A Múmia! Um Conto do Século XXII
Por Jane C. London
Volume I
Capítulo XII – Fim do Volume I
[287]O tumulto agora tinha quase diminuído. A multidão há pouco ocupada fugiu, proferindo gritos de horror e medo; e de toda a massa sem conta de seres humanos que até recentemente tinha estado aglomerada, ninguém permaneceu, salvo Edmund e o padre Morris, quem amparavam Claudia; o duque e Henry Saymour, quem ainda permaneciam próximos da forma inconsciente de Elvira; enquanto eles, pálidos e imóveis como o mármore esculpido da tumba, seus olhos acorrentados como que por mágica, em consequência da visão terrível diante deles, esperando em expectativa terrível o que era a próxima coisa a acontecer, escassamente se atrevendo a mover ou respirar, o silêncio solene que prevalecia sendo apenas quebrado pelos suspiros [288]convulsivos da Rainha moribunda, apresentavam uma mudança terrível do murmúrio ocupado de milhares que, tão recentemente, tinha enchido o ar.
“Onde eu estou?” exclamou Quéops, olhando descontroladamente ao redor – sua profunda voz sepulcral vibrando através de cada nervo: - “Onde está Arsinöe? Eles capturaram-na! Eles separaram-na de mim. Maldições sobre os miseráveis! - Possa a vingança eterna de Tifão persegui-los, e possam os corações deles murchar, consumidos pela serpente imortal.”
A múmia cerrava seus dentes enquanto ele falava, e a melancolia que se reuniu sobre sua sobrancelha sombria escureceu como a noite. Todos tremeram enquanto aquele olhar hórrido de ódio eterno parecia congelar seu sangue. Eles viraram-se involuntariamente; e quando olharam novamente, o espectro tinha desaparecido. Os restos despedaçados do balão jaziam diante deles, rasgados aos átomos; pois, acontecendo de cruzar Londres exatamente no momento da maior confusão, ele tinha se emaranhado na multidão, e, a despeito do material forte do qual era composto, ele [289]tinha sido despedaçado na confusão, e tinha caído com seu ocupante terrível no chão.
“Bom Deus!” exclamou o padre Morris, após uma pausa curta; “que visão horrível! O que isso pode significar?”
“Parecia uma múmia egípcia,” dia Edmund, estremecendo; “e ela falou aquela linguagem. Mas o que pode tê-la ressuscitada? Que poder humanos pode ter reconvocado à vida um ser por tanto tempo emparedado na tumba silenciosa!”
“Talvez o veículo no qual ela chegou possa conter alguma coisa para explicar o mistério,” disse Henry Seymour.
Nesse momento, várias pessoas passaram correndo, gritando de terror, e exclamando que elas tinham visto um demônio. Quando a confusão excitada por esses fugitivos trêmulos tinha diminuído um pouco, uns poucos dos cortesões também começaram a aparecer, e retornar aos seus postos próximos da Rainha. Mas todos estavam pálidos, pulando diante de cada som, e parecendo prontos, diante do menor alarme, a fugirem novamente tão rapidamente quanto antes.
Claudia ainda jazia inconsciente; apenas o seu peito arfando [290]e profundos soluços convulsivos para respirar revelando sinais de vida. Mas o destino dela não mais excitava um interesse profundo, irresistível. Sussurros de maravilha e horror supersticioso misturaram-se com as esperanças e medos inspirados pelo perigo; e a remoção dela para o palácio foi quase considerada com indiferença, tão completamente estavam as mentes dos homens ocupadas pelo espetáculo estranho que eles tinham testemunhado tão recentemente.
De fato, ninguém pensava nem falava em coisa alguma senão na múmia; e mil rumores, cada um mais extravagante do que o último, espalhavam-se de boca a boca com respeito a ela. Os homens permaneciam em grupos sussurrando uns para os outros, escassamente se atrevendo a moverem-se sem uma companhia: ou melhor, mesmo então, movendo-se sorrateiramente de lugar para lugar, olhando cautelosamente ao redor, e sobressaltando-se a cada barulho, como se eles temessem que o visitante terrível retornasse: enquanto os sábios do país sacudiam gravemente suas cabeças, e declaravam que o que tinha ocorrido evidentemente foi uma visita do Céu, em punição dos pecados da humanidade. Um presentimento indefinível do mal pendia sobre os espíritos de todos. [291]De fato, a melancolia espalhava-se através de cada classe: todos temiam eles não sabiam o que – e todos retrocediam de horror diante do pensamento de agência sobrenatural. Há de fato um sentimento invencível implantado pela natureza na mente do homem, o qual o fazia estremecer com desgosto diante de qualquer coisa que invadisse as leis dela.
O corpo da Rainha sendo removido, acompanhado por seus médicos e as damas da casa dela, o resto dos cortesões reuniu-se em torno do balão; e exclamações de terror e surpresa irromperam dos seus lábios quando eles o descobriram ser o mesmo no qual Edric e o dr. Entwerfen tinham há tão pouco tempo partido para o Egito. A verdade inteira agora parecia brilhar sobre eles.
“Eu pensei como seria,” disse o lorde Maysworth; “você sabe que eu contei a você, lorde Gustavus, que, em minha opinião, essa era uma expedição que nunca possivelmente poderia realizar nada de bom – mas você foi de uma crença diferente.”
“Meu lorde,” retornou o lorde Gustavus, solenemente, “pensando como eu penso, e como eu estou [292]convencido de que todos quem me ouvem têm de pensar, ou, pelo menos, deveriam pensar, é minha opinião deliberada que a expedição do meu jovem amigo e seu tutor instruído foi tanto admiravelmente planejada quando bem inventada, e que se ela falhou em seu objeto ulterior, foi unicamente devido a alguns daqueles eventos imprevistos que às vezes ocorrem mesmo nos arranjos melhor regulados, e que era completamente impossível para qualquer habilidade humana desviar-se deles ou evitar.”
“O balão de Edric! Impossível!” exclamou o senhor Ambrose, apressando-se a frente para determinar o fato, e esquecendo-se de toda sua ira contra o seu filho em sua ansiedade pelo seu destino. “Sim! Sim!” continuou ele, examinando algumas das coisas, conforme elas eram tiradas e exibidas por pessoas diferentes na multidão; “esses eram os livros de Edric – essa era sua mesa. Oh! Meu filho! Meu filho! O que aconteceu com ele?”
Muitos simpatizaram com o infeliz pai, e mais ansiosamente questionavam um aos outros quanto ao sentido provável do que eles viam. Contudo, ninguém poderia dar qualquer explicação; [293]e tudo era confusão e desânimo. Apenas em um indivíduo a chegada da múmia não produziu nenhuma emoção. O peito de Edmund, depois que o primeiro momento de excitação tinha passado, estava atormentado com angústia amarga demais para o permitir sentir-se curioso de conhecer o destino do seu irmão. Apenas umas poucas horas antes, o amor e a fortuna pareciam unir-se para chover suas bençãos excelentes sobre a cabeça dele, e agora ele era o mais miserável da humanidade; pois se Claudia morresse, Rosabella ou Elvira tinham de ser rainha; e se Elvira devesse ser escolhida, todas as esperanças de se tornar esposo dela têm de ser perdidas.
“Oh, Deus!” clamava ele, batendo na testa em agonia, “por que eu estava reservado para isso? Por que eu não pereci lutando as batalhas do meu país? E por que eu fui salvo apenas para ser zombado com a esperança de felicidade, a qual, exatamente enquanto ela parecia dentro do meu alcance, voa para longe de mim para sempre? Miserável que eu sou! Gostaria que eu nunca tivesse nascido, ou, pelo menos, tivesse morrido nos braços de minha cuidadora, para que, dessa maneira, eu tivesse escapado das aflições atormentadoras que agora me levam à loucura!”
Enquanto Edmund delirava dessa maneira, o olho de [294]Rosabella seguia cada movimento seu, e parecia exultar com um prazer semelhante a um demônio em suas agonias. “Eu estou vingada,” pensou ela; “ele agora sente o que eu tão frequentemente tenho sentido. Mas isso não é tudo; ele tem de ser investigado profundamente antes que ele possa conhecer a vingança amarga de uma mulher desprezada.”
Enquanto essas emoções violentas estavam convulsionando os peitos de todos em volta, o velho duque ajoelhou-se ao lado de Elvira, encarando-a com a ansiedade mais intensa. A natureza gentil e feminina dela tinha sido sobrepujada ao ver o sangue de Claudia, e ela ainda estava deitada inconsciente, parecendo mais exoticamente amável do que a imaginação pode conceber. A beleza de Elvira era de descrição mais suave e feminina; longos cílios sedosos sombreavam seus olhos castanhos escuros, e concediam uma expressão mais voluptuosa do que brilhante, enquanto nada poderia exceder a delicadeza da sua compleição, ou a beleza dos seus lábios rosados cheios. A figura de Elvira não poderia servir como o modelo de uma heroína corajosa, mas ela poderia ser admiravelmente para uma Houri; e amável como ela sempre era, ela [295]talvez nunca tinha parecido mais dessa maneira do que neste momento, quando o sangue retornando retificou suas bochechas, e seus olhos gradualmente se abriram. Lorde Edmund encarou-a, até que, enlouquecido pelo pensamento de que ele tem de perder o amor dela para sempre, ele não mais conseguiu suportar suas próprias sensações, e, apressando-se em meio à multidão, ele tentou fugir do mundo e de si mesmo.
O duque, pelo contrário, via a recuperação de sua filha com puro arrebatamento, pois, embora ele amasse Edmund, e desejasse tê-lo como genro, ele, de maneira nenhuma, era insensível à possibilidade de ver sua filha uma Rainha, e o peito dele latejava com emoções violentas, às quais ele há muito tinha sido estranho.
Entrementes, a múmia espreitava solenemente através da cidade, impulsionada mais por instinto do que por desígnio; a névoa que ainda pendia sobre ela, fazendo-a parecer como alguém perambulando em um sonho. Ainda assim, ela avançava; seu caminho, como aquele de um anjo destruidor, espalhando consternação enquanto prosseguia, e todos que encontrava fugindo aterrorizados ao vê-la; contudo, muitos, quando o monstro tinha passado, moviam-se sorrateiramente de volta para [296]a observar e, em meio a esse número, estava a sra. Russel, em cujo peito a curiosidade, esse vício de mentes inferiores, reinava predominante.
No momento que o balão deles caiu, a sra. Russell, acompanhada pelo seu leal Abelard, tinha se apressado para casa, deixando Clara aos cuidados do padre Murphy; com medo de que, como ela dizia, na confusão que poderia se seguir, os servos poderiam ser induzidos a abandonarem a casa do duque e alguns personagens de má disposição poderiam despojá-la dos seus conteúdos. Impelida por esse motivo prudente, a sra. Russel apressou-se para casa e, descobrindo-a segura, estava prestes a retirar-se para rearranjar as suas vestes desordenadas, quando um dos servos entrou apressado na sala com o relato de um terrível espírito tendo sido visto no Strand, cuja aparência misteriosa, combinada com o acidente que tinha acontecido com a Rainha, parecia pressagiar alguma calamidade terrível que estava prestes a cair sobre o país.
“Como ela é?” perguntou a sra. Russel; “você viu-a, Evelina?”
“Oh, sim, madame!” exclamou a garota chorando; “os olhos dela chamejam como fogo, e ela olha tão descontroladamente de um lado para o outro! E enquanto avançava, ela viu um gato [297]morto estendido na rua: e ajoelhou-se e pegou a criatura, e beijou-a, e lamentou sobre ele de uma maneira tão estranha, e em uma linguagem tão estranha! Eu nunca vi nada como isso em minha vida.”
“Oh, querida! Eu deveria gostar de a ter visto!” exclamou a sra. Russel, voando para a porta e segurando-a meio aberta para assegurar uma retirada em caso de necessidade. Contudo, exatamente enquanto ela alcançava a rua, o destino, como se voluntariamente para gratificar a curiosidade dela, fez a múmia virar-se; e, com aquele tipo de meio prazer e meio dor, com o qual o bom povo da Inglaterra às vezes se deleita em encarar qualquer coisa horrível, a sra. Russel continuou a olhar enquanto ela aproximava-se rapidamente dela, até que, enquanto ela alcançava a porta, para o seu horror infinito, ela espreitou na direção dela. Impressionada e trêmula, a sra. Russel retirou-se. A múmia seguiu-a. Ele estendeu a mão para ela. Ela recuou horrorizada do toque. “Mostre o caminho!” exclamou ele, com uma voz de trovão. A sra. Russel não conseguia suportar mais, e ela fugiu gritando para o seu próprio apartamento, onde o amante dela estava esperando pelo seu retorno, [298]impaciente para deleitar os ouvidos atentos dela com mais um pouco de suas efusões poéticas.
Contudo, absorvido como estava Abelard, ele ficou excitado por essa intrusão inesperada, e o sangue correu frio através das veias dele, enquanto ele via a majestosa figura de Quéops andar a passos largos através do apartamento. A sua estatura atlética morena, e suas características fortemente marcadas, auxiliadas pelos brilho terrível dos seus olhos penetrantes, concediam à figura dele, enfaixada como ela estava pelas vestimentas do túmulo, uma grandeza sobrenatural que vibrava através de cada nervo do corpo de Abelard, e ele recuou com horror enquanto esse visitante terrível espreitava além dele.
Quéops viu seu horror e sorriu em desdém orgulhoso, enquanto ele jogava-se sobre um sofá posicionado perto de uma janela, olhando para o jardim, o qual, como nós afirmamos, desce em terraços para o rio. Ali ele permaneceu, seus olhos fixos sobre o majestoso Tâmisa, enquanto que Abelard e a sra. Russel encaravam com membros trêmulos e lábios pálidos o intruso estranho, sem se atreverem ou a aproximarem-se ou a perturbá-lo.
[299]“Dessa maneira eu observava o Nilo,” disse Quéops, sua voz terrível soando como se a partir da tumba, “enquanto as gentis águas ascendentes cresciam na inundação que devia verter alegria e plenitude sobre a terra: - e dessa maneira, também, eu deitava, observando seus fluxos, quando, o propósito da natureza toda generosa tendo sido satisfeito, ele afundava-se de volta, lentamente se retirando para o seu leito natural. Mas, oh! Quão diferentes são os sentimentos que então batiam em meu peito, do fogo corrosivo que agora me consume! - Oh! Osíris! Que pensamentos hórridos cintilam através de meu cérebro! - Eles vem como enchentes sobrepujantes, vertendo do céu para a grande profundeza, e varrendo tudo diante deles em uma poderosa ruína. - Oh! Arsinöe! Pelos ritos desumanos de Tifão, há loucura no pensamento!”
Então, saltando do sofá, os olhos dele ainda brilhavam com brilho mais feroz, enquanto ele reluzia-os de um lado para o outro, enquanto Abelard e a sra. Russel, terrificados além do poder de expressão, fugiram na direção da porta, olhando os movimentos do seu [300]perigoso convidado com sentimentos de horror indizível. O terror deles era desnecessário, pois a tempestade de paixões no peito de Quéops, embora tremenda, logo foi acalmada; e, antes que muitos momentos tivessem passado, ele afundou-se novamente sobre o sofá em um tipo de letargia, a qual, se não era sono, pelo menos parecia implicar uma cessação temporária de dor.
“Graças a Deus!” sussurrou Abelard, enquanto ele movia-se para a sra. Russel arrastar-se para fora do apartamento. Tremendo, ela obedeceu; e no momento em que ela se considerou em segurança, ela caiu de joelhos e agradeceu a Deus com mais fervor do que alguma vez ela tinha feito antes em toda a vida dela; enquanto que os servos, quem estavam todos reunidos na antessala, aglomeraram-se ao redor dela, trêmulos, com bochechas pálidas, e lábios brancos, e aglomerando-se juntos como abelhas enxameando em torno da rainha delas.
“Oh, madame! Madame!” exclamava Angelina, em um sussurro, “o que acontecerá conosco? Uma umidade serosa transuda a partir de cada poro do meu corpo com a frieza da morte, e meu [301]próprio cabelo levanta-se com horror sobre minha cabeça.”
“E meu coração lateja com tal violência,” disse Cecilia, “que o inteiro sistema arterial parece desordenado.”
“Evidentemente é uma múmia egípcia,” observou Abelard, observou Abelard, e, enquanto ele falava, cada palavra proferida era como um oráculo. “A sua linguagem e sua veste revelam sua origem, mas, através de qual evento estranho ela foi ressuscitada -”
Nesse momento, uma batida aguda na porta fez todos os servos assustados pularem juntos para mais perto uns dos outros, agarrando-se uns aos outros em uma agonia de horror nervoso, e não se atrevendo a aproximarem-se da porta. Contudo, a batida e o toque finalmente se tornaram tão violentos para animar Abelard a conceder entrada aos intrusos clamorosos. Eram o padre Morris e o senhor Ambrose.
“Oh, Abelard!” exclamou o último, arquejando por fôlego; “você ouviu as notícias? A Rainha certamente está morrendo, e todo mundo diz [302]que o demônio apareceu nessa manhã a matou.”
“O que, a múmia?” perguntou Abelard.
“Você ouviu falar dela, então?” exclamou sir Ambrose, ansiosamente.
“Ela está nesta casa agora,” disse a sra. Russel.
“Nesta casa!” repetiu o sir Ambrose, com um grito fraco; enquanto que o padre Morris, quem tinha parecido pálido e exausto quando ele entrou no salão, tornou-se ainda mais palido, e parecia escassamente capaz de suportar a si mesmo.
“Às armas!” gritou Quéops da sala interna; “os palli estão sobre nós! Covardes que nós somos, o inimigo está nos nossos portões!”
Gritando, e escassamente sabendo para onde eles iam, os servos terrificados tropeçavam uns sobre os outros na pressa de sua retirada, amontoando-se juntos em uma pilha, contudo, mantendo seus olhos fixos na porta a partir da qual eles esperavam o espectro aparecer, como se encantados pelo fascínio de uma cascavel.
Uma queda barulhenta agora produziu um novo grito; então, tudo ficou em silêncio. Após uma longa pausa, a qual [303]pareceu de duração sem fim, o padre Morris, evidentemente com um esforço terrível, levantou-se a avançou –
“A morte mesma não é tão hórrida quanto este suspense,” disse ele, enquanto ele resolutamente abria a porta da sala que tinha contido a múmia e entrava. Ela estava vazia – mas a estrutura quebrada da janela parecia indicar de que maneira o visitante terrível tinha feito sua saída.
Foi com dificuldade infinita que a sra. Russel pôde ser persuadida a retornar ao seu aposento; e quando ela fez, o restante do dia foi passado por ela, e por cada doméstico da mansão, em medo e tremor. Quando eles falavam, era em sussurros, eles moviam-se sorrateiramente com furtivos passos sem som, como se eles temessem o eco dos seus próprios passos; os olhos de todos timidamente fixos na janela quebrada, através da qual o terrível estrangeiro tinha desaparecido.
Lenta e pesadamente as horas rolavam, para a sra. Russel e o seu constante Abelard, até que [304]o tempo indicado para o jantar chegou, quando os servos inferiores, enquanto eles serviam a refeição, olhavam timidamente de um lado para o outro, em vez de considerarem os pratos que eles carregavam em suas mães, e inicialmente, os mais elevados deles escassamente se atreviam a comer, e apenas se atreviam a falar em sussurros, fantasiando a cada momento os olhos selvagens de Quéops novamente olhando de cima para eles, e a sua profunda voz vazia ressoando em seus ouvidos, enquanto seus próprios tons soavam estranhamente roucos e não naturais. Contudo, enquanto a garrafa circulava, os terrores deles dissiparam-se, e Abelard há pouco tinha começado aspirar algumas das suas efusões mais delicadas, quando o esmagamento de galhos no jardim anunciou o retorno do espectro, e o riso de Quéops, estranho, selvagem, e sobrenatural, novamente ressoava nos ouvidos deles, como o grito de um demônio; os servos, terrificados diante do som apavorante, escutaram por um momento, seus membros tremendo em cada junta; seus dentes rangendo em suas cabeças; e o terror branqueando seus lábios e bochechas a uma palidez medonha, até que, conforme o barulho horrendo aumentava, eles não poderiam aguentar mais, e, saltando [305]dos seus assentos, fugiram gritando da sala.
Entrementes, as sensações que esses eventos extraordinários tinham criado entre as pessoas foram indescritíveis. Rumores estranhos e relatos contraditórios estavam circulando, e as histórias mais incríveis de tudo que tinha se passado. As mentes dos homens tornaram confusas; elas não sabiam no que acreditar nem o que pensar; um pressentimento sombrio pendia sobre elas; elas pareciam sentir que alguma mudança terrível estava à mão, mas escassamente sabiam o que esperar ou o que temer. Os negócios estavam paralisados: de fato, as pessoas reuniam-se nas lojas, mas era apenas para sussurrarem secretamente umas para as outras, estranhas histórias misteriosas dos últimos eventos maravilhosos, os quais eles não se atreviam a respirar em público. Os extremos de ignorância e civilização tendem igualmente a produzirem credulidade, e as mais selvagens e improváveis histórias eram tão avidamente engolidas pelos povos mais iluminados do mundo, quanto elas poderiam ter sido até por uma horda de bárbaros incultos.
[306]A família do duque de Cornwall retirou-se cedo para descansar no fim do dia histórico do qual nós estivemos falando, esperando perder no sonho a lembrança dos eventos pretubadores que eles tinham testemunhado tão recentemente. Lorde Edmund tinha retornado logo depois do desaparecimento da múmia; mas ele trancou-se no aposento preparado para ele, e recusou-se a ver qualquer um, a sua mente estando agitada de mais para ele suportar as formas comuns da sociedade. Logo tudo ficou quieto por toda a mansão.
Era meia-noite quando uma figura alta, enrolada em um grande manto, apareceu deslizando lentamente com passos semelhantes aos de um gato através do jardim. Ela cautelosamente evitava a luz, e movia-se sorrateiramente ao longo das alamedas mais sombrias e passagens mais espessas, cuidadosamente se cobrindo de observação, e tentando, ao disponibilizarem-se o abrigo das árvores, o melhor para ocultar seus movimentos. Na extremidade do jardim ficava um terraço muito pouco usado; de fato, a porta conduzindo a ele tinha estado fechada por tanto tempo, quanto a estar quase esquecida, e contudo, foi na direção desse ponto não frequentado que [307]a figura misteriosa dirigiu o seu curso. A porta há muito negligenciada abriu-se lentamente, e o fluxo de luz que ela admitiu foi obscurecido por um momento por uma sombra passante; e então tudo pareceu escuro, silencioso e misterioso quanto antes.
“Certamente foi naquela direção,” disse uma voz, a precisão da qual a marcava como pertencente a Abelard; “e era uma forma real, tangível, material, visto que eu vi sua sombra interceptar a luz quando a porta foi aberta e ele atravessou.”
“É bastante impossível,” exclamou a sra. Russel, quem, tendo sido induzida pelo mordomo romântico a divagar com ele à luz da lua, também tinha testemunhado essa aparição estranha; “você deve estar enganado, sr. Aberlad, pois aquela porta não parece ter sido aberta nesta era. Ela está até pregada, como você mesmo pode ver se você a examinar.”
“É muito estranho,” disse Abelard, depois dele ter testando a porta e descobriu-a imóvel; “Eu certamente a vi aberta.”
“Tem de ter sido uma ilusão de ótica,” [308]retornou a sra. Russel; “a retina dos olhos algumas vezes é estranhamente afetada, e representa objetos muito diferentes do que eles realmente são.”
“Eu tenho de consultar o padre Morris sobre isso amanhã, pois, em minha opinião, certamente foi o espectro da múmia.”
“Ah, você pensa assim, sr. Abelard? Então, por que você não fala com ela?”
“Eu o farei, se vier novamente,” retornou Abelard.
“Oh! Aí está!” exclamou a sr. Russel; e o digno par fugiu de volta para a casa, correndo em concerto, e sem uma vez se atreverem a olhar para trás deles. Contudo, escassamente o último eco dos passos deles tinha morrido sobre o ouvido, quando a figura emergiu do recesso no qual ela tinha estado escondida, e novamente se moveu sorrateiramente na direção da porta levando ao terraço.
“Shh! Marianne!” exclamou o estranho, pausando para uma resposta; mas tudo estava parado. “Marianne!” repetiu ele ainda mais alto – “Tolos! Patetas! Idiotas!” continuou ele, pisando violentamente, enquanto ele ainda descobria a sua convocação sem utilidade; “eles mantiveram-me por tanto tempo com sua loucura amaldiçoada, [309]que ela agora está perdida. Miséria eterna assombre-os por seu balbucio oficioso! Pelo céu! Se eles tivessem tido o sentido de escalar a parede, eu tinha sido perdido: mas ouça, ela chega!”
A porta agora se abriu lentamente, e uma figura feminina segurando uma luz apareceu.
“Como ela está?” exclamou o estranho.
“Melhor,” retornou a mulher.
“Então é passado o poder do homem para a matar,” retornou o primeiro; e apressando-se selvagemente além do seu companheiro, ele ocultou-se nos recessos mais profundos do arvoredo.
FIM DO VOLUME I
ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.287-309. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n301/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0