A Floresta além do Mundo - Capítulo XVI Sobre o Filho do Rei e a Donzela

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[113]Mas, quanto a Walter, ele saiu da casa novamente, e viajou lentamente sobre os relvados do bosque até que chegou a outro bosque próximo ou matagal. Ele entrou a partir de mera licenciosidade, ou para que pudesse estar mais à parte e oculto, assim como para pensar sobre seu caso. Naquele lugar ele deitou-se sob galhos grossos, mas não pôde então reunir seus pensamentos para que eles permanecessem firmes em examinar cuidadosamente o que podia acontecer-lhe dentro dos próximos dias. Antes, apenas visões daquelas duas mulheres e do monstro pairavam diante dele. Medo, desejo e a esperança de vida corriam para lá e para cá em sua mente.

Enquanto deitava-se assim ele ouviu passos aproximando-se. Ele olhou entre os galhos e, embora o sol tinha acabado de pôr-se, podia ver próximo a si um homem e uma mulher caminhando lentamente e eles de mãos dadas. Primeiramente, ele [114]julgou que seriam o Filho de Rei e a Senhora; mas logo ele viu que era o Filho de Rei, de fato, mas que era a Donzela que ele estava segurando pela mão. E neste momento ele percebeu nele, que seus olhos estavam brilhantes com desejo, e nela, que ela estava muito pálida. Contudo, quando ele ouviu-a começar a falar, foi em uma voz firme que ela disse:

Filho de Rei, tu ameaçaste-me frequente e cruelmente; agora tu ameaças-me novamente e não menos cruelmente. Mas, qualquer que fosse tua necessidade sobre isso antes, agora não há mais carência. Pois, minha Mestra, de quem tu estavas cansado, agora está cansada de ti e, provavelmente, não me recompensará por atrair teu amor para mim, como uma vez ela teria feito; a saber, antes da chegada deste estranho. Portanto eu digo, uma vez que eu sou apenas uma escrava, miserável e desamparada, entre vocês dois poderosos: eu não tenho escolha senão fazer tua vontade.’

Enquanto falava, ela olhava tudo em volta de si, como alguém perturbada pela angústia do medo. Walter, em meio a sua ira e pesar, quase desembainhara a espada e saíra correndo de seu covil para cima do Filho de Rei. Mas ele considerou certo que, assim fazendo, devia arruinar a Donzela completamente, assim como a si mesmo também provavelmente. Assim [115]se conteve, embora fosse um caso difícil.

Agora, a Donzela parara seus pés nas proximidades de onde Walter deitava-se, a umas cinco jardas dele apenas, e ele duvidava se ela não o via de onde ela estava de pé. Quanto ao Filho de Rei, ele estava tão concentrado sobre a Donzela, e tão ávido por sua beleza, que não era provável que ele visse alguma coisa.

Agora, além disso, Walter olhou e julgou que contemplava algo através da grama e da samambaia do outro lado daqueles dois; um corpo feio, horrendo e amarelo, o qual, se não fosse alguma fera da espécie da doninha, devia ser o anão monstruoso, ou alguém de sua família. A carne arrepiou-se sobre os ossos de Walter com o pavor dele. Mas o Filho de Rei falou para a Donzela: ‘Docinho, eu deverei tomar o presente que tu deste-me, nem sequer eu deverei ameaçar-te mais uma vez. No entanto, tu deste-o não muito de boa vontade ou graciosamente.’ Ela sorriu para ele, com seus lábios apenas, pois seus olhos estavam errantes e abatidos. ‘Meu senhor,’ ela disse, ‘não é esta a maneira das mulheres?’

Bem,’ ele disse, ‘eu digo que eu tomarei teu amor mesmo assim dado. Contudo, deixa-me ouvir novamente que tu não amas aquele vil recém-chegado e [116]que tu não o viste, salvo esta manhã com minha Senhora. Mais que isso, agora tu deves jurá-lo.

Pelo que eu devo jurar?’ Ela disse.

Disse ele, ‘Tu deves jurar por meu corpo;’ e com isso ele jogou-se próximo diante dela. Mas ela puxou a mão dela da dele, colocou-a sobre o peito dele e disse: ‘Eu juro-o pelo teu corpo.’

Ele sorriu para ela licorosamente, tomou-a pelos ombros, beijou o rosto dela muitas vezes; então ficou de pé distante dela e disse:Agora eu tive garantia. Mas diga-me, quando deverei eu voltar a ti?’

Ela falou alto e claramente: ‘Dentro de três dias no mais tardar; eu te receberei para saber do dia e da hora amanhã, ou o dia seguinte.

Ele beijou-a uma vez mais e disse: ‘Não te esqueças, ou a ameça será verdadeira.

E, após o que, ele virou de volta e seguiu seus caminhos na direção da casa. Walter viu a coisa marrom amarelada rastejando atrás dele, no crepúsculo que se ajuntava.

Quanto à Donzela, ela ficou de pê por um momento sem se mover; procurando pelo Filho de Rei e pela criatura que o seguiu. Em seguida, ela virou-se para onde Walter estava deitado e levemente pôs de lado os galhos. Walter [117]deu um salto e eles ficaram cara a cara. Ela disse suave, mas avidamente: ‘Amigo, não me toque ainda’

Ele não falou nada, mas olhou para ela severamente. Ela disse: ‘Tu estás zangado comigo?’

Ainda ele não falou nada. Mas ela disse: ‘Amigo, isto ao menos eu te implorarei: não brinques com vida e morte, com felicidade e miséria. Tu não te lembras do juramento que nós fizemos um ao outro apenas pouco tempo? E tu julgas que eu mudei nesses poucos dias? És tua opinião concernente a ti e a mim a mesma que era? Se não for assim, diz-me agora. Pois agora eu tenho a intenção de fazer como se nem tu nem eu tivéssemos mudado um para o outro; quem quer que possa ter beijado meus lábios relutantes, ou a quem teus lábios possam ter beijado. Mas, se tu tiveres mudado e não desejares mais me dar teu amor, nem almejares pelo meu, então deva este aço (e ela sacou uma faca afiada de seu cinto) ser para o tolo e o ignóbil que te fez irar-te comigo, meu amigo. Meu amigo que eu julguei ter conquistado. E então, que venha o que vier! Mas, se tu não mudaste e o juramento ainda vale, então, quando pouco tempo tiver passado, possamos nós jogar para trás todo o mal, perfídia e pesar; grande alegria deverá estar diante de nós, assim como vida [118]longa e toda honra na morte. Se apenas tu desejares fazer como eu mando-te. Oh meu querido, meu amigo e meu primeiro amigo!’

Ele olhou para ela e o peito dele levantou-se, como se toda a doçura de amor gentil dela o agarrasse. O rosto dele mudou, as lágrimas encheram os olhos dele, caíram e derramam-se diante dela. Ele estendeu a mão na direção dela.

Então ela disse de um modo excessivamente doce: ‘Agora de fato eu vejo [que] está certo comigo, sim, e contigo também. É uma aflição dolorosa para mim; que nem mesmo agora eu possa segurar tua mão, lançar meus braços ao redor de ti e beijar os lábios que me amam. Mas assim isso tem de ser. Meu querido, ainda assim eu estava disposta a ficar de pé aqui por muito tempo diante de ti, mesmo se nós não falássemos mais nenhuma palavra um para o outro. Mas permanecer aqui é perigoso; pois há sempre um espião maligno sobre minhas ações, que agora, como eu imagino, seguiu o Filho de Rei à casa, mas que retornara quando ele tiver seguido-o para casa do outro lado. Então nós precisaremos separar-nos. Mas talvez ainda haja tempo para uma palavra ou duas. Primeiro, o desígnio no qual eu pensara para nossa libertação está agora em movimento, embora eu não me atrevi a contar-te disso, nem tenha tempo para isso. Mas este tanto eu deverei contar-te; que, ao passo que grande [119]seja a habilidade de minha Senhora em feitiçaria, contudo, eu também tenho alguma capacidade nisso, e isto, que ela não tem, de mudar o aspecto das pessoas tão completamente que elas pareçam diferentes do que verdadeiramente são; de fato, de modo que alguém possa ter o aspecto de outro. Agora a próxima coisa é esta: seja o que for que minha Senhora possa ordenar-te, faze a vontade dela nisso sem mais oposição do que tu julgardes possa agradá-la. E a próxima coisa: onde quer que tu possas encontrar-me, não fales comigo, não faças sinal para mim, mesmo quando eu parecer estar completamente sozinha, até que eu abaixe-me e toque o anel em meu tornozelo com minha mão direita; mas se eu fizer isso, então te demora, sem falhar, até que eu fale. A última coisa que eu te direi, caro amigo, antes que nós sigamos nossos caminhos, é isto. Quando nós estivermos livres, e tu conheceres tudo que eu fiz, eu suplico [que] não me consideres má e perversa bem como não fiques indignado comigo e com minha ação; considerando que tu sabes bem que eu não estou em situação semelhante à de outras mulheres. Eu ouvi dizer que quando o cavaleiro vai à guerra, derrotou seus inimigos através do cilhamento de espadas e de truques astutos, e voltou para casa para sua gente, eles louvaram-lhe, exaltaram-lhe, e coroaram-lhe com flores, e vangloriam-se dele diante de Deus, na [119]igreja, por sua libertação de amigo, do povo e da cidade. Por que devias tu ser pior comigo do que isso? Agora está tudo dito, meu querido e meu amigo; adeus, adeus!’

Com isso ela virou-se e seguiu seus caminhos na direção da casa em toda velocidade, mas fazendo mais ou menos um caminho circular. E, quando ela fora-se, Walter ajoelhou-se e beijou o lugar onde os pés dela estiveram. Depois disso levantou-se e abriu seu caminho em direção à casa, ele também, mas lentamente, demorando-se frequentemente em seu caminho.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.113-120. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/113/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XV O Assassinato da Presa

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[107]Assim eles caminharam tranquilamente daquele lugar por aproximadamente meia milha. Constantemente a Senhora teria Walter a andar a seu lado e não a seguir um pouco atrás dela, como era adequado a um servo fazer. Ela tocava a mão dele às vezes, enquanto mostrava-lhe fera, ave doméstica e árvore; a doçura do corpo dela subjugava-lhe, de modo que por um tempo ele não pensava em nada exceto nela.

Agora, quando eles estavam para chegar ao lado do bosque, ela voltou-se para ele e disse: ‘Escudeiro, eu não sou silvícola indisposta, de modo que tu podes confiar-me que nós não devemos ser conduzidos à vergonha a segunda vez: eu deverei agir sabiamente. Então, coloca uma flecha em teu arco, aguarda-me aqui e não te movas daqui; pois eu deverei entrar neste bosque sem os cães de casa e provocar a presa para ti. Vê que tu sejas [108]rápido e de tiro limpo e assim tu deverás receber uma recompensa de mim.

Após o que ela novamente arrumou suas saias ao redor de seu cinto, tomou seu arco curvo na mão, retirou uma flecha da aljava e ligeiramente pôs o pé no matagal; deixando-o a ansiar pela visão dela, enquanto ele ouvia com atenção o pisar dos pés dela sobre as folhas secas e o farfalhar da mata enquanto ela atravessava-a.

Assim ele permaneceu por uns poucos minutos. Então ele ouviu um tipo de grito sem sentido e sem palavras, contudo como de uma mulher, vindo do bosque. Enquanto o coração dele ainda estava reunindo o pensamento de que algo tinha saído errado, ele deslizou velozmente, apenas com pouco tumulto, para dentro da mata.

Ele tinha ido apenas um pouco longe antes que ele visse a Senhora de pé, ali, em uma estreita clareira; o rosto dela pálido como a morte, seus joelhos apegados juntos, o corpo balançando e cambaleando, as mãos penduradas e o arco e a flecha caídos no solo. A dez jardas diante dela uma criatura amarela de cabeça grande, agachando-se plana sobre a terra e lentamente aproximando-se.

Ele parou de repente; uma flecha já estava encaixada na corda, bem como outra pendia [109]folgada dos dedos menores da mão da corda. Ele ergueu sua mão direita e puxou e atirou em um instante. A flecha voou por perto do lado da Senhora e imediatamente todo o bosque soou com um grande rugido, enquanto o leão amarelo virava de um lado para o outro para morder a flecha que afundara profundamente dentro dele, atrás do ombro, como se um relâmpago dos céus tivesse atingido-lhe. Mas imediatamente Walter atirara de novo e então, derrubando seu arco, ele correu para frente com sua espada desembainhada brilhando na mão, enquanto o leão agitava-se e rolava, mas não tinha força para mover-se para frente. Então Walter foi até ele cautelosamente, perfurou-lhe através do coração e saltou para trás, com receio de que a besta ainda tivesse vida em si para atingi-lo; mas ele desistiu de sua luta, sua voz imensa extinguiu-se e abate-se lá imóvel, diante do caçador.

Walter esperou um pouco, encarando-o e, em seguida, virou-se para a Senhora. Ela tinha baqueado em um monte [onde] estava de pé e assentava-se lá toda encolhida e sem voz. depois, ele ajoelhou-se próximo a ela, ergueu a cabeça dela e mandou-a erguer-se, pois o inimigo foi morto. E depois de um tempo ela esticou os membros e virou-se sobre a grama; parecia dormir, a cor voltou a seu rosto [110]novamente, suavizou-se e um pequeno sorriso. Assim ela permaneceu por algum tempo. Walter sentou-se próximo a ela observando-a, até que finalmente ela abriu os olhos, sentou-se, reconheceu-o e, sorrindo para ele, disse: ‘O que aconteceu, Escudeiro, que eu dormi e sonhei?’

Ele não respondeu nada, até que a memória dela voltasse a ela e, em seguida ela ergueu-se, trêmula, pálida e disse: ‘Deixemos este bosque, pois o Inimigo está neste lugar.’

E ela apressou-se para longe diante dele até que eles saíram no lado do bosque [onde] os cães de caça foram deixados; eles estavam de pé lá inquietos e ganindo. Então Walter reuni-os, ao passo que a Senhora não se demorou, mas foi embora rapidamente para casa, e Walter seguiu-a.

Finalmente ela parou os pés velozes, virou-se de volta para Walter e disse: ‘Escudeiro, venha aqui.’

Assim ele fez e ela disse: ‘Eu estou cansada novamente; que sentemos debaixo desta árvore jovem e descansemos.

Então eles sentaram-se e ela sentou-se olhando entre seus joelhos por um tempo. Finalmente ela disse: ‘Por que tu não trazes a pele do leão?’

Ele disse:Senhora, eu retornarei, esfolarei a besta e trarei a pele.

[111]E com isso ele ergueu-se, mas ela apanhou-o pela aba, abaixou-o e disse: ‘Não, tu não deves ir; permanece comigo. Senta-te novamente.’

Ele assim fez, e ela disse: Tu não deves ir-se de mim; pois eu estou assustada. Eu não estou acostumada a olhar no rosto da morte.

Ela empalideceu enquanto falava, colocou a mão sobre o seio e sentou-se assim por um tempo sem falar. Finalmente, ela voltou-se para ele sorrindo e disse: ‘Como estava o aspecto de mim quando eu fiquei diante do perigo do Inimigo?’ E ela colocou uma mão sobre a dele.

Oh graciosa,’ respondeu ele, ‘tu estavas, como sempre, completamente adorável, mas eu temi por ti.’

Ela não moveu a mão dela da dele e ela disse: ‘Bom e verdadeiro Escudeiro, eu disse antes que entrasse no bosque agora mesmo que te recompensaria se tu matasses a presa. Ele está morto, embora tu tiveste deixado a pele para trás sobre a carcaça. Peça agora tua recompensa, mas leve tempo para pensar no que deve ser.

Ele sentiu a mão calorosa dela sobre a sua e atraia o doce odor dela misturado com o perfume da floresta sob o sol quente da tarde. O coração dele foi nublado com desejo masculino por ela. E era uma coisa familiar mas ele falara; e desejava dela [112]o prêmio da liberdade da Donzela e, de tal maneira, que ele pudesse partir com ela para outras terras. Mas, enquanto a mente dele vacilava entre isto e aquilo, a Senhora, que estivera olhando-o profundamente, afastou a mão dele. Com isso, dúvida e medo fluíram para sua mente, e ele absteve-se de falar.

Então ela sorriu alegremente e disse: ‘O bom Escudeiro está envergonhado; ele teme uma senhora mais do que um leão. Será um prêmio para ti se eu te oferecer minha bochecha para beijar?’

Com isso, ela inclinou a face na direção dele. Ele beijou a bela face dela e então se sentou, olhando fixamente para ela, perguntando-se o que deveria acontecer-lhe no dia seguinte.

Depois ela ergueu-se e disse: ‘Venha, Escudeiro, e vamos para casa; não fiques envergonhado, deverá haver outras recompensas futuramente.

Em seguida, eles prosseguiram em seus caminhos silenciosamente; e era perto do pôr do sol [quando] eles entraram na casa novamente. Walter procurou em volta pela Donzela, mas não a viu. A Senhora disse-lhe: ‘Eu vou para meus aposentos, e agora teu serviço está terminado por este dia.’

Então, ela assentiu cordialmente para ele e seguiu em seus caminhos.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.107-112. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/107/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Floresta além do Mundo - Capítulo XIV A Caçada do Veado

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[99]Conforme iam, eles encontraram uma mudança na região, a qual se esvaziou de árvores largas e grandes e tornou-se mais ocupada por matagais. De um desses eles despertaram um veado e, depois disso, Walter deixou escapar seus cães de caça, bem como ele e a Senhora acompanharam correndo. Demasiadamente rápida ela era e de bom fôlego além disso, de modo que Walter maravilhou-se com ela. Ela estava tão ansiosa na perseguição quanto os próprios cães, não atentando para o arranhão dos espinheiros ou a batedura dos galhos rígidos enquanto corria. Mas, apesar da caçada ansiosa deles, a presa foi mais depressa que ambos, cães e gente, e entrou em um grande matagal, no meio do qual ficava uma larga poça de água. Dentro do matagal, eles seguiram-no, mas ele foi à água sob os olhos deles e alcançou a terra no outro lado e, por causa do emaranhado de vegetação rasteira, ele nadou de lado a lado muito mais rápido do que eles podiam [100]ter qualquer esperança de chegar em volta dele. Assim foi [que] os caçadores deixaram por fazer dessa vez.

Então a Senhora abaixou-se sobre a grama verde próxima à água, enquanto Walter convocava os cães de caça e agrupava-os. Em seguida, ele virou-se de volta para ela e, oh!, ela estava chorando pela desonra [com] que eles perderam a presa. Novamente Walter maravilha-se de que uma coisa tão pequena devesse provocar uma paixão de lágrimas nela. Ele não se atreveu a perguntar o que a afligia, ou oferecer-lha consolo, mas não ficou mau satisfeito ao contemplar a beleza dela enquanto ela deitava-se.

Logo ela levantou a cabeça, voltou-se para Walter, falou para ele iradamente e disse: ‘Escudeiro, por que tu estás de pé encarando-me como um tolo?’

De fato, Senhora,’ ele disse; ‘mas a visão de ti faz-me insensato para ver mais nada, exceto para olhar-te.’

Ela disse, em uma voz irritadiça: ‘Nádegas, Escudeiro, o dia está muito gasto para falas corteses e suaves; o que era bom lá não é tão bom aqui. Além disso, eu conheço mais de teu coração do que tu julgas.’

Walter pendeu sua cabeça e corou. Ela olhou para ele, o rosto dela mudou, ela sorriu e disse, gentilmente desta vez: Veja você, Escudeiro, eu estou quente, cansada e mal disposta. [101]Mas logo ficará melhor para mim; pois meus joelhos estiveram contando a meus ombros que a água fria deste pequeno lago será doce e agradável neste meio dia de verão, e que eu deverei esquecer minha frustração quando tiver tido meu prazer ali. Portanto, vai tu com teus cães de caça para fora do matagal e lá aguarda minha vinda. E eu ordeno-te; não olhes para trás enquanto tu vais, pois naquele lugar existem perigos para ti. Eu não deverei manter-te esperando sozinho por muito tempo.

Ele curvou a cabeça para ela, virou-se e prosseguiu em seus caminhos. E agora, quando ele estava a uma pequena distância dela, julgou-a verdadeira maravilha entre as mulheres, bem como quase esqueceu de todas as suas dúvidas e medos relativos a ela; quer ela fosse uma bela imagem formada a partir de mentiras e astúcia, ou podia ser somente uma coisa maligna na forma de uma mulher vistosa. Verdadeiramente, quando ele viu-a afagando a querida e amável Donzela, o coração dele voltou-se inteiramente contra ela, apesar do que os olhos e ouvidos dele contaram a sua mente, e ela parecia como se fosse uma serpente envolvendo a singeleza do corpo que ele amava.

Mas agora estava tudo mudado, ele deitou-se na grama e ansiava pela chegada dela, a qual foi atrasada por pouco mais [102]de uma hora. Então ela voltou a ele, sorrindo revigorada e alegre; o vestido verde dela abaixado até os calcanhares.

Ele ergueu-se para encontrá-la; ela aproximou-se dele e falou com um rosto sorridente: ‘Escudeiro, tu não tens comida em tua mochila? Pois, pareceu-me, eu alimentei-te quando tu estiveste faminto outro dia; agora, faz tu o mesmo por mim.

Ele sorriu e curvou-se respeitosamente para ela; pegou sua mochila e retirou daí pão, carne e vinho; espalhou-os todos diante dela na grama verde e, em seguida, ficou de pé perto humildemente diante dela. Mas ela disse: ‘Não, meu Escudeiro, senta-te próximo a mim e come comigo, pois hoje nós dois juntos somos caçadores.’

Então ele sentou-se próximo a ela tremendo, mas nem por admiração de sua grandeza, nem por medo e horror da astúcia e feitiçaria dela.

Por um tempo eles sentaram-se ali juntos, depois de terem acabado a refeição, e a Senhora começou a falar com Walter a respeito das partes da terra, das maneiras dos homens e das viagens para lá e para cá.

Finalmente ela disse: ‘Tu constate-me muito e respondeste todas as minhas questões sabiamente, assim como meu bom Escudeiro devia e isso me agradou. Mas agora, conta-me sobre a cidade na qual [103]tu nasceste e foste criado; uma cidade da qual tu até agora não me contaste nada.

Senhora,’ ele disse, ‘é uma bela e grande cidade e, para muitos, ela parece adorável. Mas eu deixei-a, e agora não é nada para mim.

Tu não tens parentes lá?’ Disse ela.

Sim’, disse ele, ‘e inimigos igualmente e uma mulher falsa enfadou minha vida lá.’

E quem era ela?’ disse a Senhora.

Disse Walter: ‘Ela era apenas minha esposa.’

Ela era bela?’ disse a Senhora.

Walter olhou para ela por um tempo, e então disse: ‘Eu estava para dizer que ela era quase tão bela quanto você; mas isso dificilmente pode ser. Contudo, ela era muito bela. Mas agora, Senhora graciosa e gentil, eu te direi esta palavra: admiro-me que tu perguntaste-me tantas coisas concernentes à cidade de Langton na Várzea, onde eu nasci e onde ainda estão meus parentes; pois pareceu-me que tu conhece-a por ti mesma.’

Eu conheço-a, eu?’ disse a Senhora.

O que, então! Tu não a conheces?’ disse Walter.

Falou a Senhora, e algo de seu antigo desdém estava em suas palavras: Tu julgas que eu vagueio ao redor do mundo e seus lugares de barganha como um dos mascates? Não, eu [104]habito na Floresta além do Mundo e em nenhum outro lugar. O que puseste esta palavra em tua boca?

Ele disse: ‘Perdoe-me, Senhora, se eu agi mal. Mas assim foi: meus próprios olhos contemplaram-te descendo o cais de nossa cidade, daí um bordo de navio e a embarcação navegou para fora do porto. E primeiramente passou um anão estranho, o qual eu vira aqui; em seguida, tua Criada e, então, avançou teu corpo adorável e gracioso.

O rosto da Senhora mudou enquanto ele falava; ela tornou-se vermelha, então pálida e firmou os dentes. Mas ela conteve-se e disse: ‘Escudeiro, eu vejo em ti que tu não és mentiroso, nem leviano de juízo, portanto eu suponho que tu verdadeiramente tenhas visto uma aparência de mim. Mas eu nunca estive em Langton, nem pensei nisso, nem sabia que havia um tal lugar até que tu nomeaste-o agora mesmo. Portanto, eu considero que um inimigo lançou a sombra de mim no ar daquela terra.’

Sim, minha Senhora,’ disse Walter; ‘e que inimigo tu podias ter para ter feito isso?

Ela demorou em responder, mas finalmente falou uma boca trêmula de raiva: ‘Não conheces tu o provérbio, que os inimigos de um homem estão [105]em sua própria casa? Se eu descobrisse a verdade de quem vez isto, o dito inimigo deveria ter uma má hora comigo.

Novamente ela silenciou, fechou as mãos e retesou os membros no calor de sua ira. De modo que Walter ficou com medo dela, todos os receios retornaram ao coração dele novamente e ele arrependeu-se de que contara demais a ela. Mas, em pouco tempo, todo aquele transtorno e ira pareceram fugir dela e, novamente, ela ficou de bom ânimo, amável e doce com ele. Ela disse: ‘Mas, em verdade, não obstante que possa ser, eu agradeço-te, meu Escudeiro e amigo, por contar-me acerca disto. E seguramente nenhuma culpa eu coloco em ti. E, além disso, não foi esta visão que te trouxera para cá? ’

Assim foi, Senhora,’ disse ela.

Então nós temos de agradecê-la,’ disse a Senhora, ‘e tu és bem-vindo à nossa terra.’

E com isso ela estendeu a mão a ele, e ele levou-a para seus joelhos e beijou-a. Em seguida foi como se um ferro quente vermelho transpassasse o coração dele; ele sentiu-se fraco e curvou a cabeça. Mas ele ainda segurou a mão dela e beijou-a muitas vezes, assim como o pulso e o braço, e não sabia onde ele estava.

[106]Mas ela afastou-se um pouco dele, levantou-se e disse:Agora o dia está esgotando-se, e se nós tivermos de trazer de volta alguma veação nós precisamos entregar-nos ao trabalho. Então erga-se, Escudeiro, tome os cães de caça e venha comigo; pois não muito distante fica uma pequena mata que, na maioria das vezes, abriga uma abundância de veados, grandes e pequenos. Percorramos nossos caminhos.’


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.99-106. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/99/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Raça Vindoura - Capítulo XI

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[80]Nada me confundira mais ao buscar reconciliar minha compreensão com a existência de regiões que se estendem abaixo da superfície da terra, e habitável por seres, se dessemelhantes de, ainda, em todos os pontos materiais do organismo, semelhantes àqueles no mundo superior, que a contradição assim apresentada à doutrina na qual, eu acredito, a maioria dos geologistas e filósofos concordam – a saber, que embora conosco o sol é a grande fonte de calor, contudo o mais profundo que nós vamos abaixo da crosta da terra, maior é o aumento do calor, sendo, é dito, encontrado na proporção de um grau para cada pé, começando a partir de cinquenta pés abaixo da superfície. Mas embora os domínios da tribo da qual eu falo ficavam, no terreno mais alto, assim comparativamente próximos à superfície, que eu podia calcular pela temperatura, naquele lugar, adequado para [81]vida orgânica, contudo mesmo as ravinas e os vales daquele reino eram muito menos quentes do que os filósofos considerariam possível em tal profundidade – certamente não mais quentes do que o sul da França ou, ao menos, da Itália. E de acordo com todos os relatos que eu recebi, vastas extensões de terreno imensuravelmente mais profundas debaixo da superfície, e nas quais alguém podia ter pensado somente salamandras podiam existir, eram habitadas por inúmeras raças como a nos mesmos. Eu não posso fingir de modo algum explicar um fato que está assim divergente das leis reconhecidas da ciência, nem podia Zee ajudar-me muito em direção a uma solução para isso. Ela somente conjecturou que concessão suficiente não fora feita por nossos filósofos para a extrema porosidade do interior da terra – a vastidão de suas cavidades e irregularidades, as quais serviam para criar correntes livres de ar e ventos frequentes – e para os vários modos nos quais o calor é evaporado e perdido. Ela admitiu, contudo, que há uma profundidade à qual o calor é considerado ser intolerável para semelhante vida organizada como conhecida pela experiência dos Vril-ya, embora os filósofos deles acreditassem que mesmo em tais lugares vida [82]de algum tipo, vida senciente, vida intelectual seria encontrada abundante e próspera, pudessem os filósofos penetrarem-nos. “Onde quer que o Todo Bom (All-Good) construa,” disse ela, “lá, esteja certo, Ele coloca habitantes. Ele não ama habitações vazias.” Ela acrescentou, contudo, que muitas mudanças em temperatura e clima teriam sido afetadas pela habilidade dos Vril-ya, e que a ação do vril fora empregada com sucesso em tais mudanças. Ela descreveu um meio tonificante e sútil chamada Lai, o qual eu suspeito ser idêntico ao oxigênio etéreo do Dr. Lewins, no qual trabalham todas as forças correlativas unidas sob o nome de vril; e argumentou que, onde quer que este meio pudesse ser expandido, como fosse, suficientemente para os vários agentes do vril ter ampla recreação, uma temperatura agradável às mais altas formas de vida podia ser assegurada. Ela disse também, que era a crença dos naturalistas deles que flores e vegetação foram originariamente produzidas (quer desenvolvidas a partir de sementes carregadas da superfície da terra nas convulsões primitivas da natureza, ou importadas pelas tribos que primeiros buscaram refugio nos vazios cavernosos) através das operações da [83]luz constantemente trazida sobre eles para nutri-los e o aperfeiçoamento gradual na cultura. Ela disse também, que desde que a luz de vril substituíra todos os outros corpos doadores de luz, as cores das flores e da folhagem tornaram-se mais brilhantes, e a vegetação adquiriu um crescimento maior.

Deixando esses assuntos à consideração daqueles melhor qualificados a lidarem com eles, eu deve agora devotar umas poucas páginas às questões muito interessantes conectadas à linguagem dos Vril-ya.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 80-83. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/80/mode/1up>


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EderNB do Blog Eidonet

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A Raça Vindoura - Capítulo X

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[71]A palavra ‘Ana’ (pronunciada amplamente Arna) corresponde ao nosso plural ‘homens’; ‘An’ (pronunciada Arn), ao singular, a ‘homem’. A palavra para mulher é Gy (pronunciada forte, como em ‘Guy’); forma a si mesma em Gy-ei para o plural, mas o G torna-se macio no plural, como Jy-ei. Eles tem um provérbio para o efeito; que essa diferença de pronuncia é simbólica, pois o sexo feminino é macio no concreto, mas difícil de lidar no indivíduo. As Gy-ei estão no mais completo gozo de todos os direitos da igualdade com os homens, pelo que certos filósofos acima do solo lutam.

Na infância, elas realizam imparcialmente as funções de ocupação e trabalho com os meninos; e, realmente, na mais tenra idade apropriada à destruição de animais irrecuperavelmente hostis, as [72]meninas são frequentemente preferidas, como sendo por constituição mais cruéis sob a influência do medo ou ódio. No intervalo entre a infância e a idade núbil, [a] relação familiar entre os sexos é suspensa. Na idade núbil é renovada, nunca com consequências piores do que aquelas que tratam do casamento. Todas as artes e vocações atribuídas a um sexo estão abertas ao outro, e as Gy-ei arrogam a si mesmas a superioridade em todas esses obscuros e místicos ramos do raciocínio, para os quais elas dizem que os Ana são inadequados por uma sobriedade enfadonha do entendimento, ou pela rotina de suas ocupações prosaicas; bem como as moças em nosso próprio mundo constituem a si mesmas autoridades nos pontos mais sutis da doutrina teológica, para a qual poucos homens, ativamente envolvidos em assuntos mundanos, tem suficiente aprendizagem ou refinamento de intelecto. Seja devendo ao treinamento precoce em exercícios ginásticos, ou à organização temperamental delas, as Gy-ei são usualmente superiores aos Ana em força física (um elemento importante na consideração e na manutenção dos direitos das mulheres). Elas atingem [73]estaturas mais elevadas e, em meio às suas proporções arredondadas, estão engastados tendões e músculos tão resistentes quanto aqueles do outro sexo. De fato, elas afirmam que, de acordo com as leis originais da natureza, as fêmeas foram projetadas para ser maiores do que os machos, e sustentam este dogma através de referência às formações iniciais da vida nos insetos e na mais antiga família de vertebrados – a saber, peixes – em ambas as quais as fêmeas são geralmente grandes o suficiente para fazer uma refeição de seus consortes se elas assim desejarem. Acima de tudo, as Gy-ei tem um poder mais concentrado e mais fácil sobre aquele misterioso fluido ou agente que contém o elemento de destruição, com uma porção maior daquela sagacidade que abrange dissimulação. Desse modo, elas podem não somente defenderem a si mesmas contra todas as agressões dos homens, mais poderiam, a qualquer momento quando ele menos suspeitasse de seu risco, acabar com a existência de esposo ofensor. Para o crédito das Gy-ei nenhuma instância de seu abuso desta superioridade impressionante na arte da destruição está registrado por vários séculos. O último que ocorreu na comunidade [da qual] eu falo parece (de acordo à cronologia deles) ter [74]sido há dois mil anos. Uma Gy, nessa ocasião, em um ataque de ciúmes, matou seu esposo; e este ato abominável inspirou terror tal entre os homens que eles emigraram em grupo e abandonaram todas as Gy-ei a si mesmas. A história prossegue de modo que as Gy-ei abandonadas, assim reduzidas ao desespero, caíram sobre a assassina quando ela dormia (e portanto desarmada), mataram-na e, em seguida, entraram em um compromisso solene entre elas mesmas de revogar para sempre o exercício de seus extremos poderes conjugais e de inculcar a mesma obrigação para sempre e sempre em suas filhas mulheres. Por meio deste processo conciliatório, uma delegação enviada aos consortes fugitivos sucedeu em persuadir muitos a retornar, mas esses que retornaram eram sobretudo os mais velhos. Os mais jovens, seja de muito acovardaram-se [de] uma dúvida das consortes deles, ou por uma estima muita elevada de seus próprios méritos, rejeitaram todas as propostas e, permanecendo em outras comunidades, lá foram pegos por outras companheiras, com os quais talvez eles não estivessem melhor. Mas a perda de uma porção tão grande da juventude masculina operou uma salutar admoestação nas Gy-ei, e confirmou-as na resolução [75]piedosa com a qual elas comprometeram a si mesmas. De fato, é agora considerado que, por meio de longo e hereditário desuso, as Gy-ei perderam ambas superioridadesdefensiva e agressivasobre os Ana as quais elas uma vez possuíram, bem como nos animais inferiores acima da terra muitas peculiaridades em sua formação originária, planejadas pela natureza para sua proteção, gradualmente desvaneceram ou tornaram-se inoperantes quando não necessárias sob condições alteradas. Eu devia ficar triste, contudo, por qualquer An que induzisse uma Gy a fazer o experimento se ele ou ela fosse o mais forte.

Desde o incidente que eu narrei, os Ana datam certas alterações nos costumes de casamento, tratando de, talvez, algo para a vantagem do homem. Eles agora vinculam a si mesmos em matrimônio somente por três anos; ao fim de cada terceiro ano seja homem ou mulher pode divorciar-se do outro e ficar livre para casar novamente. Ao fim de dez anos o An têm o privilegio de tomar uma segunda esposa, permitindo à primeira afastar-se se ela assim desejar. Esses regulamentos são pela maior parte uma letra morta; divórcios e poligamia são extremamente raros, assim como o estado de casamento agora parece singularmente feliz [76]e sereno em meio a este povo surpreendente: as Gy-ei, a despeito de sua orgulhosa superioridade em força física e habilidades intelectuais, estando muito restringidas a maneiras gentis pelo medo de separação ou de uma segunda esposa, e os Ana sendo muito criaturas de costume e não, exceto sobre grande irritação, gostando de trocar por perigosas novidades faces e maneiras com as quais eles estão harmonizados por hábito. Mas há um privilégio que as Gy-ei cuidadosamente retém, junto com o desejo pelo qual talvez se forme o motivo secreto da maioria das senhoras afirmadoras dos direitos da mulher acima do solo. Elas clamam o privilégio, aqui usurpado pelos homens, de proclamar o seu amor e urgir o seu pedido de casamento; em outras palavras, de serem a parte que cortejante ao invés da cortejada. Um fenômeno tal como de uma solteirona não existe entre as Gy-ei. De fato é muito raro que uma Gy não assegure qualquer An sobre quem ele ponha seu coração, se as afeições dele não estiverem fortemente engajadas em outro lugar. Por mais tímido, relutante e puritano, o homem que ela corteja possa provar-se inicialmente; contudo, a perseverança dela, seu ardor, seus poderes persuasivos, seu comando sobre os místicos agentes do vril, estão [77]muito seguros de colocar pescoço dele no que nós chamamos de “o laço fatal.” O argumento deles para inversão daquela relação dos sexos, que a cega tirania dos homens estabeleceu na superfície da terra, parece persuasivo, e é desenvolvido com uma franqueza que bem podia recomendar consideração imparcial. Eles dizem que dos dois a mulher é por natureza de uma disposição mais amorosa do que o homem – que o amor ocupa um espaço mais largo nos pensamentos dela, bem como é mais essencial à felicidade dela e que por isso ela deve ser a parte que corteja; que outro modo o homem é uma criatura duvidosa e tímidaque frequentemente tem uma predileção pela condição de solteiro – que frequentemente finge entender mal olhadelas tenras e insinuações delicadas – que, em resumo, precisa ser resolutamente persuadido e capturado. Eles acrescentam, além disso, que a menos que a Gy possa assegurar o An de sua escolha, e alguém que ela não selecionasse dentre todo mundo tornasse-se seu companheiro, ela não seria apenas menos feliz do que seria de outro modo, mas que não seria um ser tão bom, que suas qualidades de coração não seriam suficientemente desenvolvidas; enquanto que o An [78]é uma criatura que menos permanentemente concentra suas afeições sobre um único objeto; que, se não poder conseguir a Gy que prefere, facilmente reconcilia a si mesmo com outra Gy e, finalmente, que no pior [caso], se é amado e cuidado, é menos necessário para o bem-estar de sua existência que ele deva amar assim como é amado: ele cresce contente com seu bem-estar de ser humano e as muitas ocupações de pensamento que ele cria para si mesmo.

Tudo que possa ser dito quanto a este raciocínio, o sistema trabalha bem para o homem; pois sendo deste modo claro que ele é verdadeiro e ardentemente amado, e que mais recatado e relutante ele mostre a si mesmo, mais a determinação para assegurá-lo aumenta. Ele geralmente inventa fazer o consentimento dele dependente de condições tão boas como ele pensa o melhor calculado para assegurar, se não uma feliz, ao menos uma vida pacifica. Cada An individual tem seus próprios passatempos, seus próprios modos, suas próprias predileções e, qualquer que elas possam ser, ele exige uma promessa de completa e irrestrita concessão a eles. Isto, na busca por seu objeto, a Gy prontamente promete; e como a característica deste povo extraordinário [79]é uma implícita veneração pela verdade, e a palavra dela uma vez dada nunca é quebrada mesmo pela mais frívola Gy, as condições estipuladas são religiosamente observadas. De fato, a despeito de todos os seus direitos abstratos e poderes, as Gy-ei são as esposas mais amáveis, conciliatórias e submissas que eu alguma vez vi mesmo na casa mais feliz acima do solo. É um aforismo entre eles que “onde a Gy ama está o prazer dela de obedecer.” Será observado que na relação entre os sexos eu falei somente de casamento, pois tal é a perfeição moral à qual esta comunidade atingira, que qualquer conexão ilícita é tão pouco possível em meio a eles como seria para um casal de pintarroxos durante o tempo que eles concordassem em viver em pares.


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ORIGINAL:

BULWER-LYTTON, E. The Coming Race. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1871. pp. 71-79. Disponível: <https://archive.org/details/comingrace00lytt/page/71/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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