Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[104]XIV Mahaina
Eu continuei minha estada com os Nosnibors. Em uns poucos dias, o sr. Nosnibor tinha se recuperado da sua flagelação e estava esperando com alegria o fato de que a próxima seria a última. Eu não pensava que parecia haver nenhuma ocasião para isso; mas ele disse que era melhor estar do lado seguro, e ele completaria a dúzia. Ele agora seguia com seus negócios como de costume; e eu descobri que ele nunca tinha sido mais próspero, a despeito de sua multa pesada. Ele estava incapaz de me conceder muito do seu tempo durante o dia; pois ele era um daqueles homens valiosos que eram pagos não por ano, mês, semana ou dia, mas pelo minuto. Contudo, a esposa e filhas dele mimaram-me, e introduziram-me aos seus amigos, quem vinham em multidões para me visitar.
Uma dessas pessoas era uma dama chamada de Mahaina. Zulora (a filha mais velha do meu anfitrião) correu até ela e abraçou-a tão logo ela entrou na sala, ao mesmo tempo inquirindo afetuosamente sobre sua “pobre dipsomania.” Mahaina respondeu que ela estava exatamente tão ruim quanto sempre; ela era um mártir perfeito dela, e a sua saúde excelente era a única coisa que a consolava sob sua aflição.
Então as outras damas se juntaram com condolências e sugestões que nunca falham de que elas estavam prontas para qualquer doença mental. Elas recomendaram o seu próprio endireitador e menosprezaram o de Mahaina. A sra. Nosnibor tinha uma panaceia favorita, mas eu pude compreender pouco da sua natureza. Eu ouvi as palavras “completa confiança de que o desejo de beber cessará quando a fórmula tiver sido repetida … essa confiança é tudo … muito longe de desvalorizar uma determinação completa para nunca tocar novamente em álcoois … falha muito frequentemente … fórmula uma cura certa (com grande ênfase) … forma prescrita … convicção completa.” Então a conversa tornou-se mais audível, e foi levada a cabo à extensão considerável. Eu deveria confundir a mim mesmo e ao leitor ao tentar seguir a perversidade engenhosa de tudo que foi dito; é o suficiente que no curso do tempo a [105]visita chegou a um fim, e Mahaina partiu recebendo abraços afetuosos de todas as damas. Eu tinha permanecido em segundo plano depois da primeira cerimônia de introdução, pois eu não gostei da aparência de Mahaina, e a conversação desagradou-me. Quando ela deixou o aposento, eu tive algum consolo nos comentários induzidos pela partida dela.
Imediatamente elas começaram elogiando-a muito discretamente. Ela era toda essa variedade de coisas até que eu antipatizei cada vez mais com ela a cada palavra, e inquiri como era que os endireitadores não tinham sido capazes de a curar como eles tinham curado o sr. Nosnibor.
Houve uma sombra de significado na face da sra. Nosnibor enquanto eu dizia isso, a qual parecia implicar que ela não considerava o caso de Mahaina ser um exatamente para um endireitador. Cintilou através de mim que talvez a pobre mulher não tinha bebido de qualquer maneira. Eu sabia que não devia ter perguntado, mas não pude evitar, e perguntei diretamente se ela bebe ou não.
“Nenhum de nós pode julgar a condição de outras pessoas,” disse a sra. Nosnibor em tom gravemente caridoso e como um olhar na direção de Zulora.
“Oh, mamãe,” respondeu Zulora, fingindo estar meio brava mas alegre por ser capaz de dizer o que ela já estava ansiando para insinuar; “Eu não acredito em uma palavra disso. É tudo indigestão. Eu lembro-me de permanecer na casa com ele por um mês inteiro no último verão, e eu estou certa de que ela nunca tocou em uma gota de vinho ou álcoois. O fato é, Mahaina é uma garota muito fraca, e ela finge embriagar-se a fim de conquistar uma indulgência dos seus amigos, à qual ela não tem direito. Ela não é suficientemente forte para os exercícios calistênicos dela, e ela sabe que seria obrigada a realizá-los, a menos que a inabilidade dela fosse referida a causas morais.”
Aqui a irmã mais jovem, quem sempre era doce e amável, observou que ela achava que Mahaina bebia ocasionalmente. “Eu também penso,” ela acrescentou, “que algumas vezes requer suco de papoula.”
[106]“Bem, então, talvez ela beba algumas vezes,” disse Zulora; “mas ela nos faria pensar que ela faz isso muito mais frequentemente para esconder a fraqueza dela.”
E assim elas prosseguiram por uma hora e meia e mais, falando repetidamente sobre a questão de quão real ou não era a intemperança da sua última visitante. Ocasionalmente elas se juntariam em algum lugar-comum caridoso, e fingiriam estar todas de acordo de que Mahaina era uma pessoa cuja a saúde corporal seria excelente se não fosse por sua incapacidade desafortunada para evitar beber excessivamente; mas, assim que isso parece estar justamente estabelecido, elas começariam a ficar desconfortáveis até que elas tivessem desfeito o seu trabalho e deixado algumas imputações sérias sobre a constituição dela. Finalmente, vendo que o debate tinha assumido o caráter de um ciclone ou tempestade circular, girando e girando e girando e girando até que ninguém pudesse dizer onde ele começou, nem onde ele terminou, eu fiz alguma apologia por uma partida abrupta e retirei-me para o meu próprio aposento.
Aqui, finalmente eu fiquei sozinho, mas eu estava muito infeliz. Eu tinha me deparado com um conjunto de pessoas que, a despeito de sua elevada civilização e muitas excelências, tinha estado tão envolvida por visões equivocadas apresentadas a elas durante a infância, de geração a geração, que era impossível ver como alguma vez elas poderiam iluminar-se. Não havia nada que eu poderia dizer para fazer eles perceberem que a constituição do corpo de uma pessoa era uma coisa sobre a qual ele ou ela não tinha, de qualquer maneira, nenhum controle inicial que fosse, embora a mente fosse uma coisa perfeitamente diferente, e capaz de ser criada outra vez e dirigida de acordo com o prazer do seu possuidor? Eu não poderia nunca os trazer para ver que, embora os hábitos da mente e do caráter fossem inteiramente independentes da força mental educação iniciais, o corpo era igualmente uma criatura de origem e circunstâncias, que nenhuma punição por saúde ruim nunca deveria ser tolerada, salvo como uma proteção contra contágio, e que mesmo onde a punição fosse inevitável ela deveria ser acompanhada por compaixão? Certamente, se a infeliz Mahaina devesse [107]perceber que ela poderia admitir a sua fraqueza física sem medo de ser desprezada pelas suas enfermidades, e se existissem médicos a quem ela pudesse expressar completamente o seu caso, ela não hesitaria em o fazer em consequência do medo de um tomar remédio desagradável. Era possível que a doença dela fosse incurável (pois eu tinha ouvido o suficiente para me convencer que a dipsomania dela era apenas um fingimento e que ela era temperada em todos os seus hábitos); nesse caso, talvez ela pudesse ficar sujeita a contratempos ou mesmo a constrangimento; mas quem poderia dizer se era era curável ou não, até que ela fosse capaz de ser honesta sobre os seus sintomas em vez de os esconder? Em sua ansiedade para se livrarem de doenças, essas pessoas atiraram além de sua marca; pois as pessoas tinham se tornado tão habéis dissimulando – elas pintavam seus rostos com habilidade tão consumada – elas reparavam a decadência do tempo e os efeitos do infortúnio com dissimulação tão profunda – que era realmente impossível dizer se qualquer uma delas estava bem ou doente após uma familiaridade íntima de meses ou anos. Mesmo então, os mais astutos eram constantemente mal interpretados nos seus julgamentos, e casamentos frequentemente eram contraídos com os resultados mais deploráveis, devido à arte com a qual a enfermidade tinha sido escondida.
Pareceu-me que o primeiro passo na direção da cura de doenças deveria ser o anúncio do fato para as relações e amigos próximos de uma pessoa. Se qualquer um tivesse uma dor de cabeça, a ele deveria ser permitido, dentro de limites razoáveis, dizê-lo de uma vez e retirar-se para o seu próprio quarto e tomar uma pilula, sem todos parecendo graves e lágrimas sendo derramadas e todo o resto disso. Como era, mesmo ao ouvir-se sussurrado que alguém estava sujeitado a dores de cabeça, uma companhia inteira tem de parecer como se eles nunca tivessem tido uma dor de cabeça em todas as suas vidas. É verdadeiro que elas não era muito prevalentes, pois as pessoas eram as mais ricas e mais dignas imagináveis, devido à severidade com a qual a saúde ruim era tratada; ainda assim, mesmo os melhores eram passíveis de ficarem fora de controle algumas vezes, e havia poucas famílias que não tinham uma farmacinha em um armário em algum lugar.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 104-107. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/104/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0