A História da Planície Cintilante - Capítulo I Daqueles Três que vieram à Casa do Corvo

 [07]Foi dito que uma vez houve um jovem de parentesco livre e cujo o nome era Hallblithe: ele era justo, forte e experimentado em batalha; ele era da Casa do Corvo do tempo antigo.

Esse homem amava uma donzela extremamente bela chamada de Hostage, que era da casa da Rosa, em que era direito e devido que os homens do Corvo devessem casar.

Ela não o amava menos, e nenhum homem dentre os parentes negava-lhes o amor, e eles estavam para ser casados na noite do Solstício de Verão.

Mas em um dia do início da primavera, quando os dias ainda eram curtos e as noites longas, Hallblithe [08]sentou-se diante da varanda da casa alisando um bastão de cinzas para sua lança, e ele ouviu o som de cascos-de-cavalo aproximando-se, e ele olhou e viu pessoas cavalgando em direção à casa; e logo eles cavalgaram através do portão do pátio; e não havia nenhum homem apenas ele perto da casa, então ele levantou-se e foi encontrá-las, e ele viu que eles eram somente trés em companhia: eles tinham armas com eles, e seus cavalos eram dos melhores; mas ele não eram companhia para um homem temer; pois dois deles eram velhos e débeis, e o terceiro era sombrio e triste, e de aspecto curvado: parecia como se eles tivessem cavalgado de longe e rapidamente, pois as esporas estavam ensanguentadas e seus cavalos completamente suados.

Hallblithe saúdo-os gentilmente e disse: “Vós sois viajantes, e talvez vós tendes de cavalgar mais além; então descei [dos cavalos] e vinde para dentro da casa, e tomai [algo] para comer e [algo] para beber, e feno e milho para seus cavalos também; e então se vós necessitardes ter de cavalgar em seu caminho, partirdes quando vós estiverdes descansados; ou senão, se vós podeis, então permanecei aqui durante a noite, e ide em vossos caminhos amanhã, e enquanto isso o que é nosso deve ser de vocês, e tudo deverá ser livre para vocês.”

Então falou o mais velho dos anciãos numa voz alta e serena: “Jovem, nós agradecemos-te; mas apesar de [que] os dias de primavera estejam [09]crescendo, as horas das nossas vidas estão minguando; tampouco nós podemos esperar, a menos que tu possa verdadeiramente nos dizer que esta é a Terra da Planície Cintilante: e se assim for; então não tardes, conduze-nos a teu senhor, e talvez ele faça-nos contentes.

Falou aquele que de algum um pouco menos acometido de anos do que o primeiro: “Obrigado a ti! Mas nós precisamos de algo mais do que carne e bebida, quer dizer a Terra dos Homens Vivos. E Oh! Mas o tempo aperta.”

Falou o triste e pesaroso camponês: “Nós buscamos pela Terra onde os dias são muitos: tantos que aquele que se esqueceu de como rir, pode aprender o ofício novamente, e esquecer-se dos dias de Tristeza.”

Então todos eles três clamaram em voz alta e disseram:

Esta é a Terra? Esta é a Terra?”

Mas Hallblithe maravilhou-se, e ele riu e disse: “Viajantes, olhai sob o sol, para baixo, [para] a planície que se estende entre as montanhas e o mar, e vós deveis contemplar os prados todos brilhando com os lírios de primavera; contudo, nós não chamamos isso de Planície Cintilante, mas Cleveland à Beira-mar. Aqui os homens morrem quando a hora deles chega, tampouco eu sei se os dias de vida deles são longos o suficiente para o esquecimento das dores; pois eu sou jovem e ainda não um consorte da dor; mas isto eu sei, que eles são longos o suficiente para a realização de feitos que não devem morrer. E por [10]Senhor, eu não conheço essa palavra, pois nós moramos aqui, os filhos do Corvo, em boa sociedade, com as nossas esposas que nós casamos, e nossas mães que nos deram a luz, e nossas irmãs que nos servem. Novamente, eu ofereço-lhes: descei de seus cavalos, e comei e bebei, e casai; e partirdes quando vós desejardes, para procurar pela terra que vós desejais.”

Eles escassamente olharam para ele, mais clamaram conjunta e pesarosamente:

Esta não é a Terra! Esta não é a Terra!”

Não mais do que isso eles disseram, mas tornaram-se para seus cavalos e cavalgaram através do portão do pátio, e fazendo barulho subiram a estrada que leva à passagem das montanhas. Mas Hallblithe escutou com atenção ponderando, até que o som de cascos-de-cavalo desapareceu, e então voltou a seu trabalho: e era então duas horas depois do meio dia.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.7-10. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/7/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Poço de Lindenborg

 

[141]Uma vez eu li com temperamento indolente a Mitologia do Norte de Thorpe, em uma gélida noite de Maio, quando o vento norte estava soprando; com temperamento indolente, mas, quando eu cheguei ao conto que está aqui ampliado, havia algo nele que fixou minha atenção e fez-me pensar nele; e se eu pensasse nele ou não, meus pensamentos corriam nessa direção, como aqui segue. Então eu senti-me obrigado a escrever, e escrevi adequadamente, e, quando chegou a hora em que terminei, a luz cinzenta preencheu todo a minha sala; então apaguei minhas velas, e fui para cama, não sem medo e tremendo, pois o crepúsculo matutino é tão estranho e solitário. Isto é o que eu escrevi.

Sim, sobre aquela noite negra, com aquele vento norte selvagem e instável uivando, embora fosse o mês de Maio. Sem dúvida estava sombrio o suficiente na floresta, onde os galhos colidiam estranhamente, e onde, como o viajante apressava-se ao longo daquele lugar, formas estranhas meio [que] se mostravam a si mesmas a ele, mais terríveis porque meio vistas daquele modo. Sombrio o suficiente, sem dúvida, nos amplos pântanos onde o grande vento tinha tudo à sua própria maneira. Sombrio nos rios que rastejavam sem parar entre as terras pantanosas, rastejando através dos salgueiros, a água escorregando através das comportas, soando fracamente em meio às rajadas do vento. Ainda [assim] claramente em nenhum lugar tão sombrio quanto próximo daquele poço calmo.

[142]Eu joguei-me ali [mesmo] no chão, completamente exausto com minha luta contra o vento, e com o suportar de braças e mais braças do encanamento muito bem chumbado que se estende ao meu lado. Feroz como o vento estava, ele não poderia elevar as águas de chumbo do poço terrível, defendidas como elas eram por íngremes bancos de úmida argila amarela, horrivelmente listradas aqui e ali com pavorosamente incertos verde e azul. Eles disseram que nenhum homem poderia penetrá-lo; e ainda assim, por todos os lados, ao redor das arestas dele cresceu uma colheita espessa de tristes juncos e carriços, alguns redondos, alguns chatos, mas nenhum nunca florescendo como as outras coisas floresciam, nunca morrendo e sendo renovadas, mas sempre a mesma ordem rígida de ininterruptos juncos e carriços, alguns redondos, alguns chatos. Difíceis para mim foram as três árvores sem folhas e feias; feitas, parecia, unicamente para o vento passar por dentro, com um sussurro selvagem, em noites como estas; e por uma milha daquele lugar não havia outras árvores.

Verdadeiro, eu não podia ver tudo isso então, daquela vez, na noite escura, mas eu sabia bem que estava tudo lá; por muito que eu estudei esse poço durante o dia, tentando aprender o segredo dele; muitas horas eu despendi lá, feliz com um tipo de felicidade, porque esquecido do passado. E mesmo agora, eu não poderia ouvir o vento indo através dessas árvores, como se nunca tivesse ido através de qualquer árvore antes ou desde? Eu não poderia ver vislumbres do lúgubre pântano? Eu não poderia ouvir aqueles juncos há pouco pegos pelo vento, batendo um contra o outro, os achatados [143]lutando durante todo o tempo com os redondos? Eu não poderia ouvir, além disso, o lento gotejar das pequenas nascentes através dos bancos de argila?

O frio, o horror gélido do local foi demais para mim; eu nunca tinha estado lá à noite antes, ninguém tinha por um tempo bastante longo, e agora chegar em tal noite! Se tivesse havido alguma lua, o lugar pareceria mais com o que parecia durante o dia; além disso, a lua brilhando sobre a água é sempre tão bela, mesmo em qualquer água: se tivesse havido luz das estrelas, alguém poderia ter olhado para elas e pensado no tempo quando estes campos eram férteis e belos (pois um tempo assim se foi, eu estou certo), quando as primaveras cresciam misturada com a grama, e mesmo quando havia a promessa de milho de um amarelo agitado colorido com papoulas; aquele tempo que as estrelas haviam visto, mas que nós nunca tínhamos visto, que mesmo elas nunca mais verão novamente: tempo passado!

Ah! O que foi isso que tocou meu ombro? Sim, eu vejo, somente uma folha morta. Sim, estar aqui também, neste oito de Maio, dentre todas as noites do ano, a noite daquele terrível dia quando dez anos atrás eu matei-o, não imerecidamente, Deus sabe, ainda assim quão terrível foi! Outra folha! E outra! Estranho, essas árvores têm estado mortas nesses cem anos, eu devia imaginar. Também, quão afiado é o vento, exatamente como se eu estivesse movendo-me para frente e encontrando-o; pois, eu estou me movendo! O que, então, eu não estou ali afinal; onde eu estou então? Há árvores; não, elas são mudas de carvalho recentemente plantadas, as mesmas [144]de onde as folhas murchas do último ano sopraram sobre mim.

Eu estive sonhando então, e eu estou em meu caminho para o lago: mas que jovem floresta! Eu devo ter perdido meu caminho; eu nunca vi tudo isso antes. Bem, eu caminharei com coragem.

Possa o Senhor ajudar meus sentidos! Eu estou cavalgando! Sobre uma mula; um sino tilinta em qualquer parte dela; o vento sopra algo com um som oscilante: algo? Em nome do paraíso, o quê? Meus longos robes negros! Por que, quando eu deixei minha casa eu estava vestido em úteis panos grossos do século dezenove.

Eu deverei enlouquecer, eu estou louco, eu estou perdido para o diabo, eu perdi minha identidade; quem sabe em que lugar, em quê era do mundo eu estou vivendo agora? Ainda assim eu estarei calmo; eu já vi todas essas coisas antes, em quadros certamente, ou algo como elas. Eu estou resignado, uma vez que isso não é pior do que aquilo. Eu sou um sacerdote então, no sombrio e distante século treze, cavalgando, por volta da meia-noite, eu devo dizer, para levar o sacramento abençoado para algum homem moribundo.

Logo eu descobri que eu não estava só; um homem estava cavalgando próximo a mim num cavalo; ele estava vestido fantasticamente, mais ainda do que o usual para aquele tempo, estando listrado em toda a parte com listras verticais de amarelo e verde, com pássaros exóticos como cegonhas exageradas em atitudes diferentes contrastando com as listras. Tudo isso eu vi através da lanterna que ele carregava, sob a luz da qual seus pervertidos olhos negros brilhavam bastante. Ele [145]passou, rolando instavelmente, muito bêbado, embora fosse o século treze; mas, estando plenamente acostumado com isso, ele sentou-se muito bem em seu cavalo. Eu observei-o, em minha própria personagem do século dezenove, com insaciável curiosidade e intenso divertimento; mas tão quieto como um sacerdote de uma longa pastagem, com desprezo e desgosto suficientes, não sem mistura com medo e ansiedade. Ele rugiu pedaços de versos burlescos enquanto acompanhava-me, canções de bebida, canções de caça, canções de roubo, canções de pecado, numa voz que soou muito acima do rugido do vento, embora este fosse alto, e rolou ao longo da estrada negra sob a qual sua lanterna negra lança espigões de luz tão longe, fazendo os demônios sorrirem. E, enquanto isso, eu, o sacerdote, dava uma olhadela para longe dele, furiosamente e de vez em quando para Aquilo que eu carregava muito reverentemente em minha mão, e meu sangue coagulava de vergonha e indignação; mas sendo um sacerdote sagaz, eu sabia bem o bastante que um sermão seria completamente desperdiçado com um homem que estava bêbado em cada dia do ano, e, mais especialmente, muito bêbado então. Então eu mantive meu paço, dizendo somente sob minha respiração: ‘Dixit insipiens in corde suo, Non est Deus. Corrupti sunt et abominabiles facti sunt in studiis suis; non est qui faciat bonum, non est usque ad unum: sepulchrum patens est guttur eorum; linguis suis dolose agebant, venenum aspidum sub labiis eorum. Dominum non invocaverunt; illic trepidaverunt timore, ubi non erat timor. Quis dabit ex Sion salutare Israel?’ [146]E assim eu continuei, pensando também as vezes no homem que estava morrendo e que eu estava próximo de ver: ele foi um barão audaz, mau e saqueador, mas era dito ultimamente que tinha alterado seu modo de viver, tendo visto um milagre ou alguma coisa assim. Recentemente, ele tinha partido para cuidar de um torneio perto de seu castelo, mas tinha sido trazido de volta ferido (assim este servo bêbado, com alguma dificuldade e muita alegria inoportuna, tinha feito-me entender), e agora deita-se no ponto de morte, provocado por cuidado inábil e [coisa] semelhante. Então eu pensei em sua face; uma face má, muito má, testa recuada, pequenos olhos cintilantes, maxilar inferior projetado. E uma voz tão grande ele tinha, também! Como o grunhido de um javali principalmente. Agora você não acha estranho que esta face deva ser a mesma, na realidade a mesma face do meu inimigo, morto naquele mesmo dia dez anos atrás? Eu não o odiei, ou aquele homem ou o barão, mas eu quis ver tão pouco dele quanto possível, e eu esperei que a cerimônia estivesse logo acabada, e que eu devesse estar em liberdade novamente.

E assim com esses pensamentos e muitos outros, mas tudo pensado estranhamente duplicado, nos fomos juntos, o varlete estando tão bêbado para tomar muito conhecimento de mim, somente uma vez, enquanto ele estava cantando algum verso burlesco como este, eu penso, fazendo concessões pela mudança de linguagem e assim por diante:

[147]“O Duque foi a Treves

Em primeiro de Novembro;

Sua esposa ficou em Bonn...

Deixe-me ver, eu lembro;


Quando o Duque voltou

Para procurar sua esposa,

Nós chegamos de Colônia,

E tomamos a vida do Duque;


Nós o perduramos meio alto

Entre o pináculo e o pavimento,

Dos lábios deles caíram o repolho

De Carlos com espanto.”

Boo… hoo! Rato de igreja! Camundongo de igreja! Hilloa, Sacerdote! Você comprou a píxide, eh?” Devido a uma causa ou outra ele parecia pensar que essa era uma excelente piada, pois ele quase gritava com uma risada enquanto nós íamos; mas por esta hora nós tínhamos alcançado o castelo. Provocação e contraprovocação, e nós atravessamos o portão externo e começamos a passar por alguns dos pátios, nos quais ficavam de pé árvores de limão aqui e ali, ternamente crescendo verdes durante o mês de Maio, embora o vento mordia tão intensamente.

Novamente, quão estranho! Enquanto eu ia mais longe, ali não parecia dúvida disso; aqui, depois de [um] tempo, aquele poço voltou, como, eu não sabia; mas nos poucos minutos que nós estivemos cavalgando do portão exterior à varanda do castelo eu pensei tão intensamente sobre a [148]causa provável da existência daquele poço, que (quão estranho!) eu podia quase ter pensado que estava de volta ouvindo o escoamento das pequenas nascentes através dos altos bancos de argila dali. Eu fui despertado daquilo, antes que ficasse muito forte, pelo brilho de muitas tochas, e, desmontando, encontrei-me no meio de uns vinte criados, com faces coradas e olhos selvagemente brilhantes, os quais eles estavam em vão tentando suavizar devido à solenidade. Falsa solenidade, eu quase disse, pois eles não pareciam pensar ser necessário aparecer [de modo] realmente solene, e tinham dificuldade suficiente em não prolongar indefinidamente o grito de risada com o qual eles tinham primeiramente me cumprimentado. “Leve o santo padre ao meu Senhor”, disse um ao menos, “e nós iremos com ele.”

Então eles guiaram-me escadas a cima para dentro da câmara maravilhosamente mobiliada; a luz oriunda de pesadas velas de cera foi agradável para meus olhos depois da fumaça vermelha brilhante e retorcida das tochas de pinheiro; mas todas as fragrâncias dispersas pela câmara não foram suficientes para dominar a respiração ardente daqueles sobre mim. Eu coloquei as alvas e a estola que eles trouxeram-me, e, antes [que] eu fosse ao homem doente, olhei em volta para aqueles que estavam nos quartos; pois os quartos abriam-se um para dentro do outro através de muitas portas, sobre as quais se penduravam linda tapeçaria. Todos os quartos pareciam ter muitas pessoas, pois algumas estavam de pé em suas portas, e algumas passavam para lá e para cá, balançando para o lado as pesadas tapeçarias. Uma vez várias [149]pessoas de uma vez só, aparentemente quietas por acidente, puxaram para o lado quase todos os véus das portas, e mostraram uma perspectiva sem fim de beleza.

E com essas coisas meu coração enfraqueceu de terror. “Não tinham os Judeus de antigamente”, pensei eu, o sacerdote, “sido muito bem do hábito de crucificar crianças em zombaria do Mais Sagrado, celebrando banquetes suntuosos enquanto eles assistiam aos pobres inocentes morrer? Esses homens são ateus, você está numa armadilha; ainda assim desista de si mesmo como um homem.”

Ah, agudo”, pensei eu, o autor, “onde você está, afinal? Tente orar como um teste. Bem, bem, essas coisas são estranhamente como diabos. Oh homem, você têm falado frequentemente de bravura, agora é sua vez de praticá-la: de uma vez por todas confiar em Deus, ou eu temo [que] você esteja perdido.'

Alias isso aumentou meu horror [de] que não houvesse o aspecto de uma mulher em todas essas salas; e ainda assim não havia? Lá, aquelas coisas… Eu olhei mais atentamente; sim, sem dúvida elas eram mulheres, mas todas vestidas como homens; que lugar horrível! “Oh homem! Cumpre o teu dever”, meu anjo disse; então apesar dos olhos injetados de sangue de homens e mulheres ali [presentes], apesar de suas aparências corajosas, eles vacilaram diante de mim.

Eu dei um passo acima, para o lado da cama, onde, sob a coberta de veludo, deita-se o moribundo homem, seus olhos cintilantes pequenos (mas embotados agora pela morte próxima) somente mostrando-se acima das envolturas. Eu estava para me ajoelhar ao lado da cama para ouvi-lo em confissão, quando [150]uma daquelas… coisas… bradou (agora eles estavam somente sussurrando e rindo baixo juntos, mas o sacerdote em seu reto, bravo desprezo não olharia para eles; o humilde autor, meio temeroso, meio confiante, não ousou): então um deles bradou: “Senhor sacerdote, por três dias, nosso mestre não falou nenhuma palavra articulada; você deve passar por alto todos os detalhes; peça somente por um sinal.”

Tal pavorosa suspeita brilhou em mim então; mas eu a sufoquei, e perguntei ao homem moribundo se ele se arrependia de seus pecados, e se ele acreditava que tudo aquilo era necessário para a salvação, e, se então, para fazer um sinal, se ele fosse capaz. O homem moveu-se um pouco e gemeu. Então eu tomei isso por um sinal, como ele estava claramente incapaz ou de falar ou de mover-se, e adequadamente comecei o serviço para a administração dos sacramentos. Enquanto eu começava, aqueles atrás de mim e por todas as salas (eu sei era por todas elas) começaram a mover-se em volta, em um movimento desconcertante semelhante à dança, labiríntico e intricado. Sim, logo música começou através de todas as salas, música e canto, animado e alegre. Muitas das melódias eu tinha ouvido antes (no século dezenove): eu poderia ter jurado uma meia dúzia de polcas.

As salas encheram-se de pessoas; elas atravessaram densa e velozmente entre as salas, e as tapeçarias sendo continuamente farfalhadas; um velho gordo com uma grande barriga rastejou sob a cama onde eu estava, bufou e riu ali [mesmo], gargalhando [151]e falando para alguém que se abaixou e levantou as tapeçarias para olhar para ele.

Ainda mais e mais pessoas falando e cantando e gargalhando e rodopiando ao redor, até meu cérebro deu voltas, e eu escassamente sabia o que eu fiz. Ainda [assim], de alguma forma, eu não podia deixar [o lado da cama]; eu não me atrevi nem mesmo a olhar sobre meu ombro, temendo que eu pudesse ver alguma coisa tão horrível para me fazer morrer. Então eu tive sucesso com o serviço, e ao menos tomei a píxide, e retirei a água sagrada; depois disso houve um profundo silêncio por todas as salas, o que me perturbou, eu penso, mais do que tudo que tinha ocorrido antes, pois eu sabia bem que isso não podia significar reverência. Eu segurei, aquilo que eu considerava tão sagrado, quando lo! Grande riso, ecoando como estrondos de trovões através de todas as salas, não sendo embotado por tapeçarias em véus, pois todas elas foram erguidas de uma vez: e, com uma lenta agitação das ricas roupas dentre as quais ele estava deitado, com um som que era metade rosnado, metade grunhido, com um corpo desamparado envolto em roupas de cama, um grande porco que eu estive ouvindo em confissão separou a Coisa Sagrada de mim, cortando profundamente minha mão com presa e dente, assim o sangue vermelho correu rápido no chão. Além disso, ele rolou sobre o solo, e deitou-se lá impotente, somente capaz de rolar para lá e para cá, por causa das faixas. Então, imediata e loucamente soou a risada intolerável, elevando-se a gritos que eram mais temerosos do que qualquer grito de agonia que eu jamais ouvira. As centenas de pessoas [152]através de todas aquelas grandes salas dançaram e rodearam-me, gritando, orlando-me com braços entrelaçados, as mulheres perdendo seus longos cabelos e empurrando para frente as suas faces horrivelmente sorridentes e sem sexo, em minha direção até que eu sentisse sua respiração quente. Oh! Como eu odeio todos eles! Quase odeio toda a humanidade por causa deles; como eu ansiei poder abandonar todos os homens; dentre quem, como pareceu, as coisas sagradas sempre foram feitas de escárnio. Eu olhei-me ferozmente, saltei para frente, e agarrei uma espada do cinto dourado de um daqueles que estavam de pé próximos a mim; com golpes selvagens que jorraram sangue sobre as paredes douradas e as tapeçarias bem sobre as cabeças dessas… coisas… Eu limpei-me deles, e rompi insanamente as grandes escadas abaixo, ainda assim não pude, como em um sonho, ir rápido o bastante, por causa de minha paixão.

Logo, eu estava fora, no pátio entre as árvores de limão, o vento norte soprando frescamente em minha testa quente naquele amanhecer. O portão exterior estava trancado e aferrolhado; eu inclinei-me, levantei uma pedra grande e lancei-a na fechadura com toda a minha força, e eu era mais forte do que dez homens então; ferro e carvalho cederam com o impacto, e através das ásperas lascas eu rompi em fúria imprudente, como um cavalo selvagem através de uma cerca de aveleiras.

E ninguém me perseguiu. Eu ajoelhei-me sobre a querida relva verde do lado de fora, e agradeci a Deus com olhos lacrimejantes por minha libertação, implorando-Lhe perdão por minha participação involuntária na zombaria [153]desta noite. Então, eu ergui-me e virei-me para ir [embora], mas, mesmo enquanto o fazia, eu ouvi um rugido, como se o mundo estivesse partindo-se em dois, e olhando em direção ao castelo, vi, não um castelo, mas uma grande nuvem de poeira de lima branca balançando deste modo e daquele nas rajadas do vento. Então, enquanto o oriente tornava-se brilhante, lá surgiu um assobio, um ruído gorgolejante, que cresceu [na forma] do rugido e da lavagem de muitas águas, e nessa altura o sol tinha feito surgir um profundo lago negro que se assentava diante de meus pés. E isso é como eu tentei penetrar no Poço de Lindenberg.


ORIGINAL:

MORRIS, W. Lindernborg Pool. in:______. The Hollow Land and Other Contributions to the Oxoford and Cambridge Magazine by William Morris. London: 1903. pp.141-153. Disponível em: https://archive.org/details/hollowlandotherc00morrrich/page/141/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

O Imortal Mortal

[148]16 de Julho de 1833 – Este é um aniversário memorável para mim; nele eu completo meu trecentésimo trigésimo terceiro ano.

O Judeu Errante? - certamente não. Mais de dezoito séculos se passaram sobre sua cabeça. Em comparação com ele, eu sou um imortal muito jovem.

Então, eu sou imortal? Essa é uma questão que eu tenho feito a mim mesmo, dia e noite, por agora três séculos e três anos, e ainda não posso respondê-la. Eu encontrei um fio de cabelo grisalho em meio aos meus cachos castanhos hoje mesmo – certamente deve significar declínio. Ainda assim pode ter estado escondido ali por três séculos – pois algumas pessoas ficaram inteiramente grisalhas antes dos vinte anos de idade.

Eu vou contar minha história e meu leitor deverá julgar por mim. Eu vou contar minha história e assim tentar passar algumas horas de uma longa eternidade, que começa a ser tão tediosa para mim. Para sempre! Pode ser? Viver para sempre. Eu ouvi fala de encantamentos nos quais as vítimas são mergulhadas num sono profundo para despertarem, após algumas centenas de anos, tão frescas como sempre: eu ouvi falar dos Sete Adormecidos – portanto, ser imortal não seria assim tão difícil: mas, oh! O peso de um tempo sem fim – a tediosa passagem de horas sempre sucessoras. Quão feliz era o fabuloso Nourjahad! - Mas, à minha tarefa!

Todo o mundo ouviu falar de Cornélio Agrippa. Sua [149]memória é tão imortal quanto suas artes fizeram-me. Todo o mundo também ouviu falar de seu assistente, que, de modo desprevenido, provocou o demônio maligno durante a ausência de seu mestre e foi destruído por ele. O relato, verdadeiro ou falso, desse acidente trouxe muitas inconveniências para o renomado filósofo. Todos os seus assistentes abandonaram-no de uma vez – seus criados desapareceram. Ele não tinha ninguém próximo para colocar carvão em seu fogo sempre aceso enquanto ele dormia, ou para prestar atenção às cores inconstantes de suas substâncias enquanto ele estudava. Experimento após experimento falhou, porque um par de mãos foi insuficiente para completá-los: os espíritos negros riam dele por não ser capaz de manter um único mortal sob seu serviço.

Eu era então muito jovem – muito pobre – e muito apaixonado. Eu havia sido pupilo de Cornélio por aproximadamente um ano, embora eu estivesse ausente quando esse acidente ocorreu. Em meu retorno meus amigos imploraram-me para não retornar à casa do alquimista. Eu tremi enquanto ouvi a terrível história que eles contaram; eu não precisei de nenhum segundo aviso; e quando Cornélio veio e ofereceu-me uma bolsa de ouro se eu permanecesse sob seu teto, eu senti como se Satã em pessoa tentasse-me. Meus dentes rangeram – meu cabelo ficou em pé; - eu fugi tão rápido quanto meus joelhos trêmulos permitiriam.

Meus débeis passos foram dirigidos para onde por dois anos eles vinham sendo atraídos todas as noites, - uma fonte borbulhante de pura água viva, ao lado da qual se demorava uma garota de cabelos negros, cujos olhos radiantes estavam fixos no caminho pelo qual eu estava acostumado a caminhar a cada noite. Eu não consigo lembrar de uma hora em que eu não amei Bertha; nós tínhamos sido vizinhos e companheiros de brincadeiras desde a infância, - os pais dela, como os meus, eram de uma vida humilde, ainda que respeitável, - nossa ligação tinha sido uma fonte de prazer para eles. Em uma má hora, uma febre maligna levou embora ambos, o pai e a mãe dela, e Bertha se tornou uma órfã. Ela teria encontrado um lar sob o meu teto paterno, mas, infelizmente, a velha senhora de um castelo próximo, rica, sem [150]filhos, e solidária, declarou sua intenção de adotá-la. Desde então, Bertha esteve sempre bem-vestidahabitava um palácio marmóreo – e era vista como altamente favorecida pela fortuna. Mesmo em sua nova situação, dentre seus novos associados, Bertha permaneceu verdadeira ao seu amigo de dias mais humildes; ela frequentemente visitava a pequena casa de meu pai, e quando proibida de ir lá, ela vagueava em direção da floresta vizinha, e encontrava-me ao lado de sua sombria fonte.

Ela frequentemente declarava que não devia nenhuma obrigação à sua nova protetora igual em santidade à que nos unia. Ainda assim eu era muito pobre para casar, e ela se cansou de ser atormentada em minha consideração. Ela tinha um espírito altivo mas impaciente, e se enfureceu com os obstáculos que impediam nossa união. Nós nos encontramos agora após um afastamento e ela tinha sido sorrateiramente assediada enquanto eu estava distante; ela queixou-se amargamente e quase me censurou por ser pobre. Eu respondi precipitadamente,-

Eu sou honesto, se sou pobre! - se eu não fosse, eu posso em breve me tornar rico!”

Essa exclamação produziu mil questões. Eu temia chocá-la confessando a verdade, mas ela extraiu-a de mim; e então, lançando um olhar de desdém sobre mim, ela disse,-

Você finge me amar, e teme encarar o Diabo por meu bem!”

Eu protestei que eu apenas temia ofendê-la; enquanto ela insistia na magnitude da recompensa que eu deveria receber. Assim encorajado – envergonhado por ela –, conduzido pelo amor e pela esperança, rindo dos meus medos recentes, com passos rápidos e com um coração leve, eu retornei para aceitar as ofertas do alquimista, e fui instantaneamente instalado em seu escritório.

Um ano passou-se. Eu tornei-me possuído de uma não insignificante soma de dinheiro. O costume tinha banido meus medos. No rancor da mais dolorosa vingança eu nunca [151]detectei o traço de um pé fendido; nem o silêncio zeloso de nossa morada nunca foi perturbado por uivos demoníacos. Eu continuei com minhas entrevistas roubadas com Bertha, e a esperança raiou sobre mim – Esperança – mas não alegria perfeita; pois Bertha preferia que amor e segurança fossem inimigos, e seu prazer era dividi-los em meu seio. Embora, verdade do coração, ela fosse uma mulher algo paqueradora a seu modo; e eu ciumento como um turco. Ela desprezava-me de mil modos, ainda assim nunca reconheceria a si mesma estar no erro. Ela me levaria a loucura de raiva e então me forçaria a implorar por seu perdão. Algumas vezes ela fantasiava que eu não era suficientemente submisso, e então ela concebia alguma história de um rival, favorecido por sua protetora. Ela era rodeada por jovens bem-vestidos – os ricos e alegres. Que chance tinha o mau vestido assistente de Cornélio comparado a eles?

Em uma ocasião o filósofo fez tão grandes demandas sobre o meu tempo, que eu era incapaz de encontrá-la como eu estava acostumado. Ele estava comprometido com algum trabalho poderoso, e eu fui forçado a permanecer, dia e noite, alimentando seus fornos e observando suas preparações químicas. Bertha esperou em vão por mim na fonte. Seu espírito altivo ardeu com essa negligência; e quando finalmente eu fugi durante os poucos minutos atribuídos a mim para cochilar, e esperava ser consolado por ela, ela recebeu-me com desdém, desprezou-me em escárnio, e jurou que qualquer homem deveria possuir sua mão menos aquele que não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo por causa dela. Ela seria vingada. E verdadeiramente ela foi. Em meu escuro retiro eu ouvi que ela esteve caçando, assistida por Albert Hoffer. Albert Hoffer era favorecido pela protetora dela, e os três passaram em cavalgada diante de minha janela esfumaçada. Pensei que ele mencionaram meu nome; isso foi seguido por uma gargalhada de escárnio, enquanto os olhos negros dela relancearam desdenhosamente em direção a minha morada.

Ciúme, com todo seu veneno e toda sua miséria, entrou [152]em meio peito. Agora eu derramei uma torrente de lágrimas, ao pensar que eu nunca mais a chamaria de minha; e, sem demora, eu maldisse mil maldições em sua inconsistência. Ainda assim, eu precisava atiçar os fogos do alquimista, ainda cuidar das mudanças em suas substâncias ininteligíveis.

Cornélio, que havia vigiado por três dias e noites, nem fechara os olhos. O progresso de seus alambiques era mais lento do que o esperado: a despeito de sua ansiedade, o sono pesou sobre suas pálpebras. Repetidamente ele jogara fora a sonolência com energia mais que humana; repetidamente, ela roubara seus sentidos. Ele contempla seus cadinhos ansiosamente. “Ainda não está pronto”, ele murmurou; “passará outra noite antes do trabalho ser realizado? Winzy, você é vigilante – você é fiel – você dormiu, meu garoto – você dormiu na última noite. Observe aquele vaso de vidro. O líquido que ele contêm é de uma cor-de-rosa suave: o momento em que ele começar a mudar seu tom, desperte-me – até lá eu posso fechar meu olhos. Primeiro, vai se tornar branco, e então emitir lampejos dourados; mas não espere até então; quando a cor rosa desvanecer, acorde-me”. Eu mal ouvi as últimas palavras, murmuradas, como elas foram, no sono. Mesmo assim ele não se rendeu quietamente à natureza. “Winzy, meu garoto,” ele disse novamente, “não toque no recipiente – não o ponha em seus lábios; é um filtro – um filtro para curar o amor; você não cessaria de amar Bertha – tenha cuidado com a bebida!”

E ele dormiu. Sua venerável cabeça afundou em seu peito, e eu escassamente ouvi sua respiração regular. Por alguns minutos eu vigiei o recipiente – o tom rosado do líquido permaneceu inalterado. Então meus pensamentos vaguearam – eles visitaram a fonte, e habitaram em mil cenas charmosas que nunca serão renovadas – nunca! Serpentes e víboras estavam em meu coração enquanto a palavra “Nunca!” meio que se formou a si mesma em meus lábios. Garota falsa! - falsa e cruel! Nunca mais ela sorriria para mim como naquela noite em que ela sorriu para Albert. Sem valor, mulher detestada. Eu não permaneceria sem ser vingado – ela deveria [153]ver Albert expirar a seus pés – ela deveria morrer sob minha vingança. Ela tinha sorrido em desdém e triunfo – ela conhecia minha miséria e seu poder. Ainda que poder ela tinha? - o poder de excitar meu ódio – meu supremo desprezo – meu – oh, tudo menos indiferença! Poderia eu obter aquilo – poderia eu considerá-la com olhos descuidados, transferindo meu amor rejeitado para alguém mais justo e mais verdadeiro, aquilo seria de fato uma vitória.

Um lampejo brilhante disparou diante de meus olhos. Eu tinha esquecido o remédio do perito; eu olhei-o fixamente com maravilha; lampejos de beleza admirável, mais brilhantes do que aqueles que o diamante emite quando os raios de sol estão sobre ele, olhei a partir da superfície do líquido; um odor do mais perfumado e agradável roubou meu sentido; o recipiente pareceu um globo de vivo esplendor, adorável para o olho, e mais convidativo para o paladar. O primeiro pensamento, instintivamente inspirado pelo sentido mais grosseiro, foi, eu quero, eu tenho de beber. Eu ergui o recipiente aos meus lábios. “Isto vai me curar do amor – da tortura!” Eu já tinha bebido grandes goles de metade do licor mais delicioso jamais provado pelo paladar do homem, quando o filósofo se agitou. Eu comecei – eu larguei o vidro – o fluido ardeu e luziu ao longo do chão, enquanto eu sentia o agarrar de Cornélio na minha garganta, enquanto ele gritava em voz alta, “Miserável! Você destruiu o trabalho da minha vida!”

O filósofo estava totalmente ignorante de que eu tinha bebido qualquer porção de sua droga. Sua ideia era, a qual eu dei um assentimento tácito, que eu tinha erguido o recipiente por curiosidade, e que, assustado por seu brilho, e os lampejos de luz intensa que ele dera, eu tinha deixado-o cair. Eu nunca o desenganei. O fogo da droga estava extinto – a fragrância extinguiu-se – ele se acalmou, como um filósofo deve sob os mais pesados dos sofrimentos, e dispensou-me para descansar.

Eu não tentarei descrever o sono de glória e êxtase que banhou minha alma no paraíso durante as [154]horas restantes daquela memorável noite. Palavras seriam modelos fracos e superficiais de meu prazer, ou da alegria que possuiu meu seio quando eu acordei. Eu andei no ar – meus pensamentos estavam no paraíso. A terra parecia o paraíso, e minha herança sobre ele era estar num transe de deleite. “Isto é estar curado do amor”, eu pensei, “eu verei Bertha neste dia, e ela encontrará seu amante frio e indiferente; muito feliz para estar desdenhoso, ainda assim quão completamente indiferente a ela!”

As horas dançaram. O filósofo, seguro de que ele havia sucedido uma vez, e acreditando que podia novamente, começou a misturar a mesma substância uma vez mais. Ele esteve encerrado com seus livros e drogas, e eu tive um dia de férias. Eu me vesti com cuidado; olhei-me num escudo velho mas polido, que me serviu de espelho; pensei que minha boa aparência tinha maravilhosamente melhorado. Apressei-me para os arredores da cidade, alegria em minha alma, a beleza do paraíso e da terra ao meu redor. Eu voltei meus passos em direção do castelo – eu poderia olhar em suas torres elevadas com leveza de coração, pois eu estava curado do amor. Minha Bertha viu-me de longe, enquanto eu subia pela avenida. Eu desconhecia que súbito impulso animou-lhe o seio, mas à vista, ela surgiu com um salto, semelhante ao de um gamo leve, desceu os degraus de mármore, e estava apresando-se em minha direção. Mas eu tinha sido percebido por outra pessoa. A velha bruxa bem nascida, que chamava a si mesma de sua protetora, e era sua tirana, tinha me visto também; ela coxeou, ofegante, até o terraço. Uma pajem, tão feia quanto ela mesma, fez-lhe companhia, e ventilou-a enquanto ela apressava-se para frente, e parou minha leal garota com um “Como, agora, minha audaz senhora? Para onde tão rápido? Volte para sua gaiola – os falcões estão fora!”

Bertha cruzou suas mãos – o olhos dela ainda estavam inclinados para a minha figura que se aproximava. Eu vi a disputa. Como eu abominei a velha mulher que reprimiu os gentis impulsos do amolecido coração de minha Bertha. Até aqui, respeito por sua classe motivou-me evitar a senhora do castelo; agora eu [155]desdenhei tais considerações triviais. Eu estava curado do amor, e elevado acima de todos os temores humanos; eu precipitei-me adiante, e logo alcancei o terraço. Quão encantadora Bertha pareceu! Seus olhos cintilando fogo, suas bochechas brilhando com impaciência e raiva, ela estava mil vezes mais graciosa e charmosa do que nunca. Eu não mais amava – Oh não! Eu adorava – adorava – idolatrava-a!

Ela tinha sido perseguida aquela manhã, com uma veemência mais do que usual, para consentir com um casamento imediato com meu rival. Ela foi repreendida devido o encorajamento que ela havia lhe mostrado – ela foi ameaçada de acabar de ser expulsa em desgraça e vergonha. Seu espírito orgulhoso ergueu-se em armas com a ameaça; mas quando ela lembrou-se do desprezo que ela acumulou em mim, e como, talvez, ela assim tinha perdido o único que ela agora considerava como seu único amigo, ela chorou com remorso e raiva. Naquele momento eu apareci. “Oh, Winzy!”, ela exclamou, “leve-me para a cabana de sua mãe; rapidamente me permita abandonar as detestadas luxúrias e misérias desta nobre moradia – leve-me para a pobreza e a felicidade.”

Eu apertei-a em meu braços com êxtase. A velha matrona estava sem fala com fúria, e irrompeu em injúria somente quando nos estávamos bem longe em nossa estrada para minha cabana natal. Minha mãe recebeu a boa fugitiva, fugida de uma gaiola dourada para a natureza e liberdade, com ternura e alegria; meu pai que a amava, deu-lhe boas vindas de coração; foi um dia de regojizo, que não precisou da adição da poção celestial do alquimista para embeber-me em deleite.

Logo depois desse dia agitado, eu tornei-me o esposo de Bertha. Eu cessei de ser o assistente de Cornélio, mas eu continuei seu amigo. Eu sempre senti gratidão para com ele por ter, inconscientemente, conseguido-me aquele delicioso gole de um divino elixir, o qual, em vez de curar-me do amor (triste cura! Remédio solitário e sem alegria para males que parecem bençãos na memória), tinha me inspirado com [156]coragem e resolução, assim ganhando para mim um tesouro inestimável em minha Bertha.

Eu frequentemente lembro-me daquele período de embriaguez semelhante ao transe com admiração. A bebida de Cornélio não tinha cumprido com a tarefa para a qual ele afirmava ela tinha sido preparada, mas seus efeitos eram mais potentes e felizes do que as palavras podem expressar. Eles enfraqueceram em graus, ainda assim eles demoraram-se longamente. Bertha frequentemente maravilhava-se de minha leveza de coração e desacostumada alegria; pois, antes, eu tinha sido mais sério, ou mesmo triste, em minha disposição. Ela amou-me melhor com meu temperamento alegre, e nossos dias eram alados com alegria.

Cinco anos mais tarde eu fui convocado repentinamente para a cabeceira do moribundo Cornélio. Ele compeliu-me com pressa, conjurando minha presença instantaneamente. Eu o encontrei esticado em sua paleta, enfraquecido mesmo para morrer; toda a vida que ainda permanecia animava seus olhos penetrantes, e eles estavam fixos em um recipiente de vidro, cheio de um líquido róseo.

Contemple”, ele disse, numa voz quebrada e para dentro, “a vaidade dos desejos humanos, uma segunda vez minhas esperanças estão para ser coroadas, uma segunda vez elas estão destruídas. Olhe para aquele licor – você lembra que cinco anos atrás eu tinha preparado o mesmo, com o mesmo sucesso;- então, como agora, meus lábios sedentos esperaram para provar do elixir imortal – você arrancou-o de mim! E agora é muito tarde.”

Ele falou com dificuldade, e caiu para trás sobre seu travesseiro. Eu não pude ajudar dizendo,-

Como, reverenciado mestre, uma cura para o amor pode restaurar-te à vida?”

Um sorriso fraco cintilou através de sua face enquanto eu ouvia sinceramente sua resposta escassamente inteligível.

Uma cura para o amor e para todas as coisas – o Elixir da Imortalidade. Ah! Se eu pudesse beber agora, eu deveria viver para sempre!”

Enquanto ele falava, um lampejo dourado brilhou a partir do fluido; uma [157]fragrância bem lembrada roubou o ar; ele levantou-se, completamente fraco como ele estava – uma força que miraculosamente parecia reentrar em seu corpo – ele esticou sua mão adiante – uma explosão barulhenta assustou-meum raio de fogo subiu vertiginosamente do elixir, e o recipiente de vidro no qual estava contido tremeu até os átomos! Eu virei meus olhos para o filósofo; ele tinha caído para trás – seus olhos estavam vidrados – suas características, rígidas – ele estava morto!

Mas eu vivi, e era para viver para sempre! Assim disse o infeliz alquimista, e por uns pucos dias eu acreditei em suas palavras. Eu lembrei-me da intoxicação gloriosa que se seguiu ao gole roubado. Eu refleti sobre a mudança que senti em meu corpo – em minha alma. A elasticidade confinada de um – a leveza alegre de outro. Eu inspecionei-me a mim mesmo num espelho, e não pude perceber nenhuma mudança em minhas características durante o espaço de cinco anos que havia decorrido. Eu lembrei-me dos tons radiantes e do aroma agradável daquela bebida deliciosa – digno do dom que foi capaz de conceder – eu era, então, IMORTAL!

Poucos dias depois eu gargalhei de minha credulidade. O antigo provérbio que “um profeta é menos considerado em seu próprio pais” era verdadeiro a respeito de mim e de meu defunto mestre. Eu amei-o como um homem – e o respeitei como um sábio – mas eu ridicularizei a noção de que ele podia comandar os poderes das trevas e gargalhei do medo supersticioso com o qual ele era considerado pelo vulgar. Ele foi um filósofo sábio, mas não tinha conhecimento de nenhum espírito, somente daqueles revestidos de carne e sangue. Sua ciência era simplesmente humana; e ciência humana, eu logo persuadi a mim mesmo, nunca poderia conquistar as leis da natureza tão longe quanto para aprisionar a alma para sempre dentro de sua habitação carnal. Cornélio fabricara uma bebida capaz de refrescar a alma – mais inebriante do que o vinho – mais doce e com maior fragrância do que qualquer fruta: provavelmente ela possuía fortes poderes medicinais, concedendo alegria ao coração e vigor aos membros; mas seus efeitos iriam se desgastar; eles já tinham diminuído [158]em meu corpo. Eu fui um companheiro sortudo por ter ingerido em grandes goles saúde e felizes espíritos, e talvez longa vida, das mãos de meu mestre; mas minha boa fortuna acabou lá: longevidade era muito diferente de imortalidade.

Eu continuei a entreter essa crença por muitos anos. Algumas vezes um pensamento surgia repentinamente em mim – o alquimista estava realmente enganado? Mas minha crença habitual era, que eu devia encontrar o destino de todos os filhos de Adão em minha hora marcada – um pouco tarde, mas ainda numa idade natural. Ainda assim era certo que eu retive uma aparência maravilhosamente jovem. Eu ria-se de mim por minha vaidade ao consultar o espelho tão frequentemente, mas eu consultava-o em vão – minha testa estava sem dobras – minhas bochechas – meus olhos – Minha inteira pessoa continuava tão intacta quanto em meu vigésimo ano.

Eu estava incomodado. Eu olhava para a desvanecida beleza de Bertha – eu parecia mais seu filho. Gradualmente nossos vizinhos começaram a fazer observações semelhantes, e eu achei finalmente que eu fora enfeitiçado pelo nome do Erudito. Bertha mesma ficou incomodada. Ela tornou-se invejosa e rabugenta, e com o tempo ela começou a questionar-me. Nos não tínhamos filhos; nos eramos tudo um para o outro; e pensei, como ela envelhecia, o seu espírito vivaz tornava-se num pequeno aliado do mal humor, e sua beleza tristemente diminuía, eu a apreciava em meu coração como a senhora que eu idealizei, a esposa que eu busquei e ganhei como um amor tão perfeito.

Finalmente nossa situação se tornara intolerável: Bertha tinha cinquenta e eu vinte anos de idade. Eu tive, com muita vergonha, em alguma medida que adotar os hábitos de uma idade mais avançada; eu não mais misturava-me na dança entre os jovens e alegres, mas meu coração confinava-se junto a eles enquanto eu continha meus pés; e uma figura triste eu destoava dentre os Nestors de nossa aldeia. Mas antes do tempo que eu menciono, as coisas foram alteradas – nos eramos universalmente evitados; nos eramos – ao menos, eu era – denunciados de ter mantido um iníquo conhecimento com alguns dos supostos amigos de meu [159]antigo mestre. A pobre Bertha estava com pena, mas desamparada. Eu era considerado com horror e repulsa.

O que era para ser feito? Nós sentamos ao redor de nosso fogo de inverno – a pobreza fez-se sentida, pois ninguém compraria a produção de minha fazenda; e frequentemente eu era forçado a viajar vinte milhas, para algum lugar onde eu não era conhecido, para dispor de nossa propriedade. É verdade, nos tínhamos economizado algo para um dia ruim – aquele dia chegara.

Nós sentamos próximos à nossa solitária lareira – o jovem de velho coração e sua esposa antiquada. Novamente Bertha insistiu em saber a verdade; ela recapitulou tudo o que alguma vez tinha ouvido falar sobre mim, e adicionou suas próprias observações. Ela implorou-me para rejeitar o encanto; descreveu o quão mais digno eram cabelos grisalhos do que meus cachos castanhos; discorreu sobre a reverência e o respeito devidos à idade – o quão preferível são meros filhos à ligeira consideração paga; poderia eu imaginar que os dons desprezíveis da juventude e boa aparência pesavam mais do que a desgraça, o ódio e o escárnio? Não, no fim eu deveria ser queimado como um negociante na arte negra, enquanto ela, para quem eu não tinha concedido nenhuma porção de minha boa fortuna, poderia ser apedrejada como minha cúmplice. Com o tempo ela insinuou que eu deveria compartilhar o segredo com ela, e conceder-lhe benefícios semelhantes aos que eu mesmo gozava, ou ela iria me denunciar – e então explodiu em lágrimas.

Assim assediado, eu pensei que o melhor caminho era contar a verdade. Eu revelei-a tão ternamente quando pude, e falei apenas de uma vida muito longa, não de imortalidade – a representação da qual, de fato, coincide melhor com minhas próprias ideias. Quando eu terminei, levantei-me e disse, -

E agora, minha Bertha, você denunciará o amor de sua juventude? - Você não irá, eu sei. Mas é muito difícil, minha pobre esposa, que você deva sofrer com minha má sorte e as malditas artes de Cornélio. Eu te deixarei, você têm riqueza suficiente, e os amigos retornarão em minha ausência. Eu irei, jovem como pareço, e forte como sou, [160]posso trabalhar e ganhar meu pão entre estranhos, insuspeitado e desconhecido. Eu amei você em minha juventude; Deus é minha testemunha de que eu não desistiria de você na velhice, mas sua segurança e felicidade requerem-no.”

Eu tomei minha capa e caminhei em direção à porta; em um momento os braços de Bertha estavam ao redor de meu pescoço e seus lábios foram pressionados aos meus. “Não, meu esposo, meu Winzy”, ela disse, “você não deve ir sozinho – leve-me com você; nós vamos nos afastar deste lugar, e, como você diz, dentre estranhos nós deveremos estar insuspeitados e seguros. Eu não sou velha o bastante para envergonhá-lo, meu Winzy; e eu ouso [dizer] que o encanto logo passará, e, com a benção de Deus, você se tornará com uma aparência mais idosa, como é apropriado; você não deve deixar-me.”

Eu retribui o abraço da boa alma de todo o coração. “Eu não irei, minha Bertha; mas pelo seu bem eu não pensei em tal coisa. Eu serei seu verdadeiro, fiel esposo enquanto você [estiver] cedida a mim, e cumprirei meu dever para com você até o último [momento].”

No próximo dia, nós preparamos secretamente para nossa emigração. Fomos obrigado a fazer grandes sacrifícios pecuniários – isso não poderia ser remediado. Nós conseguimos um montante suficiente, ao menos, para nos manter enquanto Bertha vivesse; e, sem dizer adeus a qualquer um, desistimos de nosso país nativo para tomar refúgio em uma parte remota da França ocidental.

Foi uma coisa cruel desterrar a pobre Bertha de sua vila nativa, e dos amigos de sua juventude, para um novo país, uma nova língua, novos costumes. O estranho segredo de meu destino tornou esta remoção imaterial para mim; mas eu tive uma profunda compaixão para com ela, e estava feliz de perceber que ela encontrou compensação de suas desgraças em uma variedade de circunstâncias ridículas. Distante de cronistas mexeriqueiros, ela buscou reduzir a disparidade entre nossas idades através de mil artes femininas – carmim, vestido juvenil, e uma falsa juvenilidade de maneiras. Eu não poderia estar zangado. Eu mesmo não usava [161]uma máscara? Por que brigar com a dela, porque era menos bem-sucedida? Eu sofri profundamente quando lembrei que essa era minha Bertha, a quem eu amei tão ternamente, e ganhei com tal arrebatamentoa garota de olhos negros, cabelos negros, com sorrisos de tão encantadora travessura e um passo como de um gamo – essa velha amaneirada, afetada e invejosa. Eu deveria ter reverenciado seus cachos grisalhos e bochechas murchas; mas nestas condições! - Era meu trabalho, eu sabia; mas eu não menos deplorei este tipo de fraqueza humana.

Sua inveja nunca dormia. Sua ocupação principal era descobrir que, a despeito das aparências exteriores, eu estava me tornando mais velho. Eu na verdade acredito que a pobre alma amava-me verdadeiramente em seu coração, mas uma mulher nunca teve um modo tão atormentado de demonstrar carinho. Ela discerniria rugas em minha face e decrepitude em meu andar, enquanto eu confinava-me em vigor juvenil, a mais jovem aparência de vinte juventudes. Eu nunca me atrevi a visar outra mulher. Em uma ocasião, fantasiando que a bela da vila me considerava com olhos favorecedores, ela me trouxe uma peruca grisalha. Seu discurso constante dentre seus conhecidos era que, embora eu parecesse tão jovem, havia ruína em ação no interior de meu corpo; e ela afirmava que o pior sintoma sobre mim era minha saúde aparente. Minha juventude era uma doença, ela disse, e eu devia sempre me preparar, se não para uma morte súbita e horrível, ao menos para acordar em alguma manhã de cabeça branca e curvado com todas as marcas de anos avançados. Eu deixava-a falar – eu frequentemente me juntava às suas conjecturas. Seus avisos rimavam como minhas especulações incessantes concernentes à minha condição, e eu tomei um fervoroso, embora doloroso, interesse em ouvir tudo que a sua sagacidade rápida e imaginação excitada poderia dizer sobre o assunto.

Por que se demorar nessas minúsculas circunstâncias? Nós vivemos por muitos longos anos. Bertha tornou-se acamada e paralítica; eu cuidei dela como uma mãe faz com um filho. Ela tornou-se rabugenta, e ainda insistia em uma coisa – quanto [162]tempo eu deveria sobreviver a ela. Sempre foi uma fonte de consolação para mim, que eu cumpri meu dever para com ela escrupulosamente. Ela tinha sido minha na juventude, ela foi minha na velhice; e ao menos, quando eu empilhei a relva sobre seu corpo, eu lamentei que eu tinha perdido tudo o que realmente me ligava à humanidade.

Desde então quantos anos têm sido de meus cuidados e minhas aflições, quão poucos e vazios meus prazeres! Eu pauso aqui em minha história – eu não a perseguirei mais. Um marinheiro sem leme ou bússola, lançado em um mar tempestuoso – um viajante perdido em um brejo generalizado, sem ponto de referência ou pedra para guiá-lo – tal tenho sido eu: mais perdido, mais sem esperança do que qualquer um. Um navio em aproximação, um brilho vindo de alguma cabana distante, pode salvá-los; mas eu não tenho nenhum farol exceto a esperança da morte.

Morte! Misteriosa, mau vista amiga da fraca humanidade. Por que [eu] sozinho dentre todos os mortais você lançou fora de seu acolhedor envólucro? Oh, pela paz da sepultura! O silêncio profundo da tumba inflexível! Aquele pensamento cessaria de funcionar em meu cérebro, e meu coração não bateria mais com emoções variadas somente por novas formas de tristeza!

Eu sou imortal? Eu retorno a minha primeira questão. Em primeiro lugar, não é mais provável que a bebida do alquimista estivesse carregada com longevidade do que vida eterna? Tal é minha esperança. E então seja isso lembrado, que eu bebi somente metade da poção preparada por ele. Não era o todo necessário para completar o encanto? Ter drenado metade do Elixir da imortalidade é senão ser meio imortal – meu para-sempre é assim truncado e nulo.

Mas novamente, quem deve numerar os anos de metade da eternidade? Eu frenquentemente tento imaginar por qual regra o infinito pode ser dividido. Algumas vezes eu fantasio a idade avançando sobre mim. Um cabelo grisalho eu encontrei. Tolo! Eu lamento? Sim, o medo da idade e da morte frequentemente arrepia geladamente dentro de meu coração; e mais eu vivo, mais eu temo a morte, [163]mesmo enquanto eu abomino a vida. Um tal enigma é o homem – nascido para perecer – quando ele guerreia, como eu faço, contra as leis estabelecidas de sua natureza.

Mas através desta anomalia do sentimento seguramente eu posso morrer: o remédio do alquimista não tinha sido provado contra fogo – espada – e águas sufocantes. Eu tenho olhado para os azuis profundos de muitos lagos plácidos, e a tumultuosa corredeira de um poderoso rio, e tenho dito, a paz habita essas águas; até agora eu afastei meus passos, para viver mais outro dia. Eu perguntei a mim mesmo, se suicídio seria um crime para alguém que somente assim os portais do outro mundo poderiam ser abertos. Eu fiz de tudo, exceto apresentar-me como um soldado ou duelista, um objeto de destruição para meus – não, não meus companheiros mortais, e portanto eu retrocedi. Eles não são meus companheiros. O poder inextinguível da vida em meu corpo, e a existência efêmera deles, coloca-nos tão distantes quanto os polos. Eu não poderia levantar a mão contra o mais baixo ou o mais poderoso dentre eles.

Assim eu tenho vivido por muitos um ano – sozinho, e cansado de mim mesmo – desejoso da morte, contudo nunca morrendo – um imortal mortal. Nem ambição nem avareza podem entrar em minha mente, e o amor ardente que corrói meu coração, para nunca ser retornado – nunca encontrar um igual – sobre o qual despender-se – vive ali somente para atormentar-me.

Este dia mesmo eu concebi um plano pelo qual eu posso por um fim a tudo – sem suicídio, sem fazer de outro homem um Caim – uma expedição, à qual corpo mortal não pode nunca sobreviver, mesmo dotado com a juventude e a força que habita o meu. Assim eu devo por minha imortalidade em teste, e descansar para sempre – ou retornar, a maravilha e o benfeitor da espécie humana.

Antes que eu vá, uma vaidade miserável fez-me escrever estas páginas. Eu não morrerei, e não deixarei nenhum nome para trás. Três séculos passaram-se desde que eu engoli a bebida fatal; outro ano não deverá decorrer até que, encontrando [164]perigos gigantescos – em guerra com os poderes do frio em sua própria casa – assediado pela fome, fadiga e tempestade – eu renda este corpo, cela tão tenaz para uma alma sedenta por liberdade, aos elementos destrutivos do ar e da água; ou, se eu sobreviver, meu nome deverá ser recordado como um dos mais famosos dentre os filhos dos homens; e, minha tarefa cumprida, eu devo adotar meios mais resolutos, e, espalhando e disseminado os átomos que compõem meu corpo, colocar em liberdade a vida aprisionada em seu interior, e tão cruelmente impedida de elevar-se desta sombria terra para uma esfera mais conveniente a sua essência imortal.


ORIGINAL:

SHELLEY, M.W. Tales and Stories. London: William Paterson & Co, 1891. pp.148-164. Disponível: <https://archive.org/details/storiesmary00shelrich/page/148/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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