tinha um corte marrom nele – um corte meio curado; sua expressão estava e indecisa, como se por intenso sofrimento. Por um momento, ele hesitou à soleira da porta, como se estivesse ofuscado pela luz. Então ele entrou na sala. Ele andou exatamente como um manco, conforme eu vi em pedintes com dor no pé. Encaramo-lo em silêncio, esperando-o falar.

Ele não disse uma palavra, apenas caminhou dolorosamente até a mesa, e fez um gesto em direção ao vinho. O Editor encheu-lhe uma taça de champanhe e empurrou-a em direção a ele. Ele secou-a, e isso pareceu fazer-lhe bem; pois ele olhou [30]ao redor da mesa e o fantasma de seu antigo sorriso cintilou através de sua face.

O que diabos você tem feito, homem?” disse o Doutor.

O Viajante do Tempo não parecia ouvir. “Não me deixem perturbar vocês,” ele disse, com uma certa articulação vacilante. “Estou bem.” Ele parou, segurou sua taça por mais e tomou em um gole. “Isso é bom,” ele disse. Seus olhos tornaram-se mais brilhantes e uma cor fraca surgiu em suas bochechas. Sua olhada volteou sobre nossas faces com uma certa aprovação aborrecida e, em seguida, passou ao redor da sala quente e confortável. Então ele falou novamente, ainda como se estivesse sentindo seu caminho em meio às palavras. “Vou banhar-me, vestir-me e em seguida descerei e explicarei as coisas. Guardem-me um pouco desse carneiro. Estou faminto por um pouco de carne.”

Ele olhou obliquamente para o Editor, quem era um visitante raro, e esperava que estivesse tudo bem com ele. O Editor começou uma questão.

[31]Conto a você logo,” disse o Viajante do Tempo. “Sou engraçado! Tudo estará bem em um minuto.”

Ele baixou seu copo, e andou em direção à porta da escadaria. Novamente, notei sua fraqueza e o suave som macio de sua pegada, e de pé em meu lugar vi seus pés conforme ele saia. Ele não tinha nada neles salvo um par de meias esfarrapadas, manchadas de sangue. Então a porta fechou-se em direção a ele. Eu quase tive uma intenção de seguir, até que lembrei como ele detestava qualquer barulho sobre ele mesmo. Por um minuto, talvez, minha mente esteve em devaneio. Então, “Comportamento notável de um Eminente Cientista,” eu ouvi o Editor dizer, pensando (como era seu costume) em manchetes. E isso trouxe minha atenção de volta para brilhante mesa de jantar.

Qual é o jogo?” disse o Jornalista. “Esteve ele fazendo-se de Pedinte Amador! Eu não acompanho.”

Encontrei o olhar do Psicólogo, e li minha própria interpretação em [32]sua face. Pensei no Viajante do Tempo mancando dolorosamente acima. Eu não penso que alguém mais tenha notado sua fraqueza.

O primeiro a se recuperar completamente dessa surpresa foi o Médico, quem tocou a campainha o Viajante do Tempo odiava ter os servos esperando no jantar por um prato quente. No que o Editor voltou-se para sua faca e garfo com um grunhido, e o homem silencioso seguiu o exemplo. O jantar foi retomado. A conversação foi exclamatória por pouco tempo, com hiatos de espanto; e então o Editor ficou fervoroso em sua curiosidade.

Nosso amigo aumentou sua renda modesta com um cruzamento, ou ele tem suas fases de Nabucodonosor?” Ele inqueriu.

Sinto-me seguro de que isso é negócio da Máquina do Tempo,” eu disse, e assumi a consideração do Psicólogo de nosso encontro anterior.

Os novos convidados estavam francamente incrédulos. O Editor levantou objeções.

[33]“Que foi isso de viajem no tempo? Um homem não poderia cobrir a si mesmo de poeira ao rolar num paradoxo, poderia?”

E então, enquanto a ideia voltava a sua origem em mim, ele recorria à caricatura. Eles não tinham escovas de roupa no Futuro? O Jornalista, também, não acreditaria a qualquer preço, e juntou-se ao Editor no trabalho fácil de amontoar ridículo sobre a coisa toda. Eles ambos eram o novo tipo de Jornalista jovens muito alegres, irreverentes. “Nosso Correspondente Especial no Dia Depois de Amanhã relata,” o Jornalista estava dizendo ou melhor, exclamando quando o Viajante do Tempo voltou. Ele estava vestido em roupas noturnas ordinárias, e nada, salvo sua aparência abatida, lembrava-me da mudança que me assustara.

Digo,” disse o Editor hilariamente,esses companheiros aqui dizem que você esteve viajando no meio da próxima semana! Você irá contar-nos tudo sobre o pequeno Rosebery? O que você tomará pela sorte?

[34]O Viajante do Tempo veio ao lugar reservado para ele sem uma palavra. Ele sorria quietamente, em sua maneira costumeira.

Onde está meu carneiro?” Ele disse. “Que deleite é espetar um garfo em carne novamente!”

História!” Exclamou o Editor.

História é d ---- d!” Disse o Viajante to Tempo. Quero alguma coisa para comer. Eu não vou dizer uma palavra até que eu tenha um pouco de peptona em minhas artérias. Obrigado! E o sal.

Uma palavra,” disse eu. “Você esteve viajando no tempo?”

Sim,” disse o Viajante do Tempo, com sua boca cheia, e assentindo com a cabeça.

Eu daria um xelim por uma linha de uma nota literal,” disse o Editor. O Viajante do Tempo empurrou sua taça em direção ao Homem Silencioso e tocou-a com sua unha; no que o Homem Silencioso, quem estivera encarando-lhe a face, começou convulsivamente, e verteu-lhe vinho. O restante do jantar foi desconfortável. De minha [35]própria parte, questões súbitas continuaram a se elevar a meus lábios, e, atrevo-me a dizer, era o mesmo com os outros. O Jornalista tentou aliviar a tensão contando anedotas sobre Hettie Potter. O Viajante do Tempo devotou sua atenção ao jantar, e mostrou o apetite de um mendigo. O Médico fumou um cigarro, e observou o Viajante do Tempo através de suas pestanas. O Homem Silencioso parecia ainda mais desajeitado do que usualmente, e bebia champanhe com regularidade e determinação a partir de puro nervosismo. Finalmente, o Viajante do Tempo afastou seu prato, e olhou em torno de nós.

Suponho que eu deva desculpar-me,” ele disse. “Eu estava simplesmente faminto. Tive um momento incrível.” Ele estendeu sua mão por um cigarro e cortou a extremidade. “Mas venham até a sala de fumo. É uma história muito longa para contar sobre pratos gordurosos.” E, tocando a campainha de passagem, ele liderou o caminho para a sala adjacente.

[36]“Você contou a Blank e Dash e Chose sobre a máquina?” Ele disse a mim, inclinando-se para trás em sua poltrona e nomeando os três novos convidados.

Mas a coisa é um mero paradoxo,” disse o Editor.

Eu não posso argumentar agora. Eu não me importo de contar a história a vocês, mas eu não posso argumentar. Quero,” ele prosseguiu,contar a vocês a história do que aconteceu comigo, se vocês quiserem, mas vocês precisam evitar interrupções. Quero contá-la. Seriamente. A maior parte dela soará como mentira. Assim seja! É verdadeira cada palavra dela, tudo mesmo. Eu estava em meu laboratório às quatro horas, e desde então eu vive oito dias dias tais como nenhum homem jamais viveu antes! Estou quase esgotado, mas não devo dormir até que tenha contado sobre essa coisa para vocês. Em seguida, deverei ir para a cama. Mas sem interrupções! Está combinado?

Concordo!” Disse o Editor, e o resto de nós ecoamos “Concordo!” [37]E com isso o Viajante do Tempo começou sua história como anunciei. Primeiro ele recostou-se em sua cadeira, e falou como um homem cansado. Depois ele ficou mais animado. Escrevendo, eu somente sinto demais a agudeza da inadequação da caneta e tintae, sobre tudo, minha própria insuficiência para expressar sua qualidade. Você , suporei, com atenção suficiente; mas você não pode ver a face branca, sincera do orador no círculo brilhante da pequena lâmpada, nem ouvir a entonação de sua voz. Você não pode saber como sua expressão seguiu as voltas de sua história! A maior parte dos ouvintes estava na sombra, pois as velas na sala de fumo não haviam sido acessas, e somente a face do Jornalista e as pernas abaixo dos joelhos do Homem Silencioso estavam iluminadas. Primeiro, olhamos agora e novamente uns para os outros. Após um tempo, paramos de fazer isso e olhamos somente para a face do Viajante do Tempo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.25-37. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/25/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Água das Ilhas Maravilhosas - A Segunda Parte: Sobre As Ilhas Maravilhosas - Capítulo III Birdalone é trazida diante da Irmã da Bruxa-esposa

Capítulo anterior


[82]Assim elas finalmente chegaram à casa mesma e, embora ela se levantasse alto na inclinação, uma grande escadaria ou plataforma de pedra subia a ela, e era de muita majestade. Elas atravessaram a varanda, a qual era sustentada por colunas e era encantadora, e entraram em um grande salão muito nobremente construído. Na outra extremidade dali, em um trono dourado que se erguia sobre um estrado, sentava-se uma mulher gorda envolta em vermelho escarlate. As três donzelas conduziram Birdalone a cerca de quatro passos da grande senhora. Em seguida, afastaram-se dela e deixaram-na em pé sozinha ali, a mulher trajada de escarlate diante dela; à sua direita e à esquerda os altos pilares subindo cintilantes em direção ao teto e, ao redor de seus pés o chão negro polido, com o chafurdar de estranhas bestas, grandes serpentes e dragões todos trabalhados no solo de azul-carvão.

Quando ela foi deixada sozinha, no início cambaleou, e aproximou-se de cair; mas, em seguida, retornou um pouco de coração a ela, enquanto dizia para si mesma que deveria verdadeiramente morrer de uma vez por todas, e não longo tempo seria a passagem da vida para a morte. Ela olhou para cima e contemplou a bruxa-senhora, que era mais ou menos como a irmã dela, de pele branca e abundante cabelo dourado como era ela, apenas mais jovem de aspecto, e de maneira nenhuma tão desagradável como aquela outra agora se tornou; pois um pouco bem formada de corpo ela era; apenas a face dela proibitiva; seu lábio inferior saltado, suas bochechas macias e [83]caídas, seus olhos pouco mais que meio abertos; para ser breve, a face igualmente orgulhosa, tola e cruel; terrível verdadeiramente, sentando-se naquele lugar em julgamento de uma nua criatura encolhida.

Agora ela falou; e se não havia nenhuma majestade ou solenidade na voz, havia alegria repulsiva e malícia ali; mas ela disse para aquelas donzelas: “É esta a mulher que meus olhos afiados contemplaram vir à terra do Bote de Envio de minha irmã agora mesmo?” Aurea ajoelhou-se sobre um joelho, e disse: “Sim, muito a agrade, minha senhora.”

Em seguida, disse a bruxa:Oh tu! Tu pretextarás alguma incumbência de minha irmã aqui? Tu consideras-me tão imbecil que não sei que, se ela tivesse enviado-te para cá, tu não terias chegado nesta situação difícil? Não, eu sei; tu roubaste a ti mesma dela: tu és uma ladra, e como deve ser tratada.

Falou Birdalone, em uma voz clara:Nenhuma incumbência pretexto de tua irmã, senhora: quando eu não pude mais suportar minha vida lá, aproveitei para fugir dela: essa é toda a minha história; contudo, uma vez e outra, tem estado em minha mente que foi tua irmã quem me roubou de quem me amava.

Hah, escrava! disse a senhora,tu és corajosa; tu és muito corajosa, tu infeliz nua, de palavras tortas para mim. O que guardo de tua história agora que tu estás em minha mão?A voz dela era fria em vez de feroz, contudo havia o veneno da malícia ali. Porem Birdalone falou: “Se eu sou corajosa, senhora, é porque vejo que cheguei à Casa da Morte. A morte pode bem ser corajosa.”

[84]A Casa da Morte!bradou a senhora estúpida;e tu chamarás minha nobre casa de Casa da Morte? Agora tu não és mais corajosa, escrava desnuda, apenas imprudente.

Desprezo surgiu no coração de Birdalone diante dessa palavra, mas ela conteve-se e falou:Eu quis dizer que agitei a ira em ti, e que, portanto, tu me matarás; e que não ajuda implorar piedade de ti.

Riu a senhora:Tu és uma tola, escrava,disse ela; “se um pardal de minha irmã fugisse para cá, eu não deveria torcer seu pescoço, apenas guardá-lo para ela. Assim deverei eu fazer contigo. Eu não deverei matar-te, e assim destruir a propriedade de minha irmã; nem deverei eu estragar-te, e estragar a propriedade dela. Eu deverei enviar-te de volta para ela, a escrava roubada no bote roubado, quando eu tiver ensinado-te uma lição aqui. Verdadeiramente foi por essa causa que, parece-me, ela deixou-te escorregar através dos dedos, pois ela é sábia o suficiente para ter impedido destas férias, tivesse ela desejado. Mas ela é compassiva, e gentil, e mole, e poderia bem julgar que se teu castigo fosse aplicado pela mão dela aqui, ele seria melhor que tratado pela misericórdia dela. Agora, escrava, falei o suficiente para ti, ou mais do que suficiente: volte para longe de meus ouvidos.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 82-84. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/82/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...