[154]Você
sabe onde fica
a Terra Oca? Eu estive procurando por
ela há tanto tempo agora,
tentando encontrá-la novamente, a Terra Oca; pois lá eu vi meu amor
pela primeira vez. Eu queria contar a
você como eu encontrei-a em primeiro lugar; mas eu estou velho,
minha memória falha-me: você deve esperar e permitir-me pensar se
eu por acaso posso contar a você como aconteceu. Sim, em meus
ouvidos há
um barulho confuso de rugidos
de trombetas entoando sobre pântanos
desolados;
em meus olhos e meus ouvidos,
colisão e
estrondo de
cascos-de-cavalo,
um badalar
e cintilar de aço: lábios posteriores torcidos, dentes
firmados, gritos, guinchos e maldições.
Como
foi que nenhum de nós nunca a encontrou até aquele dia? Pois
é perto de nosso país: mas que tempo nós temos de procurar por ela
ou qualquer coisa boa, com tal latido
penetrante
tratando de margear-nos
em cada lado? Cuidados sobre coisas grandes, poderosas coisas;
poderosas coisas, Oh meus irmãos! Ou melhor, pequenas coisas
suficientes, se nós apenas soubéssemos dela. Vidas passadas em
tumulto, em fazendo um ao
outro infeliz; no mais amargo mal
entendido do coração de nossos irmãos,
[155]fazendo
tristes aqueles que
Deus não fez
tristes: ai, ai! Que chance para qualquer um de nós encontrar a
Terra Oca? Que tempo mesmo para procurar por ela? Contudo,
quem não sonhou com ela? Quem, meio miserável até o momento, pois
aquilo que ele sabe é somente um sonho, não sentiu as ondas frias
ao redor de seus pés, as rosas coroando-o
e, através
das folhas de faias e tílias,
os muitos ventos sussurrantes da Terra Oca?
Agora
meu nome era
Florian
e minha Casa era
a Casa dos Lírios;
e
daquela casa foi
meu pai
Senhor,
e depois dele meu irmão mais velho Arnald: e a mim eles chamavam de
Florian de Liliis.
Ademais, quando meu pai estava morto,
lá surgiu uma contenda entre a Casa dos Lírios e Harald Vermelho: e
isto que
segue
é a história dela. A Senhora Swanhilda, Mãe de Harald Vermelho,
era uma viúva
com um filho único, Harald
Vermelho: e quando ela estivera na viuvez por dois anos, sendo de
sangue principesco, e também graciosa e feroz, o
Rei Urrayne mandou
pedi-la
em
casamento. E eu lembro vendo a procissão deixando a cidade, quando
eu era bem uma criança; e muitos jovens cavaleiros
e escudeiros
atenderam à Senhora Swanhilda como pajens e entre eles Arnald, meu
irmão mais velho. E,
enquanto
eu olhava para fora da janela, eu vi-o andando ao lado do cavalo
dela, muito delicadamente vestido em branco e ouro; mas,
conforme ele prosseguia,
aconteceu
que ele tropeçou. Agora,
ele era um daqueles que segurava um dossel dourado sobre a
[156]cabeça
da senhora, de
modo que ele agora se afundava
em dobras e a senhora tinha de curvar sua cabeça totalmente
baixa, e mesmo então o brocado
dourado foi pego em uma das longas e finas flores douradas que foram
trabalhadas em volta,
ao redor da coroa que ela usava. Ela ruborizou em sua fúria, a suave
face
dela
subitamente
se
tornou
em vincos entalhados por
uma
bica
de água de madeira.
Ela
pegou o brocado com a mão esquerda e retirou-o furiosamente, de modo
que a
urdidura e
trama
foram
entrelaçadas
para fora de seus lugares, e muitos fios dourados foram deixados
pendentes ao redor da coroa.
Mas
Swanhilda encarou ao redor,
quando ela levantou-se.
Em
seguida,
ela acertou meu irmão,
sobre a boca
dele,
com seu cetro dourado, e o sangue vermelho fluiu todo sobre os trajes
dele.
Mas
ele somente tornou-se demasiado
pálido, e não
se atreveu a dizer palavra nenhuma, embora ele fosse herdeiro da Casa
dos Lírios: mas meu pequeno coração intumesceu
com a fúria e eu jurei vingança e,
como parece,
ele jurou também.
Então,
quando Swanhilda fora
rainha por três anos, ela subornou muitos dos cavaleiros e nobres do
Rei Urrayne, matou seu marido enquanto ele dormia e reinou no lugar
dele. E
o filho dela cresceu à virilidade, e era considerado
um cavaleiro forte e do qual se falava bem;
então
eu coloquei minha armadura pela primeira vez. Então, uma noite,
enquanto deito dormindo,
eu
senti uma
mão
posta
sobre minha face e,
motivando-me,
vi Arnald diante de mim,
inteiramente armado. Ele disse: ‘Florian, ergue-te e arma-te.’
Assim eu fiz, tudo menos meu elmo, como ele estava. Ele beijou-me na
testa: seus lábios sentidos quente e [157]secos
e,
quando eles trouxeram tochas e eu pude ver
a face dele
claramente, vi que ele estava muito pálido. Ele disse: “Você
lembra, Florian, deste dia há
dezesseis
anos? É um longo tempo, mas eu não deverei esquecê-lo
nunca, a
menos que
esta noite apague a memória dele.”
Eu
sabia o que ele queria dizer e,
porque meu coração estava cruel,
regozijei-me muito
diante do pensamento de vingança, de modo que não pude
falar, mas apenas
coloquei minha palma sobre
os lábios dele. ‘Bom; você tem uma boa memória, Florian. Agora
vê,
eu esperei por um tempo longo,
muito longo.
Eu
disse no
início,
perdôo-a.
Mas,
quando as notícias sobre a morte do rei chegaram, e como
ela
estava
de
tal modo desavergonhada, eu disse: tomarei isso como um sinal, se
Deus não a punir dentro de determinados
anos, que Ele destina-me
para assim o fazer.
Agora,
eu
estive observando e observando esses
dois
anos
por uma oportunidade, e vê
que ela chega finalmente.
Eu
penso que Deus certamente
a concedeu em nossas mãos, pois ela repousa esta noite, esta Véspera
de Natal
mesma,
em uma pequena cidade murada na fronteira, nem a duas horas de galope
daqui.
Eles
mantêm pouca guarda lá, e a noite é selvagem.
Além
disso, o prior de uma casa de monges justamente fora das muralhas é
meu amigo firme neste assunto, pois ela fez-lhe algum grande dano. No
pátio abaixo cento e cinquenta cavaleiros e escudeiros, todos leais
e verdadeiros, estão aguardando por nós:
um momento e nós devemos ter-nos ido.’
Em
seguida,
ambos ajoelhamos e oramos a Deus para entregá-la em nossas mãos.
Nós
pusemos nossos elmos e descemos para o pátio. [158]Era
a primeira vez que eu esperava
usar uma espada afiada em raiva, e estava cheio de alegria conforme o
trovão abafado de nossos cascos-de-cavalo
deslizava através da amarga noite de inverno. Em
aproximadamente uma hora e meia nós cruzamos a fronteira, e em
mais meia hora a maior parte parara em um bosque próximo da Abadia,
enquanto eu com uns poucos outros subimos para os portões da Abadia
e batemos alto quatro vezes,
com o punho de minha espada, marcando no solo enquanto isso. Um longo
assobio
baixo
respondeu-me de dentro, ao qual eu por minha vez respondi.
Em
seguida o postigo abriu-se
e um monge saiu segurando uma lanterna. Ele parecia ainda no melhor
da
vida, e era homem alto, poderoso. Ele levou a lanterna a minha face,
então sorriu e disse: ‘As bandeiras,
pendurem baixo.’ Eu dei o contrassinal: ‘A crista está podada.’
‘Bom, meu filho,’ disse ele; ‘as escadas estão aqui dentro. Eu
não me atrevo a confiar em quaisquer dos irmãos para as
carregar
para você, embora eles não amem a bruxa tampouco; mas eles são
tímidos.’ ‘Não
importa,’
eu
disse ‘eu tenho homens aqui.’ Então eles entraram e começaram a
arcar com as altas escadas; o prior estava muito ocupado. ‘Você
encontra-las-á exatamente do comprimento certo, meu filho; confie em
mim com isso.’ Ele parecia um homem bem jovial e agradável; eu não
podia entender sua nutrida
vingança furiosa: mas a face dele escurecia estranhamente sempre que
acontecia de ele
mencionar
o nome dela.
Enquanto
nós estávamos começando,
ele veio e ficou de pé do lado de fora
do portão e,
baixando sua lanterna
para que a [159]luz
dela não pudesse confundir sua visão, olhou seriamente para
a
noite;
então disse:
‘O
vento abrandou,
os flocos de neve afinam e diminuem a cada momento; em uma
hora
congelará
duramente, e estará bem claro.
Tudo
depende da supressa ser
completa; pare
ainda
alguns minutos, meu filho.’
Ele
foi embora rindo
baixo
e logo retornou com mais dois monges robustos carregando algo.
Eles
derrubaram seus fardos diante de meus pés; eles consistiam em
todas as alvas
brancas na abadia. ‘Aqui,
confie em um velho que viu
mais do que uma luta aflita
em seus dias carnais; que os homens que escalam as muralhas ponham
esses sobre seus braços,
e ele não serão vistos em absoluto. Deus faça sua espada afiada,
meu filho.’
Então
nós partimos; &, quando eu encontrei Arnald novamente, ele disse
que o que o prior fizera foi bem pensado.
Então
nós concordamos que eu devia tomar trinta homens,
e
um velho escudeiro de nossa casa,
bem habilidoso em guerra,
junto
com
eles; escalar as muralhas tão quietamente quanto possível e abrir
os portões para o resto.
Eu
comecei como acordado, depois disso, com riso baixo, nós pusemos as
alvas sobre todos nós, envolvendo
também
as escadas em branco.
Em
seguida nos
arrastamos
muito cautelosa
e lentamente até a muralha; o fosso estava congelado por cima e
sobre o gelo a neve assentava-se bem espessa.
Nós
todos pensamos que os guardas deviam ser negligentes o suficiente,
quando eles
nem mesmo ocuparam-se
com o contratempo
de quebrar o gelo no fosso. Então nós ouvimos: não
há nenhum som em absoluto; a missa da meia-noite de Natal
[160]terminara
há muito; eram
aproximadamente três da madrugada e a lua começava
a clarear; dificilmente
havia neve alguma caindo agora, somente um floco ou dois de alguma
baixa nuvem apressada ou outra.
O
vento suspirava gentilmente em volta das torres circulares naquele
lugar,
mas estava cruelmente frio, pois começara a congelar novamente. Nós
ouvimos por alguns minutos, aproximadamente um quarto de uma hora, eu
acho; depois disso, a um sinal meu,
eles cuidadosamente ergueram as escadas, abafados como eles estavam
com as faixas de lã. Eu escalei primeiro, Hugh o velho Escudeiro
seguiu por último; silenciosamente nós subimos, e logo estávamos
de pé todos juntos sobre as muralhas.
Em
seguida,
nós cuidadosamente baixamos as escadas novamente,
por
meio de
cordas longas; retiramos nossas espadas e machados das dobras de
nossas vestes de sacerdote e avançamos até que alcançamos a
primeira torre ao longo da muralha. A porta estava aberta; na câmara
do topo havia um fogo fumegando lentamente, nada mais.
Nós
o
atravessamos
e
começamos a descer a escada em espiral;
eu primeiro, com meu machado encurtado em minha mão. ‘E
se fossemos surpreendidos ali’,
eu pensei, e ansiei por
estar fora,
em
ar [aberto] novamente; ‘e
se a porta
na
base estivesse fechada’?
Enquanto nós passávamos pela segunda câmara ouvimos alguém
dentro,
roncando alto.
Eu
silenciosamente
investiguei,
e vi um grandalhão, com longos cabelos negros que caiam de seu
travesseiro e areavam
o chão, deitado roncando com seu nariz para cima e sua boca aberta;
mas ele parecia tão profundamente adormecido que nós não paramos
para matá-lo. Louvado seja!
A
porta estava aberta. Sem mesmo uma [161]palavra
sussurrada, sem uma pausa, nós
continuamos ao longo das ruas, do
lado que o vento estivera
soprando, pois nossas vestes eram brancas. Pois [com]
o
vento estando muito
forte durante todo aquele dia, as casas daquele lado foram atingidas
em suas cornijas e talhas, bem
como
em
suas
rudes pedras e madeiras, [por] tanta neve que,
exceto aqui e ali, onde
paredes negras arreganhavam-se,
elas eram bem brancas. Nenhum homem viu-nos enquanto nos
movíamos furtivamente para frente, silenciosamente por causa da
neve, até
que nós ficamos de pé,
a cem jardas dos portões e de suas casas de guarda. E nós
possemo-nos de pé, porque ouvimos a voz de alguém cantando:
‘A
coroa da Rainha Maria era dourada,
A
coroa do Rei José era vermelha,
Mas
a coroa de Jesus era diamante
Aquilo
iluminou todo o leito
Mariae
Virginis.’
Então
depois de tudo, eles tinham alguns
guardas. Claramente era o sentinela que cantava para manter os
fantasmas longe. Agora a uma luta. Nós chegamos mais perto, umas
poucas jardas mais perto, então paramos
para libertar a
nós mesmos das roupas de monge.
‘Barcos
navegam através do céu
Com
bandeiras vermelhas vestidos,
Carregando
os planetas sete
Para
ver o branco seio
Mariae
Virginis.’
[162]Depois
disso ele
deve ter visto o agitar de alguma alba ou outra [coisa] enquanto ela
tremia abaixando-se até o solo, pois sua lança caiu com um baque,
e
ele parecia esta de pé com a boca aberta, pensando algo sobre
fantasmas;
então,
arrancando coração da graça,
ele rugiu como dez bezerros, e correu para dentro da casa da guarda.
Nós seguimos espertamente,
mas sem
pressa, e alcançamos a porta dela exatamente enquanto uma dúzia de
homens meio armados vinha caindo
sob nossos machados; logo
a seguir,
enquanto nossos homens matavam-lhes,
eu soprei um grande sopro de meu chifre, e Hugh com alguns outros
sacaram ferrolho e barra e viraram os portões escarranchados.
Então os homens na casa da guarda entenderam que eles
foram pegos numa armadilha, e começaram a agitar-se com grande
confusão; assim,
com receio de que eles
despertassem e armassem-se
completamente eu deixei Hugh nos portões com dez homens, e eu mesmo
liderei o restante para dentro daquela casa.
Naquele lugar, enquanto nós matávamos aqueles
que não se rendiam, chegaram Arnald e
os outros, trazendo nossos cavalos com eles; então todo o inimigo
jogou suas armas [no chão]. E nós contamos nossos prisioneiros e
descobrimos-lhes mais de oitenta; portanto, não sabendo o que fazer
com eles (pois eles eram muitos para guardar, assim
como
parecia não cavalheiresco matá-los todos), nós enviamos alguns
arqueiros às muralhas
e,
virando nossos prisioneiros para fora dos portões,
ordenamos-lhes correrem por suas vidas; o que
eles
fizeram rápido o suficiente, não conhecendo nossos números, e
nossos homens enviaram umas poucas revoadas de flechas entre eles
para que pudessem ser
iludidos.
[163]Então
um ou dois dos prisioneiros que deixáramos
ficar
contou-nos, quando nós cruzáramos nossos machados sobre as cabeças
deles, que o povo da boa cidade não nos enfrentaria voluntariamente,
naquilo eles odiavam a Rainha;
que ela era guardada no palácio por uns cinquenta cavaleiros, e
que além deles não havia outros para oporem-se a nós na cidade.
Então
nós
partimos para o palácio, de lança na mão. Nós não fôramos longe
antes que ouvíssemos alguns cavaleiros chegando;
e logo, numa
curva
da longa rua, nós
vimo-os cavalgando em nossa direção;
quando eles apanharam nossa
visão eles pareceram atônitos, puxaram a rédea, e permaneceram
em alguma confusão.
Nós
não folgamos nossa marcha por um instante, apenas cavalgamos direto
até eles com um brado, ao qual eu emprestei a mim mesmo com todo meu
coração. Depois de tudo eles não fugiram, mas esperaram por nós
com as lanças deles erguidas;
eu perdi o homem que eu
marcara, ou acertei-lhe apenas no topo do elmo: ele inclinou-se para
trás, e a lança deslizou sobre a cabeça dele, mas meu cavalo
continuava, e eu logo senti um choque tal que eu titubeei em minha
sela, e senti-me frenético.
Ele
atacou-me com sua espada conforme eu aproximava-me, acertando-me nas
costelas (pois meu braço foi
erguido), mas somente com o lado chato [da
espada].
Eu fiquei bem bravio com ira;
voltei-me, quase cai sobre ele, apanhei-o pelo pescoço com
ambas mãos &
joguei-o sob os
cascos-de-cavalo,
suspirando com fúria. Eu ouvi a voz de Arnald próximo a mim, ‘Bem
combatido, Florian’;
e eu vi o rosto duro e grande dele em meio ao ferro, pois ele
fizera um voto, em recordação [164]daquele
golpe,
sempre
lutar sem elmo.
Eu
vi a grande espada dele balançando em amplas voltas & sibilando
conforme começava, assim como se estivesse viva e gostasse.
Assim alegria encheu completamente minha alma, & eu lutei com meu
coração, até que o grande machado que brandia
era sentido como nada apenas um pequeno martelo em minha mão, exceto
por sua mordacidade.
Quanto
ao inimigo, eles caiam como grama, de modo que nós os
destruímos
completamente;
pois
esses cavaleiros não se entregariam ou fugiriam, mas morreriam como
eles estiveram de pé, de modo que uns quinze de nossos homens também
morreram naquele lugar.
Então
finalmente nós chegamos ao palácio, onde alguns criados e
semelhantes mantinham os portões armados;
apenas alguns correram, e alguns nós tomamos [como] prisioneiros, um
dos quais morreu de puro terror em nossas mãos, não sendo acometido
de nenhum ferimento; pois ele pensou que nós o comeríamos. Esses
primeiros nós questionamos a respeito da Rainha, e assim entramos no
grande salão. Naquele lugar Arnald sentou no trono sobre o estrado,
e deitou sua espada desembainhada sobre a mesa, e a cada lado dele
sentaram-se tantos cavaleiros quanto havia espaço para, e os outros
puseram-se de pé em volta de um lado para o outro; enquanto eu
tomava dez homens e fui procurar Swanhilda. Eu logo a encontrei,
sentada sozinha em um aposento deslumbrante. Eu quase apiedei-me dela
quando a via olhando completamente desolada & desesperada; a
beleza dela também murchara, linhas profundas cobriam a face dela.
Mas,
quando entrei,
ela
sabia quem eu era, e a aparência dela de ódio intenso era tão
semelhante ao demônio que eu mudei minha piedade em horror dela.
[165]‘Cavaleiro,’
ela
disse, ‘quem
é você? E o que você quer, assim grosseiramente
entrando em meus aposentos?’ ‘Eu
sou Florian de Liliis, e
estou
para conduzir-te ao julgamento.’ Ela ergueu-se. ‘Maldito seja &
sua inteira casa! Você eu odeio mais que qualquer outro, rosto de
garota! Guardas, guardas!’ e ela pisou no chão, as veias na testa
dela incharam, os olhos dela arrendondaram-se e arderam, conforme ela
continuava gritando pelos guardas dela, pisando por um tempo; pois
ela parecia bem furiosa. Então,
finalmente ela lembrou-se de que estava em poder de seus inimigos;
ela sentou-se, e permaneceu com o rosto entre as mãos e chorou
apaixonadamente. ‘Bruxa,’ eu disse entre meus dentes fechados,
‘você virá, ou precisaremos carregá-la para baixo, para o grande
salão?’ Tampouco ela viria, apenas sentou-se ali agarrando o
vestido e dilacerando o cabelo. Então eu disse: ‘Amarrem-na,
e carreguem-na para baixo.’ E eles fizeram-no.
Eu
observei Arnald enquanto ele vinha; não havia triunfo em sua severa
face branca, mas resolução suficiente; ele decidira-se.
Eles colocaram-na num assento no meio do salão, diante do estrado.
Ele disse: ‘Liberte-a, Florian’. Eles assim o fizeram; ela ergueu
a face e olhou fixamente em desafio para todos nós, como se depois
de tudo ela fosse morrer como uma rainha. Então, Arnald ergueu-se e
disse: ‘Rainha Swanhilda, nós julgamos-te culpada de morte; e por
que você é uma rainha e de uma casa nobre você será morta por
minha espada cavalheiresca, e eu
mesmo
levarei
a reprovação do assassinato de uma mulher, pois nenhuma outra
[166]mão
senão
a minha deve dar o golpe.’ Em seguida,
ela disse: ‘Oh falso cavaleiro, mostra
tua autoridade de Deus, homem ou diabo.’ ‘Esta garantia de Deus,
Swanhilda,’ ele disse, levantando sua espada; ‘ouve!
Quinze anos atrás, quando eu estava
apenas ganhando minhas esporas, você atingiu-me, desgraçando-me
diante de todo o povo: você amaldiçoou-me, & tencionava aquela
maldição bem o bastante. Homens da Casa dos Lírios, qual a
sentença
para
isso?’ ‘Morte!’, eles disseram. ‘Ouçam! Depois você matou
meu primo, seu marido, traiçoeiramente, da maneira mais amaldiçoada,
esfaqueando-o na garganta, enquanto as estrelas no dossel acima dele
olhavam para baixo, para os olhos cerrados dele. Homens da Casa dos
Lírios, qual a sentença para
isso?’ ‘Morte!’, eles disseram. ‘Você ouve-os, Rainha? Há
autoridade do homem: pois o diabo, eu não o reverencio o suficiente
para precisar da autorização dele; mas enquanto eu olho para essa
face de ti eu acho que mesmo ele abandonou-te.’ E de fato
exatamente então todo o orgulho dela pareceu abandoná-la; ela caiu
da cadeira & chafurdou sobre o solo gemendo; ela chorou como uma
criança, de modo que as lágrimas deitaram-se sobre o piso de
carvalho; ela implorou por outro mês de vida; ela veio a mim &
ajoelhou-se e beijou meus pés e suplicou piedosamente, de modo que a
água fluía da
boca dela. Mas eu estremeci e afastei-me; era como ter uma víbora
sobre alguém.
Eu
poderia ter apiedado-me dela houvesse ela morrido bravamente, mas por
alguém como ela, lamentar e lamentar! Bah!
Então,
a
partir do
estrado,
badala a terrível voz de Arnald, [167]muito
mudada:
‘Que haja um fim para tudo isto.’ E ele tomou sua espada e andou
a passos largos através do salão em direção dela; ela ergueu-se
do chão e colocou-se de pé, inclinando-se
um pouco, a cabeça dela afundou entre os ombros, os olhos negros
dela viraram para cima e cintilaram, como uma tigresa prestes a
saltar. Quando ele chegou a seis passos dela,
algo no olho dele intimidou-a, ou talvez o brilho da terrível espada
dele à luz da tocha.
Ele
jogou
os
braços para cima
com um grande guincho, e correu gritando ao redor do salão. O lábio
de Arnald nunca se curvou uma vez com qualquer desdém, nenhuma linha
na face dele mudou; ele disse: ‘Tragam-na aqui e amarrem-na.’ Mas
quando um chegou perto dela para segurá-la,
ela
primeiramente
correu até ele, atingindo-o
na
barriga com a cabeça. Então por um tempo ele permaneceu de pé,
curvando-se com a
necessidade
de ar, & encarando com a
cabeça
dele
erguida, ela pegou a espada dele do cinto, e cortou-lhe de um lado a
outro dos ombros; e muitos outros ela feriu severamente antes que
eles
a pegassem. Então Arnald permaneceu próximo a cadeira na qual ela
estava presa, sopesou
sua espada e houve um grande silêncio. Então ele disse: ‘Homens
da Casa dos Lírios, vocês justificam-me nisto?
Ela
deve
morrer?’ Imediatamente soou um grande grito através do salão; mas
antes que se extinguisse, a espada deslizara em círculo, &
portanto não havia tal coisa como Swanhilda deixada sobre a terra,
pois em nenhum campo de batalha Arnald atingira golpe mais
verdadeiro. Em seguida ele voltou-se para os poucos servos do palácio
e disse:
‘Vão
agora, enterrem esta [168]mulher
amaldiçoada, pois ela é uma filha de rei.’ Então para todos nós:
‘Agora, cavaleiros, ao cavalo & para longe, que nós podemos
atingir a boa
cidade
pelo amanhecer.’ Em seguida nós montamos e cavalgamos.
Que
estranho dia de Natal foi aquele! Pois
ali, por volta das nove da manhã, cavalgou Harald Vermelho
para
dentro da boa cidade para
exigir
vingança. Ele foi imediatamente ao Rei, e o Rei prometeu que antes
anoitecer daquele mesmo dia o assunto deveria ser julgado: embora o
Rei temesse alguma coisa, porque um
terço
dos
homens
que você encontrasse nas ruas tinha uma cruz azul sobre o ombro
dele, e alguma imagem
de um lírio, talhada ou pintada, fixada no chapéu dele.
Essa
cruz azul e o lírio eram as figuras heráldicas de nossa Casa,
conhecida como De Liliis. Agora nós tínhamos visto Harald Vermelho
caminhar através das ruas, com um estandarte branco carregado diante
dele, para mostrar que ele vinha pacificamente desta vez; mas eu
acredito que ele estava pensando em outras coisas além da paz. E ele
primeiro foi chamado de Harald Vermelho
desta vez, por que sobre seus braços inteiros ele usava um grande
tecido escarlate que caia em pesadas dobras ao redor de seu cavalo e
inteiramente ao redor dele. Então, conforme ele passava
por nossa casa, alguém
a
apontou para ele, elevando-se naquele lugar
com
sua figura e seu
mármore
em barra,
mas muito mais forte do que um castelo em morros; e sua grande ameia
saliente lança abaixo uma sombra poderosa sobre a muralha e através
da rua; e acima de tudo ergueu-se a grande torre, nosso estandarte
flutuando orgulhosamente sobre o topo, no qual estava estampado sobre
um fundo [169]branco
uma cruz branca, e sobre um fundo azul quatro lírios brancos. E
agora rostos
estavam encarando de todas as janelas, & todas as ameias estavam
aglomeradas.
Assim
Harald voltou-se e,
erguendo-se em seus estribos, chocou seu punho cerrado em nossa casa;
mesmo assim,
conforme ele fazia-o o vento leste descendo a rua apanhou o canto
daquele tecido escarlate & impeliu-o sobre a face dele, portanto
desordenando seu longo cabelo negro
e
quase sufocou-o, de modo que ele mordesse o cabelo e aquele tecido.
Assim, da base à cumeeira, ergueu-se um grito poderoso de triunfo e
desafio, e ele passou.
Então
Arnald fez com que fosse apregoado que todos aqueles que amassem a
boa Casa dos Lírios deveriam reunir-se àquela
manhã na igreja de Santa Maria, firmes
por nossa casa.
Agora essa igreja pertencia-nos, assim
como
a abadia que a servia, e sempre nós apontávamos o abade dela com a
condição de que nossas cornetas devessem soar todas juntas quando
em missas importantes eles cantassem o Gloria
in Excelsis.
Era a maior e mais belas de todas as igrejas na cidade
e tinha duas torres muito altas, as quais você poderia ver de muito
longe, mesmo quando você não visse a cidade, ou quaisquer de suas
outras torres.
Em
uma daquelas
torres ficavam doze grandes sinos nomeados segundo
os doze Apóstolos, um nome estando escrito em cada um deles,
como Pedro, Mateus, e assim por diante; e na outra torre havia
somente um grande sino, muito maior do que qualquer um dos outros, o
qual era chamado de Maria. Agora,
este sino nunca [170]badalava,
apenas quando nossa Casa estava em grande perigo;
e havia esta lenda sobre ele: QUANDO MARIA BADALA A TERRA TREME; e na
verdade
disso nós tomamos nosso grito de guerra, o qual era ‘Maria
badala’; de alguma forma realmente justificado, pois na última vez
que Maria badalou, naquele dia antes do anoitecer houve quatro mil
corpos enterrados, corpos que não usavam nem cruz nem lírio.
Então
Arnald deu-me a incumbência de dizer ao abade para fazer com que os
sinos [da igreja de] Maria dobrassem por uma hora antes da reunião
daquele dia.
O abade curvou-se sobre meu ombro, enquanto eu estava de pé no
interior da torre e olhava para doze monges pondo as mãos nas
cordas. Muito acima, no escuro, eu vi a roda antes que ela começasse
a girar
ao redor, de um lado para o outro; então ela moveu-se um pouco. Os
doze homens curvaram-se sobre o solo, e um rugido ergueu-se que
sacudiu a torre da base ao cata-vento. Para frente e para trás
varreu a roda, enquanto Mary agora olhava para baixo em direção à
terra, agora olhava para cima para o cone sombrio do pináculo,
carregava
através das barras de luz a partir das janelas que se projetavam. E
o trovão de Mary foi pego pelo vento,
carregado através de toda a região e,
quando o senhor de casa ouvia-o,
ele dizia adeus à esposa e ao filho, pendurava escudo em suas
costas, e avança com a lança inclinada sobre o ombro; e muitas
vezes, conforme ele andava em direção à boa cidade, ele apertava o
cinto que ficava ao redor de sua cintura para ele pudesse andar mais
rápido, tão [171]longo
e furiosamente Maria badalava. E antes que o grande sino Maria
parasse de badalar, todos os caminhos estavam cheios de homens
armados.
Mas
em cada porta da igreja de Santa Maria estava de pé uma fileira de
homens armados com machados e, quando qualquer um chegava tencionando
entrar na igreja, os dois primeiros daqueles segurariam os machados
deles, cujos os cabos eram quase quatro pés de comprimento, sobre
sua cabeça & perguntar-lhe-iam: ‘Quem veio por cima da lua na
última noite?’ Então, se ele não respondessem nada, ou
aleatoriamente, eles ordenar-lhe-iam voltar; o que ele, pela maior
parte, estaria inclinado o suficiente a fazer. Mas alguns,
esforçando-se para atravessar aquela fileira de homens, eram mortos
abertamente. Mas, se ele fosse um daqueles que eram da Casa dos
Lírios, ele responderia àquela questão: ‘Maria e joão.’
Pela
hora em que a reunião começou a igreja inteira estava cheia, e na
nave e no transepto dali estavam três mil homens, todos de nossa
Casa e todos armados. Mas Arnald e eu mesmo, o Escudeiro Hugh e
alguns outros sentamos debaixo de um dossel franjado de ouro próximo
ao coral; e o abade disse a missa, tendo sua mitra sobre a cabeça.
Porém, enquanto eu assistia-o, pareceu a mim que ele devia ter algo
abaixo de suas vestimentas de sacerdote, pois ele parecia muito mais
gordo que o usual, sendo realmente um homem alto e ágil. Agora,
enquanto eles entoavam a Kyrie alguém bradou da outra
extremidade da igreja: ‘Meu senhor Arnald, eles estão massacrando
nosso povo lá fora;’ pois de fato toda a praça ao redor estava
[172]cheia
de nosso povo, o qual, devido à pressão, não fora capaz de entrar,
e estavam de pé acolá em, um pavor não pequeno do que podia vir a
ocorrer.
Então
o abade virou do altar, e começou a bulir com os fechos de seus
ricos robes.
E eles fizeram um caminho estreito para nós subindo até a porta
ocidental; então eu coloquei meu elmo, e nós começamos a subir a
nave; em
seguida
a canto dos monges e tudo parou. Eu ouvi um tinido e um zumbido de
vozes no coral; virei e vi que o brilhante sol do meio-dia estava
brilhando sobre o ouro das vestimentas dos sacerdotes conforme eles
deitavam no chão, e na cota
de malha
que os sacerdotes carregavam. Então nós paramos; os portões do
coral
viraram
abertos, e o abade marchou para fora na vanguarda de seus homens,
todos inteiramente armados, começaram a cantar o salmo Exsurgat
Deus.
Quando
nós chegamos à
porta ocidental, havia de fato um tumulto, mas ainda não [um]
massacre.
A
praça estava completamente tremeluzente com aço, & nós
contemplamos um grande corpo de cavaleiros, à vanguarda deles Harald
Vermelho
e o Rei, pondo-se de pé contra nós. Mas [quanto a] nosso povo,
pressionado contra as casas & para os cantos da praça, alguns
estavam lutando para entrar pelas portas, alguns fora
de
si
mesmos com ira, gritando para os outros investirem; além disso,
alguns estavam pálidos, e alguns estavam vermelhos com o sangue que
se reunira na face colérica deles. Então Arnald disse para aqueles
ao redor dele: ‘Levantem-me’.
Assim eles colocaram um grande escudo sobre duas lanças, esses
quatro [173]homens
suportaram, e em cima Arnald colocou-se de pé e olhou fixamente ao
redor de si. Agora o Rei
estava
sem elmo, e seu cabelo branco (pois ele era um homem velho) voava
para baixo,
atrás dele,
até sua sela; mas o cabelo de Arnald estava cortado curto e era
vermelho. E todos os sinos badalaram. Então o Rei disse: ‘Oh
Arnald dos Lírios, resolverás tu esta disputa através do
julgamento de Deus?’
E Arnald empurrou o queixo para cima e disse: ‘Sim’.
‘Como
então?’
disse o Rei, ‘e
onde?’
‘Agradar-te-ás
tentar agora?’
disse Arnald. Então o Rei entendeu o que ele quis dizer, e tomou na
mão de trás as longas madeixas de cabelo branco, torcendo-as ao
redor da mão em sua ira;
contudo
não disse palavra nenhuma, até que,
eu suponho,
seu cabelo colocou-o na intenção de alguma coisa e ele ergue-o e
exclamou alto: ‘Oh
cavaleiros,
ouçam este traidor!’
No que de fato as lanças começaram a moverem-se ameaçadoramente.
Mas Arnald falou: ‘Oh
vocês, rei e senhores, o que nós temos de fazer com vocês? Nós
não eramos livres no tempo antigo, acima, em meio as colinas ali?
Portanto cedam, e nós iremos para as colinas novamente, e se
qualquer homem tentar parar-nos, o sangue dele estará sobre sua
própria cabeça. Portanto agora’
(e ele virou-se)
‘todos
vocês da Casa do Lírio, soldados e monges igualmente, avancemos
juntos nada temendo, pois eu penso que aqui não há osso o
suficiente ou músculo o suficiente nesses camaradas aqui,
que têm um rei
para
quem
sobretudo
eles deveriam parar-nos, somente pele e gordura.’
E verdadeiramente nenhum homem atreveu-se a parar-nos e nós
prosseguimos.
Próximo capítulo
ORIGINAL:
MORRIS,
W. The Hollow Land. A Tale. Chapter I. Struggling in the world.
in:______. The Hollow Land and Other Contributions to the Oxoford
and Cambridge Magazine by William Morris. London: 1903.
pp.154-173. Disponível em:
https://archive.org/details/hollowlandotherc00morrrich/page/154/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Eidonet
Licença:
CC
BY-NC-SA 4.0