A Floresta além do Mundo - Capítulo II Golden Walter toma um Navio para singrar os Mares

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[6]Quando Walter desceu ao Katherine na próxima manhã, lá estava o capitão Geoffrey, que lhe fez reverência, e atendeu-lhe todas as disposições. Mostrou-lhe o seu quarto a bordo do navio, e os bens abundantes que seu pai já tinha enviado para o cais, uma pressa tal como ele tinha feito. Walter agradeceu o amor de seu pai em seu coração, mas de outro modo prestou pouca atenção a seus negócios. Gastou o tempo junto ao porto, olhando apaticamente para os navios que estavam sendo aprontadas para partir, ou desembarcando, e os marinheiros e estrangeiros vindo e indo. Tudo isso era para ele tão curioso quanto imagens tecidas numa tapeçaria.

Finalmente quando ele tinha quase retornado novamente ao Katherine, ele viu ali uma alta embarcação, a qual ele escassamente tinha notado antes. Uma embarcação toda preparada, que tinha seus botes lançados e [7]homens sentados [próximo] aos remos, daí preparados para rebocá-la para fora, quando o boça devesse ser solto. Parecia que seus marinheiros estavam somente esperando um ou outro para vir a bordo.

Então Walter ficou de braços cruzados observando a dita embarcação, e enquanto ele olhava, oh! Pessoas passaram por ele em direção ao passadiço. Esses eram três; primeiro veio um anão, de cor morena escura e horrível, com braços longos, orelhas excessivamente grandes e dentes de cachorro que espetavam para fora como as pressas de uma besta selvagem. Ele estava envolto em um rico casaco de seda amarela, carregava em sua mão um arco curvo e trazia no cinto um amplo machado.

Depois dele veio uma donzela, de aparência jovem, de escassos vinte verões; bela de face como uma flor. De olhos verdes, cabelos castanhos, com lábios cheios e vermelhos, elegante e gentil de corpo. Simples era sua vestimenta, um vestido verde curto e reto; de modo que nela o tornozelo direito estava desembaraçado para se ver um anel de ferro.

Último dos três era uma dama, alta e majestosa, tão radiante de aspecto e gloriosa de vestimenta que era difícil dizer como ela era; pois escassamente podia o olho olhar firmemente para sua beleza excessiva. Porem é necessário que cada filho de Adão, que se encontre perto dela, [8]erga novamente seus olhos, depois de tê-los deixado cair, e olhe novamente para ela e mais uma vez e mais uma vez. Assim mesmo fez Walter, e os três passaram por ele. Pareceu a ele como se toda as outras pessoas ali ao redor tivessem desaparecido e nada fossem. Nem teve ele nenhuma visão diante de seus olhos de alguém vendo-os, salvo ele mesmo sozinho. Eles passaram por cima do passadiço e foram para dentro do navio e ele viu-os acompanhando o convés até que eles chegaram à casa na popa, entraram nela e desapareceram de sua vista.

Ali ele ficou olhando, até que pouco a pouco a multidão do caís ocupou-lhe novamente a visão; então ele viu como o boça foi solto e os botes caíram para rebocar a grande embarcação em direção à embocadura do porto, com o vigor e o modo de fazer dos homens. Então a vela caiu da verga e foi precisamente esticada e enchida com bom vento enquanto a proa do navio corria ao encontro da primeira onda ingênua fora do porto. Ainda após o que os tripulantes desfraldaram uma bandeira na qual estava estampado, em um campo verde, um lobo assustador ameaçando uma donzela, e assim o navio seguiu em seu caminho.

Walter permaneceu encarando por algum tempo o lugar vazio [deixado pela embarcação], onde as ondas colidiam com a entrada [9]do porto, e então viram de lado e na direção do Katherine. Primeiramente ele estava inclinado a ir perguntar ao capitão Geoffrey sobre o que ele sabia a respeito do dito navio e de seus viajantes estrangeiros; mas então ocorreu-lhe a mente, que tudo aquilo foi somente uma imaginação ou um sonho do dia, e que era melhor deixá-lo não revelado para qualquer um. Então com isso ele seguiu seu caminho a partir da beira mar, e através das ruas até a casa de seu pai. Mas quando estava somente um pouco longe daí, e a porta estava diante dele, pareceu-lhe por um instante que ele contemplava aqueles três descendo os degraus de pedra e adentrando a rua; a saber o anão, a donzela, e a senhora majestosa. Mas quando ele ficou parado para aguardar-lhes a chegada e olhar em direção a eles, Oh! Não havia nada diante dele salvo a grande casa de Bartholomew Golden, e três crianças e um cão vira-lata brincando ao redor dos degraus dali. Ao redor dele haviam quatro ou cinco transeuntes indo para seus negócios. Então ele estava inteiramente confuso em sua mente, e ele não sabia o que fazer disso; se aqueles que ele parecia ter visto passar a bordo do navio eram somente imagens de um sonho, ou filhos de Adão em carne mesma.

De qualquer maneira, ele entrou na casa, e [10]encontrou seu pai no gabinete e parou para falar com ele sobre seus assuntos. Mas por tudo que ele amasse em seu pai e adorasse-o como um homem sábio e valente, ainda assim naquela hora ele não podia escutar as palavras da boca dele, tanto sua mente estava emaranhada com o pensamento daqueles três, como se eles estivessem sempre diante de seus olhos; como se eles tivessem sido pintados em uma mesa pelo melhor dos iluminadores. E sobre as duas mulheres em que ele pensava demasiadamente; ele não lançava nenhum tormento sobre si mesmo por correr atrás do desejo por uma mulher estranha. Pois ele dizia a si mesmo que não desejava qualquer uma das duas. Ou melhor, ele não podia dizer qual das duas, a donzela ou a rainha majestosa, era mais radiante a seus olhos; mas magoado ele desejava ver ambas novamente, e saber o que elas eram.

Assim consumiram-se as horas até a manhã de Quarta-feira, e era a hora em que ele deveria despedir-se de seu pai e embarcar no navio. Seu pai levou-o a baixo para o cais e para o Katherine, e lá Walter abraçou-o, não sem lágrimas e presságios, pois seu coração estava cheio. Então logo o ancião foi-se à terra; o passadiço foi desembarcado e os boças soltos. Os remos dos rebocadores chapinhados na água negra. A vela caiu do mastro e foi precisamente esticada, [11]empurrou o Katherine para fora, para dentro do mar nebuloso. Deslizava ao longo das costas cinzentas, com isso abandonando ao mar seu estandarte, no qual era açoitado o símbolo de Bartholomew Golden, a saber um B e um G, para a direita e a esquerda, e por cima uma cruz e um triângulo subindo desde o meio.

Walter permaneceu de pé sobre a popa e contemplou, ainda mais com sua mente do que com seus olhos; pois isso tudo parecia somente a cópia do que o outro navio havia feito. Disso ele pensou como se os dois fossem como miçangas amarradas em um fio e por ele conduzidos para fora, para o mesmo lugar e daí prosseguir em ordem semelhante e assim por diante, repetidamente, sem nunca aproximarem-se uma da outra.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.6-11. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/6/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A História da Planície Cintilante - Capítulo IV Agora Hallblithe toma [o rumo] do Mar

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[20]Agora deve ser relatado sobre Hallblithe. Ele cavalgou para baixo, ferozmente, para a costa do mar, e a partir do topo da praia ele olhou em volta, e ali abaixo dele estavam a Doca e as roldanas de seus parentes, na qual jaziam as três Dracar; a Gaivota, a Águia marinha e o Pigarço. Pesadas e imensas elas pareciam a ele como se jazessem ali, de lados negros, muito frias com a lavagem das ondas de Março, as cabeças de dragões delas olhando melancolicamente em direção ao mar. Mas primeiro ele olhou para o alto-mar, e foi somente quando ele deixou seus olhos retornarem de onde o céu e o mar encontravam-se, e eles não tinham contemplado nada além da quebra das águas, que ele contemplou a Doca de perto. Com isso ele viu onde, um pouco para o oeste dela, jazia um esquife, o qual a onda baixa da maré erguia e deixava cair de tempos em tempos. Ele tinha um mastro, e uma vela negra içada e agitando-se com frouxa escota. Um homem sentava-se no bote vestido em traje negro, e [21]o sol desferia um brilho a partir do elmo na cabeça dele. Então Hallblithe saltou de seu cavalo, e desceu a passos largos com sua lança no ombro; e quando ele chegou próximo do homem no bote ele equilibrou sua lança, sacudiu-a e clamou: “Homem, tu és amigo ou inimigo?”

Disse o homem: “Tu és um bom jovem, mas há tristeza em tua voz junto da ira. Não lances até que tu tenhas ouvido-me, e possas julgar se eu posso fazer qualquer coisa para curar tua tristeza.

O que tu podes fazer?” disse Hallblithe; “Não és tu um salteador do mar, um saqueador dos povos que residem em paz?”

O homem riu: “Sim,” disse ele, meu ofício é roubar e levar embora as filhas do povo, de modo que nós possamos ter um resgate por elas. Tu cobrirás as águas comigo?”

Hallblithe disse furiosamente:

Não, ao contrário, vem tu à terra aqui! Tu pareces um homem grande, e provavelmente deve ser bom com tuas mãos. Venha e lute comigo; e então aquele de nós que for derrotado, se ele não estiver morto, deve servir ao outro por um ano, e então tu é que deverás fazer meus negócios no [recebimento de] resgate.

O homem no barco riu novamente, e isso tão desdenhosamente que ele irritou Hallblithe além dos limites. Então ele levantou-se no bote e pôs-se de pé, balançando de lado a lado, enquanto ele [22]ria. Ele era extraordinariamente grande, de braço longo e de cabeça grande, e cabelo longo surgia debaixo de seu elmo como a cauda de um cavalo vermelho; os olhos dele eram cinza e brilhante, e a boca dele grande.

Daqui a pouco ele satisfez seu riso e disse: “Oh, Guerreiro do Corvo, isso foi um simples jogo para contigo brincar; embora isso não esteja distante de minha mente, pois [ao] lutar quando eu preciso [o] dever de vencer não é trabalho estúpido. Veja você, se eu matar-te ou vencer-te, então tudo está dito; e se por algum golpe de sorte tu assassinas-me, então teu único ajudante nesse assunto foi-se de ti. Agora para ser breve, eu convido-te para vir abordo comigo se tu desejas alguma vez ouvir outra palavra de tua donzela prometida. E ademais isso não necessita impedir-te de lutar comigo subsequentemente se tu tens uma mente para isso; pois logo nós devemos chegar a uma terra grande o suficiente para os dois ficarem de pé. Ou se tu desejas lutar num bote balançando sobre as ondas, eu não vejo senão que possa haver virilidade nisso também.

Agora foi o calor da ira que de algum modo fugiu de Hallblithe, nem se atreveria ele a perder qualquer chance de ouvir uma palavra de sua amada; então ele disse: Grandalhão, eu irei a bordo. Mas tu consideres isso: se tu tens em mente trair-me; pois os filhos do Corvo são duros de matar.

Bem,disse o grandalhão, Eu ouvi que menestréis deles são de muitas palavras, e penso que [23]eles tem histórias para contar. Venha a bordo e não tardes.Então Hallblithe caminhou em meio a arrebentação e levemente passou por cima da amurada do esquife e sentou-se. O grandalhão empurrou [o barco] para o mar e levantou a vela de retorno; mas havia somente pouco vento.

Então disse Hallblithe: “Desejas tu ter me a remar, pois eu não tenho conhecimento para que direção guiá-lo?”

Disse o camponês vermelho: Talvez tu não estejas com pressa, eu não estou: faça como tu desejares”. Então Hallblithe pegou os remos e remou poderosamente, enquanto o estrangeiro guiava, e eles foram rápida e levemente sobre o mar, e as ondas eram poucas.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.20-23. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/20/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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