Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XIV Mahaina

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[104]XIV Mahaina


Eu continuei minha estada com os Nosnibors. Em uns poucos dias, o sr. Nosnibor tinha se recuperado da sua flagelação e estava esperando com alegria o fato de que a próxima seria a última. Eu não pensava que parecia haver nenhuma ocasião para isso; mas ele disse que era melhor estar do lado seguro, e ele completaria a dúzia. Ele agora seguia com seus negócios como de costume; e eu descobri que ele nunca tinha sido mais próspero, a despeito de sua multa pesada. Ele estava incapaz de me conceder muito do seu tempo durante o dia; pois ele era um daqueles homens valiosos que eram pagos não por ano, mês, semana ou dia, mas pelo minuto. Contudo, a esposa e filhas dele mimaram-me, e introduziram-me aos seus amigos, quem vinham em multidões para me visitar.

Uma dessas pessoas era uma dama chamada de Mahaina. Zulora (a filha mais velha do meu anfitrião) correu até ela e abraçou-a tão logo ela entrou na sala, ao mesmo tempo inquirindo afetuosamente sobre sua “pobre dipsomania.” Mahaina respondeu que ela estava exatamente tão ruim quanto sempre; ela era um mártir perfeito dela, e a sua saúde excelente era a única coisa que a consolava sob sua aflição.

Então as outras damas se juntaram com condolências e sugestões que nunca falham de que elas estavam prontas para qualquer doença mental. Elas recomendaram o seu próprio endireitador e menosprezaram o de Mahaina. A sra. Nosnibor tinha uma panaceia favorita, mas eu pude compreender pouco da sua natureza. Eu ouvi as palavras “completa confiança de que o desejo de beber cessará quando a fórmula tiver sido repetida … essa confiança é tudo … muito longe de desvalorizar uma determinação completa para nunca tocar novamente em álcoois … falha muito frequentemente … fórmula uma cura certa (com grande ênfase) … forma prescrita … convicção completa.” Então a conversa tornou-se mais audível, e foi levada a cabo à extensão considerável. Eu deveria confundir a mim mesmo e ao leitor ao tentar seguir a perversidade engenhosa de tudo que foi dito; é o suficiente que no curso do tempo a [105]visita chegou a um fim, e Mahaina partiu recebendo abraços afetuosos de todas as damas. Eu tinha permanecido em segundo plano depois da primeira cerimônia de introdução, pois eu não gostei da aparência de Mahaina, e a conversação desagradou-me. Quando ela deixou o aposento, eu tive algum consolo nos comentários induzidos pela partida dela.

Imediatamente elas começaram elogiando-a muito discretamente. Ela era toda essa variedade de coisas até que eu antipatizei cada vez mais com ela a cada palavra, e inquiri como era que os endireitadores não tinham sido capazes de a curar como eles tinham curado o sr. Nosnibor.

Houve uma sombra de significado na face da sra. Nosnibor enquanto eu dizia isso, a qual parecia implicar que ela não considerava o caso de Mahaina ser um exatamente para um endireitador. Cintilou através de mim que talvez a pobre mulher não tinha bebido de qualquer maneira. Eu sabia que não devia ter perguntado, mas não pude evitar, e perguntei diretamente se ela bebe ou não.

Nenhum de nós pode julgar a condição de outras pessoas,” disse a sra. Nosnibor em tom gravemente caridoso e como um olhar na direção de Zulora.

Oh, mamãe,” respondeu Zulora, fingindo estar meio brava mas alegre por ser capaz de dizer o que ela já estava ansiando para insinuar; “Eu não acredito em uma palavra disso. É tudo indigestão. Eu lembro-me de permanecer na casa com ele por um mês inteiro no último verão, e eu estou certa de que ela nunca tocou em uma gota de vinho ou álcoois. O fato é, Mahaina é uma garota muito fraca, e ela finge embriagar-se a fim de conquistar uma indulgência dos seus amigos, à qual ela não tem direito. Ela não é suficientemente forte para os exercícios calistênicos dela, e ela sabe que seria obrigada a realizá-los, a menos que a inabilidade dela fosse referida a causas morais.”

Aqui a irmã mais jovem, quem sempre era doce e amável, observou que ela achava que Mahaina bebia ocasionalmente. “Eu também penso,” ela acrescentou, “que algumas vezes requer suco de papoula.”

[106]“Bem, então, talvez ela beba algumas vezes,” disse Zulora; “mas ela nos faria pensar que ela faz isso muito mais frequentemente para esconder a fraqueza dela.”

E assim elas prosseguiram por uma hora e meia e mais, falando repetidamente sobre a questão de quão real ou não era a intemperança da sua última visitante. Ocasionalmente elas se juntariam em algum lugar-comum caridoso, e fingiriam estar todas de acordo de que Mahaina era uma pessoa cuja a saúde corporal seria excelente se não fosse por sua incapacidade desafortunada para evitar beber excessivamente; mas, assim que isso parece estar justamente estabelecido, elas começariam a ficar desconfortáveis até que elas tivessem desfeito o seu trabalho e deixado algumas imputações sérias sobre a constituição dela. Finalmente, vendo que o debate tinha assumido o caráter de um ciclone ou tempestade circular, girando e girando e girando e girando até que ninguém pudesse dizer onde ele começou, nem onde ele terminou, eu fiz alguma apologia por uma partida abrupta e retirei-me para o meu próprio aposento.

Aqui, finalmente eu fiquei sozinho, mas eu estava muito infeliz. Eu tinha me deparado com um conjunto de pessoas que, a despeito de sua elevada civilização e muitas excelências, tinha estado tão envolvida por visões equivocadas apresentadas a elas durante a infância, de geração a geração, que era impossível ver como alguma vez elas poderiam iluminar-se. Não havia nada que eu poderia dizer para fazer eles perceberem que a constituição do corpo de uma pessoa era uma coisa sobre a qual ele ou ela não tinha, de qualquer maneira, nenhum controle inicial que fosse, embora a mente fosse uma coisa perfeitamente diferente, e capaz de ser criada outra vez e dirigida de acordo com o prazer do seu possuidor? Eu não poderia nunca os trazer para ver que, embora os hábitos da mente e do caráter fossem inteiramente independentes da força mental educação iniciais, o corpo era igualmente uma criatura de origem e circunstâncias, que nenhuma punição por saúde ruim nunca deveria ser tolerada, salvo como uma proteção contra contágio, e que mesmo onde a punição fosse inevitável ela deveria ser acompanhada por compaixão? Certamente, se a infeliz Mahaina devesse [107]perceber que ela poderia admitir a sua fraqueza física sem medo de ser desprezada pelas suas enfermidades, e se existissem médicos a quem ela pudesse expressar completamente o seu caso, ela não hesitaria em o fazer em consequência do medo de um tomar remédio desagradável. Era possível que a doença dela fosse incurável (pois eu tinha ouvido o suficiente para me convencer que a dipsomania dela era apenas um fingimento e que ela era temperada em todos os seus hábitos); nesse caso, talvez ela pudesse ficar sujeita a contratempos ou mesmo a constrangimento; mas quem poderia dizer se era era curável ou não, até que ela fosse capaz de ser honesta sobre os seus sintomas em vez de os esconder? Em sua ansiedade para se livrarem de doenças, essas pessoas atiraram além de sua marca; pois as pessoas tinham se tornado tão habéis dissimulando – elas pintavam seus rostos com habilidade tão consumada – elas reparavam a decadência do tempo e os efeitos do infortúnio com dissimulação tão profunda – que era realmente impossível dizer se qualquer uma delas estava bem ou doente após uma familiaridade íntima de meses ou anos. Mesmo então, os mais astutos eram constantemente mal interpretados nos seus julgamentos, e casamentos frequentemente eram contraídos com os resultados mais deploráveis, devido à arte com a qual a enfermidade tinha sido escondida.

Pareceu-me que o primeiro passo na direção da cura de doenças deveria ser o anúncio do fato para as relações e amigos próximos de uma pessoa. Se qualquer um tivesse uma dor de cabeça, a ele deveria ser permitido, dentro de limites razoáveis, dizê-lo de uma vez e retirar-se para o seu próprio quarto e tomar uma pilula, sem todos parecendo graves e lágrimas sendo derramadas e todo o resto disso. Como era, mesmo ao ouvir-se sussurrado que alguém estava sujeitado a dores de cabeça, uma companhia inteira tem de parecer como se eles nunca tivessem tido uma dor de cabeça em todas as suas vidas. É verdadeiro que elas não era muito prevalentes, pois as pessoas eram as mais ricas e mais dignas imagináveis, devido à severidade com a qual a saúde ruim era tratada; ainda assim, mesmo os melhores eram passíveis de ficarem fora de controle algumas vezes, e havia poucas famílias que não tinham uma farmacinha em um armário em algum lugar.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 104-107. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/104/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XIII As Visões dos Erewhonianos a respeito da Morte

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[97]XIII As Visões dos Erewhonianos a respeito da Morte


Os erewhonianos consideram a morte com menos aversão do que a doença. Se de qualquer maneira é uma ofensa, é uma ofensa além do alcance da lei, a qual, portanto, é silente sobre o tema; mas eles insistem em que o número maior daqueles que comumente se dizem terem morrido, ainda nunca nasceram – não, pelo menos, para o mundo invisível, o qual, sozinho, é digno de consideração. Com respeito a esse mundo invisível, eu entendo-os dizer que algum aborto com respeito a ele, antes que eles tenham alcançado o visível, e alguns depois, enquanto poucos algumas vezes nascem para ele de qualquer maneira – a maior parte de todos os homens e mulheres sobre o país inteiro abortando antes que eles o alcancem. E eles dizem que isso não importa tanto quanto nós consideramos que importa.

Quanto ao que nós chamamos de morte, eles argumentam que muita coisa foi feito dela. O mero conhecimento de que um dia nós deveremos morrer não nos torna muito felizes; ninguém pensa que ele ou ela escapará, de maneira que ninguém ficará desapontado. Nós não nos importamos muito, mesmo embora nós saibamos que não temos muito para viver; a única coisa que seriamente nos afetaria seria conhecer – ou antes pensar que nós conhecemos – o momento preciso no qual o golpe cairá. Felizmente ninguém nunca pode conhecer isso com certeza, embora muitos tentem tornar a si mesmos miseráveis arriscando-se a descobrir. Parece como se houvesse algum poder em algum lugar que misericordiosamente nos impede de colocar aquele ferroada na cauda da morte, a qual nós colocaríamos lá se nós pudéssemos, e que assegura que, embora a morte sempre deva ser um pesadelo, nunca deverá, sob nenhuma circunstância concebível, ser mais do que um pesadelo.

Pois mesmo que um homem seja condenado a morrer no intervalo de uma semana e seja trancado em uma prisão da qual é certo que ele não pode escapar, ele sempre terá a esperança de que um adiamento pode ocorrer antes que semana tenha passado. Além disso, a prisão pode pegar fogo, e ele pode ser sufocado não com uma corda, mas com fumaça ordinária comum; ou ele pode ser morto [98]por relâmpago, enquanto exercitando-se nos pátios da prisão. Quando a manhã chegou na qual o pobre miserável deve ser enforcado, ele pode engasgar no café da manhã, ou morrer depois de falha da atividade do coração antes que o alçapão tenha caído; e, mesmo que ele tenha caído, ele não pode estar bastante certo de que ele está prestes a morrer, pois ele não pode saber disso até que a morte tenha efetivamente ocorrido, e será tarde demais para ele descobrir que ele está prestes a morrer na hora indicada afinal. Portanto, os erewhonianos sustentam que a morte, como a vida, é uma questão para ficar mais assustado do que machucado.

Eles cremam os seus mortos, e as cinzas logo são espalhadas sobre qualquer pedaço de terra que o morto mesmo possa ter escolhido. A ninguém é permitido recusar essa hospitalidade ao morto: portanto, as pessoas geralmente escolhem algum jardim ou pomar que elas podem ter conhecido e do qual gostavam quando elas eram jovens. O supersticioso sustenta que aqueles cujas cinzas são espalhadas sobre qualquer terreno tornam-se guardiões ciumentos dele daquele momento em diante; e o vivo gosta de pensar que eles deverão tornar-se identificados com esta ou aquela localidade onde uma vez eles foram felizes.

Eles não levantam monumentos, nem escrevem epitáfios para os seus mortos, embora em épocas antigas a prática deles foi muito como a nossa, mas eles têm um costume que equivale muito à mesma coisa, pois o instinto de preservar o nome vivo depois da morte do corpo parece ser comum a todo o gênero humano. Eles têm estátuas de si mesmos criadas enquanto eles ainda estavam vivos (quer dizer, aqueles que podem se permitir), e escrevem inscrições sob elas, as quais, frequentemente, são bastante tão mentirosas quanto os nossos próprios epitáfios – apenas de outra maneira. Pois eles não hesitam em descreverem a si mesmos como vítimas de mau humor, inveja, cobiça e semelhantes, mas quase sempre reivindicam beleza pessoal, quer ele a tenham quer não, e, frequentemente, a posse de uma grande soma na dívida financiada do país. Se a pessoa é feia, ela não se senta como um modelo para a sua própria estátua, embora ela [99]porte o nome dela. Ela consegue o mais bonito dos seus amigos para se sentar por ela, e uma das maneiras para cumprimentar o outro é pedir-lhe para se sentar para uma tal estátua. As mulheres geralmente se sentam para as suas próprias estátuas, por causa de uma aversão natural para admitirem a beleza superior de uma amiga, mas eles esperar ser idealizadas. Eu entendi que a multitude dessas estátuas estava começando a ser sentida como um estorvo em quase toda família, e que o costume provavelmente cairia em desuso.

De fato, isso já aconteceu para a satisfação de cada um, no que diz respeito às estátuas de homens públicos – não mais do que três das quais podem ser encontradas na capital inteira. Eu expressei minha surpresa sobre isso, e disseram-me que, há quinhentos anos antes da minha visita, a cidade tinha sido tão invadida por essas pestes, que não havia como se desviar, e as pessoas ficaram preocupados além da paciência ao terem sua atenção reivindicada a cada toque e giro para alguma coisa, a qual, quando elas prestavam atenção nela, descobriram não lhas interessar. A maioria dessas estátuas foi mera tentativa para fazer com algum homem ou alguma mulher o que um taxidermista faz com mais sucesso com um cão, ou pássaro ou lúcio. Geralmente elas eram forçadas em público por algum círculo social que estava tentando se exaltar ao exaltar outra pessoa e, frequentemente, elas não tinham nenhum outro princípio além do desejo da parte de algum outro membro do círculo social para encontrar um trabalho para um jovem escultor com o qual a sua filha estava comprometida. Estátuas geradas assim nunca poderiam ser alguma coisa exceto deformidades, enquanto a arte de as produzir de qualquer maneira tornou-se amplamente praticada.

Eu não sei o porquê, mas todas as artes mais nobres se mantêm em perfeição apenas por um momento muito curto. Elas logo atingem uma eminência a partir da qual elas começam a declinar, e quando elas começam a declinar, é uma pena que elas não possam ser terminadas; pois um artista é como um organismo vivo – melhor morto do que morrendo. Não há maneira de tornar novamente jovem um [100]artista idoso; ele deve nascer novamente e crescer desde a infância como uma coisa nova, causando a sua própria salvação, de esforço para esforço, em todo medo e tremor.

Os erewhonianos de cinco séculos atrás não entendiam nada disso – eu duvido de se mesmo agora eles o fazem. Eles queriam obter a coisa mais próxima que eles poderiam para um homem empalhado cujo empalhamento não deveria ficar mofado. Eles deveriam ter tido algum estabelecimento semelhante ao da nossa Madame Tussaud, onde as figuras usam roupas reais, e são pintadas à natureza. Uma tal instituição poderia ter sido tornada autossustentável, por pessoas que ter sido feitas pagar antes que elas entrassem. Como foi, eles tiveram de deixar seus pobres heróis e heroínas frios, encardidos, sem cor, inativos em praças e em cantos de ruas em todos os climas, sem nenhuma tentativa de higienização artística – pois não havia provisão para enterrar suas obras de artes de mortos para fora da vista deles – nenhuma drenagem, por assim dizer, pela qual elas tivessem sido suficientemente assimiladas, quanto a formar parte da impressão residual do país, poderia ser levada embora do sistema. Consequentemente, eles colocam-nas, com um coração leve, no gargalhar dos círculos sociais, e eles e seus filhos tiveram de viver, frequentemente bastante, com algum pulmão verboso cuja covardia custou ao país perda incalculável em sangue e dinheiro.

Finalmente o mal alcançou uma altura tão grande que o povo se levantou e, com fúria indiscriminada, destruiu igualmente o bem e o mal. A maior parte do que foi destruído era ruim, mas algumas poucas obras era boas, e os escultores de hoje apertaram suas mãos sobre alguns dos fragmentos que foram preservados em museus em vários lugares do país. Por um par de centenas de anos ou aproximadamente, nenhuma estátua foi criada de uma extremidade a outra do país, mas o instinto para ter homens e mulheres empalhados era tão forte, que por fim as pessoas começaram a tentar cria-las novamente. Não sabendo como as produzir, e não tendo academias para os desencaminhar, os primeiros escultores desse período pensaram as coisas [101]por si mesmas, e novamente produziram obras que eram cheias de interesses, de maneira que, em três ou quatro gerações eles alcançaram uma perfeição dificilmente, se de qualquer maneira inferior àquela de várias centenas de anos atrás.

Nisso os mesmos males recorreram. Escultores obtiveram altos preços – a arte tornou-se um comércio – escolas surgiram que professavam vender o espírito santo da arte por dinheiro; pupilos aglomeravam-se de longe e perto para o comprar, na esperança de o vender depois, e foram atingidos por cegueira como uma punição pelo pecado daqueles que os enviaram. Logo uma segunda fúria iconoclástica infalivelmente teria se seguido, mas, pela presciência de um estadista que teve sucesso em aprovar uma Lei para o efeito de que nenhuma estátua de nenhum homem ou nenhuma mulher públicos deveria permanecer inteira por mais do que cinquenta anos, a menos que, ao final desse período, um júri de vinte e quatro homens, tomados aleatoriamente da rua, pronunciasse-se em favor de ser concedido a ela mais cinquenta anos de vida. A cada cinquenta anos essa reconsideração deveria ser repetida, e, a menos que houvesse uma maioria de dezoito em favor da retenção da estátua, ela devia ser destruída.

Talvez um plano mais simples teria sido proibir a construção de uma estátua de qualquer homem ou mulher públicos até que ele ou ela estivesse morto por, pelo menos, cem anos, e mesmo então insistir na reconsideração das reivindicações do morto e no mérito da estátua a cada cinquenta anos – mas o funcionamento da Lei causou resultados que, no todo, foram satisfatórios. Mas, em primeiro lugar, muitas estátuas públicas que teriam sido votadas sob o antigo sistema, não foram encomendadas, quando foi conhecido que elas seriam quase certamente quebradas após cinquenta anos, e, em segundo lugar, os escultores públicos, sabendo ser sua obra tão efémera, trabalhariam-na tão apressadamente que a tornariam ofensiva mesmo para o olho mais sem cultura. Consequentemente, logo os contribuintes pagariam ao escultor pela estátua do seu estadista falecido, com a condição de que ele não a produzisse. Dessa maneira, o tributo do respeito era pago ao falecido, os [102]escultores públicos não era multados e o resto do público não sofria nenhuma inconveniência.

Contudo, contaram-me que um abuso desse costume está crescendo, na medida que a competição pela comissão de não produzir a estátua é tão aguda que certos escultores teriam sido conhecidos por retornar uma parte considerável do dinheiro da compra para os contribuintes, pelo arranjo feito com eles antecipadamente. Contudo, tais transações são sempre clandestinas. Uma pequena inscrição é deixada no pavimento, onde a estátua pública teria ficado, a qual informa ao leitor de que uma tal estátua foi encomendada para a pessoa, quem quer que ele ou ela possa ser, mas que até agora o escultor não foi capaz de a contemplar. Não havia nenhuma Lei para reprimir estátuas que fossem intencionadas para consumo privado, mas, como eu disse, o costume está caindo em desuso.

Retornando aos costumes erewhonianos em conexão com a morte, há um que eu dificilmente posso deixar de mencionar. Quando qualquer um morre, os amigos da família não escrevem cartas de condolências, nem eles frequentam a dispersão das cinzas, nem usam vestes de luto, mas eles enviam pequenas caixas cheias com lágrimas artificiais, e com o nome do remetente pintado nitidamente sobre o lado de fora da tampa. As lágrimas variam em número, de dois a quinze ou dezesseis, de acordo com o grau de intimidade ou relacionamento; e algumas vezes as pessoas consideram um belo ponto de etiqueta conhecer o número exato que elas devem enviar. Estranha como pode parecer, essa atenção é altamente valorizada, e a sua omissão por aqueles de quem ela deveria ser esperada é profundamente sentida. Antigamente essas lágrimas era fixas com esparadrapo nas bochechas do enlutado por uns poucos meses depois da morte de um parente; então elas foram banidas para o chapéu ou gorro, e agora não são mais usadas.

O nascimento de uma criança é considerado como um assunto doloroso no qual é mais gentil não tocar: a doença da mãe é cuidadosamente oculta até a necessidade de assinar [103]o leite infantil (o que, daqui em diante) torna segredo adicional impossível, e, por alguns meses antes do evento, a família vive em isolamento, vendo muito pouca companhia. Quando a ofensa é passada e lidada, ela é tolerada pela carência comum de lógica; pois essa provisão misericordiosa da natureza, esse amortecedor contra colisões, essa fricção que perturba os nossos cálculos, mas sem a qual a existência seria intolerável, essa glória coroada da invenção humana, pela qual nós podemos ser cegados e ver em um e mesmo momento essa inconsistência abençoada existe aqui como em outros lugares; e embora os mais estritos escritores sobre moralidade tenham sustentado que é perverso para uma mulher ter filhos em absoluto, na medida que deve ser a partir da nossa saúde que o bem pode vir, todavia, a necessidade do caso causou um sentimento geral em favor de atravessar tais eventos em silêncio, e de assumir a não existência deles exceto em casos tão flagrantes que se forçam sobre a observação pública. Contra esses, a condenação da sociedade é inexorável, e se é acreditado que a doença foi perigosa e prolongada, é quase impossível para uma mulher recuperar sua antiga posição na sociedade.

As convenções acima me pareceram como cruéis e arbitrárias, mas elas deram um fim a muitos padecimentos imaginados; pois a situação, tão longe de ser considerada interessante, é olhada como tendo mais ou menos distintamente o sabor de uma condição muito repreensível de coisas, e as damas tomam cuidado para a ocultar enquanto elas podem, mesmo dos seus próprios esposos, em antecipação de uma repreensão severa tão logo a contravenção seja descoberta. Também o bebê é mantido fora de vista, exceto no dia de assinatura do leite infantil, até que ele possa andar e falar. Devesse a criança infelizmente morrer, um inquérito de legista seria inevitável, mas, a fim de evitar desgraçar uma família que até então tinha sido respeitada, é quase invariavelmente considerada que a criança tinha mais setenta e cinco anos de idade e morreu de declínio da natureza.


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BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 97-103. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/97/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XII Descontentes

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[89]XII Descontentes


Eu confesso que me senti muito infeliz quando cheguei em casa e pensei mais cautelosamente sobre o julgamento que há pouco tinha testemunhado. Pelo momento, eu tinha sido arrebatado pela opinião daqueles entre os quais eu estava. Eles não tinham dúvidas sobre o que estavam fazendo. Não parecia haver nenhuma pessoa na corte inteira que tivesse a menor dúvida, apenas que tudo era exatamente como deveria ser. Essa universal confiança desavisada foi transmitida para mim mesmo por simpatia, a despeito de todo o meu treinamento em opiniões tão amplamente diferentes. Assim é com a maioria de nós: que aquilo que nós observamos ser tomado como uma coisa natural por aqueles a nossa volta, nós mesmos tomamos como uma coisa natural. E, afinal, é nosso deve fazer isso, salvo em consequência de grave ocasião.

Mas quando eu fiquei sozinho, e comecei a refletir sobre o julgamento, ele certamente me surpreendeu como revelando uma posição estranha e insustentável. Tivesse o juiz dito que ele reconhecia a verdade provável, a saber, que o prisioneiro nasceu de pais pouco saudáveis, ou tivesse passado fome na infância, ou tivesse passado por acidentes que tivesse desenvolvido tuberculose; e em seguida, tivesse ele prosseguido para dizer que, embora ele conhecesse tudo isso, ele arrependia-se amargamente de que a proteção da sociedade obrigava-o a infligir dor adicional sobre alguém que já tinha sofrido tanto, todavia, que não havia ajuda para isso, eu poderia ter entendido a posição, por mais equivocada que eu poderia tê-la considerado. O juiz estava completamente persuadido de que a imposição de dor sobre o fraco e doente era o único meio para evitar que a fraqueza e doença se espalhem, e que dez vezes o sofrimento agora infligido sobre o acusado eventualmente foi desviado de outros pela presente severidade aparente. Portanto, eu poderia perfeitamente entender sua imposição de qualquer dor que ele pudesse considerar necessária a fim de evitar que um exemplo tão ruim se espalhasse mais e rebaixasse o padrão erewhoniano; mas pareceu quase infantil dizer ao prisioneiro que ele poderia ter estado em boa saúde, se ele tivesse sido [90]mais afortunado em sua constituição, e tivesse sido exposto a menos sofrimentos quando ele era um menino.

Eu escrevo com grande desconfiança, mas parece-me que não há injustiça em punir pessoas por seus infortúnios, ou recompensá-las por sua pura boa sorte: é a condição normal da vida humana que isso deveria ser feito, e nenhuma pessoa moderada reclamaria de estar sujeita ao tratamento comum. Não há alternativa aberta para nós. É inútil dizer que os homens não são responsáveis pelos seus infortúnios. O que é responsabilidade? Certamente, ser responsável significa ser responsável por ter de dar uma resposta devesse ela ser demandada, e todas as coisas que vivem são responsáveis por suas vidas e ações, devesse a sociedade entender adequado questioná-las através da boca de seu agente autorizado.

Qual é a ofensa de um cordeiro para que nós deveríamos cuidá-lo, e guardá-lo, e acalmá-lo à segurança, para o propósito expresso de o matar? A sua ofensa é o infortúnio de ser alguma coisa que a sociedade quer comer, e que não pode se defender. Isso é suficiente. Quem deverá limitar o direito da sociedade exceto a sociedade mesma? E que consideração pelo indivíduo é tolerável a menos que a sociedade seja a ganhadora por esse meio? Portanto, deveria um homem ser tão ricamente recompensado por ter sido filho de um milionário, não fosse isso claramente demonstrável que, dessa maneira, o bem-estar comum é melhor promovido? Nós não podemos depreciar o mérito de um homem em ter sido o filho de um pai rico sem colocar em perigo o nosso gozo de coisas que nós não queremos comprometer; se isso fosse de outra maneira, nós não deveríamos deixá-lo manter o seu dinheiro por uma única hora; nós o reclamaríamos de uma vez. Pois propriedade é roubo, mas então, nós todos somos assaltantes ou pretensos assaltantes juntos, e consideramos essencial organizar o nosso roubo, como nós consideramos necessário organizar a nossa luxúria e nossa vingança. Propriedade, casamento e a lei; como o leito para o rio, assim a regra e convenção pelo instinto; e ai daquele que mexe com os bancos de areio enquanto a enchente está fluindo.

[91]Mas para retornar. Mesmo na Inglaterra um homem a bordo de um navio com febre amarela é responsabilizado por seu infortúnio, não importa o que possa custar a ele ser mantido em quarentena. Ele pode contrair a febre e morrer; nós não podemos evitar isso; ele tem de arriscar como as outras pessoas arriscam; mas certamente seria crueldade desesperada adicionar contumélia a nossa autoproteção, a menos que, de fato, nós acreditemos que a contumélia seja um dos nossos melhores meios de autopreservação. Novamente, tome-se o caso dos maníacos. Nós dizemos que eles são irresponsáveis pelas ações deles, ou deveríamos tomar muito cuidado, para que eles devessem responder pela insanidade deles, e nós os aprisionaríamos no que nós chamamos de um asilo (que santuário moderno!), se nós não gostássemos das respostas deles. Esse é um caso estranho de irresponsabilidade. O que nós podemos dizer é que podemos nos permitir ficar satisfeitos com uma resposta menos satisfatória de um lunático do que de alguém que não é louco, porque loucura é menos infecciosa do que crime.

Nós matamos uma serpente se ficamos em perigo por ela, simplesmente por tal e tal ser uma serpente e estar em um lugar tal e tal; mas nós nunca diremos que a serpente tem apenas a si mesma para culpar por não ter sido uma criatura inofensiva. O seu crime é ser o ser que ela é: mas isso é uma ofensa capital, e nós estamos certos em a matar para fora do caminho, a menos que nós consideremos mais perigoso fazer isso do que a deixar escapar; mesmo assim, nós apiedamo-nos da criatura, mesmo se nós a matamos.

Mas no caso daquele cujo julgamento eu descrevi acima, era impossível que qualquer um na corte não devesse ter conhecido que foi apenas por um acidente de nascimento e circunstâncias que ele mesmo também não estava com uma tuberculose; e contudo ninguém pensou que os desgraçava ouvir o juiz dar vazão aos truísmos mais cruéis sobre ele. O juiz mesmo era uma pessoa amável e pensativa. Ele era um homem de presença magnífica e benigna. Ele era evidentemente de uma constituição de aço, e seu rosto usava uma expressão da sabedoria mais madura e experiência; todavia, por tudo isso, idoso e instruído como ele era, ele não podia ver coisas [92]que alguém teria pensado teriam sido aparentes até para uma criança. Ele não podia se emancipar, ou melhor, nem mesmo lhe ocorreu o sentimento, da sujeição às ideias nas quais ele tinha nascido e sido criado.

Assim também foi com o júri e os espectadores; e – o mais maravilhoso de tudo – assim foi mesmo com o prisioneiro. Embora ele parecesse completamente impressionado com a noção de que se estava lidando com ele justamente: ele não viu nada arbitrário ao ser dito a ele pelo juiz que ele devia ser punido, não tanto como uma proteção necessária para a sociedade (embora isso não estivesse inteiramente perdido de vista), como porque ele não tinha sido melhor nascido em criado do que ele foi. Mas isso me levou a ter esperança de que ele sofreu menos do que ele teria sofrido se ele tivesse visto a questão à mesma luz que eu vi. E, afinal, justiça é relativa.

Eu posso mencionar aqui que, há apenas alguns anos antes da minha chegada no país, o tratamento de todos os inválidos condenados tinha sido muito mais bárbaro do que agora, pois nenhum remédio físico era fornecido, e os prisioneiros eram colocados para o labor mais severo em todos os tipos de clima, de maneira que a maioria deles logo sucumbia aos sofrimentos extremos que eles sofriam; supunha-se que isso era benefício de algumas maneiras, na medida que colocava o país para gastar menos com a manutenção de sua classe criminosa; mas o crescimento da luxúria induziu a um relaxamento da antiga severidade, e uma era sensível não mais toleraria o que parecia ser um excesso de rigor, mesmo em relação ao mais culpado; além disso, descobriu-se que os júris estavam menos dispostos a condenar, e a justiça frequentemente era trapaceada, porque não havia alternativas entre virtualmente condenar um homem a morte e deixá-lo ir livre; também se sustentou que o país pagava em reincidências por sua severidade exagerada; pois aqueles que tinham sido aprisionados mesmo padecimentos insignificantes frequentemente ficavam permanentemente incapacitados pelo seu aprisionamento; e quando um homem tinha sido condenado uma vez, era provável que ele raramente ficaria fora das mãos do país subsequentemente.

[93]Há muito esses males tinham sido aparentes e reconhecidos; todavia, as pessoas eram indolentes demais, e indiferentes demais a sofrimento de outros, para se moverem para colocarem um fim nele, até que, por fim, um reformador benevolente devotou sua vida inteira a efetuar as mudanças necessárias. Ele dividiu todas as doenças em três classes – aquelas afetando a cabeça, o tronco e os membros inferires – e obteve uma promulgação de que todas as doenças da cabeça, ou internas ou externas, deveriam ser tratadas com láudano, aquelas do corpo com óleo de castor, e aquelas dos membros inferiores com um linimento de forte ácido sulfúrico e água.

Pode ser dito que a classificação não foi suficientemente cuidadosa, e que os remédios foram mal escolhidos; mas é uma coisa difícil iniciar qualquer reforma, e foi necessário familiarizar a mente pública com o princípio, inserindo primeiro a borda fina da cunha; portanto, não é para se maravilhar que, entre um povo tão prático, ainda deva haver espaço para melhoria. A massa da nação estava bem satisfeita com os arranjos existentes, e acreditava que o seu tratamento dos criminosos deixa pouco ou nada a ser desejado; mas há uma minoria energética que sustenta o que são consideradas opiniões extremas, e que absolutamente não está disposta a descansar contente até que o princípio admitido nos últimos tempos seja levado mais adiante.

Eu tive algumas dificuldades para descobrir as opiniões desses homens e suas razões para as entreter. Eles são consideradas em grande ódio pela generalidade do público, e são considerados subversores de qualquer moralidade que seja. Os descontentes, por outro lado, afirmam que doenças são o resultado inevitável de certas condições antecedentes, as quais, na grande maioria dos casos, estavam além do controle do indivíduo, e que, portanto, um homem é culpado apenas por estar com uma tuberculose da mesma maneira que uma fruta podre é culpada por ter apodrecido. Verdadeiro, a fruta tem de se jogada de lado como imprópria para o uso do homem, e o homem com uma tuberculose tem de ser colocado na prisão para a proteção dos [94]seus companheiros cidadãos; mas esses radicais não o puniriam além da perda de liberdade e uma vigilância estrita. Enquanto fosse evitado que ele prejudicasse a sociedade, eles o permitiram tornar-se útil provendo quaisquer carência da sociedade que ele pudesse prover. Se ele sucedesse ganhando dinheiro dessa maneira, eles o teriam tornado tão confortável na prisão quanto possível, e de nenhuma maneira interfeririam com sua liberdade mais do que fosse necessário para evitar que ele escapasse, ou de se tornar mais severamente indisposto no interior das muralhas da prisão; mas eles deduziriam dos seus ganhos os custos de sua alimentação, alojamento, vigilância e metade daqueles da sua condenação. Se ele estivesse muito fraco para o seu suporte na prisão, eles não lhe permitiriam nada exceto pão e água, e muito pouco disso.

Eles dizem que a sociedade é tola por se recusar a deixar-se ser beneficiada por um homem meramente porque ele tinha causado prejuízo a ela até então, e que a objeção ao labor das classes doentes é apenas proteção em outra forma. É uma tentativa de elevar o preço natural de uma mercadoria dizendo que tais e tais pessoas, quem são capazes e estão dispostas a produzi-la não deveriam fazê-lo, pelo que alguém tem de pagar mais por ela.

Além disso, enquanto um homem não foi efetivamente morto ele é uma criatura companheira, embora talvez alguém muito desagradável. É em grande grau pelo feito de outros que ele é o que ele é, ou, em outras palavras, a sociedade que agora o condena é parcialmente responsabilizável por ele. Eles dizem que não há medo de qualquer aumento de doença sob essas circunstâncias, a dedução considerável e compulsória dos ganhos do prisioneiro, o uso muito frugal de estimulantes (dos quais ele permitiriam muito pouco para qualquer um, e nenhum para aqueles que não os ganharam), o celibato aplicado e, acima de tudo, a perda de reputação entre os amigos, são, na opinião deles, como amplas salvaguardas para a sociedade contra uma negligência [95]geral de saúde como a qual aqueles agora recorreram. Portanto (assim eles dizem), um homem deveria levar sua profissão ou ofício para a prisão com ele, se possível; se não, ele deve ganhar sua vida pela coisa mais próxima a eles que ele pode; mas se ele for um cavalheiro nascido e criado para nenhuma profissão, ele deve apanhar estopa, ou escrever crítica de arte para um jornal.

Essas pessoas dizem mais, que a maior parte da doença que existe em seu país é causado pela maneira insana na qual ela é tratada.

Eles acreditam que, em muitos casos, a doença é exatamente tão curável quanto as doenças morais que eles veem diariamente curadas em volta deles, mas que uma grande reforma é impossível até que os homens aprendam a adotar uma visão mais justa de a partir de qual obliquidade ela procede. Os homens ocultarão suas doenças enquanto eles forem observados ao tornarem-se conhecidos de que eles estão doentes; é a observação, não o remédio, que produz a ocultação; e se um homem sentisse que as notícias de seu estar em má saúde seriam recebidas pelos seus vizinhos como um fato deplorável, mas um muito como o resultado de causas antecedentes necessárias, como se ele tivesse invadido uma joalheria e roubado um valioso colar de diamantes – como um fato que poderia exatamente tão facilmente ter acontecido com eles mesmos, apenas que eles tiveram a sorte de ser melhor nascidos ou criados; e se ele também sentisse que eles não se tornariam mais desconfortáveis na prisão do que a proteção da sociedade contra infecção e o tratamento apropriado da sua própria doença efetivamente exigiam, os homens entregariam a si mesmos para a polícia tão prontamente ao perceberem que eles contraíram varíola, como eles agora vão ao endireitador quanto eles sentem que eles estão prestes a forjarem um testamento, ou fugirem com a esposa de alguém.

Mas o argumento principal do qual eles dependem é aquele da economia: pois eles sabem que alcançaram mais cedo o seu fim apelando para os bolsos dos homens, no qual eles geralmente têm alguma coisa deles mesmos, do que para as cabeças deles, a qual contém, pela maior parte, pouco exceto propriedade emprestada ou [96]roubada; e também, eles acreditam ser esse o teste mais pronto e aquele que tem mais para revelar por si mesmo. Se um curso de conduta pode ser revelado custar menos a um país, e isso não através de economia desonrosa e sem gasto indiretamente aumentado de outras maneiras, eles sustentam que ele requer um grande montante para perturbar os argumentos em favor da sua adoção, e se correta ou erroneamente, eu não posso pretender dizer, eles pensam que o tratamento mais medicinal e humano do doente, do qual eles são os defensores, a longo prazo, seria mais barato para o país: mas eu não inferi que esses reformadores eram opostos a corresponderem algumas das formas mais violentas de doença com o chicote, ou com a morte, porque eles não viram forma tão efetiva de as controlar; portanto, eles iriam flagelar e enforcar, mas eles o fariam piedosamente.

Talvez eu já tenha me demorado de mais sobre opiniões que podem não ter nenhuma influência possível sobre a nossa própria, mas eu não disse a décima parte do que esses aspirantes a reformadores insistiram comigo. Contudo, eu sinto que eu violei o suficiente da atenção do leitor.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 89-96. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/89/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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