[11]Ele não trabalhou por muito tempo antes que ouvisse o som de cascos-de-cavalo uma vez mais, e não olhou novamente, mas disse a si mesmo: “São somente os rapazes trazendo as parelhas de volta das terras, e cavalgando rapidamente e conduzindo firmemente devido à alegria do coração e despreocupação da juventude”.
Mas o som aproximou-se e ele olhou e viu sobre a parede de relva do jardim a agitação de vestes brancas; e ele disse:
“Não, são as donzelas voltando da beira-mar e da coleta de algas.”
Então ele pôs-se a fazer o mais difícil de seu trabalho, e riu, completamente sozinho como estava, e disse: “Ela está com elas: agora eu não olharei novamente até que elas tenham cavalgado para dentro do jardim, e ela venha dentre elas, e tenha saltado de seu cavalo, e lance seus braços ao redor de meu pescoço como ela está acostumada; e então causar-lhe-á alegria escarnecer de mim com palavras duras e voz gentil e coração ansioso; e eu deverei esperar por ela e beijá-la, e doces [12]deverão parecer os dias vindouros para nós: e as filhas de nosso povo deverão observar e ser gentis e alegres conosco.”
Com isso, as donzelas cavalgaram para dentro do jardim, mas ele não ouviu o som de riso ou de alegria dentre elas, o que era contrário ao costume delas; e seu coração abateu-se, e foi como se ao invés do riso das donzelas as vozes daqueles viajantes voltassem no vento clamando, “Esta é a Terra? Esta é a Terra?”
Então ele olhou apressadamente, e viu as donzelas aproximando-se, dez da Casa do Corvo, e três da Casa da Rosa; e ele observou-as, que as faces delas estavam pálidas e desanimadas, e as vestes delas dilaceradas, e não havia alegria nelas. Hallblithe pôs-se de pé espantado enquanto uma que tinha descido de seu cavalo (e ela era a filha da própria mãe dele) correu mais além dele para o salão, não olhando para ele, como se ela não se atrevesse: e outra cavalgou rapidamente para os estábulos. Mas as outras, deixando seus cavalos, circundaram-no, e por um tempo nenhuma se atreveu a pronunciar uma palavra; e ele aguentou-se de pé olhando fixamente para elas, com a plaina [de superfície] em sua mão, ele também silencioso; pois ele viu que a Hostage não estava com elas, e ele sabia que agora ele era o consorte da dor.
Finalmente ele falou gentilmente e em uma voz amável, [13]e disse:“Contem-me, irmãs, que mal caiu sobre nós, ainda que seja a morte de um amigo querido, e coisa que não possa ser corrigida.”
Então falou uma boa mulher da Rosa, cujo o nome era Brightling, e disse: “Hallblithe, não é de morte que nós temos de contar, mas de separação, que ainda pode ser emendada. Nós estávamos sobre a areia do mar próximas da Doca e das Roldanas do Corvo, e nós estávamos recolhendo algas e brincando juntas; e nós vimos uma Coca próxima da praia parada com sua escota negligente, e sua vela batendo o mastro; mas nós consideramos ser nenhuma outra coisa que algum barco de pescadores, e não pensamos nenhum mal disso, mas continuamos correndo e brincando em meio às pequenas ondas que caiam sobre a areia, e as ondulações que se enrolavam ao redor de nossos pés. Finalmente veio um pequeno bote do lado da Coca e remou em direção à praia, e ainda assim nós não tememos, embora nós recuássemos um pouco da rebentação e deixássemos cair as bainhas de nossos vestidos. Mas a tripulação daquele bote encalhou-o próximo de onde nós estávamos de pé, e veio atravessando apresadamente a arrebentação em direção a nós; e nós vimos que eles eram doze homens armados, grandes, e sombrios, e todos envoltos em vestimentas negras. Então de fato nós estávamos assutadas, e nós viramos e fugimos da praia; mas agora era tarde demais, pois a maré estava em mais da metade [14]cheia e longo era o caminho através da areia para o lugar onde nós tínhamos deixado nossos cavalos em meio às tamargueiras. Mesmo assim nós corremos, e elevamo-nos até os seixos de praia antes que eles corressem entre nós: e eles apanharam-nos, e derrubaram-nos sobre as pedras duras.”
“Então eles fizeram-nos sentar em linha sobre uma crista de seixos; e nós estávamos extremamente assustadas, ainda mais por causa da violação nas mãos deles do que pela morte; pois eles eram homens malparecidos excessivamente desagradáveis de aspecto. Então disse um deles: ‘Qual dentre todas vocês donzelas é a Hostage da Casa da Rosa?’ Então todas nós mantivemos o silêncio, pois não a trairíamos. Mas o homem maligno falou novamente: ‘Escolhei vós então se nós devemos levar uma, ou todas vocês através dos mares em nosso navio negro.’ Ainda assim nós outras não falamos nada, até que tua amada ergueu-se, Oh Hallblithe, e disse: ‘Que seja uma então, e não todas; pois eu sou a Hostage.’ ‘Como tu deverás convencer-nos disso?’ disse o camponês maligno. Ela olhou para ele e disse: ‘Porque eu disse.’ ‘Tu jurarias?’ disse ele. ‘Sim,’ disse ela, ‘Eu juro pelo símbolo da Casa onde eu devo casar; pelas asas do Frango que busca pelo Campo de Morte.’ ‘É suficiente,’ disse o homem, ‘vem tu conosco. E vós donzelas sentai-vos aí, e não se movei até que nós tenhamos aberto caminho em nosso navio, senão vós sentirdes [15]a ponta da flecha. Pois vós estais dentro do alcance do arco a partir do navio. E nós disparávamos armas a bordo.’ Então Hostage partiu com eles, ela sem lágrimas, mas nós choramos intensamente. E nós vimos o bote pequeno subir para o lado da Coca, e Hostage passando por cima da amurada em companhia daqueles homens malignos, e nós ouvimos o vigor e o modo de fazer dos marinheiros enquanto eles içavam a ancora e arrumavam as velas; e então as varreduras deram certo e o navio começou a se mover através do mar. E um daqueles homens mal-intencionados curvou seu arco e disparou uma flecha em nós, mas ela caiu muito próximo de onde nos sentamos, e a gargalhada daqueles renegados cobriu as areias até nos. Então nós esgueiramo-nos pela praia tremendo, e ficamos de pé e chegamos aos nossos cavalos, e cavalgamos para cá velozmente, e nossos corações estão partidos por tua dor.”
Com aquela palavra, a própria irmã de Hallblithe saiu do salão; e ela trazia armas consigo, a saber: a espada, o escudo, o capacete e a cota de malha de Hallblithe. Quanto a ele, silenciosamente ele voltou a seu trabalho, e pôs o aço da lança na nova haste cinzenta, e pegou o martelo e bateu no prego, e deitou a arma sobre um seixo redondo que estava perto dali, e firmou o prego do outro lado. Então ele olhou em volta, e viu que outra donzela tinha trazido-lhe [16]seu cavalo de guerra negro como carvão, já selado e com rédeas; então ele arranjou-se em sua armadura, e pôs sua espada no cinto a seu lado e saltou na sela, e pegou sua lança recém-encabada na mão e sacudiu as rédeas. Mas nenhuma dentre todas aquelas donzelas atreveu-se a dizer-lhe uma palavra ou perguntar-lhe para onde ele ia, pois elas temiam sua face, e o sofrimento de seu coração. Então ele saiu do jardim com o cavalo e virou-se em direção à beira mar, e elas viram o brilho da ponta de lança dele [por] um minuto sobre a parede de relva, e ouviram o ruído de seus cascos-de-cavalo enquanto ele galopava através do caminho difícil, e desse modo ele partiu.
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.11-16. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/11/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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