A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo XII - Fim do Volume I

 A Múmia! Um Conto do Século XXII


Por Jane C. London


Volume I


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Capítulo XII – Fim do Volume I


[287]O tumulto agora tinha quase diminuído. A multidão há pouco ocupada fugiu, proferindo gritos de horror e medo; e de toda a massa sem conta de seres humanos que até recentemente tinha estado aglomerada, ninguém permaneceu, salvo Edmund e o padre Morris, quem amparavam Claudia; o duque e Henry Saymour, quem ainda permaneciam próximos da forma inconsciente de Elvira; enquanto eles, pálidos e imóveis como o mármore esculpido da tumba, seus olhos acorrentados como que por mágica, em consequência da visão terrível diante deles, esperando em expectativa terrível o que era a próxima coisa a acontecer, escassamente se atrevendo a mover ou respirar, o silêncio solene que prevalecia sendo apenas quebrado pelos suspiros [288]convulsivos da Rainha moribunda, apresentavam uma mudança terrível do murmúrio ocupado de milhares que, tão recentemente, tinha enchido o ar.

Onde eu estou?” exclamou Quéops, olhando descontroladamente ao redor – sua profunda voz sepulcral vibrando através de cada nervo: - “Onde está Arsinöe? Eles capturaram-na! Eles separaram-na de mim. Maldições sobre os miseráveis! - Possa a vingança eterna de Tifão persegui-los, e possam os corações deles murchar, consumidos pela serpente imortal.”

A múmia cerrava seus dentes enquanto ele falava, e a melancolia que se reuniu sobre sua sobrancelha sombria escureceu como a noite. Todos tremeram enquanto aquele olhar hórrido de ódio eterno parecia congelar seu sangue. Eles viraram-se involuntariamente; e quando olharam novamente, o espectro tinha desaparecido. Os restos despedaçados do balão jaziam diante deles, rasgados aos átomos; pois, acontecendo de cruzar Londres exatamente no momento da maior confusão, ele tinha se emaranhado na multidão, e, a despeito do material forte do qual era composto, ele [289]tinha sido despedaçado na confusão, e tinha caído com seu ocupante terrível no chão.

Bom Deus!” exclamou o padre Morris, após uma pausa curta; “que visão horrível! O que isso pode significar?”

Parecia uma múmia egípcia,” dia Edmund, estremecendo; “e ela falou aquela linguagem. Mas o que pode tê-la ressuscitada? Que poder humanos pode ter reconvocado à vida um ser por tanto tempo emparedado na tumba silenciosa!”

Talvez o veículo no qual ela chegou possa conter alguma coisa para explicar o mistério,” disse Henry Seymour.

Nesse momento, várias pessoas passaram correndo, gritando de terror, e exclamando que elas tinham visto um demônio. Quando a confusão excitada por esses fugitivos trêmulos tinha diminuído um pouco, uns poucos dos cortesões também começaram a aparecer, e retornar aos seus postos próximos da Rainha. Mas todos estavam pálidos, pulando diante de cada som, e parecendo prontos, diante do menor alarme, a fugirem novamente tão rapidamente quanto antes.

Claudia ainda jazia inconsciente; apenas o seu peito arfando [290]e profundos soluços convulsivos para respirar revelando sinais de vida. Mas o destino dela não mais excitava um interesse profundo, irresistível. Sussurros de maravilha e horror supersticioso misturaram-se com as esperanças e medos inspirados pelo perigo; e a remoção dela para o palácio foi quase considerada com indiferença, tão completamente estavam as mentes dos homens ocupadas pelo espetáculo estranho que eles tinham testemunhado tão recentemente.

De fato, ninguém pensava nem falava em coisa alguma senão na múmia; e mil rumores, cada um mais extravagante do que o último, espalhavam-se de boca a boca com respeito a ela. Os homens permaneciam em grupos sussurrando uns para os outros, escassamente se atrevendo a moverem-se sem uma companhia: ou melhor, mesmo então, movendo-se sorrateiramente de lugar para lugar, olhando cautelosamente ao redor, e sobressaltando-se a cada barulho, como se eles temessem que o visitante terrível retornasse: enquanto os sábios do país sacudiam gravemente suas cabeças, e declaravam que o que tinha ocorrido evidentemente foi uma visita do Céu, em punição dos pecados da humanidade. Um presentimento indefinível do mal pendia sobre os espíritos de todos. [291]De fato, a melancolia espalhava-se através de cada classe: todos temiam eles não sabiam o que – e todos retrocediam de horror diante do pensamento de agência sobrenatural. Há de fato um sentimento invencível implantado pela natureza na mente do homem, o qual o fazia estremecer com desgosto diante de qualquer coisa que invadisse as leis dela.

O corpo da Rainha sendo removido, acompanhado por seus médicos e as damas da casa dela, o resto dos cortesões reuniu-se em torno do balão; e exclamações de terror e surpresa irromperam dos seus lábios quando eles o descobriram ser o mesmo no qual Edric e o dr. Entwerfen tinham há tão pouco tempo partido para o Egito. A verdade inteira agora parecia brilhar sobre eles.

Eu pensei como seria,” disse o lorde Maysworth; “você sabe que eu contei a você, lorde Gustavus, que, em minha opinião, essa era uma expedição que nunca possivelmente poderia realizar nada de bom – mas você foi de uma crença diferente.”

Meu lorde,” retornou o lorde Gustavus, solenemente, “pensando como eu penso, e como eu estou [292]convencido de que todos quem me ouvem têm de pensar, ou, pelo menos, deveriam pensar, é minha opinião deliberada que a expedição do meu jovem amigo e seu tutor instruído foi tanto admiravelmente planejada quando bem inventada, e que se ela falhou em seu objeto ulterior, foi unicamente devido a alguns daqueles eventos imprevistos que às vezes ocorrem mesmo nos arranjos melhor regulados, e que era completamente impossível para qualquer habilidade humana desviar-se deles ou evitar.”

O balão de Edric! Impossível!” exclamou o senhor Ambrose, apressando-se a frente para determinar o fato, e esquecendo-se de toda sua ira contra o seu filho em sua ansiedade pelo seu destino. “Sim! Sim!” continuou ele, examinando algumas das coisas, conforme elas eram tiradas e exibidas por pessoas diferentes na multidão; “esses eram os livros de Edric – essa era sua mesa. Oh! Meu filho! Meu filho! O que aconteceu com ele?”

Muitos simpatizaram com o infeliz pai, e mais ansiosamente questionavam um aos outros quanto ao sentido provável do que eles viam. Contudo, ninguém poderia dar qualquer explicação; [293]e tudo era confusão e desânimo. Apenas em um indivíduo a chegada da múmia não produziu nenhuma emoção. O peito de Edmund, depois que o primeiro momento de excitação tinha passado, estava atormentado com angústia amarga demais para o permitir sentir-se curioso de conhecer o destino do seu irmão. Apenas umas poucas horas antes, o amor e a fortuna pareciam unir-se para chover suas bençãos excelentes sobre a cabeça dele, e agora ele era o mais miserável da humanidade; pois se Claudia morresse, Rosabella ou Elvira tinham de ser rainha; e se Elvira devesse ser escolhida, todas as esperanças de se tornar esposo dela têm de ser perdidas.

Oh, Deus!” clamava ele, batendo na testa em agonia, “por que eu estava reservado para isso? Por que eu não pereci lutando as batalhas do meu país? E por que eu fui salvo apenas para ser zombado com a esperança de felicidade, a qual, exatamente enquanto ela parecia dentro do meu alcance, voa para longe de mim para sempre? Miserável que eu sou! Gostaria que eu nunca tivesse nascido, ou, pelo menos, tivesse morrido nos braços de minha cuidadora, para que, dessa maneira, eu tivesse escapado das aflições atormentadoras que agora me levam à loucura!”

Enquanto Edmund delirava dessa maneira, o olho de [294]Rosabella seguia cada movimento seu, e parecia exultar com um prazer semelhante a um demônio em suas agonias. “Eu estou vingada,” pensou ela; “ele agora sente o que eu tão frequentemente tenho sentido. Mas isso não é tudo; ele tem de ser investigado profundamente antes que ele possa conhecer a vingança amarga de uma mulher desprezada.”

Enquanto essas emoções violentas estavam convulsionando os peitos de todos em volta, o velho duque ajoelhou-se ao lado de Elvira, encarando-a com a ansiedade mais intensa. A natureza gentil e feminina dela tinha sido sobrepujada ao ver o sangue de Claudia, e ela ainda estava deitada inconsciente, parecendo mais exoticamente amável do que a imaginação pode conceber. A beleza de Elvira era de descrição mais suave e feminina; longos cílios sedosos sombreavam seus olhos castanhos escuros, e concediam uma expressão mais voluptuosa do que brilhante, enquanto nada poderia exceder a delicadeza da sua compleição, ou a beleza dos seus lábios rosados cheios. A figura de Elvira não poderia servir como o modelo de uma heroína corajosa, mas ela poderia ser admiravelmente para uma Houri; e amável como ela sempre era, ela [295]talvez nunca tinha parecido mais dessa maneira do que neste momento, quando o sangue retornando retificou suas bochechas, e seus olhos gradualmente se abriram. Lorde Edmund encarou-a, até que, enlouquecido pelo pensamento de que ele tem de perder o amor dela para sempre, ele não mais conseguiu suportar suas próprias sensações, e, apressando-se em meio à multidão, ele tentou fugir do mundo e de si mesmo.

O duque, pelo contrário, via a recuperação de sua filha com puro arrebatamento, pois, embora ele amasse Edmund, e desejasse tê-lo como genro, ele, de maneira nenhuma, era insensível à possibilidade de ver sua filha uma Rainha, e o peito dele latejava com emoções violentas, às quais ele há muito tinha sido estranho.

Entrementes, a múmia espreitava solenemente através da cidade, impulsionada mais por instinto do que por desígnio; a névoa que ainda pendia sobre ela, fazendo-a parecer como alguém perambulando em um sonho. Ainda assim, ela avançava; seu caminho, como aquele de um anjo destruidor, espalhando consternação enquanto prosseguia, e todos que encontrava fugindo aterrorizados ao vê-la; contudo, muitos, quando o monstro tinha passado, moviam-se sorrateiramente de volta para [296]a observar e, em meio a esse número, estava a sra. Russel, em cujo peito a curiosidade, esse vício de mentes inferiores, reinava predominante.

No momento que o balão deles caiu, a sra. Russell, acompanhada pelo seu leal Abelard, tinha se apressado para casa, deixando Clara aos cuidados do padre Murphy; com medo de que, como ela dizia, na confusão que poderia se seguir, os servos poderiam ser induzidos a abandonarem a casa do duque e alguns personagens de má disposição poderiam despojá-la dos seus conteúdos. Impelida por esse motivo prudente, a sra. Russel apressou-se para casa e, descobrindo-a segura, estava prestes a retirar-se para rearranjar as suas vestes desordenadas, quando um dos servos entrou apressado na sala com o relato de um terrível espírito tendo sido visto no Strand, cuja aparência misteriosa, combinada com o acidente que tinha acontecido com a Rainha, parecia pressagiar alguma calamidade terrível que estava prestes a cair sobre o país.

Como ela é?” perguntou a sra. Russel; “você viu-a, Evelina?”

Oh, sim, madame!” exclamou a garota chorando; “os olhos dela chamejam como fogo, e ela olha tão descontroladamente de um lado para o outro! E enquanto avançava, ela viu um gato [297]morto estendido na rua: e ajoelhou-se e pegou a criatura, e beijou-a, e lamentou sobre ele de uma maneira tão estranha, e em uma linguagem tão estranha! Eu nunca vi nada como isso em minha vida.”

Oh, querida! Eu deveria gostar de a ter visto!” exclamou a sra. Russel, voando para a porta e segurando-a meio aberta para assegurar uma retirada em caso de necessidade. Contudo, exatamente enquanto ela alcançava a rua, o destino, como se voluntariamente para gratificar a curiosidade dela, fez a múmia virar-se; e, com aquele tipo de meio prazer e meio dor, com o qual o bom povo da Inglaterra às vezes se deleita em encarar qualquer coisa horrível, a sra. Russel continuou a olhar enquanto ela aproximava-se rapidamente dela, até que, enquanto ela alcançava a porta, para o seu horror infinito, ela espreitou na direção dela. Impressionada e trêmula, a sra. Russel retirou-se. A múmia seguiu-a. Ele estendeu a mão para ela. Ela recuou horrorizada do toque. “Mostre o caminho!” exclamou ele, com uma voz de trovão. A sra. Russel não conseguia suportar mais, e ela fugiu gritando para o seu próprio apartamento, onde o amante dela estava esperando pelo seu retorno, [298]impaciente para deleitar os ouvidos atentos dela com mais um pouco de suas efusões poéticas.

Contudo, absorvido como estava Abelard, ele ficou excitado por essa intrusão inesperada, e o sangue correu frio através das veias dele, enquanto ele via a majestosa figura de Quéops andar a passos largos através do apartamento. A sua estatura atlética morena, e suas características fortemente marcadas, auxiliadas pelos brilho terrível dos seus olhos penetrantes, concediam à figura dele, enfaixada como ela estava pelas vestimentas do túmulo, uma grandeza sobrenatural que vibrava através de cada nervo do corpo de Abelard, e ele recuou com horror enquanto esse visitante terrível espreitava além dele.

Quéops viu seu horror e sorriu em desdém orgulhoso, enquanto ele jogava-se sobre um sofá posicionado perto de uma janela, olhando para o jardim, o qual, como nós afirmamos, desce em terraços para o rio. Ali ele permaneceu, seus olhos fixos sobre o majestoso Tâmisa, enquanto que Abelard e a sra. Russel encaravam com membros trêmulos e lábios pálidos o intruso estranho, sem se atreverem ou a aproximarem-se ou a perturbá-lo.

[299]“Dessa maneira eu observava o Nilo,” disse Quéops, sua voz terrível soando como se a partir da tumba, “enquanto as gentis águas ascendentes cresciam na inundação que devia verter alegria e plenitude sobre a terra: - e dessa maneira, também, eu deitava, observando seus fluxos, quando, o propósito da natureza toda generosa tendo sido satisfeito, ele afundava-se de volta, lentamente se retirando para o seu leito natural. Mas, oh! Quão diferentes são os sentimentos que então batiam em meu peito, do fogo corrosivo que agora me consume! - Oh! Osíris! Que pensamentos hórridos cintilam através de meu cérebro! - Eles vem como enchentes sobrepujantes, vertendo do céu para a grande profundeza, e varrendo tudo diante deles em uma poderosa ruína. - Oh! Arsinöe! Pelos ritos desumanos de Tifão, há loucura no pensamento!”

Então, saltando do sofá, os olhos dele ainda brilhavam com brilho mais feroz, enquanto ele reluzia-os de um lado para o outro, enquanto Abelard e a sra. Russel, terrificados além do poder de expressão, fugiram na direção da porta, olhando os movimentos do seu [300]perigoso convidado com sentimentos de horror indizível. O terror deles era desnecessário, pois a tempestade de paixões no peito de Quéops, embora tremenda, logo foi acalmada; e, antes que muitos momentos tivessem passado, ele afundou-se novamente sobre o sofá em um tipo de letargia, a qual, se não era sono, pelo menos parecia implicar uma cessação temporária de dor.

Graças a Deus!” sussurrou Abelard, enquanto ele movia-se para a sra. Russel arrastar-se para fora do apartamento. Tremendo, ela obedeceu; e no momento em que ela se considerou em segurança, ela caiu de joelhos e agradeceu a Deus com mais fervor do que alguma vez ela tinha feito antes em toda a vida dela; enquanto que os servos, quem estavam todos reunidos na antessala, aglomeraram-se ao redor dela, trêmulos, com bochechas pálidas, e lábios brancos, e aglomerando-se juntos como abelhas enxameando em torno da rainha delas.

Oh, madame! Madame!” exclamava Angelina, em um sussurro, “o que acontecerá conosco? Uma umidade serosa transuda a partir de cada poro do meu corpo com a frieza da morte, e meu [301]próprio cabelo levanta-se com horror sobre minha cabeça.”

E meu coração lateja com tal violência,” disse Cecilia, “que o inteiro sistema arterial parece desordenado.”

Evidentemente é uma múmia egípcia,” observou Abelard, observou Abelard, e, enquanto ele falava, cada palavra proferida era como um oráculo. “A sua linguagem e sua veste revelam sua origem, mas, através de qual evento estranho ela foi ressuscitada -”

Nesse momento, uma batida aguda na porta fez todos os servos assustados pularem juntos para mais perto uns dos outros, agarrando-se uns aos outros em uma agonia de horror nervoso, e não se atrevendo a aproximarem-se da porta. Contudo, a batida e o toque finalmente se tornaram tão violentos para animar Abelard a conceder entrada aos intrusos clamorosos. Eram o padre Morris e o senhor Ambrose.

Oh, Abelard!” exclamou o último, arquejando por fôlego; “você ouviu as notícias? A Rainha certamente está morrendo, e todo mundo diz [302]que o demônio apareceu nessa manhã a matou.”

O que, a múmia?” perguntou Abelard.

Você ouviu falar dela, então?” exclamou sir Ambrose, ansiosamente.

Ela está nesta casa agora,” disse a sra. Russel.

Nesta casa!” repetiu o sir Ambrose, com um grito fraco; enquanto que o padre Morris, quem tinha parecido pálido e exausto quando ele entrou no salão, tornou-se ainda mais palido, e parecia escassamente capaz de suportar a si mesmo.

Às armas!” gritou Quéops da sala interna; “os palli estão sobre nós! Covardes que nós somos, o inimigo está nos nossos portões!”

Gritando, e escassamente sabendo para onde eles iam, os servos terrificados tropeçavam uns sobre os outros na pressa de sua retirada, amontoando-se juntos em uma pilha, contudo, mantendo seus olhos fixos na porta a partir da qual eles esperavam o espectro aparecer, como se encantados pelo fascínio de uma cascavel.

Uma queda barulhenta agora produziu um novo grito; então, tudo ficou em silêncio. Após uma longa pausa, a qual [303]pareceu de duração sem fim, o padre Morris, evidentemente com um esforço terrível, levantou-se a avançou –

A morte mesma não é tão hórrida quanto este suspense,” disse ele, enquanto ele resolutamente abria a porta da sala que tinha contido a múmia e entrava. Ela estava vazia – mas a estrutura quebrada da janela parecia indicar de que maneira o visitante terrível tinha feito sua saída.

Foi com dificuldade infinita que a sra. Russel pôde ser persuadida a retornar ao seu aposento; e quando ela fez, o restante do dia foi passado por ela, e por cada doméstico da mansão, em medo e tremor. Quando eles falavam, era em sussurros, eles moviam-se sorrateiramente com furtivos passos sem som, como se eles temessem o eco dos seus próprios passos; os olhos de todos timidamente fixos na janela quebrada, através da qual o terrível estrangeiro tinha desaparecido.

Lenta e pesadamente as horas rolavam, para a sra. Russel e o seu constante Abelard, até que [304]o tempo indicado para o jantar chegou, quando os servos inferiores, enquanto eles serviam a refeição, olhavam timidamente de um lado para o outro, em vez de considerarem os pratos que eles carregavam em suas mães, e inicialmente, os mais elevados deles escassamente se atreviam a comer, e apenas se atreviam a falar em sussurros, fantasiando a cada momento os olhos selvagens de Quéops novamente olhando de cima para eles, e a sua profunda voz vazia ressoando em seus ouvidos, enquanto seus próprios tons soavam estranhamente roucos e não naturais. Contudo, enquanto a garrafa circulava, os terrores deles dissiparam-se, e Abelard há pouco tinha começado aspirar algumas das suas efusões mais delicadas, quando o esmagamento de galhos no jardim anunciou o retorno do espectro, e o riso de Quéops, estranho, selvagem, e sobrenatural, novamente ressoava nos ouvidos deles, como o grito de um demônio; os servos, terrificados diante do som apavorante, escutaram por um momento, seus membros tremendo em cada junta; seus dentes rangendo em suas cabeças; e o terror branqueando seus lábios e bochechas a uma palidez medonha, até que, conforme o barulho horrendo aumentava, eles não poderiam aguentar mais, e, saltando [305]dos seus assentos, fugiram gritando da sala.

Entrementes, as sensações que esses eventos extraordinários tinham criado entre as pessoas foram indescritíveis. Rumores estranhos e relatos contraditórios estavam circulando, e as histórias mais incríveis de tudo que tinha se passado. As mentes dos homens tornaram confusas; elas não sabiam no que acreditar nem o que pensar; um pressentimento sombrio pendia sobre elas; elas pareciam sentir que alguma mudança terrível estava à mão, mas escassamente sabiam o que esperar ou o que temer. Os negócios estavam paralisados: de fato, as pessoas reuniam-se nas lojas, mas era apenas para sussurrarem secretamente umas para as outras, estranhas histórias misteriosas dos últimos eventos maravilhosos, os quais eles não se atreviam a respirar em público. Os extremos de ignorância e civilização tendem igualmente a produzirem credulidade, e as mais selvagens e improváveis histórias eram tão avidamente engolidas pelos povos mais iluminados do mundo, quanto elas poderiam ter sido até por uma horda de bárbaros incultos.

[306]A família do duque de Cornwall retirou-se cedo para descansar no fim do dia histórico do qual nós estivemos falando, esperando perder no sonho a lembrança dos eventos pretubadores que eles tinham testemunhado tão recentemente. Lorde Edmund tinha retornado logo depois do desaparecimento da múmia; mas ele trancou-se no aposento preparado para ele, e recusou-se a ver qualquer um, a sua mente estando agitada de mais para ele suportar as formas comuns da sociedade. Logo tudo ficou quieto por toda a mansão.

Era meia-noite quando uma figura alta, enrolada em um grande manto, apareceu deslizando lentamente com passos semelhantes aos de um gato através do jardim. Ela cautelosamente evitava a luz, e movia-se sorrateiramente ao longo das alamedas mais sombrias e passagens mais espessas, cuidadosamente se cobrindo de observação, e tentando, ao disponibilizarem-se o abrigo das árvores, o melhor para ocultar seus movimentos. Na extremidade do jardim ficava um terraço muito pouco usado; de fato, a porta conduzindo a ele tinha estado fechada por tanto tempo, quanto a estar quase esquecida, e contudo, foi na direção desse ponto não frequentado que [307]a figura misteriosa dirigiu o seu curso. A porta há muito negligenciada abriu-se lentamente, e o fluxo de luz que ela admitiu foi obscurecido por um momento por uma sombra passante; e então tudo pareceu escuro, silencioso e misterioso quanto antes.

Certamente foi naquela direção,” disse uma voz, a precisão da qual a marcava como pertencente a Abelard; “e era uma forma real, tangível, material, visto que eu vi sua sombra interceptar a luz quando a porta foi aberta e ele atravessou.”

É bastante impossível,” exclamou a sra. Russel, quem, tendo sido induzida pelo mordomo romântico a divagar com ele à luz da lua, também tinha testemunhado essa aparição estranha; “você deve estar enganado, sr. Aberlad, pois aquela porta não parece ter sido aberta nesta era. Ela está até pregada, como você mesmo pode ver se você a examinar.”

É muito estranho,” disse Abelard, depois dele ter testando a porta e descobriu-a imóvel; “Eu certamente a vi aberta.”

Tem de ter sido uma ilusão de ótica,” [308]retornou a sra. Russel; “a retina dos olhos algumas vezes é estranhamente afetada, e representa objetos muito diferentes do que eles realmente são.”

Eu tenho de consultar o padre Morris sobre isso amanhã, pois, em minha opinião, certamente foi o espectro da múmia.”

Ah, você pensa assim, sr. Abelard? Então, por que você não fala com ela?”

Eu o farei, se vier novamente,” retornou Abelard.

Oh! Aí está!” exclamou a sr. Russel; e o digno par fugiu de volta para a casa, correndo em concerto, e sem uma vez se atreverem a olhar para trás deles. Contudo, escassamente o último eco dos passos deles tinha morrido sobre o ouvido, quando a figura emergiu do recesso no qual ela tinha estado escondida, e novamente se moveu sorrateiramente na direção da porta levando ao terraço.

Shh! Marianne!” exclamou o estranho, pausando para uma resposta; mas tudo estava parado. “Marianne!” repetiu ele ainda mais alto – “Tolos! Patetas! Idiotas!” continuou ele, pisando violentamente, enquanto ele ainda descobria a sua convocação sem utilidade; “eles mantiveram-me por tanto tempo com sua loucura amaldiçoada, [309]que ela agora está perdida. Miséria eterna assombre-os por seu balbucio oficioso! Pelo céu! Se eles tivessem tido o sentido de escalar a parede, eu tinha sido perdido: mas ouça, ela chega!

A porta agora se abriu lentamente, e uma figura feminina segurando uma luz apareceu.

Como ela está?” exclamou o estranho.

Melhor,” retornou a mulher.

Então é passado o poder do homem para a matar,” retornou o primeiro; e apressando-se selvagemente além do seu companheiro, ele ocultou-se nos recessos mais profundos do arvoredo.


FIM DO VOLUME I


ORIGINAL:

LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.287-309. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n301/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo XI

A Múmia! Um Conto do Século XXII


Por Jane C. London


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Capítulo XI


[256]Entrementes, o senhor Ambrose Montagu tinha acompanhado o duque à sala de estar da Rainha. O esplendor da corte inglesa nesse período desafia descrição. As paredes da sala na qual a Rainha recebia seus convidados eram literalmente um esplendor de pedras preciosas, e essas estando dispostas na forma de buquês, guirlandas e troféus, eram de tal modo planejadas quanto a tremer a cada movimento. Essas paredes magnificentes eram assistidas por uma colunata de pilares de ouro sólido, ao redor da qual se entrelaçavam guirlandas de joias também fixadas sobre fios de ouro flexível, de modo a tremerem a cada instante. O trono da Rainha era formado por filigrana de ouro lindamente trabalhado, ricamente gravado e soberbamente [257]ornamentado, enquanto atrás dele havia uma placa de espelho, estendendo-se por todo o comprimento e a altura do apartamento e concedendo ao todo o efeito de um palácio feérico. O carpete espalhando-se sobre o piso deste salão suntuoso era uma imitação tão exata de grama verde, com grupos exoticamente belos de flores largadas descuidadamente sobre ele, que um espectador desatento poderia ter sido completamente enganado pela delicadeza da sua forma e a riqueza da sua coloração, e ter parado para as colher, supondo-as serem reais. O conjunto de salas apropriado para dançar era igualmente esplêndido, e mobiliado da mesma maneira, exceto que os pisos eram pintados para imitarem o efeito do carpete, e fileiras de árvores eram colocadas de cada lado, suspensas com lâmpadas. Esse arvoredo imitativo era tão exoticamente administrado, que o espectador escassamente poderia acreditá-lo artificial; e a música para danças procedia a partir das suas folhas, ou a partir de pássaros autômatos posicionados descuidadamente em meios aos seus galhos.

Os vestidos da Rainha e das suas acompanhantes eram dignos do apartamento que elas ocupavam. [258]Sedas brocadas, roupas de ouro, veludos bordados, tecidos de ouro e prata, e redes transparentes feitas da teia de aranha, eram misturados com pedras preciosas e plumagens soberbas de penas em uma profusão bastante além de descrição. Os mais belos dos trajes femininos eram túnicas feitas de amianto entrelaçado, o qual cintilava à luz brilhante como prata derretida. As damas estavam todas arrumadas em calças frouxas, sobre as quais pendia roupagem em dobras graciosas; e a maioria delas carregava em suas cabeças fluxos de gás acesso, forçado por tubos capilares, em plumas, flores-de-lis, ou, em resumo, em qualquer forma que o usuário desejasse; os jets de feu dos quais tinham um efeito incomumente casto e elegante. Os cavalheiros estavam todos vestidos no estilo espanhol, com mangas cortadas, mantos curtos e grandes chapéus, ornamentados com plumagens imensas de penas avestruz, sendo considerado naqueles dias extremamente vulgar aparecer com a cabeça descoberta. Talvez seria difícil imaginar modelos mais perfeitos de beleza masculina e feminina do que aqueles que agora adornavam [259]a Corte da Rainha Claudia, pois a beau ideal da fantasia do pintor parecia realizado, ou melhor, superado, pelas figuras nobres ali reunidas. As mulheres eram particularmente amáveis, e, enquanto elas permaneciam reunidas em torno de sua Rainha, ou caminhavam levemente nos labirintos de dança graciosa, vestidas como acima descritas, suas sobrancelhas contidas com diademas de pedras preciosas, e seus cabelos lustrosos pendendo em ricos cachos luxuriantes sobre seus ombros ebúrneos, elas pareciam um grupo de Houris, ou as ninfas de Circe, prontas com olhos brilhantes e vozes sedutoras para atrair homens para a destruição.

Claudia era muito linda, e, embora o semblante dela carece de expressão, a sua figura nobre e autoridade majestosa qualificavam-na bem para desempenhar a seu papel como Rainha entre esse grupo de belezas, com dignidade apropriada. Há alguma coisa no hábito de comando, quando ele tem sido desfrutado há muito tempo, que concede uma majestade imponente à maneira, a qual o novo-rico esforçasse muito em vão para imitar; e Claudia tinha isso à perfeição. A consciência de beleza, poder e alto [260]nascimento crescida no peito dela; e mesmo quando ela desejava ser afável, ela era apenas condescendente.

Contudo, ela agora recebia o senhor Ambrose muito graciosamente; ela deu-lhe sua mão nívea e endereçou-lhe umas poucas palavras de comprimento, as quais mergulharam profundamente no coração dele. É um dos privilégios da grandeza excitar facilmente a emoção; uma palavra de elogio daqueles acima de nós pesa muito mais do que toda lisonja laborada dos nossos inferiores. Dessa forma, as palavras de Claudia, e o elogio caloroso que ela concedeu a Edmund, concederam o mais puro arrebatamento ao coração do pai dele; e afetaram-lhe tão violentamente que ele teria caído aos pés dele, não tivesse ele sido amparado pelo padre Morris, quem se erguia perto dele.

Eu deixo-o em mãos excelentes, senhor Ambrose,” disse Claudia sorrindo; “Eu tenho conhecido o padre Morris desde o meu berço, e estimo-o como um dos meus amigos mais queridos e melhores.”

Falando dessa maneira, a Rainha passou, enquanto o padre Morris, com lábios pálidos e membros trêmulos, conduziu o baronete até um sofá, sob [261]a sombra das árvores harmoniosas antes mencionadas. A agitação do sacerdote era tão marcada e tão incomum, que, a despeito da indisposição do senhor Ambrose, ele não pode evitar de notar.

Deus do céu! Qual é o problema com você, padre Morris?” exclamou o baronete. “Eu-eu-eu acredito que estou doente,” gaguejou o sacerdote, apressando-se para buscar um copo de água. Pelo momento em que ele retornou, todos os traços de agitação tinham desaparecido do seu semblante; e a mente do senhor Ambrose estava ocupada demais com o pensamento sobre Edmund para o tolerar demorar-se muito sobre a circunstância.

O dia seguinte estava determinado para a entrada triunfal de lorde Edmund, e a grande parte da noite antecedendo-o foi passada pelo senhor Ambrose na maior agitação. Ele não conseguiu dormir; e ele levantou-se várias vezes da cama, em ansiedade excessiva, para escutar a repetição de barulhos que ele fantasiava que ouvia: uma vez ele abriu sua janela – tudo estava quieto. O seu aposento abria-se para dentro do jardim do palácio, o qual, como nós já [262]mencionamos descia em terraços até o Tâmisa, e a calma luz da lua dormia pacificamente sobre as altas árvores espessas, e o gramado verdejante que se espalhava sob ele. A briza da noite era sentida fria e refrescante; mas o senhor Ambrose suspirava, e um medo estranho de alguma coisa que ele não conseguia definir inteiramente pendia sobre ele.

Ele novamente se retirou para a cama, e, finalmente, afundou-se em uma experiência febril e inquieta. Na aurora, um trovejar de canhão anunciou a chegada do dia importante. O senhor Ambrose saltou do seu travesseiro à primeiro detonação, e o som solene vibrava através de cada nervo enquanto ele ressoava adiante no céu. Escassamente tinha os seus ecos morrido sobre o ouvido, quando outro, e outro, estrondo sucedeu; e o coração do senhor Ambrose latejava em seu peito quase ao sufocamento, enquanto ele sentava-se, descansando a cabeça sobre as mãos, e esforçando-se, embora inefetivamente, para proteger seus ouvidos do som solene, o qual parecia absorver cada faculdade e atingir quase com a força de um golpe os nervos dele.

Enquanto ele ainda estava nessa posição, o padre [263]Morris entrou na sala. - “Venha, venha, senhor Ambrose!” exclamou ele, “você não está pronto? A Rainha convocou-nos, e a procissão está quase pronta para sair.” - O senhor Ambrose pulou: ele tentou vestir-se, mas suas mãos trêmulas recusaram-se a desempenhar a tarefa, e o padre Morris e Aberlard foram obrigados a vesti-lo, e conduzi-lo para baixo para se juntar a seu amigo, o duque, quem estava esperando impacientemente.

Frequentemente se diz que a antecipação do prazer é sempre maior do que a realidade: contudo, esse não era o caso na situação presente, visto que o brilho do triunfo de lorde Edmund era muito maior até do que as imaginações dos espectadores tinham antes se atrevido a conceber. O duque e o senhor Ambrose, acompanhados pelo padre Morris, encontraram os indivíduos que deviam compor a procisão da Rainha nos extensos jardins pertencentes ao soberbo palácio de Somerset House. Esses belos jardins, espalhando seus avoredos ao longo dos bancos de areia do rio, adornados por todos os encantos da natureza e arte, e enriquecidos pelos exemplares mais belos de [264]escultura no mundo, agora estavam lotados com toda beleza e classe social da Inglaterra, quem, esperando pela chegada da sua Soberana, formavam um ensemble que nenhuma outra nação do mundo poderia esperar imitar.

Na via central, apareceu o soberbo cavalo de batalha árabe da Rainha, conduzido por seus cavalariços e magnificamente equipado. A rédea dele estava ornamentada com pedras preciosas, e seus cascos cobertos com ouro; enquanto sua cela de cetim azul e cobertas eram ricamente bordadas e margeadas com o mesmo metal. O nobre animal, cuja crina flutuante e a cauda variam o chão, marchava orgulhosamente adiante, lançando sua cabeça alto e repelindo desdenhosamente o chão sobre o qual ele pisava, como se consciente de que ele deveria desempenhar um papel conspícuo no grandioso espetáculo público prestes a ocorrer. Tudo estava pronto agora, mas ainda a Rainha Claudia não aparecia.

É muito estranho, mas ultimamente é sempre assim,” disse o lorde Maysworth para o lorde Gustavus de Montfort, quem tinha estado um pouco engajado em conversação séria com o padre Morris. Lorde Gustavus sobressaltou-se diante do som da [265]voz do seu amigo em confusão um pouco aparente, ao passo que o padre Morris respondeu em seus tons suaves, insinuadores, “Talvez sua majestade possa estar indisposta, e pode ter dormido muito mais do que o usual.”

Muito provavelmente,” retornou o lorde Maysworth; “contudo, é estranho que a mesma coisa deveria acontecer tão frequentemente. - Se você lembrar,” continuou ele, novamente se dirigindo a lorde Gustavus, “eu fiz a mesma observação durante a manhã da última reunião de visitantes com ela. De fato, eu frequentemente tenho feito-a ultimamente, e eu tenho observado que ela parece pálida e lânguida.”

Aqui vem ela, de qualquer maneira! E de minha parte, eu nunca a vi parecer melhor,” disse o dr. Hardman, quem agora se juntava a eles, e quem, a despeito da sua política violenta, era um dos médicos da Corte. A indolência de Claudia, a qual, de fato, parecia crescendo diariamente, tendo induzido ela a menosprezar o que outra Soberana teria ressentido.

De fato, Claudia parecia bem, e o vestido dela ajustava-se bem com o seu estilo de beleza. Suas [266]calças e veste era de um cetim azul pálido; enquanto sobre os ombros dela estava jogada uma longa roupagem flutuante de seda de amianto, a qual, pendendo com dobras graciosas, varia o chão enquanto ela caminhava adiante, brilhando ao sol como um manto de prata entrelaçada. Em sua cabeça, ela usava uma esplêndida tiara de diamantes; e na mão dela, ela portava um cetro régio, encimando por um pombo e ricamente ornamentado com pedras preciosas. Dessa maneira lindamente trajada, rodeada pelas damas da sua casa, ela surgiu do seu palácio; e enquanto seus súditos ajoelhavam-se em homenagem humilde em torno dela, ela montou em seu nobre cavalo de batalha. Canhões foram disparados em sucessão rápida; os sinos de cada igreja ressoaram em repiques alegre, e música marcial misturou-se com o clamor. Os portões do palácio foram abertos, e a procissão fluiu a partir deles ao longo das ruas, onde multidões de pessoas agitavam-se para lá e para cá, ansiosas para capturarem um vislumbre do espetáculo suntuoso.

Primeiro avançou uma linha dupla de monges, arrumados em pompa sacerdotal, e portando velas acessas imensamente grossas em suas mãos, [267]cantando ações de graças pela vitória. Eles eram seguidos por meninos-coristas, exalando incenso a partir de vasos de prata, os quais pendiam suspensos por correntes de suas mãos, e também cantando; seus agudos misturando-se com as profundas vozes baixas dos sacerdotes em harmonia rica e madura. A Rainha apareceu em seguida, o seu empinante cavalo de batalha conduzido por cavalariços, enquanto lindas garotas, elegantemente trajadas, caminhavam de cada lado da sua Soberana, espalhando flores em seu caminho de cestos extravagantes feitos de ouro trabalhado. Atrás da Rainha, cavalgavam as damas da sua casa e os principais nobres da sua Corte, as plumagens soberbas de penas de avestruz nos grandes chapéus espanhóis dos últimos, com seus bigodes imensos, e golas de camisas abertas, concedendo-lhe o ar de algumas das melhores pinturas de Vandyck. Enquanto eles cavalgavam lentamente adiante, os seus nobres cavalos árabes marchavam orgulhosamente, e mordiam o freio, impacientes com a restrição.

As damas da corte, soberbamente vestidas, surgiram em seguida, em liteiras abertas trazidas sobre os ombros de homens esplendidamente trajados em ricos librés. Entre essas estavam Elvira e Rosabella.

[268]Essas foram seguidas por monges e meninos, como antes, mas cantando um tema um pouco diferente. Agora era um cântico de glória e triunfo que crescia sobre o ar, pois esses precediam ao duque e ao senhor Ambrose; quem, um, como o tio da Rainha, e o outro, como pai do herói esperado, ocupavam os postos de honra. Os dois homens veneráveis sentavam-se de mãos dadas em uma carruagem suntuosa puxada por dois cavalos árabes, e eram seguidos por um grande corpo dos guardas da Rainha.

A suntuosidade e variedade dos vestidos usados neste dia estavam bem além de descrição. Muitas das damas tinha turbantes de vidro entrelaçado; enquanto outras levavam sem seus chapéus fontes muito belas feitas de pó de vidro, o qual, lançando em pequenos jatos por uma roda de movimento perpétuo, brilhava ao sol como água real, e tinha um efeito muito singular.

Dessa maneira a procissão avançou na direção da Praça Blackheath, dita ser a maior e mais bela do mundo, onde o encontro entre a Rainha e o seu general estava marcado para acontecer. Entre os inúmeros [269]balões que flutuavam no ar, desfrutando deste espetáculo magnífico, havia um contendo o padre Morris, Clara, a sra. Russel e Abelard – a juventude de Clara impedindo que ela se juntasse à procissão – e nada poderia ser mais entusiasmado do que o deleite deles, enquanto eles olhavam para baixo sobre essa cena esplêndida debaixo deles. De fato, poucas coisas poderiam ser imaginadas mais belas do que a visão desse cortejo lindo, serpenteando lentamente ao longo da rua magnífica, suposta ser de um comprimento de cinco milhas, levando da Ponte Blackfriar, através de Greenwich, até Blackheath.

Fileiras suntuosas de casas, ou antes palácios, alinhavam-se dos lados dessa rua soberba; os terraços e varandas diante dos quais estavam amontoados com pessoas de todas as idades, lindamente trajadas, ondulando bandeiras de cores diferentes, ricamente bordadas e orladas com ouro, enquanto festões das flores cuidadosamente escolhidas pendiam de casa para casa. Nós já tínhamos dito que o ar estava amontoado com balões, e a multidão aumentava a cada momento. Essas máquinas aéreas, carregadas com espectadores até que eles estavam no risco de quebrar, cintilavam ao sol, [270]e apresentavam cada variedade possível de forma e cor. De fato, cada balão em Londres ou proximidade tinha sido colocado em requisição, e somas enormes pagas, em alguns casos, meramente pelo privilégio de se segurar nas cordas ligadas aos cestos, enquanto que as multidões inumeráveis que dessa maneira carregavam o ar, entretinham-se espalhando flores sobre as cabeças daqueles que cavalgavam abaixo.

Além de balões, uma variedade de outros modos de transporte flutuava no céu. Alguns dândi cavalgavam cavalos aéreos, inflados com gás inflamável; enquanto outros flutuavam sobre asas, ou deslizavam gentilmente adiante, reclinando-se graciosamente sobre trenós aéreos, o último sendo maquinado de maneira a cobrir uma coluna suficiente de ar para o suporte deles. Quando a procisão se aproximou do rio, a cena tornou-se ainda mais animada; inumeráveis barcos de todo tipo e descrição disparavam velozmente adiante, ou deslizavam suavemente sobre a água espumante. Alguns flutuavam com a maré em grandes calçados semelhantes a barcos; enquanto outros, reclinando-se sobre carros semelhantes a divãs, [271]formados de madrepérola, eram puxadas para frente por figuras infladas representando divindades ou monstros da profundeza.

Quando a Rainha alcançou um ponto perto de Greenwich, onde, através de uma abertura espaçoso, o rio, em toda a sua majestade gloriosa, estourou sobre ela, ela parou e ordenou aos seus trompetistas avançarem e soarem um floreado musical. Eles obedeceram, e, após uma breve pausa, foram respondidos por aqueles de lorde Edmund; o som, suavizado pela distância, ressoando ao longo da água em harmonia doce. Deleitada com essa resposta, a qual anunciava a chegada de lorde Edmund e suas tropas no local marcado, a procissão da Rainha novamente se colocou em movimento, e, em um breve tempo, chegou à Blackheath.

A praça nobre na qual o encontro devia ocorrer já estava lotada de soldados; enquanto cada casa que a rodeava estava coberta com espectadores. Nenhuma árvore ou ornamento fantástico estragava a grandeza simples do espaço imenso; as casas que a circundavam, construídas em uniformidade exata, cada uma [272]tendo um peristilo sustentado por pilares coríntios, e uma fachada altamente decorada, pareciam tantos templos atenienses. Enquanto o cortejo da Rainha entrava na praça, os soldados formavam uma abertura para o receber, reverentemente se ajoelhando de cada lado, com braços invertidos, e curvando estandartes enquanto ela passava. No centro estava lorde Edmund, cercado pelo seu pessoal, todos em armadura polida; pois desde que uma invenção foi descoberta de tornar o aço perfeitamente flexível, ele geralmente tinha sido usado em guerra. O capacete de lorde Edmund foi retirado, e o seu belo semblante foi exibido para a maior vantagem, enquanto ele e seus oficiais saltaram de seus cavalos de guerra para se ajoelharem diante da Rainha. Também Claudia desceu do seu cavalo de batalha e, enquanto ela estava de pé em sua vestimenta cintilante, rodeada por todos os lados por seus súditos ajoelhados, ela de fato parecia a Soberana deles. Com dignidade apropriada, ela dirigiu umas poucas palavras de agradecimento e elogio a lorde Edmund; cuja figura graciosa foi revelada à vantagem máxima, enquanto ele ajoelhava-se diante dela, seu cabelo grosso, escuro, castanho caindo curvas amontoadas [273]sobre a sua testa nobre; e a sua forma elegante trajada em uma vestimenta de armadura estritamente ajustada, sobre a qual, na ocasião presente, estava jogado um curto manto de belo tecido carmesim, ricamente bordado com ouro, e amarrado na frente por uma corda e borlas soberbas, feitas inteiramente do mesmo metal. Em resumo, ele parecia uma personificação viva do Deus da Guerra.

A Rainha ergueu-o do solo da maneira mais graciosa; e então, voltando-se para os soldados ainda ajoelhando-se, ela fez um breve discurso para eles, da mesma natureza que aquele que ela tinha endereçado a lorde Edmund, após o que, montando novamente em seu palafrém, ela fez lorde Edmund cavalgar ao seu lado, e preparou para retornar à cidade. O olho rápido de Edmund tinha descoberto, e trocado olhares de afeição com, seu pai e amigos, embora a etiqueta de sua situação presente não permitiria que ele fizesse mais; e ele agora cavalgava orgulhosamente ao lado da Rainha, graciosamente curvando-se para a multidão reunida enquanto ele passava, o coração dele batendo com prazer diante do pensamento de que o triunfo dele foi testemunhado por aqueles mais [274]queridos por ele; enquanto seu nobre cavalo árabe empinando-se adiante, jogava sua cabeça e mordia seu bocado como se ele também soubesse o papel que ele estava desempenhando na esplêndida cerimônia.

Aclamações rasgavam o céu enquanto a procissão avançavam, e banhos de rosas caiam sob a Rainha e o seu General dos balões acima; a partir dos quais também bandeiras agitadas em dobras graciosas, e agitadas ao vento, enquanto os balões flutuavam adiante no céu. Cada um parecia deleitado com a grandeza deste esplêndido espetáculo público; mas ninguém experienciou mais prazer do que Clara Montagu e seus companheiros; os arrebatamentos da sra. Russel sendo tão excessivos, que, como os espectadores da caça ao veado no lago de Killarney, ela estava em perigo iminente de se jogar pela borda fora em seu êxtase; enquanto Clara batia palmas em todos os arrebatamentos de deleite infantil, seu olhos brilhantes e aparência animada testemunhando amplamente a sua satisfação.

Que gritaria! Que barulho!” exclamou Abelard; “Eu declaro que isso me lembra das [275]aclamações no tempo de Nero, quando os romanos gritavam em concerto, e os pássaros caíam dos céus com o barulho!”

Quão bem a Rainha parece!” observou a sr. Russel. “Dizia-se há pouco tempo que ela tinha perdido seu apetite e não conseguia descansar; mas eu penso que ela não parece ter muito problema agora.”

Evelina diz que ela está sendo envenenada,” exclamou Clara, “e que as pessoas dizem que não seria grande problema se ela estivesse, pois então eles teriam de escolher uma Rainha por si mesmos, e eles poderiam estabelecer os termos que eles quisessem com ela.”

Uma pausa incômoda seguiu-se a esse discurso, a qual ninguém parecia inclinado a quebrar, até que Clara exclamou, “Céus! Que lindo cavalo meu primo Edmund cavalga!”

Eu acho que é um mais belo que vem depois dele,” disse o padre Morris.

O que, aquele com sua cabeça pendendo baixo e a sua crina varrendo o chão?” perguntou a sra. Russel.

Sim. - E estou certo, é um rapaz muito belo [276]que caminha ao lado dele; assim como ele é,” respondeu o padre Murphy.

As mãos dele estão acorrentadas, assim você vê que ele é um prisioneiro;” observou Abelard.

Certamente, e é um costume bárbaro esse de colocar correntes em torno das mãos dos prisioneiros,” disse o padre Murphy, “como se não fosse suficientemente ruim ser um prisioneiro sem parecer um.”

Pobre rapaz!” exclamou Clara, “Eu deveria gostar de ir e libertá-lo. Ele parece muito melancólico!”

Quão grandioso lorde Edmund parece!” exclamou a sr. Russel: “Eu declaro que se esse fosse um rei real ele não poderia ter uma aparência mais grandiosa. E em seguida ver o pobre velho cavalheiro pai dele, sentado ali de mãos dadas com meu mestre. Eu declaro que faz bem ao meu coração olhar para eles!”

Enquanto os ocupantes dos balões estavam desfrutando dessa maneira a cena debaixo deles, o prazer dos personagens exaltados que eles admiravam não tinha sido inferior aos deles mesmos. O duque, em particular, parecia quase fora [277]de si com alegria. A impaciência dele durante a inteira procissão a partir de Londres tinha sido excessiva; e no momento em que ele viu Edmund, ele esfregou as mãos em êxtase, e saltando do seu assento, quase derrubou o sr. Ambrose, quem também estava inclinando-se para frente, ansiosamente observando seu filho.

Ali! Ali está ele!” exclamou o duque. “Veja quão belo ele parece! Oh, o jovem maroto! Haverão muitos corações perdidos hoje, eu garanto-me! Olhe para ele, como a cor surge nas suas bochechas quando a Rainha fala com ele. Agora ele a ajuda no cavalo dela – e agora veja, ele está olhando em volta em nossa busca! Ali, eu chamei a atenção dele – Olhe, senhor Ambrose! Você não o vê? - Certamente você não está chorando, meu velho amigo? Porque você me fará um tolo tão grande quanto você mesmo – Deus o abençoe! Eu estou certo de que não conhece nada que nós tenhamos porque chorar; mas nós somos dois velhos tolos.”

Padre Morris, quem tinha se juntado à procissão de monges, estava quase tão afetado quanto o seu patrão. De fato, a afeição dele por Edmund parecia a única paixão humana restante em [278]seu peito ascético. Frio até a frigidez em seu exterior, o padre Morris parecia considerar as cenas passando-se ao redor dele como apenas as figuras moventes de uma lanterna mágica, as quais cintilavam por um momento em cores brilhantes, e, em seguida, desapareciam na escuridão, não deixando traço para trás: - enquanto que ele, imóvel como a parede sobre a qual o cortejo suntuoso, espalhafatoso mas sombrio, tinha passado, via-as desaparecer e reaparecer sem a mais leve emoção sendo excitada na mente dele. Contudo, sob sua aparência semelhante a uma estátua, o padre Morris ocultava paixões tão terríveis quanto aquelas que se supunham pulsar no peito de um demônio: embora o autodomínio dele nunca parecesse relaxado por um momento, exceto quando os interesses de Edmund estavam em questão. Na ocasião presente, a alegria cresceu no peito dele quase à sufocação, enquanto ele erguia os olhos para o Céu, e, apertando as mãos, exclamava, “Oh! É demais – demais!”

Há alguma coisa indescritivelmente comovente ao ver emoção forte expressa por aqueles que são geralmente calmos e impassíveis; dessa maneira, [279]o senhor Ambrose, por quem esta irrupção de sentimento era bastante inesperada, encarava o confessor com a máxima surpresa, e estranho dizer, embora ele tivesse o conhecido quase por vinte anos, era a primeira vez que ele tinha visto a cabeça dele completamente descoberta. O capuz do padre Morris agora tinha caído inteiramente, e exibia a cabeça de um homem entre quarenta e cinquenta anos, cujas características finas portavam traços do que ele tinha suportado. A sua nobre testa expressiva parecia enrugada mais por preocupação do que idade, e seus cachos negros evidentemente tinham se tornado “grisalhos aqui e ali,” prematuramente. O senhor Ambrose encarou-o atentamente, pois a expressão peculiar de suas características parecia lembrar alguma circunstância meio esquecida para sua mente, sombriamente escurecida, contudo, pela névoa do tempo. A seriedade com a qual ele considerava o monge, pareceu, por fim, lembrar a sua recente imprudência. Ele saltou, e, enquanto um profundo carmesim corava o seu semblante usualmente pálido, ele retomou rapidamente o seu capuz, e novamente apareceu para os olhos dos espectadores, o mesmo ser frio, impassível, abstraído que antes.

[280]A ovação agora tinha quase alcançado a ponte Blackfriars, na entrada da qual, um arco triunfal tinha sido erigido. No momento em que a Rainha e o seu heroico general passavam sob ele, uma pequena figura de Fama foi maquinada para descer a partir do entablamento, e, pairando sobre o herói, deixar cair uma coroa de louros sobre a cabeça dele. Rodadas de aplausos seguiram-se a esse artifício bem executado; e os passageiros nos balões, maravilhando-se diante do barulho, todos pressionaram adiante para determinar a causa de semelhantes aclamações contínuas. Dessa maneira, a multidão de balões tornou-se a cada instante mais densa, enquanto que alguns dos jovens aprendizes da cidade, tendo contratado cada um um par de asas para o dia, e não exatamente sabendo como as manejar, um tumulto terrível seguiu-se; e os balões tornaram-se emaranhados com os heróis alados e uns com os outros em confusão inextricável.

O barulho agora se tornou tremendo; os condutores de balões xingando as mais refinadas imprecações uns para os outros, e as damas gritando em concerto. Vários balões foram rasgados no tumulto com força tremenda sobre a [281]terra; enquanto alguns cestos foram rasgados das suas cordas de suporte, e outros grosseiramente derrubados. Contudo, afortunadamente, por essa época, toda Inglaterra estava tão completamente escavada que cair sobre a superfície da era como tombar sobre a membrana de um tambor imenso, e, consequentemente, apenas um profundo som oco era retornado enquanto carga após carga dos balões demolidos impactavam sobre ela; embora alguns deles ricocheteassem várias jardas com a violência do choque.

Entre aqueles que caíram a partir da maior altura, e, é claro, que ricocheteavam mais violentamente, estavam os indivíduos infelizes que acompanhavam Clara, um aprendiz infeliz tendo empurrado o seu braço direito através da seda do balão deles, na tentativa de evitar a carga de um cavaleiro aéreo, quem descobriu sua montaria eólia difícil demais de manejar na confusão. Consequentemente, o cesto contendo nossos amigos foi precipitado para a terra tão rapidamente quanto a, pelo momento, privá-los de respiração.

Certamente, e eu estou inteiramente morto!” exclamou o padre Murphy.

[282]“Oh, meu gorro! Meu belo gorro!” Soluçou a sra. Russel; enquanto Clara, terrivelmente assustada, começou a chorar; e Abelard, cujas ideias geralmente ficavam um longo tempo viajando para o seu cérebro, particularmente em consequência de ocasiões de alarme súbito, permaneceu completamente silente, estupidamente encarando em torno de si mesmo, como se ele não tivesse a mínima noção do que possivelmente poderia ter ocorrido. De fato, não foi até uma hora depois que ele se encontrou suficientemente recuperado para exclamar, “Céus! Eu penso que nós devíamos estar muito perto de sermos mortos!”

A confusão no ar ainda continuava; gritos penetrantes de que demônios estavam entre eles, horrivelmente misturados com a colisão de balões, os gritos dos sofredores, e a queda sucessiva de pesos pesados. Contudo, a situação da multidão abaixo era infinitamente pior do aquela daqueles acima. O impulso dos corpos cadentes sendo furiosamente intensificado pela distância que eles tinham de descer, aqueles abaixo não tiveram chance de escapar, e foram invariavelmente esmagados à morte pelo peso, enquanto os gritos penetrantes e agonizantes dos miseráveis [283]infelizes que viam o seu perigo chegando a uma distância, contudo, estavam tão apertados juntos na multidão que eles não puderam voar, pendiam estridentemente sobre o ouvido e perfuravam através de cada coração.

Nesse momento, um grito terrível correu através da multidão, e o cavalo da Rainha Claudia, sua rédea quebrada, seus tecidos de cela rasgados, suas narinas distendidas, e seus lados fluindo com sangue, passou apressado – “Oh Deus! A Rainha! A Rainha!” irrompeu de cada voz, e uma inquietação geral ocorreu na direção do ponto a partir do qual o grito tinha precedido.

Sob o arco triunfal, e parcialmente abrigado pela sombra dele, jazia o corpo ensanguentado de Claudia, suportado por Edmund. Ao lado dela, ajoelhou-se Rosabella, quem, auxiliada pelo padre Morris, estava aplicando tônicos; enquanto Henry Seymour estava tentando restaurar Elvira, quem tinha desmaiado em seus braços, e o senhor Ambrose, o rosto dele fluindo com sangue, permanecia a uma pequena distância, em meio a grupo de cortesões, vários dos quais também tinham experienciado machucados sérios. O tumulto no ar ainda continuava; gemidos e gritos penetrantes e exclamações, de modo que a [284]atmosfera ficou sobrenaturalmente assombrada, foram ouvidos em muitos lugares; e algumas pessoas declaravam o acidente ser a obra de demônios. Uma corrente de ar tinha soprado aqueles balões que tinham se tornado ingovernáveis através da cidade, enquanto os outros, seus ocupantes, terrificados quase à loucura, pareciam ainda lutarem com algum monstro terrível no céu.

Contudo, os cortesões não prestarão atenção a esse distúrbio; pois toda a atenção deles estava ocupada pela Rainha aparentemente moribunda, cujos suspiros prolongados e peito convulsionado pareciam ameaçar a sua dissolução instantânea.

Ela está morta!” Gritou o lorde Gustavus de Montfort, enquanto o peito dela subia e descia com um suspiro fundo, pesado, e então tudo ficou parado.

Sim, ela morreu!” repetiu o lorde Noodle.

Ela certamente está morta!” reiterou o lorde Doodle.

E então aqueles sábios conselheiros da Rainha aparentemente falecida sacudiram suas sábias cabeças em simpatia.

Silêncio! Ela respira!” exclamou lorde Edmund.

[285]Por alguns momentos, os cortesões permanecerem em ansiedade sem fôlego observando o corpo, e temendo moverem-se para que eles não devessem quebrar o silêncio terrível que prevalecia, embora os corações deles latejassem até que suas pulsações eram quase audíveis.

Terrível foi a pausa que agora se seguiu! Todos estavam sofrendo dos tormentos da esperança e do medo; pois todos sabiam que os interesses da comunidade inteira pendiam sobre a respiração dela. A maioria dos cortesões ou tinha esperança de obter posições, ou temia perdê-las, enquanto que todos tremiam diante da incerteza que parecia descansar sobre o destino futuro deles, e a possibilidade de anarquia que o modo proposto de eleger sua Soberana futura poderia criar. O interesse que o destino da Rainha excitava era intenso dessa maneira, e os cortesões pendiam sobre o corpo dela olhos lacrimejando e membros imóveis para observar o resultado.

Nesse instante, um grito terrível e tremendo correu através do ar; e o cesto contendo a múmia, o qual tinha estado por algum tempo emaranhado com os outros balões, caiu [286]no chão com força tremenda, perto da Rainha que moribunda. A figura gigante de Quéops saltou dele enquanto ele caiu – seus olhos medonhos ofuscantes com brilho não natural sobre os cortesões terrificados, quem correram gritando de agonia em todas as direções, esquecendo-se de tudo exceto da visão horrível diante deles.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.256-286. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n270/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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