[113]Mas, quanto a Walter, ele saiu da casa novamente, e viajou lentamente sobre os relvados do bosque até que chegou a outro bosque próximo ou matagal. Ele entrou a partir de mera licenciosidade, ou para que pudesse estar mais à parte e oculto, assim como para pensar sobre seu caso. Naquele lugar ele deitou-se sob galhos grossos, mas não pôde então reunir seus pensamentos para que eles permanecessem firmes em examinar cuidadosamente o que podia acontecer-lhe dentro dos próximos dias. Antes, apenas visões daquelas duas mulheres e do monstro pairavam diante dele. Medo, desejo e a esperança de vida corriam para lá e para cá em sua mente.
Enquanto deitava-se assim ele ouviu passos aproximando-se. Ele olhou entre os galhos e, embora o sol tinha acabado de pôr-se, podia ver próximo a si um homem e uma mulher caminhando lentamente e eles de mãos dadas. Primeiramente, ele [114]julgou que seriam o Filho de Rei e a Senhora; mas logo ele viu que era o Filho de Rei, de fato, mas que era a Donzela que ele estava segurando pela mão. E neste momento ele percebeu nele, que seus olhos estavam brilhantes com desejo, e nela, que ela estava muito pálida. Contudo, quando ele ouviu-a começar a falar, foi em uma voz firme que ela disse:
‘Filho de Rei, tu ameaçaste-me frequente e cruelmente; agora tu ameaças-me novamente e não menos cruelmente. Mas, qualquer que fosse tua necessidade sobre isso antes, agora não há mais carência. Pois, minha Mestra, de quem tu estavas cansado, agora está cansada de ti e, provavelmente, não me recompensará por atrair teu amor para mim, como uma vez ela teria feito; a saber, antes da chegada deste estranho. Portanto eu digo, uma vez que eu sou apenas uma escrava, miserável e desamparada, entre vocês dois poderosos: eu não tenho escolha senão fazer tua vontade.’
Enquanto falava, ela olhava tudo em volta de si, como alguém perturbada pela angústia do medo. Walter, em meio a sua ira e pesar, quase desembainhara a espada e saíra correndo de seu covil para cima do Filho de Rei. Mas ele considerou certo que, assim fazendo, devia arruinar a Donzela completamente, assim como a si mesmo também provavelmente. Assim [115]se conteve, embora fosse um caso difícil.
Agora, a Donzela parara seus pés nas proximidades de onde Walter deitava-se, a umas cinco jardas dele apenas, e ele duvidava se ela não o via de onde ela estava de pé. Quanto ao Filho de Rei, ele estava tão concentrado sobre a Donzela, e tão ávido por sua beleza, que não era provável que ele visse alguma coisa.
Agora, além disso, Walter olhou e julgou que contemplava algo através da grama e da samambaia do outro lado daqueles dois; um corpo feio, horrendo e amarelo, o qual, se não fosse alguma fera da espécie da doninha, devia ser o anão monstruoso, ou alguém de sua família. A carne arrepiou-se sobre os ossos de Walter com o pavor dele. Mas o Filho de Rei falou para a Donzela: ‘Docinho, eu deverei tomar o presente que tu deste-me, nem sequer eu deverei ameaçar-te mais uma vez. No entanto, tu deste-o não muito de boa vontade ou graciosamente.’ Ela sorriu para ele, com seus lábios apenas, pois seus olhos estavam errantes e abatidos. ‘Meu senhor,’ ela disse, ‘não é esta a maneira das mulheres?’
‘Bem,’ ele disse, ‘eu digo que eu tomarei teu amor mesmo assim dado. Contudo, deixa-me ouvir novamente que tu não amas aquele vil recém-chegado e [116]que tu não o viste, salvo esta manhã com minha Senhora. Mais que isso, agora tu deves jurá-lo.’
‘Pelo que eu devo jurar?’ Ela disse.
Disse ele, ‘Tu deves jurar por meu corpo;’ e com isso ele jogou-se próximo diante dela. Mas ela puxou a mão dela da dele, colocou-a sobre o peito dele e disse: ‘Eu juro-o pelo teu corpo.’
Ele sorriu para ela licorosamente, tomou-a pelos ombros, beijou o rosto dela muitas vezes; então ficou de pé distante dela e disse: ‘Agora eu tive garantia. Mas diga-me, quando deverei eu voltar a ti?’
Ela falou alto e claramente: ‘Dentro de três dias no mais tardar; eu te receberei para saber do dia e da hora amanhã, ou o dia seguinte. ’
Ele beijou-a uma vez mais e disse: ‘Não te esqueças, ou a ameça será verdadeira.’
E, após o que, ele virou de volta e seguiu seus caminhos na direção da casa. Walter viu a coisa marrom amarelada rastejando atrás dele, no crepúsculo que se ajuntava.
Quanto à Donzela, ela ficou de pê por um momento sem se mover; procurando pelo Filho de Rei e pela criatura que o seguiu. Em seguida, ela virou-se para onde Walter estava deitado e levemente pôs de lado os galhos. Walter [117]deu um salto e eles ficaram cara a cara. Ela disse suave, mas avidamente: ‘Amigo, não me toque ainda’
Ele não falou nada, mas olhou para ela severamente. Ela disse: ‘Tu estás zangado comigo?’
Ainda ele não falou nada. Mas ela disse: ‘Amigo, isto ao menos eu te implorarei: não brinques com vida e morte, com felicidade e miséria. Tu não te lembras do juramento que nós fizemos um ao outro apenas há pouco tempo? E tu julgas que eu mudei nesses poucos dias? És tua opinião concernente a ti e a mim a mesma que era? Se não for assim, diz-me agora. Pois agora eu tenho a intenção de fazer como se nem tu nem eu tivéssemos mudado um para o outro; quem quer que possa ter beijado meus lábios relutantes, ou a quem teus lábios possam ter beijado. Mas, se tu tiveres mudado e não desejares mais me dar teu amor, nem almejares pelo meu, então deva este aço (e ela sacou uma faca afiada de seu cinto) ser para o tolo e o ignóbil que te fez irar-te comigo, meu amigo. Meu amigo que eu julguei ter conquistado. E então, que venha o que vier! Mas, se tu não mudaste e o juramento ainda vale, então, quando pouco tempo tiver passado, possamos nós jogar para trás todo o mal, perfídia e pesar; grande alegria deverá estar diante de nós, assim como vida [118]longa e toda honra na morte. Se apenas tu desejares fazer como eu mando-te. Oh meu querido, meu amigo e meu primeiro amigo!’
Ele olhou para ela e o peito dele levantou-se, como se toda a doçura de amor gentil dela o agarrasse. O rosto dele mudou, as lágrimas encheram os olhos dele, caíram e derramam-se diante dela. Ele estendeu a mão na direção dela.
Então ela disse de um modo excessivamente doce: ‘Agora de fato eu vejo [que] está certo comigo, sim, e contigo também. É uma aflição dolorosa para mim; que nem mesmo agora eu possa segurar tua mão, lançar meus braços ao redor de ti e beijar os lábios que me amam. Mas assim isso tem de ser. Meu querido, ainda assim eu estava disposta a ficar de pé aqui por muito tempo diante de ti, mesmo se nós não falássemos mais nenhuma palavra um para o outro. Mas permanecer aqui é perigoso; pois há sempre um espião maligno sobre minhas ações, que agora, como eu imagino, seguiu o Filho de Rei à casa, mas que retornara quando ele tiver seguido-o para casa do outro lado. Então nós precisaremos separar-nos. Mas talvez ainda haja tempo para uma palavra ou duas. Primeiro, o desígnio no qual eu pensara para nossa libertação está agora em movimento, embora eu não me atrevi a contar-te disso, nem tenha tempo para isso. Mas este tanto eu deverei contar-te; que, ao passo que grande [119]seja a habilidade de minha Senhora em feitiçaria, contudo, eu também tenho alguma capacidade nisso, e isto, que ela não tem, de mudar o aspecto das pessoas tão completamente que elas pareçam diferentes do que verdadeiramente são; de fato, de modo que alguém possa ter o aspecto de outro. Agora a próxima coisa é esta: seja o que for que minha Senhora possa ordenar-te, faze a vontade dela nisso sem mais oposição do que tu julgardes possa agradá-la. E a próxima coisa: onde quer que tu possas encontrar-me, não fales comigo, não faças sinal para mim, mesmo quando eu parecer estar completamente sozinha, até que eu abaixe-me e toque o anel em meu tornozelo com minha mão direita; mas se eu fizer isso, então te demora, sem falhar, até que eu fale. A última coisa que eu te direi, caro amigo, antes que nós sigamos nossos caminhos, é isto. Quando nós estivermos livres, e tu conheceres tudo que eu fiz, eu suplico [que] não me consideres má e perversa bem como não fiques indignado comigo e com minha ação; considerando que tu sabes bem que eu não estou em situação semelhante à de outras mulheres. Eu ouvi dizer que quando o cavaleiro vai à guerra, derrotou seus inimigos através do cilhamento de espadas e de truques astutos, e voltou para casa para sua gente, eles louvaram-lhe, exaltaram-lhe, e coroaram-lhe com flores, e vangloriam-se dele diante de Deus, na [119]igreja, por sua libertação de amigo, do povo e da cidade. Por que devias tu ser pior comigo do que isso? Agora está tudo dito, meu querido e meu amigo; adeus, adeus!’
Com isso ela virou-se e seguiu seus caminhos na direção da casa em toda velocidade, mas fazendo mais ou menos um caminho circular. E, quando ela fora-se, Walter ajoelhou-se e beijou o lugar onde os pés dela estiveram. Depois disso levantou-se e abriu seu caminho em direção à casa, ele também, mas lentamente, demorando-se frequentemente em seu caminho.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.113-120. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/113/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0